Excepcionalmente nesta sexta feira, a coluna "Sabinadas", do jornalista - e mangueirense - Fred Sabino, fala um pouco sobre os enredos do carnaval 2013 e sua característica "mercantilista".
Enredo Complexo
Mais um Carnaval está chegando e, depois de um 2012 com alguns bons enredos, veremos na Marquês de Sapucaí temas com conteúdo duvidoso. Enredos que, para falar o Português claro, não acrescentam ou acrescentam pouquíssimo, ou mesmo nem sequer servem para proporcionar um desfile no qual o componente se divirta.
É evidente que cada escola tem liberdade para escolher seu próprio enredo e elas não precisam repetir uma fórmula todo ano. Entendo ainda que as agremiações precisam de recursos. Mas reflitamos: enredos sobre Alemanha, Rock in Rio, Cuiabá, Coreia do Sul, mangalarga marchador, novelas, petróleo são mesmo condizentes com essa festa popular?
Isso, como já foi amplamente explanado aqui no Ouro de Tolo, só confirma a mercantilização de muitos aspectos numa escola de samba: desde a escolha do tema em si (hoje, enredos de verdade são poucos), do samba-enredo e até dos profissionais (alguns, muitíssimo bem pagos).
Nos últimos anos, a Estação Primeira de Mangueira até que teve bons enredos sobre música, Nelson Cavaquinho e Cacique de Ramos, mas também temas totalmente "merchan" como energia (2005). Em 2013 falará sobre Cuiabá, com contribuição generosa do governo local. E, em 2008, a escola deixou de homenagear o centenário de Cartola para cantar o frevo. Com aporte financeiro, claro.
[N.do.E.: vale lembrar que a Mangueira preteriu o centenário do grande Jamelão para 2013. O magistral intérprete será enredo da Unidos do Jacarezinho, na Série Ouro, escola que é uma espécie de "filial" da verde e rosa.]
A Portela, a grande Portela, ano passado renasceu com o enredo sobre as festas da Bahia e, em 2013, levará a história de Madureira para a avenida. Muito bacana! Só que, mesmo tendo estes enredos mais culturais, nos anos anteriores também repetiu esta forma de enredos patrocinados.
Ainda que tenha havido esta mudança de orienrtação, são enredos abaixo de momentos clássicos da Majestade do Samba, que infelizmente não faz um desfile épico desde 1995. O desfile de 2012 foi empolgante, mas ainda aquém do que a Portela pode pela sua grandeza, mesmo indo na contramão dessa tendência mercantilista.
A Vila Isabel também é outra que vem alternando bons e maus enredos. Chegou a exaltar o centenário de Noel Rosa, mas fez enredos pagos sobre a Venezuela, sobre cabelos e sobre Angola, embora este último tenha proporcionado um belo desfile porque a escola foi muito competente e tem tradição em falar das raízes africanas
Outras escolas como Salgueiro, Tijuca, São Clemente, Mocidade, entre outras, também vêm alternando boas e más escolhas de enredos, motivadas por dinheiro ou não.
O que temo (e por enquanto vai acontecendo) é que esse decréscimo da importância dos desfiles de escola de samba cresça a cada ano. Afinal, se os enredos já são natimortos, os sambas na maioria das vezes também não atraem o público (ou telespectadores) para o desfile e o Carnaval vira meramente um concurso de escola de samba e não uma confraternização popular, o que seguraria a atenção do público?
[N.do.E.: tanto eu quanto o colunista Aloisio Villar, compositor de samba enredo, divergimos em parte. De 2010 para cá começa a haver um tímido renascimento do gênero samba de enredo.]
Será que apenas a grana, seja dos ingressos, da TV ou dos patrocinadores, será suficiente para manter o Carnaval do Rio no imaginário popular?
Ou ninguém está aí para isso?
P.S.: na semana que vem comentarei os sambas de 2013 do Grupo Especial do Rio.
Divulgo aqui evento que será realizado pelo Centro Cultural Cartola em conjunto com o PortelaWeb, do qual faço parte. Será um evento muito interessante a todos que apreciam a cultura brasileira e recomendo muito a presença aos leitores.
Reproduzo abaixo o release de divulgação do evento. Espero todos lá.
"Iniciando as comemorações dos 12 anos do Portelaweb, a equipe do site, o Centro Cultural Cartola e o jornalista Alexandre Nadai e o 'Samba Zé Samba' unem os projetos Cine Debate e Velhos Malandros, no próximo dia 27, a partir das 14h.
No Cine Debate, que vai para sua terceira edição, o tema é o enredo da Portela de 1995, “Gosto Que Me Enrosco”, considerado por muitos críticos uma aula de desfile de escola de samba. Personagens do histórico desfile da Águia estarão debatendo o carnaval que levou a escola ao vice-campeonato daquele ano, com um samba antológico.
Estarão compondo a mesa de debates o intérprete Rhychahs, o diretor de bateria Mestre Mug, o diretor de harmonia Djalma, o mestre-sala e coreógrafo de comissão de frente Jerônymo, e Júnior Escafura, filho do ex-presidente da Portela Luiz Carlos Escafura. Completam a mesa os integrantes do Portelaweb Fábio Pavão(mediador) e Paulo Renato Vaz(comentarista).
Logo depois, a roda dos Velhos Malandros, que tem como característica o resgate da história de grandes nomes do samba, presta homenagem ao aniversário do Portela Web e exalta o “Orgulho de Ser Portelense”, relembrando sambas antológicos. E o melhor: a entrada é gratuita.
No “Velhos Malandros”, o Samba Zé Samba tem Ruy Ipanema (violão), Maurício Monteiro(cavaco/voz), Vanessa Reis(banjo/voz), Rafael(cavaco), Julia Simões(percussão/voz), João Mandarino(tantan/voz) e Jorginho(pandeiro). O jornalista Alexandre Nadai é o mestre de cerimônias da roda, que recebe alguns dos principais nomes do samba e abre espaço para os compositores mostrarem suas obras.
Desde o início do projeto, em 03 de dezembro de 2011, já passaram pela roda nomes como: Zé Luiz do Império, Tia Surica, Tiãozinho da Mocidade, Zeh Gustavo, Bia Aparecida, João da Valsa, Adilson Bispo, Noca da Portela, Jorge Callado, Jorgynho Chinna, Lúcia Garcia, Samba Na Fonte, Lu Fogaça, Pecê Ribeiro, Anderson Baiaco, Renatinho Partideiro, Marcos Diniz, Juninho Thybau, PQD da Portela, Roberto Serrão, Rod da Mangueira, Djalminha da Mangueira, Samba de Benfica, João da Valsa, Ivan Milanez e Tânia Malheiros.
No repertório, além dos sambas inéditos, serão lembrados nomes como Nelson Cavaquinho, Jacob do Bandolin, Beto Sem Braço, Cartola, Paulo César Pinheiro, Noel Rosa, Almir Guineto, Candeia, Delcio Carvalho, Mauro Diniz, Wanderley Monteiro, Noca da Portela, Wilson Moreira, Wilson das Neves, Nei Lopes, Nelson Sargento, Monsueto, Camunguelo entre outros.
O Samba Zé Samba tem como base os Zés do nosso Brasil, representados na figura do malandro, do sambista, do capoeirista, antes discriminados, mas que hoje tem a sua arte reconhecida. Lembra também o Zé Pereira, um dos principais personagens do carnaval carioca.
Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio
Villar, traça um perfil preliminar dos sambas de enredo do Grupo Especial para
o carnaval 2013.
Complementando a informação do colunista, Cláudio Russo sagrou-se campeão na Beija Flor na última quinta feira.
Por outro lado, por determinação exclusiva da diretoria da escola o samba da Portela sofreu alterações significativas para a gravação oficial, que tiraram boa parte do brilhantismo da composição. Continua sendo um dos melhores para 2013, mas perdeu qualidade, infelizmente.
Os Autônomos e os Sambas 2013
Nesse momento em que escrevo (final da noite de quarta)
faltam apenas dois sambas no Grupo Especial do Rio de Janeiro para serem
escolhidos. Nessa última madrugada duas escolas fizeram suas finais: Imperatriz
Leopoldinense e Inocentes de Belford Roxo. Ainda faltam duas, Beija-Flor e
Unidos da Tijuca.
