domingo, 18 de março de 2012

Orun Ayé - "Chico Buarque do Brasil"



Neste domingo, a coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar, aborada aquele que a meu ver é um dos dois únicos gênios vivos da música brasileira: Chico Buarque de Holanda.

Chico Buarque do Brasil

Se existe uma unanimidade no país ela se chama Chico Buarque de Holanda.

Ele poderia se chamar Chico Buarque do Brasil porque ninguém contou nossa história, nossas dores de amores, nossas dores patrióticas, as nossas alegrias tão bem quanto ele nos últimos cinquenta anos.

Um pouco de sua história retirada pela Wikipédia:

“Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, iniciou sua carreira na década de 1960, destacando-se em 1966, quando venceu, com a canção A Banda, o Festival de Música Popular Brasileira. Socialista declarado, se auto-exilou na Itália em 1969, devido à crescente repressão da ditadura militar no Brasil, tornando-se, ao retornar, em 1970.

Um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização do Brasil. Na carreira literária, foi vencedor de três Prêmios Jabuti: melhor romance em 1992 com Estorvo, além do Livro do Ano tanto pelo livro Budapeste lançado em 2004, como por Leite Derramado, em 2010.”

Aí em cima tem um resumo, mas ainda é pouco para definir Chico Buarque.

Chico é um daqueles gênios que temos em nossas artes que se aproxima ou passou da casa dos setenta anos. Como ele temos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Jorge Ben e outros..sempre foi estudioso, amante de livros, nasceu numa casa de intelectuais que recebia visitas de grandes artistas e pensadores brasileiros - o que moldou sua formação. Surgiu como compositor e cantor nos efervecentes anos sessenta. Anos de chumbo não só no Brasil, mas por toda América Latina. A repressão que ditaduras militares subjugavam seus povos contrastava com a fúria artística e de talento que vinham dos jovens da época.

Nasceu no Rio de janeiro, em 1944, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Dois anos depois a família se mudou para São Paulo e em 1953 para a Itália onde Ségio foi dar aulas na Universidade de Roma. De volta a São Paulo Chico já mostrando interesse pelas músicas compõe “Umas operetas” que cantava com as irmãs.

Em 1963 ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo onde participou de movimentos estudantis. Nesse mesmo ano participa do musical “Balanço do Orfeu” com a música “Tem mais samba”. No ano seguinte participa do programa “O fino da bossa” comandado por Elis Regina, no ano seguinte lança seu primeiro disco compacto com as músicas “Pedro Pedreiro” e “Sonho de um carnaval”. Fez também as músicas do poema “Morte e vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, que ao ser apresentado no IV Festival de teatro universitário de Nancy, na França, ganha o prêmio de crítica e público.

Em 1966 sua música “A Banda”, cantada por Nara Leão, vence o Festival de Música Popular Brasileira - empatada com "Disparada". Nesse mesmo ano sai o seu primeiro LP "Chico Buarque de Holanda". Suas primeiras canções, como "Pedro Pedreiro", impregnadas de preocupações sociais, foram seguidas de composições líricas como "Olê, olá", "Carolina" e "A Banda". Ainda nesse ano Chico casa-se com a atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas, Silvia, Helena e Luíza. Chico Buarque muda-se para o Rio de Janeiro em 1967, e lança seu segundo LP "Chico Buarque de Holanda V.2". Nesse mesmo ano escreve a peça "Roda Viva". Faz parceria com Tom Jobim e vencem com a música "Sabiá", o Festival Internacional da Canção, em 1968.

Em junho de 1968 Chico participa da 'Passeata dos Cem Mil', contra a repressão do regime militar. Em 1969 vai exilado para a Itália, só retornando em 1970. Na Itália assina um contrato com a gravadora Philips, para produção de mais um disco. Sua música "Apesar de Você" vende cerca de 100 mil cópias, mas é censurada e recolhida das lojas - sendo somente gravada em LP em 1978.

Depois do show no Teatro Castro Alves em 1972, com Caetano Veloso e o do Canecão, com Maria Betânia, em 1975, Chico passa um longo período sem se apresentar, mas continua produzindo. Escreve a peça Gota d'água, em parceria com Paulo Fontes, o que lhe valeu o prêmio Molière. Escreve a música "Vai trabalhar vagabundo", para o filme do mesmo nome e as versões da música "O que será", escritas para o filme "Dona flor e seus dois maridos".

Nas décadas de 80, 90 e neste novo século continuou a produzir obras geniais, enveredando pela literatura além da música. Foi enredo campeão de 1998 pela Mangueira.

