Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Silêncio Cúmplice da Imprensa: o Caso "Privataria Tucana"


Sem dúvida alguma, a maior notícia política da última semana foi o lançamento do livro "A Privataria Tucana", do renomado e laureado jornalista Amaury Ribeiro Jr. Baseado em uma série de documentos oficiais - todos obtidos de forma absolutamente legal - o livro descortina o processo de privatizações brasileiro, mostrando as propinas que foram pagas - de forma registrada - e um monumental esquema de lavagem de dinheiro utilizado (principalmente) por próceres tucanos - mas não somente estes.

Ainda desvela o esquema de espionagem de inimigos políticos montado pelo ex-Governador de São Paulo José Serra, inclusive utilizando-se de verbas públicas - tanto no Ministério da Saúde quanto no governo paulista. E ainda descortina alguns esquemas de vazamento de informações na recente campanha presidencial de Dilma Rousseff.

Entretanto, não irei resenhar o livro aqui, embora já o tenha começado a ler - e mesmo com apenas um terço dele lido já posso dizer que o conteúdo é arrasador. Farei a resenha proximamente. Mas sim falar um pouco do comportamento da imprensa neste episódio, que desnudam algumas coisas e confirmam algo que venho falando há tempos aqui: que o jornalismo político brasileiro não é jornalismo, e sim política partidária.

Volta e meia recebo críticas de leitores neste espaço dando conta de que não falo dos escândalos de corrupção do atual governo. Replico que não precisa, pois a imprensa partidária se encarrega de fazer este papel - muitas vezes aumentando, distorcendo e omitindo, mas esta é outra história. Por outro lado, não se vê uma única linha a respeito de escândalos como "Paulo Preto" e "Controlar" na chamada "grande mídia". Ou seja, a indignação contra a corrupção dos maiores veículos de nossa imprensa é absolutamente seletiva - atende apenas a seus próprios interesses políticos e, especialmente, econômicos.

O livro, que contém denúncias gravíssimas e totalmente documentadas contra praticamente toda a cúpula do PSDB, foi lançado na última sexta feira praticamente "em branco". Apenas a revista Carta Capital veio com sua matéria de capa tratando sobre o assunto, mas o restante da mídia, praticamente em uníssono, ignorou solenemente o livro em suas televisões, jornais, revistas e portais de internet. Além da revista citada, os portais ligados à Record também chegaram a noticiar, mas sem dar o devido destaque.

Durante o final de semana o silêncio sepulcral continuou. Ao contrário: a Revista Veja, mais uma vez, "passou recibo" com uma matéria fazendo uma série de junções e ilações sobre o PT de Minas Gerais, baseado unicamente em afirmações vazias e sem nexo. Não é de hoje que em suas páginas a publicação, cada vez menos lida, resvala de forma acintosa no Código Penal brasileiro. Outro colunista, tucano declarado, publicou texto de terceiros em seu blog tentando desqualificar as denúncias trazidas pelo livro. Também vi jornalista do referido veículo cobrando no Twitter o noticiário sobre o livro no próprio órgão onde ele trabalha - obviamente, sem sucesso.

Também não foi por acaso o espaço dado por um dos maiores portais da internet no final de semana a uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com o visível propósito de tentar abafar a repercussão do lançamento do livro.

Tais movimentos explcitam muito da cumplicidade que há entre políticos opositores e tais veículos. Não é exagero dizer que o jornalismo político de grande escala está morto e enterrado, substituído por uma pregação nitidamente partidária e com uma "indignação seletiva" - é contra a corrupção, desde que seja petista.

Que fique claro: toda forma de corrupção tem de ser combatida. Mas fica no mínimo embaraçoso para tais órgãos noticiar casos de magnitudes bastante inexpressivas em valores perto do que o livro mostra em termos de lavagem de dinheiro, recebimento de propinas e corrupção no processo de privatização - talvez a maior de todas na história recente do país. É um bom indicativo de que o "combate à corrupção" por parte da imprensa na verdade não passa de proselitismo partidário. Dois pesos e duas medidas.

Vale lembrar, também, que tais órgãos apoiaram de maneira irrestrita a privatização, a ponto de o então Presidente Fernando Henrique Cardoso ironizar o adesismo em grampo telefônico "vazado" posteriormente ao grande público. Além da questão ideológica, como o quadro abaixo (retirado do excelente "Blog da Cidadania") demonstra que várias empresas jornalísticas entraram na privatização das empresas de telecomunicações, comprando fatias de operadoras a preços subavaliados.


Ou seja: além da ideologia, há negócios empresariais por trás deste silêncio atual. Ao contrário, começam-se a se perceber movimentos a fim de desqualificar o autor do livro, jornalista de reputação ilibada e que acabou acusado por Serra de estar "espionando" a campanha tucana ano passado - quando os documentos e dados mostram que foi Serra quem tinha uma "central de inteligência" a seu serviço - e utilizando-se de recursos públicos do erário de São Paulo.

Por outro lado, as vendas do livro mostraram a força da internet e da blogosfera: ainda que lançado sem qualquer alarde e boicotado pelos órgãos de imprensa de maior alcance o livro vendeu em um único dia a primeira edição inteira - de quinze mil exemplares. Dos trinta mil exemplares da reimpressão prevista para chegar às livrarias na sexta feira próxima a metade já foi vendida. Aliás, é outro ponto a se observar: o livro vai entrar nas listas de mais vendidos dos cadernos culturais destes veículos?

Isso, registre-se, sem exposição nas livrarias: eu mesmo tive de insistir bastante para conseguir comprar meu exemplar, e há relatos parecidos em outras cidades. Em São Paulo suspeita-se que emissários de José Serra passaram o dia de sábado a comprar todo o estoque de livrarias paulistas a fim de impedir que o público lesse o conteúdo da publicação - onde ele sai bastante chamuscado, para se dizer o menos.

Este episódio a meu ver deixa claro algo que já vinha afirmando há tempos: que o "combate à corrupção" por parte destes veículos de imprensa não passa de verniz para o que realmente ocorre, ou seja, a difusão de propaganda político-partidária. O interesse não é extirpar a corrupção, mas sim voltar ao poder junto com sua corrente política. Também realça, como escrevi semana passada, a necessidade de algum tipo de regulação destes veículos e da difusão da notícia - ou via governo ou, o que seria melhor, por algum órgão ligado à sociedade civil.

Definitivamente, caiu a máscara. O Rei está nu.

P.S. - Breve, a resenha do livro aqui neste blog.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Resenha Literária - "Não Sou Um Anjo"

Leitor, com o perdão do mau termo, imagine um filho da puta. Mas daqueles que não fazem a menor questão de esconder isso.

Imaginou?

Pois após a leitura desta resenha os conceitos do que é "filho da puta" tem de ser totalmente revistos. Nomes que imaginamos como arquétipo desta classe - não preciso citar nomes - são totalmente inofensivos perto do personagem do livro que resenho hoje.

Bernie Ecclestone.

"Dono" da Fórmula 1, personagem controverso e com práticas muito pouco recomendáveis para chegar onde chegou. Um dos homens mais ricos do mundo, estando facilmente na casa dos bilhões - apesar de um divórcio bastante custoso - e que já entrado nos oitenta anos de idade não faz a menor menção nem de se aposentar nem de dividir o poder absoluto.

O livro, escrito pelo jornalista Tom Bower, entrevistou o próprio Ecclestone e inúmeras personalidades ligadas à Fórmula 1, traçando um perfil bastante fiel do biografado. E arrasador.

A biografia se inicia desde o nascimento, passando pelos tempos da guerra onde o local onde morava foi atingido por bombas alemãs - embora sua casa não tenha sido atingida - e pela formação dada pela família.

Ecclestone pouco estudou, mas desde muito jovem demonstrou pendor para o comércio. Fez fama como comerciante de carros e motos usados em Londres desde tenra idade, sempre com tino para os negócios e uma máxima que seria seu mantra na vida: "eu tenho de ganhar sozinho".

Ele se envolveu com automobilismo por influência do pai, mas era um piloto abaixo do sofrível. Logo entendeu, contudo, que o esporte precisava ser organizado e a partir daí foi pouco a pouco construindo o império chamado "Fórmula 1". Império onde ele leva "a parte do leão" até hoje.

Também foi dono da equipe Brabham de F-1, conquistando dois títulos de pilotos com Nelson Piquet. Junto com Niki Lauda, são dos raros a levar vantagem sobre o dirigente em qualquer tipo de negociação - ambos foram pilotos da Brabham. Piquet, aliás, tem confirmada a sua fama de garanhão: até a secretária de Ecclestone ele "pegou".

O dirigente iniciou na F-1 como representante das equipes na negociação com os autódromos, assumindo tal tarefa por delegação dos outros chefes de equipe. Aos poucos, a comissão que ele levava sobre estas negociações foram aumentando e ele foi se transformando no homem forte da categoria.

Inegável que Ecclestone organizou e profissionalizou algo em origem bastante amador, mas a um preço muito alto: a fatia das receitas que ia para sua conta bancária era maior que a das equipes somadas, em média. Seu "pulo do gato" foi perceber que a televisão seria a grande mantenedora do esporte, e controlar a cessão destes direitos uma fonte insaciável de lucros. O dirigente conseguiu que lhe fossem repassados por valores ínfimos e montou toda uma estrutura a fim de fornecer e vender estas imagens.

O exemplar mostra também que Ecclestone não tinha amigos, não expressava emoções e era capaz de descartar as pessoas como marionetes ou resíduos se isso lhe trouxesse vantagens financeiras. Inclusive esposas: ele está no quarto casamento - com uma brasileira - e com exceção da croata Slavica ele as descartou quando lhe foi conveniente.

