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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sabinadas - "Arbitragem Profissional"


Nesta quinta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, toca em um ponto importante: a profissionalização dos árbitros de futebol.

Pessoalmente penso que tal medida não interessa muito aos comandantes do futebol como um todo, por tirar poder de pressão destes sobre os árbitros. Hoje, apitar no Campeonato Brasileiro é uma fonte de renda bastante considerável – um árbitro FIFA ganha R$ 3 mil por jogo – de forma que, como a escala é feita pelas Federações, estas possuem um poder discricionário que não interessa a elas perder.

Além disso, como escrevi em artigo de 2010 considero que algum uso de tecnologia pode e deve ser utilizado, em especial nos principais campeonatos. Me agrada o modelo utilizado pelo tênis e pelo futebol americano, onde os jogadores (equipes) possuem o direito (limitado) de solicitar o recurso da imagem ou de traquitanas eletrônicas.

Não impede os erros, mas os diminui. Vamos à coluna.

Arbitragem Profissional

No último fim de semana, a eterna polêmica chamada arbitragem alcançou níveis ainda maiores do que o normal no Campeonato Brasileiro de futebol. E os lances mais discutidos ocorreram justamente nas duas partidas envolvendo os líderes da competição, Fluminense e Atlético Mineiro.

O objetivo deste post, ao contrário do que ocorre entre os torcedores xiitas nas redes sociais, não é questionar a legitimidade do posicionamento dos times na tabela e abrir uma teoria da conspiração contra clube A ou B. Até porque penso que todos os times são ajudados e prejudicados em algum momento durante as competições. Mas sim, propor de uma vez por todas uma mudança que reduza a contaminação de resultados.

Infelizmente neste país o árbitro de futebol não é profissionalizado. Um jogo de futebol que envolve milhões de reais investidos em cada clube e a paixão dos torcedores pelo seu time é comandado por um cidadão cuja atividade principal não é a de árbitro. É como se algum neurocirurgião tivesse a priori o comércio como sua maior fonte de renda.

O que deveria haver é uma definitiva exigência que os árbitros de futebol, senão exclusivamente, mas na maior parte do tempo, se dedicassem a uma profissão que já deveria ter sido regulamentada. Se para boa parte das profissões uma faculdade de quatro ou mais anos é exigida, por que um árbitro não é obrigado a ser formado em arbitragem?

[N.do.E.: pelo menos uma pós graduação do curso de Educação Física já seria válida, a meu ver]

Existem cursos, é verdade, existem treinos físicos, é verdade, mas, diante da importância que esses, digamos, cidadãos (afinal, eles não são profissionais) têm para o desenlace do futebol, a maior (e mais rentável) paixão popular deste país, é absolutamente incipiente.

Tudo bem: quem jogou bola e acompanha futebol sabe que existem árbitros que prejudicam propositalmente um time ou jogador por questões pessoais e também já houve diversos escândalos comprovados. Está aí o Brasileirão de 2005, que não nos deixa mentir.

Mas, sem dúvida, a definitiva profissionalização dos árbitros atenuaria o problema e daria ao menos mais credibilidade a eles. No mínimo poderia haver uma cobrança de direitos e deveres como qualquer profissional está sujeito a ter.

P.S.: a título de curiosidade, o site Placar Real (http://www.placarreal.com.br/) faz uma tabulação dos resultados do atual Brasileirão que foram influenciados diretamente por erros de arbitragem.

Segundo o levantamento (bem criterioso a meu ver), o Atlético Mineiro seria o real líder, com o Fluminense em segundo e o Palmeiras próximo de deixar a zona de rebaixamento. Ainda segundo a pesquisa, atualizada a cada rodada, o Tricolor carioca foi o clube mais beneficiado pelos árbitros, com oito pontos a mais do que deveria ter, e o Corinthians, o mais prejudicado, com oito pontos a menos. Em posições, o Santos é o mais beneficiado e o Corinthians, o mais prejudicado.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sabinadas - "Cadê aquele futebol?"



Na segunda edição da coluna “Sabinadas”, o jornalista Fred Sabino mostra seu desencanto com o momento atual do futebol brasileiro.

Confesso que não compartilho uma visão tão pessimista, mas o texto suscita uma parada para reflexão. Vamos ao texto.

Cadê aquele futebol?

Não é um mero saudosismo besta. Mas é fato que ultimamente estão fazendo de tudo para expulsar os verdadeiros torcedores de futebol dos estádios. E estão conseguindo.

Nem vou me ater aqui ao que acontece nas quatro linhas, com a nossa péssima safra de treinadores, responsáveis por esquemas ultrapassados e defensivos, e os limitados jogadores, com raras exceções. O problema é muito mais sério.

Na verdade é um problema de pessoas, mesmo. Em todos os níveis, como abordou o Julio Gomes em ótimo texto na ESPN – aqui.

A começar, claro, pelos dirigentes, que se servem dos clubes sem pudores, fazendo deles cabides de emprego e formadores de rebanhos políticos com fins eleitorais. Com isso, os clubes de futebol hoje estão vazios, a figura tradicional do sócio quase não existe - talvez a única exceção seja o Internacional-RS, com um ótimo programa sócio-torcedor.

[N.do.E.: discordo ligeiramente do colunista, há outros clubes com bons programas de sócio.]

Lembro que quando era pequeno frequentava a Gávea e via de perto meus ídolos treinarem. Ídolos que permaneciam no clube por muito tempo e não saíam logo - esse, aliás, é um tema para outra coluna. Com o sócio cada vez mais afastado do clube e a saída rápida dos jogadores para o exterior, automaticamente não se cria mais a identificação do torcedor com o ídolo.

A reboque vem o problema das torcidas organizadas, que, desnecessário dizer, também afastam o torcedor comum do estádio. E essa cultura do ódio ao adversário, cada vez mais disseminada (sobretudo nas redes sociais), atinge níveis inaceitáveis, como o que vimos no último fim de semana no Couto Pereira. Uma menina que queria uma camisa de Lucas, do São Paulo, foi ameaçada por marginais da torcida do Coritiba.

Aí vem outro ponto inaceitável: a (falta de) atuação das autoridades. No episódio supracitado, nenhum policial agiu em defesa da menina. Simplesmente deixaram a coisa acontecer, claramente querendo evitar "sarna para se coçar".

Cito ainda outro episódio que vi recentemente no qual, na entrada do Engenhão, um transeunte tentou "furar a fila" bem na frente de um policial, que nada fez. Quando questionado pelo grupo em que eu estava, o policial fingiu que não era com ele: "a culpa é de vocês, que o deixaram entrar".

Pergunto então eu: e se tivéssemos tirado esse cidadão à força? Fatalmente seríamos presos, claro...

Dentro das quatro linhas, outro problema: a arbitragem. Impressionante como não há praticamente nenhum jogo em que não haja falhas dos profissionais que conduzem os jogos... Ops, peraí, eu disse profissionais?

Desculpem-me a falha, os nossos árbitros não são profissionais... As falhas são tão grosseiras e repetitivas que, sinceramente, não consigo mais saber se é incompetência ou má intenção - ou os dois juntos.

Então, ora bolas, de que vale ir a um estádio se há risco de ser agredido por marginais, se não posso usar a camisa do meu time na rua, se não temos mais ídolos de verdade, se meu clube está sendo lesado pelos dirigentes, se o árbitro pode prejudicar meu time (deliberadamente ou não), se um policial não coíbe comportamentos inadequados?

[N.do.E.: e olha que o colunista não cita a absurda proibição da cerveja nos estádios.]

Definitivamente, o que vejo hoje não é o futebol que eu aprendi a amar. Estamos retrocedendo a cada dia.

Principalmente enquanto sociedade.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Exterminadora do Futuro


Eu estava evitando escrever sobre este assunto para os leitores não pensarem que é uma postura eleitoreira, mas não se pode ficar calado diante do absurdo que vem sendo perpetrado pela atual presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, a poucos meses do término de seu mandato.

Contrariando princípios básicos de gestão, a poucos meses do término de seu mandato a Presidente está renovando os dois contratos mais importantes de receitas do clube por vários anos além do término de seu período, deixando quem a suceder sem qualquer margem de negociação ou ampliação das receitas do Flamengo.

Sabemos que Patrícia Amorim pode se reeleger em dezembro e que suas chances, por incrível quanto pareça, são muito boas, mas isto é básico: somente se trabalha com definições de orçamentos dentro do espectro da própria gestão, no máximo no ano seguinte. Na prática Amorim irá determinar aspectos importantes da gestão do clube até pelo menos 2018, impondo sua linha de atuação mesmo que seu grupo político não esteja mais no poder.