A história de Chico é extensa e plural. Em minha opinião ninguém na história desse país dominou o dom da escrita como ele. Pode não ser o melhor compositor, escritor ou dramaturgo de nossa história (para mim é o melhor compositor), mas é muito bom nos três itens. Dizem que ele é muito bom ao falar sobre as mulheres. Tem o dom de desvendar a alma feminina e falar como uma de suas tristezas e paixões. Eu discordo, acho que isso é diminuir seu talento. O Chico é um despidor de almas, não só femininas, mas humanas em geral.

Quem nunca sentiu dor de amor e ao ouvir uma canção de Chico como “olhos nos olhos” não se indentificou? Não viu ali em forma de letra e melodia toda a dor que sentia?

Chico com suas canções consegue expressar o que nossas lágrimas dizem ao ver partir a mulher amada e pedí-la o disco do Neruda, ao sentir orgulho de nosso guri, beber um cálice com vinho tinto de sangue, dizer que nosso amor tem um jeito louco que é só dele, que não existe pecado do lado debaixo do Equador, que vai passar nessa avenida um samba popular, viu nosso coração morrer na contramão atrapalhando o tráfego...

...ou mesmo nos emocionando ao ver a banda passar, apesar de você.

Chico é o poeta de um povo, quem psicografa nossos anseios e sonhos, quem através de olhos verdes profundos e sorriso tímido mostra o rosto de nosso país. Usou seu talento como arma e foi a luta. Como Chico, como Julinho da Adelaide e tantos outros que não se deixaram oprimir. E nessa roda viva de emoções que é nosso dia a dia o orgulho de termos uma voz. Tudo bem, a voz pode não ser grande coisa, mas ninguém é perfeito, nem ele poderia ser.

Salve Chico Buarque do Brasil. Orun Ayé!

sábado, 17 de março de 2012

Final de Semana - "La Vie En Rose"


Nossa coluna musical esta semana traz um clássico da música popular francesa, em sua versão na língua inglesa, entoado por um gigante da música e do jazz americano: "La Vie En Rose" em versão interpretada por Louis Armstrong.

É versão da canção francesa imortalizada por Edith Piaf e um dos maiores sucessos do grande músico. No vídeo acima se tem a introdução instrumental e depois a interpretação de Armstrong.

Antes de passarmos à letra, informo que pelo menos temporariamente o Ecad voltou atrás na insanidade de cobrar os blogs pela exibição de vídeos, ao menos por enquanto. Para isso houve a necessidade de uma intervenção firme do Google, por um lado, e das próprias gravadoras, por outro.

Vamos à letra:

Hold me close and hold me fast
The magic spell you cast
This is La vie en rose

When you kiss me heaven sighs
And tho I close my eyes
I see La vie en rose

When you press me to your heart
I'm in a world apart
A world where roses bloom

And when you speak...angels sing from above
Everyday words seem...to turn into love songs

Give your heart and soul to me
And life will always be
La vie en rose

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cinecasulofilia - "Inquietos"


Mais uma sexta feira e mais uma edição de nossa coluna sobre cinema, assinada pelo crítico, cineasta e professor Marcelo Ikeda. Uma vez mais, publicada em conjunto com o blog "Cinecasulofilia".

Inquietos

Neste ano há um filme que vi que me deixou num sentimento estranho. 
 
Ele certamente não é tão bom ou tão consistente quanto os filmes anteriores deste diretor, de que gosto muito. Talvez o filme nem seja tão bom assim, mas acontece que, quase um mês depois de tê-lo visto, eu ainda não consegui digerir esse filme por inteiro. 
 
Há algo desse filme entalado em mim, que não “desceu redondo”, que me deixou um sentimento de incômodo, de estar perdido. Há algo que me atrai no tom em que o diretor desenvolveu esse filme mediano, mas que eu não sei explicar bem. Há algo que mexeu comigo só dias após sua projeção mas que eu ainda não sei muito bem o que é. Não sei se é um tumor, ou apenas um pequeno incômodo meio passageiro. 
 
Como uma lombriguinha que vai roendo o seu estômago mas que não é nada demais.Espero né, porque na verdade não sei bem o que é. Vi diversos outros filmes melhores e mais interessantes, mas este, logo este, fermentou algo dentro de mim. Me deixou inquieto, de modo que voltei a pensar nele logo agora e não consigo mais dormir. 
 
É o Restless (Inquietos), do Gus Van Sant. Eu até entendo que possa achá-lo um filme covarde, um certo passo atrás na filmografia de um diretor que já fez Gênio Indomável mas depois resolveu seguir um caminho muito pessoal dentro de um certo cinema contemporâneo americano. Eu até entendo mas não penso assim. 
 