Slavica, a propósito, a única a dominar o dirigente, a ponto de bater nele. Trinta centímetros mais alta que Ecclestone, arrancou um acordo de divórcio bastante vantajoso quando da separação. Também ganha destaque no livro os ataques dados por ela em ocasiões absolutamente impróprias.

Para o amante do esporte é lamentável saber que a trapaça faz parte dele: Ecclestone diz que "o importante é não ser pego". Ficamos sabendo que carros como a Benetton de Schumacher em 1994, a Ferrari de Raikkonen em 2007 e a própria Brawn de 2009 estavam fora do regulamento, entre outros. Neste último caso o dirigente manobrou junto à FIA para que o difusor duplo, flagrantemente ilegal, fosse considerado dentro do regulamento.

FIA que, aliás, é um capítulo à parte nesta história: o exemplar descerra as relações de poder entre Ecclestone e a entidade, com ela sendo manipulada pelo dirigente a fim de maximizar seus ganhos. Este é um traço marcante da personalidade do dirigente: o que importa é ganhar dinheiro, não importa como.

Ganham destaque, também, as manobras envolvendo uma doação que Ecclestone fez ao governo de Tony Blair a fim de brecar a proibição da propaganda de tabaco nas escuderias. Isso gerou um grande escândalo,a ponto de um milhão de libras- valor da doação - passar a ser conhecido como "um Bernie".

Outra prova da "esperteza" são as diversas trocas de donos que a F-1 viveu, sempre com uma única característica em comum: Bernie saía mais rico de cada transação e continuava com o poder absoluto em suas mãos.

Também digno de nota são as relações entre os dirigentes da F-1, sempre muito tensas. E a postura da Ferrari de sempre se achar superior às outras escuderias.

Algumas revelações também são feitas, como o fato de que Jochen Rindt iria abandonar a F-1 ao final daquele 1970 onde ele acabaria se tornando o único campeão "post mortem" da F-1. Ou que Fernando Alonso chantageou Ron Dennis em 2007, pedindo para que deixasse Hamilton sem gasolina ou ele revelaria que a McLaren tivera acesso a segredos da Ferrari.

Alonso e Flavio Briatore, aliás, saem bem chamuscados no livro, que conta em detalhes o acidente de Nelsinho Piquet  em Cingapura e toda a conspiração envolvida.

Fico muito longe de esgotar os assuntos tratados aqui, mas é indispensável para quem gosta de Fórmula 1, até por revelar todo um lado de bastidores que nós fãs pouco conhecemos. E mostrar como o manda chuva da entidade é uma pessoa absolutamente aética, que só pensa em dinheiro e não hesita em fazer o que for pelo vil metal. Um filho da puta em caixa alta.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 47. Vale a pena.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

História & Outros Assuntos - "Resenha Crítica: Rock in Rio - A História do maior festival de música do mundo"

Nesta quarta feira, temos mais uma coluna do Mestre em História Fabrício Gomes. O tema de hoje é uma resenha de livro lançado recentemente sobre o Rock In Rio.

Não li o exemplar - estou alternando entre as biografias do ex-Presidente João Goulart e do dono da Fórmula 1 Bernie Ecclestone - mas parece em sua estrutura com livro sobre Woodstock que resenhei aqui em tempos idos.

Resenha Crítica: "Rock in Rio - A História do maior festival de música do mundo"

Confesso que quando estive com o livro pela primeira vez, me decepcionei. Achei que tinha muita imagem e pouco texto.

Como estávamos às vésperas da quarta edição do Rock in Rio, imaginei que o livro fosse mais uma das inúmeras publicações, em grande parte oportunistas, que pegam carona em assuntos que dominam o noticiário. Passado o Rock in Rio, vi o livro mais uma vez nas vitrines e pensei finalmente em comprá-lo, mais por curiosidade, para ver se ele trazia alguma informação nova, do que qualquer outra coisa.

Afinal, podia um festival de rock (que, diga-se de passagem, não é apenas de rock, mas de outros ritmos) gerar história capaz de sustentar uma publicação de quase 400 páginas? Como o autor poderia ter escrito um livro que trouxesse alguma novidade, sobre um festival cantado (e decantado) aos quatro ventos?

"Rock in Rio - A História do maior festival de música do mundo", do jornalista Luiz Felipe Carneiro (Editora Globo, 383 páginas) nasceu de seu projeto de conclusão do curso de Jornalismo na PUC, no Rio. Luiz Felipe leu mais de 2 mil reportagens feitas sobre o Rock in Rio, entrevistou vários artistas do show business que participaram das edições do festival e contou com a preciosa contribuição de Roberto Medina, publicitário, empresário e mentor e idealizador do Rock in Rio.


O livro perfaz o caminho trilhado pelos organizadores do festival, desde a primeira idéia de se fazer um evento no Brasil que renascia na Nova República, após o longo período em que esteve mergulhado na ditadura militar. Sempre traçando um paralelo entre os ares de renovação política e o surgimento do Brasil como cenário para shows internacionais: o nosso país entrando parao o circuito internacional do show business.

Não precisa ser grande conhecedor de rock para se ter noção de que em 1985 o Brasil era praticamente um território desconhecido para os artistas internacionais.

Fora um ou outro artista de grande peso que visitou o Brasil (Frank Sinatra veio ao Rio e lotou o Maracanã, em 1980), não existia por aqui uma tradição para: 1) Receber artistas estrangeiros; 2) Infraestrutura para acolher um festival desse porte. Em 1982 o Kiss teve parte de sua parafernália musical extraviada . No mesmo ano o The Police levou calote por um show apresentado no Maracanãzinho, o que se repetiu no ano seguinte, com Van Halen.

O próprio Queen, em 1981, já com apresentação fechada e contratada para tocar no Maracanã, fora proibido pelo então governador Chagas Freitas - por puro capricho. Com isso, era tarefa árdua dar credibilidade a um evento que surgiu do nada na Ilha Pura, em Jacarepaguá. O Queen e o Iron Maiden, que foram duas das grandes atrações do Rock in Rio 1, em 1985, inicialmente nem quiseram conversar com Roberto Medina. Com muito custo, e com a luxuosa ajuda de Lee Solters, empresário de Sinatra, os artistas iam aceitando os convites e por fim, as principais bandas acreditaram no projeto de Medina. Um tiro no escuro que acabou dando certo.

As dificuldades para erguer o Rock in Rio não pararam por aí. Obstáculos físicos também impediam a realização do festival. Foram necessários 77 mil caminhões de terra para aterrar o terreno da Ilha Pura, cujo solo teria de subir 1,5m para ter condições de realizar o evento. Dificuldades políticas também ocorreram: em 1985, o governador Leonel Brizola queria vetar a realização do evento, só porque a Artplan, agência de Roberto Medina, havia produzido a campanha política de Moreira Franco para o governo do Estado em 1982. Não fosse a intervenção de Tancredo Neves, que ligou pessoalmente para Brizola, praticamente impondo a realização do Rock in Rio, o festival não teria acontecido.

Bandas que cancelaram suas apresentações na última hora, como o The Pretenders, o Def Leppard e o Men at Work, também puseram à prova o sucesso do primeiro Rock in Rio. Falta de verbas - Medina teve de alienar o prédio da Artplan, sua agência, para fechar contratos. Pouco interesse inicial pela venda de ingressos para o festival (o ingresso custava oito dólares o dia) foi outra barreira a ser vencida. Justamente a pouca tradição do Brasil em sediar eventos desse porte foi o motivo para tantas suspeitas de que fosse realmente dar certo. [N.do.E.: mesmo considerando a inflação, percebe-se como aumentaram os preços dos ingressos...]

Talvez a senha para que o livro tenha uma leitura agradável seja justamente o seu formato textual: escrito em forma de diário, relatando show por show, comentando performances, tecendo críticas comportamentais (do artista e do público) e mostrando conhecimento da causa, o autor mostra que entende do que está escrevendo, sem parecer parcial a determinado artista ou gênero musical.

Na primeira edição - assim como em todas as outras - os mais privilegiados foram, sem dúvida, os artistas estrangeiros. Em 1985 o distanciamento foi ainda maior: a qualidade de som para artistas como Rod Stewart, Queen, Al Jarreau, entre outros, era anos-luz melhor e mais limpa do que para artistas nacionais. O tempo destinado aos shows também: enquanto os estrangeiros tinham, em média, 1h30 de show, artistas como Kid Abelha, Alceu Valença e Elba Ramalho tinham pouco mais de 30 minutos para se apresentarem.

Na segunda edição do Rock in Rio, o primeiro obstáculo foi o sequestro do próprio Roberto Medina, em 1990. Naquele ano, o Rio de Janeiro vivia uma onda de sequestros sem precedentes. Outra barreira foi o Plano Collor, que atrapalhou. O festival, programado para ocorrer em julho de 1990, teve de ser adiado e foi acontecer em janeiro do ano seguinte.

As exigências de cada artista podem ser consideradas um capítulo à parte. A própria contratação de Amin Khader, para ser uma espécie de "babá" dos músicos que se apresentaram nas três edições do festival, é por si só pitoresca. Khader ao receber a ligação dos organizadores do festival não acreditou e achou que estava sendo vítima de uma brincadeira.

Os relatos feitos por ele das exigências dos artistas poderiam resultar numa publicação especificamente voltada para isso. Entre outras exigências curiosas, George Michael pediu 20 refeições kosher, devidamente benzidas por um rabino. Prince exigiu um camarim inteiramente na cor púrpura e uma limousine à sua disposição na cidade. Já Rod Stewart pediu 70 toalhas brancas. O Guns n´Roses solicitou macarronada e que nenhuma rádio transmitisse seu show ao vivo - detalhe: ao final do show, Axl Rose fez questão de dividir o macarrão com todo o staff do Rock in Rio 2, chamando-os para sentar à sua mesa nos camarins, no Maracanã.

