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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Orun Ayé - "Vilão é vítima"


Em edição extra, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar mostra um outro ângulo da situação do jogador Adriano. Diria que concordo com a abordagem.

Vilão é vítima

Um dos assuntos preferidos da imprensa esportiva, sensacionalista e a mistura das duas que anda muito em moda atualmente é o jogador Adriano, o ‘Imperador’.

Adriano é mais um dos casos célebres de jogadores com infância pobre, de talento e que poderiam chegar muito mais longe aonde chegaram e não conseguiram por suas cabeças.

A imprensa e o público em geral preferem atacar esses jogadores. Preferem humilhar e debochar que realmente tentar descobrir o que ocorre com esses seres humanos. Sim, seres humanos: as pessoas esquecem que antes de ser um jogador de futebol é um ser humano.

Isso vem de muito atrás, desde tempos imemoriais.

Começa com Heleno de Freitas, chamado de “Gilda” em alusão ao personagem de um filme da época. Heleno era genial e genioso, bonitão, cheio de mulheres, adorava uma confusão e morreu louco e sifilítico em um manicômio.

Outro da linhagem foi Mané Garrincha, “o anjo das pernas tortas” - que para muitos foi melhor que Pelé. Garrincha foi um dos maiores jogadores da história do futebol, com dribles inigualáveis - assim como foram inigualáveis sua ingenuidade e sua queda por mulheres e bebida.

Morreu alcoólatra e pobre, tendo sua decadência física e moral exposta ao povo brasileiro em momentos como o desfile da Mangueira de 1980.

Almir Pernambuquinho não foi jogador do nível dos dois primeiros, mas mesmo assim foi um grande jogador, campeão pelo Flamengo e que também atuou pelo Vasco e no Santos de Pelé.

Protagonizou momentos memoráveis como uma briga generalizada com o time do Bangu na final do carioca de 1966. O Flamengo perdia por 3x0 e Almir não permitiu que o Bangu desse a volta olímpica.

Almir morreu alguns anos depois assassinado numa briga em uma boate em Copacabana.

O dinheiro no futebol aumentou muito nos últimos anos e com isso as farras e os escândalos ganharam maiores proporções. Tivemos casos extremos como o Bruno, goleiro do Flamengo preso por assassinato, mas outros que não chegaram a esse ponto, mas aprontaram muito como os do passado.

Mas ao contrário dos jogadores do passado esses ganharam tanto dinheiro que mesmo aprontando conseguem continuar ricos.

Romário, Edmundo, Renato Gaúcho, Ronaldinho Gaúcho e Djalminha são exemplos desse tipo de jogador. Quizumbeiros, brigões, mulherengos e geniais.

Todos eles, inclusive Romário, acabaram pagando o preço desse lado off futebol e tiveram carreiras inferiores a que poderiam almejar.

Romário com a carreira brilhante que teve, campeão mundial em 1994 sendo o principal jogador da copa perdeu a copa de 1998 por contusão, se fosse mais atleta não teria tantos problemas musculares. Perdeu a copa de 2002 e as Olimpíadas de 1996 e 2000 pela falta de confiança dos treinadores em seu lado disciplinar.

Ronaldinho Gaúcho assombrou o mundo até 2006 e depois simplesmente decidiu parar de jogar. Edmundo em 1997 foi considerado por muitos o melhor jogador do mundo, mas teve uma carreira inferior ao que poderia e ainda se viu envolvido em acidente de carro com três mortes. Djalminha nem a copas foi e Renato mal conseguiu jogar na Europa.

E chegamos ao caso mais dramático. Adriano.

Garoto pobre da Vila Cruzeiro, com tudo contra em sua vida Adriano conseguiu vencer no futebol. Virou Imperador em Milão, titular da seleção, sucessor natural de Ronaldo fenômeno e no auge da carreira perdeu o pai. Seu alicerce.

O rapaz se deslumbrou, se cercou de confusões, mulheres e se entregou à bebida tornando-se alcoólatra, além de sofrer de depressão. Doença que atinge cada vez mais pessoas nesse mundo moderno.

Tentou várias vezes dar a volta por cima e em algumas conseguiu como no Flamengo em 2009. Mesmo naquela campanha faltou inúmeras vezes a treinamentos, amarrou namorada em árvore e queimou o pé numa moto em reta final do brasileiro.

Nos últimos dois anos jogou por Roma e Corinthians mal entrando em campo e fazendo apenas dois gols. Agora tem nova chance no Flamengo, talvez a última - como ele mesmo diz.

Adriano não é mais imperador. Poucos acreditam nele e ele ajuda essas pessoas faltando a treino e se metendo em confusão como na semana passada. Já está ameaçado de nova demissão, o que poderia significar o fim.

O que eu penso disso tudo?

Tenho muita pena do Adriano, porque enquanto todos debocham, humilham, fazem pouco dele eu vejo uma pessoa doente. Eu vejo sinceridade nele quando diz que quer mudar, que quer provar que pode, quer mostrar pra sua família seu valor, dar a volta por cima e quando pede desculpas.

Mas como eu disse, ele é uma pessoa doente, tem que se tratar. Alegam que então a culpa é dele porque não procura tratamento, aí pergunto aos leitores...

Quantos de vocês ou dos que debocham dele já tiveram um alcoólatra, drogado ou depressivo na família ou na relação de amizade? É fácil? Foi fácil para que essas pessoas percebessem a doença e procurassem ajuda?

Nenhum doente admite facilmente que precisa de ajuda, tratamento e o caso do Adriano é pior ainda. Ele é milionário, famoso, é cercado de gente que quer seu mal, quer sugar tudo que ele tem e como parasitas aproveitar tudo que ele conquistou. Para essas pessoas não interessa o Adriano bem. Interessa o beberrão que dá festa regada a mulheres.

Ao contrário dessas pessoas, que vejo muito pela imprensa, eu não sacaneio ou debocho das falhas do Adriano: eu sinto pena. Fico triste porque é um ser humano que você vê que é do bem, quem convive gosta se afundando cada vez mais. Você não vê ninguém falar mal da pessoa Adriano.

O Adriano é um cara que gosta de estar na favela dele, com os amigos de infância dele, sem camisa soltando pipa e bebendo cerveja e para muita gente isso é um grande mal. Talvez se as perdições dele fossem beber uísque num bar chique de Ipanema com artistas e pessoas famosas não pegariam tanto no pé. Como ele mesmo diz, Adriano é uma pessoa que faz mal só a ele mesmo.

Torço por sua volta por cima, que ele volte a campo, faça gols e volte a seleção. Não só apenas porque está no Flamengo, meu clube do coração, mas pela salvação de uma vida.

Porque os mesmos que debocham hoje serão os primeiros a lamentar quando ele tiver um fim igual ao de Garrincha, Heleno ou Almir. 

Vai Adriano, faça esse gol. Orun Ayé!

(Foto: Uol)

P. S. Alguns leitores não entenderam a coluna de domingo. Eu não disse que tem que ter uma revolução, eu disse que só acredito em revoluções de baixo pra cima.

Revolução de cima pra baixo é apenas mudança de poder dentro do status quo e não ignoro que tivemos batalhas na formação do país como Canudos, Confederação do Equador, Farroupilha e outras. Mas a meu juízo foram casos isolados e em momentos importantes como a declaração de independência não podermos nos orgulhar de mártires e isso fez mal ao país, é a falta de referência. Não temos um Che Guevara, Simon Bolívar ou Lincoln.  

E não nego que em casos mais simples como disputas de samba e carnaval não nos mobilizamos para mudar. Mas nós compositores, as disputas e o carnaval somos reflexos do país, somos parte dele e agimos e reproduzimos em um ambiente menor aquilo que a nação é.

Assim como quem reclama de seu emprego, que não lhe valoriza e destroem sua auto-estima prefere reclamar em rede social que se mobilizar, entrar em sindicatos ou fazer algo mais relevante que possa mudar sua situação que reclamar em 140 caracteres.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Bissexta - "A Eleição do Flamengo no Tapetão"


Nesta coluna, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, trata das eleições do Flamengo, a serem realizadas em dezembro próximo.

Especificamente trata de forma jurídica das elegibilidade ou não do principal candidato de oposição, Wallim Vasconcelos (à direita na foto). Em minha visão de leigo cheguei a opinar que ele seria inelegível, mas o parecer alvo do post de hoje afirma, basicamente, o contrário.

Contudo, como o próprio colunista afirma, certamente esta eleição terá lances decididos na “grande área” dos tribunais.

Aproveito para dizer que o movimento “Revolução Rubro Negra” irá manter uma posição de neutralidade nas eleições, e eu pessoalmente declinarei aqui minha preferência na ocasião oportuna.