Penso curiosamente que Restless é um filme corajoso, porque ele não se coloca num lugar confortável, mas o filme se situa num entremeio muito ambíguo entre o “cinema de fluxo” de Elefante, Gerry, Paranoid Park e o “cinema indie” de Gêmio Indomável, etc. 
 
Ou seja, pelas recepções ao filme, vejo que ele agradou a poucos: decepcionou a quem esperava uma coisa e a quem esperava outra. Não importa: curiosamente vejo que esse filme é coerente com a filmografia do Gus Van Sant de buscar fazer um filme jovem. O que me interessa especialmente neste filme é a sutileza do tom que o diretor encontrou para encenar uma historiazinha meio banal. É como o diretor utiliza recursos que ecoam uma fragilidade dos personagens (essa fragilidade ecoa da alma dos personagens para um modo muito particular de apresentá-los e de fazer com que convivamos um pouco com eles...) mas que ao mesmo tempo é uma forma honesta de encenar o eterno desafio de tentar viver. 
 
Ou melhor, essa fragilidade não é derrotista, niilista ou anacrônica mas é simplesmente uma forma honesta de tentar mostrar os desafios desses personagens que procuram tentar viver o que lhes resta, mesmo que não seja o ideal. 
 
Existe uma beleza nessa falta. Mas falta. 
 
Minha relação com esse filme começa desde o tipo e o tamanho da fonte que ele usa nos créditos iniciais, e cresce com a luz maravilhosa que invade o espaço do edifício da primeira sequência do filme em que os personagens se olham (aliás, eu gosto muito de toda a luz do filme). A forma como ela gira o pescoço. Não sei bem. 
 
Há algo no filme que me seduz e que me apavora. É um filme sobre a morte. Inquietos é um filme zen. Talvez digo isso pelo fantasma japonês que está lá no filme. Os personagens são meio que crianças que não querem crescer, meio que presenças fantasmáticas, propensas ao desaparecimento. São leves, não temem a morte. Mal querem ser percebidos. 
 
E o filme encena esse cântico de despedida não como um cântico fúnebre mas como um ritual de aceitação da perenidade das coisas, com uma leveza zen. A forma simples como o renomado Gus Van Sant abraça de forma carinhosa esse filme de pequenas ambições é algumas vezes comovente. Um filme que flutua e desaparece, assim como os personagens. Um filme feito de cinema, de impressões passageiras.

Ao mesmo tempo há algo ali que fica mas que não sei bem o que é.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Marcha da Insensatez Rubro Negra


O leitor sabe que sou severo crítico da gestão atual do Flamengo. Historicamente sempre esteve afastada dos bons princípios de governança, mas neste último mandato ao que parece a situação degringolou de forma inequívoca, em especial nos primeiros 75 dias deste 2012.

Antes de qualquer coisa: este não será um post de conteúdo político. Para mim todas as correntes políticas do clube são em sua essência iguais e não possuem condições de fazer as reformas de governança e gestão que a instituição precisa. Ao fim e ao cabo a inépcia é a mesma, apenas maior ou menor - e não estamos em tempos de escolher o menos incompetente.

Antes de qualquer coisa, parte II: não aceito que desqualifiquem minha opinião sob o argumento de que "não sou sócio". O custo benefício de ser sócio apenas para votar, hoje, não compensa. Este é um país onde está garantido o livre direito à expressão.

Feitas as necessárias ressalvas, é com espanto que venho acompanhando o "Caso Adriano". O jogador, dispensado da Roma e do Corínthians por não conseguir se colocar em suas condições físicas ideais, não somente é apontado como "solução" para o time como segundo fontes da imprensa pleiteia os mesmos salários que recebia no clube paulista: R$ 500 mil mensais. Pior: a Presidente Patrícia Amorim, ao que parece, irá aceitar as condições para o retorno do atacante.

Nem vou me deter especificamente neste caso, embora seja uma boa medida da qualidade da gestão do clube e do zelo com que são tratadas as finanças do mesmo. Mas este é apenas mais um episódio - talvez o mais escandaloso - da verdadeira marcha da insensatez que vem ocorrendo no Flamengo nos últimos tempos.

A situação já vinha fora dos trilhos desde a eleição da atual mandatária, que optou por terceirizar completamente o futebol e concentrar-se em suas prioridades, que eram os esportes olímpicos e a sede social. De acordo com o balanço de 2010, o último disponível - o de 2011 tem até 30 de abril para ser divulgado, e será alvo de post aqui - grosso modo as despesas com os esportes olímpicos foram de R$ 45 milhões, para uma receita de R$ 18 milhões. ou seja, há um claro descolamento.

