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domingo, 2 de setembro de 2012

Orun Ayé - "Portela e Vila - de novo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, versa sobre os dois sambas que vem galvanizando a preferência dos amantes do samba neste período de disputas: o da parceria campeã da Portela – que já foi tema neste blog, acima – e o samba “galáctico” da Vila Isabel (no final deste post), com nada menos que Martinho da Vila, André Diniz e Arlindo Cruz na mesma parceria.

Pessoalmente acho o samba “galáctico” inferior à composição de 2012 da mesma Vila, mas reconheço que é questão de gosto. Também é um grande samba.

Complemento esta introdução dizendo que a Imperatriz, dependendo do que escolher, pode ter uma composição muito próxima a estas duas.

Portela e Vila - de novo

Ano passado tivemos uma boa safra de sambas, provenientes de uma boa safra de enredos. Dois sambas se destacaram dos demais e entraram para a antologia dos sambas de enredo desse século.

Um era o samba da Unidos de Vila Isabel feito por Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Artur das Ferragens para o enredo “Você sembo lá, que eu sambo cá! O canto livre de Angola” da carnavalesca multi-campeã Rosa Magalhães.

O samba tem como um dos autores André Diniz, o maior vencedor da história da agremiação e considerado por muitos o melhor compositor de samba-enredo da atualidade. André criou sambas primorosos para a escola - como em 1994 e 2000 - e se juntando ao renomado Arlindo Cruz fez um sambaço para contar a saga do povo de Angola.

Ter temática afro já ajuda muito: dificilmente você vai ouvir um samba afro ruim. Além disso, a parceria inovou com uma segunda de samba espetacular com perguntas e respostas - onde algumas pessoas erradamente definiram como “contracanto”.

Muitos duvidaram do sucesso da fórmula e deu certo demais. O samba da Vila passou com grande força, tirou nota máxima e entrou para a história do carnaval. Foi quase tudo perfeito para ele...

... Se não fosse o Barcelona dos sambas.

Eu fiz uma coluna para o samba da Portela do carnaval desse ano e dei à composição o apelido de “Barcelona”, me orgulhando do mesmo ter pegado.

O samba de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo para o enredo “..e o povo na rua cantando, é feito uma reza, um ritual” do carnavalesco Paulo Menezes se tornou uma grande febre logo na inscrição. A internet só falava nele, o mundo do samba só falava nele. 

Um samba diferente, que lembrava sambas-enredo dos anos 70, com uma pitada de “Bahia de todos os Deuses”. Encantou e venceu.

Continuou sendo o grande samba do pré-carnaval e no desfile não decepcionou. Conseguiu as notas máximas e levou nada mais nada menos que oito prêmios de melhor samba do carnaval 2012, mostrando o porquê de ser o Barcelona.

Findou-se o carnaval 2012 e começaram os preparativos para 2013. A grande mudança foi a decepção com os enredos. Os belos e culturais enredos de 2012 viraram enredos bisonhos, com exaltação a coisas fúteis ou que nada tem a ver com nossa cultura. Em um ano grandioso de Portela e Vila quem acabou virando tendência foi o iogurte do Porto da Pedra – aliás, rebaixado para o Grupo de Acesso.

Mas eis que de novo Portela e Vila nos presenteiam com dois grandes sambas. Nenhum dos dois foi escolhido ainda, as eliminatórias ainda estão na metade, mas os sambas já tomaram conta do boca a boca como se fossem os sambas oficiais das agremiações e a pergunta que domina o mundo do samba é uma somente.

Qual é o melhor?

Na Portela tem um que promete ser o Barcelona versão 2013. A parceria é praticamente a mesma de 2012, sendo formada por Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do posto 7.

O enredo celebra o berço da Portela e tem como título “Madureira...Onde o meu coração se deixou levar” do carnavalesco Paulo Menezes.

A parceria conseguiu algo mais difícil que fazer um samba antológico: fazer um samba antológico logo depois de um samba antológico. O samba concorrente tem a incrível e gostosa incoerência de ser igual e diferente do anterior.