Vamos ao texto.

A Eleição do Flamengo no Tapetão

Eu nem queria mais importunar os leitores com temas da eleição Rubro-Negra. Esta aliás é algo por si só emblemático, porque interessa a 35 milhões de pessoas e menos de três mil delas participam, mas não dá para ficar quieto diante do quadro surreal que pintaram na Gávea.

O candidato que desponta como franco favorito do campo oposicionista, Wallim Vasconcellos, convive com a suspeita de que não reúne as condições para concorrer. Eu, que venho acompanhando essa bronca há meses, também já cogitei a hipótese dele estar impedido.

Afinal, o estatuto do Flamengo tem uns prazos de carência para que o sócio possa participar do processo eleitoral – três anos para votar (ou dois anos, se for sócio proprietário), cinco anos para ser votado.

Wallim nunca escondeu de ninguém que comprou seu título de proprietário em 2011. Logo, nem direito de voto teria. Só que ele, eu e mais um montão de gente já havia sido sócio do clube em algum lugar do passado.

É muito comum isso entre os flamenguistas: a gente se empolga, se associa, passa a pagar o clube, tenta se envolver com o dia-a-dia da instituição e só coleciona frustrações. Quem tem ânimo de pagar mais de R$ 100,00 por mês e ver seu suado dinheirinho ir parar no esgoto das tenebrosas transações que são a marca registrada do clube?

Mesmo com o Wallim e seus aliados fazendo questão de lembrar a todo mundo que dinheiro é o que não lhes falta, acredito que até ele deve ter preferido colocar no cofrinho esse trocado ao invés de deixá-lo na vala comum da Gávea.

Nem devia passar pela cabeça do Wallim que ele poderia ser candidato, mas a Patricia Amorim tem uma espécie de ‘Toque de Midas’ ao contrário: tudo que ela bota a mão acaba em confusão.

Animada com a reforma do Parquinho e das instalações sanitárias, Patricia resolveu aprovar uma “anistia”, para atrair de volta ao quadro social pessoas que um dia foram sócias e deixaram de sê-lo. A medida, em si, não tem nada demais: todo esforço para atrair mais gente para o clube deve ser aplaudido, ué...

Mas nada no Flamengo é simples: mesmo que não tenha dito de forma explícita, por trás da famigerada “anistia” havia um plano maquiavélico: dar aos anistiados o direito de votar na próxima eleição. São mais de mil eleitores novinhos em folha, sobre os quais se especula uma espécie de dívida de gratidão com quem os deixou voltar - eu, cá entre nós, tenho dúvidas se eles vão mesmo despejar seus votos para a Patricia.

O que ninguém imaginava é que lá no meio desses mil e tantos tinha um candidato pronto, recheado de apoios estelares e planos transformadores. Bom, sendo assim, no mundo que nós conhecemos sobrariam duas opções:

a) os anistiados não votam e nem podem ser votados, porque a anistia não tem esse poder;
b) se a anistia tem o poder de interferir no colégio eleitoral, da mesma forma que qualquer um com mais de três anos poderia votar, então qualquer um ali que se seja sócio proprietário e tivesse mais de cinco anos no quadro social poderia se candidatar.

Eu jurava que os poderes do clube iriam escolher a opção “a” e o Wallim ficaria a ver navios, mas o Flamengo não me cansa de me surpreender: conseguiram arranjar um jeito de dizer que os anistiados podem votar, mas não podem ser votados, uma espécie de ‘anistia seletiva’.

Até gostaria de não entrar em detalhes jurídicos, mas é inevitável. Os doutos juristas do clube (gente do maior respeito, quero deixar isso claro), se aproveitaram da desatenção dos redatores do estatuto para ver diferença onde, a rigor, não há.

O requisito básico para participar do processo eleitoral no Flamengo é VIDA ASSOCIATIVA ININTERRUPTA, sendo de três anos (ou dois quando proprietário) para votar ou cinco para ser votado. Aliás, para ser votado, o estatuto diz que o sócio precisa TER DIREITO DE VOTO e preencher mais alguns requisitos, dentre eles os tais cinco anos de vida associativa.

E onde surgiu a diferença, que deixa o Wallim votar, mas não o deixa se candidatar?

Os redatores do estatuto, quando criaram a carência para o sócio poder votar, inseriram a expressão “contados desde a data da admissão”, mas quando foram reproduzir essa carência no artigo seguinte, esqueceram-se desse complemento.

Lá no primeiro ano da faculdade de direito a gente aprende que o melhor método de interpretação de uma norma é o método sistemático, para integrar o seu espírito verdadeiro, em detrimento de eventuais imprecisões gramaticais - que seria o método literal.

Agora me digam: faz algum sentido que a exigência básica sendo a mesma (“vida associativa ininterrupta), com variação apenas do tempo (3 ou 5 anos), que o critério de contagem de tempo possa ser diferente? Como pode alguém contar com o passado para poder votar, mas não poder contar com ele na hora de se candidatar?

O que se argumenta é que os autores do estatuto pensaram em criar uma rigidez maior para quem quer se candidatar. Poderia até concordar. O problema é que não se cria restrição por omissão – as normas restritivas, como também se aprende muito cedo na faculdade, precisam sempre ser expressas.

Digam o que quiserem, mas não pode haver uma situação tão esdrúxula a ponto de se permitir critérios diferentes para contagem de tempo de carência se isso nunca esteve escrito ou pensado. O que se faz é criar uma interpretação sob medida, para que a eleição, mais do que nas urnas, tenha sua disputa principal no tapetão, como se diz no mundo do futebol.

Se perguntassem a mim, eu diria que Wallim não pode nem votar nem ser votado, porque a anistia não tem o poder de interferir nas regras eleitorais (tanto assim que isso nem constou no ato que a aprovou).

Aliás, eu disse isso pessoalmente ao Wallim.

O que não engulo é esse discurso hipócrita, de validar a anistia, mas impedi-la de forma direcionada a uma única pessoa, com clara manipulação. Não sei se o Wallim será eleito presidente do Flamengo, porque é preciso vencer nas urnas. Mas me parece um tanto óbvio que para quem não está impregnado pela luta política das tribos da Gávea, salta aos olhos que se a anistia vale, ela vale por inteiro.

Adiante, Wallim.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Bissexta - "O Dilema do Prisioneiro e a Eleição do Flamengo"


Nesta terça, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, se utiliza de um clássico problema de Teoria dos Jogos para explicar o quadro eleitoral do Flamengo. que é bastante preocupante. Também venho acompanhando o quadro e as articulações eleitorais rubro negras.

O Ouro de Tolo esteve no último final de semana na cobertura da etapa carioca da Stock Car, com entrevistas exclusivas e cobertura. Ainda esta semana no blog.

Vamos ao texto.

O Dilema do Prisioneiro e a Eleição do Flamengo

Eu ando tão envolvido com a eleição do Flamengo e tão ocupado na vida que finalmente fiz jus ao nome desta coluna aqui no Ouro de Tolo. Porque agora, de fato, as minhas aparições se tornaram bissextas, para regozijo de meus fãs do Oficialato Brasileiro, que podem prosseguir em suas campanhas reivindicatórias para essa classe tão sofrida sem as minhas críticas.

E como eu não faço mais nada que não seja trabalhar, cuidar das minhas filhas e fazer campanha para a Revolução Rubro-Negra, não tenho muito que falar aos leitores senão sobre um desses temas. Dado que a minha vida pessoal é de uma monotonia atroz, só me resta comentar o processo eleitoral rubro-negro.

Diz-se que a atual mandatária, conquanto seja odiada pela torcida do Flamengo, é uma pessoa bem vista entre os frequentadores do clube. A ponto de ter, segundo avaliações, algo como 1 mil ou até 1.200 votos. Ora, até hoje, nos mais de 100 anos de história, quem teve 1 mil votos se elegeu presidente do Flamengo. Portanto, a se confirmarem essas previsões, Patricia Amorim estaria reeleita presidente até 2015.

A questão é que deverão votar cerca de 2.500 sócios. Ou seja, mesmo que Patricia chegue ao máximo de seus votos, ela terá contra si 1.300 votos, que seriam suficientes para destroná-la. Mas o que a Patricia aposta – e com boa dose de razão – é que esses 1.300 votos se espalharão por várias candidaturas oposicionistas.

O leitor, talvez, já tenha ouvido falar no Dilema do Prisioneiro.

É um exemplo clássico da Teoria dos Jogos, um intrincado ramo da matemática que acabou se tornando mais popular por conta do filme Uma Mente Brilhante. O filme conta a vida de John Nash, um esquizofrênico agraciado com o Nobel exatamente por seus estudos sobre a Teoria dos Jogos.