O livro também conta a epopéia da segunda e terceira edição do festival em detalhes. Mas o trunfo maior é, sem dúvidas, contar os bastidores principalmente do Rock in Rio 1, em 1985. As fofocas, intrigas, exigências e performances das bandas, os ataques de estrelismo de alguns artistas (Freddie Mercury, em 1985, e Prince, em 1991, exigiam que ninguém os olhassem fixamente), compõem os grandes momentos do livro de Luiz Felipe Carneiro.

Uma deliciosa e curiosa viagem no tempo do Rock in Rio, o livro me fez rever meus pré-conceitos sobre o tema, já que eu duvidava que o Rock in Rio pudesse sustentar a publicação de um livro sem que caísse na canastrice literária. Ao fim da leitura, felizmente percebi que é possível sim escrever sobre o festival, sem cair em clichês ou se perder no texto.

Rock In Rio em Três Momentos:

1985 - Queen em "Love of My Life":



1991 - Guns n´Roses em "Patience":



2001 - R.E.M. em "Losing My Religion":





quarta-feira, 21 de setembro de 2011

História & Outros Assuntos: Resenha Crítica - "Os últimos soldados da Guerra Fria"

Nesta quarta feira, a coluna "História & Outros Assuntos", assinada pelo Mestre em História Fabrício Gomes, mantém o tema de ontem e nos traz uma resenha do novo livro do escritor e jornalista Fernando Morais - o qual também comprei, mas ainda não li.

Resenha Crítica - "Os últimos soldados da Guerra Fria"

Máfia. Espionagem. Guerra Fria... Estamos falando de algum filme do agente 007 - James Bond? Será mais um filme produzido no auge da Guerra Fria para exemplificar o poderio econômico e ideológico dos Estados Unidos?

"Os últimos soldados da Guerra Fria - A história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos EUA" (396 páginas, Companhia das Letras, 2011), sugestivo título do novo livro do jornalista Fernando Morais deixa entrever, ao leitor que passa os primeiros olhos na publicação, que se trata realmente do enredo de um filme hollywoodiano, desta fez com Cuba como cenário.

Certo? Errado. Há espionagem (e contra-espionagem), há o clima envolvendo a Guerra Fria (mas sem a participação da já extinta União Soviética), mas o sotaque agora é espanhol e acontece entre dois países separados apenas por 130 quilômetros: os EUA e Cuba. E mesmo assim, não são estadunidenses, stricto sensu, os protagonistas do livro: são cubanos (defensores do regime castrista em Cuba) e são cubanos exilados nos EUA - muitos naturalizados estadunidenses.
Fernando Morais notabilizou-se por escrever grandes livros-reportagem. Foi assim com "Chatô: o Rei do Brasil" - biografia de Assis Chateaubriand, magnata das comunicações no Brasil, no século passado. Foi assim com "Olga" - biografia de Olga Benário, alemã e judia, esposa de Luís Carlos Prestes, mãe de Anita Leocádia Prestes, e que acabou deportada para a Alemanha nazista sob os auspícios do regime ditatorial do Estado Novo de Getúlio Vargas. E também com "Corações Sujos", livro que abordou o surgimento da Shindo Renmei, uma organização/máfia nacionalista criada pela colônia japonesa em 1942, em Marília (interior de São Paulo), pouco antes da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Em "A Ilha", livro-reportagem escrito em 1977 (e que em 2001 e 2010 ganhou reedição pela Companhia das Letras), o autor faz um competente panorama sócio-político e cultural de Cuba, em uma época em que ainda predominava a Guerra Fria e a censura no Brasil a tudo que falasse ou lembrasse "comunismo". Em todos esses livros - e em mais alguns que por motivos de espaço não foi possível exemplificar aqui - o autor delineia o que ficou conhecido como sua marca registrada: a ampla pesquisa com base em entrevistas, depoimentos, documentos, jornais, entre outras fontes que possibilitam a transformação de uma história apenas normal numa trama que ganha velocidade e interesse para quem lê.

Talvez "Corações Sujos" seja o livro que mais se aproxima da temática explorada por Fernando Morais neste novo livro, justamente pela abordagem que faz do inusitado: no primeiro, uma máfia japonesa do interior paulista (quando seguindo uma regra clichê, sempre associamos máfia à Itália ou à Chicago dos anos 1930/40), e nesta recente obra, a máfia cubano-estadunidense e principalmente anti-castrista.

Uma máfia hispano-estadunidense que - fugindo novamente ao senso comum - é detentora de poder econômico, possui vasto império midiático na região da Flórida - é dona de jornais, revistas, canais de televisão e até de uma rádio - a Rádio Martí, que é transmitida da Flórida e chega até a Havana, com o objetivo de convencer os cubanos de que Fidel Castro é inimigo do povo. Mais que isso, as organizações comandadas por cubanos exilados possui também poder político, tendo representantes em diversos partidos, elegendo deputados federais, senadores e até governadores simpáticos à causa anti-castrista. Sem esquecer que nas eleições presidenciais a Flórida constitui uma espécie de "estado-chave", capaz de decidir eleições, como na eleição presidencial de 2000, quando a vitória do republicano George W. Bush sobre o democrata Al Gore decidiu-se neste estado. Organizações cubano-estadunidenses que doam milhões de dólares a campanhas políticas, que povoam diversos bairros em Miami - destacando-se Little Havana - e que não atuam apenas nos meios ditos "legais".


Sim, porque há também organizações cubanas de extrema direita, a favor da deposição imediata de Fidel Castro e do regime comunista implantado em 1961 na ilha caribenha. Inclusive muitos que apoiaram a favor da Revolução, em 1959, ao perceberem que o barco do novo regime singrava para mares distantes daqueles antes sonhados, "pularam fora", tornando-se ferrenhos opositores do socialismo cubano.

Para o público leigo, que também é leitor deste blog, uma rápida informação: a Revolução Cubana, em 1959, tinha inicialmente caráter nacionalista, de defesa de Cuba, contra a exploração estrangeira, contra os cassinos, a prostituição e principalmente a defesa de uma economia mais justa e equilibrada, com amplas reformas sociais, nacionalizando bancos e preocupando-se com a alfabetização em massa e cuidados com a saúde da população. Não favorecendo apenas ao imperialismo estadunidense, mas também proporcionando aos cubanos condições melhores de vida e trabalho.

Mas diante das constantes negativas dos EUA, que se viram ameaçados, de uma hora para outra, em perder as regalias conquistadas, boicotando a compra de produtor cubanos, cancelando quotas de açúcar e queimando plantações de tabaco, fez com que Castro iniciasse conversações com os países do bloco socialista - principalmente a União Soviética de Nikita Kruschev. Last but not the least, após o insucesso da invasão da Baía dos Porcos - conhecida como La Batalla de Girón, em 1961, a revolução cubana ganhou tonalidades socialistas. 

Abriu-se a cortina para um dos episódios mais importantes e ao mesmo tempo aterradores de toda a Guerra Fria, que foi a crise dos mísseis (para os cubanos, "Crise de Outubro"), em outubro de 1962. Nesta ocasião aviões de espionagem estadunidenses descobriram o tráfico de armas e mísseis nucleares da URSS para Cuba, ameaçando deflagrar um movimento beligerante sem proporções no planeta. Durante trezes dias o mundo se viu à beira de um conflito nuclear, que posteriormente foi abortado por Kruschev - fato que deixou Castro bastante irritado com os soviéticos.


Voltando ao tema central do livro, as diversas organizações de extrema direita cubanas, residentes nos EUA, atuavam clandestinamente, promovendo o terrorismo em Cuba - explodiam bombas em hotéis, restaurantes, pontos turísticos, sempre com o objetivo de afastar turistas de Cuba e assim, minguar cada vez mais uma economia que já vinha abalada desde o solapamento da URSS, em fins dos anos 1980 - em troca da adesão de Cuba ao bloco socialista, a URSS comprava açúcar cubano a preços mais caros que os praticados no mercado e vendia petróleo soviético a preços muito baratos. Quando a URSS acaba, Cuba se viu, de uma hora para outra, sem subsídios à sua economia, gerando um quadro de grande apreensão - inclusive comemorada pelos ativistas rivais ao regime, que de Miami apostavam quando diante do terrível cenário que se anunciava o regime castrista iria acabar.

Só que não acabou, pois Cuba foi obrigada a reformular alguns pontos de sua política interna, permitindo por exemplo, o investimento capitalista no setor de serviços - leia-se, turismo. Mesmo com o implacável embargo econômico imposto aos cubanos, diversas empresas, principalmente européias, acreditaram no potencial turístico de Cuba. As atividades terroristas dos grupos de extrema direita não eram de todo modo ignoradas pelas autoridades estadunidenses, que procuravam não se intrometer no que consideravam uma batalha doméstica. Se eram indiferentes, por outro lado não reprimiam, já que interessava também aos EUA a queda do regime em Cuba.

Mas onde entra a espionagem nessa história?

É o tema principal do livro e autor joga luz sobre o serviço secreto cubano, que designou 14 agentes (entre eles, duas mulheres) para vigiarem de perto essas organizações de extrema direita, acompanhando suas atividades e ajudando a coibir a série de atentados terroristas planejados por elas, enviando informações a Cuba. As organizações terroristas contavam com uma ampla rede de "funcionários", espalhados em países da América Central.