E o que acho dos sambas pra 2013?
Sei lá, não conheço quase nenhum.
Bom, pelo que disse acima devia encerrar aqui essa coluna
sobre os sambas do ano que vem, né?É,
poderia, mas dá para avaliar assim mesmo até porque o estilo dos sambas, as
parcerias que venceram e a qualidade que cada escola nos oferece não mudaram
muito durante os anos. Além disso, está tudo muito parecido com 2012.
A diferença é que não estou no CD.
Algumas surpresas aconteceram, como a escolha da Inocentes
nessa madrugada. Cláudio Russo perdeu. Ganhou a parceria do Billy. Ainda não
ouvi o samba, mas ele foi bastante elogiado na escolha.
Essa eu acho que ninguém esperava. Cláudio Russo, compositor
oriundo da Portela, é um dos melhores compositores da atualidade. Costuma
escrever com qualidade e grande estrutura para várias escolas de quase todos os
grupos do carnaval carioca.
Apesar de negar, o Cláudio é um dos símbolos do que chamamos
hoje em dia de firma ou escritório. Compositores que sem assinar colocam sambas
em várias escolas, pegando compositores dessas escolas para assinar seus sambas.
O esquema firma/pombo (nome dado a quem assina sem escrever) ainda tem seus
segredos e obscuridades muito por culpa desses compositores que não assumem a
prática - que não é ilegal.
Vários sambas escolhidos no Especial do Rio esse ano e em
outros anos chegam ao público com essa suspeita de pertencer a firmas.
Não vou aqui apontar quais sambas são de firmas ou suspeitos
de ser, apesar de saber alguns. Seria leviano e antiético. Quem acompanha de
perto os concursos de samba-enredo sabe só de ver qual cantor defende o samba
na quadra e o estilo da melodia.
Antigamente a gente ouvia um samba e dizia só na audição que
era de escola A ou B; hoje ouvimos e falamos que é de compositor A ou B.
Mas se tudo caminhar bem o Russo ainda deve emplacar um
samba assinando no Especial. Na Beija-Flor de Nilópolis éfranco favorito e pode significar a primeira
vitória de Miguel Menezes na agremiação. Ele foi bicampeão na União da Ilha em
2003/2004 e há anos busca esse título em Nilópolis.
Na Tijuca não ouvi muita coisa, mas como sempre deve ficar
entre as parcerias do Josemar Manfredini e do Totonho (detalhe, todos os sambas
já estarão escolhidos quando a coluna for ao ar). Ouvi o do Josemar e gostei, é
padrão dos últimos anos da Tijuca - que mesmo com algumas pessoas torcendo o
nariz leva ao título.
Mangueira foi a primeira a escolher e escolheu samba da
parceria do Lequinho, compositor tradicional da escola e campeão não só nela
como em muitas escolas. São Clemente inovou e fez junção. A junção propriamente
dita não foi novidade: a novidade fica por conta de Gabriel Mansilha que em sua
estreia como compositor, assinando sozinho, conseguiu vencer um concurso no
grupo especial. Isso é algo dificílimo.
Salgueiro e Mocidade a meu ver escolheram sambas melhores
que seus enredos e principalmente ouvindo o que suas comunidades queriam. Fico
feliz especialmente pelo amigo Marcelo Motta. Cara formidável, humilde, um dos
caras mais bacanas que já conheci no samba - que chega ao seu quarto título na
Academia.
Imperatriz escolheu o samba da parceria do Me Leva. Apesar
de muita gente da escola preferir o samba do Zé Katimba, o samba é bom e foi
bem aceita sua vitória. Nas duas últimas vezes que essa parceria venceu o
concurso venceu também o Estandarte de Ouro de melhor samba, provando que tem
qualidade.
A Grande Rio também escolheu uma parceria tradicional de sua
escola, a de Mingau e Cia. Esta era pule de dez na disputa da agremiação e a
escola cantará seu bom samba em defesa do Rio.
Agora vou falar das três escolhas que mais me chamam a
atenção. Por minha proximidade com a escola ou pela qualidade dos sambas.
A escolha da União da Ilha surpreendeu quase todo o mundo do
samba e mais uma vez, como em quase todos os anos, provocou polêmica.
Mas só quem não acompanha o Ouro de Tolo se surpreendeu com
essa vitória. Na coluna que escrevi aqui semana passada eu apontei o
favoritismo para o samba do Ronald, mas disse que crescia muito o rumor da
conquista desse samba. Disse que os quatro podiam vencer, mas foquei mais o
favoritismo nesses dois - quando a grande mídia apontava os outros dois.
Pois bem, os outros dois, os que a mídia e as pessoas que
acompanhavam pela internet esperavam chegaram sem chances na final. Eram bons
sambas, como o samba do Marcinho que era o que eu mais gostava, mas pesou
contra as duas parcerias os quatro anos de vitórias que seus líderes tinham.
Ficou entre os outros dois, mas logo no começo da final
vazou o campeão. O samba do Ginho é um samba correto, com uma letra muito
bonita, mas em alguns pontos a melodia cansa. Confio em seu crescimento na voz
do Ito Melodia e a ressaltar a alegria de ver o Ginho, uma pessoa muito digna,
correta e talentosa vencer na Ilha usando sua experiência de vida. Além de
estar aliado à juventude e garra do Junior que nunca desiste da luta e tem um
grande futuro pela frente.
Falar o que de Vila e Portela? Ganharam os sambas que eu
previ e fiz coluna aqui há um bom tempo atrás. De novo as duas escolas, de novo
as duas parcerias, de novo comandando o carnaval carioca.
As parcerias campeãs de Portela e Vila são iguais e muito
diferentes e nessa diferença se completam e formam uma nova rivalidade no
carnaval carioca, mas uma rivalidade sadia. É boa porque em cada canto de
quadra ou roda de samba vem a discussão “qual o melhor samba?”.
A Vila formou uma parceria que o Migão apelidou de
“galáctica” e é uma super parceria sim. É comandada por Arlindo Cruz, um dos
maiores nomes do samba atual, Martinho da Vila, um dos grandes nomes da história
do samba e de Vila Isabel e André Diniz, um dos melhores do nosso carnaval
atual e dono de sambas memoráveis.
Sobre o André vem a pecha também de ser comandante de uma
firma de samba-enredo. Mas seu talento suplanta todo o ‘disse me disse’,
principalmente com os sambas que fez nos últimos 20 anos pra Vila Isabel e a
junção desses três craques e seus parceiros fez um dos grandes sambas do ano.
Na Portela é o contrário. São nomes que já contavam com respeito
no samba, na MPB, mas que do ano passado pra cá decidiram virar o mundo do
carnaval de cabeça pra baixo.
Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo foram os donos do
carnaval 2012 com o “Madureira sobe o Pelô” que apelidei numa coluna aqui de
“Barcelona dos sambas”. Conseguiram repetir a dose esse ano abrindo a roda e
anunciando que lá vinha Madureira.
Em um carnaval que hoje é dominado pelas firmas, posso dizer
que Wanderley, Máximo e seus parceiros são os “autônomos do samba”, trabalhando
por conta própria, fazendo seus sambas sem inspiração vir de gente de fora.
E por incrível que pareça isso é raro hoje em dia. Uma parceria que
assina o samba e onde sabemos que foram eles que escreveram o mesmo.
Qual o melhor samba? Não sei e sinceramente nem me interessa
muito. Em vez de discutir essas coisas prefiro apreciar os dois grandes sambas.
Não dá ainda para fazer um ranking dos sambas 2013, dividir
entre bons e ruins. As escolas ainda estão na fase de gravação do coro, ainda
farão gravação oficial com os cantores, mixagem, lançamento das faixas, ensaios
técnicos.
Mas a princípio me parece seguir uma tendência que vem desde
2010. Um bom cd com alguns sambas se destacando e mostrando enorme
qualidade.
Enquanto você fica aí ansioso esperando as gravações
oficiais, vá em www.sambaderaiz.net. No site tem meu concorrente no Boi da Ilha e
meu concorrente junto com o Migão no Acadêmicos do Dendê. As duas finais serão
realizadas nessa próxima semana.
