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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte I"



Nesta segunda feira de uma semana que é bem curta para muita gente – embora para mim não seja – o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” traça uma comparação entre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e os sambas resultantes.

A coluna será apresentada em duas partes: hoje as agremiações que desfilam no domingo e, amanhã, as de segunda feira.

Sambas vs Sinopses – Parte I

Depois de analisar e dar notas as sinopses de enredo do Grupo Especial, o que é incomum no mundo carnavalesco, quero propor aqui no Ouro de Tolo outra análise incomum.

Analisarei os sambas-enredos escolhidos pelas Escolas do Grupo Especial. Mas não quero analisar os sambas-enredo por eles próprios, simplesmente lhes dando notas ou ranqueando-os. Esse tipo de análise teremos aos montes assim que o CD sair, em dezembro.

Quero, aproveitando a análise dos enredos que fiz aqui em julho, comparar a avaliação de qualidade do samba-enredo escolhido pela escola em relação à sinopse da mesma. O intuito é ver o quanto a qualidade da sinopse influenciou (ou não) o samba-enredo.

Mais uma vez, a análise será feita pela ordem de desfile. Começaremos hoje com as escolas de domingo. Amanhã, as de segunda feira.

Domingo

1 – Inocentes:

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves
Nota dada à sinopse na avaliação de julho: 2
Autores do samba-enredo: Billy Conti, Dominguinhos, Ildo dos Santos, Juarez Rosseto, Mará, J.J. Santos e Miri Matéria

A Inocentes vem com um enredo difícil de explicar sobre a história, cultura e imigração coreanas; todas as três desconhecidas no Brasil. Não bastasse, o enredo foi mal elaborado. Porém, mesmo o samba-enredo não sendo um grande samba, ficando no terço final da safra 2013, é apresentável para grupo especial.

Aqui temos o primeiro exemplo do ano no qual os compositores tiraram leite de pedra. Vocês verão que tivemos outros vários, reforçando a tese da “ressurreição” do gênero samba-enredo, já comentada aqui no Ouro de Tolo.

Resultado: samba consideravelmente acima do enredo. Mas ainda sim ambos na segunda metade do Grupo Especial. Influência negativa da sinopse..

2 – Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Nota da sinopse: 3,5
Autores do samba-enredo: Marcelo Motta, João Ferreira, GE Lopes e Thiago Daniel

Sinopse complicada, polêmica e, em minha análise, ruim. Isso se refletiu na safra medíocre que tivemos no Salgueiro esse ano. Ao final ganhou o único samba digno de Grupo Especial. Ainda sim é um samba para ficar tranquilamente na segunda metade do grupo e, claro, como eu já adivinhara é um autêntico pula-pula.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos na segunda metade do grupo. Influência negativa clara da sinopse.

3 – Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Nota da sinopse: 6,5

Autores do samba-enredo: Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires

A sinopse é correta, mas sem grandes destaques. Mediana e, pareceu-me, sem o toque especial de Paulo Barros. A safra tijucana foi sofrível, mas um samba se salvou: justamente o campeão. Como cada escola só precisa de um samba por ano, tudo bem.

O samba é mediano, com uma segunda parte até bem ruim (como sempre é difícil fazer letra para enredo de Paulo Barros). Mas teve uma sacada genial no refrão (“metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade Tijuca também”) que o faz disputar posições medianas no Grupo.

Resultado: samba acompanhou par e passo a qualidade da sinopse, ambas medianas.

4 - União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra

Aqui, tivemos uma inovação brilhante e uma aula de como se fazer uma sinopse, dada pelo carnavalesco Alex de Souza. Porém, para variar, a Ilha pegou a sinopse, amassou, fez bolinha de papel dela e a usou como bola de basquete para um arremesso certeiro de 3 pontos - direto para a lata do lixo.

O problema aqui é muito mais complicado do que uma simples análise “sinopse x samba-enredo”.

Para começar, a ala de compositores insulana está muito maltratada há anos por sua diretoria, o que fez com que sumissem vários talentos dela. Assim, a qualidade dos sambas vem caindo e não é de hoje.

A isso credito o fato de não surgir aqui um samba fantástico em toda a safra, diferentemente das outras duas escolas que ganharam excelente avaliação de suas sinopses: Portela e Vila Isabel.

Não satisfeita com isso, a Ilha conseguiu a “proeza” de ser a única escola em 2012 que não escolheu o samba que a comunidade queria (e fez isso pelo segundo ano consecutivo). O samba vencedor era o único da final que não tinha qualquer apoio relevante, seja da comunidade, seja da diretoria, seja dos segmentos.

[N.do.E.: mas era o samba preferido do Presidente Ney Fillardi. Samba que, aliás, sofreu mudanças em sua melodia]

Assim, ela simplesmente jogou fora pelo menos quatro sambas bons (sambas de Aloísio Vilar, Almir da Ilha, Marquinhos do Banjo e Carlinhos Fuzil) que, por mais que não chegassem ao “Top 10” da sinopse, ainda salvariam a pátria e disputariam vaga na primeira metade do Grupo.

A Ilha escolheu mal demais o samba e, mesmo com a melhor sinopse do ano (em conjunto com a Portela), ela disputa o “título” de pior samba do ano com a Mocidade.

Resultado: samba infinitamente inferior à sinopse. Prova de que sinopse não é sinônimo imediato de bom samba.

5 – Mocidade

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Nota da Sinopse: 5
Autores do samba-enredo: Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique

Já comentei o desastre que foi a sinopse da Mocidade frente ao tema e indiquei que seria complicadíssima para se fazer um samba bom.

Dito e feito. A Mocidade teve 45 sambas concorrentes, mas podia juntar os 45 que não daria um mísero samba digno. Até compositores gabaritados como Diego Nicolau (campeão de 2012) fizeram sambas sofríveis, muito abaixo do que costumam fazer.

No final, levou aquele que a comunidade queria e era o menos pior, mas ainda sim fecha a raia do Grupo Especial - em uma disputa árdua com a Ilha pela lanterna.

Alias, essa é a única nota de sinopse da qual me arrependi. Hoje daria uma ainda menor: 3,5.

Resultado: samba do nível da sinopse, ambos muito ruins. Influência negativa clara da sinopse.

6 – Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7

Dessa safra posso falar com bastante propriedade. Pude acompanhar a disputa de samba-enredo desde sua primeira eliminatória até a final. Em um momento inicial, disse que a safra era sofrível com apenas um samba espetacular - justamente o que se sagraria vencedor.

Porém, tenho que admitir que o desenrolar da disputa me fez mudar de idéia. Não quanto ao samba sensacional, que continuo achando sensacional (mesmo com as mudanças horripilantes e insensíveis feitas em sua letra e melodia após o fim da disputa), mas quanto à qualidade da safra.

Hoje classifico mais dois sambas como dignos de irem à avenida se não fosse a obra-prima que o quarteto vencedor aprontou mais uma vez. Além desses, teve mais 2 ou 3 sambas razoáveis na disputa. No que acabou sendo uma safra melhor do que a Portela teve nos últimos anos - e tenho que destacar o papel da sinopse nesse fato.