Os agentes de espionagem cubanos fogem completamente ao estereótipo que imaginamos de um espião: longe de andarem de limousine, vestirem terno ou vestidos elegantes, voarem de jatinhos de luxo e possuírem armas tecnológicas de última geração, eles tinham orçamentos controlados, levavam vida modesta, trabalhavam normalmente, tinham família (muitos se casavam com estadunidenses, para ajudar no disfarce). Fernando Morais, num grandioso trabalho de investigação, busca entender as ramificações da Rede Vespa - nome que ficou conhecida a organização de espionagem patrocinada por Havana.

Um dos pontos que o livro busca levantar é que os cubanos espionavam... cubanos que patrocinavam atos de terrorismo em Cuba. Não faziam espionagem militar nos EUA, tampouco patrocinavam atitudes contrárias à soberania yankee. Essa tese é portanto contrária à grande celeuma promovida pelos exilados cubanos, com a anuência do governo estadunidense, interessada em atiçar conflitos ideológicos. O autor, referenciado em vasto material jornalístico, mostra que as atividades de Havana estavam longe disso, tendo Fidel Castro, algumas vezes, tentado alertar Bill Clinton das atividades subversivas lesivas a Cuba.

Fernando Morais faz, sem dúvida, um excelente trabalho, mostrando que é perfeitamente possível fazer jornalismo apoiando-se em fontes históricas sem ser tendencioso. Dá uma aula em certos jornalistas que se aventuram a escrever sobre história e que buscam em afirmações simplistas fazer valer unicamente a veracidade de seus fatos, pouco se importando com o processo histórico e a sua contínua relação de forças - que mostram que história não é apenas fato ou acontecimento.

Veja o trailer oficial do livro e algumas entrevistas do autor do livro, falando sobre a nova publicação:


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Resenha Literária - "Os últimos passos de um vencedor - Entre a vida e a morte, o José de Alencar que conheci"


Após um longo interregno, a nossa coluna "Resenha Literária" está de volta. Na verdade nos últimos tempos li três livros, mas a própria correria do dia a dia acabou fazendo com que não escrevesse sobre eles. Entretanto, farei um post próximo sobre estes - talvez em conjunto.

O livro tema de hoje é a segunda biografia do ex-vice presidente José Alencar, falecido neste ano de 2011:  "Os últimos passos de um vencedor - Entre a vida e a morte, o José de Alencar que conheci". Escrevi aqui a resenha da primeira biografia, de autoria da jornalista Eliane Catanhêde. Comprei o livro na última sexta feira e li praticamente de uma vez só, em pouco menos de 24 horas - interrompendo a leitura da biografia do ex-presidente João Goulart.

Na verdade é um misto de biografia e relato absolutamente pessoal do jornalista da Rede Globo José Roberto Burnier, que acompanhou os últimos cinco anos de vida de Alencar praticamente de forma diuturna. Tanto que acabaria por se tornar amigo do ex-vice presidente e ver muitas vezes a emoção pessoal concorrendo diretamente com o dever profissional.

Burnier inicia o relato pelo fim: contando o desenlace com o falecimento do político, empresário e um guerreiro contra o câncer. Foi dele o "furo" de reportagem que permitiu anunciar com exclusividade a morte, e ao mesmo tempo a alegria que sentira por um brilhante desempenho profissional era descompensada pela tristeza de perder aquele que havia se tornado um amigo para ele.

Aliás, um parêntese: o livro mostra claramente como a Rede Globo tem bons profissionais e que quando o direcionamento político de suas lideranças - notadamente o alucinado reacionário chamado Ali Kamel - não interfere nas coberturas a emissora ainda faz excelente jornalismo. Burnier acabou por ter privilégios na cobertura, mas conquistados na base da confiança obtida e de seu trabalho persistente de repórter, não por pressões ou poderes.

O livro surgiu de uma entrevista dada por Alencar ao "Fantástico" (acima, o leitor pode revê-la) em 2009, logo após aquela que foi considerada "a grande operação". Durou dezoito horas consecutivas, com a retirada de um grande número de tumores e com o uso de uma técnica nova que significava "lavar" o abdômen do paciente com uma solução quimioterápica aquecida a 42 graus centígrados. Uma cirurgia altamente agresssiva, com alto risco de morte na mesa mas que aquele momento foi razoavelmente bem sucedida.

A entrevista citada teve duas horas de material bruto e na edição foi resumida a aproximadamente oito minutos. Daquele material surgiu a idéia em conjunto de Burnier e de sua colega jornalista - e depois assistente na pesquisa - Patrícia Carvalho de registrar esta convivência com Alencar e escrever uma espécie de biografia.

O autor esteve na Zona da Mata mineira, local de origem de Alencar, fazendo pesquisas e obtendo informações sobre a família, a infância, a juventude e os primeiros passos como empresário. As informações restantes vieram de várias grandes entrevistas com o biografado, da convivência de cinco anos, de conversas com médicos, amigos, políticos, a esposa Mariza e os filhos.

Não é uma biografia clássica, e bem menos minuciosa na descrição dos fatos da vida de Alencar até se tornar vice presidente que o livro de Catanhêde. Contudo este é o grande mérito de Burnier: narra a luta de Zé Alencar pela vida dia a dia, momento a momento, nestes cinco anos de convivência. O repórter se tornou um amigo e muitas vezes confidente, de forma que o livro é um misto da história do biografado, impressões pessoais e da convivência de Burnier e do drama vivido na luta contra o câncer.

Um grande mérito é que o autor consegue passar seus sentimentos no relato durante as 240 páginas do livro. Em diversos momentos ele relata sua emoção e consegue emocionar o leitor. Eu, que sou uma pessoa de emoções contidas - o que me rende muitas vezes uma fama incorreta de "frio", em diversos momentos me vi com os olhos marejados, quase às lágrimas. É impossível ficar indiferente às linhas escritas.

Esta é uma grande vantagem: a biografia de Catanhêde, embora talvez mais completa em termos de história pregressa, é fria.

Outro ponto de vantagem é que ao contrário da autora Burnier não perpassa suas preferências políticas no texto. O ex-presidente Lula, que tem seu papel prejudicado pelo ódio político e pessoal devotado por Eliane, é retratado como ser humano por Burnier, com grande admiração e sem juízos de valor político. A relação dos dois, homens diferentes mas de trajetórias de superação semelhantes, é mostrada com grande sensibilidade pelo autor.

Também são reveladoras as informações sobre a briga que os dois principais cirurgiões de Alencar tiveram por ocasião de uma das operações - chegando a haver um ríspido bate boca entre os dois na presença do paciente. Por outro lado chega a ser engraçado o comentário de outro de seus médicos, o doutor Paulo Hoff, respondendo ao jornalista que acreditava o fim estar próximo:

"- Tá difícil mesmo. Mas, em se tratando de Zé Alencar, eu não falo mais nada. Ele derrubou todas as minhas previsões."

Burnier deixa claro que o ex-vice presidente chegou a um estágio de aceitação da morte e que em um determinado momento, com sua resignação o corpo finalmente "desligou". Também são dramáticos o veto à sua presença na posse de Dilma Rousseff e na transmissão de cargo.

Destaque também para a narração da amizade entre o repórter e Alencar. Burnier é de extrema sensibilidade no relato e faz o leitor se sentir parte da história.

Não esgoto aqui os temas, mas é leitura indispensável para se entender um pouco da luta deste guerreiro pela vida. Também se faz importante pela revelação de bastidores de jornalismo que muitas vezes passam despercebidos.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 35. Diria eu que é indispensável.

Abaixo o leitor pode ver a matéria feita por Burnier logo após a morte de Alencar. Também disponibilizoum capítulo do livro, "O Vencedor".



"O Vencedor

"Desde que ficou claro que o homem sairia de novo pela porta do hospital, eu não pensava em outra coisa: uma entrevista exclusiva com o vice-presidente, a primeira depois do "milagre".

Nos últimos cinco anos, convivi mais com gente ligada a Alencar do que com a minha família. Entre eles, havia um mineiro baixinho, cara de gente boa e muito gente boa. Adriano Silva, "sombra" do fundador da Coteminas desde os tempos de Associação Comercial de Belo Horizonte, mais de trinta anos atrás. Homem educado, de fala mansa, com "uais" para todo lado e de uma fidelidade sem igual. Tudo o que envolvia Alencar passava por ele. E com meu desejo não foi diferente. "Vamos ver. Primeiro ele precisa acordar...", respondeu Adriano.

O vice tinha acabado de sair do centro cirúrgico e eu já estava querendo falar com ele. Continuei mantendo meu pleito de plantão. Só quando ele saiu do hospital foi que recebi uma resposta mais positiva. "Vou falar com ele. Acho que vai dar", comunicou o assessor.

Como o leitor pode perceber, jornalista tem muitos motivos para roer as unhas. Até dos pés, se necessário. Tive que esperar oito dias até que Alencar saísse do buraco. "Oito dias...", sussurrei para mim mesmo. Aquilo era tempo demais, tempo para a concorrência tentar o mesmo e acabar com a minha exclusividade. Eu já estava muito à frente dos colegas, mas "quase" é o mesmo que nada. A semana se arrastou, e o pronto-socorro do hospital já "piscava" para mim, tamanha era a minha agonia... Ligava todos os dias para Adriano. E a resposta insistia em permanecer igual: "Ainda não". Alencar estava fraco, tinha dificuldade para respirar. Qualquer movimento, por menor que fosse, já o cansava. A alimentação custava a se normalizar, assim como o funcionamento do intestino, retalhado pela cirurgia. Era evidente a tensão dos médicos. Ele nunca demorara tanto para se levantar e andar. A essa altura, além de Alencar, eu e os médicos pouco dormíamos. Cada qual com sua agonia.