No Dilema do Prisioneiro, duas pessoas são presas por terem cometido um crime, mas a polícia não tem provas para condená-los. A polícia resolve interrogar os suspeitos em separado e oferece a ambos o mesmo acordo: se o interrogado assumir o crime, mas delatar o comparsa, depondo contra ele no Tribunal, ficará livre, enquanto o outro será condenado sozinho.

Disso resulta o seguinte: se o prisioneiro “A” entregar o companheiro “B”, “A” ficará livre, mas “B” ficará preso. Se “B” entregar “A”, a situação se inverte. Mas se ambos se entregarem reciprocamente, serão ambos condenados, ainda que cumprindo metade da pena, já que a lei autoriza a redução em caso de confissão.

Qual é a chance de ambos saírem livres? Simples: um não trair o outro, mantendo a colaboração entre si, porque assim a polícia não terá como condená-los.

O problema é que tanto “A” quanto “B” estão incomunicáveis e não tem qualquer garantia de que o comparsa lhe será leal. E a proposta da polícia é altamente sedutora: se você trair, estará livre ou, no pior cenário, cumprirá metade da pena. Se não trair, mas for traído, cumprirá a pena integral. Ou seja, do ponto de vista individual, a melhor escolha é trair mesmo, que se dane o comparsa.

Entretanto, o objetivo, claro, é ficar livre. E para tanto basta confiar na lealdade do parceiro. Porque a estratégia individual não é a melhor estratégia para nenhum dos jogadores, já que apenas a estratégia da colaboração é que dá a certeza de alcançar o resultado desejado por ambos.

O Flamengo, que é resumo e síntese de tantas coisas, é agora um exemplo perfeito de todo esse matematiquês. Os que desejam apear Patricia Amorim do poder sabem que, sozinhos, jamais conseguirão. Mas não conseguem formular uma estratégia de colaboração que lhes permita alcançar, juntos, o resultado que perseguem de forma individual. E, divididos, não há estratégia que os resgate, porque qualquer 50 votos a menos podem fazer uma enorme diferença no cômputo final.

Eu não sei como desatar esse nó. Vaidades, interesses pessoais, dificuldades de entendimentos, animosidades e desesperanças ditam o ritmo da oposição Rubro-Negra. E ninguém parece disposto a recuar.

Crença em dias melhores, claro, eu sempre tenho. Ainda sonho em encontrar uma solução que equacione todos esses desencontros. Até dezembro tem muita água para passar debaixo da ponte e pode ser que dê. 

Mas, olha, vou te contar, viu? Como as coisas são difíceis no Flamengo...

domingo, 8 de julho de 2012

Orun Ayé - "Fla, Flu, Nelson e o Bando de Loucos"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, fala do centenário do FlaxFlu – já abordado por este editor na última sexta feira – a partir do escritor Nelson Rodrigues. Bem como do título corintiano na Taça Libertadores.

Fla, Flu, Nelson e o Bando de Loucos

"O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada. E aí então as multidões despertaram." (Nelson Rodrigues).

O pernambucano Nelson Rodrigues (acima, com Zico, em algum momento da década de setenta) não era apenas um excelente frasista, como podemos ver acima.

Nelson é considerado por muitos o maior dos dramaturgos brasileiros, autor de peças como “Vestido de noiva”, “A falecida”, “Perdoa-me por me traíres”, “Os sete gatinhos”, “Boca de Ouro”, “O beijo no asfalto”, “Toda nudez será castigada” e “Bonitinha, mas ordinária”.

Nelson era dramaturgo, escritor e jornalista, como seu irmão Mário Filho. Mário, antigo dono dos jornais esportivos “O Mundo Sportivo” e “Jornal dos Sports” foi um dos responsáveis pela organização dos primeiros desfiles de escolas de samba e lutou para que o estádio municipal de futebol que sediaria a Copa ficasse sediado no terreno do antigo Derby Club, no bairro do Maracanã - não em Jacarepaguá como queria o vereador Carlos Lacerda. Hoje o nome oficial do Estádio do Maracanã é Mário Filho.

Voltando a Nelson, o dramaturgo revolucionou o modo de fazer teatro no Brasil. Trouxe para o palco a família e não foi simplesmente a família: mas a família com tudo que ela esconde por debaixo do tapete ou atrás do buraco da fechadura. Suas taras, perversões, obscuridades, as traições, os incestos, os amores impossíveis, a tragédia. Tudo isso é Nelson Rodrigues.

O anjo pornográfico. O boxer que deu um soco de direita no estômago da sociedade e por ela foi considerado maldito por muitos anos. O homem que ao estrear “Perdoa-me por me traíres” tomou uma daquelas “vaias ensurdecedoras” ao fim da peça e feliz disse que foi sua maior vaidade autoral e “naquele momento se realizava espetacularmente como dramaturgo”.

Hoje a situação não é mais essa. Nelson é uma unanimidade nacional, o que lhe daria grande desgosto porque o mesmo dizia que “toda unanimidade é burra”.

Tive a honra de fazer uma peça de Nelson na Unisuam em 1998. Era aluno de Publicidade e Propaganda e no curso existia o “Projeto Nelson Rodrigues” onde a turma era dividida em duas e encenava peças. Adaptei o roteiro e fui ator na peça “Cheque de amor” e ganhei prêmio de melhor ator do projeto. É, tenho meu lado “rodrigueano” também.

E Nelson amava futebol, era comentarista esportivo e fazia antológicas análises sobre os jogos mesmo muitas vezes chegando atrasado à peleja ou não prestando atenção no jogo. Nelson não precisava ver jogo: ele criava o jogo e fazia do embate algo muito maior do que realmente foi.

Disse em uma de suas grandes frases como citei acima que o Fla x Flu surgiu quarenta anos antes do nada. Mas na verdade surgiu em 1912, por coincidência (ou não) no ano de nascimento do Nelson. O dramaturgo com sua voz soturna diria que “coincidências não existem, o Fla x Flu foi meu companheiro de berçário” e talvez tenha sido mesmo.

Do berçário pode ter nascido seu amor pelo clássico. Tricolor apaixonado, para o seu clube do coração criou frases como “Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar”. “O Fluminense é o único time tricolor do mundo. O resto são só times de três cores”. “Grandes são os outros, o Fluminense é enorme”. E alfinetando o Flamengo disse “O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente!”.

Mas ele também admirava o Flamengo e para o clube fez pensamentos como “O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja.". "Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia.". "Todo brasileiro é um pouco rubro-negro. A alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda ou mais dilacerada, ou mais santa, só sei que é diferente". “Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro".

E a que gosto mais: “Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: Quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas, tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.

Como já disse Nelson e o Fla x Flu nasceram em 1912 e o clássico já nasceu de forma polêmica. O Clube de Regatas do Flamengo já existia desde 1895, mas o futebol só foi fundado em 1912, com dissidentes do futebol do Fluminense. O time tricolor, insatisfeito com o comando do clube, bandeou-se para o Flamengo e para surpresa de todos os dois se enfrentaram nas Laranjeiras e o remendado Fluminense venceu por 3x2 seu antigo time titular.

E isso acabou se tornando uma tônica do clássico com o favorito sendo desbancado boa parte das vezes. Senti isso na pele já como torcedor do Flamengo em 1983 quando no minuto final o time campeão de tudo do Flamengo tendo Raul, goleiro campeão do mundo debaixo de suas traves perdeu o título carioca para o Fluminense de Assis. E em 1995 quando em nosso centenário e com Romário no auge em campo perdemos com gol de barriga de Renato Gaúcho. Um grande trauma futebolístico.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

100 Anos de Fla x Flu


Nesta semana onde o torcedor rubro negro teve a medida exata da incompetência da diretoria atual do clube, a recente conquista corintiana da Taça Libertadores acabou por abafar algo que é muito representativo: o centenário de um dos clássicos mais representativos do futebol brasileiro, o FlaxFlu.

A Confederação Brasileira de Futebol, em rara decisão acertada, marcou o jogo do primeiro turno do Campeonato Brasileiro exatamente para o final de semana que marca o centenário. A data exata do primeiro FlaxFlu foi 07 de julho de 1912 e originalmente a tabela marcava o jogo para este dia. Mas a pedido da televisão a partida passou para o domingo, 08 de julho.

A história do FlaxFlu possui algumas controvérsias. Há a versão difundida por Nelson Rodrigues, de que o Flamengo seria “filho” do Fluminense, fundado a partir desse, mas esta é uma falácia. Explico.