[N.do.E.: discordo do colunista. A safra da Portela foi bastante fraca e, com boa vontade, além do vencedor somente mais um samba poderia ir para a avenida]

Para a comparação proposta em relação ao samba vencedor, uma excelente sinopse terá um samba a sua altura para representá-la na avenida.

Não coloco o samba acima da sinopse (como se isso ainda fosse possível) por causa das mudanças posteriores (feitas por diretoria e puxador) que pioraram consideravelmente o samba em relação a sua versão concorrente.

Será bastante interessante ver o que ocorrerá com a Portela e o seu sambão vindo logo depois dos dois piores sambas do ano, que virão juntos logo antes de sua entrada na avenida.

Resultado: samba pari passu com a sinopse, ambos em altíssimo nível.

[N.do.E.: infelizmente, as notícias que chegam do barracão da Portela são MUITO preocupantes.]

Até amanhã, com as escolas de segunda feira.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Final de Semana - "Funeral do Ricardão"

De volta após uma semana ausente – novamente por problemas logísticos – a nossa faixa musical retoma o tema que abordaria na semana de Finados: velórios e cemitérios.

Iria trazer “Velório do Heitor”, do grande Paulinho da Viola (que deve ser o tema na semana que vem), mas pesquisando no Youtube encontrei esta engraçadíssima música do sambista Dicró, falecido recentemente. O samba conta a história de um famoso “Ricardão” que foi mandado desta para a melhor e a confusão reinante em seu enterro.

Não encontrei referência de autoria onde pesquisei. Se algum leitor souber que a autoria não é do próprio Dicró peço a gentileza de informar na área de comentário. Vamos à letra.

O vídeo é do programa “Samba na Gamboa”, gravado pouco antes da morte do sambista.

Funeral do Ricardão

Fecharam!
Fecharam o paletó do Ricardão
E no velório foi a maior confusão
É, no enterro saiu xingamento e até palavrão
Por causa de um monte de mulher amada querendo pegar na alça do caixão (2x)

Dona Maria dos Santos, esposa do seu João
Quando soube da notícia, caiu desmaiada no chão
Até a Dona Dolores, com mais de três filhos, mulher de respeito
Agora só anda de sapato baixo, cabelo trançado e vestido preto

Fecharam!
Fecharam o paletó do Ricardão (desgraçado)
E no velório foi a maior confusão
É, no enterro saiu xingamento e até palavrão
Por causa de um monte de mulher amada querendo pegar na alça do caixão (2x)

Mais de quarenta crianças perdidas naquele vai ou não vai
E o malandro malvado querendo saber quem matou o seu pai
Dona Susana parteira, mulher do pastor pregador de sermão
Levou um flagrante lá no cemitério chorando na cova do seu Ricardão

Fecharam!
Fecharam o paletó do Ricardão (se a moda pega...)
E no velório foi a maior confusão
É, no enterro saiu xingamento e até palavrão
Por causa de um monte de mulher amada querendo pegar na alça do caixão (2x)

Cento e cinquenta mulheres chorando acompanhando o caixão
Com mais de setecentas velas iluminando o garanhão
Na hora da despedida as mulheres queriam uma recordação
Levaram a calça, a camisa e a cueca tiraram um pedaço do pau do caixão

Fecharam!
Fecharam o paletó do Ricardão (Bem feito!)
E no velório foi a maior confusão
É, no enterro saiu xingamento e até palavrão, meu irmão!
Por causa de um monte de mulher amada querendo pegar na alça do caixão (2x)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Resenha Literária - "Cadernos de Samba"


Quarta feira passada estive no lançamento da série "Cadernos de Samba", série de pequenos livros que visam a resgatar a memória do carnaval carioca e especialmente das nossas escolas de samba. Coordenada pelo jornalista Aydano André Motta, os livros buscam registrar uma história que, muitas vezes, acaba se perdendo com a morte dos sambistas mais antigos das agremiações.

Os três primeiros livros são "Tantas Páginas Belas", sobre a Portela, do historiador Luiz Antonio Simas; "Maravilhosa e Soberana", do já citado Aydano, sobre a Beija Flor, e finalizando "Marcadas para Viver", do jornalista João Pimentel. Este último conta a saga de cinco escolas pequenas: Unidos de Lucas, Em Cima da Hora, Vizinha Faladeira (onde já desfilei, em 2008), Unidos do Jacarezinho e a extinta Tupy de Braz de Pina.

O lançamento, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, contou com a presença de jornalistas, formadores de opinião do carnaval e representantes das escolas enfocadas. A se lamentar a ausência da Portela, representada de forma não oficial apenas por três integrantes do site PortelaWeb - entre os quais este blogueiro, por Mestre Monarco, pelo autor do samba de 2013 Luiz Carlos Máximo e pelo sócio Marcos Vieira de Souza, conhecido pelo apelido de "Falcon" - e que é esposo da porta bandeira da Beija Flor Selminha Sorriso.

Para o leitor ter uma ideia, somente a Beija Flor trouxe três ônibus com componentes para prestigiar o lançamento. Outro exemplo é que eu tive a oportunidade de conversar com o Presidente da Unidos de Lucas, também representado de forma oficial.

Os livros (na foto, da esquerda para a direita, Simas, Pimentel e Aydano) tem formato pouco maior que uma edição de bolso e tem cada um deles cerca de 120 páginas. Escritos em uma linguagem acessível, são lidos rapidamente - eu levei cerca de duas horas para completar a leitura no último sábado.

A noite também contou com a presença do Prefeito Eduardo Paes - que chegou depois que eu havia saído - e teve cobertura televisiva e de sites especializados. Inclusive em uma das matérias, que pode ser vista no Youtube, Luiz Antonio Simas chega a afirmar que sem a Portela o desfile tal como conhecemos talvez não existisse desta forma.

Faço abaixo uma pequena resenha de cada um deles, pela ordem de leitura.

Tantas Páginas Belas

Simas optou por contar a história da águia altaneira a partir da formação do subúrbio de Oswaldo Cruz, base da escola. Ao contrário de outras agremiações a Portela é uma "escola de planície", ou seja, não está baseada em nenhum morro.

São mostradas as circunstâncias de formação da agremiação, os bons tempos de Natal - que ganha uma espécie de mini perfil bastante interessante, as grandes crises e o momento de renascimento da escola trazido pelas feijoadas da Velha Guarda e outras iniciativas semelhantes.

Este blogueiro e o Ouro de Tolo são citados como referência bibliográfica, em especial a coluna "Samba de Terça" que escrevi sobre o desastroso desfile de 2005. É um fato que muito me honra.

O site PortelaWeb, do qual faço parte da equipe, também foi uma fonte de pesquisa valiosa. É um belo exemplar àqueles que pretendem conhecer um pouco da bela história da minha escola.

Maravilhosa e Soberana

Aydano André Motta - que, devo avisar aos leitores, é fanático torcedor da escola de Nilópolis, a ponto de achar que o título de 2003 foi justo (risos) - optou por uma leitura mista: ao mesmo tempo em que mostra a história da agremiação (que eu mesmo não conhecia), também conta um pouco do "modo Beija Flor de desfilar", que é quase religioso, messiânico.