Eu fazia uma ginástica mental para não ficar imaginando que a qualquer momento alguém ia me "furar", ou seja, ia conseguir a entrevista antes de mim. Durante o calvário, Adriano me disse que a cada dia que passava mais e mais veículos pediam o mesmo. E eu seguia rezando para o vice-presidente se recuperar, voltar a raciocinar e me atender. Eram muitas as graças e foram muitas as rezas. Até que o homem saiu do inferno.

"O vice-presidente topou", disse calmamente o assessor. "Ele soube dos muitos pedidos e ponderou que o seu havia sido o primeiro e que você era o jornalista em que ele mais confiava."

Desliguei o telefone emocionado, agradeci aos céus e liguei para a Globo: "Consegui uma exclusiva com o Alencar!", disse ao meu diretor. "Agora é com você. Vou precisar de um bom espaço no Fantástico!"

Isso não seria problema. No boca a boca, a luta daquele senhor que, naqueles dias, passava dos 77 anos de vida, já atraía a atenção de sãos e doentes. Virou rotina para mim receber mensagens, cartas, livros de anônimos para entregar àquele lutador. Dentro do Sírio-Libanês, quem estava internado me puxava pelo braço e falava baixinho: "Esse homem é um guerreiro! É um exemplo para nós que enfrentamos uma doença. Ele nos dá esperança de que há uma saída".

Pois o homem que se sentou à minha frente, numa tarde de quinta-feira, não tinha pinta de gladiador. Estava pálido, mais magro, mais envelhecido. Mas orgulhoso. O que o corpo mostrava os olhos ignoravam. Estavam ali, vivos, espertos, loucos para falar. E falou: "Eu ainda tenho um pouco de cansaço. A quimioterapia traz diversos efeitos colaterais, entre eles, esse".

Alencar separava bem as palavras e as frases. A respiração mostrava que ele se cansava sem esforço. "Não foi nenhum heroísmo, não. Eu tinha que tomar essa decisão. Não tinha outra. Eu tinha que me operar." Dobrou o lenço com o qual acabara de enxugar o rosto, botou no bolso de trás da calça e seguiu falando: "Eu não estou habituado às coisas fáceis. Eu sempre deparei, na vida, com problemas difíceis. E nunca deixei de enfrentá-los".

O recado era claro. Quem quisesse levá-lo ia ter que suar muito mais do que a camisa... Aquele homem não ficava com a cabeça presa no problema, mas na solução. Ele dedicava toda a sua energia para resolver em vez de lamentar. Trocava ansiedade por solução. Foi assim sempre.

Tanto sabia que a cirurgia era de alto risco que assinou um documento, quatro dias antes, tomando ciência de todos os perigos que a intervenção poderia produzir. O autodidata pediu licença ao filósofo Sócrates e emendou: "Eu não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra". E prosseguiu falando do fim de todos nós. "A morte é um fenômeno natural. Assim como você nasce, você um dia vai morrer. A gente não tem que ficar pensando nisso. E você vai viver o tempo que Deus quiser que você viva. Eu não posso pensar que vai acontecer alguma coisa comigo sem que Deus queira. E se Ele quiser que eu morra é porque vai ser bom para mim. Deus não faz nada ruim contra ninguém."

O vice-presidente parecia estar com uma carga extra de adrenalina nas veias e na memória. Contou "causos", passagens da vida e a bronca antes da cirurgia. "Eu não podia deixar que a turma entrasse com cara e espírito de velório. Disse que nós não podíamos recuar da operação. Eu precisava do empenho deles. E tive dobrado."

Acostumado a decidir, habituado a mandar, mas com elegância, com jeito bem mineiro mesmo... Foi assim que se referiu à mulher, companheira e "fiscal" contra algumas travessuras. "Ajuda tanto que até atrapalha. Porque ela não me deixa fazer nada. Por exemplo, não me deixa tomar um golo ! Não senhor!, ela fala." E comentou dos brasileiros que torciam por ele. "Eles têm me ajudado muito. O que eles torcem por mim, as mensagens que eles mandam me deixam emocionado. E vêm de pessoas que não são do nosso dia a dia. São de gente que mora longe, que eu nunca vi."

Humilde, Alencar agradeceu aos céus. "Deus não me deve, e nem quero que Ele me dê um dia a mais de vida de que eu não possa me orgulhar."

E ganhou de vez o coração do povo ao dizer o que pensava da vida, dali em diante. "Espero legar uma herança da qual meus herdeiros possam se orgulhar. Mais nada."

O homem fraco, cansado e magro saiu com pose de vencedor. 

Se o impacto de ler o que ele disse já é grande, imagine ouvir tudo aquilo, cara a cara. Saí atordoado do bairro dos Jardins, em São Paulo. Eu e toda a equipe. "Meu Deus! Quanta história!", era o que eu ouvia de mim mesmo. Se pudesse, colocaria no ar a entrevista bruta. Quarenta minutos de estimulantes na veia. Sabia que muita coisa ficaria de fora. Guardei aquilo na memória, mas bem por perto...

Quando vimos a matéria editada pela primeira vez, não houve testemunha que não tivesse se comovido. Na segunda-feira pela manhã comprovei, mais uma vez, a potência da televisão. Todo mundo me parava para comentar a entrevista. Pouco depois das oito e meia, meu celular tocou: "É do Palácio do Jaburu. O vice-presidente vai falar".

Alencar contou que já tinha visto cinco vezes a reportagem. Estava emocionado por ter conseguido falar aos brasileiros que o apoiavam. Estava agradecido. 

"Agradecido estou eu, presidente. Foi um privilégio compartilhar daquele momento. As pessoas não param de perguntar sobre sua saúde."

Tão logo o vice desligou, surgiu na minha frente o então presidente. Na Fiesp, ao lado de sua colega argentina Cristina Kirchner, Lula desviou-se do caminho e veio na minha direção. Abraçou-me e disse no meu ouvido: "Adorei o que você fez ontem com o Zé Alencar! Muito bonito!".

Definitivamente, as mensagens de Alencar haviam se espalhado pelo país afora e alcançado os lugares mais improváveis. No mesmo dia, seus ex-colegas lembraram-se dele no plenário da Câmara dos Deputados.

Alencar havia virado assunto nacional. A guerra daquele homem pela vida despertou sentimentos e inspirou atitudes que me fizeram acompanhá-lo, seja de perto, seja de longe. Aquilo me atingiu fundo. Eu precisava ouvi-lo mais e, depois, contar a todos.

Na semana da Páscoa, fui à casa dele apresentar oficialmente a ideia do livro e a minha colega, Patricia Carvalho, que me ajudaria na pesquisa. Eram oito da noite quando entramos na ampla sala de visita. Alencar nos recebeu na porta vestido como sempre, de paletó e gravata. Muito cordial, apresentou-nos as duas filhas, Maria da Graça e Patrícia. Adriano, presente, dispensava a cerimônia. Antes de nos sentarmos, o anfitrião nos levou ao corredor e nos mostrou diversas fotos que cobriam as paredes. Parou diante de uma que registrava seu casamento, e seus olhos brilharam. Ficou claro por que aquela moça de Caratinga fisgou o comerciante à primeira vista. Dona Mariza estava linda.

Entramos à esquerda, no seu escritório íntimo. Era uma sala simples, com um sofá de couro preto e uma TV. Apesar de ter se tornado um dos homens mais ricos do Brasil, Alencar mantinha a humildade. Nunca gostou de esbanjar.

A reunião foi na salona decorada bem à mineira, com motivos barrocos. Tinha pompa, era sóbria e testemunha de tomadas de decisões. Quando expus o que faria, o homem destrambelhou a falar. Contou o que lhe veio à cabeça, sem compromisso com a cronologia. A certa altura, nossos olhos se desviaram. Não era para menos. A copeira trouxe sua bebida preferida, o uísque Buchanan s.

A surpresa foi geral, até da empregada, que ficou paralisada sem saber o que fazer. "Serve! Já falei que é para servir!", mandou o patrão.

O "golo" nas reuniões informais era de lei. E ai de quem o reprimisse. O silêncio foi tal que deu para ouvir o líquido cor de caramelo se esgueirando pelo copo e fazendo o gelo estalar. 

A cada gole, uma história diferente. O neto Davi, sua paixão, apareceu com uma caixa de chocolate. "Oferece às visitas", ordenou o avô.

Alencar abraçou o menino como eu nunca o tinha visto fazer com ninguém. Despejou tantas loas ao garoto que o pequeno ficou todo sem jeito. Duas horas e meia depois de entrarmos, saímos com a cabeça cheia de planos.

No encontro, o patrono sugeriu diversos parentes e velhos companheiros que deveríamos ouvir. Eu teria que ir à região de Muriaé, onde ele nasceu, para respirar o ar do ambiente que um dia foi o dele e para onde pouco voltou. Mas, antes de todos, teria que gravar com ele o mais breve possível. A preocupação com o tempo era minha e dele também. Alencar se automotivava, mas mantinha os pés bem no chão. Sabia que o inimigo era poderoso e cada vez mais forte. Sabia que poderia morrer logo. Marcar e desmarcar o primeiro depoimento virou rotina. Ora ele estava fazendo quimioterapia, ora estava ocupado com o trabalho, muitas vezes substituindo o serelepe viajante presidente Lula. Cheguei a comprar passagem para Brasília para uma data que acabou riscada da agenda. Decidi então começar pelo que estava à mão. Liguei para Toninho, o irmão mais próximo do vice-presidente, e marquei minha viagem à Zona da Mata. Ao mergulhar no passado de José Alencar, conheci um personagem chamado Zezé."