Amanhã, dia 12 de outubro, feriado da Padroeira do Brasil, a Portela irá escolher o samba enredo que será o hino oficial da escola para o carnaval de 2013.
Devido ao feriado e ao fato de que a feijoada oficial será realizada no dia 13, sábado, a final será realizada em horário alternativo: irá se iniciar às 19 horas, com o resultado previsto para algo em torno de uma hora da manhã. Pessoalmente, faria ainda mais cedo, mas achei uma boa iniciativa da diretoria da escola.
Como escrevi nos dois posts de agosto, após a primeira eliminatória, a safra de 23 sambas acabou se revelando aquém do que se poderia esperar pelo enredo. Como também escrevi naquela ocasião, o afastamento de vários dos principais compositores da disputa portelense acabou se refletindo diretamente na disputa de samba deste ano.
Temos quatro composições nesta grande final de amanhã. Já digo ao leitor que pelo menos duas delas, a meu ver, não apresentaram desempenho para estarem presentes nesta final, mas temos de respeitar o critério utilizado.
Ainda assim a Portela tem tudo para levar um samba extraordinário para a avenida. Um a um, vamos aos concorrentes, lembrando que tudo que está escrito neste post é minha opinião pessoal em cima do que vi na quadra nas duas eliminatórias a que estive presente e em demais fatores que observei.
Vamos aos finalistas, um a um.
1) Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete.
A parceria atual campeã (no alto em gravação das oitavas de final e acima, da semifinal), como já escrevi aqui outras vezes, conseguiu fazer uma composição ainda melhor que o espetacular samba de 2012. Remetendo à curimba e ao partido alto em sua melodia, trilha um caminho diferenciado em sua melodia. A letra descreve o enredo sem se prender à descrição da sinopse.
Não diria que a fatura está totalmente liquidada, mas a meu ver é a franca favorita à vitória, pela altíssima qualidade do samba e por suas últimas apresentações. Abaixo o leitor pode ver a letra:
"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios
Por onde me deixo levar
Laiá
Nossa história começa por lá
No engenho da fazenda
Dos cantos de “canaviá”
Bate o sino da capela
Ôi... Que é dia de santo, sinhá
Tem mironga de jongueiro
O tambor me chamou pra dançar
Tempo rodou na roda do trem e veio
A inspiração do partideiro
Que versou no mercadão
Foi nesse chão
Que a estrela brilhou no tablado
O “madura” pisou no gramado
O malandro charmoso dançou
No pagode com outro gingado
Quando o bloco chegou
Agitou o suingue do black
E a nega baiana girou
Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer
Surgiu a Serrinha imperial
Em outros caminhos para o mesmo ritual
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar
É a capital de um sonho que me faz sambar
Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"
2) Neyzinho do Cavaco, Flavio Viana, Charles Braga, Celso Lopes e Fadico
Este é o outro samba que pode se sagrar vencedor, embora a meu juízo com menores chances que a parceria anterior. Segundo a "rádio corredor", na verdade a composição seria de autoria de uma das maiores firmas de samba enredo do Rio de Janeiro. Embora obviamente nada se fale de forma oficial, faço o registro do burburinho - coisas de disputas.
Além disso, seu refrão principal é muito semelhante ao de um outro samba (parceria de Marquinho Marino), que é finalista na Mocidade Independente também para 2013 e que tem os seguintes versos, bastante semelhante ao do samba em questão:
"Eu sou Mocidade e quero respeito!
São cinco estrelas bordadas no peito
Nós vamos à luta... Fazer diferente
É rock in rio... Sou a ''tribo independente''
O refrão do finalista portelense é o seguinte:
"Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !
Cantando a capital do samba"
Estão presentes duas ideias comuns, a alusão ao número de títulos "bordada no peito" e o pedido de respeito. Quem "se inspirou" em quem não sabemos, mas faço o registro.
É o samba apoiado pelo Diretor de Carnaval Júnior Scafura e pelos segmentos da escola a ele ligados. É um samba bastante convencional, com diversos clichês em sua letra, embora não seja ruim. Tem algo que particularmente me incomoda: sua melodia parece de samba da Mangueira.
Pode até sair com a vitória, em especial devido aos seus apoios políticos. Mas está distante de ser favorito - é zebra.
Passemos à letra:
"Lá... Onde o samba faz morada
Lá... Encontrei o meu lugar
Um manto azul e branco em fantasia
Riscando todo o chão de poesia
Por tão rara beleza o meu coração... Se deixou levar...
Viajo pelos trilhos do passado
De novo o coração bate apressado
Lembrando a minha escola a desfilar... E o povo a cantar...
Naquela batucada brasileira
De Paulo Benjamim de Oliveira
Ao longe ouço o som de um tambor... Quando alguém
anunciou...
Madureira... Num jardim de poesia a fina flor
Dos malandros e mulatas...
Do mercado à boemia
A minha eterna mania de amor
Teatro, cinema
Tem jongo à luz do luar
Bom futebol, cerveja no bar
Um charme pra gente dançar
Na fé... Dos meus orixás
Seguindo caminhos de paz
De um povo que tem a alma guerreira
E leva o samba na veia
Império de poetas imortais
Não posso conter a emoção
Orgulho que sinto ao pisar nesse chão
Ah meu lugar! Difícil é saber terminar
Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !
Cantando a capital do samba"
3) Jurandy Santanna, Almir Lua, Dico da Portela, Carlos Alberto
e Barriga
O terceiro samba da final manteve uma regularidade durante toda a disputa, sem se destacar mas também sem ter defeitos evidentes. Eu pessoalmente faria a final com apenas três sambas, mas com quatro esta composição e o samba do compositor Naldo - eliminado nas oitavas de final - disputariam a quarta vaga.
É composição correta, com uma segunda parte a meu ver como o ponto alto do samba. Mas a meu ver faz figuração na disputa.
Passemos à letra.
"Se um dia...
Um dia, esse manto azul e branco
Entrou em minha vida e me fez marejar
Conquistou meu coração, fez o povo delirar
Qual Paulo Benjamim já fez um dia
Peguei o trem da alegria fui parar em Madureira
Chegando lá, senti a força dessa gente
A raiz vem da semente, cultura, fé e devoção
Cantando fui, me embalar na batucada
Para trilhar a caminhada, sem o samba não posso ficar...
Na ginga o malandro, levou a mulata
Mercadinho virou mercadão
Teatro, cinema, mistura de raças
Tem futebol e religião
Caminhando...
Caminhando nos caminhos da folia
Vesti a fantasia e fui me acabar
Nos blocos, coretos e cordões
Pierros e colombinas
Envolvendo os salões
No carnaval...
Sem ter orgulho nem vaidade
Hoje o sonho é realidade
Portela e Império em plena comunhão
Portela...
Tu és, amor, felicidade
No samba és a majestade
Madureira sempre foi teu lugar
A minha Portela me fez viajar
O meu coração se deixou levar
Encontrei meu lugar, celeiro de bambas
Eterna capital do samba"
4) Gérson PM, Beto da Portela, Marlene Flôres, Pepita Abrantes
e Marcos Glorioso
Fechando os finalistas, um samba que a meu juízo deveria ter sido cortado ainda na primeira eliminatória, dois meses atrás: o da parceria de Gerson PM.
É uma composição cuja melodia está mais para música sertaneja que para samba de enredo, o que lhe valeu o apelido de "sambanejo" nas redes sociais. A vontade que ele suscita é de se dançar quadrilha de São João e não desfilar na Sapucaí.
Sinceramente não entendo como ele está na final, ainda mais quando se sabe que o bom samba da parceria de Edson Batista, que cresceu muito durante a disputa, caiu na semifinal. Menos mal que, ao que tudo indica, somente fará número.
Vamos à letra.
"Nesta linda noite de magias
Emoções e fantasias
Bailam poesias no ar
Portela...
Minha paixão virou mania
Nesse encanto em harmonia
Deixa a águia guerreira te levar
Que amor é esse que me faz sambar?
Veste o azul e branco, você vai gostar
Vem no trem da alegria
Da senzala ao dia a dia
Nesse balanço vou me apaixonar
Assim lá vou eu...