Alternando passado e presente, tradição e modernidade, Aydano ajuda a desnudar este fenômeno representado pela sua comunidade e sua devoção à escola, a seu patrono e seus comandantes. O modelo de carnaval representado pela azul e branca, confesso, não me agrada totalmente, mas tem de ser respeitado. É um misto de "despotismo esclarecido" com paixão genuína de seus integrantes, que resultou em uma receita muito vitoriosa.

O autor também conta histórias como as de Laíla, Joãozinho Trinta, Anísio Abraão David e o carnavalesco Milton Cunha, entre outros. Pelo menos para mim, que conheço pouco o que ocorre na escola fora dos 82 minutos de avenida, se mostrou um valioso documento - aprendi bastante, e, somado ao que vi no lançamento, passei a admirar a organização e a força da agremiação.

Apesar de ser um livro escrito por um apaixonado, há ligeiras críticas ao adesismo político da Beija Flor - que tem dois a meu ver inacreditáveis enredos defendendo o Regime Militar nos Anos 70 e, recentemente, homenageou o Governo Lula. Aydano também demonstra preocupação com a sucessão na escola.


Marcadas para Viver

Contar a história de cinco pequenas agremiações deu um certo trabalho de pesquisa ao autor João Pimentel. Os registros escritos são muito tênues e os detentores da história oral nem sempre se encontravam disponíveis.

A história de cada uma das agremiações é contada de forma a entender o porquê de não terem se firmado no grupo das grandes, bem como resgatar sambas como "Os Sertões", da Em Cima da Hora, "Sublime Pergaminho", de Lucas (ambos enfocados na série "Samba de Terça" deste blog) e "Seca do Nordeste", da Tupy de Braz de Pina - acima em versão com Clara Nunes.

Algo que impressiona nas histórias contadas é a relação com a questão da violência. Lucas, Tupy, Vizinha Faladeira e o Jacarezinho foram muito afetados por esta questão em algum momento.

Também se contam versões conflitantes da escolha de "Os Sertões", para mim o maior samba de enredo da história do carnaval carioca.

O livro tem alguns equívocos de datas: a Vizinha desfilou com o enredo sobre Gilberto Gil em 2004 e não 2005, quando foi rebaixada - inclusive fui finalista de samba daquele ano. E a homenagem de Lucas a Elisete Cardoso foi em 1974, não 75.

Mas é documento indispensável para aqueles que pensam que as escolas de samba se resumem ao "mundo encantado da Sapucaí".

Em resumo, os três livros valem bastante a pena. Recomendo.


Cine Debate PortelaWeb

Acabei não conseguindo escrever o post na semana passada, mas quero registrar aqui a iniciativa do Centro Cultural Cartola e do site PortelaWeb de trazer alguns dos principais personagens do desfile de 95 para relembrar a preparação do mesmo e falar um pouco sobre o carnaval atual.

Diga-se de passagem, o acervo do Centro Cultural sobre o carnaval (que eu não conhecia) e sobre o grande gênio Cartola são dignas de aplausos, com itens representativos.

O vídeo acima, com cerca de nove minutos, fala sobre a bateria de 95 - e a então inédita "paradinha" na Portela - e sobre o trabalho do mestre sala Jerônimo, que aliás deu ótimas declarações durante o debate.

Ótima iniciativa.

Promoção

Pensa que acabou, leitor?

O Ouro de Tolo tem três exemplares autografados dos livros para sortear: um de cada. Para participar baixa deixar na área de comentários deste post nome completo, cidade, e-mail, escola de samba pela qual torce e indicar qual dos livros gostaria de ganhar.

Publicarei o resultado na próxima segunda feira, dia 12. Participe!

sábado, 3 de novembro de 2012

Buraco da Fechadura - "A Rodoviária"


Neste sábado, o colunista Aloisio Villar traz mais um conto de sua coluna dedicada ao tema, a "Buraco da Fechadura".

A Rodoviária

Afonso acabara de pegar um táxi no Brás, bairro da capital de São Paulo. Era uma e meia da manhã de sexta para sábado e ele tinha que correr a fim de tentar comprar passagem para o último ônibus com destino ao Rio de Janeiro.

Tinha trinta e cinco anos de idade, um cara que muito viveu e ao mesmo tempo viveu nada.  Experiente e inteligente para algumas coisas, burro e imaturo para outras, era uma metamorfose ambulante: um carrossel de emoções.

Afonso estava triste no táxi e com enorme vontade de chorar, mas nunca foi de chorar na frente dos outros; já chega ter chorado na frente de Bianca, sua ex namorada, naquela noite.

Ela que o colocou naquele táxi e foi embora sem olhar para trás, enquanto Afonso acompanhou a moça com o olhar até que não conseguisse mais vê-la. Limpou as lágrimas disfarçadamente, para o taxista não reparar que estava triste.

O taxista começou a falar do engarrafamento que pegaram. Reclamou dizendo que era a feira dos chineses sendo montada e afirmou que um dia dominarão São Paulo. Afonso sorriu e tentou engatar um papo com ele sobre os chineses, tentando assim não pensar em Bianca e na hora.

O taxista, ágil, se livrou do engarrafamento e conseguiu em poucos minutos chegar à rodoviária. Afonso agradeceu, pagou e entrou correndo para tentar pegar o último ônibus.

A rodoviária estava vazia como poucas vezes Afonso vira: parecia uma rodoviária fantasma. Correu nas companhias e a maioria já parara de funcionar. Apenas uma viação ainda tinha ônibus para sair, mas não tinha mais vagas.

Afonso parou ali no meio daquela rodoviária vazia, sem ter o que fazer.

Pensou em ir até algum hotel próximo, mas além de não estar com tanto dinheiro tinha certeza que não conseguiria dormir e caso conseguisse estenderia seu tempo em São Paulo e o que ele mais queria naquele momento era se livrar da cidade o mais rápido possível.

Afonso tinha nada contra São Paulo. Ele viveu alguns dos momentos mais felizes de sua vida lá, mas especialmente naquela noite o que ele mais queria era chegar ao Rio de Janeiro, deitar na sua cama e chorar muito.
  
Pensou no que fazer e decidiu ir embora no primeiro ônibus da manhã. Voltou na viação e comprou para as seis da manhã. Comprou um lanche e sentou em uma cadeira. Olhou a hora: duas e meia, ainda faltavam três horas e meia para a partida.

Agora era oficial: era uma das piores noites da vida de Afonso, comparável à noite da morte de sua mãe, em que passou a noite acordado como um zumbi esperando o enterro.
Sentou, lembrou-se de toda a história e aproveitando que não tinha ninguém perto deixou rolar umas lágrimas.

Não conseguia acreditar naquele fim de noite.

Olhou as poucas pessoas daquela rodoviária: a grande maioria dormindo, outras lendo, algumas até namorando e lembrou que não era para ele estar ali. Naquele instante era para ele estar em um quarto de motel com Bianca, os dois se amando e reatando o namoro.

Mas deu tudo errado...