(pp. 49-55)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

História & Outros Assuntos: Resenha Crítica – Jogo Sujo: o Mundo Secreto da FIFA"

Nesta quarta, mais uma edição da coluna "História & Outros Assuntos", assinada pelo Mestre em História Fabrício Gomes.

O tema de hoje é a resenha do livro "Jogo Sujo - O Mundo Secreto da Fifa", que já foi alvo de texto de minha autoria anteriormente - que pode ser lido aqui.

Vamos ao texto:

Resenha Crítica – Jogo Sujo: o Mundo Secreto da FIFA

O livro que a FIFA tentou impedir. É essa a frase de chamada do livro “Jogo Sujo - o mundo secreto da FIFA: compra de votos e escândalo de ingressos” (Panda Books, 351 páginas), de Andrew Jennings, jornalista inglês da BBC e que também escreve para o Daily Mail e Sunday Times. O exemplar mostra as tenebrosas transações, negociatas e bastidores da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA). 

Após a leitura desse livro, o leitor terá a impressão de ter assistido a um filme de máfia, estilo “O Poderoso Chefão”, com exemplos surpreendentes de como um grupo fechado de pessoas foi (e ainda é) capaz de utilizar todos os meios possíveis para não só se manter no poder da instituição, mas também fazer dela fonte de lucros.

Certamente é por isso que Jennings passou a constar no hall de 'persona non grata da FIFA': porque neste livro-reportagem fez questão de destrinchar as atividades suspeitas desta federação. Desde 1974, ano que marcou a eleição de João Havelange para o cargo de presidente da FIFA, vencendo (de modo suspeito) o inglês Stanley Rous. Aquele ano marcou o que Jennings chama de “nova fase” da FIFA, correspondente a uma mudança política marcante, favorável à expansão do futebol pelos quatro continentes e que também pautou-se na forte comercialização e marketing da entidade. 

O preço desse novo tempo tem sido muito caro: o desgaste moral e ético da FIFA, em prol do enriquecimento de alguns dirigentes, que tais quais um polvo, buscaram alçar seus tentáculos em diferentes ramos ligados ao futebol para favorecimento próprio.

Há uma notória distinção entre ”instituição” e “organização”. Geralmente uma instituição é baseada em valores éticos, morais, honestos em prol de alguma causa. Já organização, dependendo das atividades que desempenha, pode ser relacionada a máfia. É assim a interpretação que se faz quando analisamos o histórico desempenhado pelos dirigentes da FIFA que o livro lança mão: João Havelange, Joseph Blatter, Jack Warner (presidente da Concacaf) e diversos representantes de associações nacionais de futebol (muitas africanas e do Oriente Médio). 

Não somente falando de corrupção, mas também de suas relações com a sociedade, como pode então FIFA, que se preza defensora não só do futebol, como também da prática de paz mundial, ter tido amizades com ditaduras sanguinárias como a da Argentina, na celebração da Copa do Mundo naquele país, em 1978? Ou então, como pode ter, entre seus membros no Comitê Executivo (votantes e administradores da instituição, ops, organização), líderes nacionais ligados a ditaduras como as da Arábia Saudita?

O livro desmembra essas relações e mostra também a ascendência da Adidas, uma das principais fornecedoras de material esportivo existente até hoje, sobre as federações de futebol. Horst Dassler, presidente da Adidas, foi o principal financiador da campanha de Havelange para a presidência da FIFA. O apoio foi apenas porque gostava do brasileiro? E as relações com a International Sport and Leisure (ISL), que durante décadas foi detentora dos direitos de transmissão das Copas e Jogos Olímpicos?


Andrews Jennings descortina, nesse “Jogo Sujo”, como se deu o processo de influência que a empresa exerceu sobre a FIFA: chantagem, lavagem de dinheiro, corrupção (muita)… até o contexto que explica a sua falência, em 2001. E também exerce forte vigilância sobre Sepp Blatter, suíço (acima), presidente da FIFA desde 1998, quando novamente numa eleição pra lá de controversa – imitando Havelange, seu antecessor e padrinho político no futebol – venceu o sueco Lennart Johansson, então presidente da UEFA. 

O leitor irá se deparar com situações supreendentes, que mostram que o futebol é um jogo disputado muito além das quatro linhas: envolve fraudes, adultério (uma metáfora utilizada para explicar, por exemplo, a substituição da Mastercard pela Visa, no patrocínio master das Copas do Mundo – mesmo a Mastercard sendo parceira antiga da FIFA, tendo a primazia nas negociações de contratos e oferecido 180 milhões de dólares pelo patrocínio das Copas de 2010 e 2014, cerca de 10 milhões de dólares a mais que a Visa e esta tendo sido a vencedora (?) da negociação), corrupção (esquemas de compra de votos nas escolhas das sedes de 2006.

Neste último episódio, a África do Sul tinha a promessa verbal de Blatter para a realização da Copa, tinha a maioria da promessa de votos das confederações internacionais e no final perdeu o direito de sediar a Copa para a Alemanha só porque um dirigente da Oceania resolveu não ir votar naquela eleição. Também há censura aos jornalistas que desafiavam o status quo da entidade.

Aliás, no livro de Jennings, a censura é a todo momento lembrada. O jornalista enfrentou intimidações e teve por diversas ocasiões seu acesso negado a reuniões da FIFA, sendo inclusive banido dos eventos da entidade. 

Mas Blatter é apenas a ponta do iceberg nesse esquema todo, já que como presidente da FIFA é o mais exposto na mídia. Outro dirigente do alto escalão é (era) Jack Warner, de Trinidad & Tobago, presidente da Concacaf – confederação que engloba os países da América do Norte, América Central e Caribe. Uma forte e poderosa confederação, sem dúvida, já que tem muitos países associados, com poder de voto (imaginem, a “poderosa” Antígua, ou a Jamaica, o Haiti…). 

Warner atingiu o ápice de praticar delitos no futebol no esquema da venda de ingressos para a Copa de 2006, na Alemanha, quando, por sinal, a seleção de Trinidad & Tobago (país de Warner) disputou pela primeira vez uma Copa do Mundo. Ingressos vendidos de forma suspeita, favorecimento explícito à agência de turismo de Warner, que tinha o direito de comercialização dos ingressos, pacotes de viagens... Os tentáculos do dirigente eram muitos – assim como os da FIFA, que mascaram as reais intenções dos dirigentes da entidade máxima do futebol: o fair play é apenas uma retórica, o que interessa é o lucro, mesmo que para atingir esse fim, seja necessário se utilizar de todos os meios.

Enfim, “Jogo Sujo” merece a leitura, por mostrar as entranhas de uma outra FIFA, que no fundo está pouco se lixando para ideais de democracia, inclusão social por meio do esporte e paz no mundo. É uma organização que mais se assemelha à máfia de Don Corleone e seus asseclas, interessados em se manter no poder por décadas e cada vez mais lucrar com o esporte. 

E faz perceber ao leitor brasileiro que mensalão, corrupção e pagamento de propinas não acontece somente por aqui, mas também nesta organização que nasceu em Paris, em 1904, e hoje tem sua sede em Sunny Hill, na Suíça – terra dos relógios (pontuais, eficientes e precisos) e do queijo - que na FIFA, cheira mal.

Assista abaixo a entrevista de Andrew Jennings, autor do livro, ao programa “Bola da vez”, exibido na ESPN Brasil, em 9 de julho deste ano. É reveladora.


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

História & Outros Assuntos: "Guia da XV Bienal Internacional do Livro"


Excepcionalmente nesta quinta feira, temos mais uma versão da coluna "História & Outros Assuntos", assinada pelo Mestre em História Fabrício Gomes.

O tema de hoje é um guia da Bienal do Livro, que ocorre aqui no Rio de Janeiro entre hoje e o dia 11 de setembro. Pretendo ir à feira no próximo sábado e, semana que vem, colocarei aqui minhas impressões, assim como fiz em 2009.

Vamos ao texto:

"Guia da XV Bienal Internacional do Livro

Entre os dias 01 e 11 de setembro terá início mais uma Bienal Internacional do Livro, aqui no Rio de Janeiro. Será a XV Bienal.

O evento começou pequeno em 1983, num dos salões do Copacabana Palace, numa área de mil metros quadrados, e que dois anos depois foi realizado no shopping São Conrado Fashion Mall. 

No Riocentro, o evento acontece desde 1987, quando ocupou 15 mil metros quadrados nos pavilhões daquele centro de convenções. De lá para cá o evento não pára de crescer, ganhando proporções gigantescas, com estandes bem acabados e criativos, sem falar em termos operacionais, com a capacidade de gerar mão-de-obra direta e indireta e envolver negócios editoriais milionários - apesar do Brasil ainda ser avesso à leitura.

Minha primeira Bienal aconteceu em 1989. Na verdade era para ter acontecido dois anos antes, quando eu iria num passeio escolar. Quis o destino que justamente naquele dia da visita eu ficasse doente e perdesse a Bienal. A decepção foi grande, mas em 1989 fiz minha estréia e não parei mais. 

Completarei esse ano (2011) minha décima segunda Bienal e confesso que a intensidade de interesse por esse evento só tende a crescer. De início, ia com a família, mas depois com o decorrer dos anos passei a ir sozinho - simplesmente porque não passava menos de cinco a seis horas andando pelos pavilhões do Riocentro, vasculhando desde os badalados estandes até os mais reclusos, inóspitos e pitorescos estandes, de editoras desconhecidas. Em muitos anos fui mais de uma vez. 