Pelos caminhos dessa rica trajetória
A arte e a cultura dessa gente
E o comércio envolvente
Engrandecem o meu lugar
Das boêmias ao luar
Dádivas da inspiração
Recanto da coroa imperial
Reduto de bambas
E da majestade do samba
De Paulinho da Viola
Poetas e sambistas geniais
De orgulho e tradição dos carnavais
Me leva...Madureira!
Deixa o meu coração festejar...festejar!
Noventa anos de histórias
Lindas páginas de glórias
Portela faz o povo cantar"
Termino acreditando que a diretoria da escola leve para a avenida o samba da parceria de Wanderley Monteiro, por ser o melhor da disputa e ter totais condições de repetir o sucesso do samba de 2012. Outro resultado, a meu ver, seria bem inesperado.
Não poderei ir à final amanhã por estar com problemas de saúde na família, mas ao leitor que se animar a ir, um conselho: chegue cedo. De qualquer forma, sites especializados farão a cobertura em tempo real e colocarei aqui o resultado.
Excepcionalmente nesta quarta feira, o colunista Aloisio Villar nos traz uma edição extra da coluna "Orun Ayé". O tema é a final de samba para 2013 da União da Ilha, a se realizar no próximo sábado, a partir das 23 horas.
Pessoalmente minha torcida é pelo samba da parceria do Walkir, até porque a linha de dois dos outros sambas me leva a imaginar que sejam de "firmas" de compositores - ao menos me parece assim.
O leitor pode ouvir todos os sambas e formar a sua opinião nos vídeos deste post, realizados pelo site Carnavalesco.
Amanhã teremos a prévia da final da Portela, aqui mesmo. Mas vamos ao texto do colunista.
Os Finalistas da União da Ilha
Escrevo essa coluna na manhã do último sábado, dia 06. Acabei de chegar da semifinal da União da Ilha e os quatro finalistas já são conhecidos.
A tal disputa que disse ter sido a mais frustrante da minha vida chega ao fim de forma justa e imprevisível.
Os quatro melhores sambas, os que melhor se saíram durante o concurso estão nessa final. Não teve sacanagem ou roubalheira para chegar aos finalistas e são quatro bons sambas. Qualquer um dos quatro pode vencer o concurso que representará bem a União da Ilha na avenida.
Qualquer um dos quatro será melhor que o samba desse ano e que os dos últimos anos. Mérito dos compositores que mostraram talento e do enredo, que faz com que saiam grandes sambas. Vinicius de Moraes inspirou os poetas insulanos.
A disputa começou no fim de julho. Vinte e três sambas foram inscritos e ao contrário do ano passado, em que a escola teve uma safra fraca e ficou nítido no meio do concurso o que ocorreria, esse ano além dos quatro bons sambas outros sambas de boa qualidade entraram na disputa.
Três sambas que posso destacar e que poderiam estar nessa final foram os sambas da parceria do Lobo Junior e Bruno Revelação, parceiros meu e do Migão na vitória do ano passado e no concurso desse ano no Acadêmicos do Dendê, que começaram suas histórias como compositores na União da Ilha com um belo samba, melódico, poético e tendo a maior revelação dos últimos anos de nosso carnaval, Igor Sorriso, cantando o samba.
O belo samba dos garotos acabou prejudicado pela inexperiência deles, que sabendo que perderiam o Igor no meio do concurso por ele defender sambas em São Paulo, não se prepararam pra substituí-lo a altura.
O samba continuou passando bem, mas perdeu a grife e numa disputa do grupo especial ela é fundamental. Caiu quando tinha nove sambas.
O samba do veterano Almir da Ilha, vencedor de vários concursos da escola também era muito bom. Ousado, diferente, seguindo a característica de seu parceiro Kleber Rodrigues que já foi campeão no Tuiuti e na Imperatriz. O samba conseguiu muitos adeptos, principalmente na internet e caiu quando tinha sete. Foi defendido por Clovis Pê.
O outro era o samba do Paulinho Poeta, que contava na parceria com Bujão, um dos autores de Festa Profana. Bom samba, com passagem bem interessante do fim da primeira para refrão do meio, foi defendido por Alexandre D`Mendes e se despediu do concurso nessa semifinal.
Os quatro finalistas se nivelam.
O samba de Marcinho/Gabriel Fraga/Carlinhos Fuzil/Régis/Paulo Guimarães largou muito bem no concurso, pegando uma grande dianteira. Muito bem defendido por Tinga, o samba, poético, com algumas passagens melódicas lindas, parece ser o preferido do corpo da escola, ou seja dos segmentos.
O samba continuou passando bem pelo concurso, mas os outros conseguiram alcançá-lo e nivelar o concurso por cima.
A composição de Walkir/Jefferson Martin/Hebert Rosa/Fabio Sol/Ronaldo Rosa/Marquinhus do Banjo também conta com muito apoio, principalmente das alas de comunidade. Defendido por Quinho e Marquinhus, é mais extenso, conta o enredo com mais detalhes e tem um forte refrão do meio invocando os Orixás. Foi o que melhor se apresentou na semifinal.
Marcinho e Marquinhus são tetracampeões da escola e “abriram” a parceria esse ano, fazendo um duelo muito interessante. Marquinhus com mais de trinta anos de União da Ilha (mesmo tendo apenas quarenta e um anos) praticamente nasceu na escola e é muito querido.
Marcinho subiu dentro da agremiação de uma forma meteórica. Por muitos acusado de se beneficiar por ser filho do diretor de carnaval Marcio André, Marcinho vem mostrando valor e até posso dizer vem sendo injustiçado, muitas vezes com ofensas. Ser filho do Marcio acaba fazendo as pessoas não perceberem as inúmeras qualidades que tem.
Na parceria do Marcinho hoje tem o super campeão da escola e um dos meus mestres no carnaval Carlinhos Fuzil.
A parceria de Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Jair Turra, Professor Hugo e Eduardo Conti é a base da parceria finalista do ano passado. Tem um samba correto, preciso, com algumas passagens bonitas e um bom refrão. Junior vem defendendo o samba com muita garra na ausência de Wantuir e sua parceria com Ginho que vem do Boi da Ilha deu certo. Sempre fazem sambas de qualidade.
A parceria de Marinho, Alex Escobar, Ronald Pennaforte, Beto Mascarenhas, Cesinha e Igor também é uma parceria montada há anos, tendo esse ano o 'plus' de contar com o apresentador do Globo Esporte do Rio de Janeiro Alex Escobar. Mais uma vez vieram com um samba correto, preciso na defesa de enredo e forte no refrão principal com os dizeres “a emoção invade o meu peito”.
As parcerias de Ginho e Marinho contam com a torcida da juventude do bairro. Pessoas bonitas, alegres, que muitas vezes vão por amizade aos compositores sem necessidade de coisas que muitas vezes compositor tem que dar para torcida aparecer. Junior vem da “parceria da nova geração” que surgiu na segunda metade da última década e fez belas disputas na escola. A parceria de Marinho de 2009 pra cá se tornou força na agremiação. Em 2010 para muitos, inclusive pra mim, foi injustiçado e merecia a vitória.
E aí? Quem ganha?
Não sei. O disse me disse está muito forte esse ano e cada hora é direcionado a uma parceria. Como eu disse, é a disputa mais equilibrada dos últimos anos e qualquer um pode vencer. Vários fatos além da qualidade do samba contam numa hora dessa e acho que o fator político pode decidir esse ano.
Mas sei que o Migão vai querer uma posição minha, uma aposta e sem entrar nos méritos de cada samba e sem dizer se é meu preferido ou não (tenho sim meu preferido, mas não vou falar) eu aposto hoje no samba do Marinho, mas aposto sem firmeza alguma, só para apontar alguém.
Aposto pelo burburinho das últimas semanas que foi maior para ele, apesar de nos últimos dias ter aumentado para a composição do Ginho. Qualquer um dos quatro pode vencer que eu como torcedor da União da Ilha estarei feliz e me sentindo muito bem representado.
Esse ano não deu pra gente, mas do lado de fora aplaudo esses compositores por seus talentos e me orgulho da amizade de boa parte deles.