Ainda há outra questão a ser analisada: o clube recebeu agora adiantamentos sobre os contratos em questão, o que diminui a previsão de receitas para os anos subseqüentes. Adiantamentos, alias, que provavelmente foram gastos mais rápidos que o tempo que eu levei para escrever este artigo.

Vamos caso a caso.

O primeiro, e muito pouco divulgado, foi a renovação antecipada até 2017 do contrato que envolve os direitos de televisionamento do Campeonato Brasileiro de futebol. Não tenho detalhes se houve aumento nos valores anuais, mas o que se sabe é que o clube pegou um adiantamento de R$ 30 milhões da Rede Globo de televisão para tal.

Tal renovação antecipada tem o objetivo de impedir a entrada da Fox Sports no mercado nacional. A emissora de origem norte americana vem fazendo um estrago considerável na concorrência nos direitos de campeonatos estrangeiros e vinha se preparando para se ombrear à Globo nos campeonatos regionais e nacionais.

Parêntese: vale lembrar que o clube na TV fechada vem sofrendo um certo descaso por parte da dona dos direitos. Equipes secundárias na maioria das transmissões, jogos em off-tube e narradores de outros estados nas partidas locais. Fecha o parêntese.

Certamente o clube poderia ter esperado um pouco para fazer esta renovação, pois o mercado tende a se aquecer com a concorrência representada pela Fox Sports e com os eventos que sediaremos. Contudo a diretoria optou por antecipar a renovação e antecipar receitas, abrindo mão de receitas futuras – quando Patrícia Amorim não estará mais no cargo.

O segundo caso é ainda mais absurdo. O termo é forte, leitores, mas não encontro outro.

Refiro-me à quebra de contrato com a atual fornecedora de material esportivo, a Olympikus, e a assinatura de um contrato de 10 anos com a multinacional Adidas. Os valores da proposta da empresa alemã são pouca coisa superiores ao que a empresa brasileira estará pagando ao final do contrato, em 2014.

Além disso, a empresa brasileira vem se mostrando uma ótima parceira do clube, construindo o museu na Gávea e pagando os salários de jogadores – entre eles, Vagner Love. Outro ponto forte é a capilaridade de sua distribuição: hoje se encontra material do Flamengo em todos os cantos do país.

Lembro ao leitor que nos tempos da Nike até aqui no Rio de Janeiro era bem difícil se encontrar material. E a então fornecedora disponibilizava ao público apenas as duas camisas de jogo e nada mais.

Hoje a Olympikus disponibiliza toda a linha do clube nas lojas, com a exceção de shorts de goleiro e de treino – mas mesmo estes aqui e ali se encontram.

Ressalte-se também que o Flamengo tentou quebrar o contrato com a Nike para assinar com a Olympikus. Naquele momento havia até justificativa, pois faltava material até para o time profissional – os goleiros chegaram a atuar com material de passeio por falta de camisas.

Um segundo rompimento, poucos anos depois, deixará no mercado a idéia de que o clube não respeita seus parceiros e que o clube não é confiável. Esta percepção já existe – basta ver que a camisa do Flamengo continua sem patrocínio master desde o término do contrato com a Procter e Gamble no ano passado. Este é o prêmio que a Olympikus ganhará por ser parceira: um término litigioso de contrato.

Outro ponto a se considerar é que a proposta é de 10 anos de contrato, com multa altíssima de rescisão. O mercado brasileiro tende a ter um crescimento exponencial nos próximos anos por causa da realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Isto significa que o contrato vantajoso de hoje, com multa alta, pode ser baixo daqui a dois ou três anos.

A prudência em uma boa gestão mandaria que se esperasse, até porque o contrato atual somente se encerra em 2014. Mas irão mandar a Olk às favas e assinar com a Adidas – ainda que a atual fornecedora tenha coberto a proposta da empresa alemã.

Os principais argumentos de quem defende a troca são o pagamento de adiantamento antes mesmo do início do contrato e a promessa de distribuição mundial do material do clube, tornando o Flamengo um dos cinco mais importantes da empresa no mundo.

Leitor: eu DUVIDO que isso aconteça. DUVIDO. Em caixa alta mesmo. Hoje o Flamengo sequer na América do Sul é considerado um dos clubes mais importantes, vai ter importância mundial?

Vou mais além: a tendência a meu ver é haver uma forte regressão na variedade e nos pontos de venda de material, comparado ao que existe hoje.

Quem leu o livro sobre a história da empresa alemã - “Invasão de Campo: Adidas, Puma e Os Bastidores do Esporte Moderno”, Editora Zahar – sabe que a multinacional se utiliza historicamente de métodos pouco ortodoxos para conquistar novos contratos e mercados. Sabendo disso e conhecendo como as coisas funcionam no Flamengo não me surpreenderia caso estes métodos de persuasão tenham sido utilizados na negociação.

O certo é que teremos uma batalha jurídica envolvendo esta questão, pois a Olympikus já avisou que irá cobrar na justiça a rescisão do contrato – uma conta de R$ 35 milhões.

Ainda que Patrícia Amorim tenha como bastante provável a sua reeleição, por mais insólito que isso pareça, são dois exemplos de uma gestão temerária e da falta de governança existentes no clube. Sua base de apoio é formada pelos frequentadores do clube social e dos segmentos ligados aos esportes olímpicos, que vêem o futebol mais como uma fonte de recursos que função principal do clube.

Inclusive muitos dos sócios e eleitores da atual mandatária sequer torcem pelo Flamengo no futebol, tendo se associado para freqüentar as dependências ou, o que é mais incrível, ter direito ao estacionamento do clube. Sai mais barato para quem trabalha nas redondezas da sede pagar a mensalidade de sócio contribuinte e parar o carro todo dia lá que ter uma vaga de mensalista em um dos edifícios garagem das redondezas.

Mas uma coisa é certa: com a reeleição da mandatária ou a vitória da oposição (na que pessoalmente não acredito, por fatores que em outro post discorrerei) o futuro do clube nos próximos anos é nebuloso.

Com estes atos Patrícia Amorim e sua diretoria estão comprometendo a continuidade competitiva do Flamengo a curto e médio prazos. E olha que não me refiro a alguns “esqueletos” cuja conta deve ficar para o seu sucessor, seja agora ou em 2015.

Para o grupo da atual mandatária isso não será problema, pois o futebol não é prioridade. Entretanto, o torcedor irá sofrer.

P.S. – Na foto Amorim está com Michel Levy, vice de finanças e uma espécie de “eminência parda” da diretoria atual.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Orun Ayé - "Vilão é vítima"


Em edição extra, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar mostra um outro ângulo da situação do jogador Adriano. Diria que concordo com a abordagem.

Vilão é vítima

Um dos assuntos preferidos da imprensa esportiva, sensacionalista e a mistura das duas que anda muito em moda atualmente é o jogador Adriano, o ‘Imperador’.

Adriano é mais um dos casos célebres de jogadores com infância pobre, de talento e que poderiam chegar muito mais longe aonde chegaram e não conseguiram por suas cabeças.

A imprensa e o público em geral preferem atacar esses jogadores. Preferem humilhar e debochar que realmente tentar descobrir o que ocorre com esses seres humanos. Sim, seres humanos: as pessoas esquecem que antes de ser um jogador de futebol é um ser humano.

Isso vem de muito atrás, desde tempos imemoriais.

Começa com Heleno de Freitas, chamado de “Gilda” em alusão ao personagem de um filme da época. Heleno era genial e genioso, bonitão, cheio de mulheres, adorava uma confusão e morreu louco e sifilítico em um manicômio.

Outro da linhagem foi Mané Garrincha, “o anjo das pernas tortas” - que para muitos foi melhor que Pelé. Garrincha foi um dos maiores jogadores da história do futebol, com dribles inigualáveis - assim como foram inigualáveis sua ingenuidade e sua queda por mulheres e bebida.

Morreu alcoólatra e pobre, tendo sua decadência física e moral exposta ao povo brasileiro em momentos como o desfile da Mangueira de 1980.

Almir Pernambuquinho não foi jogador do nível dos dois primeiros, mas mesmo assim foi um grande jogador, campeão pelo Flamengo e que também atuou pelo Vasco e no Santos de Pelé.

Protagonizou momentos memoráveis como uma briga generalizada com o time do Bangu na final do carioca de 1966. O Flamengo perdia por 3x0 e Almir não permitiu que o Bangu desse a volta olímpica.