Afonso e Bianca namoraram um ano e meio. Conheceram-se pela Internet, ela em São Paulo, ele no Rio de Janeiro. Tiveram um namoro gostoso, recheado de carinho, companheirismo e a todos parecia perfeito, mas Afonso não era perfeito - longe de ser.

Não era fiel e Bianca começou a desconfiar do namorado. Um dia, bisbilhotando seu computador, descobriu toda a verdade e terminou com ele.

Apesar dos pesares Afonso gostava de Bianca, mas era fraco, imaturo e achava que um homem de verdade tinha que ter várias mulheres. Com isso perdeu a mulher certa, da sua vida. Só depois que perdeu Afonso se deu conta das bobagens que fazia e passou um ano correndo atrás da menina tentando reatar.

Comeu o pão que o diabo amassou. Viu Bianca deixar de gostar dele, conhecer novos homens, se apaixonar e começar a namorar um dos melhores amigos do ex. Afonso assistiu a tudo, sofreu todas essas humilhações calado. Vias as fotos e declarações apaixonadas do casal nas redes sociais e nada podia fazer: apenas sofrer.

Sem poder ser seu amor virou amigo de Bianca e muitas vezes confidente. Ouvia sobre seu namoro, as dificuldades, respirava fundo no outro lado da tela e dava conselhos. Aos poucos conseguiu colocar aquele amor que sentia em uma gaveta e trancá-lo, conseguia sobreviver sem Bianca.

Até que ela terminou o namoro e eles se reaproximaram. Afonso declarou que ainda amava a ex e Bianca respondeu que queria a verdade, queria que ele contasse tudo que fizera no namoro, pois, só assim conseguiria perdoá-lo e reatar.

Afonso então decidiu ir a São Paulo abrir o coração, contar tudo. Um ano e meio depois do fim o rapaz de novo iria a São Paulo ver a amada. Era tudo apenas para seguir protocolo. Ele contaria tudo, ela se sentiria aliviada, reatariam e passariam a noite juntos.

Chegou e deram um beijo apaixonado. Afonso tenso porque falaria  de coisas que nunca imaginou. Sentaram em uma lanchonete e ele começou a contar.

Contou todos os casos que teve, as traições e pediu perdão. A reação que Bianca teve não foi a que ele nem ela esperavam. Bianca sentiu-se muito mal com todas aquelas histórias e pediu para ir embora. Ainda pararam em uma pracinha, Afonso chorando em desespero tentava provar que lhe amava, não podia viver sem ela, mas tudo em vão.

Bianca respondeu que não dava mais, não confiava mais nele e pediu que ele fosse embora para o Rio de Janeiro.

Foi assim que ele chegou naquela situação da rodoviária.

Afonso tentava ler, mas não conseguia se concentrar. Foi à lan house da rodoviária, ficou uma hora, mas não tinha nenhum conhecido logado. Tentou ver se Bianca escrevera alguma coisa em suas redes socais, mas nada. Inquieto, triste Afonso andava como um zumbi pela rodoviária.

Encostou-se em uma pilastra. Fechou os olhos como se não quisesse estar ali e perguntando porque Deus não gostava dele, quando foi interrompido por uma voz feminina perguntando se ele sabia que horas eram.

Abriu os olhos e encontrou uma menina branca, com cabelos trançados como se fosse hippie e largo sorriso. Afonso pediu desculpas e respondeu que estava com o celular descarregado e não tinha como lhe responder. A menina contra argumentou que não queria saber as horas e perguntou apenas se ele sabia as horas.

Afonso sem entender aquele papo respondeu que não. Ela sorriu, fez um carinho em seus cabelos e respondeu “hora de se feliz” se afastando.

Afonso não entendera nada daquela história. Tentou pensar e decifrar, não conseguiu e virou-se para a menina que continuava andando perguntando como ela sabia. Ela virou e respondeu “porque nós é que fazemos essa hora e a sua chegou!!”.

Ok, agora Afonso estava perturbado e curioso correndo atrás da menina.

Ele perguntou quem ela era e a moça sorrindo respondeu que achara que ele não perguntaria. Disse que se chamava Jéssica e pediu que Afonso pagasse um milk shake para ela.

Foram até um fast food e Afonso pagou. Jéssica bebendo um de morango virou para Afonso e disse que tinha gente que achava que os chineses dominariam São Paulo, mas para ela seriam os italianos, com uma pizzaria a cada esquina.

Afonso cada vez se intrigara mais com aquela bela menina. Começaram a passear pela rodoviária e ele, ainda perturbado com aquela história de hora da felicidade, perguntou como fazer para ser feliz quando o mundo conspira contra.

Jéssica, terminando de beber seu milkshake e jogando fora o copo respondeu que o mundo nunca conspira contra: o que conspira é nossa cabeça, ela que nos trava e, muitas vezes, impede que sejamos felizes.

Afonso riu e falou que aquilo era uma bobagem perguntando porque alguém se boicotaria pra ser feliz. Jéssica respondeu “por medo”.

Afonso parou de andar e perguntou “Medo de ser feliz? Como assim?”. Jéssica ainda andando respondeu que as pessoas têm mais medo de serem felizes que da morte, porque a morte é inevitável e a felicidade um passarinho que se não for bem cuidado escapa de suas mãos.

Afonso continuou parado ouvindo a menina que disparou: “vai ficar aí parado”. Ele então se apressa e lhe acompanha na caminhada.

Sentam e Afonso, que sempre foi um cara reservado e nunca gostou de se abrir com os outros, resolveu contar para aquela desconhecida toda sua história e como parara na rodoviária àquela noite. Jéssica ouviu a tudo atentamente e no fim Afonso perguntou se era um monstro por ter feito tudo que fez com Bianca.

Ela para uns segundos e responde que não.

Ele não era santo, nem monstro: apenas um ser humano comum com suas qualidades, defeitos e que teria que aceitar que tudo que fazemos na vida tem um retorno e ele teria que conviver com a conseqüência de seus atos.

Afonso, resignado, olha para o chão e diz “perdi Bianca para sempre” Jéssica responde que o para sempre é muito tempo e ninguém sabe nem o dia de amanhã, se amanhecerá vivo, não tem nem como prever o que acontecerá, mas que uma certeza ele poderia ter: ela estaria sempre na sua vida porque só gostando muito de alguém uma mulher passa por tudo aquilo e ainda aceita o homem em sua vida.

Afonso que até então estava triste e com raiva de Bianca por tê-lo feito ir a São Paulo a toa caiu na real e disse “é, ela vem sendo muito bacana comigo”. Jéssica então aconselhou que ele segunda-feira entrasse na Internet e falasse com ela como se nada tivesse acontecido, como se ele nem tivesse ido a São Paulo.

Curioso com aquela menina que salvara sua noite foi a vez de Afonso querer saber mais sobre Jéssica. Ela respondeu que sua vida era nada demais. Estudava veterinária, tinha um irmão e estava voltando pra casa cheia de saudades da família.

Afonso perguntou o que ela fora fazer em São Paulo e brincando Jéssica respondeu que fora numa missão secreta, recebendo ordens e que se lhe contasse teria que matá-lo.