Como focado em minha participação no programa da ESPN sobre o centenário do futebol do Flamengo, o clube foi criado em 1895 como uma agremiação de remo, então esporte que galvanizava as massas cariocas. Inclusive é mais antigo como clube que o Fluminense, fundado em 1902.

O departamento de esportes terrestres do Flamengo é que foi fundado em 1912, após uma briga do time tricolor campeão em 1911 com o chamado “graund comiteé”, que era um misto de comissão técnica e diretoria da época. Vários dos jogadores tricolores já faziam remo no Flamengo, o que tornou natural que o rubro negro abrigasse estes jogadores após o dissenso.

Ou seja, o que se pode dizer é que o departamento de futebol do Flamengo nasceu de uma dissidência tricolor, mas não o clube em si.


No primeiro clássico, mesmo desfalcado, vitória do Fluminense por 3 a 2 (foto acima). No jogo do returno, a lógica: Flamengo 4 a 0. Iniciava-se ali a mística do clássico.

O nome “Fla-Flu” surgiu em 1925, e de forma pejorativa: todos os jogadores convocados para a seleção do Rio de Janeiro eram pertencentes às duas equipes, o que gerou comentário irônico da imprensa paulista que “o combinado Fla-Flu não ganharia o Brasileiro de Seleções”. Entretanto o então Distrito Federal (o Rio de Janeiro era a capital do Brasil) venceu os paulistas na final por 3 a 2 e a partir daí o jornalista Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, passou a usar a expressão para se referir ao clássico.

Para o rubro negro há controvérsias se é o clássico mais importante. A geração do meu pai, por exemplo – e a de Zico também – sempre tinha o Botafogo como maior rival por causa dos oito anos em que ficamos sem vencer o time alvinegro – e pela própria freguesia que somente acabaria com a “Era Zico”.

A geração posterior à minha (tenho 37 anos) tem o Vasco como maior rival, principalmente por causa das decisões seguidas de títulos importantes entre 1999 e 2006 – quatro Estaduais e uma Copa do Brasil neste período, todas as decisões vencidas pelo Flamengo.

Minha geração, que viveu quase que em sua totalidade o período de maior glória do clube, divide-se entre o Vasco – pelo fato de, naquele momento, ser o único time carioca que “batia de frente” conosco, e pelo Fluminense por causa daqueles malditos (risos) Assis e Washington.


Pessoalmente quando criança tinha mais gana de vencer o Vasco, por causa de um jogador que embora adversário eu admirava e que se matava quando enfrentava a gente: o hoje presidente vascaíno Roberto Dinamite. Mas até hoje tenho uma superstição por causa daquela final de 83 onde o Fluminense venceu com um gol no último minuto (acima): em dia de decisões se não for ao estádio eu não uso a camisa do Flamengo – na minha cabeça de menino a camisa que usei deu azar.

Curiosamente, o Fluminense é o único rival carioca que jamais decidiu com o Flamengo um título nacional. Aliás, desde aquele famigerado gol – em impedimento, bom que se diga, porque só havia um jogador entre Renato e a baliza – de barriga que a dupla Fla-Flu não decide um campeonato. De lá para cá, nos últimos 17 anos foram apenas duas Taças Guanabara (2001 e 2004, ambas vencidas pelo Flamengo) e uma Taça Rio (2005, com título tricolor).

De tempos para cá, o clássico vem se firmando como o mais equilibrado envolvendo o Flamengo: as seguidas decisões contra Vasco e Botafogo com vitórias Flamengas criaram uma espécie de “sentimento de inferioridade” nestas torcidas, ao fato que firma-se a convicção que o FlaxFlu é jogo aberto – os tricolores não “tremem” contra a gente.

A propósito, não assisto a um FlaxFlu no estádio desde 2003, pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Vitória de 1 a 0 para o Flamengo, com um gol meio “espírita” do atacante Jean.


Presencialmente, meu FlaxFlu inesquecível foi o 4 a 1 de 1986, onde a torcida do Fluminense cometeu a insanidade de provocar Zico chamando-o de “bichado”. Zico voltava de séria contusão e marcou três dos quatro gols, dando o passe para o outro – marcado pelo atacante Bebeto, este mesmo (na foto o primeiro daquela partida). O jogo também é histórico por outro motivo: foi a única partida oficial onde Zico e Sócrates atuaram juntos com a camisa do Flamengo. Fala Zico sobre aquela partida, em depoimento ao Globoesporte.com:

“Era o primeiro jogo do Campeonato Carioca de 1986. Foram três gols meus e um do Bebeto. Foi o único jogo do Sócrates comigo no Brasil. Nesse Fla-Flu do "bichado", tomei um susto. A torcida do Fluminense nunca tinha feito isso. Aí, quando eu entro em campo, começaram: "Bichado! Bichado! Bichado!"...

Foi o Fla-Flu que eu mais joguei bola. Fiz tudo o que você possa imaginar. O coro do "bichado" me deu mais gana de ganhar. Dei passe de calcanhar entre as pernas do zagueiro. Dei passe de bicicleta... Eu quis fazer tudo... E dava tudo certo. Se você tenta um calcanhar e erra... Eu tentava e caía certinho no pé do outro cara. E fui fazendo os gols... Dois foram golaços."

Meu primeiro FlaxFlu presencial foi em 1980 ou 1981, e uma curiosidade: em todos estes anos só vi o Flamengo perder uma única vez para o Fluminense, em 1994.

Contudo, parece certo que a mística deste jogo é bastante diferente das demais partidas. Há uma eletricidade diferente no ar que torna sim o clássico diferente – e talvez venha daí toda a magia. É jogo duro, é jogo respeitoso e normalmente sempre vence aquela equipe que está em pior situação, uma curiosa tradição desta partida.

Ou seja, a se manter esta tradição iremos aturar Joel Santana uma semana mais no cargo...

Também é do FlaxFlu o recorde brasileiro de público em uma partida de clubes: 177.656 pagantes no empate de zero a zero que deu o título carioca daquele ano ao Flamengo.

Mas temos de saudar estes 100 anos desta rivalidade entre duas grandes equipes, de partidas gloriosas não somente no campo como na literatura e que certamente engrandecem a prática do ludopédio, como era conhecido anteriormente o nosso futebol.

Vida longa ao FlaxFlu!


domingo, 10 de junho de 2012

Orun Ayé - "Samba, Futebol e Uma Dose de Respeito"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, fala um pouco sobre a questão do respeito envolvendo duas grandes paixões: o futebol e o carnaval.

Samba, Futebol e Uma Dose de Respeito

Semana passada, ocorreu de forma triste e previsível o fim de um casamento que já se arrastava no fracasso. Todo mundo já teve relações amorosas e sabe que a relação em si acaba antes do final oficializado.

Nós sempre teimamos em arrastar aquilo que não dá certo porque não sabemos conviver com o fracasso. É terrível admitir diante do espelho que investimos em algo que não deu certo e assim vamos levando, levando na esperança que algum milagre ocorra - e raramente esse milagre vem.

Aí o fim geralmente traz mágoas, ressentimentos e ódio naquele que um dia já foi amor, festa.

E como eu disse, semana passada ocorreu algo assim. Entretanto não foi uma relação amorosa, foi uma relação profissional onde existiram diversas juras de amor e acabou mal por problemas dos dois lados. Se fosse uma relação amorosa poderia dizer que aconteceram traições dos dois lados, mas como foi “profissional” digo que faltou palavra, hombridade e nessa falta de hombridade se inclui uma mulher - por mais contraditório que seja.

Falo evidentemente da relação Ronaldinho Gaúcho e Flamengo. O jogador entre 2005 e 2006 foi considerado o melhor jogador do mundo, ganhando por duas vezes o troféu FIFA como craque do ano e como que por um encanto desistiu de jogar futebol virando um arremedo de sim mesmo.

Acabou caindo, caindo... Até que tentou o único local que ainda tinha condições de posar como “super star”: o futebol brasileiro.

Em um leilão constrangedor feito por Grêmio, Palmeiras e Flamengo o jogador, que é marionete de seu inescrupuloso irmão, acabou topando a proposta rubro-negra. Traiu pela segunda vez o Grêmio, clube que lhe formou, mostrando que carinho e gratidão passam muito longe da família Assis Moreira.

Chegou ao Flamengo com “honras de chefe de estado”, o super craque que voltava ao futebol brasileiro e levou multidão à sua apresentação. Nessa apresentação soltou a frase “Agora eu sou Mengão”. Flamengo, clube de maior torcida do Brasil, Ronaldinho, o maior craque brasileiro desse século, com certeza daria certo.

Mas não deu.