Almir morreu alguns anos depois assassinado numa briga em uma boate em Copacabana.

O dinheiro no futebol aumentou muito nos últimos anos e com isso as farras e os escândalos ganharam maiores proporções. Tivemos casos extremos como o Bruno, goleiro do Flamengo preso por assassinato, mas outros que não chegaram a esse ponto, mas aprontaram muito como os do passado.

Mas ao contrário dos jogadores do passado esses ganharam tanto dinheiro que mesmo aprontando conseguem continuar ricos.

Romário, Edmundo, Renato Gaúcho, Ronaldinho Gaúcho e Djalminha são exemplos desse tipo de jogador. Quizumbeiros, brigões, mulherengos e geniais.

Todos eles, inclusive Romário, acabaram pagando o preço desse lado off futebol e tiveram carreiras inferiores a que poderiam almejar.

Romário com a carreira brilhante que teve, campeão mundial em 1994 sendo o principal jogador da copa perdeu a copa de 1998 por contusão, se fosse mais atleta não teria tantos problemas musculares. Perdeu a copa de 2002 e as Olimpíadas de 1996 e 2000 pela falta de confiança dos treinadores em seu lado disciplinar.

Ronaldinho Gaúcho assombrou o mundo até 2006 e depois simplesmente decidiu parar de jogar. Edmundo em 1997 foi considerado por muitos o melhor jogador do mundo, mas teve uma carreira inferior ao que poderia e ainda se viu envolvido em acidente de carro com três mortes. Djalminha nem a copas foi e Renato mal conseguiu jogar na Europa.

E chegamos ao caso mais dramático. Adriano.

Garoto pobre da Vila Cruzeiro, com tudo contra em sua vida Adriano conseguiu vencer no futebol. Virou Imperador em Milão, titular da seleção, sucessor natural de Ronaldo fenômeno e no auge da carreira perdeu o pai. Seu alicerce.

O rapaz se deslumbrou, se cercou de confusões, mulheres e se entregou à bebida tornando-se alcoólatra, além de sofrer de depressão. Doença que atinge cada vez mais pessoas nesse mundo moderno.

Tentou várias vezes dar a volta por cima e em algumas conseguiu como no Flamengo em 2009. Mesmo naquela campanha faltou inúmeras vezes a treinamentos, amarrou namorada em árvore e queimou o pé numa moto em reta final do brasileiro.

Nos últimos dois anos jogou por Roma e Corinthians mal entrando em campo e fazendo apenas dois gols. Agora tem nova chance no Flamengo, talvez a última - como ele mesmo diz.

Adriano não é mais imperador. Poucos acreditam nele e ele ajuda essas pessoas faltando a treino e se metendo em confusão como na semana passada. Já está ameaçado de nova demissão, o que poderia significar o fim.

O que eu penso disso tudo?

Tenho muita pena do Adriano, porque enquanto todos debocham, humilham, fazem pouco dele eu vejo uma pessoa doente. Eu vejo sinceridade nele quando diz que quer mudar, que quer provar que pode, quer mostrar pra sua família seu valor, dar a volta por cima e quando pede desculpas.

Mas como eu disse, ele é uma pessoa doente, tem que se tratar. Alegam que então a culpa é dele porque não procura tratamento, aí pergunto aos leitores...

Quantos de vocês ou dos que debocham dele já tiveram um alcoólatra, drogado ou depressivo na família ou na relação de amizade? É fácil? Foi fácil para que essas pessoas percebessem a doença e procurassem ajuda?

Nenhum doente admite facilmente que precisa de ajuda, tratamento e o caso do Adriano é pior ainda. Ele é milionário, famoso, é cercado de gente que quer seu mal, quer sugar tudo que ele tem e como parasitas aproveitar tudo que ele conquistou. Para essas pessoas não interessa o Adriano bem. Interessa o beberrão que dá festa regada a mulheres.

Ao contrário dessas pessoas, que vejo muito pela imprensa, eu não sacaneio ou debocho das falhas do Adriano: eu sinto pena. Fico triste porque é um ser humano que você vê que é do bem, quem convive gosta se afundando cada vez mais. Você não vê ninguém falar mal da pessoa Adriano.

O Adriano é um cara que gosta de estar na favela dele, com os amigos de infância dele, sem camisa soltando pipa e bebendo cerveja e para muita gente isso é um grande mal. Talvez se as perdições dele fossem beber uísque num bar chique de Ipanema com artistas e pessoas famosas não pegariam tanto no pé. Como ele mesmo diz, Adriano é uma pessoa que faz mal só a ele mesmo.

Torço por sua volta por cima, que ele volte a campo, faça gols e volte a seleção. Não só apenas porque está no Flamengo, meu clube do coração, mas pela salvação de uma vida.

Porque os mesmos que debocham hoje serão os primeiros a lamentar quando ele tiver um fim igual ao de Garrincha, Heleno ou Almir. 

Vai Adriano, faça esse gol. Orun Ayé!

(Foto: Uol)

P. S. Alguns leitores não entenderam a coluna de domingo. Eu não disse que tem que ter uma revolução, eu disse que só acredito em revoluções de baixo pra cima.

Revolução de cima pra baixo é apenas mudança de poder dentro do status quo e não ignoro que tivemos batalhas na formação do país como Canudos, Confederação do Equador, Farroupilha e outras. Mas a meu juízo foram casos isolados e em momentos importantes como a declaração de independência não podermos nos orgulhar de mártires e isso fez mal ao país, é a falta de referência. Não temos um Che Guevara, Simon Bolívar ou Lincoln.  

E não nego que em casos mais simples como disputas de samba e carnaval não nos mobilizamos para mudar. Mas nós compositores, as disputas e o carnaval somos reflexos do país, somos parte dele e agimos e reproduzimos em um ambiente menor aquilo que a nação é.

Assim como quem reclama de seu emprego, que não lhe valoriza e destroem sua auto-estima prefere reclamar em rede social que se mobilizar, entrar em sindicatos ou fazer algo mais relevante que possa mudar sua situação que reclamar em 140 caracteres.

domingo, 26 de agosto de 2012

Orun Ayé - "Sua imensa torcida é bem feliz"


Mostrando o caráter democrático deste blog, a coluna “Orun Ayé”, do compositor – e rubro negro como o Editor Chefe – Aloísio Villar faz uma homenagem ao Vasco da Gama por ocasião da passagem do aniversário do clube, ocorrido na última terça feira.

Não é a primeira vez que o clube alvinegro é tema deste blog. Quando da conquista da Copa do Brasil ano passado o título foi tema de post de autoria da colunista  - ela sim, vascaína – Anna Barros.

Aproveito para parabenizar a equipe cruzmaltina e ressaltar que rivais fortes fazem o futebol forte, como escrevi em outra ocasião.

Sua imensa torcida é bem feliz

Bem, é domingo, dia de mais uma coluna e hoje vou falar do aniversário do Vasco.

É... É isso mesmo, vou falar do Vasco. Não, não fiquei maluco.

Quem me conhece sabe que sou rubro-negro fervoroso, apaixonado e que um dos meus esportes favoritos é brincar com os vascaínos. Provoco, debocho, tiro do sério, mas procuro sempre manter tudo nos termos da brincadeira e do respeito.

É assim que eu vejo futebol: como uma grande brincadeira, motivo para confraternizar com os amigos e rir um pouco esquecendo os problemas do dia a dia.

Tem gente que leva o futebol pro lado do ódio, vê como inimigo um ser humano apenas porque ele torce por outro clube. 

Esse modo ridículo e nojento de ver a vida e o futebol nunca verão comigo e em uma semana que torcedores do Flamengo assassinaram um vascaíno [N.doE.: pior, ao que parece um dos suspeitos pertence à Torcida Jovem do Flamengo mas segundo consta sequer torce pelo clube] achei por bem fazer uma coluna dessas.

Principalmente por eu ser assumidamente um “rubro negro” chato e que torce contra o Vasco em tudo que é possível.

O Clube de Regatas Vasco da Gama foi fundado em 21 de agosto de 1898 por um grupo de remadores inspirado nas celebrações do quarto centenário da descoberta do caminho das Índias ocorrida em 1498. Por isso deram ao clube o nome do navegante português autor da descoberta.

O Vasco nasceu com a ideia de ser um clube mais democrático. Suas cores, o preto, vermelho na cruz e o branco se encaixam em uma situação de comunhão de etnias.

A religiosidade tem forte presença na história do Vasco, sendo o único time grande do Brasil a ter uma Capela dentro do estádio. A Capela para Nossa Senhora das Vitórias.