Iria escrever sobre as eleições que se aproximam, a incrível coincidência do julgamento de José Dirceu e José Genoíno ser na sexta feira antes das eleições e a demonstração de força dada pelo chefão da Globo Ali Kamel neste caso do Mansalão, mas irei deixar para lá. Esta semana ainda teremos uma outra "Bissexta" sobre a eleição de vereadores.
O tema de hoje será um anúncio feito pela mesma emissora ao final da semana passada: de que ela mesma irá transmitir o Grupo de Acesso do Rio de Janeiro. Como escrevi anteriormente, para 2013 os Acessos A e B foram fundidos em um único grupo, com 19 escolas, que desfilará sexta e sábado de carnaval.
Nos três últimos anos a emissora carioca comprou os direitos do Acesso A (que desfilava somente sábado) e repassou a outras emissoras: a Band nos dois primeiros anos e o SBT em 2012. O Acesso B, que desfilava terça (na foto, a homenagem da Tradição ao cartunista e escritor Ziraldo, ocorrida em 2012) não tinha transmissão comercial - apenas registros da própria entidade que coordenava o desfile e de organizações como o Sambanet.
A emissora comprou os direitos naquela ocasião a fim de afastar a possibilidade de ter a Record transmitindo estes eventos, conforme negociação que chegou a ser entabulada.
A decisão da Globo tem a ver com alguns fenômenos. O primeiro, o de aprofundar a estratégia de regionalizar a cobertura do carnaval já adotada em cidades como Porto Alegre, que mostra o desfile local e não o de São Paulo.
Segundo, a boa audiência dada pelo SBT em 2012, com um sólido segundo lugar geral. Terceiro, a meu ver, o pouco interesse despertado pelo desfile de São Paulo no público carioca.
Vale lembrar que o desfile, a princípio, terá transmissão apenas para o Estado do Rio de Janeiro.
Por outro lado, ter o desfile na Globo é algo positivo para as agremiações, ainda mais aquelas que pertenciam ao antigo Grupo B - que não tinha televisionamento. O aumento da exposição televisiva torna mais fácil o trabalho de marketing das escolas, ainda mais se estando na emissora líder de audiência. Além disso há um efeito indutor na procura por fantasias devido à maior divulgação antes do desfile.
Também deve se considerar que as escolas da Série Ouro terão o mesmo tratamento dispensado ao Grupo Especial no pré-carnaval. Eventos como a final do samba e os ensaios técnicos passarão a ser noticiados pela emissora, entre outros. Isso é bastante interessante às escolas.
Um ponto que deve ser observado é que o horário do início do desfile deverá ser alterado a fim de atender à grade da Globo. A previsão é de que o desfile se inicie às 22 horas, de acordo com fontes ligadas à entidade que coordena este grupo. Com isto, a primeira escola a desfilar nos dois dias (Unidos do Jacarezinho sexta e União de Jacarepaguá sábado), em tese, seria transmitida em vt ao final de cada noite.
O lado negativo é que, a princípio, o grupo perde a transmissão em rede nacional. O ideal a meu ver seria que houvesse algum tipo de transmissão em tv fechada, mais ou menos como é feito nas partidas de futebol - ainda que em PPV.
Aliás, em minha opinião e na de boa parte dos especialistas em carnaval - entre os quais não me incluo, sou apenas um aficcionado - a transmissão dos desfiles de carnaval tem muito o que melhorar.
Coordenada pela área de shows da emissora e não pelo jornalismo, a cobertura prima pelo tom acrítico. Tudo é divino, tudo é maravilhoso, os comentaristas não fazem quaisquer tipos de críticas a escola nenhuma - ainda quando é uma verdadeira "bomba" o que está passando - e há uma preferência por mostrar celebridades em detrimento de quem faz o carnaval.
Sem contar que a Globo coloca pessoas no alto do Setor 10, com as letras nas mãos e microfones de captação, para que cantem os sambas e dêem ao espectador um "clima de avenida". Obviamente, algo artificial - ou seja, a reação do público presente na Passarela do Samba mostrada na transmissão fica claramente distorcida, e isso não é positivo.
Em 2012 ainda melhorou um pouco, pois toda a escola foi mostrada. Em 2010, por exemplo, a Portela teve apenas quatro dos sete setores com imagens, entre outras.
Na prática fica muito difícil se fazer uma avaliação de resultado apenas com as imagens da tv. Isso fica muito claro quando se percebe que o desfile da Mangueira de 2012, por exemplo, foi um para quem estava na avenida e outro na televisão: os evidentes problemas, em especial de harmonia, não ficaram claros.
Momentos importantes como o "esquenta" das escolas e o grito de guerra quase nunca são mostrados. Sobre este aspecto, já ouvi "em off" de mais de uma fonte da emissora que a Globo gostaria de mostrar este momento, mas fica receosa de haver alusões a mandatários de agremiações com notórias fichas corridas. É algo que nunca será validado oficialmente, mas faço o registro.
Isso sem contar que a parte jornalística da cobertura é muito reduzida. A questão se complica ainda mais quando se sabe que os sites que cobrem as escolas o ano todo, por determinação da Liesa, não podem circular pela Sapucaí - ficam restritos às áreas de armação das escolas. Esta é uma anomalia evidente a meu ver.
Outro problema evidente é o monopólio de imagens. Isso dá à emissora um poder bastante nítido, pois o diretor de imagens é que determina qual "versão" da agremiação o telespectador verá. Sabemos que a estrutura para a transmissão é bastante custosa, mas acharia viável uma transmissão em tv fechada, mais voltada ao público que se interessa pelas escolas - com comentaristas mais afeitos ao meio. Ou um terceiro canal apenas com o áudio ambiente da Sapucaí.
Vale lembrar que a emissora possui alguns slots de pay per view do futebol não utilizados nestes dias de folia, o que poderia ensejar, até, algo nesta estrutura: um canal pago à parte que funcionasse antes dos desfiles reprisando carnavais antigos, mostrasse os dois Acessos e o desfile do Grupo Especial sob um ângulo mais técnico.
O ideal seria a cessão das imagens à Tv Brasil, mas sabemos que tal fato não acontecerá dentro da lógica que envolve o carnaval carioca atualmente. Também sabemos que de acordo com especialistas do setor a Globo paga aproximadamente 40% da verba total das escolas do Especial - não sabemos como será na Série Ouro - o que obviamente lhe dá um poder discricionário bastante forte.
Em minha opinião, a transmissão dos desfiles como um todo tem bastante o que melhorar, mas ainda assim penso que é uma boa notícia esta passagem da Série Ouro à transmissão global. O aumento da exposição das escolas compensará com folga os evidentes problemas que a estrutura de televisionamento e seu direcionamento tem.
Finalizando, minha percepção é de que a a promoção e a exploração do produto poderiam ser melhores. Os clipes com os sambas do Especial não mostram sequer um terço dos mesmos e o programa com a gravação dos clipes na íntegra foi ao ar a uma da manhã de um domingo para segunda feira em 2012. O programa "Esquenta", que vai ao ar nos domingos antes do carnaval, é um programa de samba sem sambistas.
O modelo adotado pelas escolas de samba atualmente possui muitos problemas, mas a televisão, a meu ver, é um dos menores. A transmissão é boa? Não para o público que gosta de samba. Pode melhorar? Bastante e elenquei alguns motivos e sugestões aqui.
Mas é um caso típico do "ruim com, pior sem". E o televisionamento do Acesso pela Globo tem mais vantagens que problemas, em especial para as agremiações.
Voltarei ao tema.
P.S. - Semana passada circulou a informação de que a Record poderia comprar os direitos dos grupos de Acesso que desfilam na Intendente Magalhães. Pessoalmente não acredito, mas, a se concretizar, seria excelente para estes grupos que praticamente não tem atenção da mídia.
Nesta coluna "Orun Ayé" de domingo, o compositor Aloísio Villar conta
uma história que acompanhei de perto: a disputa de samba do Boi da Ilha para
2008.
Foi a última vez em que estive presente a uma final de samba
(era dirigente da agremiação, embora não votasse na escolha) e, ao contrário do
colunista, minha impressão é que a decisão foi tomada no dia. Enfim, opiniões e
versões.