Igual porque é diferente, por mais contraditório que isso pareça. Como o samba anterior a parceria procurou buscar o diferente, algo que não trouxesse a fórmula dos sambas atuais e conseguiu vir diferente dessa fórmula e diferente do que fizeram anteriormente.

O samba concorrente tem uma levada mais anos 80, lembra os partidos alto da época. Eu comentei com o Pedro Migão que lembra muito os sambas do Almir Guineto e em algumas partes parecia que eu conseguia ouvir a “dança do caxambu”. Não, não é plágio, eu falo de estilos.

E esse sambão conseguiu me conquistar mais rapidamente que o samba do ano passado. Que a parceria tenha sorte na disputa.

[N.do.E.: sem entrar em detalhes, diria que este samba tem excelentes chances de ir para a avenida.]

A única diferença pra mim em relação a 2012 é que para mim existe em outra escola um samba do mesmo nível. Como em 2012, a Vila Isabel pode ter o samba a se confrontar com a Portela, só que dessa vez acho que é de igual para igual.

Assim como na Portela, o grande samba vem da parceria campeã de 2012 somada com o lendário Martinho da Vila. Martinho da Vila, André Diniz, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel assinam a obra prima que conta a história do homem do campo.

O nome do enredo é “A Vila canta o Brasil celeiro do mundo – Água no feijão que chegou mais um” da carnavalesca Rosa Magalhães. O enredo conta a história do homem do campo e a parceria de forma magistral consegue passar a vida do campo na letra. É como se sentíssemos o cheiro do café e do bolo.

A letra tem umas jogadas geniais, como no falso refrão que na primeira passada fala em plantar e na segunda em colher. Mas eu acho que o principal mérito do samba é a simplicidade.

O mesmo mérito que eu disse ser o principal do “Madureira sobe o Pelô”. Compositores hoje em dia gostam de inventar muito, de fazer firulas. O simples sempre deixa tudo mais bonito, como dizia a Imperatriz: “Mais vale a simplicidade, a buscar mil novidades e criar complicações”.

Esses sambas vão ganhar? Irão à avenida? Nenhum deles foi escolhido ainda como eu disse acima, mas aí que eles começam a se diferenciar.

Apesar do papo de jogador de futebol que “o adversário é difícil e vamos lutar até o final para conquistar os três pontos”, ninguém acredita na derrota da parceria da Vila. Arlindo Cruz, André Diniz e Martinho da Vila não se unem para perder e não vão perder.

A questão da Vila é polêmica. A falta de competição da escola nesses últimos anos pode trazer problemas futuros para a escola e eu como presidente da agremiação faria de tudo para que não ficasse tão desigual a competição na minha agremiação. Isso afasta adversários e inibe a renovação da ala de compositores.

Mas é um sambão e enquanto for permitido que grandes compositores assim se unam, não há nada a fazer a não ser aplaudir.

Na Portela há sim competição. Tem sambas fortes como o do Neyzinho e não é impossível que perca, mas sinceramente eu não acredito e acho que os dois sambas irão para o duelo na avenida. O da Vila eu tenho certeza.

Por que Vila e Portela de novo como no ano passado?

Simples, basta ver os enredos que escolhem. Bons enredos dão bons sambas, enredos ruins dão sambas ruins e algum milagre de vez em quando. Mas milagre é milagre e se milagre fosse coisa frequente de acontecer não teria esse nome.

E por que as mesmas parcerias? Isso só o talento explica.

Se festa no arraiá é pra lá de bom, então ginga iaiá, ginga ioiô.

E habemus samba pra 2013. Orun Ayé!

Ps. Escrevi uma peça de teatro. É, uma peça estou ficando metido mesmo, me aventurando até nessa área. Enfim, ela se chama “Folhetim” e quem quiser dar uma olhada pra ver se escrevo bem ou é uma grande bobagem. Ela está no site “Recanto das letras”, passo abaixo seu link para baixar.