Afonso riu e falou que Jéssica era muito gente boa e que o amor que ela tinha pela vida contagiava.

Jéssica então suspirou fundo e respondeu que nem sempre fora assim. Sofreu um grave acidente de carro com o noivo seis meses antes e ele morrera no acidente. Foi difícil para ela aceitar o ocorrido. Chorou muito, sofreu, mas que cuidaram muito bem dela no período e lhe mostraram a importância da vida e que ela nunca acaba.

Afonso estava fascinado pela moça e nem viu a hora passar. Quando percebeu faltavam apenas dez minutos para o ônibus partir e triste disse que teria que se despedir de Jéssica e ir embora. Ela riu e disse que ele não se livraria tão fácil assim dela, estava no mesmo ônibus dele para o Rio e no banco ao lado do dele.

Afonso perguntou como ela sabia que era o do lado e Jéssica respondeu que vira pelo bilhete em sua mão. O rapaz gargalhou e os dois partiram.

Encararam numa boa as seis horas de viagem e ao chegar no Rio Jéssica passou o telefone de sua casa e que quando ele quisesse poderia ligar. Deu um selinho em sua boca e andando gritou “é hora de ser feliz!!”.

Os dias passaram e Afonso tratou Bianca na Internet como se nada tivesse acontecido, com excelente humor e tentando fazer com que uma assustada Bianca se sentisse a vontade. Com o tempo venceu sua resistência e conseguiu fazer com que ela relaxasse.

Quando Bianca foi almoçar Afonso decidiu ligar para a casa de Jéssica e agradecer seu conselho, segue a ligação:

- Afonso: Alô, é da casa da Jéssica?
- Mãe: Sim, é a mãe dela, quem fala?
- Afonso: Aqui é o Afonso, um amigo dela, poderia falar com ela?
- Mãe: Sinto muito, mas não dá, infelizmente a Jéssica morreu faz seis meses.

Afonso gelou e gaguejando perguntou:

- Afonso: Como assim senhora? Estive com ela nesse fim de semana.
- Mãe: Ela morreu há seis meses num acidente de carro com o noivo, os dois morreram, que brincadeira sem graça é essa?

Afonso conseguiu contornar a situação e pegou o endereço do cemitério onde ela estava enterrada.

Chegou ao local, andou por ele e conseguiu achar a lápide. Uma foto de Jéssica estava lá, linda como ele conheceu, com o sorriso largo que o encantara e os dizeres “Nada temo se acredito na vida eterna”.

Afonso ajoelhou-se, fez uma oração e agradeceu a menina por tudo. Levantou-se, olhou para o céu e pediu desculpas a Deus por achar que não gostava dele. Deu uma última olhada para a foto de Jéssica na lápide, mandou um beijo e foi...

... Foi ser feliz.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sabinadas - "Enredo Complexo"


Excepcionalmente nesta sexta feira, a coluna "Sabinadas", do jornalista - e mangueirense - Fred Sabino, fala um pouco sobre os enredos do carnaval 2013 e sua característica "mercantilista".

Enredo Complexo

Mais um Carnaval está chegando e, depois de um 2012 com alguns bons enredos, veremos na Marquês de Sapucaí temas com conteúdo duvidoso. Enredos que, para falar o Português claro, não acrescentam ou acrescentam pouquíssimo, ou mesmo nem sequer servem para proporcionar um desfile no qual o componente se divirta.
 
É evidente que cada escola tem liberdade para escolher seu próprio enredo e elas não precisam repetir uma fórmula todo ano. Entendo ainda que as agremiações precisam de recursos. Mas reflitamos: enredos sobre Alemanha, Rock in Rio, Cuiabá, Coreia do Sul, mangalarga marchador, novelas, petróleo são mesmo condizentes com essa festa popular?

Isso, como já foi amplamente explanado aqui no Ouro de Tolo, só confirma a mercantilização de muitos aspectos numa escola de samba: desde a escolha do tema em si (hoje, enredos de verdade são poucos), do samba-enredo e até dos profissionais (alguns, muitíssimo bem pagos).

Nos últimos anos, a Estação Primeira de Mangueira até que teve bons enredos sobre música, Nelson Cavaquinho e Cacique de Ramos, mas também temas totalmente "merchan" como energia (2005). Em 2013 falará sobre Cuiabá, com contribuição generosa do governo local. E, em 2008, a escola deixou de homenagear o centenário de Cartola para cantar o frevo. Com aporte financeiro, claro.

[N.do.E.: vale lembrar que a Mangueira preteriu o centenário do grande Jamelão para 2013. O magistral intérprete será enredo da Unidos do Jacarezinho, na Série Ouro, escola que é uma espécie de "filial" da verde e rosa.]
 
A Portela, a grande Portela, ano passado renasceu com o enredo sobre as festas da Bahia e, em 2013, levará a história de Madureira para a avenida. Muito bacana! Só que, mesmo tendo estes enredos mais culturais, nos anos anteriores também repetiu esta forma de enredos patrocinados. 
 
Ainda que tenha havido esta mudança de orienrtação, são enredos abaixo de momentos clássicos da Majestade do Samba, que infelizmente não faz um desfile épico desde 1995. O desfile de 2012 foi empolgante, mas ainda aquém do que a Portela pode pela sua grandeza, mesmo indo na contramão dessa tendência mercantilista.
 
A Vila Isabel também é outra que vem alternando bons e maus enredos. Chegou a exaltar o centenário de Noel Rosa, mas fez enredos pagos sobre a Venezuela, sobre cabelos e sobre Angola, embora este último tenha proporcionado um belo desfile porque a escola foi muito competente e tem tradição em falar das raízes africanas

Outras escolas como Salgueiro, Tijuca, São Clemente, Mocidade, entre outras, também vêm alternando boas e más escolhas de enredos, motivadas por dinheiro ou não.

O que temo (e por enquanto vai acontecendo) é que esse decréscimo da importância dos desfiles de escola de samba cresça a cada ano. Afinal, se os enredos já são natimortos, os sambas na maioria das vezes também não atraem o público (ou telespectadores) para o desfile e o Carnaval vira meramente um concurso de escola de samba e não uma confraternização popular, o que seguraria a atenção do público?
 
[N.do.E.: tanto eu quanto o colunista Aloisio Villar, compositor de samba enredo, divergimos em parte. De 2010 para cá começa a haver um tímido renascimento do gênero samba de enredo.]
 
Será que apenas a grana, seja dos ingressos, da TV ou dos patrocinadores, será suficiente para manter o Carnaval do Rio no imaginário popular?

Ou ninguém está aí para isso?

P.S.: na semana que vem comentarei os sambas de 2013 do Grupo Especial do Rio.

sábado, 20 de outubro de 2012

Buraco da Fechadura - "Prazer na dor"



Neste sábado, mais uma edição da coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a “Buraco da Fechadura”.

Prazer na dor

Silvana era uma mulher independente, bem resolvida. Na altura de seus quarenta anos de idade era casada com Fábio há quinze e mãe de dois filhos, um de doze e outro de dez. Era o que podíamos chamar de uma pessoa feliz.

