sábado, 24 de julho de 2010

Sobretudo


Mais um sábado e mais uma coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário e rubro negro Affonso Romero. O tema de hoje é a primeira parte de uma análise tática do futebol brasileiro, da qual mais uma vez discordo bastante.

Minha tese é justamente a oposta, que o Brasil somente foi Campeão do Mundo quando respeitou as suas características de jogo.

Em tempo: Mano Menezes somente será técnico da Seleção por causa da maldita mania que ocorre aqui no Brasil de se colocar "os amigos do Rei" à frente da competência. Em minha opinião ele não tem o menor estofo para ser o selecionador nacional, mas como o Corínthians, hoje, é "unha e carne" com a CBF...

Mas vamos ao, como de hábito, excelente texto:

"O Mito sobre a tal “Escola Brasileira” de Futebol e outras tolices - Parte 1

Passou a Copa do Mundo, o Campeonato Brasileiro voltou ao seu lenga-lenga e sobe-e-desce costumeiros em sua primeira metade, as notícias mais insistentes sobre futebol vêm das páginas policiais. Portanto, deixaremos este assunto um pouco de lado e voltaremos a fazer jus à proposta desta coluna, qual seja falar um pouco sobre tudo, certo? Errado.

Mal acabou uma Copa, já estamos preocupados com o caminho a ser trilhado até a próxima, iniciando pela escolha do técnico. Eu comecei a escrever esta coluna e o técnico escolhido para guiar a Seleção Brasileira em seu processo de renovação era o Muricy Ramalho. O atual técnico do Fluminense tomou café da manhã com o Presidente da CBF, deixou-se filmar ao lado de seu contratante, esticou a mão para cumprimentá-lo ao final do encontro (e, constrangedoramente, ficou com a mão no ar), e, logo depois, Ricardo Teixeira dava entrevista tendo como certa a sua contratação. Inclusive, afirmando que o Muricy fora, desde sempre, sua primeira opção para substituir o Dunga. A afirmação era, talvez, para evitar comparações e insinuações quanto ao nome de Mano Menezes, insistentemente apontado pela imprensa paulista nos últimos dias como o nome preferido da CBF.

Veja como a vida é engraçada: depois de tudo aparentemente acertado, foi Muricy quem “deu para trás”, e o próximo nome da lista de opções de Ricardo Teixeira era exatamente o de Mano Menezes, pelo menos isso era o anunciado até o fechamento deste texto.

Então, fica combinado, pelo menos por enquanto e até que as reviravoltas do acaso nos desmintam, que Mano Menezes será o alvo dos impropérios de público e crítica “especializada” pelos próximos quatro anos.

Escrevo a palavra “especializada” assim mesmo, entre aspas, porque não há nada mais improvisado no Brasil que a crítica esportiva. Alguns jornalistas, donos de belos textos, parecem jamais ter experimentado a sensação de calçar chuteiras, pisar um bom gramado, disputar uma dividida; tratam o futebol como balé, a partir do ponto de vista da estética, como se na origem deste esporte não estivesse o treinamento bélico, a violência transmutada pelo lúdico e, por fim, os esforços em disciplinar de alguma forma o adolescente e natural instinto selvagem dos cavalheiros vitorianos em plena formação escolar.

Outra boa parte dos analistas do futebol é composta de ex-jogadores que, em seus tempos de atleta, deram mais ou menos carinho à bola e à expressão plástica ao jogo. Dos ex-craques, ouvimos mais e diversificadas bobagens, principalmente nas referências aos “bons e velhos tempos em que o futebol era arte”, enquanto os ex-esforçados perpetuam-se em defender a aplicação e as vantagens da preparação física. Antes o mundo fosse dividido entre estetas e pragmáticos, porque a discussão se tornaria simples, ficando o primeiro grupo com o coração dos sonhadores e apreciadores do espetáculo, e o segundo grupo, por definição, com os melhores resultados. Não por acaso, raros são os bons técnicos que tenham sido antes craques da bola; e abundantes os ex-botinudos que tornam-se grandes vencedores como “professores”.

Aos grupos já apresentados unem-se, ainda, os picaretas e palpiteiros de todos os demais modelos e origens, perfazendo uma fauna tipicamente heterogênea que, entretanto, têm três características comuns.

1 – Todos falam com “autoridade” de especialista, tendo ou não adquirido esta autoridade através de experiência, diploma ou resultados (ao menos palpites) vencedores.O futebol é o reino do “achismo”.