Ps 2 – A vida imitando a arte. Essa confusão toda que ocorre agora entre o candidato a prefeito Marcelo Freixo e as escolas de samba me lembrou do conto que escrevi sobre a escola de samba Acadêmicos do Gato Molhado e seu enredo sobre esterco. Será que o Freixo como prefeito daria a verba municipal pra comunidade “gatomolhadense”?


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A chave branca de sambas da Portela


Segunda feira passada escrevi aqui sobre a primeira noite de sambas concorrentes da Portela. Hoje escrevo sobre a segunda noite, realizada na última quarta feira. Foi a primeira eliminatória de um concurso que somente se encerrará dia 12 de outubro, com a consagração do samba que irá representar a Majestade do Samba no desfile oficial de 2013.

Algumas diferenças notórias em relação à primeira noite. Havia (bem) mais gente, as luzes todas da quadra estavam ligadas, a loja de produtos oficiais estava aberta e havia Brahma entre as opções de cerveja - o que, para o meu caso, não muda muita coisa...

Também não se cobrou ingresso, ao contrário da quarta anterior.

O ambiente claramente era outro. Havia muita expectativa quanto à apresentação da parceria campeã de 2012, formada por Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto 7 (acima). Percebia-se claramente que muita gente estava ali para ver a apresentação deste samba.

Por outro lado, continua a haver o problema de não haver opções de alimentação. Como cheguei cedo, deu tempo de fazer um lanche no Madureira Shopping, que fica perto, mas quem chegou com o samba começado não tinha esta possibilidade, nem de recorrer às barraquinhas em volta da quadra sem perder nenhum detalhe do samba.

Por falar em Madureira Shopping, não entendo porque a escola não faz um convênio com o shopping para utilização do estacionamento. Existem apenas dois estabelecimentos pagos nos arredores da quadra e algumas vagas nas ruas próximas, nada mais. Em uma primeira eliminatória como essa até se consegue estacionar sem grandes dificuldades, mas em fases mais agudas isso se torna um problema.

O shopping fica a uns 400 metros da quadra, se muito, e poderia haver algum tipo de convênio a fim de que os frequentadores da Portela possam guardar seus carros com total segurança a um preço razoável. Hoje isso não é possível devido ao término do ensaio ser em um horário após o fechamento do Madureira Shopping.

Novamente o ensaio se iniciou por volta das 21:30, com a apresentação da bateria. Com o retorno de integrantes que participaram da cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos a bateria estava bem maior e compondo com seus principais integrantes - entre eles o Mestre Nilo Sérgio.

O intérprete Gilsinho cantou sambas clássicos mais uma vez, repetindo alguns sambas cantados na semana anterior e trocando outros. Novamente cantou 1983, "A Ressurreição das Coroas", samba de que gosto muito.

Vale registrar também que o som da quadra poderia estar um pouco mais baixo. Realçaria os sambas e deixaria mais nítidas as diferenças entre eles. O volume estava tão elevado que eu cantei o tempo inteiro o samba da parceria atual campeã e minha voz não vaza no áudio em momento nenhum, como o leitor pode ver.

Sobre os concorrentes em si: como expliquei semana passada, a safra é fraca. Entretanto, os concorrentes da segunda noite, em média, eram melhores que os apresentados na primeira noite. Arriscaria dizer que os dois sambas cortados nesta última quarta são melhores que classificados na outra chave - o que não significa que sejam bons.

Aliás, é curioso que a composição que segundo se fala tem o apoio do Diretor de Carnaval da escola tenha ficado na primeira chave, mais fraca. Faço o registro.

No momento em que os atuais campeões se apresentaram - era o quarto da noite - nos momentos que antecederam imediatamente à entrada do samba no palco havia um frisson percorrendo a quadra. Mal comparando, era como se estivéssemos na Sapucaí antes da entrada na avenida de uma escola favorita. O clima era o mesmo.

