(Direto de Curitiba)
Sábado, retorno ao Rio de Janeiro, dia de nossa coluna "Sobretudo".
A coluna de hoje é a versão integral de texto publicado no jornal O Globo semana passada pelo publicitário Affonso Romero, autor da coluna. O texto é um pouco longo mas vale muito a pena.
Seu tema, a nova "Geni" do mundo do futebol, a bola da Copa.
"EFEITO JABULANI
Bem-vinda Copa do Mundo! Meu velho amigo Arnaldo Bloch edita uma página dominical de ensaios no diário carioca O Globo e me solicitou um texto sobre o mundo-bola e a bola da Copa. Fiz o texto consciente de que ele teria que ser cortado para caber no espaço reservado no jornal. Portanto, "viajei na maionese" à vontade, e depois o texto foi brilhantemente editado pelo Arnaldo.
Hoje, tenho o prazer de dividir com o amigo leitor a íntegra do texto, com todas as alegorias e adereços originais. Aí vai:
Bem-vinda Copa do Mundo! Meu velho amigo Arnaldo Bloch edita uma página dominical de ensaios no diário carioca O Globo e me solicitou um texto sobre o mundo-bola e a bola da Copa. Fiz o texto consciente de que ele teria que ser cortado para caber no espaço reservado no jornal. Portanto, "viajei na maionese" à vontade, e depois o texto foi brilhantemente editado pelo Arnaldo.
Hoje, tenho o prazer de dividir com o amigo leitor a íntegra do texto, com todas as alegorias e adereços originais. Aí vai:
Bola, bolota, esférico, pelota – a crise de identidade da Jabulani
Vinte e dois jogadores em campo, status de estrelas internacionais. Há os que adquiriram o direito de jogar com as mãos, vestindo uniformes diferentes dos demais. Técnicos alinhados em ternos caros, professorais em pranchetas e explicações, ou agitados dentro de agasalhos esportivos. Árbitros e auxiliares, antes em luto formal, agora em contemporâneo colorido, ainda e sempre senhores da autoridade máxima. Torcedores ensurdecedores, câmeras, locutores, comentaristas... e a bola atrai sozinha mais atenção que todos. A bola, esta vaidosa.
Não é de hoje: já na primeira Copa, em 1930, a bola ganhou ares de importância extrema. Não havia um modelo único para a disputa. Na final, argentinos recusavam-se a jogar com uma bola uruguaia. Já bastava aos anfitriões a vantagem da casa e da torcida. O acordo: cada tempo do jogo foi disputado com uma bola fabricada de cada um dos lados do Prata. Eram, as duas, feitas de couro cru, deformáveis, pesadas, rebeldes.
Foi mudando aos poucos até 1966. Ainda alaranjada - tanto na cor quanto na imperfeita circunferência - foi polêmica por ter entrado-não-entrado no gol decisivo marcado a favor dos ingleses contra a Alemanha. Mas em 1970, no México, deu a grande virada rumo ao estrelato absoluto.
Como uma joaninha albina, ganhou gomos pretos sobre fundo branco, aprimorou-se no acabamento, no material, no corte e na costura de 32 peças regulares. Girou como satélite acima da outra grande bola, a bola azul, levada por uns tantos outros satélites e pelas ondas da transmissão ao vivo. Mais: ganhou nome e teve a marca do seu fabricante estampada no couro.
No grande jogo comercial em que o esporte se transformava, era o out-door em close-caption.
Sua vaidade já não era mais tão-só alimentada por ser a senhora absoluta das ações e atenções, indefectível lance a lance. A bola, metáfora pronta, do mundo-bola, da bola dividida, da bola da vez, começava então a ganhar vida própria. Não por acaso, em seu primeiro batismo, a bola da Copa de 70 foi chamada Telstar: a estrela de tevê.
Atriz consagrada, encarnou novas personagens, sempre protagonistas, nomes diferentes em folhetins semelhantes, alternou o figurino, ganhou camadas cosméticas, passou a atuar em palcos cada vez mais distantes e envelheceu um pouco mais esférica. Em cada reestréia, críticas e polêmicas, nunca a indiferença.
Nestes tempos de tensão pré-Copa, a bola desembarcou na África do Sul cheia de pressão – e não estamos falando de libras. Em sua fuga da mesmice e do ostracismo, os designers-cientistas-cirurgiões-esteticistas-marketeiros responsáveis por mais uma repaginação de Dona Gorducha parecem ter exagerado. Encarnando personagem exótica, a nova bola tem nome tirado do idioma zulu: Jabulani. De alguma forma, você e eu sabemos que isso significa “celebração”, ou algo que o valha (ah, a imprecisão das traduções!, ah, o sentimento indizível no fundo de cada palavra!).