2 – Nenhum tem a mínima idéia do que possa vir a ser administração esportiva, e dominam pobremente todo e qualquer assunto que se acomode fora das quatro linhas de jogo.

3 – Todos acreditam em um mito genérico e abstrato, mas muitíssimo bem enraizado na cultura do futebol, chamado “a escola brasileira”.

Esta “escola” é evocada, sobretudo, pelas grandes estrelas do passado, numa auto-apreciação narcísica de seus feitos, e ecoada pela velha guarda da imprensa, ciosos de suas posições de únicas testemunhas vivas destes tempos de glórias.

Repetem, de maneira quase gobbelsiana, que o Brasil desenvolveu um estilo próprio e único de jogar futebol e, principalmente, que este estilo estaria ligado a uma forma mais criativa, lúdica, aventureira, bela e ofensiva. Complementam que o Brasil não pode “trair” este seu estilo e diferencial, que este estilo teria nos dado nossas maiores glórias em campo, e que o custo de renegar este estilo é inevitavelmente perder competições importantes que, de outra forma, teríamos conquistado baseados quase que exclusivamente em nosso talento natural.

Esta mitologia realmente tem respaldo na maneira brasileira de ser. Não necessariamente na dita habilidade natural e malemolência do povo brasileiro, mas na fanfarronice que mal esconde um brutal complexo de inferioridade, de modo que precisamos auto-reafirmar que tudo em nós é mais belo, malandro, bem-resolvido, criativo, inventivo e superior.

Como se qualquer adversário fosse um bando de cinturas-duras ou, para citar o Garrincha, uma série de “joões”. Como se não tivessem sido os branquelos ingleses a inventar o drible, praticamente junto com as regras do jogo. Como se, mesmo sendo o país com mais títulos em Copas, não as tivéssemos perdido muito mais do que ganhado-as.

É uma mitologia que encontra paralelo em nossa historiografia oficial, que esconde traidores e trapalhadas e exalta heróis de folhetim e patacoadas. Mas não encontra fundamentos na história do futebol, nos acontecimentos reais, principalmente quando levamos em conta as Copas do Mundo, desde a primeira em 1930 até esta mais recente, que acabamos de perder.

Até 1950, tivemos um futebol, sobretudo, perdedor. Mesmo entre nossos vizinhos sul-americanos, em disputas regionais, perdíamos de maneira vexatória. Fundou-se, naquela época, o antimito de inferioridade, a síndrome de vira-latas eternizada nas crônicas do Nelson Rodrigues. Havia lapsos de originalidade e habilidade natural, elogios esparsos pela criatividade e leveza de algumas de nossas formações e jogadores, e só.

Há algumas teorias que explicam muito bem esta diferenciação entre os atletas europeus e os praticantes do novo-mundo, notadamente nos locais em que populações pobres e mestiças tiveram acesso ao esporte. Misturando-se os fatores biológicos, étnicos, econômicos, culturais, sociológicos e históricos, podemos chegar a algumas conclusões bastante válidas acerca da incidência de jogadores habilidosos e criativos nos gramados sul-americanos, tanto quanto da falta de competitividade desses jogadores.

A partir da década de 1940, Flávio Costa e outros técnicos brasileiros (e alguns estrangeiros em atividade por aqui) implantaram no Brasil um padrão de jogo europeizado chamado WM (nome dado pela disposição dos atletas em campo),e foi com este esquema que a Seleção disputou com brilho a Copa de 1950. Pela primeira vez, o Brasil mostrava um padrão tático definido e, pelo primeira vez, chegava a uma final de Copa.

Note-se que este era um padrão importado. Portanto, se é que já houvesse a tal “escola brasileira”, a Seleção de 50 renegava-a. Por outro lado, ao Brasil bastava empatar o último jogo contra o Uruguai para sagrar-se campeão, e foi o Brasil quem abriu o placar. E que, mesmo assim, insistiu em um jogo exageradamente ofensivo, dando oportunidade e espaços ao adversário, e o final todos conhecem.

O Brasil passou a jogar de uma maneira própria, com jogadores dispostos em 4-2-4 com dois pontas abertos e, depois de um novo fiasco em 1954, em 1958 pela primeira vez preparou-se para uma competição levando em conta os aspectos físico e psicológico, com profissionais e técnicas de treinamento importadas da Europa.