O dia da apresentação do Ronaldinho foi no dia da tragédia da chuva em Friburgo, um péssimo sinal - e esse sinal virou realidade. Faltou comprometimento dos dois lados, da diretoria omissa, amadora e digna de escárnio do Flamengo que não serve nem pra dirigir um time de futebol de botão e do ex-craque em atividade que só quer saber de farra.

A péssima diretoria do Flamengo comandada pela inacreditável Patrícia Amorim fez um acordo salarial com o jogador e não conseguiu cumprir. Diz um ditado chulo e popular que quem tem uma certa parte da anatomia apertada não faz contrato com uma outra grossa; e a diretoria do Flamengo tinha que ter ciência que um jogador desses é caro e é preciso um regime profissional para pagar a alguém desse nível.

Se não tem essa estrutura vai contratar jogador do Arranca Tocos de Três Coquinhos ou invista na base, mas não dê um salto maior que as pernas que não dará certo.

O jogador também ajudou em nada. O seu papel era mostrar comprometimento, dedicação e mostrar em campo aquilo que todos esperavam, mas isso não ocorreu. Ronaldinho não foi nem sombra daquilo que esperavam dele, teve lampejos de craque, mas na maior parte do tempo se omitiu. Mostrava desinteresse em campo e pareceu um jogador comum.

Com o tempo a dedicação fora de campo também foi embora. Faltando e chegando atrasado a treinos, indo a noitadas, levando mulheres para a concentração. Sua imagem deteriorava a cada dia e isso prejudicava o clube para arrumar um patrocínio e assim lhe pagar e sem esse patrocínio não pagava - virando um círculo vicioso.

Sem receber o jogador ganhou regalias e passou a comandar o Flamengo. Demitiu treinador, arrumava justificativas para sua indisciplina, contagiava os jogadores arrumando asseclas e rivais dividindo o grupo e culminou com o estarrecedor caso de seu irmão se achar no direito de roubar camisas da sede do clube porque ele não recebia.

Uma casa onde falta pão e ninguém tem razão: nisso pode se resumir o Flamengo. A história do clube com Ronaldinho é uma mancha nesses 100 anos de futebol do Flamengo, uma história repleta de trapalhadas, falta de respeito mútuo e principalmente falta de respeito com a nação de torcedores, que estarrecida assistiu a falta de profissionalismo e de vergonha na cara dos dois lados.

Um show de erros que continua depois do fim da relação, como na patacoada em que o Flamengo revela um vídeo do Ronaldinho levando mulher ao hotel que o time estava concentrado sem explicar porque ele não foi punido na época.

Eu escrevo essa coluna no dia que Ronaldinho assinou com o Atlético MG e começou a treinar no clube. Ele seguiu sua vida, que o Flamengo siga também, até porque o mínimo que se espera de um casal que não deu certo é que cada um siga sua vida e tente ser feliz com outros parceiros.

Ronaldinho e Flamengo foram mais um casamento que deu errado - e sobrou para “os filhos”.


Enredos 2013

O Migão pediu que eu escrevesse falando dos enredos para o carnaval 2013. Sinceramente esses enredos escolhidos pelas escolas de samba do Grupo Especial do Rio não merecem uma coluna inteira. Merecem apenas uma pequena parte de coluna, pequena como a importância desses enredos.

Depois de uma boa leva como tivemos em 2012, as escolas retroagiram e voltaram ao “topa tudo por dinheiro”.Teremos para o próximo carnaval “maravilhas” como cavalos, cidades, festivais de rock, países que tem nada a ver com a gente, enredos patrocinados por revistas fúteis e coisas similares.

Por enquanto salvam-se a Portela com enredo sobre Madureira, União da Ilha com Vinicius de Moraes e São Clemente com as novelas globais.

Como sabemos que dificilmente uma dessas três escolas ganhará o carnaval devido a diversos fatores, teremos na quarta feira de cinzas a consagração de algum enredo patético. Além de torcedores cegos como talibãs xingando quem criticou dizendo que o enredo era do “carvalho” e sua escola é “flórida”.

Não, não são.

Quem comanda o carnaval hoje em dia não quer saber se o enredo é bom ou não. Tudo é uma questão de conveniência ou interesse, seja de quem comanda nosso carnaval, seja de quem cobre, premia ou tem sua opinião levada em conta. O que vale é a conveniência, o interesse particular, para quem torce.

Não vou me espantar com o dia que uma escola levar um enredo sobre cocô para a avenida e dependendo de qual escola for essa ser aplaudida pela opinião pública, dizendo que tem que se esperar a sinopse para dar opinião e que o carnavalesco que comandará tal enredo é gênio e com certeza em uma alquimia transformará o cocô em flores.

É como a relação Ronaldinho Gaúcho e Flamengo. Cada um quer saber do seu e que se dane o coração do torcedor.

No dia que o público fiel e consumidor parar de dar moral com quem brinca ou conduz mal o seu amor com certeza as coisas irão mudar.

Com samba e futebol não se brinca. Abram o olho. Orun Ayé!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Gravação do "Loucos por Futebol" na Espn


Como os leitores estão cansados de saber, na semana passada gravei o programa "Loucos por Futebol", da Espn Brasil. Como prometido - e como fiz no post sobre a visita que fiz ao SporTv - irei contar um pouco do que ocorre por trás das câmeras.

Na segunda feira retrasada, dia 07, ao abrir meu e-mail pessoal fui surpreendido com um e-mail da produtora Camila Peixoto me convidando para participar do programa, que teria como tema principal o centenário do futebol do Flamengo, que se completa em 2012. Meio ressabiado (confesso) respondi e aí soube como funcionaria: ficaria na mesa junto com os participantes fixos, para isso tendo de ir a São Paulo, onde ficam os estúdios.

Consegui a necessária liberação no trabalho - e como já fiz no programa, agradeço ao pessoal da Petrobras - e a produção do programa me mandou as passagens para ir e voltar, bem como me disponibilizou um motorista para me buscar no aeroporto e me levar para o retorno posteriormente. A gravação do programa foi na quinta feira, dia 10.

Antes da gravação trocamos alguns e-mails para que eu pudesse entender não somente a dinâmica do programa como o que falaria. Destas trocas de e-mails surgiram ideias como falar da história do urubu e a coincidência do programa ir ao ar na véspera do Dia das Mães e na data exata do aniversário da minha.


O leitor deve ter se perguntado como chegaram ao meu nome, certo?

Foi através de um post deste Ouro de Tolo republicado no prestigiado blog do jornalista Luis Nassif (acredito que tenha sido o referente à nacionaliação da petroleira argentina YPF) que levou o editor Augusto Alves a este blog e a partir daí houve o convite.

A pedido da produção selecionei algumas camisas e materiais do meu acervo e coloquei em uma mochila. Havia a preocupação de minha parte em não despachar bagagem porque estava com os horários bastante apertados - precisava retornar ao Rio ainda na quinta - e não poderia me dar ao luxo de chegar uma hora antes nos aeroportos.

Sobre aeroportos, uma nota: eu jamais havia descido em Congonhas, porque normalmente quando vou a São Paulo embarco e desembarco por Guarulhos. Leitor: pousar de dia em Congonhas é um verdadeiro filme de terror. Você vê os prédios passando pertinho da janela e não há a menor margem de manobra - e a pista é muito curta.

O curioso é que acabei passando por quatro aeroportos neste dia, pois fui do Santos Dumont para Congonhas e retornei de Guarulhos (que está parecendo uma rodoviária, a propósito) para o Galeão.


Ao desembarcar o motorista Miguel já me aguardava para o trajeto até a sede da Espn, que fica no bairro do Sumaré. Ótimo papo, o motorista me contou algumas histórias de visitas ilustres (o que não era meu caso, claro) que ele havia transportado.

Cheguei por volta de 13:45 na redação, que ocupa o prédio utilizado anteriormente pela antiga Tv Tupi. A gravação estava programada para as 15 horas, e contaria com o apresentador Marcelo Duarte e os jornalistas Celso Unzelte (os dois comigo na foto acima) e o mítico Paulo Vinícius Coelho (abaixo), mais conhecido pelas iniciais de seu nome: PVC.

A redação - que pode ser vista nas duas primeiras fotos - tem tamanho equivalente a do SporTv que havia visitado anteriormente, com um número de jornalistas parecido. Fiquei com a impressão de que o clima era mais informal e menos, digamos, "controlado". Se fosse comparar diria que o SporTv é mais "futebol alemão" e a Espn "futebol brasileiro". Estilos diferentes - não significa que um seja melhor que o outro.

Desde o início havia a preocupação de me deixar à vontade. Toda a equipe me tratou com bastante deferência (mais até que eu merecesse) e mostrando que eu não estava ali em sensação de inferioridade: era um deles. Logicamente eu era um convidado do canal, e isso pesa. Duarte brincou muito comigo por conta do post que escrevi aqui sobre o Reading, da Inglaterra.