Ressalto que são valores estimados, pois o balanço do clube não tem a abertura necessária e não sabemos exatamente o que compõe cada rubrica, em especial as receitas. Ainda assim é um bom painel das prioridades da gestão do clube.

Após a tentativa com Zico como gerente de futebol - que cometeu erros, alguns sérios, mas que foi também devidamente "fritado" por outros Diretores do Clube - optou-se por um modelo onde teoricamente o futebol estaria entregue ao técnico Vanderlei Luxemburgo, mas que na prática passou a ser comandado pelo Vice Presidente de Finanças Michel Levy. Só isso já é um erro de governança sério: funções não definidas.

A coisa caminhou de forma razoável - para o padrão habitual de bagunça do clube - até o início deste 2012, quando ocorreram uma série de fatos que me fazem classificar estes episódios como a "Marcha da Insensatez" do título deste artigo.

O primeiro deles foi o distrato de um contrato que formalmente jamais existiu com a Traffic envolvendo a contratação de Ronaldinho Gaúcho. A empresa de marketing esportivo simplesmente pagava a maior parte dos salários do atleta a partir de um acordo verbal com o clube, sem formalização. Resultado: após o infeliz caso do patrocínio de 2011, agenciado por uma empresa concorrente, a Traffic deixou de pagar os salários do atleta, ficando nesta situação por vários meses.

Após o distrato o Flamengo não somente pagou estes atrasados como ainda se comprometeu a assumir o salário integral do atleta, de inacreditáveis R$ 1,3 milhão de reais. Simplesmente a Presidente e o VP de Finanças assumiram o compromisso sem se preocupar com as fontes de receita correspondentes. Vale lembrar que o ganho com marketing é pífio - aliás, o marketing do clube é pífio, mas esta é outra história - e que no momento em que escrevo o clube não tem sequer o patrocínio master da camisa definido. Aliás, em outro absurdo é uma empresa que está negociando tal verba em nome do clube, pela qual irá embolsar uma comissão a meu ver alta demais (15%).

A segunda envolve também o atleta em questão, que vem se comportando de forma bastante anti-profissional ainda mais levando-se em conta o salário que recebe. Ao ser exigido pelo então técnico Luxemburgo do cumprimento de suas obrigações, ele simplesmente pediu à Presidente a cabeça do treinador - e foi atendido. Isso configura uma clara quebra de hierarquia, que a médio prazo mina as condições de trabalho.

Vale lembrar que o desempenho de Ronaldinho em campo vem sendo muito aquém do custo que ele representa ao clube, embora ele esteja tendo uma performance brilhante nas pistas de dança e casas de tolerância não somente no Rio de Janeiro como nos quatro cantos do Brasil. Isso é óbvio, como já escrevi em artigo anterior.

Para completar o absurdo neste caso o treinador escolhido o foi feito justamente por seu comportamento permissivo em relação aos atletas Não pesou a sua (falta de) conhecimento tático, nem os métodos ultrapassados, nem a forma absolutamente retrancada, apequenada e tacanha de jogar. O importante é ceder aos jogadores e dar a eles liberdade para fazer o que quiser.

Ainda tem mais: há relatos de que ele estava contratado antes da primeira partida contra o Real Potosi, quinze dias antes da demissão de Luxemburgo - e ainda dirigindo o Bahia. Mas no caso em questão não me espanta: um treinador sem ética para uma diretoria igual - o episódio da demissão é uma boa medida disso.

Terceiro, os episódios envolvendo Thiago Neves e Vágner Love. A diretoria teve um ano inteiro para contratar em definitivo o meia, mas ficou enrolando e no final fez uma proposta que a meu ver tinha a clara intenção de que não fosse aceita. Obviamente o jogador, que é profissional, vendo a má vontade do Flamengo tratou de acertar sua vida - no que está absolutamente correto. O clube ainda perdeu os 10% de direitos do jogador que havia adquirido quando do empréstimo.

Entretanto, ainda que tenha alegado "não ter dinheiro" para efetivar Thiago Neves uma semana depois o clube contratou Vágner Love com polpudo desembolso de dinheiro, e bem mais caro que o preço pedido por Thiago Neves. Ou seja, o que houve a meu ver foi uma grande pantomina. Ressalve-se que o jogador pelo menos neste início está justificando a contratação, apesar de algumas ressalvas no âmbito extra-campo que não comentarei aqui.

Quarto, o já citado caso de Adriano. Que, ainda que em baixa na carreira, quer ser tratado como "popstar". E, ao que parece, terá sucesso em seu pleito junto à diretoria do clube, mais preocupada com a reeleição ao final do ano - tanto no clube quanto na política, já que a presidente é vereadora.