A apresentação não decepciona. Foi a única que contou com apoios espontâneos, fora a torcida organizada. Muita gente cantava o samba, inclusive integrantes da bateria, a plenos pulmões. Em minha opinião é ainda melhor que o samba de 2012, ganhador de todos os prêmios da crítica e merecedor de todas as notas máximas.

Este concorrente também trouxe atabaques para sua apresentação e o puxador Wantuir teve o luxuoso reforço de Tinga e Rogerinho.

Quanto aos outros sambas, me chamou a atenção o sexto samba da noite, da parceria de Carminha do Chapéu. Havia um "coreógrafo de torcida", que orientava o que deveria ser feito nas passagens do samba. O leitor que observar o vídeo verá isto que relato. Pessoalmente é o tipo de coisa que a meu ver não tem a menor necessidade: não vai fazer o samba ser melhor visto e é um gasto desnecessário.

Foram cortados os sambas das parcerias de Celsinho de Andrade e Luiz Barbudo. Pessoalmente achei o corte do primeiro samba injusto, mas ao que me parece pesou o fato desta composição não ter um intérprete conhecido a defendê-lo - tal e qual a primeira noite. Eu provavelmente teria eliminado o último samba a se apresentar, até porque em diversos momentos ele parece mais música sertaneja que samba.

Aliás, reparem no vídeo do primeiro samba no velhinho dançando em cima do palco. Bem legal. É outro aspecto interessante das disputas, cada compositor defendendo seu samba como se não houvesse mais nada no mundo - e todos fossem "Os Sertões" ou "Aquarela Brasileira".

Após ter visto os dezesseis sambas na quadra minha impressão é de que o concorrente da parceria atual campeã sobra e sobra muito na disputa. Ao que me parece e na avaliação de muitas outras pessoas que estiveram nesta segunda rodada é de longe o mais indicado para representar a Portela no carnaval 2013.

Não estarei na apresentação das chaves na próxima rodada, mas posteriormente estarei de volta à quadra cobrindo os concorrentes. Abaixo o leitor pode ver todos os vídeos da chave branca, pela ordem de apresentação - obviamente, pulando o vídeo que está na abertura do post.

Ordem de Apresentação:

*1 - CELSINHO DE ANDRADE, LELE DO CAVACO, RAUL LAUAR & VALTINHO BOTAFOGO; (Eliminado em 15/08/12)**
2 - FERNANDO BOM CABELO, PECÊ RIBEIRO, JORGE MATIAS DO BATUKE, WALTER ALVENCA E PAULINHO ROCHA;
**3 - LUIZ BARBUDO, BARÃO, LAERTE, PAULINHO PROFESSOR E ARANHA;(Eliminado em 15/08/12)**
4 - WANDERLEY MONTEIRO, LUIZ CARLOS MÁXIMO, TONINHO NASCIMENTO, ANDRÉ DO POSTO 7;
5 - BRUNO LIMA, THIAGO NA FÉ, NÊGO BRANCO, ADILSON PORTELENSE E LUCAS DONATO;
6 - NEY DA PORTELA, CARMINHA DO CHAPÉU, JOÃO FELIPE E ZÉ CARLOS;
7 - ELI PENTEADO, WALDIR DE MADUREIRA, MENDONÇA, SÔNIA DA PRAÇA SECA E ELIÉZIO LIMA;
8 - GÉRSON PM, BETO DA PORTELA, MARLENE FLÔRES, PEPITA ABRANTES E MARCOS GLORIOSO








segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A chave azul de sambas da Portela e algumas reflexões sobre a escolha de sambas


Na última quarta feira estive acompanhando a primeira noite de disputa de sambas da Portela, a Majestade do Samba.

Dos 23 sambas inscritos 16 foram levados para a disputa após uma primeira apresentação no sábado, 28 de julho. Estes são divididos em duas chaves: a azul, apresentada quarta feira passada, e a branca, que será na próxima quarta feira - e também com cobertura deste Ouro de Tolo. A final será dia 12 de outubro, uma sexta feira.