Conversamos um pouco, acertamos alguns detalhes e fomos a uma sala onde é feita uma pequena maquiagem e havia um lanche à minha espera antes da gravação - que optei por deixar para depois. A profissional passa um produto no rosto para diminuir o brilho e, depois, uma espécie de creme para fazer desaparecer olheiras e rugas de expressão. Leitores, eu duvidava da eficácia deste tipo de produto, mas realmente funciona: como podem ver nas fotos, me remoçou uns dez anos.

Eu havia levado duas camisas do Flamengo para utilizar na gravação: uma rubro negra e outra azul (esta de goleiro), ambas do modelo atual. Os editores me deixaram à vontade para utilizar a que eu quisesse, mas houve uma ponderação de que, com o cenário com vários elementos rubro-negros, utilizar a de goleiro destacaria mais - o que determinou a minha opção. Olhando as imagens depois acho que acertei.

Fomos para o cenário, que é um estúdio razoavelmente grande e com menos utilização de recursos tecnológicos, em especial de efeitos de luz e câmeras. O processo é mais artesanal, no sentido que que a parte técnica depende mais do manejo humano. O cenário também é composto por livros, bonequinhos, murais de fotos, algumas quinquilharias e a geladeira onde se guardou a "Farofa Boiadeiro" (que, a propósito, está na minha despensa) e onde PVC mostrou o time de botão com o São Paulo de 1957. A propósito, ela não gela, embora existissem dentro dela latinhas (creio que de cerveja, mas não garanto) temáticas do Grêmio e do Inter de Porto Alegre como decoração.

Aproveitei todo o tempo que pude para conversar, ouvir e aprender - inclusive com algumas dicas bastante valiosas do PVC sobre o balanço do Palmeiras e que servem como alertas para a análise do balanço rubro negro.


Antes do início da gravação há uma série de ajustes e há meio que um "esquenta", com alguns testes e conversas em parte gravadas - e que por si só dariam um outro programa. O "Loucos por Futebol" é mais descontraído que outros de esportes, mas é (quase) tudo combinado: minhas intervenções já estavam acertadas antes mesmo da gravação, obviamente não as palavras mas os assuntos que eu iria abordar e os momentos.

Isso se faz necessário porque é um programa de tempo cronometrado (54 minutos, incluídas as matérias) e pela característica dos assuntos se estenderem demais, as intervenções isto acaba gerando um trabalho muito grande na edição. Na prática, a únicas improvisações que fiz foram a referência ao Estadual do Rio de 2002, o comentário sobre a Alemanha e a resposta sobre como conseguia as camisas que mostrei no programa. Até o agradecimento à Petrobras e as brincadeiras com o meu sobrenome estavam previamente acertadas.

A gravação começou por volta de 15:20 e eu estava bastante tenso, especialmente no primeiro bloco. Nunca havia aparecido na televisão antes e também estava procupado em olhar para a câmera certa, embora vendo depois percebi que bastava olhar para quem estava com a palavra quando não estava falando.

No intervalo para o segundo bloco o Unzelte disse que eu estava indo bem e a partir daí dei uma relaxada para os blocos restantes.


Os intervalos são um show à parte. Os VTs das matérias são mostrados para a gente, e vamos conversando enquanto isso, com brincadeiras e trocas de informações. Tanto que a informação sobre o local onde o João Máximo havia gravado a crônica sobre Dino Sani foi dada por mim ao apresentador Marcelo Duarte enquanto o mesmo era transmitido na gravação.

Vale mencionar que PVC e Unzelte passaram bom tempo debatendo se o jogador Sarará era o segundo ou o terceiro reserva do São Paulo de 1957 abordado no programa. Isso foi resolvido com uma consulta ao Google feita em seu celular por Unzelte no intervalo.

Aliás, os caras são verdadeiras enciclopédias. PVC é uma espécie de "Google" futebolístico: se perguntar a escalação do Flamengo de 1928 ele sabe de cabeça. Fera.

Engraçadíssimo foi o momento em que Unzelte canta os hinos dos times aniversariantes. A gente ria horrores enquanto os hinos eram literalmente "executados" pelo jornalista. Obviamente, a letra dos hinos estava na bancada, ou seja, ele lia. A infame sigla do Esporte Clube Uruguaiana (ECU) também foi alvo de muitas gargalhadas nos bastidores. O clima é informal e descontraído o tempo todo.


Em um dos intervalos eu troquei camisas que estavam no varal com outras que estavam na bancada a meu lado a fim de poder mostrá-las. Também bebi água e trocamos idéias sobre o que seria feito no bloco seguinte, além de falar de assuntos como a Seleção brasileira, por exemplo.

Ao final ainda gravamos a vinheta que apareceria como "chamada" do programa, mas esta tive de repetir a pedido da editora. Pelo que percebi na edição do programa foi tudo praticamente na íntegra - no meu caso, apenas uma titubeada que dei quando falo do livro da Charanga Rubro Negra foi cortada. Duarte teve de repetir a escalada inicial devido a um equívoco bobo: ele falou "Clube de Regatas Flamengo" quando o correto é "Clube de Regatas do Flamengo" - mas aí se vê o cuidado da produção.

Achei que tinha sido apenas razoável a minha participação, apesar dos comentários em contrário dos jornalistas e da equipe. Na verdade a gente não tem muita noção na hora, ainda mais quando se é a primeira vez em que se aparece na frente das câmeras. Olhando depois e com o feedback de quem assistiu achei muito bom.

Lanchamos após a gravação e ainda conversei mais um pouco com a equipe, deixando acertadas entrevistas para este Ouro de Tolo com PVC e com Marcelo Duarte. Na verdade poderia até ter ficado um pouco mais, mas estava com o horário bastante apertado - meu vôo era era às 19:45 em Guarulhos. Mas até que o trânsito, embora pesado, estava razoável, e cheguei a Cumbica ainda a tempo de beber um chope antes do embarque - que foi complicado: tivemos de entrar no ônibus e depois esperar dentro do avião quase 25 minutos para a autorização da decolagem.


Posso dizer que fiquei muito feliz com o convite e gostei do resultado. Cada vez mais vejo que minha vocação era o jornalismo, mas agora "Inês é morta"... No momento em que escrevo o vídeo do programa ainda não estava disponível no Youtube.

Termino agradecendo ao editores Augusto Alves e Karen Barbosa e especialmente à produtora Camila Peixoto, pela oportunidade e pelo apoio.

Espero ter outras oportunidades de poder estar na tv, pois confesso que gostei bastante da experiência. Já havia em duas ocasiões dado entrevistas a rádios e jornais, mas à frente das câmeras jamais.

Mas valeu demais.


(Da esquerda para a direita: Augusto (que é Flamengo), eu, Camila e Karen)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sobretudo - "O Flamengo que não pode ser – e aquele que tudo poderá"


Nesta quarta feira, a edição especial da coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero, traz um manifesto voltado à gestão dos clubes brasileiros e, em especial, ao Flamengo. Só tenho a dizer que assino embaixo de tudo o que está escrito no texto.

Preparem-se.

O Flamengo que não pode ser – e aquele que tudo poderá

Volto a um tema restritivo, uma vez que apesar de a maioria do universo ser composta por rubro-negros (alguns nem sabem que são), outros poucos leitores poderão se desinteressar pelo que este modesto colunista tem a dizer, por tratar-se de assunto externo a seu cotidiano.

Mas engana-se o leitor que, sendo torcedor de outro clube, imagine que o Flamengo nada tenha a ver com suas preocupações. Caso o amigo acompanhe futebol e o mundo esportivo, peço que me siga por mais algumas linhas, pelo menos.

Qualquer dos grandes clubes brasileiros deveria liderar uma revolução na gestão do nosso esporte. O Flamengo, como time de maior torcida, e maior marca esportiva do País, deveria ter esta transformação como missão obrigatória. Senão por motivo mais nobre, que seja para salvar a si mesmo.

Discute-se bastante a estrutura societária, a democratização do acesso ao voto nos clubes de massa, a transformação em clube-empresas, a separação entre futebol e clubes sociais, a negociação das dívidas e várias questões que, a meu ver, deveriam ser subsidiárias a um tema mais importante: o modelo de gestão.

Pode-se encontrar, dentre os clubes de sucesso neste hoje mercado global do esporte, variados modelos societários: Milan, Chelsea e Manchester United têm um único controlador, o Barcelona tem dezenas de milhares de eleitores. Qual o modelo mais eficiente? Parece uma pergunta menor, uma vez que se chega ao sucesso por um ou outro caminho. Entretanto, nenhum destes grandes clubes tem uma forma amadora de gestão.