Olha que não cito aqui a eterna briga política, o eleitoreiro pedido de impeachment apresentado pela oposição, o estranho silêncio das principais torcidas organizadas, o fato de "torcedores" terem escritórios na ante sala da presidência... Sem dúvida alguma o clube está muito longe de ser um modelo apropriado de gestão. A Presidente vem agindo tal e qual política profissional que é: agradar o eleitorado e que as contas sejam arrumadas por quem a suceder, haja visto que não há um sistema de consequências para gestão temerária.

Pior é que o mercado está mudando, o futebol está mudando e os dirigentes do Flamengo estão perdendo o bonde da história.

Voltarei ao tema.

(Foto: O Globo)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Juros e Câmbio, de novo


Estou para escrever sobre o assunto desde a semana passada, mas a sucessão de acontecimentos acabou deixando o tema para depois. Falo da queda da taxa básica de juros, a Selic, para 9,75% ao ano ocorrida dias atrás. Além disso, em um segundo movimento o governo parece que finalmente acordou para o grave problema do câmbio, que já venho discorrendo neste espaço há pelo menos dois anos.

Com a queda da taxa para um dígito, a taxa real, descontada a inflação, é de aproximadamente 4% ao ano, o que ainda deixa elevado o diferencial entre as taxas de juros interna e externa. Como se sabe, os principais países da Europa e os Estados Unidos estão com taxas reais negativas ou próximas de zero, o que ainda deixa o diferencial alto apesar das recentes reduções na Taxa Selic, a última de 0,75 ponto percentual.

Com isso, como já expliquei em outras ocasiões, há uma enxurrada de recursos externos vindo para o Brasil aproveitar este diferencial - ainda mais com a crise econômica pela qual passam Estados Unidos e a Europa. Isso significa que há mais dólares no mercado e o seu "preço" cai, o que faz o real se tornar bastante caro.

Os efeitos são persistentes e duradouros. Com o real apreciado os produtos nacionais se tornam mais caros e os importados mais baratos em dólares, o que gera um duplo movimento: perda de competitividade no exterior (com redução das exportações) e uma competição desleal no mercado interno entre a indústria nacional e os produtos importados. Levando ao limite, o câmbio apreciado acaba levando à desindustrialização, pois não há elevação de produtividade que compense um real valorizado demais.

Isso já vem ocorrendo em vários setores, como por exemplo o têxtil e o de autopeças. Não me estenderei porque já foi alvo de outros posts e não me repetirei. A novidade, entretanto, é que finalmente o governo resolveu atentar para o câmbio na elaboração da política econômica.

Como expliquei, o difererencial entre as taxas de juros interna e externa é a principal causa da apreciação do câmbio. A atual redução da taxa Selic ainda não permite neutralizar este fator, mas é importante como sinalizador que a taxa cairá mais a fim de resolver a questão do câmbio, hoje o principal problema de nossa economia.

Isso também é favorecido pela visível queda na atividade econômica, refletida no crescimento do PIB (Produto interno Bruto) de apenas 2,7% em 2011. Não pode ser considerado um resultado ruim tendo em vista a crise mundial, mas está bem inferior aos 7,5% de 2010. Tal crescimento foi freado a meu ver por dois fatores: a já citada crise e o aumento do endividamento das famílias, o que diminuiu o consumo interno.

Este quadro criou as condições a fim de se fazer a necessária correção no câmbio sem afetar de forma irrecuperável outras variáveis econômicas. Com a crise mundial há mais capitais livres e a tendência, caso nada fosse feito, seria a de uma enxurrada ainda maior de valores, a fim de aproveitar o diferencial entre as taxas de juros externas e internas - o que gera oportunidades de lucros fáceis. Com isso o quadro se tornaria dramático para a indústria nacional, que não teria como compensar as dificuldades cambiais com aumento de produtividade.

O governo sinalizou, contudo, que irá enfrentar esta questão. Além das medidas paliativas tomadas esta semana - e que já ajudaram a segurar o dólar em torno de R$ 1,80 - há a disposição de se trazer a Taxa Selic a patamares que protejam o mercado financeiro nacional da "bolha" de capitais que estará "navegando" pelo mundo sem ter onde investir. Vale lembrar que tanto os Estados Unidos quanto a Europa atravessam grave crise e que a China optou por a partir de agora diminuir o ritmo de seu crescimento - o que impacta nas exportações brasileiras de modo significativo.

