Com atraso, a
"Sobretudo" desta semana, coluna escrita pelo publicitário Affonso Romero. Como o blog anda temático, a coluna de hoje é sobre carnaval.
"Saudades dos Carnavais de Outrora
Este é o carnaval da crise. O movimento turístico é bem menor que o de outros anos, gastou-se menos na decoração das ruas e até os hotéis mais exclusivos fazem promoções. Máscaras e fantasias se salvaram do corte geral no orçamento, e ainda há quem pague até 50 mil em luxo para desfilar entre o povo. Mas há menos alegria e animação no ar.
CALMA, CALMA! Estamos falando sobre o carnaval de Veneza e seu tradicional desfile de máscaras sob o intenso frio invernal do norte da Itália. Como o leitor deve estar cansado de saber, o hemisfério norte do Planeta ainda tropeça nas rebarbas da imensa crise econômica que estourou há um ano e meio.
O carnaval brasileiro, assim como o Brasil, continua imune às oscilações da economia mundial. Aliás, uma das belezas do carnaval brasileiro é conseguir, a um só tempo, manter-se alheio à realidade cotidiana e fazer uma releitura desta realidade. Este fenômeno pode ser observado nas letras das marchinhas, nos enredos das escolas, nas fantasias dos blocos populares, enfim, em tudo que inspira o carnaval. E, no entanto, a graça está em representar o cotidiano sentindo-se fora dele, embebido de folia, inabalável ao cansaço ou à dureza, mantendo o corpo e a alma leves debaixo de um esplendor de vinte quilos.
A mesma lógica, ou falta total de lógica, se aplica à máscara veneziana, aos colares do Mardi Gras, ao abadá baiano ou à nudez – afinal, a festa é da carne. O objetivo é se divertir, curtir com a cara da realidade, e nada é motivo razoável para a tristeza.
Ou melhor: quase nada. Não é exatamente tristeza, mas há um sentimento bastante ligado ao carnaval, uma eterna quarta-feira de cinzas que atravessa a avenida desde a escolha do enredo até o desfile das campeãs: a nostalgia. Sim, em meio à alegria desenfreada, o carnaval é sempre nostálgico.
Não há festa de Momo, aqui ou no resto do mundo, em que você não ouça uma variante da afirmação de que antigamente é que era bom, um “ai que saudade dos carnavais de outrora!” Vai-se saber por quê?
Posso arriscar um ou outro arremedo de explicação, uns improvisos de última hora. A primeira ligação que me ocorre é que, sendo o carnaval a última festa pagã antes da quaresma, há implícito nele a antecipação do recesso da alegria. Não, não, isso faria o último ser sempre o melhor, não o contrário...
Bem, talvez então seja a ancestralidade africana, o banzo, a eterna falta da terra-mãe, esta nostalgia tão recorrente e reconhecível no samba. Não sei se o leitor já reparou, mas os primeiros sambas já remetiam à saudade, já afirmavam que o samba de ontem era melhor. Como assim “ontem”, se era o samba de 1930 versando sobre o samba de 1920. O samba, como tantas outras tradições ditas ancestrais, é uma manifestação contemporânea, apesar de gostar tanto de falar sobre o “antigamente” do samba. “Antigamente”, meu amigo, seriam palavras razoáveis em grego e em chinês.
Mas, voltando à questão da ancestralidade, esta também não seria uma boa explicação. Afinal, contrariando a percepção geral, o carnaval é tão africano (ou brasileiro) quanto Papai Noel. Se é para voltar ao passado, vamos fazer a viagem completa e retornar às festas pagãs na Europa, a coisa mais sem graça do mundo que - por força da injustiça que rege o universo – são as verdadeiras avós do carnaval brasileiro.
Opa, falamos de avós? Eu guardo uma ligação pessoal forte entre o carnaval e minha avó. Virada dos anos 1960 e 1970, Teresópolis, interior do Estado do Rio, minha avó me fantasiava da forma mais absurda possível e me obrigava a pular nas matines do Clube Panorama. Lembro com carinho da minha avó Albertina, mas devoto todos os meus maus pensamentos àqueles bailes. Portanto, para mim, os carnavais de outrora são os maiores dos pesadelos.
Não cola nada este papo retrógrado de “antigamente era melhor”. Marchinhas eram coisas chatérrimas e, mesmo que você odeie axé music, há que concordar que a Ivete Sangalo é bem mais talentosa e gostosa que a Emilinha Borba.
As escolas de samba são um espetáculo inacreditável, contam histórias universais, são uma manifestação audiovisual moderna, um show caprichado, um fenômeno de trabalho coletivo que é pesquisado por acadêmicos do mundo todo, uma lição de organização e improviso (sim, conseguem fundir conceitos aparentemente opostos). Falar da pureza e da singeleza dos desfiles de 1940 como um elogio à tradição e aos valores ancestrais do samba é, na verdade, a apologia do tosco, do bruto e do simplório em detrimento da sofisticação e da beleza.
Não é justo comparar épocas distintas. Só entende o presente quem tem respeito pelo passado. E claro que é importante conhecer a linha evolutiva de qualquer coisa. Não só do carnaval, das escolas de samba, mas de qualquer manifestação humana. Mas ser respeitoso para com o passado não obriga ninguém a preferir o passado. Tudo muda, e nada muda sem um motivo.
Eu sou um folião televisivo. Depois daqueles bailes traumáticos do Panorama, prefiro ficar em frente ao ventilador, zapeando o mundo, viajando das máscaras de Veneza às ruas do Recife em um clique. Não sou de me empolgar demais por nada. Nem decisão de campeonato num Maracanã lotado me tira do sério. Então, não tenho a paixão foliã correndo nas veias. Isso me faz um bom observador do carnaval, quase isento. Eu admiro a alegria dos outros, a criatividade, as novidades passageiras, os quesitos técnicos, os enredos, os destaques, as máscaras e fantasias.
Claro, há coisas que me emocionam, não me faço de geladeira: sou mangueirense, me dou ao direito de achar que a mistura de verde e cor-de-rosa é sublime quatro dias ao ano, e a marcação única do bumbo sem resposta às vezes me faz soltar uma lágrima.
Depois que a Mangueira passa, volto à minha condição de simples observador. E, sinceramente, só sinto falta das edições especiais das revistas Manchete, Cruzeiro e Fatos e Fotos. Pensando bem, os fatos e as fotos deste ano devem estar estampadas em Caras, de modo que até nisso o carnaval se renova, mas continua sendo o que é.
Pode ser que, em Veneza, a crise seja um bom motivo para a reclamação dos nostálgicos. Mas, na Bahia, o passado foi homenageado pelos 50 anos da invenção de Dodô e Osmar sem que ninguém tivesse que olhar pelo retrovisor do trio; o Galo da Madrugada bateu novos recordes de público e criatividade pelas ruas do Recife; os blocos do Rio, que renasceram há dez ou quinze anos, estão cada vez melhores; as escolas de samba continuam belíssimas, e os desfiles de São Paulo estão ricos e animados como nunca. Para quem é chato, ontem foi sempre melhor. Dessa, eu fico fora. Viva o carnaval de outrora e vivas ao carnaval de agora. Meu amigo, isso aí pode dar uma excelente marchinha"