Naturalmente, a fabricante da bola gostaria de “celebrar” seu novo sucesso comercial, mas as coisas não vão assim tão bem. Apesar das onze cores do novo figurino – cada qual significando as onze etnias sul-africanas, as onze línguas do país-sede, os jogadores de cada time, ou qualquer conta que feche em onze (isso parece aquela velha mania do Zagallo com o número treze), os grafismos tribais, os oito gomos perfeitos, a alta tecnologia empregada, a redondinha da vez não deve entrar na lista do Oscar, porque seus críticos mais duros são exatamente aqueles que disputam com ela a posição de estrelas da festa: os jogadores convocados.
Fernando Muslera, goleiro do Uruguai, diz que é a pior bola com a qual já jogou, que “move muito”. Claudio Bravo, do Chile, acha difícil calcular sua trajetória e que é uma bola “muito complicada”. Seria uma desculpa prévia para as dificuldades a serem enfrentadas por suas frágeis seleções?
Goleiros consagrados como os melhores do mundo Buffon (Itália), Iker Casillas (Espanha) e nosso Júlio César também se referiram à Jabulani com termos fortes como “Inadequada e vergonhosa!”, “Podre!” e “Bola de supermercado.”
David James, que disputa a titularidade da meta inglesa, deu sua contribuição crítica apontando a provável causa para tanto desagrado: “A bola poderá ajudar os atacantes”.
Uma bola com vida própria, vontade própria, que toma caminhos inesperados, corta atalhos até as redes, facilita a vida dos chutadores. Parece um antídoto contra sistemas defensivos. Qual seria, então, a opinião dos atacantes e homens de criação?
Robinho, em sua irreverência, está se sentindo com a potência de chute de um Roberto Carlos. E reforça que a bola é mesmo estranha. O italiano Zambrotta, o argentino Mascherano, o espanhol Xavi, os brasileiros Julio Baptista e Luis Fabiano: todos acham a bola difícil de controlar, “viva” demais, que ganha velocidade no chute, passe e condução. Nilmar concorda com tudo isso, mas gosta da bola. Vai ver, não quer briga com aquela que pode levá-lo à glória ou ao fracasso.
Outros que fogem da polêmica são os jogadores patrocinados pela marca fabricante da bola, como Kaká, Lampard e o espanhol Xabi Alonso que não nega que a bola seja “diferente”, mas que todos se acostumarão a ela. Opiniões suspeitas? Talvez, mas as críticas mais duras à Jabulani vêm de jogadores patrocinados pela concorrência, o que também não deixa de ser suspeito.
Pensando melhor, o que não é posto sob suspeição, o que não tem uma ponta presa no conflito de interesses comerciais? Vivemos todos sob um manto auto-imposto de ingenuidade, um filtro anti-realidade. Poderíamos duvidar tanto de tudo que acabaríamos por duvidar de nós mesmos. Não há aqui a intenção de definir bem e mal entremeados nestas relações. Não é isso. É a constatação simples de que as coisas são comercializáveis, numa escalada global, desde o afeto, as comunicações, o trabalho, os indivíduos, cada qual rotulado, portador de marca e modelo renovado a cada ano.
O profissional que se “recicla” num novo curso ou congresso, o que não está fazendo senão se reinventar para o marcado? E suas relações pessoais, que acabam chamadas de “network” por algum consultor? Cervejinha gelada no bar? Network. E tudo passa compulsoriamente despercebido, porque é mais confortável não reparar nestes detalhes inconvenientes. Desculpe estragar seu muro, mas pessoas são tratadas assim, produtos então, o que pensar?
A bola... ora bolas!!! Não seria a bola, cheia de marca e releases, a única a escapar deste jogo. A bola, inflada de poesia nas crônicas dos mestres Nelson Rodrigues, Mario Filho e Armando Nogueira, é também um produto. De tantos significados embutidos, tão rica em romantismo, que escapa de ser apenas produto. A bola é produto-personagem. Tem nome, história, roteiro. Melhor produto não há, diriam os cínicos. “Bola de supermercado”, a expressão perfeita, dita assim tão ingenuamente pelo Júlio César.
Em época de Copa do Mundo, um produto literalmente global, escancarado na vitrine em que se transformaram os gramados. E há concorrentes ao seu papel.