Obviamente, a opção por corrigir o câmbio terá suas contrapartidas: certamente haverá algum repique inflacionário devido ao aumento do preço dos importados, mas a queda da demanda interna torna tal efeito limitado. Também se fará necessário manter o preço dos combustíveis nos valores atuais pelo menos por algum tempo, mas há formas de se compensar a Petrobras via política fiscal ou a Cide.

Para o leitor ter uma idéia, a taxa de câmbio por dólar, que já esteve em R$ 1,54 e hoje está em R$ 1,81 (dados de ontem) de acordo com cálculos do Ministério da Fazenda para retomar a paridade (apreciada) do início do Plano Real deveria estar em R$ 2,50. Por aí o leitor, ainda que não seja economista, pode entender o esforço que a indústria nacional fez para não sair do mercado - infelizmente, sem sucesso absoluto. Como escrevi acima, setores como o têxtil e o de autopeças estão se tornando simplesmente "maquiadoras" de produtos importados, mais baratos devido ao câmbio.

Obviamente, há um longo caminho a se enfrentar. Mas me parece alvissareiro que depois de muito tempo finalmente a política econômica vise corrigir o câmbio e impedir um movimento de desindustrialização já em curso. Como dizia o ex-Ministro Simonsen, "a inflação aleija, mas o câmbio mata".

Finalmente acordamos para isso.

terça-feira, 13 de março de 2012

O legado de Ricardo Teixeira


E eis que ontem, após 23 anos, Ricardo Teixeira renunciou ao cargo de presidente da Confederação Brasileira de Futebol, que ocupava desde 1989. Curiosamente, ao invés do esperado alívio fica aquela sensação de um travo amargo na boca. Explico.

O ex-mandatário renunciou alegando "problemas de saúde" - que realmente existem - mas está claro para todo mundo que acompanha minimamente o futebol que a razão principal é o desdobramento do escândalo das propinas da ISL, que já escrevi aqui por ocasião da resenha do livro "Jogo Sujo" e que está em vias de ser totalmente revelado ao público. Além disso os desentendimentos com o governo federal e com a própria Fifa por ocasião da organização da Copa de 2014 e a revelação de outras suspeitas de corrupção também parecem ter pesado na decisão - que, aliás, me foi antecipada há mais de um mês por uma fonte otimamente informada.

Digo que fica um travo amargo na boca porque não parece que a CBF vá ficar melhor após a esperada saída do mandatário. Por outro lado a renúncia não foi provocada por novos ventos na entidade, mas sim para prolongar o atual estado de coisas. Teremos uma CBF de Ricardo Teixeira sem o próprio - talvez até pior em certos aspectos.

Não sou daqueles que demonizam o dirigente totalmente. Como tudo na vida houve coisas boas e coisas ruins.

Diria que foram méritos a criação da Copa do Brasil, a instituição dos pontos corridos em 2003 e a organização do caixa da entidade: em que pesem algumas operações notoriamente lesivas à entidade hoje a Confederação parece dispor de uma situação financeira confortável, com bons contratos de publicidade. A Seleção obteve dois títulos mundiais e fez mais uma final e, mal ou bem, conquistamos o direito de sediar uma Copa do Mundo.

Destacados os pontos positivos, vamos às mazelas, que foram muitas. Nem citarei aqui os escândalos de corrupção envolvendo a CBF e seu (agora ex) mandatário, fartamente explanados e que são a principal razão da saída. Mas aos efeitos do futebol brasileiro como um todo.

Em sua gestão Teixeira optou por fortalecer a Seleção em detrimento dos clubes. A visão era de que o futebol brasileiro é simples exportador de "pé de obra" para a Europa e outros centros, com os clubes locais não importando. Grosso modo é a repetição da velha política econômica de exportar produtos agrícolas e e importar industrializados, adaptada ao futebol. Os clubes estão mais endividados e mais fracos, enquanto a Seleção desfruta de ótima situação financeira. É uma paradoxo curioso: a Seleção está bem financeiramente enquanto os clubes foram abandonados à própria sorte. Um modelo a longo prazo insustentável - e começa a ficar claro isso.

Apesar das Séries A e B estarem razoavelmente organizadas, o modelo adotado para as divisões inferiores mostrou que os clubes menores não eram considerados no quadro do futebol brasileiro: as Séries C e D padecem de problemas de organização e viabilização economico-financeira. Estas foram abandonadas à própria sorte.


Teixeira também afastou a seleção do público brasileiro, com a visão de que são os "Harlem Globetrotters" brasileiros e, portanto, tem de se exibir para o mundo todo. Isso rendeu rios de dinheiro à entidade, mas por outro lado trouxe uma crescente indiferença do brasileiro com a sua Seleção.

