A partir de hoje, em parceria com o excelente blog "Cinecasulofilia" - http://cinecasulofilia.blogspot.com/ , passaremos a ter uma coluna sobre cinema. A periodicidade não será fixa, mas pretendo colocar o texto sempre às sextas feiras.
Este blog, e os textos que reproduziremos aqui, são de autoria do amigo e cineasta Marcelo Ikeda.
Começamos com um texto sobre o vencedor da "Palma de Ouro" do Festival de Cannes em 2008.
Este blog, e os textos que reproduziremos aqui, são de autoria do amigo e cineasta Marcelo Ikeda.
Começamos com um texto sobre o vencedor da "Palma de Ouro" do Festival de Cannes em 2008.
Entre les murs
Entre os Muros da Escola
de Laurent Cantet
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"Laurent Cantet, o surpreendente vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2008, permanece fiel à sua filmografia de reflexão sobre os problemas sociais franceses com uma certa pitada de cinema contemporâneo. Entre os Muros da Escola a princípio se apresenta como uma crítica ao sistema educacional francês, e impressiona por ser quase todo passado no interior dessa escola, como o título já nos anuncia. Mas na verdade é como se a escola fosse um microcosmo de algo maior, da França ou mesmo da Comunidade Européia: no interior dessa sala, um professor de francês numa escola da periferia de Paris vive às voltas com seus alunos de origens étnicas bastante diferentes: um árabe, um muçulmano, um chinês, um africano… e até um ou outro francês. Um filme também sobre a questão da hierarquia e que questiona a necessidade da disciplina do sistema para “educar” os adolescentes. Cantet opta por um estilo documental, que traz uma urgência ao filme, e é curioso como se utiliza o cinemascope num filme absolutamente claustrofóbico, sendo que o 2.35:1 nunca passa a idéia de um espaço em espansão ou mesmo de um rigor de enquadramento. A câmera na mão e o enquadramento quase sempre em planos próximos passam uma sensação de asfixia, gerando uma tensão que praticamente anula o extracampo, tornando o próprio enquadramento um barril de pólvora, centro de tensão. Mas ao mesmo tempo há um certo amaciamento, isto é, não é tão intrusivo (no movimento brusco de câmera ou no som) quanto o cinema dos Dardenne, por exemplo). Infelizmente não assisti a Ser e Ter, documentário de Nicholas Philibert, com boa repercussão na França sobre o ambiente escolar, mas é como se o filme fosse uma espécie de High School do Wiseman sobre o tema, mas com base ficcional. Além disso, há um detalhe que faz toda a diferença: vemos a questão sempre bem de perto do professor de francês, e o espectador se identifica com sua tensão entre “apertar” disciplinarmente os alunos ou “afrouxar” um pouco, já que um regime repressor no fundo aprisiona o talento desses adolescentes que ainda estão a desabrochar, devido às suas naturais inseguranças. A espontaneidade de todo o corpo de atores, especialmente dos adolescentes, injeta uma inegável energia, especialmente nos momentos de conflito do filme.
A questão é que, além disso, Cantet não parece problematizar sua premissa realmente a fundo, ficando a meio termo entre ser um exame de fato das contradições do sistema educacional e de um meigo retrato da relação com conflitos mas compreensiva entre aquele professor específico e os alunos da turma. Cantet não busca um distanciamento do espectador mas, ao contrário, lá pelo meio do filme, o autor busca uma certa simpatia do espectador para com esse professor, chegando a cunhar reações em campo-contracampo (professor e alunos) mais convencionais. O filme acaba esbarrando no psicologismo, especialmente pela solução de roteiro de buscar um “auto-retrato”: forçando os alunos a falarem de si, o filme busca uma chave pela psicologia, que torna tudo bem menos interessante. A reação dos alunos começa a se desenhar pelo seu perfil étnico: o chinês aplicado; o africano desenvolto; etc. No final das contas, apesar de bem executado, Entre os Muros da Escola passa para o espectador a mesma sensação daquela aluna do último dia de aula: “o que eu aprendi mesmo?”, quase como se fosse uma espécie de “Escolinha do Professor Raimundo” do cinema contemporâneo.
Por fim, Entre os Muros da Escola é interessante para pensar a herança do neo-realismo italiano no cinema de hoje, ou ainda, a herança do documentário de cinema direto. De um lado a urgência da questão social e a Europa fragmentada vista a partir de uma turma escolar; de outro, a busca pela simpatia ao invés do distanciamento e os chavões psicológicos para atrair o espectador. No final das contas, Cantet se revela o Ken Loach do cinema francês. Dependendo de quem vê, isso pode ser um elogio ou uma troça."
A questão é que, além disso, Cantet não parece problematizar sua premissa realmente a fundo, ficando a meio termo entre ser um exame de fato das contradições do sistema educacional e de um meigo retrato da relação com conflitos mas compreensiva entre aquele professor específico e os alunos da turma. Cantet não busca um distanciamento do espectador mas, ao contrário, lá pelo meio do filme, o autor busca uma certa simpatia do espectador para com esse professor, chegando a cunhar reações em campo-contracampo (professor e alunos) mais convencionais. O filme acaba esbarrando no psicologismo, especialmente pela solução de roteiro de buscar um “auto-retrato”: forçando os alunos a falarem de si, o filme busca uma chave pela psicologia, que torna tudo bem menos interessante. A reação dos alunos começa a se desenhar pelo seu perfil étnico: o chinês aplicado; o africano desenvolto; etc. No final das contas, apesar de bem executado, Entre os Muros da Escola passa para o espectador a mesma sensação daquela aluna do último dia de aula: “o que eu aprendi mesmo?”, quase como se fosse uma espécie de “Escolinha do Professor Raimundo” do cinema contemporâneo.
Por fim, Entre os Muros da Escola é interessante para pensar a herança do neo-realismo italiano no cinema de hoje, ou ainda, a herança do documentário de cinema direto. De um lado a urgência da questão social e a Europa fragmentada vista a partir de uma turma escolar; de outro, a busca pela simpatia ao invés do distanciamento e os chavões psicológicos para atrair o espectador. No final das contas, Cantet se revela o Ken Loach do cinema francês. Dependendo de quem vê, isso pode ser um elogio ou uma troça."
Olá Migão!!!
ResponderExcluir.
Já era seguidora, agora com esta grife cinematográfica no Ouro de Tolo, tornai-me- eime(rsss), cineblogueira também.
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Parabéns pela idéia. Valeu a dica.
ps: bem melhor que falar bem do bolsa família hein, rssss
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Abr, bom final de semana a todos!