A doce revolta de Gaia
Semana passada escrevi aqui sobre o “fracasso nosso de cada
dia”, falando que o que nos move é o fracasso e ele é mais habitual no nosso dia
a dia que a vitória. Contei como foi a nossa disputa para o carnaval 2013 da
União da Ilha, onde considerei como meu maior fracasso no samba: mas não foi a
pior derrota, nem a mais doída.
Essa citação me fez lembrar a derrota mais doída, não só
essa citação como estar sábado retrasado com alguns diretores do Boi da Ilha na entrega
dos sambas concorrentes do carnaval 2013. O diretor do Conselho Fiscal Lourival
Alves, um dos caras mais íntegros que já conheci no samba e um dos principais
alicerces do Boi desde quando entrei na escola em 1997 sempre cita esse samba e
citou no sábado.
Ele até hoje não se conforma com a derrota desse samba.
Disse que o resultado foi o que mais lhe entristeceu nesse período e que não
consegue esquecer.
Também não consigo e por causa disso pela primeira vez,
depois de ter feito várias colunas para sambas meus vencedores, faço para um
derrotado.
Talvez para dar um pouco de mídia e audiência a este samba,
que realmente considero injustiçado. Sou um compositor e pessoa coerente.
Entrei até hoje em noventa disputas de samba de enredo e sei exatamente quando
posso vencer ou perder. Tem gente que adora dizer que foi roubada em concurso
de samba, reclamar de firmas, panelas, diretorias ladras etc quando às vezes o
problema reside nele.
Não sei se fui roubado alguma vez. Minha ingenuidade e
crença no ser humano, além do que vi nesses concursos, diz que não e dos sessenta
e três sambas que perdi apenas dois eu posso dizer que fui extremamente
injustiçado.
Um é o tema de hoje e para isso volto seis anos no tempo.
Volto ao ano de 2006, quando o Boi promoveu seu concurso para
o carnaval de 2007. O enredo era “alô, alô, se liga tem boi na linha”. Não vou
me alongar muito porque ainda quero fazer uma coluna para esse samba, mas posso
dizer que foi uma daquelas vitórias avassaladoras, acachapantes. Talvez a mais
acachapante desses quinze anos de samba e com uma parceria quase imbatível para a
época, formada por mim, Cadinho da Ilha, Walkir, Barbieri e Marquinhus do Banjo.
Ganhamos com extrema facilidade pelo nível de nossa parceria
que compôs um grande samba e por haver apenas quatro sambas no concurso. Durante
o período pré-carnavalesco por indicação minha e do Cadinho o presidente Eloy
Eharaldt contratou o Cadu, compositor campeão da Mangueira em 2005 e diretor
geral de harmonia do Tuiuti em 2006 para comandar a harmonia do Boi.
Cadu chegou já próximo do carnaval, um carnaval de muitos
erros e dificuldades do Boi e fez o que pôde. O Boi acabou se salvando em
samba-enredo da queda para o grupo C e a partir dali muita coisa mudou para o
carnaval 2008.
Eloy descobriu estar com câncer e, mesmo não deixando a
presidência, se afastou. Nomeou Cadu diretor de carnaval com plenos poderes para
conduzir a escola e o Cadu trocou o intérprete, trazendo de volta Roger Linhares,
meu parceiro nas vitórias de 2002 e 2003 e cantor da escola em 2002. Também trouxe de
volta Guilherme Alexandre, carnavalesco da escola entre 1997 e 2001 e depois 2005.
Guilherme sempre foi adepto de enredos grandiosos, com
grande profundidade e decidiu fazer o enredo chamado “Gaia, a reação da mãe
Terra – Uma história que deve ser contada de outra maneira”.
O enredo era sobre a “teoria de Gaia” que tratava o planeta
como um ser vivo que ficou doente por nossa causa e com a finalidade de se livrar dessa doença
criava anticorpos pra expurgar o agente causador (nós). Esses anticorpos seriam os tsunamis, terremotos, furacões e que teríamos que fazer algo antes que o
planeta morresse ou nossa raça fosse extinta.
Pelo problema ocorrido no ano anterior de só haver quatro sambas da
disputa, Cadu limitou em três a quantidade de integrantes por parceria, o que nos
trouxe problemas. Com essa determinação tivemos que abrir a nossa.
Marquinhus foi compor com seu primo Junior. Walkir com
Djalma Falcão e Nando Pessoa enquanto eu, Barbieri e Cadinho compomos o nosso
time.
Fiquei encantado com o enredo e sua explanação em vídeo e
pensei que ali poderia fazer algo que sempre sonhei. Um samba mais ousado,
diferente e passei essa idéia para nossos parceiros.
Cadinho era o parceiro da melodia e topou a empreitada.
Barbieri letrista como eu, mas um compositor sem arrogância e totalmente aberto
e acolhedor de idéias. Ele praticamente foi o autor de toda a letra do nosso
samba do Acadêmicos do Dendê, que se tornou campeão naquele ano; então decidiu
deixar que eu viajasse na minha loucura.
E eu viajei. Compus uma letra totalmente sem rimas que
deixou o Cadinho louco e dizendo ser impossível fazer melodia. Refiz a letra
colocando algumas rimas pra lhe enganar, mas mantendo a minha viagem.
Ele colocou uma melodia e fomos à casa de Barbieri nos
reunir com ele e Ito Melodia que seria nosso cantor. Ali o samba nasceu.
Boi da Ilha 2008 (samba concorrente)
Gaia, a reação da mãe Terra – Uma história que deve ser
contada de outra maneira
Compositores: Aloisio Villar, Barbieri e Cadinho
(Participação especial: Toninho Z10, Jair Turra e Ito
Melodia)
Quando a humanidade
Ouvir o clamor que vem da mãe Terra
Espero não estar perto do fim
Senhor olhe por nós, tire essa cruz de mim
O ser vivo que moramos está doente (lágrimas)
Chora, padece, provocando reação
Para impedir o juízo final
Só o juízo afinal
Derrubem fronteiras, todos juntos pra salvar
Vamos dar as mãos na união apostar(refrão)
Cidadania é a nossa fé
Eu tenho fé
Vejam é o Sol que vem chegando
Traga boas notícias nesse novo amanhecer
Vejam, é o Sol anunciando um novo tempo
Esperança sempre teima em nascer
Esperança sempre teima em renascer
Desenvolver sustentando no ambiente
Nova história, outra maneira de contar
Quero água limpa pra beber, água limpa de viver
Meus netos conhecendo a fauna e a flora
Sonhos de um louco como eu
No meu enredo esse sonho aconteceu
Vai meu samba vai levar
Nossa voz ao mundo inteiro
Vai meu samba viajar
Seja nosso mensageiro
Gaia, quero ver você feliz
Azul mais azul na beleza das cores
Jardim do Éden voltou, obra prima do criador
E a minha escola vem cantando em seu louvor
Basta amor pra preservar mudar
O planeta no pulsar de um coração(refrão)
Basta amor pra preservar curar
Meu carnaval é emoção
Samba grande, trinta e cinco linhas. Dois refrões e um falso
refrão para grupo B. Ousado, fugindo de todos os padrões atuais. Mas com essa
loucura que fomos para a disputa.
Entregamos o samba e o Cadu me ligou dizendo maravilhas dele, emocionado; mas pedindo para tirar o começo da segunda dizendo que não
tinha a ver com o enredo e alongava demais o samba. Argumentei que tinha a ver
com a escola desfilar com o dia amanhecendo, mas aceitei a ponderação e mexemos,
começando a segunda com “desenvolver sustentando no ambiente”.
Nosso palco foi formado por Ito Melodia, Igor Vianna,
Cadinho e Bruno Revelação e o Boi teve quantidade de inscrições recorde nesses
meus quinze anos: quatorze sambas, por vários motivos. Principalmente o excelente enredo, a
limitação em três por parceria e a União da Ilha estar reeditando “É hoje” e
seus compositores terem colocado samba no Boi.
Três sambas se destacaram de início. O nosso pela poesia,
melodia, o do Marquinhus pela alegria e juventude do palco e correndo por fora
o do Walkir com o formato mais tradicional. Os dois primeiros sambas aos poucos
foram tomando ares de favoritos e até uma junção entre eles foi cogitada, mas
na última semana a coisa foi pro nosso lado.