Há exatos dez anos não ia a uma eliminatória da escola, desde a tumultuada final de 2003 - marcada por um resultado que deixou todo mundo bastante aborrecido. Cheguei por volta de 20:20 à quadra da Portela, não após enfrentar um grande engarrafamento. Contudo a quadra não estava aberta apesar do horário marcado para as 20 horas.

Quando finalmente a quadra foi aberta, ainda tive de enfrentar a má vontade do pessoal da portaria com minha foto na carteira de sócio - que é de 2007 e eu estava barbudo. Este tipo de coisa é que as escolas cariocas ainda não entenderam, que se tem de tratar bem o cliente.

Outro problema é que, fora pipoca, não havia nada para se comer dentro da quadra. Havia muitas pessoas como eu que claramente haviam saído diretamente do trabalho para prestigiar os sambas, então isto acaba se tornando uma fonte de receita desperdiçada. Sem contar que a cerveja era Antarctica e a R$4 - sem comentários...

Isto posto, o início do samba por volta de 21:30 foi bastante agradável com o puxador oficial Gilsinho cantando sambas da agremiação (parte está no vídeo que abre este post). Infelizmente não registrei, mas devo aqui expressar minha satisfação em ouvir sambas como o de 83 e o de 99, que jamais havia ouvido na quadra. Bem como 91, que definitivamente foi reabilitado.

Sobre os concorrentes em si, acho que cabe uma análise sobre as disputas como um todo.

Tirando a parceria campeã de 2012 - e que a meu ver tem disparado o melhor samba neste concurso - todos os principais compositores portelenses não estão participando desta disputa de 2013. Ciraninho, Noca, David Correa, Alexandre Fernandes, Serginho Procópio, Juan Espanhol e outros não estão com sambas. Isto significa que, na prática, apesar dos 23 sambas o concurso na prática se resume a três sambas:  o já citado da mesma parceria de 2012 e outras duas composições que, na prática, são "pombos" - sambas compostos por integrantes de escritórios de samba enredo.

Sem dúvida alguma isto é reflexo das seguidas vitórias da parceria capitaneada pelo hoje Diretor de Carnaval Junior Scafura, que venceu em 2006/08/09/10/11 e que sempre largava com forte vantagem nas disputas. Ainda que o samba que apoiava tenha sido derrotado em 2012, em uma disputa limpa, ainda se precisa de algum tempo até que se atraiam novos competidores.

Por outro lado, a estrutura de custos de uma disputa como essa desestimula como um todo a entrada de novos participantes. Ainda que o concurso da Portela seja um dos mais baratos, porque as apresentações de cada samba são de 15 em 15 dias até se chegar à fase de quartas de final, ainda assim se exige um cabedal de recursos que boa parte das parcerias concorrentes não dispõe.

Ou seja, a escolha de samba está chegando a um ponto onde o concurso habitual se encontra em uma encruzilhada: os bons compositores de nada servem se não tiverem uma estrutura verdadeiramente empresarial por trás. E estas exigências, somadas a escolhas inusuais, acabam jogando o samba de enredo nas mãos dos já citados "escritórios", escrevendo para todas as escolas e tornando o gênero bastante pasteurizado.

Isso me leva a pensar que no futuro poderemos ter um modelo de escolha de sambas com encomendas a parcerias ou concursos com número limitado de sambas. Não parece viável um modelo onde sambas se apresentem por dois meses sabendo-se que desde o início no máximo três deles possuem chances de representar a escola no desfile oficial.

Sejamos justos também e lembremos que a Portela hoje é um bastião de resistência a este modelo - o que me leva a pensar que o samba da parceria atual campeã, além de ser espetacular, é bastante favorito. O presidente Nilo Figueiredo tem uma série de defeitos, alguns sérios, mas tem uma qualidade: com ele "firmas" não se criam.

Isto posto, temos uma safra que apesar do bom enredo acabou se revelando bastante aquém do que poderia ser. Ficou claro isso na primeira noite de apresentações, onde tirando os dois exemplares da espécie "columbidae" os sambas restantes eram bem fracos.