O titular da ponta-esquerda era então o rápido e habilidoso santista Pepe. O posto de reserva imediato estava guardado para o são-paulino Canhoteiro. Foi quando ganhou força o nome de um jovem alagoano que jogava no Flamengo chamado Mario Jorge Lobo Zagallo. Muito menos habilidoso que seus concorrentes (e, ainda assim, um jogador de bons recursos) Zagallo diferenciava-se pela disposição em recuperar a posse de bola, ajudar a fechar os espaços do meio de campo ao adversário, e dar opções de jogadas armadas a partir da meia-esquerda do ataque. Tornou-se titular.

O Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez justamente quando rompeu de forma mais clara com seu passado e focou na preparação física e na organização tática, a partir da involuntária criação do sistema 4-3-3 com o recuo do Zagallo. O curioso é que aquela seleção saíra do Brasil desacreditada por crítica e público exatamente por quebrar a tradição da “escola brasileira” e escalar o “limitado” Zagallo no lugar que caberia aos habilidosos Pepe e Canhoteiro.

É certo que aquela equipe contava com uma geração de jogadores extraordinariamente criativos e fadados ao sucesso, a começar pelo genial Garrincha e o jovem futuro Rei do Futebol: Pelé. Mas também é certo que jamais uma seleção, brasileira ou não, chegou a ser campeã mundial sem ter em campo (pelo menos alguns) craques, bem como nunca um time conquistou uma Copa sem um plano tático bem estruturado e executado. Se há alguma coisa que o Brasil de 58 provava, era que qualquer das duas coisas isoladamente já não bastavam. E que o Brasil, ao colocar-se em campo de forma responsável e competitiva, tornara-se um dos grandes do futebol mundial, pois igualava-se aos adversários em organização para destacar-se na execução de um plano tático com melhor material humano.

Na próxima coluna, trataremos de mostrar, Copa após Copa posterior a 1958, como foi através da mudança e da adaptação que o Brasil conquistou outras quatro Copas do Mundo, nunca através de perpetuação de um suposto estilo engessado e modelar de jogar futebol."

2 comentários:

  1. Affonso, texto maravilhoso.

    Eu acredito que o Brasileiro se diferencia dos atletas do resto do mundo por 3 fatores:

    1 - Enquanto os atletas europeus começam a praticar futebol em gramados perfeitos, com técnica, com juiz marcando faltas em todos os treinos, o brasileiro começa jogando com uma bola murcha em um campo de terra, contra moleques muito maiores e onde faltas não existem. Ou seja, sua técnica é forjada na dureza do dia a dia, tem que aprender na dificuldade.

    2 - O Brasil tem uma mistura rara de enorme amor pelo futebol, pobreza africana com estruturas de treinamento européias. O europeu pratica o futebol por que gosta, e segue a profissão quando tem talento, mas no fundo ele sabe que se não der certo ele vai ter uma vida tranquila em outra profissão. Os moleques brasileiros e africanos sabem que aquela É a única chance de ter uma vida boa licitamente. O seu esforço tende a ser muito maior. E o brasileiro, ao contrário do africano encontra ótima estrutura de treinamento nos clubes. Juntamos o esforço que o europeu não teria com as condições que o africano não teria.

    3 - Devido à cultura do improviso nacional, e à falta de orientação tática que o brasileiro, temos um caso único no mundo. Um atleta extremamente técnico, devido às dificuldades já enumeradas, com uma desperocupação tática que desespera os técnicos europeus. Quando joga contra outro time europeu o técnico sabe exatamente o que cada jogador vai fazer. Os jogadores se posicionam em campo como peças de um tabuleiro e nunca desobedessem o treinador. E aí quando chega um bom time do Brasil, eles se desesperam. Um time cheio de jogadores acostumados a driblar até com uma pedra, com uma perseverança forjada pela vida dura da pobreza e que não estão muito preocupados em ficar onde alguém acha que ele deveria estar. A falta de obediência tática que parecia um defeito, vira uma qualidade, quando os adversários nunca sabem o que devem esperar.

    Quanto à parte da imprensa, o texto é perfeito. Costumo dizer que se a povo soubesse que o futebol é bem mais simples do que eles querem fazer parecer, eles passariam fome.

    E também acho ridícula essa adoração pelo "futebol arte" e de como os craques de antigamente é que sabiam jogar. Quando vejo imagens de jogos muito antigos, tenho a impressão de ser outro esporte, de tão lento que era, e da falta de técnica que imperava nessas imagens em preto e branco.

    Warley Morbeck

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  2. Discordo dos dois, mas não cabe nesta caixa de comentários... risos

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