Walkir foi até a casa de Cadinho cumprimentar pela vitória
no Boi e três dias antes da final recebemos uma ligação de um membro influente
da escola que estava naquele instante deixando uma reunião no Leblon da
diretoria. Nessa reunião nossa vitória fora sacramentada.
Com toda confiança fomos para a final no domingo, 23 de
setembro de 2007. O samba do Marquinhus se apresentou e não foi tão bem, veio o
samba do Magrão que estava mais para completar a final e o do Walkir.
Walkir teve problemas com os ônibus e ficou sem torcida,
sozinho no meio da quadra chorando e cantando o samba. Eu, Cadinho e Barbieri
por sermos amigos dele fomos para o meio dar uma força e cantar junto. Quando
fomos ver boa parte da quadra se juntou ao canto.
Depois o nosso se apresentou de forma excelente.
Subi ao palco na hora do resultado recebendo parabéns de
algumas pessoas, esperando por minha quarta vitória na agremiação quando veio o
resultado. Cadu disse algumas palavras e pediu para o puxador oficial Roger cantar o samba
campeão.
O cavaco começou a tocar e reconheci que não era o nosso.
Não conseguia decifrar qual samba era e assim veio a surpresa. Era o samba do
Walkir.
Fiquei zonzo na hora: uma derrota inesperada, doída. Nem a
própria parceria do Walkir esperava e começaram a comemorar timidamente.
Marquinhus saiu enfurecido com a derrota, Cadinho não quis cumprimentar o Cadu
e foi embora, eu fiquei ali zonzo.
Recebi cumprimentos da diretoria e do Cadu, que sempre foi
meu amigo e me senti traído ali e minha namorada da época me puxou pra irmos
embora.
Não consegui dormir naquela noite, primeira e única vez que
isso ocorreu comigo em samba até hoje. No dia seguinte o orkut do Boi da Ilha
estava em guerra pelo resultado. Não escrevi nada, Cadu me ligou umas trinta
vezes, não atendi. Submergi, queria ficar sozinho.
Deixando meu amor pela escola falar mais alto, no dia
seguinte apareci na reunião do Boi para prestar apoio. Cadu me pediu que
assumisse a presidência da ala de compositores. Assumi e assim o carnaval de
2008 do Boi foi feito.
A escola estava linda na avenida, mas o samba não aconteceu.
No ano seguinte a Unidos de Padre Miguel resolveu fazer um samba pesado, de
quase quarenta linhas em uma grande ousadia e ganhou todos os prêmios de melhor
samba-enredo e subiu para o grupo A. Até hoje lembro ao Cadu e aos diretores do
Boi que poderia ter sido conosco.
[N.do.E.: acredito que haja um pequeno equívoco do colunista, pois o grande samba da Unidos de Padre Miguel foi no mesmo 2008, onde a escola inacreditavelmente não subiu de grupo. Em 2009, inclusive, foi o próprio Aloisio Villar que conquistou o prêmio Sambanet, e o samba da aí sim campeã Padre Miguel era horroroso, para se dizer o menos.]
Cadu é um grande amigo até hoje. Respeito Djalma Falcão como
ídolo, um dos melhores que conheci, Walkir é um grande sujeito e vencedor em
tudo que faz, Nando é um dos meus cantores preferidos...
...mas aquele samba eu não perdia.
Até hoje considero a melhor letra que fiz e acho nosso
melhor samba, melhor até que Orun Aye. Cadinho acreditou na minha loucura e fez
uma melodia espetacular mostrando o imenso talento que tem, Barbieri um
excelente letrista mostrou e mostra sempre que é o parceiro que todos querem
ter, guerreiro, decente e talentoso e temos esse filho que não veio ao mundo,
mas que nos dá grande orgulho.
Algumas pessoas alegam que perdemos por apoiar o samba do
Walkir na final. Falácia. Quem entende um pouco de disputa de samba-enredo sabe
que samba não é escolhido em final e escola que depois de dois meses ouvindo os
sambas semanalmente na quadra ou quando quiser em Cd deixa para escolher no
último dia é que algo vai errado.
Não sei o que aconteceu e nunca vou saber, penso que foi
apenas um medo de ousar.
O fantasma desse samba concorrente me persegue até hoje.
Nunca mais ousamos dessa forma em um samba, nunca nem cogitamos reutilizar a
melodia em outro samba, nunca mais ouvi o cd e raramente cantarolo, mas ele
sempre está presente.
Uma grande dor, uma grande felicidade, por mais incoerente
que possa parecer porque esse samba é para mim e tenho certeza que também a
Cadinho e Barbieri um grande orgulho. Ele é um dos meus maiores orgulhos no
samba e como escritor, seja qual for o gênero.
Links do youtube onde pode ouvir esse nosso concorrente,
mesmo não estando 100% em áudio e visibilidade.
Após uma semana ausente outra vez por motivos logísticos – tenho escrito e editado a maioria dos posts de um computador que não tem acesso ao Youtube – nossa faixa musical retorna um pouco diferente nesta semana.
Já escrevi aqui em outra ocasião que pouco tenho visto TV ultimamente. Além dos meus afazeres diários ando com pouquíssimo tempo e especialmente paciência para sentar diante de uma TV e conferir a programação.
Isso significa que às vezes perdemos boas atrações disponíveis. Uma delas é o “Samba na Gamboa”, apresentado pelo cantor Diogo Nogueira na TV Brasil, às terças feiras.
Pesquisando no YouTube achei este programa sobre a Portela, exibido dia 6 de março, duas semanas antes do carnaval. Com as presenças de Monarco e do compositor Noca da Portela – este em foto comigo ao final deste post, a edição deslumbra algumas histórias sobre a escola e sobre seus sambas, além de mostrar sambas de enredo e de exaltação.
Há algumas revelações surpreendentes.
A primeira é de Monarco, ao afirmar que Antonio Caetano, quando desenhou a águia, na verdade originalmente havia pensado em um condor. Monarco também altera a versão corrente de que o Delegado Dulcídio Gonçalves havia determinado a troca do nome da escola de “Vai Como Pode” para “Portela” a fim de renovar a licença necessária naquela época. Na versão do compositor o delegado sugeriu o nome aos dirigentes e foram estes que optaram pela troca.
Monarco também demonstra toda sua mágoa com a decisão da escola de entregar o samba de 74 aos consagrados compositores Jair Amorim e Evaldo Gouvêa, que não eram da escola – sequer autores de sambas de enredo eram.
Ao citar o grande Paulo da Portela Monarco se utiliza de uma expressão que a mim pessoalmente me soa mal, de que ele “civilizou” o samba. Compreendo o contexto em que tal expressão é utilizada, mas particularmente não gosto.
Para os leitores leigos, a decisão de preterir os compositores da Portela e dar o samba à dupla abriu uma crise sem precedentes na azul e branca, com o afastamento de figuras como o próprio Monarco, Paulinho da Viola, Zé Ketti e Candeia.
Noca da Portela conta um pouco de sua história e de como era a “prova” para passar a fazer parte da ala de compositores da Portela. Ele teve de fazer um samba em seis horas e apresentar a Candeia, então presidente da ala, a fim de ser avaliado e aceito. Noca conta que elaborou duas composições “por via das dúvidas”.
Igual aos dias de hoje, onde basta a vontade de gastar alguns milhares de reais para passar a fazer parte de uma ala de compositores de uma escola de samba carioca – não é um fenômeno restrito à azul e branca. Talento é acessório.
Me impressionou também a marra do veterano compositor, que em dado momento se queixa de que fez seis sambas vencedores para a Portela e nunca foi campeão, ao contrário de Paulinho da Viola “que fez um apenas e conquistou o título”. O compositor depois se corrige e diz que “tem de respeitar” Paulinho...
Aliás, fazendo um parêntese, fiquei muito contente de ter ouvido na quadra da escola na última quarta feira o samba de 1985, de autoria do compositor. Fecha o parêntese.
Chamou-me a atenção, também, o fato de que todos os compositores citados como “da nova geração” da Portela serem mais velhos que eu – a maioria na casa dos 50 anos de idade. A exceção é Ciraninho, mas lembremos que originalmente ele é oriundo da União da Ilha. São citados nomes como Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo e Serginho Procópio, além dele.