Mesmo o samba que encerrou a noite, considerado o único a eventualmente poder se ombrear com a composição que já apontei como a melhor, embora tenha sobrado como a melhor naquela noite - muito por causa do efeito comparação - não me chamou muito a atenção. O samba tem problemas evidentes, em especial na sua letra.

O outro samba citado sofreu por abrir a noite de apresentações, o que sempre impacta na avaliação de desempenho.

Os demais seis sambas da noite se apresentaram visivelmente bem abaixo dos dois citados. Embora tenham sido cortados do concurso duas composições, não seria nada absurdo se outros dois ou três sambas tivessem deixado a disputa nesta primeira noite.

No fim das contas, acabaram sendo cortados os dois sambas que não contavam com intérpretes consagrados defendendo suas obras. Uma delas, inclusive, tinha faixa de apoio e tudo dos colegas de trabalho de um dos compositores - que devem ter chegado bem chateados à empresa na quinta feira.

Na próxima quarta deveremos ter um desnível ainda maior, com o samba dos atuais campeões sobrando perto de outros sete concorrentes muito fracos. Sexta feira teremos os vídeos aqui.

Abaixo o leitor pode conferir as oito apresentações da primeira noite de disputa, na ordem:

1- NALDO, PAULO APPARÍCIO E CAIXA D'ÁGUA;
2 - SÉRGIO DA BOINA, RICARDO PINTO E MARQUINHO IMPERADOR; (Eliminado em 08/08/12)**
3 - JURANDY SANTANNA, ALMIR LUA, DICO DA PORTELA, CARLOS ALBERTO E BARRIGA;
4 - POLY DA PORTELA, ZILMAR DA G.DA VELHA GUARDA, MARQUINHO DO PANDEIRO, PAULO CESAR, ANDRÉ BENDELAK;
5 - EDSON BATISTA, MÁRIO MATOS, VINÍCIUS SILVA E LEONARDO BATISTA
6 - RENATO DE HONÓRIO, LUIZ RANGEL, LOPES DA PORTELA, VALÉRIO ABRAHÃO E THIAGO OLIVEIRA; (Eliminado em 08/08/12)**
7 - CARLINHOS MADUREIRA, PAULO FORMIGÃO E PHÁBBIO SALVATT;
8 - NEYZINHO DO CAVACO, FLAVIO VIANA, CHARLES BRAGA, CELSO LOPES E FADICO









P.S. - Todos os sambas foram gravados na câmera do meu celular, o Samsung SIII Galaxy. Como podem ver, gravação espetacular.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Final de Semana - "Dois Sambas Concorrentes"



Nossa faixa musical de hoje fala de um processo que está se iniciando na maioria das grandes escolas do Rio: a disputa de sambas.

Para o leitor menos familiarizado, significa um concurso onde um número variável de sambas se inscreve e ao final do processo um deles é escolhido para ser o “hino oficial” da agremiação no desfile.

Também é, como uma vez escreveu o colunista Aloísio Villar, a temporada de migração dos “pombos”. Pombos são composições onde os verdadeiros autores não assinam os sambas por estarem em outras escolas, ou por concorrerem em várias agremiações. A Portela, por exemplo, tem alguns facilmente reconhecíveis como tal.

Nossa faixa musical traz dois sambas. O primeiro (acima, o áudio) é o da parceria atual campeã na Portela, de Wanderley Monteiro, Luis Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Andre do Posto Sete.

Os compositores conseguiram algo impensável: fizeram um samba ainda melhor que o de 2012, vencedor de todos os prêmios possíveis do carnaval carioca e ganhador de todas as notas máximas no julgamento. É antológico, com melodia remetendo a pontos de “curimba” na parte em que fala da Freguesia de Irajá e depois lembra o partido alto de Madureira. Genial e antológico.

Ou seja, o leitor já deve ter percebido que estarei pelo segundo ano seguido torcendo por esta parceria. Obviamente que a quadra conta muito na disputa e há pelo menos outros dois bons sambas, mas a minha avaliação é de que este é muito superior aos demais.

