sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobretudo



Mais um sábado, mais uma coluna "Sobretudo", do amigo, publicitário e rubro-negro Affonso Romero. O tema de hoje é a Batalha de Stalingrado, decisiva na Segunda Grande Guerra.

"Ratzenkrieg

Algumas passagens da História ficam marcadas pelo impacto e repercussão dos acontecimentos ao longo do tempo, nos desdobramentos provocados, nas suas consequências duradouras. Outras passagens se fazem valer pelo impacto humano, pelo inusitado, pelo trágico, pelo extraordinário que expressam.

No período entre o final da minha infância e início de minha adolescência houve um modismo sobre o tema II Guerra Mundial, sobretudo em especiais para televisão, coleções em fascículos e livros. Havia uma série lançada pela Editora Renner que fazia grande sucesso.

Tomado de curiosidade, li e vi alguma muita coisa na época, quase tudo material para leigos e com certa espetacularização da guerra. Mas isso fez com que aqueles fatos e relatos voltassem à minha pauta ao longo dos anos, sempre em conta-gotas, de modo que eu estou longe de ser um especialista na II Guerra, mas gosto do assunto. Principalmente porque é um período que envolve importância histórica objetiva e impacto humano profundo. Chega a ser um lugar-comum afirmar que a II Guerra Mundial foi o fato histórico mais marcante do século XX, e que moldou o mundo como o conhecemos até hoje.

Acabei a leitura do 17º volume da coleção “70º Aniversário da II Guerra Mundial”, editada pela Abril, com título de “Stalingrado Detém Avanço Nazista no Leste”. A Batalha de Stalingrado, ou o período de embates entre 1942 e 1943 que ficou conhecido assim, sempre foi o meu sub-tema preferido na II Guerra. O que eu gostaria de compartilhar com os leitores são os aspectos humanos da batalha. Deixemos a questão militar e historiográfica para os especialistas. Ou melhor, só vamos primeiramente situar o leitor mais desavisado, e então passar ao que importa: a questão humana por detrás do conflito.

A II Guerra começa em 1939, com a invasão da Polônia. Pouco antes, Alemanha e União Soviética assinavam o Pacto Ribbentrop-Molotov (nome de seus ministros signatários) de não-agressão. Na verdade, as cláusulas secretas previam algum grau de colaboração e a repartição da Polônia. Este pacto deu condições para que Hitler se dedicasse à frente ocidental e tempo para que Stalin se preparasse para a guerra inevitável contra a Alemanha. Uma vez que o teatro de operações se estabilizasse na frente ocidental, depois da capitulação da França e o impasse da Batalha da Inglaterra, a Alemanha deu início à Operação Barbarossa, com a invasão da União Soviética em três frentes (norte, centro e sul), no verão europeu de 1941.

O conceito de guerra-relãmpago (blitzkrieg), em que rápidos e alternados movimentos combinados de infantaria, cavalaria motorizada e apoio aéreo garantiam a conquista territorial em curtíssimo tempo, aplicado até então pela Alemanha, mostrou-se débil frente à resistência elástica soviética, que tinha recursos (principalmente, humanos) e território vasto a ceder aos poucos, quebrando o ímpeto da invasão e alongando a batalha até o inverno. E, então, permitindo o contra-ataque, num movimento típico de guerras convencionais.

As linhas alemãs alongaram-se de alto a baixo e de oeste a leste, parando em frente aos objetivos iniciais: Leningrado (hoje, São Petersburgo), Moscou e os campos de petróleo do Cáucaso. A guerra, pela primeira vez, mostrava-se longa para a Alemanha e exigia esforços diferenciados. Por isso, no verão seguinte, o avanço nazista se concentrou no sul, em busca do petróleo essencial aos tanques Panzer e à economia de guerra.

Os soviéticos recuaram até uma forte linha de defesa protegida pelo Rio Volga, deixando desprotegida a cidade industrial de Stalingrado, na margem ocidental do rio, e cujo nome era uma homenagem ao ditador comunista.

O plano inicial de Hitler era isolar a cidade e contorná-la, como havia sido feito em Leningrado. Mas a aparente facilidade do avanço inicial, somada a uma questão exoticamente personalista (o nome ser homenagem a Stalin), foi fazendo com que a conquista territorial de Stalingrado passasse a ser ponto de honra para o exército alemão.

Por outro lado, Stalin pareceu gostar do jogo proposto pelos adversários. Também se tornou questão pessoal defender “sua” cidade até o fim. Além do mais, a manobra detinha o avanço alemão como um todo e concentrava as tropas adversárias num único ponto, passíveis de serem envolvidas num próximo contra-ataque.

Assim, Stalingrado foi massacrada por bombardeiros e artilharia pesada durante meses. Os tanques Panzer, tão úteis e mortais em campo aberto, não conseguiam ultrapassar os amontoados de concreto em que eles próprios tinham transformado os edifícios e fábricas da cidade.