Alguns defensores do amadorismo vão lembrar, com boa parcela de razão, que os clubes brasileiros construíram uma bela história já centenária contando com a gestão abnegada de alguns seus sócios, eleitos para tal. A bem da verdade, durante décadas os grandes clubes europeus também trilharam esta estrada.

O que houve desde então foi uma mudança de paradigma. De duas a três décadas para cá, o esporte – notadamente o futebol – passou a contar com o aporte de recursos de outras vertentes da indústria do entretenimento, entre as quais os conglomerados de comunicação, as empresas fornecedoras de material esportivo e os grandes anunciantes, em meio a processo de crescente globalização.

Ora, o tipo de negócio em que os clubes se viram envolvidos passou a ser desenvolvido por partes desiguais: enquanto as empresas parceiras são representadas por profissionais altamente qualificados, a maioria dos clubes permaneceu representada por dirigentes amadores - com claro prejuízo para os clubes. Por outro lado, as cifras em tais negociações cresceram exponencialmente, sem que tenha havido um mínimo de racionalidade no uso desses recursos por parte dos clubes que não profissionalizaram sua equipe de gestores.

O resultado é um mercado atípico, em que houve uma transferência de ganhos maior à mão de obra do que aos empregadores. Isso se deve ao fato de que o valor médio pago a atletas e técnicos subiu mais do que os ganhos das instituições esportivas, movidos pela passionalidade de dirigentes e pela boa percepção de oportunidade por parte de representantes e empresários. O crescimento dos valores arrecadados, em lugar de aumentar as possibilidades de desenvolvimento destes clubes, ao contrário, provocou um mergulho na desordem financeira e uma situação geral de insolvência.

Enquanto isso, aqueles que deveriam ser os maiores ativos dos clubes - suas marcas e a relação institucional com as massas de torcedores que medem a sua grandeza - em vez de se incrementarem, deterioram. Some-se o crescimento de marcas esportivas estrangeiras e o avanço de outras facetas mais profissionalizadas da indústria do entretenimento, temos uma situação caótica aparentemente irreversível. Pelo menos, sem que haja uma nova mudança de paradigma.

Eu escrevi aqui mesmo neste blog uma coluna sobre os achincalhes que o Flamengo anda sofrendo sob o olhar passivo de sua atual Diretoria, até com a colaboração indireta dela. Naquele texto, um caso fortuito com o Diego Maurício, de importância menor, simbolizava o desleixo pela imagem do clube. Eu ainda elencava outros exemplos.

De lá para cá – e em tão curto tempo – o Flamengo colecionou outros descasos até maiores, como a lentidão em contratar um dirigente remunerado para futebol, a interferência sistemática de Vice-Presidentes uns nas áreas de atuação de outros, a declaração do não pagamento de impostos, a revelação de um balanço para lá de confuso e polêmico, a eliminação prematura em todas as competições do futebol no semestre, um período longo sem jogos e poucos treinamentos, a inação e o improviso na contratação de reforços, o debate público acerca de salários em atraso, além de intermináveis declarações oficiais inadequadas.

O Clube de Regatas do Flamengo, glória do esporte nacional, é vítima de um processo de encolhimento institucional (se existisse, a melhor palavra seria “apequenamento”) e exemplo daquilo que não deve ser feito na gestão de instituições congêneres. Vou evitar o lugar-comum da crítica fácil às pessoas que vêm dirigindo o clube nos últimos anos.

Conheço algumas delas, e dentre elas várias pessoas de bem, alguns inclusive muitíssimo bem sucedidos em suas vidas pessoais e profissionais.

Mesmo aqueles que têm experiência, conhecimento técnico e capacidade intelectual para atuar nas muitas atividades da gestão de um clube, costumam falhar quando fazem o papel do dirigente esportivo voluntário: misturam a paixão e a razão, o imediatismo e o necessário planejamento estratégico, o compromisso para com a instituição e as obrigações pessoais privadas, o administrador e o torcedor.

O Flamengo faz péssima gestão de sua marca, é comumente associado a escândalos, brigas internas políticas inócuas, desrespeito a hierarquias, processos confusos, contratos mal alinhavados e raramente cumpridos, um ambiente e uma cultura interna que, sinceramente, dificilmente poderia vir a atrair parceiros confiáveis e interessados na obtenção conjunta de resultados positivos numa relação estável e segura.

No momento em que começa a se desenhar o quadro eleitoral cujo desfecho se dará no final do ano, quando da eleição da Diretoria para o próximo triênio, vê-se candidatos divididos entre aqueles que pretendem perpetuarem-se num grupo de poder que se metamorfoseia para manter-se igual ou aqueles que apresentaram-se de forma novidadeira como representantes de uma pseudo-mudança, ainda que reproduzindo discursos, perfis e hábitos antigos.

Parece bastante claro que uma mudança passa, necessariamente, pela determinação em dar ao clube um choque de gestão profissional incondicional. Há, para a Diretoria eleita, um espaço político necessário e útil, qual fosse o respaldo institucional, o estabelecimento de metas, a contratação de uma equipe de gestores profissionais, a avaliação dos resultados obtidos a médio prazo e a validação ou redefinição das soluções adotadas, em períodos e ciclos pré-configurados.

Caberia à equipe de gestores profissionais tomar as decisões administrativas, decidir sobre cada uma das questões pertinentes às mais diversas atividades do clube, traçar planos executivos, preparar e gerir contratos, explorar oportunidades, negociar com atletas e seus representantes, valorizar a marca e otimizar todas as tarefas de gestão. Tudo isso com autonomia delegada e sob regras predeterminadas de governança corporativa, palavra chave neste novo momento.

O Flamengo estaria em conformidade com seu atual Estatuto, com a Diretoria eleita cumprindo sua missão de definir ONDE o clube deve chegar (objetivos) e um grupo de gestão profissional definindo COMO chegar (gestão) a tais metas, sob regras claras, sem sobressaltos ou interferências políticas cotidianas, com transparência de ação, num ambiente negocial de alto nível.

Este não é um caminho a ser adotado pelo Departamento de Futebol, nem por este ou aquele setor, mas pela instituição por inteiro, sob a liderança politica de um Presidente que tenha a grandeza de saber delegar a gestão cotidiana a um grupo de profissionais liderado por um CEO (ou outro nome que se queira dar ao cargo) com formação sólida, compromisso com o resultado, método administrativo, experiência em gestão de instituições de grande porte e uma equipe bem articulada. Ou seja: um choque de gestão profissional.

O problema real consiste em conciliar, num grupo a ser eleito para liderar esta revolução, paixão pelo Flamengo e a clara noção de que esta mesma paixão inviabiliza uma gestão racional. Conciliar conhecimento profundo da questão e humildade para abrir mão da gestão direta sobre os dilemas cotidianos.

A minha impressão pessoal é que ao cruzar as portas do clube, o torcedor-dirigente típico não se contém e se sente obrigado a interferir, participar, aparecer, falar além da conta – mesmo aqueles que antes se diziam comprometidos com a ideia de profissionalização. No fundo, o torcedor que habita em nós faz com que todos queiram “escalar o time” quando detém poder para tal.

O Presidente hipoteticamente ideal deveria ser “impedido” de entrar no clube, sentar à mesa, resolver qualquer assunto do dia-a-dia. Que dê as diretrizes, avalie e reconduza a médio prazo, mas não interfira na ação.

Este é o modelo ideal a meu ver.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Loucos por Futebol

(Foto: Camila Peixoto)

Eu irei escrever post específico sobre a gravação do programa no início da semana que vem, mas queria fazer um convite ao leitor: acompanhar o programa "Loucos por Futebol", da Espn Brasil (Canal 70 da Net), que terá como assunto o Centenário do futebol do Flamengo - que se completa em 2012 - e do qual fui um dos convidados.

Será dia 12, sábado, às 22:30.

Reproduzo abaixo post do blog do programa no site da Espn, com as atrações e os temas do programa. A princípio as reprises serão segunda feira às 08:30, na madrugada de terça às 2 da manhã e na noite do mesmo dia às 20 horas.

Além de falar sobre o tema do programa também discorri sobre este blog e mostrei algumas peças de minha coleção de artigos rubro negros.

Conto com a audiência dos leitores!

Vamos ao post da Espn:

Loucos homenageia centenário do futebol do Flamengo

por Loucos por Futebol para o ESPN.com.br

Foram doze anos desde a fundação do Flamengo, em 1895, até a chegada do futebol ao clube, em 1912. A história desta paixão, que começou com uma goleada, você vai conhecer no Loucos por Futebol deste sábado (12 de maio).