Monarco também conta a história da fundação da Velha Guarda Show da Portela, entre 1970 e 71. Aliás, recomendo aos leitores a audição do cd “Portela, Passado de Glória”, fruto deste trabalho inicial e que tinha como objetivo básico registrar sambas antihgos que estavam se perdendo.
Entre depoimentos e sambas, o programa tem 52 minutos. Vale muito a pena para se conhecer um pouco da cultura brasileira e da história da Portela em especial. E se deleitar com os sambas da Majestade.
Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, versa sobre os dois sambas que vem galvanizando a preferência dos amantes do samba neste período de disputas: o da parceria campeã da Portela – que já foi tema neste blog, acima – e o samba “galáctico” da Vila Isabel (no final deste post), com nada menos que Martinho da Vila, André Diniz e Arlindo Cruz na mesma parceria.
Pessoalmente acho o samba “galáctico” inferior à composição de 2012 da mesma Vila, mas reconheço que é questão de gosto. Também é um grande samba.
Complemento esta introdução dizendo que a Imperatriz, dependendo do que escolher, pode ter uma composição muito próxima a estas duas.
Portela e Vila - de novo
Ano passado tivemos uma boa safra de sambas, provenientes de uma boa safra de enredos. Dois sambas se destacaram dos demais e entraram para a antologia dos sambas de enredo desse século.
Um era o samba da Unidos de Vila Isabel feito por Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Artur das Ferragens para o enredo “Você sembo lá, que eu sambo cá! O canto livre de Angola” da carnavalesca multi-campeã Rosa Magalhães.
O samba tem como um dos autores André Diniz, o maior vencedor da história da agremiação e considerado por muitos o melhor compositor de samba-enredo da atualidade. André criou sambas primorosos para a escola - como em 1994 e 2000 - e se juntando ao renomado Arlindo Cruz fez um sambaço para contar a saga do povo de Angola.
Ter temática afro já ajuda muito: dificilmente você vai ouvir um samba afro ruim. Além disso, a parceria inovou com uma segunda de samba espetacular com perguntas e respostas - onde algumas pessoas erradamente definiram como “contracanto”.
Muitos duvidaram do sucesso da fórmula e deu certo demais. O samba da Vila passou com grande força, tirou nota máxima e entrou para a história do carnaval. Foi quase tudo perfeito para ele...
... Se não fosse o Barcelona dos sambas.
Eu fiz uma coluna para o samba da Portela do carnaval desse ano e dei à composição o apelido de “Barcelona”, me orgulhando do mesmo ter pegado.
O samba de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo para o enredo “..e o povo na rua cantando, é feito uma reza, um ritual” do carnavalesco Paulo Menezes se tornou uma grande febre logo na inscrição. A internet só falava nele, o mundo do samba só falava nele.
Um samba diferente, que lembrava sambas-enredo dos anos 70, com uma pitada de “Bahia de todos os Deuses”. Encantou e venceu.
Continuou sendo o grande samba do pré-carnaval e no desfile não decepcionou. Conseguiu as notas máximas e levou nada mais nada menos que oito prêmios de melhor samba do carnaval 2012, mostrando o porquê de ser o Barcelona.
Findou-se o carnaval 2012 e começaram os preparativos para 2013. A grande mudança foi a decepção com os enredos. Os belos e culturais enredos de 2012 viraram enredos bisonhos, com exaltação a coisas fúteis ou que nada tem a ver com nossa cultura. Em um ano grandioso de Portela e Vila quem acabou virando tendência foi o iogurte do Porto da Pedra – aliás, rebaixado para o Grupo de Acesso.
Mas eis que de novo Portela e Vila nos presenteiam com dois grandes sambas. Nenhum dos dois foi escolhido ainda, as eliminatórias ainda estão na metade, mas os sambas já tomaram conta do boca a boca como se fossem os sambas oficiais das agremiações e a pergunta que domina o mundo do samba é uma somente.
Qual é o melhor?
Na Portela tem um que promete ser o Barcelona versão 2013. A parceria é praticamente a mesma de 2012, sendo formada por Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do posto 7.
O enredo celebra o berço da Portela e tem como título “Madureira...Onde o meu coração se deixou levar” do carnavalesco Paulo Menezes.
A parceria conseguiu algo mais difícil que fazer um samba antológico: fazer um samba antológico logo depois de um samba antológico. O samba concorrente tem a incrível e gostosa incoerência de ser igual e diferente do anterior.
Igual porque é diferente, por mais contraditório que isso pareça. Como o samba anterior a parceria procurou buscar o diferente, algo que não trouxesse a fórmula dos sambas atuais e conseguiu vir diferente dessa fórmula e diferente do que fizeram anteriormente.
O samba concorrente tem uma levada mais anos 80, lembra os partidos alto da época. Eu comentei com o Pedro Migão que lembra muito os sambas do Almir Guineto e em algumas partes parecia que eu conseguia ouvir a “dança do caxambu”. Não, não é plágio, eu falo de estilos.
E esse sambão conseguiu me conquistar mais rapidamente que o samba do ano passado. Que a parceria tenha sorte na disputa.
[N.do.E.: sem entrar em detalhes, diria que este samba tem excelentes chances de ir para a avenida.]
A única diferença pra mim em relação a 2012 é que para mim existe em outra escola um samba do mesmo nível. Como em 2012, a Vila Isabel pode ter o samba a se confrontar com a Portela, só que dessa vez acho que é de igual para igual.
Assim como na Portela, o grande samba vem da parceria campeã de 2012 somada com o lendário Martinho da Vila. Martinho da Vila, André Diniz, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel assinam a obra prima que conta a história do homem do campo.
O nome do enredo é “A Vila canta o Brasil celeiro do mundo – Água no feijão que chegou mais um” da carnavalesca Rosa Magalhães. O enredo conta a história do homem do campo e a parceria de forma magistral consegue passar a vida do campo na letra. É como se sentíssemos o cheiro do café e do bolo.
A letra tem umas jogadas geniais, como no falso refrão que na primeira passada fala em plantar e na segunda em colher. Mas eu acho que o principal mérito do samba é a simplicidade.
O mesmo mérito que eu disse ser o principal do “Madureira sobe o Pelô”. Compositores hoje em dia gostam de inventar muito, de fazer firulas. O simples sempre deixa tudo mais bonito, como dizia a Imperatriz: “Mais vale a simplicidade, a buscar mil novidades e criar complicações”.
Esses sambas vão ganhar? Irão à avenida? Nenhum deles foi escolhido ainda como eu disse acima, mas aí que eles começam a se diferenciar.
Apesar do papo de jogador de futebol que “o adversário é difícil e vamos lutar até o final para conquistar os três pontos”, ninguém acredita na derrota da parceria da Vila. Arlindo Cruz, André Diniz e Martinho da Vila não se unem para perder e não vão perder.
A questão da Vila é polêmica. A falta de competição da escola nesses últimos anos pode trazer problemas futuros para a escola e eu como presidente da agremiação faria de tudo para que não ficasse tão desigual a competição na minha agremiação. Isso afasta adversários e inibe a renovação da ala de compositores.
Mas é um sambão e enquanto for permitido que grandes compositores assim se unam, não há nada a fazer a não ser aplaudir.
Na Portela há sim competição. Tem sambas fortes como o do Neyzinho e não é impossível que perca, mas sinceramente eu não acredito e acho que os dois sambas irão para o duelo na avenida. O da Vila eu tenho certeza.
Por que Vila e Portela de novo como no ano passado?
Simples, basta ver os enredos que escolhem. Bons enredos dão bons sambas, enredos ruins dão sambas ruins e algum milagre de vez em quando. Mas milagre é milagre e se milagre fosse coisa frequente de acontecer não teria esse nome.
E por que as mesmas parcerias? Isso só o talento explica.
Se festa no arraiá é pra lá de bom, então ginga iaiá, ginga ioiô.
E habemus samba pra 2013. Orun Ayé!
Ps. Escrevi uma peça de teatro. É, uma peça estou ficando metido mesmo, me aventurando até nessa área. Enfim, ela se chama “Folhetim” e quem quiser dar uma olhada pra ver se escrevo bem ou é uma grande bobagem. Ela está no site “Recanto das letras”, passo abaixo seu link para baixar.