(direto de Curitiba)
Sábado, frio mas nem tanto na capital paranaense, e mais uma coluna Sobretudo.
Como sempre, texto do publicitário Affonso Romero.
"Patrícia e a Taça das Bolinhas
Eu tento ao máximo evitar usar este espaço para falar sobre o Flamengo. Não haveria nada de impropriedade neste tema, afinal, eu e o Migão nos conhecemos de uma lista rubro-negra. Mas, exatamente por conta da lista, o Flamengo já me é um assunto cotidiano, e eu tento mudar um pouco o disco aqui na Sobretudo.
O assunto também não é excludente. Está certo que nem todo mundo é Flamengo, mas convenhamos que a grande maioria é. Pelo menos, entre os cavalheiros esclarecidos e de bom gosto. Não se ofenda se você é exceção. É mesmo verdade que existem não-rubro-negros de imensas qualidades, eu mesmo tenho dois ou três amigos assim, um deles inclusive é torcedor do América.
O motivo definitivo para que eu evite falar sobre o Flamengo é que, por mais que eu tente analisar o clube com isenção, os aspectos políticos complexos que assolam a Gávea teimam em vir à tona e, como eu tenho um discreto mas constante envolvimento com o clube, eu temo fazer desta tribuna um palanque contra ou a favor de alguém e acabar aborrecendo o caro leitor. Outro temor é ser obrigado a falar mal do meu clube de coração em público e acabar parecendo anti-flamengo.
Mas o assunto absolutamente não é proibido e como - rubro-negros ou não - todo mundo gosta de falar do Flamengo (notadamente os não-rubro-negros), vamos a uma das pontas do iceberg que emerge das profundezas da Gávea.
Recentemente, a presidente Patrícia Amorim anunciou a contratação do eterno ídolo Zico para coordenar todo o Departamento de Futebol do Flamengo. Jogada de mestre, uma vez que o Galinho de Quintino empresta credibilidade às instituições às quais se une, é respeitado no meio esportivo, endeusado pela torcida do clube.
Quem, certa vez, conseguiu acrescentar credibilidade à debilitada CBF de Ricardo Teixeira, certamente concederá ares de transparência ao Flamengo. Indispensável lembrar que uma andorinha só não faz verão e, passado o efeito-Zico, a CBF voltou ao banco dos réus da opinião pública.
Não quero aqui contestar ou cornetar a contratação do Galinho. Nem há como. Como diz o grande Arthur Mulhenberg, (aqui numa versão livre de sua citação latina) “se o Zico falou, a polêmica calou”.
Foi exatamente por aí o melhor pulo do gato da Patrícia. Ela estava numa sinuca de bico, acuada por opositores e companheiros de chapa (incrível, mas no Flamengo, a turma da situação é bem mais agressiva que uma eventual oposição – sempre!). Virou a mesa, espalhou as cartas e recomeçou o jogo. Na definição perfeita de um grande cacique político rubro-negro, “ela tinha poucas fichas e apostou todas na jogada certa”.
A situação da presidenta era tão ruim que ela nem esperou definir os termos do acordo com o Zico, nem sabe ao certo de onde tirará dinheiro para pagar os salários do novo contratado, nem definiu a data do início do trabalho, a composição da equipe, mas fez questão de anunciar este conjunto de dúvidas ancoradas por uma única certeza: Zico estará trabalhando no clube pelos próximos anos. Patrícia conseguiu o insuperável: deu o grande passo rumo à profissionalização do clube a partir da jogada mais amadorística de sua vida.
Agora, o clima é de expectativa e otimismo. Até o dia anterior ao anúncio, pairava no ar um sentimento de que sua gestão não se iniciara e, ainda assim, ficaria engessada até o final do triênio. As críticas e até acusações voavam como balas perdidas, saídas de todos os lados.
Por exemplo, pode soar absurda a correlação que andava sendo feita entre a atual gestão do Flamengo e a perda do reconhecimento pela CBF do nosso Hexa.
Então, vamos aos fatos.
A Patrícia, obviamente, NÃO tem nada a ver com tudo o que aconteceu naquele ano distante em que se disputou a Copa União.
A Patrícia, obviamente, NÃO tem nada a ver com a má gestão da causa ao longo de todos estes anos.
Mas a Patrícia, como atual mandatária do Flamengo, tem muito a ver com a postura adotada pelo clube no corrente ano de 2010. E o que aconteceu de diferente em 2010?
Em 2010, pela primeira vez desde a criação do Clube dos 13, houve uma disputa real pela sua Presidência. E houve uma participação direta da CBF nesta eleição.
Havia o candidato da situação e do continuísmo, o gremista Fábio Koff. Considerando o tipo de gestão do Clube dos 13 nos últimos anos, limitando-se a mal discutir a renovação do contrato de TV, negando-se a avançar na discussão da organização do futebol brasileiro, incompetente para desenvolver a internacionalização das ações dos clubes brasileiros, o conjunto da obra do Koff recomendaria votar contra ele.
Acontece que a oposição ao que era velho e retrógtado vinha de uma corrente ainda mais retrógrada: a própria CBF, aliada a empresários do ramo. Dúvida cruel.