No âmbito nacional houve uma maior racionalização do calendário, mas se avançou muito pouco na profissionalização das gestões, nas relações com a televisão e em outras questões adjacentes. Houve pelo menos dois grandes escândalos de arbitragem, os Casos "Ivens Mendes" e "Edílson" - curiosamente, nos dois casos o Corínthians foi o clube principal beneficiado. Ainda deu de presente ao clube paulista um estádio novinho em folha, naquele que a meu ver é de longe o maior escândalo desta organização da Copa do Mundo de 2014.

Também ficam como marcas indeléveis o desprezo pela opinião pública e por parte da imprensa.

A saída de Teixeira seria salutar se envolvesse a entrada de pessoas novas, com ideias modernas e que dessem à entidade e ao futebol brasileiro maiores profissionalismo, justiça e transparência. Entretanto, ao que parece incrivelmente teremos regressão em todos estes aspectos com a saída do mandatário. Explico.

Com a saída de Teixeira, que deixou tudo bastante amarrado para que não houvesse uma devassa nas contas da entidade ou houvesse mudanças substanciais na gestão da entidade, apesar de estar assumindo o vice mais velho José Maria Marin o poder estará de fato nas mãos do Presidente da Federação Paulista Marco Polo Del Nero e do Diretor de Seleções Andrés Sanchez (ex-presidente do Corínthians). Isto significa que pelo menos em termos internos teremos duas castas de clubes para a CBF: os paulistas e o resto.

Del Nero já afirmou em mais de uma oportunidade que em sua visão o Campeonato Brasileiro ideal teria de dez a doze clubes do estado de São Paulo. Lógico que ele estava defendendo os interesses da Federação da qual era presidente, mas conhecendo os cartolas brasileiros arriscaria afirmar que a CBF será dirigida como uma imensa Federação Paulista de Futebol. Isto a médio prazo tende a ser péssimo para os clubes de fora do estado e em especial para o Campeonato Brasileiro. Também acho que se deve sepultar quaisquer esperanças de ver mudanças no calendário a fim de diminuir o tamanho dos Estaduais, que hoje representam quatro meses de partidas absolutamente inúteis.

Quanto ao Comitê Local da Copa, a meu ver a tendência seria a de uma maior participação do Governo Federal, que em última instância é quem está pagando a conta. Não era segredo para ninguém que a Presidenta Dilma Roussef estava muito insatisfeita com Ricardo Teixeira e lamentando não poder intervir diretamente na entidade. Agora resta ver qual será a postura dos novos mandatários da entidade em relação ao Governo Federal.

Ao fim e ao cabo, a renúncia de Ricardo Teixeira somente serviu para que ele se livrasse da responsabilidade sobre os diversos escândalos de corrupção e malversação de verbas dos quais era suspeito e permitir que leve um final de vida sossegado em Miami. Mal comparando, me lembrei daqueles senadores e deputados que renunciavam aos mandatos para não serem cassados por seus pares.

Ou seja, caro leitor: infelizmente esta é uma "vitória de Pirro". Teremos um "teixeirismo sem Teixeira" a partir de agora - em certos aspectos, pior. E o presidente que sai não responderá pelos seus atos - na prática, uma gigantesca pizza.

Portanto, não podemos comemorar, infelizmente.

(Charges: Mário Alberto, Lance)

Para saber mais (basta clicar nos títulos):

segunda-feira, 12 de março de 2012

O Fim da MPB e a (des)cultura de massa


O panorama musical brasileiro vem se notabilizando nos últimos anos por uma característica insofismável: a falta de renovação da MPB, a denominada "Música Popular Brasileira" - que caminha à extinção.

Os grande nomes são os mesmos das década de 60 do século passado, todos na casa dos 70 anos de idade: Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Francis Hime e mais alguns menos votados. Das grandes cantoras restaram apenas Maria Bethânia e Gal Costa. Quando se olha os compositores e cantores de MPB mais novos percebe-se muito pouca coisa: com boa vontade Lenine, Ana Carolina e... só. É muito, muito pouco.

A que se deve tal fenômeno? Acredito que haja várias causas, mas irei me concentrar naquela que para mim é uma das principais: a mudança do perfil da chamada "cultura de massa" brasileira e em especial sua veiculação nos órgãos de longo alcance - basicamente televisão aberta e rádios FMs.

Até a década de 90, mais ou menos, coexistiam diversas formas de música na televisão aberta e nas rádios FMs - estas mais segmentadas. Desde a MPB típica até músicas internacionais, passando por um lado mais popularesco. Até mesmo a música clássica tinha seu espaço, ainda que nas manhãs de domingo. Haviam festivais de música e posteriormente programas como o "Chico e Caetano", na década de 80 na Globo. Volta meia programas como o Chacrinha e mais recentemente o próprio Fausto Silva abriam espaço para esta música.