Formada em psicologia, especializou-se em sexo, tornando-se a mais importante sexóloga do Rio de Janeiro. Atendia inúmeras pessoas por semana, lançou livros onde falava de sexo e essa popularidade fez com que ganhasse um programa de rádio todos os dias: de onze à meia noite.

O programa de rádio era o xodó de Silvana.

Lá ela ouvia casos dos ouvintes, que contavam sobre suas vidas sexuais e suas dúvidas. Silvana ouvia a tudo atentamente e depois dava conselhos. Algumas histórias eram bizarras, como o rapaz que ligou desesperado por estar com uma garrafa de refrigerante entalada no ânus. Contudo Silvana tinha que conter o riso e responder a tudo com seriedade.

Na tarde seguinte, na hora do almoço, Silvana sempre se reunia com as amigas para almoçar. Gargalhavam lembrando as histórias da noite anterior. Lá Silvana deixava transparecer todo seu desdém e deboche com os problemas sexuais de seus ouvintes. Na tarde seguinte do caso do rapaz em especial pediram um refrigerante de dois litros e tentavam imaginar como o pobre coitado se entalou.

Fábio, empresário de uma multinacional, comunicou à esposa que teria que passar um mês na Alemanha, em treinamento. Silvana, apaixonada pelo marido mesmo com quinze anos de casados, lamentou a situação, mas compreendeu e dedicou-se vinte e quatro horas ao trabalho.

No período de viagem de Fábio ocorreu algo que mudaria a vida de Silvana.

Silvana atendia normalmente aos ouvintes quando entrou no ar a ligação de um homem com voz grossa, bonita como a de um cantor. Silvana perguntou qual era sua dúvida e o homem respondeu que não tinha nenhuma, apenas queria contar a sua história.

Silvana tentou interromper dizendo que o programa não era para contar histórias, mas tirar dúvidas quando o homem começou seu relato. Apresentou-se como Lord Perversus e era dominador, adepto do BDSM.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Final de Semana - "Meu Mundo Caiu"


Quem me conhece mais de perto sabe que venho atravessando um período bastante complicado em termos pessoais, com alguns problemas sérios, fortes questionamentos internos e que, inclusive, me levaram a procurar ajuda especializada.

Escrevo esta introdução pois estava brincando outro dia com amiga no Twitter de que não poderia ouvir as canções da cantora Maysa (1936-1977), pois do jeito em que eu estava iria "esfregar os pulsos no meio fio". Suas (belas) canções são tristes, quase depressivas, talvez reflexo da vida bastante atribulada da cantora - que foi retratada em competente minissérie recentemente.

Nosso tema para este final de semana é justamente "Meu Mundo Caiu", canção de 1958 de autoria da própria Maysa  - o que era raro à época - e que aqui aparece em também rara versão preservada do mesmo ano. Reza a lenda que a cantora estava "calibrada" na gravação deste que hoje chamaríamos de clipe - o termo não existia à época.

Embora minhas questões não tenham nada a ver com o lado sentimental, a letra é um bom retrato de meu momento atual.

"Meu Mundo Caiu"

"Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim

Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí


Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar"

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cinecasulofilia - "Cosmópolis"


Excepcionalmente nesta quarta feira, a coluna "Cinecasulofilia", do crítico de cinema, professor e cinesas Marcelo Ikeda, fala do novo filme do diretor Cronenberg, "Cosmópolis".

Como habitual, coluna publicada em parceria com o blog de mesmo nome.

Cosmópolis

Não sei muito o que dizer sobre o último filme de Cronenberg, COSMOPOLIS, que tem dividido opiniões entre “o amo e o odeio”. 

Posso dizer que é um filme corajoso, que escapa dos padrões que normalmente se esperariam do cinema de Cronenberg. Um filme austero, um conjunto de tableaux independentes, meio teatral, bastante verborrágico. 

Um filme que poderia ter sido feito por Kiarostami, tamanhas as cenas no interior de um carro (uma piada boba, já que o filme é bem diferente dos de Kiarostami). Um filme corajoso, uma produção de Paulo Branco.

O tédio. 

O tédio, novamente ele. 

Me parece claro que Cronenberg quer fazer uma certa parábola política sobre o nosso tempo e sobre os rumos do capitalismo atual e da especulação financeira. Da virtualização das relações no mundo contemporâneo. Fala de um bilionário que se trancafia num carro e no seu próprio mundo de números. Enquanto isso, o mundo, o amor estão lá no extracampo. O extracampo pulsa muito forte nesse filme, que também é sobre o não-mostrar.

A questão é o ponto de vista. 

O tom sóbrio, frio e calculista do filme me lembra um pouco de Shame, de McQueen. Mas apesar de ambos os filmes assumirem o ponto de vista de seu personagem como chave para um certo tom de uma narrativa (buscar acompanhar um desmoronamento por dentro), acontece que Cosmopolis não se preocupa tanto com as motivações psicológicas de seu personagem. 

É isso o que frustra o espectador, que nunca consegue se identificar com seu personagem nem odiá-lo por completo (há algo infantil nele mas tampouco é um filme infantil). Cosmopolis não é feito para agradar ou seduzir o espectador. É um filme estranho, descontínuo. 

Sua opção narrativa é radical: ainda que o filme possua uma linearidade (até física: percorrer ruas da cidade até ir a um barbeiro para cortar o cabelo, enquanto enfrenta obstáculos – o engarrafamento, as manifestações, as ameaças de morte, a falência financeira), Cosmopolis é preenchido por um conjunto de microhistórias que não se fecham por completo e que surgem quase por acaso, envolvendo um conjunto de personagens que aparecem e desaparecem sem muita explicação. 

Outro ponto que não agrada ao espectador é seu tom farsesco, um tom curioso com pitadas que oscilam entre o realismo, o surrealismo e um tom austero mezzo teatral. Uma ficção científica passada nos dias de hoje, narrada como se fosse um filme de humor como os de Wes Anderson. Cosmopolis não é feito para funcionar, e isso é muito positivo.

Tudo isso gera um mal estar. Cosmopolis é um filme ensaio. 

Visualmente preciso, plasticamente impressionante, especialmente pela direção de arte. Tudo em seu lugar. É isso o que me incomoda. Parece que está sempre tudo ao controle de Cronenberg. O diretor diz que seu filme é o primeiro filme sobre o novo século. Prefiro os filmes de Hou Hsiao Hsien.

Enquanto Cronenberg denuncia o vírus do tédio da esquizofrenia, Hou Hsiao Hsien observa a possibilidade de viver mesmo diante desse cenário desalentador. A questão é de ponto de vista. Apesar de mais ousado e corajoso em sua forma narrativa, é como se Cosmopolis carecesse de problemas parecidos com os de Shame. 

São dois filmes tão deslumbrados com a necessidade de fazer bom cinema que não se abrem ao mundo, assim como seus personagens. Talvez eu tenha me lembrado de Hou Hsiao Hsien quando vi Juliette Binoche, tentando se esforçar para compor uma personagem. No filme de Hou Hsiao Hsien ela vive: ela é uma personagem sem que nos demos conta disso. 