O vascaíno tem muito orgulho de sua história, principalmente pela democracia racial. Em 1904 Cândido José de Araújo foi o primeiro mulato eleito presidente de um clube esportivo brasileiro.

Em 1923 iniciou-se na primeira divisão do futebol carioca com um empate de 1 x 1 com o Andaraí. Aí começou uma das histórias mais bonitas do futebol brasileiro, o futebol como inclusão. O time vascaíno era todo composto por negros, mulatos e nordestinos e os outros clubes não suportavam essa ideia. Vieram as acusações de falta de profissionalismo e a alegação que analfabetos não poderiam atuar.

Com isso o Vasco começou a pagar professores para ensinarem seus alunos a assinarem as súmulas. O Vasco foi campeão naquele ano.

No ano seguinte Flamengo, Fluminense, Botafogo e outros abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), não autorizando o Vasco a entrar na mesma. A condição para a aceitação era o clube se livrar de doze jogadores de “profissão duvidosa”. O Vasco recusou.

Apenas no ano seguinte o Vasco entrou na AMEA. Sob alegação que não tinha estádio e por isso ainda sofrer restrições da AMEA o clube decidiu construir um na Chácara de São Januário, que fora um presente de D.Pedro I à Marquesa de Santos.

E assim o Vasco foi construindo sua história junto aos outros grandes do futebol carioca. Em 1948 tornou-se de forma invicta o primeiro clube brasileiro campeão sul americano. O chamado “expresso da vitória” foi base da seleção brasileira vice campeã mundial de 1950 com os jogadores Alfredo II, Augusto, Eli do Amparo, Danilo Alvin, Maneca, Chico e o técnico Flávio Costa. Além do grande artilheiro, um dos maiores jogadores de nossa história Ademir Menezes e um dos jogadores símbolos do nosso futebol e um dos homens símbolos de nosso país, o goleiro Barbosa.

Barbosa, um negro humilde e formidável goleiro, deve ter sido o mais psicopata e facínora da história do Brasil. Isso porque cumpriu uma pena de mais de cinquenta anos e, mesmo morto, continua cumprindo a pena.  

Qual foi seu crime? Ter falhado numa final de copa do mundo.

O brasileiro, apesar de todo errado, não admite o erro. O brasileiro, apesar de ter um lugar reservado para os fracassos seus do dia a dia, não admite fracasso e foi assim, implacável com Barbosa até sua morte. O pobre goleiro, o grande homem morreu provavelmente tendo até o fim em seus sonhos defendido aquela bola fatal e assim não ser considerado um dos maiores vilões da história do Brasil.

Acima até dos corruptos que nos roubam sorrindo.

Na década de 70 o Vasco foi o primeiro carioca campeão brasileiro, com gol de Jorginho Carvoeiro sobre o Cruzeiro. Nos anos 80 com uma geração formidável que continha Romário, Geovani, Mauricinho, Sorato, Bismarck, Acácio e outros capitaneados pelo já maduro Roberto Dinamite o Vasco conquistou títulos como o bicampeonato carioca em cima do Flamengo em 87 e 88.


Em 89, sem Roberto e com Bebeto, contratado ao Flamengo em uma das transações mais nebulosas do futebol, o Vasco ganhou seu segundo título na véspera do segundo turno das eleições presidenciais.

Os anos 90 foram mágicos para o clube. Conquistou finalmente um tricampeonato carioca e a partir de 1997 comandou o futebol brasileiro ganhando um carioca (1998), um torneio Rio São Paulo (1999), dois brasileiros (1997 com show de Edmundo e 2000), Libertadores no ano de seu centenário 1998.

E o talvez mais impressionante título da história do Vasco e de qualquer clube no mundo, a Mercosul de 2000 quando foi para o intervalo do jogo em São Paulo com o Palmeiras tendo um jogador a menos, perdendo por 3 x 0 e virou em 45 minutos para 4 x 3.

O domínio vascaíno durou de 1997 a 2000. Nesse período, até 2001 a rivalidade com o Flamengo aumentou muito graças ao polêmico vice presidente e depois presidente do clube Eurico Miranda, que provocava os rubro-negros e conseguiu o ódio não só desses como de torcedores de muitos clubes.

Vasco e Flamengo decidiram nesse período três vezes o campeonato carioca e mesmo em todas as ocasiões o Vasco tendo elencos superiores o Flamengo saiu vencedor. O auge dessa disputa ocorreu em 2001, com o sérvio Petkovic fazendo um gol no fim do jogo dando o tricampeonato ao Flamengo.

Dessa época também se tornou mais forte a brincadeira relacionando o Vasco a vice campeonatos e a estigma que o clube não vence finais contra seu maior rival.

O Vasco ainda foi campeão carioca em 2003 e depois entrou em um calvário. Foram oito anos sem títulos de primeira divisão, elencos fracos, polêmicas formadas por Eurico... Toda essa confusão resultou em um rebaixamento para a segunda divisão no campeonato brasileiro em 2008.

Mas o Vasco, ao contrário de outros clubes, voltou no campo à divisão de elite. Durante o campeonato do rebaixamento o ídolo Roberto Dinamite assumiu a presidência do clube pegando os “pepinos” da administração anterior e em 2009 pôde trabalhar melhor contratando um bom técnico, Dorival Junior e montando um elenco apropriado para a competição.

O Vasco voltou, mas ainda encontrou problemas de auto estima como a terrível Taça Guanabara que fez em 2011, onde chegou a estar na zona de rebaixamento para a segunda divisão do campeonato carioca. Mas como um navegante enfrentou a tormenta e com reforços pontuais, novo técnico (Ricardo Gomes) e a força de sua camisa voltou aos títulos ganhando a Copa do Brasil de 2011 e chegando ao vice campeonato brasileiro no mesmo ano.

Esse ano com Ricardo Gomes afastado por um AVC fez uma boa Libertadores e está entre os primeiros do brasileiro mostrando que um clube nunca deixa de ser grande.

Esse é um pequeno resumo da história do Vasco.

Um resumo que a maioria das pessoas já conhece bem, mas é sempre bom contar porque faz parte não só da história do futebol brasileiro, mas como da luta do povo brasileiro. O Vasco nasceu pobre, preto, analfabeto e português - por mais estranha que seja essa combinação - e dessa miscelânea nasceu uma história de luta, superação e uma das entidades mais brasileiras que existem.

Não sou Vasco, nunca torcerei pelo Vasco, adorei quando ele caiu pra segunda divisão e amo até quando ele perde na peteca. Mas o meu clube do coração, o Flamengo, precisa de um Vasco grande para ser grande. Muitas das histórias mais bonitas da vida do Flamengo têm participação do Vasco.

Os avôs rubro negros se lembram do tricampeonato carioca em 1944 com gol do Valido sobre o Vasco. Nossos pais do gol de Rondinelli de cabeça no carioca de 1978 e nós do gol do Pet em 2001.

Assim como os vascaínos do gol do Cocada em 1988 e do Edmundo rebolando num 4 x 1 em 1997. Flamengo e Vasco são dois irmãos que vivem as turras, brigam, se xingam, mas um depende do outro pra sua sobrevivência e futuro.

Não existe o time certo ou errado para torcer, existe aquele por qual nosso coração é tocado e no amor não existe o certo ou errado: o errado é não amar.

E que nossas batalhas sejam sempre dentro do campo, fora dele só se for sacaneando um ao outro.

Parabéns Vasco por seu aniversário, seus 114 anos de glórias, que o clube exista por muitos e muitos anos ainda, ganhe seus títulos claro, mas que na grande maioria perca para o Flamengo e seja nosso eterno vice.

Evidente que tinha que dar uma zoada né? Faz parte do jogo e dessa união Brasil/ Portugal.

P.S. - Essa coluna é dedicada a todos os meus amigos vascaínos. Alguns dos melhores amigos que tive na vida foram e são vascaínos e se tivermos que morrer por causa dessa rivalidade que seja morrendo de rir - nos provocando.

domingo, 8 de julho de 2012

Orun Ayé - "Fla, Flu, Nelson e o Bando de Loucos"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, fala do centenário do FlaxFlu – já abordado por este editor na última sexta feira – a partir do escritor Nelson Rodrigues. Bem como do título corintiano na Taça Libertadores.

Fla, Flu, Nelson e o Bando de Loucos

"O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada. E aí então as multidões despertaram." (Nelson Rodrigues).

O pernambucano Nelson Rodrigues (acima, com Zico, em algum momento da década de setenta) não era apenas um excelente frasista, como podemos ver acima.