O grande barato é que mesmo com a facilidade de se comprar livros nas livrarias virtuais e sites de comércio eletrônico o interesse pela Bienal aumenta. Afinal, para quê se deslocar até o Riocentro (e se o "RioCENTRO" é longe, imaginem se o lugar fosse chamado de "RioPeriferia"? Sim, eu sei, a piada é fraca) com o objetivo de comprar livros se podemos comprar pela internet e recebê-los em casa, com conforto e praticidade? 


A explicação é que a Bienal é EVENTO. O importante é estar lá, mergulhar na feira literária, ver autores, leitores manuseando livros, sentir o cheiro dos livros, barganhar, negociar descontos, sentir o pé doer de tanto andar, de ir e voltar, reservar o livro e já cansado e com fome, comer alguma coisa na praça de alimentação, apoiando a sacola de livros no chão. 

No fim das contas, ir embora já noite densa, segurando pilhas de livros sem se preocupar a hora que vai chegar em casa, já no carro (ou no ônibus) folheando as recentes aquisições. E dizer: "daqui a dois anos, eu volto!".

Pensando nisso, aqui vai uma pequena contribuição, um guia para quem vai pela primeira vez (ou quem já foi outras vezes mas acabou entrando em furadas do evento). Afinal, Bienal não deve ser programa de índio - e nada contra os índios que adoram ler:

1) FUJA, CORRA, EVITE A TODO CUSTO - Ir durante a semana, durante o horário escolar. Se por acaso estacionar seu carro e perceber algum ônibus com crianças fazendo algazarra, pense que está na Líbia e os simpatizantes de Kaddafi estão atrás de você! 

É furadíssima ir na Bienal junto de caravanas de estudantes. Nada contra os colegiais, mas o propósito da visita deles é certamente diferente do seu, que vai ao Riocentro para ver livros, pesquisar preços e curtir o evento. Mesmo com as escolas direcionando as visitas para estandes que realmente interessam ao público infantil, os corredores ficam cheios, os banheiros lotados e quando você quiser ir tomar uma água ou refrigerante na praça de alimentação encontrará as mesas abarrotadas de crianças jogando Coca-Cola umas nas outras;

2) FUJA TAMBÉM - Dos estandes badalados, das livrarias megastores ou de comércio eletrônico, tipo Saraiva, Siciliano, Submarino. Ficam lotadas de gente, o atendimento é péssimo (geralmente a proporção é de um vendedor para cada vinte pessoas - estou falando sério). 

O estande da Livraria da Travessa até a Bienal passada (2009) era razoavelmente civilizado e bem atendido, mas como a rede de livrarias da Travessa cresceu bastante e eles recentemente inauguraram um sistema de comprar/bônus por fidelidade, suspeito que esse ano o estande estará bem cheio;

3) VÁ ALIMENTADO - Bienal não é lugar para almoçar ou jantar. É lugar pra lanchar, quando você estiver cansado e quiser fazer um pit-stop. Um pedaço de pizza, um refrigerante ou uma latinha de cerveja (se você não estiver dirigindo!) são bem-vindos. 

Geralmente setembro ainda não é um mês quente, mas ao menor sinal de calor procure se hidratar com água de côco (há sempre um carrinho vendendo água de côco na garrafa). Mas não leve alimentos/bebidas para dentro dos estandes. Além de muitos vendedores/seguranças olharem você com cara feia, os livros não querem se alimentar;

4) OS MENOS BADALADOS SÃO OS MELHORES - Se o grande público lota os estandes mais conhecidos (mencionados no item 2 deste guia), existem estandes desconhecidos que ficam vazios e que oferecem excelentes livros - em muitos casos, a preços bem em conta. 

Um exemplo é o estande da Gráfica do Senado Federal. Lá o leitor poderá encontrar títulos sobre diplomacia, relações exteriores, geopolítica, documentos raros e importantes (guerras, Acre, Amazônia). 

Títulos como "Recordações da Campanha do Paraguai" (José Luís Rodrigues da Silva), "O Abolicionismo" (Joaquim Nabuco), "A Abolição do Comércio Brasileiro de Escravos" (Leslie Bethell ), "O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis" (Luis Edmundo), "Porque construí Brasília" (Juscelino Kubitschek) e "Efemérides Brasileiras" (Barão do Rio Branco), entre outros. 

Os preços variam entre 15 a 30 reais. 

Outro estande pouco conhecido, mas inversamente proporcional em importância e bons títulos é o da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU), que engloba a UFMG, a UFRJ, a UFF, a UERJ, a PUC-Rio, UNESP, entre outras. Geralmente são livros voltados para as áreas de Ciências Humanas e Sociais e Psicologia/Psicanálise. Geralmente é um estande que fica logo na entrada, espaçoso e vazio. Corra para lá e veja os excelentes livros que ele dispõe. 

Editora Paz e Terra, Civilização Brasileira e EDUSP são muito bons também. Um estande pouco badalado é o da Imprensa Oficial, que também oferece boas opções de títulos;

[N.do.E.: também indico o stand da Fundação Getúlio Vargas, com bons livros a preços razoáveis]

5) OS TRADICIONAIS - Estandes da Nova Fronteira, Companhia das Letras, Objetiva e Rocco geralmente inovam a cada ano e apresentam soluções criativas. E oferecem descontos atraentes nos últimos dias. Em 2007, no último dia de evento (um domingo), comprei a biografia de Juscelino Kubitschek com 60% de desconto no estande da Objetiva;

[N.do.E.: na última edição o estande da Record estava com descontos cumulativos que chegavam a 40%]

6) ESTACIONAMENTO - É realmente caro: 15 reais por carro! Mas fique atento: apresentando a nota do estacionamento pode-se obter desconto na hora de comprar um livro;

7) CRIANÇAS - Além dos muitos estandes direcionados ao público infantil, o Café Literário irá oferecer, no dia 03/09, o debate "Literatura infantil ontem e hoje: o caso Monteiro Lobato", com a participação de Marisa Lajolo, Flávia Lins e Silva, Joel Rufino dos Santos e mediação de Clarisse Fukelman. 

Haverá também a Biblioteca Mirim, um espaço lúdico que tem o objetivo de despertar a curiosidade e o gosto pela leitura por meio de duas atividades simultâneas: contadores de histórias e biblioteca. Thalita Rebouças e Tânia Zagury estarão, com mediação de Isabella Saes, na mesa " As leitoras adolescentes", no dia 05, às 19h;

8) MELHOR DIA PARA VISITAÇÃO - Fins de semana, logo que a Bienal abre, às 10h. Aos sábados, a partir das 15h, começa a ficar bem cheio. Mas tudo vai depender também do tempo: se fizer sol, lota mais tarde. Se chover, desde cedo fica cheio. 

Esse ano, o Brasil é o país homenageado, então é uma atração à parte para quem visitar a feira de livros. É uma boa pedida para as horas em que os corredores lotam: visite o estande do Brasil, aprecie o material e saiba mais sobre nossa cultura;

9) NÃO COMPRE LOGO DE CARA - Leve um bloco de folhas para anotar os preços. Embora o mercado editorial geralmente tabele os preços, a Bienal é o epicentro da negociação. 

E acredite: os preços variam muito. Não caia no erro de comprar livros no primeiro estande. Vá anotando e quando acabar de visitar todos os estandes, vá direto ao ponto: o estande que tem livros mais baratos. 

Professores têm desconto em muitos estandes, mediante apresentação de comprovação de exercício da profissão. Se for estudante, leve carteirinha da escola ou faculdade. Sempre há descontos e é preciso ficar atento. Se puder, visite a Bienal em dois dias: no primeiro, apenas observe preços, curta o evento. E no segundo, realmente compre;

10) CATÁLOGOS - Sempre que visitar um estande, se ficar interessado nos títulos que determinada editora oferece solicite ao vendedor um catálogo. Nele, não constam apenas os preços, mas também contatos futuros com aquela editora, para recebimento de mala-direta e conteúdo específico. Certas editoras capricham nos catálogos.

Esse é mais ou menos um guia e espero ter ajudado. E não se esqueça de que em 2013 haverá outra Bienal. E depois mais outra, mais outra, mais outra... :o)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

História & Outros Assuntos: "Resenha Crítica de 'João Goulart: Uma Biografia'"

Nesta quinta feira, excepcionalmente em dia diferente, temos mais uma edição da coluna "História & Outros Assuntos", assinada pelo colunista Fabrício Gomes - que aparece em uma das fotos deste post ao lado do autor do livro.

O tema de hoje é uma resenha sob o ângulo histórico da recém lançada biografia do ex-presidente João Goulart.

Curioso é que eu também estou lendo o livro - devo ter lido umas 100 páginas, além do final (risos) - e já adianto que, em minha ótica, há uma grave omissão: a não citação do fato de que o enterro de Jango foi uma das primeiras manifestações pela anistia política no Brasil - como o leitor poderá ver em uma das fotos deste post. Breve resenha aqui, mas adianto que apesar da ressalva é leitura indispensável.

Vamos ao texto:

O Ministro que Conversava, o Presidente Incompreendido

O historiador tem o dever de diferenciar a história da memória da história vivida, de compreender que a memória é seletiva: há coisas que são lembradas – de determinada maneira – e há coisas que são esquecidas. 

Buscando reparar um erro histórico, o historiador e professor de História Jorge Ferreira acaba de lançar “João Goulart: uma biografia” (714 páginas, Civilização Brasileira), uma obra que pretende não ser uma hagiografia do ex-presidente da República e líder trabalhista, mas sim mostrar João Goulart (Jango) sob o ponto de vista da ambiguidade. 

 
Mais do que ser uma simples biografia, Jorge Ferreira pretende neste trabalho permitir ao leitor compreender importantes aspectos da realidade contemporânea brasileira, principalmente naquele que ficou conhecido como o tempo da experiência democrática, compreendido entre 1946 e 1964. 