Claro, são opções de encenação, mas são também formas de ver o mundo. Em seus últimos filmes, Cronenberg tem procurado “ser menos Cronenberg” e há algo de muito positivo nisso. Até porque se pensarmos bem, existe uma certa continuidade entre suas obsessões. 

Nos últimos filmes, há uma busca por uma depuração de estilo, por uma austeridade que não havia em seus primeiros perturbadores filmes. Sempre existiu uma proposta, sem dúvida, mas aqui essa proposta assume um peso que oprime o filme. 

Se COSMOPOLIS precisa se apresentar como um filme político escancaradamente, isso deprecia a própria trajetória de Cronenberg, por não perceber que seus primeiros filmes talvez sejam bem mais políticos que este, porque apontavam para uma política da encenação muito mais ousada e radical. 

John Carpenter, cujos filmes possuem indiscutíveis paralelos com toda uma produção de Cronenberg, falou uma coisa interessante sobre Cosmopolis: que Cronenberg precisava ter cuidado porque estava se levando a sério demais. 

Sábias palavras.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Abre a roda, chegou Madureira!


Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores por somente estar colocando o resultado aqui hoje. Passei o final de semana acompanhando parente internado em hospital e pouco pude estar em casa.

Feita a necessária explicação, é com alegria que informo aos leitores que mais uma vez a Portela escolheu aquele que pode ser o samba do ano, tal e qual 2012.  A parceria de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete é quem assina o samba para o carnaval 2013, para gáudio dos verdadeiros portelenses e do escriba deste post.

Aliás, na última quinta feira este blog acertou na mosca o resultado.

Não nego que sou amigo de um dos autores do samba, mas em termos de Portela sempre torço para aquela que é a melhor composição a nos representar na avenida. Quando coincide, como ocorreu nestes dois últimos anos, melhor ainda.

Vale lembrar que este resultado portelense sinaliza uma mudança importante na política da escola. O Diretor de Carnaval Júnior Scafura, imbatível outrora, é derrotado pelo segundo ano consecutivo. Isso deve ter reflexos nas eleições que se aproximam na escola, logo após o carnaval de 2013.

O samba campeão ainda teve de superar uma apresentação problemática da bateria para obter a vitória na última sexta feira. Mas o Portelão lotado levou o samba no gogó e deixou claro que era a melhor opção para representar a Águia no desfile oficial.

Este resultado também é importante por significar a resistência portelense às chamadas "firmas" de samba enredo, grandes ajuntamentos de compositores que escrevem em várias escolas. Os autores do samba portelense para 2013 são da casa, e, mais importante: quem assina é quem realmente faz.

Vamos à letra do samba campeão, que deve sofrer pequenos ajustes na melodia para sua gravação oficial:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"


Sobre outras escolas, como já se sabia desde priscas eras, a parceria "galáctica" da Vila Isabel (André Diniz, Martinho da Vila e Arlindo Cruz) venceu a disputa e deve disputar com o samba portelense os prêmios de melhor do carnaval 2013.

A meu juízo, é um samba muito bom, mas que talvez não obtivesse a repercussão que teve se não tivesse as assinaturas famosas que tem. Por outro lado, a disputa da Vila se configura complicada, porque André Diniz, dono de um imenso talento, possui uma posição de poder bastante monolítica dentro da agremiação, o que torna bastante desigual a disputa.

O leitor pode ver abaixo a apresentação do samba vencedor.


Na União da Ilha, uma vez mais a política prevaleceu na escolha e, em minha opinião e na de muitos analistas, se escolheu aquele que era o pior samba da final, o da parceria de Junior, Ginho e outros. Vinícius de Moraes merecia um samba mais melodioso e, acima de tudo, menos chato. Pena.

Aliás, este é um ponto que se deve frisar: as escolhas como um todo vem privilegiando fatores políticos acima de outros fatores, com raras exceções como a ocorrida na Portela. A qualidade do samba, decididamente, vem ficando em segundo plano na maioria das agremiações.

Além disso as chamadas "firmas" de samba enredo este ano estão consolidando seu domínio absoluto, em especial no principal grupo de escolas cariocas.

Ressalte-se também a escolha da Grande Rio, que optou por uma composição até bastante razoável tendo em vista o enredo panfletário sobre os royalties do petróleo.

A safra de samba 2013 vem se configurando até bastante razoável tendo em vista a quantidade de enredos disparatados escolhida este ano. Dois sambas de antologia (Portela e Vila, novamente) e alguns bastante interessantes.



(Vídeos: Carnavalesco)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Final de Semana - "Pastor Trambiqueiro"


Neste feriadão, nossa faixa musical traz uma das músicas mais críticas do repertório do grande sambista Bezerra da Silva: "Pastor Trambiqueiro". A canção é uma das primeiras a criticar a primazia pelo dinheiro verificada em muitas das seitas pentecostais.

O curioso é que o cantor, ao final da vida, era membro da Igreja Universal do Reino de Deus. Mas a letra do samba é uma descrição de muitos destes pastores que encontramos por aí.

"Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente
é o diabo vivo em figura de gente
é o pastor trambiqueiro enganando inocentes

prestem bem atenção, o enredo macabro que ele arruma
seu critério maior é falar mal da macumba
dizendo que à ela também pertenceu
sim, mas só não foi em frente porque a chefe do terreiro é a Vera
não aceitou o jogo sujo da fera que vive assim só de arrumação
ele também não explica o porque da mudança da água pro vinho
só porque não umbanda não vale dinheiro
resolveu ser crente pra roubar os irmãozinhos
não é fé que ele tem,é simplesmente a febre do ouro
custa caro a palavra de Deus, o pastor chega pobre e arruma tesouro

Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente
é o diabo vivo em figura de gente
é o pastor trambiqueiro enganando inocentes"

Finalistas da Portela 2013


Amanhã, dia 12 de outubro, feriado da Padroeira do Brasil, a Portela irá escolher o samba enredo que será o hino oficial da escola para o carnaval de 2013.

Devido ao feriado e ao fato de que a feijoada oficial será realizada no dia 13, sábado, a final será realizada em horário alternativo: irá se iniciar às 19 horas, com o resultado previsto para algo em torno de uma hora da manhã. Pessoalmente, faria ainda mais cedo, mas achei uma boa iniciativa da diretoria da escola.

Como escrevi nos dois posts de agosto, após a primeira eliminatória, a safra de 23 sambas acabou se revelando aquém do que se poderia esperar pelo enredo. Como também escrevi naquela ocasião, o afastamento de vários dos principais compositores da disputa portelense acabou se refletindo diretamente na disputa de samba deste ano.

Temos quatro composições nesta grande final de amanhã. Já digo ao leitor que pelo menos duas delas, a meu ver, não apresentaram desempenho para estarem presentes nesta final, mas temos de respeitar o critério utilizado.

Ainda assim a Portela tem tudo para levar um samba extraordinário para a avenida. Um a um, vamos aos concorrentes, lembrando que tudo que está escrito neste post é minha opinião pessoal em cima do que vi na quadra nas duas eliminatórias a que estive presente e em demais fatores que observei.

Vamos aos finalistas, um a um.

1) Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete.