Nelson é considerado por muitos o maior dos dramaturgos brasileiros, autor de peças como “Vestido de noiva”, “A falecida”, “Perdoa-me por me traíres”, “Os sete gatinhos”, “Boca de Ouro”, “O beijo no asfalto”, “Toda nudez será castigada” e “Bonitinha, mas ordinária”.

Nelson era dramaturgo, escritor e jornalista, como seu irmão Mário Filho. Mário, antigo dono dos jornais esportivos “O Mundo Sportivo” e “Jornal dos Sports” foi um dos responsáveis pela organização dos primeiros desfiles de escolas de samba e lutou para que o estádio municipal de futebol que sediaria a Copa ficasse sediado no terreno do antigo Derby Club, no bairro do Maracanã - não em Jacarepaguá como queria o vereador Carlos Lacerda. Hoje o nome oficial do Estádio do Maracanã é Mário Filho.

Voltando a Nelson, o dramaturgo revolucionou o modo de fazer teatro no Brasil. Trouxe para o palco a família e não foi simplesmente a família: mas a família com tudo que ela esconde por debaixo do tapete ou atrás do buraco da fechadura. Suas taras, perversões, obscuridades, as traições, os incestos, os amores impossíveis, a tragédia. Tudo isso é Nelson Rodrigues.

O anjo pornográfico. O boxer que deu um soco de direita no estômago da sociedade e por ela foi considerado maldito por muitos anos. O homem que ao estrear “Perdoa-me por me traíres” tomou uma daquelas “vaias ensurdecedoras” ao fim da peça e feliz disse que foi sua maior vaidade autoral e “naquele momento se realizava espetacularmente como dramaturgo”.

Hoje a situação não é mais essa. Nelson é uma unanimidade nacional, o que lhe daria grande desgosto porque o mesmo dizia que “toda unanimidade é burra”.

Tive a honra de fazer uma peça de Nelson na Unisuam em 1998. Era aluno de Publicidade e Propaganda e no curso existia o “Projeto Nelson Rodrigues” onde a turma era dividida em duas e encenava peças. Adaptei o roteiro e fui ator na peça “Cheque de amor” e ganhei prêmio de melhor ator do projeto. É, tenho meu lado “rodrigueano” também.

E Nelson amava futebol, era comentarista esportivo e fazia antológicas análises sobre os jogos mesmo muitas vezes chegando atrasado à peleja ou não prestando atenção no jogo. Nelson não precisava ver jogo: ele criava o jogo e fazia do embate algo muito maior do que realmente foi.

Disse em uma de suas grandes frases como citei acima que o Fla x Flu surgiu quarenta anos antes do nada. Mas na verdade surgiu em 1912, por coincidência (ou não) no ano de nascimento do Nelson. O dramaturgo com sua voz soturna diria que “coincidências não existem, o Fla x Flu foi meu companheiro de berçário” e talvez tenha sido mesmo.

Do berçário pode ter nascido seu amor pelo clássico. Tricolor apaixonado, para o seu clube do coração criou frases como “Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar”. “O Fluminense é o único time tricolor do mundo. O resto são só times de três cores”. “Grandes são os outros, o Fluminense é enorme”. E alfinetando o Flamengo disse “O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente!”.

Mas ele também admirava o Flamengo e para o clube fez pensamentos como “O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja.". "Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia.". "Todo brasileiro é um pouco rubro-negro. A alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda ou mais dilacerada, ou mais santa, só sei que é diferente". “Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro".

E a que gosto mais: “Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: Quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juízes, bandeirinhas, tremem, então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”.

Como já disse Nelson e o Fla x Flu nasceram em 1912 e o clássico já nasceu de forma polêmica. O Clube de Regatas do Flamengo já existia desde 1895, mas o futebol só foi fundado em 1912, com dissidentes do futebol do Fluminense. O time tricolor, insatisfeito com o comando do clube, bandeou-se para o Flamengo e para surpresa de todos os dois se enfrentaram nas Laranjeiras e o remendado Fluminense venceu por 3x2 seu antigo time titular.

E isso acabou se tornando uma tônica do clássico com o favorito sendo desbancado boa parte das vezes. Senti isso na pele já como torcedor do Flamengo em 1983 quando no minuto final o time campeão de tudo do Flamengo tendo Raul, goleiro campeão do mundo debaixo de suas traves perdeu o título carioca para o Fluminense de Assis. E em 1995 quando em nosso centenário e com Romário no auge em campo perdemos com gol de barriga de Renato Gaúcho. Um grande trauma futebolístico.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

100 Anos de Fla x Flu


Nesta semana onde o torcedor rubro negro teve a medida exata da incompetência da diretoria atual do clube, a recente conquista corintiana da Taça Libertadores acabou por abafar algo que é muito representativo: o centenário de um dos clássicos mais representativos do futebol brasileiro, o FlaxFlu.

A Confederação Brasileira de Futebol, em rara decisão acertada, marcou o jogo do primeiro turno do Campeonato Brasileiro exatamente para o final de semana que marca o centenário. A data exata do primeiro FlaxFlu foi 07 de julho de 1912 e originalmente a tabela marcava o jogo para este dia. Mas a pedido da televisão a partida passou para o domingo, 08 de julho.

A história do FlaxFlu possui algumas controvérsias. Há a versão difundida por Nelson Rodrigues, de que o Flamengo seria “filho” do Fluminense, fundado a partir desse, mas esta é uma falácia. Explico.

Como focado em minha participação no programa da ESPN sobre o centenário do futebol do Flamengo, o clube foi criado em 1895 como uma agremiação de remo, então esporte que galvanizava as massas cariocas. Inclusive é mais antigo como clube que o Fluminense, fundado em 1902.

O departamento de esportes terrestres do Flamengo é que foi fundado em 1912, após uma briga do time tricolor campeão em 1911 com o chamado “graund comiteé”, que era um misto de comissão técnica e diretoria da época. Vários dos jogadores tricolores já faziam remo no Flamengo, o que tornou natural que o rubro negro abrigasse estes jogadores após o dissenso.

Ou seja, o que se pode dizer é que o departamento de futebol do Flamengo nasceu de uma dissidência tricolor, mas não o clube em si.


No primeiro clássico, mesmo desfalcado, vitória do Fluminense por 3 a 2 (foto acima). No jogo do returno, a lógica: Flamengo 4 a 0. Iniciava-se ali a mística do clássico.

O nome “Fla-Flu” surgiu em 1925, e de forma pejorativa: todos os jogadores convocados para a seleção do Rio de Janeiro eram pertencentes às duas equipes, o que gerou comentário irônico da imprensa paulista que “o combinado Fla-Flu não ganharia o Brasileiro de Seleções”. Entretanto o então Distrito Federal (o Rio de Janeiro era a capital do Brasil) venceu os paulistas na final por 3 a 2 e a partir daí o jornalista Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, passou a usar a expressão para se referir ao clássico.

Para o rubro negro há controvérsias se é o clássico mais importante. A geração do meu pai, por exemplo – e a de Zico também – sempre tinha o Botafogo como maior rival por causa dos oito anos em que ficamos sem vencer o time alvinegro – e pela própria freguesia que somente acabaria com a “Era Zico”.

A geração posterior à minha (tenho 37 anos) tem o Vasco como maior rival, principalmente por causa das decisões seguidas de títulos importantes entre 1999 e 2006 – quatro Estaduais e uma Copa do Brasil neste período, todas as decisões vencidas pelo Flamengo.

Minha geração, que viveu quase que em sua totalidade o período de maior glória do clube, divide-se entre o Vasco – pelo fato de, naquele momento, ser o único time carioca que “batia de frente” conosco, e pelo Fluminense por causa daqueles malditos (risos) Assis e Washington.


Pessoalmente quando criança tinha mais gana de vencer o Vasco, por causa de um jogador que embora adversário eu admirava e que se matava quando enfrentava a gente: o hoje presidente vascaíno Roberto Dinamite. Mas até hoje tenho uma superstição por causa daquela final de 83 onde o Fluminense venceu com um gol no último minuto (acima): em dia de decisões se não for ao estádio eu não uso a camisa do Flamengo – na minha cabeça de menino a camisa que usei deu azar.

Curiosamente, o Fluminense é o único rival carioca que jamais decidiu com o Flamengo um título nacional. Aliás, desde aquele famigerado gol – em impedimento, bom que se diga, porque só havia um jogador entre Renato e a baliza – de barriga que a dupla Fla-Flu não decide um campeonato. De lá para cá, nos últimos 17 anos foram apenas duas Taças Guanabara (2001 e 2004, ambas vencidas pelo Flamengo) e uma Taça Rio (2005, com título tricolor).