Sem dúvida uma tarefa árdua, já que diversos trabalhos já foram publicados sobre Jango. A começar, em 1977, pelo ótimo livro “O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil (1961-1964)”, de Luiz Alberto Moniz Bandeira, no qual este autor apresenta Goulart como um presidente revolucionário e, ao mesmo tempo, vítima de uma conspiração. Posteriomente, em 1984, foi lançado o documentário “Jango”, de Silvio Tendler, onde o ex-presidente é mitificado e as esquerdas desempenham o papel de vítimas no processo que desencadeou o golpe civil-militar de 1964.
 
Somente a partir de 2006, ao completarem-se trinta anos da morte de Jango é que foi percebido um movimento de renovação dentro da historiografia, ao desmistificar, até certo ponto, as consequências que propiciaram o golpe, inseridos no pensamento contemporâneo brasileiro, como a personalização/individualização da causa, o determinismo econômico com enfoque em bases estruturalistas, apoiadas no dogma (camuflado de marxismo) que pregava a crise do populismo como explicação para o golpe. Ou até mesmo visões conspiratórias que buscavam entender os acontecimentos como interferências estrangeiras para a queda de Goulart e a ascensão do regime ditatorial, que acabou por inaugurar o regime de exceção em que o Brasil se ambientou por cerca de 21 anos. 

Não somente apresentando a biografia de Jango, Jorge Ferreira propõe um interessante debate historiográfico acerca das diversas vertentes e possibilidades em que foram construídas as representações de João Goulart ao longo dos anos. Apresenta e debate as correntes historiográficas, contudo, sem impor ao leitor alguma verdade em torno da corrente que acha certa. O personalismo na história, onde a culpa do golpe seria apenas de Jango, segundo o autor, simplificaria ao extremo uma conjuntura que se apresenta extremamente complexa. 


Goulart não viveu sozinho o tempo da experiência democrática: foi mais um, entre tantos atores sociais e tantas dinâmicas que ocorreram simultâneamente no processo histórico em questão. Por isso, Jorge Ferreira procura questionar o ponto de vista de outros biógrafos de Jango – como Marco Antonio Villa (historiador e professor de história na Universidade Federal de São Carlos), que publicou “Jango, um perfil (1945-1964)” -, que preferem a culpabilização da personagem central do livro, como explicação para todos os males que ocasionaram os eventos de 31 de março de 1964. 

Se a individualização é questionada, o estruturalismo e o determinismo econômico, exponenciados na visão de alguns autores como Guillermo O´Donnel e Fernando Henrique Cardoso, que buscam entender os acontecimentos de março de 1964 como oriundos de um processo histórico que desencadeou o colapso do populismo no Brasil também é cabível de reflexão nesta obra. 

Como explicar então que não ocorreu um golpe militar no Brasil, apenas que o processo de industrialização avançado, por substituição de importações, levou a um acúmulo de capital e consequente crescimento econômico onde fez-se necessário o surgimento de um regime autocrático para regular os conflitos gerados? Na visão desses autores, o que ocorreu foi a crise de acumulação de capitais ou simplesmente crise do populismo. 

Populismo, um termo tão próximo de nossa realidade como também emblemático, já que ao longo das décadas de 1970 e 1980 adornou-se de um negativismo que procurava identificá-lo como praxis nociva no processo histórico, não só no Brasil, mas também em Nuestra America. Bastaria então a aproximação do líder político e burguês, corrupto e manipulador das massas – como Perón, Vargas, o próprio Jango, entre outros – para ser identificado como populista. Um mentiroso e ardiloso, que buscaria somente seu próprio sucesso em detrimento do subdesenvolvimento de seu povo. No entanto, como explicar que também Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda – igualmente próximos das massas – não pudessem merecer a mesma nomenclatura política?
 
Além de procurar contribuir para o entendimento da figura de Jango, a presente obra de Jorge Ferreira busca emergir uma nova forma de abordagem da biografia, desconstruindo a idéia da oposição entre indivíduo e sociedade, e como bem lembra Vavy Pacheco Borges, “o ser humano que só existe dentro de uma rede de relações“. 

Agindo como continuidade do movimento historiográfico surgido então, como já mencionado, em 2006, quando Marieta de Moraes Ferreira (historiadora e professora de história da UFRJ e CPDOC) publicou e organizou o livro “João Goulart. Entre a memória e a história” e no ano seguinte, o próprio autor juntamente de Angela de Castro Gomes (historiadora e professora do CPDOC e da UFF) organizou a obra “As múltiplas faces de Jango“, aqui João Goulart surge para o leitor não somente no período em que ocupou a vice-presidência de JK ou de Jânio, ou então seu período como presidente da República – que proporcionou o início do regime de exceção no Brasil. 

 
Busca-se o resgate da figura de Jango como deputado, como secretário de Estado (no Rio Grande do Sul), como Ministro do Trabalho (e principal herdeiro do legado de Vargas) e também, no crepúsculo de seus dias, como pecuarista no exílio uruguaio e argentino. 

Embora o objetivo delineado pelo autor seja o de não buscar retratar o biografado de forma positiva ou negativa, apenas mostrando suas ambiguidades, fica claro que sua posição busca o resgate, na maior parte da leitura apresentando Jango positivamente ao leitor. Entretanto, tal recurso não é pecado, já que a obra foge ao lugar-comum dos trabalhos que até então se propuseram a desempenhar o papel de biografias sobre Jango. 

Enquanto a maior parte busca, na verdade, analisar as crises vividas por seu governo (a renúncia de Jânio, os militares que não queriam deixar Jango, vice-presidente, assumir, a rede da legalidade instaurada por Leonel Brizola na tentativa de legitimação do poder, garantido pela Carta de 1946, e por conseguinte, a crise de 1964), Jorge Ferreira aborda a trajetória da personagem, do nascimento ao exílio/morte. Esse percurso é esquecido pelos livros didáticos escolares, seja por abordarem o período em que esteve na presidência de forma bastante superficial ou, como já mencionado, pela visão negativa do conceito de populismo, em sua maior parte identificado com Jango.
 
Falar de João Goulart perpassa outros pontos, pouco abordados pela historiografia. É falar do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e seu surgimento, em 1945, com o objetivo de atuar na incorporação dos trabalhadores no cenário político brasileiro, de ser o partido com trânsito livre entre as esquerdas e os sindicatos. Ao assumir a presidência do PTB, nos anos 1950, Jango refundou o partido, adequando-o às propostas que eram decorrentes do ambiente que nascia no mundo da Guerra Fria: promover o nacional-estatismo, em defesa da soberania nacional mantendo independência e distanciamento dos centros financeiros internacionais, expandindo o setor público, reduzindo a desigualdade social entre os brasileiros e principalmente naquilo que se transformou na maior bandeira, quando esteve à frente da Presidência da República: as reformas de base – conjunto de reformas que, se implementadas, transformariam a sociedade brasileira, visando um país com Justiça Social.
 
João Goulart é apresentado na presente biografia, a todo momento, como conciliador. Era o ministro que conversava. O ministro que despachava até altas horas no ministério do Trabalho ou em sua casa. O ministro que recebia sindicalistas, que atuava no sentido de apagar incêndios entre os sindicatos e os empresários. Era o presidente que conversava de igual para igual com o povo, desprovido de rituais, cerimônias e da liturgia do cargo para ajudar quem o procurasse. 

Conciliação, termo positivo, perfeitamente adequado a Goulart, que lhe garantiu ascendência e popularidade como ministro, mas que a partir de sua trajetória como presidente passou a ser sinônimo de desqualificação. 

A partir dos anos 1960 ocorreu a deterioração do conceito de conciliação, sendo que o discurso e a maneira de atuar ficaram ultrapassados, no meio do embate entre direitas e esquerdas, que atuaram de forma a desqualificar a experiência democrática brasileira nos anos anteriores. O tom de radicalismo, nas exacerbações, não ocorreram apenas pelas direitas, que agiam a todo instante buscando a ruptura constitucional, mas também pelas esquerdas, que na busca pela implementação das reformas de base (na lei ou na marra), atreveriam-se até a subjugar as instituições democráticas. Para as esquerdas, se as reformas não avançavam, era culpa das instituições, que eram conservadoras, e da Constituição de 1946, ultrapassada.
 
E porque então as esquerdas estavam tão insufladas, acreditando no sucesso de suas reivindicações? Segundo o autor, experiências anteriores, como a crise de 1961, que mesmo contornada pelo parlamentarismo, proporcionou que João Goulart assumisse a presidência (ainda que tutelado por um conselho de ministros), e o plebiscito de 1963, que devolveu a Goulart a presidência, com poderes executivos, credenciaram as esquerdas a acreditar que em 1964 as reformas seriam implementadas. 

Entretanto, conforme o autor, se em 1961 as esquerdas atuavam em busca de garantir a legitimidade da constituição (não por reformas econômicas e sociais), em defesa dessa constituição, estando setores da direita propensos a dar o golpe, o inverso ocorreu em 1964: as direitas imbuídas do discurso tradicionalista, buscavam a manutenção da ordem, e as esquerdas, na luta obsessiva pelas reformas cogitavam atropelar as instituições, fechando o Congresso.
 
Atuando então como resgate da personagem, desmistificando certos vícios que as décadas foram capazes de fazer surgir e se propondo a dar a continuidade a uma série de publicações que transitam em torno do ator social não desprendido do restante da sociedade, mas inserido numa dinâmica muito mais complexa, a biografia de Jango, mesmo fazendo emergir a imagem positiva do ministro que conversava, mostra a outra faceta da personalidade: o presidente que foi incompreendido, pelas direitas e pelas esquerdas, por ser conciliador.