Do lado soviético, a ordem de não recuar e defender cada casa como se fosse a última (muitas vezes, cada andar ou cômodo), foi cumprida por um motivo nada heróico. A opção para quem recuasse, abandonasse um posto ou tentasse fugir era de fuzilamento, como traidores, pelas tropas de retaguarda. Quem se entregasse aos adversários não receberia melhor acolhida por parte dos alemãs. Sendo assim, era lutar sob as piores condições, e com remotas chances de sobrevivência, ou encarar a morte certa. E esta opção foi estendida aos feridos e à população civil, incluindo-se velhos, mulheres e crianças, igualmente proibidos de atravessar o Rio Volga em busca de refúgio.

Quando a batalha ficou restrita aos escombros da cidade, passou a ser chamada pela já castigada soldadesca alemã de “guerra dos ratos” ou, em alemão, “ratzenkrieg”.

Com a chegada do outono, o contra-ataque soviético passou a ser uma questão de tempo. As linhas de suprimento alemãs já não eram suficientes há meses. Em ambos os lados, havia mortes por frio e fome. Os homens do VI Exército da Wehrmacht ficaram enredados em sua própria teia. Não seria possível recuar, já que não havia mais rotas, forças, transporte e combustível para pessoal e equipamento. Nem mesmo a vitória seria então uma alternativa, uma vez que, do outro lado do rio, os soviéticos mantinham uma enorme linha de defesa pronta para o contra-ataque de inverno.

Com a queda das temperaturas, o Exército Vermelho avançou na manobra clássica de pinça, através dos flancos mal protegidos pelos ultrapassados exércitos romenos (que lutavam ao lado dos alemãs), isolando o VI Exército da frente e esperando o momento preciso para esmagá-lo.

Quase toda a população de Stalingrado havia perecido nos meses anteriores. As baixas totais do lado soviético já passavam de 1 milhão de pessoas, civis e militares. Dos mais de 600 mil homens iniciais da frente alemã, ainda restavam ilhados uns 200 mil. Aqueles que estavam vivos após o brutal ataque do Exército Vermelho foram levados a pé para prisões na Sibéria. Voltaram para casa, em 1954, menos de 5 mil homens. A estimativa mínima de mortes na Batalha de Stalingrado é de 1.600.000 pessoas. Isso, sem contar as condições absolutamente indescritíveis em que esta batalha se deu, para ambos os lados. Em poucos momentos da História a capacidade humana foi posta á prova de maneira tão limítrofe. (Veja Stalingrado – um filme russo nada fácil de se achar em locadoras; ou Círculo de Fogo / Enemy at the Gates, um história sobre um franco-atirador russo protagonizada pelo Jude Law, e confira as condições da batalha).

Havia uma evidente importância estratégica na posição ocupada por Stalingrado. Entretanto, a cidade, em si, não oferecia nenhum atrativo especial, para nenhum dos lados. Tanto alemãs poderiam tê-la cercado e contornado, quando os soviéticos poderiam tê-la entregue, castigando posteriormente com bombas os invasores já instalados, uma vez que ocupavam confortavelmente a outra margem do largo Volga. De uma maneira geral, não se pode dizer que a manutenção da cidade, em si, teria modificado os destinos da guerra.

No entanto, a vaidade dos líderes das nações em conflito, aliada à voracidade por fama e poder do chefes militares envolvidos, selou o destino de mais de um milhão e meio de pessoas. E o que faz de Stalingrado ser considerada o ponto de inflexão da II Guerra Mundial não é a derrota objetiva dos nazistas, mas a derrota psicológica a partir daquele desastre humano, até então um tipo de sentimento imposto aos derrotados, mas ainda não experimentado pela Alemanha hitlerista.

Pela primeira vez na II Guerra, um exército inteiro alemão foi esmagado. Pela primeira vez na história, um Marechal de Campo alemão havia se rendido. Pela primeira vez, Hitler temeu."

5 comentários:

  1. ótimo post migão,assisti os dois filmes e acho que o simbolismo da derrota ou vitória falou mais alto,tomo a liberdade de sugerir este blog chamado SALA DE GUERRA,é bem interessante

    http://saladeguerra.blogspot.com/

    abraços e saudações rubro-negras.

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  2. Lembro da exibição dessas séries pela Globo. As imagens dos soldados congelados no front, junto as peças de artilharia não me saem da cabeça, mesmo após tanto tempo...

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  3. Ronaldo, irei dar uma olhada, obrigado

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  4. Caramba, show de texto! Parabéns ao autor e ao Migão que postou!

    Nunca tinha visto um texto sobre Stalingrado neste ponto de vista. Show de bola.

    Migão, vc poderia ser editor de uma revista tipo "Piauí". Você consegue agregar talentos e fazer seus próprios textos de forma variada com enorme qualidade. Parabéns!

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  5. Obrigado, Henrin !

    e vindo de você tem mais valor ainda, pois sei que discordamos em diversos assuntos. valeu memso.

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