De tempos para cá, o clássico vem se firmando como o mais equilibrado envolvendo o Flamengo: as seguidas decisões contra Vasco e Botafogo com vitórias Flamengas criaram uma espécie de “sentimento de inferioridade” nestas torcidas, ao fato que firma-se a convicção que o FlaxFlu é jogo aberto – os tricolores não “tremem” contra a gente.

A propósito, não assisto a um FlaxFlu no estádio desde 2003, pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Vitória de 1 a 0 para o Flamengo, com um gol meio “espírita” do atacante Jean.


Presencialmente, meu FlaxFlu inesquecível foi o 4 a 1 de 1986, onde a torcida do Fluminense cometeu a insanidade de provocar Zico chamando-o de “bichado”. Zico voltava de séria contusão e marcou três dos quatro gols, dando o passe para o outro – marcado pelo atacante Bebeto, este mesmo (na foto o primeiro daquela partida). O jogo também é histórico por outro motivo: foi a única partida oficial onde Zico e Sócrates atuaram juntos com a camisa do Flamengo. Fala Zico sobre aquela partida, em depoimento ao Globoesporte.com:

“Era o primeiro jogo do Campeonato Carioca de 1986. Foram três gols meus e um do Bebeto. Foi o único jogo do Sócrates comigo no Brasil. Nesse Fla-Flu do "bichado", tomei um susto. A torcida do Fluminense nunca tinha feito isso. Aí, quando eu entro em campo, começaram: "Bichado! Bichado! Bichado!"...

Foi o Fla-Flu que eu mais joguei bola. Fiz tudo o que você possa imaginar. O coro do "bichado" me deu mais gana de ganhar. Dei passe de calcanhar entre as pernas do zagueiro. Dei passe de bicicleta... Eu quis fazer tudo... E dava tudo certo. Se você tenta um calcanhar e erra... Eu tentava e caía certinho no pé do outro cara. E fui fazendo os gols... Dois foram golaços."

Meu primeiro FlaxFlu presencial foi em 1980 ou 1981, e uma curiosidade: em todos estes anos só vi o Flamengo perder uma única vez para o Fluminense, em 1994.

Contudo, parece certo que a mística deste jogo é bastante diferente das demais partidas. Há uma eletricidade diferente no ar que torna sim o clássico diferente – e talvez venha daí toda a magia. É jogo duro, é jogo respeitoso e normalmente sempre vence aquela equipe que está em pior situação, uma curiosa tradição desta partida.

Ou seja, a se manter esta tradição iremos aturar Joel Santana uma semana mais no cargo...

Também é do FlaxFlu o recorde brasileiro de público em uma partida de clubes: 177.656 pagantes no empate de zero a zero que deu o título carioca daquele ano ao Flamengo.

Mas temos de saudar estes 100 anos desta rivalidade entre duas grandes equipes, de partidas gloriosas não somente no campo como na literatura e que certamente engrandecem a prática do ludopédio, como era conhecido anteriormente o nosso futebol.

Vida longa ao FlaxFlu!


terça-feira, 19 de junho de 2012

O torcedor não é otário: algumas reflexões sobre o mercado do futebol


No último domingo, após a suada vitória do Flamengo sobre o Santos – com um pênalti a meu juízo inexistente, embora tenha sido um lance polêmico – o jogador Renato, incomodado com vaias recebidas, disparou estas declarações ao final do jogo:

- É meia-dúzia de otários, não é para generalizar. (...) É meia-dúzia de otários que não têm a leitura do jogo.

Temos de contextualizar as declarações. Isto foi dito ao final de uma partida onde o time não jogou absolutamente nada e uma vez mais acabou contando com a boa vontade da arbitragem em uma marcação duvidosa. Ou seja, a torcida, que anda aborrecida – com razão – perdeu a paciência com o jogador em questão, notabilizado pelo estilo de jogo burocrático e por uma “marra” absolutamente incompatível com os resultados apresentados em campo.

Entretanto, Renato é um bom arquétipo de algo que vemos muito no futebol de hoje: o primado da imagem e do marketing pessoal sobre os dados objetivos.

Ele é um jogador lento, que passa mal, não tem criatividade nenhuma – embora tenha jogado muito tempo como meia armador, o que é uma contradição “stricto sensu” – mas que em suas passagens pelo clube adquiriu uma aura de “intocável” que, ao que me lembre, somente Zico alcançou. Os leitores me corrijam se eu estiver errado.

E nesta “Era da Imagem” o torcedor, que em última análise é quem paga a conta, tem de ficar quieto e aplaudir ainda que seja uma exibição absolutamente bisonha como a do time e do atleta em questão na última partida. É chamado de “otário” e ainda tem de sorrir e concordar.

Estou usando o jogador em questão mas há outros exemplos. Outro deles é o jogador Fred, do Fluminense, que possui reconhecido talento, entretanto decididamente não leva uma vida de atleta de futebol profissional: suas peripécias pela noite carioca – e as contusões – são notórias.

Utilizei-me dos dois exemplos para desenvolver o raciocínio de que jogadores de futebol foram colocados em um pedestal e estão a meu ver perdendo o senso da realidade. Estabeleceu-se o conceito de que “podem tudo”, e que somente possuem direitos, não deveres.

Um jogador de futebol deveria ser diferenciado pelo salário que recebe, que é muito superior ao de um trabalhador comum. Ele recebe este salário em última análise não por suas habilidades dentro do campo, mas sim pelo poder de atração de sua imagem e pelo que isso pode render de divisas a seu empregador através de sua imagem.

Tanto isso é verdade que o salário de um jogador de clube grande como o Flamengo, o Fluminense ou outros é dividido justamente em duas parcelas: o salário em si, pago na carteira de trabalho, e o chamado “direito de imagem” pago a uma pessoa jurídica constituída pelo atleta.

Sabemos que muitas vezes esta forma de remuneração é utilizada como forma de se pagar menos encargos trabalhistas, contudo é de se esperar que a imagem destes atores no processo sejam exploradas, dentro e fora de campo, a fim de proporcionar retorno ao clube e nos investidores dos valores integralizados.

Para que haja este retorno faz-se necessário que os jogadores entreguem a contrapartida da valoração de seus serviços e em especial de sua imagem. Todavia o que ocorre, em média, é que aos direitos não há a necessária contrapartida não somente na exploração da imagem como dos deveres em si. A noção é de que estes somente tem direitos, não obrigações – e podem levar a vida que bem entendem.

Sabe-se que é incipiente a exploração da imagem em termos de produtos e serviços, mas é um fenômeno que tem duas vertentes: por um lado o departamento de marketing dos clubes é bastante limitado e não vislumbra as possibilidades oferecidas de multiplicar o ganho financeiro e possibilitar um retorno econômico aos altos valores investidos no direito de imagem.

Por outro temos os jogadores em geral, que possuem dificuldades de entender que este salário maior também pressupõe deveres e a preservação da própria imagem pública. Um profissional de futebol não é um analista orçamentário, por exemplo, que pode ir ao supermercado como uma pessoa “não pública”. Ou estar nas páginas de jornais empreendendo bebedeiras, tumultos e ainda, em alguns casos, estar infringindo artigos do Código Penal.

Chegamos ao absurdo de vermos jornalistas demitidos de seus veículos por terem noticiado casos como o da famosa “farra das caipisaquês” envolvendo o citado jogador do Fluminense. Como já escrevi mais de uma vez no Twitter, culpar a imprensa pelos desmandos de dirigentes e excessos de atletas é um caso típico de “atirar no mensageiro”. Não leva a nada produtivo.

Outro ponto a ser percebido pelos atores do processo é que o torcedor, mais que torcedor, é um cliente. Ele paga para estar ali no estádio e tem o direito de se manifestar expressando júbilo ou contrariedade. Caso houvesse esta percepção jamais o jogador rubro negro teria dado as declarações que deu, em flagrante desrespeito ao consumidor do espetáculo.

Ressalve-se que muitos torcedores não tem esta noção de que são clientes do negócio futebol. Por mais que sejam maltratados sempre estão ali a aplaudir e apoiar, sob o argumento de “que é amor”. Sou apaixonado pelo Flamengo, mas isso não me impede de exercer o meu lado crítico e exigir que seja respeitado como consumidor. Infelizmente isto ainda não ocorre em muitas comunidades de torcedores.