Então, a Jabulani estaria apenas sendo vítima de uma guerra comercial? Este jogo pode ser desempatado pelo designer inglês Andy Harland, que ajudou a projetar a bola e defende sua criatura: “a bola faz o que os melhores jogadores querem que ela faça”, alfineta. Por outro lado, Harland reconhece que há segredos que ele gostaria de contar aos jogadores de seu país, que assim teriam uma vantagem que poderia até decidir a Copa. Se é guerra, há até um agente duplo.
Uma bola misteriosa, aparentemente incontrolável, dona de suas opiniões e destinos, mas que se deixaria convencer por quem conheça seus segredos. Bola, substantivo tão feminino que revela alma de mulher. Atriz, sabe mentir e enganar. Em outros tempos, em outras tramas, já se deixou encantar por hábeis galãs latinos. Também teve seus momentos de pragmatismo, e deitou e rolou nos pés certeiros de ricos antagonistas germânicos. Bola-atriz, nas mãos de Chaplin em O Grande Ditador; bola-diva, capa de Caras nos braços do Rodolfo-Valentino-Maradona-Garrincha-Rossi o momento.
Imprevisível, imponderável, esta bola é mulher para 22 talheres. Madura, a estrela volta remoçada, poderosa, incontrolável, polêmica. Como a mãe-Terra, que lhe deu a forma, alimenta sonhos e esperanças, pulsa, tem vida própria.
O grafismo da bola da Copa homenageia a união das tribos sul-africanas, o entendimento, ainda que tardio, entre as onze línguas locais. Em torno desta bola, estarão reunidas 32 “tribos” de todos os cantos da Terra, e a maioria das outras nações acompanharão pela televisão. Excelente oportunidade para uma reflexão sobre os rumos das disputas eternas, para lamentarmos ou comemorarmos o entendimento entre todas as tribos.
Já sabemos que todos querem a Copa, e poucos a disputarão para valer. Ainda assim, estão todos reunidos, participando da mesma festa. A FIFA tem mais países-membros que a ONU, não é sintomático?
O que impede que todo jogo seja disputado de forma leal? O esporte, contaminado ou não pelo mercantilismo, ainda dá lições às nações. Se é possível fazer de uma competição envolvendo 32 países ser transformada em festa e espetáculo, por que não o fair-play aplicado no cotidiano dos povos?
Como a Copa, como a bola, como a Terra, os indivíduos também se deixam conquistar pela arte ou pela força. Em grupos, formam povos e nações, expressam-se conjuntamente pela arte e pela força.
São tempos de Copa, mas também são tempos de guerras, de diplomacia pragmática em busca de parceiros comerciais, de vendas de idéias no atacado e no varejo, de princípios diluídos em operações financeiras eletrônicas, em fronteiras elásticas, tanto as fronteiras físicas quanto, sobretudo, as fronteiras abstratas da ideologia, dos modelos mentais e comportamentais. Há formas sutis de batalhas, e a arte instrumentalizada vira arma de combate. Pode soar brutal, mas esta é a face menos cruel do front.
Há guerras menos dissimuladas, travadas em campos de batalhas reais. Há também desentendimentos menos sangrentos, mas não menos opressores: falta de liberdade, racismo, exploração sexual, violência de todos os tipos.
Vem a Copa do Mundo, a bola rouba a cena, trás o confronto do mundo para um campo mais suave, um inofensivo “esta-bola-é leve-demais”, e o noticiário é expurgado de parte daquilo que faz esta-outra-bola-mundo-pesada-demais. Mas a Copa pode passar deixando uma herança bem mais interessante e duradoura, pode nos ensinar a arte da convivência. O fair-play no calor da disputa, a compreensão de que o oponente não é um inimigo.
E o que acaba acontecendo é o inverso, é o esporte trilhando o caminho do confronto. O Planeta-bola inteiro atento a uma guerra comercial. Uma guerra entre marcas globais, empresas espalhadas pelos confins do Planeta, buscando mercados e mão-de-obra barata. Uma empresa e suas concorrentes, que não hesitariam em jogar duro, usando seus garotos-propaganda como garotos-anti-propaganda, guerra de versões, guerra de mercados.
E, no entanto, independente (ou não) da motivação comercial, Jabulani tem uma mãe zelosa e protetora, que se apressou em defender sua criação, explicando que talvez a altitude possa ter interferido na aceitação das novidades tecnológicas da pelota. A bola, estrela recolhida ao camarim, acabrunhou-se. Estrela solitária, filha tutelada.