Entretanto, estamos assistindo a uma crescente homogeneização da chamada "cultura de massa'", de grande veiculação, baseada em música popularesca, descartável e de consumo imediato. São os "Luans Santanas", os "Telós", os "Jorge e Mateus" e os "Alexandres Pires" da vida que martelam nossos ouvidos dia após dia na televisão e no rádio. Outras manifestações musicais tornaram-se guetos, na prática - talvez com a exceção que confirma a regra do samba, mas sobre isto falarei depois.

Historicamente a demanda por este tipo de produto sempre coexistiu com outras manifestações, mas por que se tornaram dominantes?

A meu ver esta demanda foi criada pelo interesse da indústria cultural como um todo em estabelecer uma espécie de "liinha de produção" musical: música descartável, de mais fácil elaboração, mais rápida produção e calcada em elementos visuais e em marketing agressivo. Paralelamente, por fatores que não discorrerei aqui este tipo de música tornou-se monopolista nos veículos de massa, especialmente na televisão aberta.

O que temos?

Música descartável, muitas vezes diluições de gêneros originais, com letras paupérrimas e ritmo acelerado - para "contagiar" o público. Então temos "gêneros" como o pseudo-sertanejo, o sertanejo e o forró universitário, o "pagode romântico" (que de samba e pagode não tem absolutamente nada) e este pop indefinível de Luans Santanas e Telós como monopolizadores dos grandes espaços de divulgação.

Para a indústria é algo confortável, porque é uma música de elaboração mais rápida e que tira do artista a "griffe" e o domínio da arte. Hoje a indústria fonográfica e a televisão não precisam esperar a inspiração de um Chico Buaarque ou de um Paulinho da Viola, por exemplo: basta acelerar o ritmo, rimar "amor" com "dor", dizer que "vamos pular no tcheretetê" e "que vai rolar a festa", com um rostinho bonito - que muitas vezes sequer canta - e aguardar o tilintar das moedas na caixa registradora.

Na prática é uma "linha de montagem" sem perenidade: daqui a dez anos ninguém vai se lembrar de Luan Santana, por exemplo - embora aos 20 anos ele já tenha um patrimônio de 50 milhões de reais, o que é espantoso. Este tipo de música descartável sempre existiu, mas tendo o monopólio atual da grande mídia está caminhando para em duas ou três décadas ser o único tipo de expressão musical brasileira. É um modelo que interessa especialmente à indústria por tirar a propriedade intelectual do artista e transferi-la para ela mesma.

E a demanda por este tipo de música acabou sendo criada através do monopólio dos meios de comunicação. O leitor pode pensar que a falta de cultura média do brasileiro também contribui, mas lembro que a escolaridade aumentou nas últimas décadas, não diminuiu. Por outro lado, como se pode gostar de algo que não se conhece, ainda mais quando o acesso à tv a cabo ainda não alcança sequer a metade da população brasileira?

E o público médio aprendeu a "gostar" deste tipo de música por não ter outra opção em grande escala, de modo que hoje já há uma "retroalimentação": o grande público pede e consome cada vez mais este tipo de produto. Outras manifestações musicais, hoje, se restringem a guetos a termos nacionais, restritos à televisão a cabo e a rádios bastante segmentadas. As vezes nem isso: fiquei muito surpreso em ouvir na MPB FM aqui do Rio, estação de rádio bastante segmentada, ontem Alexandre Pires e Chitãozinho e Xororó. Ou seja: até em espaços que deveriam ter o seu público segmentado esta música descartável está penetrando.

O caso do samba de raiz é uma exceção que confirma a regra: o gênero está se renovando e se reinventando a partir dos mais velhos, bebendo na fonte deles e gerando um produto que é moderno justamente por ser tradicional. Não alcança o grande público de massa a não ser marginalmente, mas encontrou seu público e, na medida do possível, vai bem, obrigado. Contudo precisou o gênero ser praticamente extinto na década de 90 para que houvesse esta renovação baseada, ironicamente, nesta "volta às origens". De certa forma o samba de enredo - que passou por um processo de mediocrização semelhante nos últimos 15 anos - começa a trilhar timidamente o mesmo caminho: renovar-se bebendo em sua origem.

A MPB, porém, caminha para sua extinção ao menos da forma como a conhecemos. Como expliquei acima a música popularesca, mais que dominante, está se tornando monopolista.

A indústria agradece. E nossos ouvidos sofrem.

Voltarei ao tema.