No momento o que temos é um mercado absolutamente distorcido: os jogadores assumem aura de super homens, que podem fazer o que quiser sem serem cobrados. Os dirigentes não exploram a imagem dos atletas sob contrato, embora paguem vultosas quantias a título de “direito de imagem”. Os torcedores, por seu turno, não se comportam como consumidores que são.

Do jeito que está, o “direito de imagem”, aí sim, nada mais é que um subterfúgio para pagar menos encargos trabalhistas. Vale lembrar o exemplo de Ronaldinho Gaúcho no Flamengo, que recebia um salário literalmente milionário e que teve retorno em exploração de imagem absolutamente pífio, com três ou quatro inexpressivos produtos com a sua marca – lançados quando a crise entre este e o clube já era aberta.

Na prática repetiu-se um erro muito comum no mercado do futebol, que é o de contratar pelo sucesso passado de um atleta e valorá-lo pelo que ele ofereceu no auge de sua carreira, não pela expectativa de retorno futuro tanto esportivo como financeiro. Há alguns anos Ronaldinho não era o atleta genial do Barcelona, mas foi valorizado e pago como tal. Some-se a seu desinteresse em ser um atleta e deu no que deu.

A propósito, embora eu não ache que o Atlético Mineiro obtenha sucesso na contratação do referido jogador, me chamou a atenção o realinhamento do valor percebido por ele, que foi desvalorizado na exata medida de seu desempenho no clube carioca, tanto dentro como especialmente fora de campo. Um jogador que valia mais de 1 milhão de reais passou a “valer” R$ 360 mil, segundo dados divulgados na imprensa – pouco mais de 25% do valor pago pela equipe carioca.

Este é um bom exemplo de como, ainda que imperfeito, começa a haver um lento movimento de correlação entre os direitos – expressos no salário e em outras regalias – e sua imagem dentro e fora de campo.

Enquanto este conceito não for assimilado teremos de observar anomalias como o citado Renato Abreu ganhando um salário de mais de R$ 250 mil mensais, ser um jogador de mediano para fraco – mas craque no marketing pessoal – e ainda chamar o seu cliente de “otário”.

Leitor, você compraria um carro de um vendedor que o chamasse desta forma?

Pois o raciocínio é o mesmo. Mas há um longo caminho a ser percorrido por clubes, jogadores e consumidores do produto futebol nesta direção.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Made in USA - "Brasil Olímpico: O País do Esporte Coletivo?"


Na edição de hoje da coluna “Made in USA”, o advogado Rafael Rafic deixa um pouco de lado os esportes americanos para iniciar uma sequência de colunas sobre os Jogos Olímpicos.

Acrescento a informação que em 2016 teremos vagas em todos os esportes, de forma que o trabalho de formação dos atletas terá de ser acelerado.

Brasil Olímpico: O País do Esporte Coletivo?

Começo a série de colunas sobre os Jogos Olímpicos abordando um tópico que muito me incomoda.

È voz corrente no mundo olímpico (não apenas aqui) que o Brasil é muito forte nos esportes coletivos e que, refletindo as características gregárias de nosso povo, nos dedicamos demais aos mesmos. Assim não desenvolveríamos os esportes individuais, que dão mais de 85% das medalhas dos jogos olímpicos, e isso explicaria nosso baixo desempenho no quadro de medalhas.

Esse argumento sempre me incomodou porque não concordo em nada com ele.

Inicialmente, sempre discordei que a preferência nacional pelos esportes coletivos (que é indiscutível) possa servir de desculpa para não darmos a devida atenção à parte de alto rendimento dos esportes individuais. Especificamente o atletismo e a natação que oferecem uma chuva de medalhas nos Jogos Olímpicos [N.do.E.: acrescentaria também aí esportes como o boxe e o levantamento de peso, que igualmente distribuem muitas medalhas].

Mas analisemos com calma: é muito mais fácil criar um sentimento de ligação com um clube, uma instituição, do que com um atleta singular - que invariavelmente um dia se aposentará deixando seus fãs órfãos.

Exemplificando: é muito mais fácil criar uma ligação com o futebol torcendo pelo Flamengo, Vasco ou o Barcelona, existentes há mais de um século e que continuarão a existir por muito tempo; do que se ligar permanentemente ao atletismo por causa do sucesso de Maurren Maggi, que invariavelmente se aposentará no médio prazo.

Ainda há o fato de que, seja na infância, seja nos finais de semana da vida adulta, os esportes coletivos são mais jogados por proporcionarem maiores experiências de vida social do que a prática da maratona ou do tiro ao alvo. É justamente marcando uma pelada ou jogando um vôlei de praia que, entre os jogos, os amigos conversam, as pessoas se conhecem e as cervejas do fim de semana são tomadas.

É assim no Brasil, na Itália ou nos EUA. Logo, os esportes coletivos são os preferidos em todo mundo, com as grandes exceções apenas da China e da Índia (tênis de mesa e badminton respectivamente).

Ainda sim, isso não impede que os EUA (baseball, futebol americano, basquete e hóquei no gelo), a Rússia (futebol e vôlei), a Grã-Bretanha (futebol e rugby) e a Austrália (rugby e cricket) ganhem várias medalhas em esportes individuais jogos sim e no outro também.

Por isso, não aceito esse argumento simplório para justificar nosso fraco desempenho olímpico historicamente. Acredito na falta de um planejamento dos órgãos esportivos (e um pouco do Estado também) que dê a oportunidade de um grande número de crianças praticarem vários esportes e posteriormente aumentando nossa base de atletas de alto rendimento.

É dessa base que técnicos capacitados (que também não temos com sobras) garimpam os excepcionais que poderão competir em alto rendimento. Após finalmente encontrar as pessoas certas para o alto rendimento, é necessário continuar a treiná-los constantemente - com pessoas, equipamentos, torneios preparatórios pelo mundo e intercâmbio com países que possuam expertise na modalidade. Assim pode-se esperar que sempre melhorem suas técnicas, táticas e estratégias para terem chance de competir em âmbito mundial, ou seja, no nível em que os Jogos Olímpicos são disputados.

A boa notícia é que as cabeças pensantes do nosso comitê olímpico já perceberam isso e, pelo menos no treinamento dos atletas que já estão no alto rendimento, estamos continuamente melhorando as condições dos atletas. O Brasil terá em Londres uma das melhores estruturas de treinamento, com direito a um centro exclusivo no Crystal Palace (algo inédito para o Brasil).

Esse trabalho é árduo, lento e mambembe, pois só é feito em alguns esportes (privilegiados pelas medalhas oferecidas e pelo nível que o Brasil já apresenta) e só na ponta da pirâmide. O trabalho de base, apesar de ter havido melhora, ainda tem muito o que caminhar. De qualquer forma ele já começa a apresentar bons resultados.

Também não consigo concordar com essa nossa dita força nos esportes coletivos. Que força é essa que nos deu apenas três das vinte medalhas de ouro da nossa história - cinco se incluirmos o vôlei de praia? Pior ainda: todas as três medalhas foram no mesmíssimo esporte: o vôlei. Ou seja, essa dita “força” nos esportes coletivos pode se resumir a apenas um trabalho brilhante feito por apenas uma confederação durante mais de vinte anos.

Afinal de contas, por qualquer crítica que possa ser feita à dupla Nuzman/Graça, é inegável que ambos deram ao vôlei nacional a estrutura necessária fora de quadra para que nos tornássemos a primeira potência mundial do vôlei. Até hoje é a única confederação que tem um trabalho respeitável de âmbito nacional de aumento de base e garimpagem de talentos (o ‘Viva Vôlei’).

Mesmo no basquete, um esporte historicamente dito como nosso forte nosso, temos uma potência mundial que nos é intransponível, os EUA. E a seleção masculina ficou 16 anos sem levar um time para os Jogos Olímpicos.

E o que dizer do futebol? Esse esporte que monopoliza 95% das atenções esportivas nacionais (até durante os Jogos Olímpicos), criando o que eu chamo de “monocultura esportiva”, ainda não foi capaz de trazer um mísero ouro dos Jogos, seja no masculino, seja no feminino.

No handball, nunca chegamos sequer às quartas de final e no hóquei de grama mal temos um time formado, enquanto somos obrigados a ver as “leonas” argentinas n°1 do ranking mundial.

Logo, eu também não aceito o argumento que somos fortes nos espores coletivos. Nós estamos é atrasados mesmo na preparação de atletas, seja nos coletivos, seja nos individuais.

Por fim, faço uma análise das chances de nossos esportes coletivos em Londres.