Loucos por Futebol com a participação do economista e blogueiro Pedro Migão

Direto do Rio, o pesquisador, escritor e rubro-negro Marcelo Abinader mostra números e curiosidades sobre os cem anos de futebol do Mengão.

No estúdio, um convidado maluco pelo Flamengo: o economista e blogueiro Pedro Migão.


Pedro Migão no Loucos por Futebol

João Máximo fala sobre os 80 anos do craque Dino Sani, campeão do mundo com a seleção brasileira em 1958.

Na Crônica de Roberto Porto, o lado engraçado de outro aniversariante: Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol.

Em Brasília, Marcelo Duarte visita uma barbearia feita especialmente para Loucos por Futebol.
Quer mais? Então fique ligado...

Loucos por Futebol – sábado (12/05) às 22h30.
Reprises: consulte a programação no site.


Loucos por Futebol neste sábado, às 22h30

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Bissexta - "Balanço Patrimonial do Flamengo: Em Meio às Velhas Malandragens, Surgem Boas Notícias (Parte II)"


Excpecionalmente nesta quarta feira, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, escreve a segunda parte de sua análise sobre o balanço patrimonial do Flamengo.

Confesso que discordo de algumas colocações, em especial da conclusão do artigo. Penso que além do balanço ao que parece induzir a algumas conclusões que me parecem equivocadas, a gestão do clube está longe de ser considerada aceitável - ainda mais neste 2012 eleitoral no Flamengo.

Vamos ao post.

Balanço Patrimonial do Flamengo: Em Meio às Velhas Malandragens, Surgem Boas Notícias (Parte II)

Eu podia seguir criticando o balanço como fiz no artigo anterior e como fez o Editor Chefe – motivos não faltam. Mas esse texto já anda enorme e eu preciso falar de coisas boas. Sim, tem coisas boas de verdade para comentar.

VI - Xô Baixo Astral - Vamos Falar de Coisas Boas

Primeiro, as receitas de marketing.

Uma das críticas recorrentes aos atuais gestores é a falta de um patrocínio master na camisa. A crítica pode ser válida, mas o fato é que essa verba não é mais tão relevante quanto o foi em outros anos.

Em 2009, ano da assinatura com a Olympikus e da troca do patrocínio da Petrobras, as receitas de marketing representaram 13% da receita total (menos que a bilheteria) e R$ 15 milhões em números absolutos. O melhor ano havia sido 2006, quando entraram no caixa R$ 21 milhões, que corresponderam a 34% do faturamento, sendo o item mais importante naquele ano.

Pois bem: em 2011 o Flamengo ganhou R$ 44 milhões com receitas de marketing, com destaque para o aumento expressivo dos licenciamentos e royalties, que somaram R$ 9 milhões.

Pode-se extrair desses números que, ao contrário de um passado bem recente, o patrocínio master deixou de ser uma questão de vida ou morte no clube. E que a sua ausência, em si, não afetou o resultado. É óbvio que se houvesse o patrocínio o resultado teria sido ainda melhor - não sou tonto de negar. Mas fica a lição de que entre fechar qualquer patrocínio ou reservar o espaço para um contrato que realmente valha a pena, a segunda opção faz mais sentido.

Segundo, a questão da dívida. Em 2006 o Flamengo devia quase CINCO vezes o seu faturamento anual. Se fosse uma empresa comercial sua quebra teria sido decretada.

O Flamengo terminou o ano devendo pouco menos de DUAS vezes sua receita. Continua sendo muito, continua sendo um indício de péssima saúde financeira, continua sendo uma vergonha, mas é MUITO MENOS do que já foi. Mais alguns anos nesse ritmo podem transformar o clube em uma instituição que opere dentro na normalidade. Eu nunca acreditei que esse dia pudesse chegar. Ele continua longe, é verdade, mas já há luz no fim do túnel.

Terceiro, os direitos federativos dos jogadores. A tradição rubro-negra dos últimos 20 anos sempre foi equilibrar as contas se desfazendo de jovens jogadores da base. Em 2008 essa foi a principal fonte de receita, o clube amealhou R$ 28 milhões na venda de seus atletas.

Em 2011 esse item se tornou irrelevante. Apenas 3% da receita (ou R$ 5 milhões) vieram daí. Aliás, em 2010 já havia sido assim, a soma das vendas mal chegou a 1% (meros R$ 1 milhão de reais). É tão pouco dinheiro que dá a impressão de serem apenas repasses dos percentuais que o clube formador tem direito em revendas futuras.

O curioso é que o clube, depois de muitos anos de “seca”, parece viver um momento de renascimento de sua base, que se sagrou campeã do principal torneio da categoria e forneceu vários atletas para o elenco principal (para meu gosto pessoal, a maioria ainda bem limitada). Isso me faz pensar que o clube, deveria, sim, se desfazer de alguns atletas, porque isso é inerente ao mercado.

Quarto, o contrato de televisionamento. Aliás, é esse contrato que, sozinho, explica quase todas essas boas notícias. O mérito maior da direção do clube foi ter sido firme na decisão de negociá-lo em separado e diretamente com a TV Globo.

O contrato trouxe algumas boas novas. De cara, assegurou uma receita fixa e alta até 2015. A julgar pelas informações do “contas a receber”, o clube terá cerca de R$ 90 milhões por ano. Se as demais receitas do futebol se mantiverem no mesmo patamar (marketing, bilheteria, etc.), o clube terá R$ 160 milhões nos seus cofres.

Não resta dúvida de que com um mínimo de esforço, dá para montar um belo elenco, contratar bons atletas, montar uma boa comissão técnica. O clube não está nadando em dinheiro, mas tem, finalmente, certo conforto que lhe permite algum planejamento de médio e longo prazo. E a tendência é de melhora, pois há potencial de crescimento das receitas de marketing e bilheteria.

E mais: o contrato impôs alguma disciplina financeira, pois dizem que as suas cláusulas vedam o mecanismo das antecipações. Foi isso, provavelmente, que determinou o “congelamento” da dívida.

Como nem tudo são flores, o clube afirma que em 2012 irá receber cerca de R$ 70 milhões da TV. Ué... se foi alguma espécie de adiantamento recebido em 2011, essa verba não aparece com clareza.

VII - Conclusão e Impressões Finais

Nada que envolva o Flamengo e mais ainda as contas do Flamengo merece o título de “conclusão”, porque nada no clube é muito conclusivo, definitivo, certeiro.
Mas dá para traçar algumas impressões finais.

A principal delas – e a mais decepcionante – é que a direção do clube não está nem aí para a transparência ou sequer julga importante prestar esclarecimentos detalhados aos torcedores ou aos sócios. O balanço, além de ser cheio de armadilhas e coisas obscuras, fica escondido no site oficial: a ele só se chega depois de pesquisar com afinco. Nem quando tem números bons para mostrar a direção se esforça para destacar os seus pontos positivos.

Além disso, é possível afirmar que a má gestão continua sendo a tônica. O Flamengo se comporta como novo rico, a receita aumentou, mas os gastos explodiram – as despesas do futebol cresceram excessivos 57% de um ano para o outro, mais até do que a receita, que aumentara 47%.

Uma das críticas recorrentes à administração atual é a elevação das despesas do clube social e dos esportes amadores. Concordo que algum aumento deveria mesmo haver – o clube andava às traças, era preciso agir.

Mas nada justifica que o está acontecendo, principalmente porque a maior parte desse acréscimo vem das despesas de pessoal e não de investimentos, como seria o esperado.

Basta ver que as despesas de pessoal cresceram mais de 200% quando comparadas a 2007. Aliás, em 2007 elas representavam 55% da arrecadação do clube com suas mensalidades e patrocínios específicos. Em 2011 chegaram a 122% dessa arrecadação, deixando claro que a verba do futebol subsidia outras atividades – em valor bem mais baixo do que se acredita, mas algum subsídio há. E até é caso de comemorar, porque em 2010 foi ainda pior.

A mensagem final, contudo, é de esperança. Seja por mérito dos atuais gestores (algo cuja menção é temerária, porque a regra no ambiente rubro-negro nesses tempos de Patricia Amorim é a crítica sem tréguas), seja por fatores conjunturais, o Flamengo, em 2011, parece ter aplainado o terreno para dias melhores.

Se não fugirmos do prumo e os esqueletos não saírem do armário, dá para acreditar que o próximo mandato poderá ser pautado por uma realidade financeira menos sufocante.

Cabe aos sócios escolhermos bem quem vai pilotar o zeppelin de chumbo pelos próximos 3 anos. De preferência, que arranquemos desses futuros gestores um compromisso sério de romper com as más práticas de governança e de fazer bom uso do razoável orçamento que lhes espera.