Leve, moleca, levada ao sabor dos ventos, torna-se frágil frente às críticas. Mimada, sapatinho de cristal. Canelinha de cristal. Bola de cristal: diz aí o que aprontará neste mês de intensa exposição. E a bola, repentinamente tímida, encolhida em seu refúgio, torna-se de um cristal opaco. Em vez de revelar o futuro, guarda para si seus desejos, ameaça criar o próprio destino.
Volta o olhar à bola-mãe Terra, busca na forma arredondada a explicação de sua natureza. A Terra, bola-matriz, responde com mais enigmas. Não é feita de cristal, não pretende revelar nenhum futuro, mas manda recados cifrados de que talvez não haja futuro algum.
Então, aqui também há uma analogia explicitada: bastante chutadas, ambas as bolas, bola-bola e bola-planeta, começam a deformar, ameaçam sair da rota traçada, ressentem-se e negam-se a ser parte das soluções.
Olhada de fora, pelas telas das tevês, vemos a bola-planeta aparentemente calma. De perto, expele humores maus, cansada de críticas e da infinita exploração. A bola-estrela também parece bela e terna, enfeitada para uma festa africana. Pronta para mais uma temporada em que será mulher-metáfora de tudo no mundo, mais ou menos imprevisível, menos ou mais surpreendente. Contraditória, aprofundando-se nas nuances de seu novo papel, a atriz foi cercada de tanta tecnologia que é capaz de interpretar uma nova versão do computador HAL, aquele que apronta uma falseta com seus criadores humanos no filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, ao passar a decidir sozinho o destino dos tripulantes da nave.
Uma bola tecnológica, anunciaram os alto-falantes em dezembro, no lançamento da estrela-produto. De tanta tecnologia, uma bola com vida própria, com vontade intransigente. Mais uma metáfora contundentemente óbvia, o descontrole do homem sobre as coisas que cria. Pode ser ruim para os pés dos jogadores, catastrófico para as mãos dos goleiros, mas estimulante para a pena dos poetas. Tende a ser uma Copa pobre em futebol e rica em semântica esportiva.
A nave-Copa está prestes a zarpar e uma personagem vestida de maneira exótica anuncia-se uma protagonista misteriosa. Jabulani é africana e transnacional. Jovem e antiga. Bela e gorducha. É cibernética HAL e humanamente mulher. Dona de si e pronta a se jogar aos pés de quem conheça seus segredos. Sabe aonde quer ir, mas não sabe mais quem é.
No meio do tiroteio, o argentino e ex-corinthiano Carlitos Tevez resume seu desconforto em relação à parceira de cena: “Ela é feia!”. Opa, feia? Por esta, a Jabiraca não esperava. A bela Jabulani, maquilagem tinindo de nova, nem isso teve de consagração absoluta. Esta que era sua única certeza. Temei, hermanos portenhos, esta senhora contestada se vingará. Tevez assinará mais uma página da eterna tragédia argentina, sem a qual não há tango, não há sorrisos tristes outonais nos parques de Baires, sem o qual não há a alma portenha. Pois será abola – escrevam e confiram – quem golpeará o time de Maradona. Quantas possibilidades uma bola pode escrever?
Jabu quer mais que a câmera em close sobre seu rosto redondo. Quer escrever o roteiro. Quer inventar caminhos, corrigir as imperfeições dos chutes, fugir dos marcadores, criar novos dribles, achar o ângulo, ganhar velocidade e deitar-se na rede.
Quer evitar a bola-dividida, refugiar em torno de si os desacampados do mundo. Por um mês, esqueçam os navios abordados pelos fuzis israelenses e todas estas outras questões alimentadas pelas inúmeras outras guerras comerciais. Esqueçam também os intervalos comerciais. Serão só o tempo de reabastecer o potinho de amendoim, a caipirinha e ouvir de longe a voz do Léo Baptista recordando uma jogada antológica de mil-novecentos-e-vovô-garoto.
Tomem fôlego para o bate-bola dos presidenciáveis, mas isso só vem depois. Por enquanto, só os que ligam pouco para futebol cogitarão a quem interessa mais politicamente o sucesso da seleção nacional. A nossa e as outras. Mas também isso ficará para depois. Então, discutiremos de quem eram todas aquelas boladas de dinheiro, quem salvou a economia de qual sinuca de bico, isso é assunto para outras bolas mais coloridas.
Agora, a HAL-mulher que toma para si toda a nave-Mãe-Terra, dribla a todos por conta própria, derrota sozinha os vilões-retranqueiros, sem se saber a grande vilã tresloucada de vingança e prepotência. No fim, restará sozinha num canto do vestiário, trocada pela mocinha que entra no finalzinho do filme e leva o coração do galã e a melhor cena: a taça."

o kaka sim
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