Vôlei

Ambas as seleções não apresentam o vôlei vistoso, acima da concorrência, que apresentaram nos ciclos olímpicos de 2004 e 2008. Ainda sim, ambas estão classificadas e sem dúvidas disputarão o ouro em Londres. Apenas não serão mais a maior favorita como foi em 2008.

A médio prazo me preocupa a situação da Confederação. O atual presidente Ary Graça é candidato favorito à presidente da federação internacional nas eleições após os Jogos e eu não vislumbro atualmente um substituto pronto.

Masculino: Depois de duas gerações sensacionais que criaram variações técnicas e táticas hoje imitadas por todas as grandes seleções (destaco a famosa bola de “tempo atrás” que até hoje é bastante imitada e pouco acertada), tivemos uma transição para a terceira um tanto atrapalhada, de tal forma que devemos ir a Londres com a geração 2,5.

Tanto isso é verdade que Bernardinho se rendeu e convocou o levantador Ricardinho de volta após um afastamento de quatro anos. O grupo começa a apresentar sinais de cansaço do método Bernardinho e acho muito difícil a manutenção dele como técnico após a competição.

Mesmo com a volta de Ricardinho a seleção jogou muito mal a primeira rodada da Liga Mundial 2012. Porém já percebi muitas melhoras na segunda rodada e prefiro creditar o desempenho ruim da primeira rodada à falta de entrosamento do time com o “novo” levantador.

A Rússia está jogando um vôlei vistoso com um levantador muito talentoso (novidade por lá), Grankin, e é ligeira favorita. Mas o torneio será uma pedreira com cinco seleções disputando o ouro e mais duas ou três que não aspiram ao lugar mais alto do pódio, mas que podem fazer alguém tropeçar no meio do caminho. Minha aposta: Brasil medalha, não sei a cor.

Feminino: após a aposentadoria de duas levantadoras fora de série, Fernanda Venturini e Fofão, viramos uma Rússia: um time com cinco atacantes sensacionais que não tem quem levante a bola para elas.

Só que, diferentemente da Rússia, não temos altura, o que nos faz necessitar muito de uma boa levantadora. Essa falta tem matado a seleção feminina. A boa notícia é que achamos essa levantadora: a Fabíola do Sollys/Osasco. Agora só falta ela jogar na seleção o que joga no clube, o que não ocorreu até o final do ano passado. Acho que com os dois meses de treinamento antes dos jogos esse problema será resolvido.

Graças a zebras inacreditáveis nos torneios qualificatórios, o nível das seleções femininas em Londres será o pior dos últimos anos. Creio que apenas EUA, Rússia, Itália e Brasil têm chances de medalha (não aposto um centavo no time chinês). Minha aposta: Fabíola se acerta e o Brasil defende o título olímpico.


Basquete

Mesmo classificando as duas equipes após 16 anos, o basquete vem capenga mais uma vez já que só uma seleção é forte e luta por medalha. A diferença é que, em uma inversão, dessa vez é a seleção masculina que virá forte.

Também me preocupa a situação da confederação. Após mais de uma década de desmandos de Gerasime Bosikis, o “Grego”, destruindo o basquete nacional (ele foi grande responsável pelo hiato de 16 anos da seleção masculina nos Jogos), Carlos Nunes foi eleito em 2009 e colocou a CBB no rumo correto.

Porém em 2013 haverá novas eleições e “Grego”, ainda presidente da confederação sul-americana, já se articula para ser candidato. Que nossas federações estaduais tenham juízo e não estraguem o trabalho de Nunes.

Masculino: após um longo lapso de 16 anos, a seleção volta aos Jogos Olímpicos - e volta com força.

Apesar da lesão do herói da classificação, o pivô Rafael Hettsheimeir, iremos para Londres com a melhor seleção brasileira da história, com direito a quatro jogadores da NBA e ótimos jogadores da liga européia.

Graças à acertada contratação do técnico argentino Rubén Magnano (ouro olímpico em 2004, na foto), os problemas de entrosamento da seleção diminuíram bastante e atualmente ela realmente atua como um time. Ela também está com foco na defesa (falha histórica do Brasil).

Se não cruzarmos com os EUA nas quartas-de-final, essa seleção luta por medalha. Alias os jogadores americanos, um a um, estão ou se machucando ou abdicando dos Jogos. Dependendo do time que sobrar, sei não...

Os EUA são favoritíssimos, mas Brasil, Espanha, Argentina, França e Grécia (a ultima sem vaga garantida ainda) correm por fora. Minha aposta: bronze ou 4° lugar.

Feminino: aqui está o grande calo da gestão Carlos Nunes, mas não por culpa dele. Por não ser especialista no basquete feminino, ele corretamente nomeou uma supervisora técnica para a mesma: Hortência.

Porém ela não mostrou fora das quadras o mesmo talento que tinha dentro das quatro linhas e, na minha opinião, só embrulhou os pés com as mãos no exercício do cargo. Por isso, aqui não estou entusiasmado e não vejo o Brasil indo longe.

Os EUA são favoritos ao cubo e as outras medalhas serão disputadas por Austrália, Rússia e mais dois ou três times europeus que serão definidos no pré-olímpico mundial no fim deste mês. Aposta: Brasil cai nas quartas.


Futebol

Aqui o Brasil sempre morreu na praia, será diferente em Wembley?

Também me preocupa a situação da CBF, mas isso é assunto para os boleiros Pedro Migão, Walter Monteiro e Affonso Romero.

Masculino: aqui times que deveriam ir bem caem na primeira fase e zebras chegam à semifinal. O que posso dizer é que pelo que vi da seleção olímpica, ela está bem entrosada e tem um talento que pode desequilibrar a qualquer momento: Neymar. Mesmo que ele não faça nada, ele atrai naturalmente dois defensores. Se tem dois defensores em um atacante, naturalmente alguém sobrará livre sempre. É a melhor equipe que levamos desde 1996, só que sem técnico desta vez.

Os ‘gatos’ africanos classificaram três times sem sal e a Argentina está fora. Das seleções classificadas apenas Espanha e Suíça me assustam. Alias, a seleção espanhola joga coletivamente até melhor que a atual campeã mundial. Para mim é favorita. Aposta: Brasil medalha, mas não será dourada.

Feminino: Suécia, EUA, Brasil, Japão e França (a última um pouco atrás das outras) sobram muito na turma. Será entre estas cinco que a disputa por medalha ocorrerá.

O Brasil tem o time mais técnico e talentoso, mas o futebol feminino cada vez está mais físico e abrutalhado, em um fenômeno feio igualzinho ao que está ocorrendo no masculino, que está matando a beleza do futebol com a frouxidão dos árbitros para marcar faltas. Como é justamente porte físico que o falta à nossa seleção (na Copa de 2011 os EUA com 10 estavam correndo mais que o Brasil com 11 ao fim do jogo) não a vejo passando por EUA ou Suécia.

Aqui ocorre algo interessante: da mesma forma que o Brasil dificilmente passa pelos EUA, os EUA podem perder (como já perderam) para as japonesas. Elas, por sua vez, podem ser presas fáceis para o talento brasileiro. Sorte nos cruzamentos será fundamental para todos. Não há favoritos dentro do grupo acima mencionado. Aposta: Brasil medalha, não sei a cor.


Handebol

O Brasil nunca chegou ao mesmo nível dos grandes times europeus do handebol e só classifica times para os Jogos Olímpicos graças ao ridículo nível do esporte nas Américas, no qual o Brasil por ser caolho se sobressai em cima dos cegos.

No feminino não há ninguém que nos acompanhe. No masculino, temos apenas a Argentina, contra quem sempre fazemos jogos épicos na final do Pan-Americano na disputa pela vaga. Após ganharmos em 2003 e 2007, perdemos para eles em 2011 e por isso só iremos para Londres com o time feminino.

Feminino: esse time foi a minha grande decepção em Pequim. Eu vi esse time jogando de igual para igual com o ótimo time dinamarquês um mês antes dos Jogos em 2008. Eu apostava, contra todos os prognósticos, em uma medalha de bronze.

Quando chegaram os jogos olímpicos, vi uma seleção que jogou de igual para igual contra as gigantes Alemanha, Hungria e Suécia apenas para perder dois jogos e deixar empatar um nos segundos finais por causa dos nervos. Depois disso me desiludi um pouco com o time e deixei de acompanhá-lo tão de perto.

Mas pelo que já vi ultimamente o time que levaremos a Londres é inferior ao de quatro anos atrás e ainda não ajustou os nervos. Assim, seremos presas fáceis os times europeus, que devem dominar o torneio. Aposta: Brasil cai ainda na primeira fase.