O Clube dos 13 não nasceu em oposição à CBF, mas para tentar ocupar um espaço muito mal gerido pela CBF, e com a intenção de controlar a organização do Brasileirão. Então, é estranho que a CBF queira influenciar agora o Clube dos 13. Mas muita coisa mudou nestes últimos anos. A principal: o Brasileirão passou a ser um estorvo para a CBF, que fatura alto com a Seleção. A entidade agora até deseja que o campeonato seja mesmo organizado pelos clubes.
E o Clube dos 13 nunca teve a competência, sob gestão Koff, de organizar o Brasileirão. A CBF quer passar a bola, mas a alguém de confiança, claro.
O que interessa mais aos clubes? Para não aprofundar esta discussão inglória, o Koff adiantou as eleições, numa jogada torpe.
Em contrapartida, a CBF também jogou sujo. E usou a Taça das Bolinhas como forma de pressão sobre dois clubes: Flamengo e São Paulo.
Pela primeira vez, a CBF abriu a possibilidade de discutir o direito do Flamengo como campeão da Copa União. E, sendo bastante direto e objetivo: bastava ao Flamengo votar no candidato da CBF.
Considerando que o Koff, em sua política de não se meter nesta disputa nunca deu o apoio do Clube dos 13 ao Flamengo nesta causa, ficava evidente de que lado ficar. Novamente, falando claro: o Koff trabalhou contra o Flamengo ao longo destes anos, tanto nesta quanto em outras questões.
Por que, então, votar no Koff?
Ajuda a explicar quando sabemos o nome do candidato da CBF: Kléber Leite. O Kléber é um cara muito questionado no Flamengo, foi responsável por boa parte da dívida do clube etc. Mas quem duvidaria que ele estaria mais disposto a defender posições do Flamengo no Clube dos 13 que o Koff?
A Patrícia duvidou, e votou no Koff. Votou naquele que sempre votou contra os interesses do Flamengo. E colocou o clube na mira da vingança da CBF. Se esta história ficar só na Taça de Bolinhas, é lucro.
Eticamente, não vejo muita diferença entre votar no Koff ou no Kléber. Não dá para confiar em nenhum dos dois. A escolha da Patrícia teve muito mais a ver com a política interna rubro-negra do que com os interesses do clube. Pela primeira vez, a CBF oferecia o reconhecimento oficial ao Flamengo.
Abra-se um parêntese: a CBF é soberana para fazer o que bem entenda com esta questão, seja qual for a condução dos argumentos por parte dos clubes. Se ela diz sim, é sim. Se diz não, é não. E o Ricardo Havelange estava pronto a dizer sim, bastava votar no candidato dele.
O que o Flamengo ganhou ao fazer o contrário? Uma banana? Obrigado, Patrícia."

Olá!
ResponderExcluirParabéns pelo blog e pelo excepcional texto/post.
Acho que, modestamente, e a despeito de ser sãopaulino, me enquadro na lista dos cavalheiro esclarecidos, gente de bem, a ponto de discordar do autor da notável coluna quando este afirma ser maior o número de flamenguistas.
Mas quero ater-me à contratação do Zico para o cargo ali especificado.
Tenho profunda admiração pelo Zico. Como craque que foi, pela técnica e categoria que tinha e, sobretudo, pela grandeza de seu caráter.
Mas o Zico não foi, futebolisticamente, aquele vencedor que merceria ter sido, isso se comparado proporcionalmente sua categoria às conquistas obtidas - salvo enquanto jogador do Flamengo - à carreira de treinador que, como ficou provado, não foi feita para ele.
Assim, sendo fã da pessoa e do ídolo Zico, atrevo-me a dizer que faço votos de sucesso e torço para que tenha pleno êxito na sua nova função.
Mas não boto lá muita fé.
De qualquer forma... torçamos pelo Zico e pela Seleção do Dunga - outra que em nada me anima.
Abraços,
Orlando.
Perfeito!
ResponderExcluirA Patricia Amorim é uma lástima para o Flamengo.
A única coisa certa de sua gestão é o chamado ao Zico.
Vamos ver quanto tempo ele irá aturar as serpentes de lá!
Ótimo comentário.
ResponderExcluirPossuo a mesma visão deste lamentável episódio: Patrícia Amorim pensou em muitos fatores - CBF, Kléber Leite, vice-presidência do C13 - mas não pensou no Flamengo.
Muitos jornalistas e opositores ao governo da CBF frente ao futebol aplaudiram a "coragem" do Flamengo. Mas a troco de que entregamos o poder novamente ao Koff?
O SPFC, através de seus dirigentes, esfrega zombarias na cara dos flamenguistas, vende camisetas as nossas custas.
Enquanto isso, Fabio Koff finge que não vê. E o Flamengo, clube que, sozinho, assegura os grandes valores pagos pela televisão ao Clube dos 13, fica sem apoio de ninguém, recebendo menos dinheiro do que poderia da Rede Globo.
Até agora, a maior cagada de Patrícia Amorim a frente do clube, sem dúvida.
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