A parceria atual campeã (no alto em gravação das oitavas de final e acima, da semifinal), como já escrevi aqui outras vezes, conseguiu fazer uma composição ainda melhor que o espetacular samba de 2012. Remetendo à curimba e ao partido alto em sua melodia, trilha um caminho diferenciado em sua melodia. A letra descreve o enredo sem se prender à descrição da sinopse.

Não diria que a fatura está totalmente liquidada, mas a meu ver é a franca favorita à vitória, pela altíssima qualidade do samba e por suas últimas apresentações. Abaixo o leitor pode ver a letra:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"

2) Neyzinho do Cavaco, Flavio Viana, Charles Braga, Celso Lopes e Fadico



Este é o outro samba que pode se sagrar vencedor, embora a meu juízo com menores chances que a parceria anterior. Segundo a "rádio corredor", na verdade a composição seria de autoria de uma das maiores firmas de samba enredo do Rio de Janeiro. Embora obviamente nada se fale de forma oficial, faço o registro do burburinho - coisas de disputas.

Além disso, seu refrão principal é muito semelhante ao de um outro samba (parceria de Marquinho Marino), que é finalista na Mocidade Independente também para 2013 e que tem os seguintes versos, bastante semelhante ao do samba em questão: 

"Eu sou Mocidade e quero respeito!
São cinco estrelas bordadas no peito
Nós vamos à luta... Fazer diferente
É rock in rio... Sou a ''tribo independente''

O refrão do finalista portelense é o seguinte:

"Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !    
Cantando a capital do samba"

Estão presentes duas ideias comuns, a alusão ao número de títulos "bordada no peito" e o pedido de respeito. Quem "se inspirou" em quem não sabemos, mas faço o registro.

É o samba apoiado pelo Diretor de Carnaval Júnior Scafura e pelos segmentos da escola a ele ligados. É um samba bastante convencional, com diversos clichês em sua letra, embora não seja ruim. Tem algo que particularmente me incomoda: sua melodia parece de samba da Mangueira.

Pode até sair com a vitória, em especial devido aos seus apoios políticos. Mas está distante de ser favorito - é zebra.

Passemos à letra:

"Lá... Onde o samba faz morada
Lá... Encontrei o meu lugar
Um manto azul e branco em fantasia
Riscando todo o chão de poesia
Por tão rara beleza o meu coração... Se deixou levar...
Viajo pelos trilhos do passado
De novo o coração bate apressado
Lembrando a minha escola a desfilar... E o povo a cantar...
Naquela batucada brasileira
De Paulo Benjamim de Oliveira
Ao longe ouço o som de um tambor... Quando alguém anunciou... 

Madureira... Num jardim de poesia a fina flor 
Dos malandros e mulatas...
Do mercado à boemia
A minha eterna mania de amor

Teatro, cinema
Tem jongo à luz do luar
Bom futebol, cerveja no bar
Um charme pra gente dançar
Na fé... Dos meus orixás
Seguindo caminhos de paz
De um povo que tem a alma guerreira
E leva o samba na veia
Império de poetas imortais
Não posso conter a emoção
Orgulho que sinto ao pisar nesse chão
Ah meu lugar! Difícil é saber terminar

Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !    
Cantando a capital do samba"

3) Jurandy Santanna, Almir Lua, Dico da Portela, Carlos Alberto e Barriga



O terceiro samba da final manteve uma regularidade durante toda a disputa, sem se destacar mas também sem ter defeitos evidentes. Eu pessoalmente faria a final com apenas três sambas, mas com quatro esta composição e o samba do compositor Naldo - eliminado nas oitavas de final - disputariam a quarta vaga.

É composição correta, com uma segunda parte a meu ver como o ponto alto do samba. Mas a meu ver faz figuração na disputa.

Passemos à letra.

"Se um dia...
Um dia, esse manto azul e branco
Entrou em minha vida e me fez marejar
Conquistou meu coração, fez o povo delirar
Qual Paulo Benjamim já fez um dia
Peguei o trem da alegria fui parar em Madureira
Chegando lá, senti a força dessa gente
A raiz vem da semente, cultura, fé e devoção
Cantando fui, me embalar na batucada
Para trilhar a caminhada, sem o samba não posso ficar...

Na ginga o malandro, levou a mulata
Mercadinho virou mercadão
Teatro, cinema, mistura de raças
Tem futebol e religião

Caminhando...
Caminhando nos caminhos da folia
Vesti a fantasia e fui me acabar
Nos blocos, coretos e cordões
Pierros e colombinas
Envolvendo os salões
No carnaval...
Sem ter orgulho nem vaidade
Hoje o sonho é realidade
Portela e Império em plena comunhão
Portela...
Tu és, amor, felicidade
No samba és a majestade
Madureira sempre foi teu lugar

A minha Portela me fez viajar
O meu coração se deixou levar
Encontrei meu lugar, celeiro de bambas
Eterna capital do samba"

4) Gérson PM, Beto da Portela, Marlene Flôres, Pepita Abrantes e Marcos Glorioso


Fechando os finalistas, um samba que a meu juízo deveria ter sido cortado ainda na primeira eliminatória, dois meses atrás: o da parceria de Gerson PM.

É uma composição cuja melodia está mais para música sertaneja que para samba de enredo, o que lhe valeu o apelido de "sambanejo" nas redes sociais. A vontade que ele suscita é de se dançar quadrilha de São João e não desfilar na Sapucaí.

Sinceramente não entendo como ele está na final, ainda mais quando se sabe que o bom samba da parceria de Edson Batista, que cresceu muito durante a disputa, caiu na semifinal. Menos mal que, ao que tudo indica, somente fará número.

Vamos à letra.

"Nesta linda noite de magias
Emoções e fantasias
Bailam poesias no ar
Portela...
Minha paixão virou mania
Nesse encanto em harmonia
Deixa a águia guerreira te levar 

Que amor é esse que me faz sambar?
Veste o azul e branco, você vai gostar
Vem no trem da alegria
Da senzala ao dia a dia
Nesse balanço vou me apaixonar 

Assim lá vou eu...
Pelos caminhos dessa rica trajetória
A arte e a cultura dessa gente
E o comércio envolvente
Engrandecem o meu lugar
Das boêmias ao luar
Dádivas da inspiração
Recanto da coroa imperial
Reduto de bambas
E da majestade do samba
De Paulinho da Viola
Poetas e sambistas geniais
De orgulho e tradição dos carnavais 

Me leva...Madureira!
Deixa o meu coração festejar...festejar!
Noventa anos de histórias
Lindas páginas de glórias
Portela faz o povo cantar"

Termino acreditando que a diretoria da escola leve para a avenida o samba da parceria de Wanderley Monteiro, por ser o melhor da disputa e ter totais condições de repetir o sucesso do samba de 2012. Outro resultado, a meu ver, seria bem inesperado.

Não poderei ir à final amanhã por estar com problemas de saúde na família, mas ao leitor que se animar a ir, um conselho: chegue cedo. De qualquer forma, sites especializados farão a cobertura em tempo real e colocarei aqui o resultado.

(Vídeos: Carnavalesco)