Abaixo, a letra:

Portela 2013 - “Madureira... onde o meu coração se deixou levar”

Autores: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7.

E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios
Por onde me deixo levar
Laiá
Nossa história começa por lá
No engenho da fazenda
Dos cantos de “canaviá”

Bate o sino da capela                       (bis)
Ôi... Que é dia de santo, sinhá
  
Tem mironga de jongueiro
O tambor me chamou pra dançar          (bis)

Tempo rodou na roda do trem e veio
A inspiração do partideiro
Que versou no mercadão
Foi nesse chão
Que a estrela brilhou no tablado
O “madura” pisou no gramado
O malandro charmoso dançou
No pagode com outro gingado
Quando o bloco chegou
Agitou o suingue do black
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia                                                (bis)
Vai como pode e quem quer

Surgiu a serrinha imperial
Em outros caminhos para o mesmo ritual
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar                                (bis)
O batuque ginga ioiô (bis)
Ginga Iaiá



Nosso segundo samba de hoje, com o qual este blogueiro também “fecha”, é o da parceria do colunista Aloísio Villar para a União da Ilha (acima, o áudio). A composição captou o espírito da sinopse, em um meio termo entre o alegre e o afro. Ótimo samba.

Vamos à letra:

G.R.E.S.UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR
Presidente Ney Fillardi
Carnavalesco: Alex de Souza
Enredo: Vinicius no plural – Paixão, poesia e carnaval
Compositores: Bicudo, Aloisio Villar, Cadinho da Ilha, Roger Linhares, Fabiano Fernandes e Alessandro Alconforado
Intérpretes: Roger Linhares, Cadinho da Ilha, Flávio Martins e Anderson Miranda

No balanço do mar eu vou
Salve a Ilha do Governador, sou menino sonhador
Pros versos da vida a folha em branco me chamou
Oh pátria minha, pobrinha, um dia
Teu nome há de ser felicidade
Teatro, cinema, o morro de Orfeu
Ilusão, realidade
A nossa bossa é a nova bossa da cidade        

Atotô Abaluayê, Atotô Babá, salve Iemanjá              (REFRÃO)
Xangô é meu guia
Ossanha alumia, sob o manto de Oxalá

Hoje tem arrastão
Leva a jangada pro mar
Ao Sol que arde em meu corpo
Vou vadiar
Minha musa é carioca, caminhando toda prosa
A coisa mais linda que já vi passar
Aos tempos de menino vou voltar
Lá vem a criançada toda animada
Brincar com a bicharada lá na arca de Noé
Com minhas canções, despertei paixões
O som da melodia ao céu me levou
Sou poeta inspirado pelo amor

Cai a noite, vem a Lua
Vinicius nosso palco é na rua     (refrão)
A Ilha é poesia
A benção, saravá até um dia

Este ano teremos uma novidade no Ouro de Tolo: o blog estará acompanhando “in loco” a disputa de sambas da Portela. Teremos aqui vídeos e áudios das apresentações à medida em que forem se desenrolando.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I"


Mostrando a sua versatilidade, a coluna "Made in USA", assinada pelo advogado Rafael Rafic, dedica dois artigos a analisar as sinopses que guiam os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, que ficaram completas após a divulgação do texto da Grande Rio na última segunda feira.

Confesso que não tenho muita paciência para a leitura destes textos, embora especificamente neste 2013 tenha lido até mais sinopses que em outras oportunidades.

Hoje teremos as escolas que desfilam domingo e amanhã, na segunda parte, as de segunda feira. A faixa musical das sextas feiras também falará um pouco das disputas de samba, que estão se iniciando. Mas já aviso que teve parceria repetindo o grande samba apresentado em 2012.

Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I

Pedi ao editor do blog um espaço extra, fora da minha coluna esportiva, para finalmente poder escrever sobre uma das minhas paixões. Entretanto sempre é difícil falar aqui porque temos dois colunistas que são bambas no assunto: Escolas de Samba, as quais tenho o prazer de acompanhar desde meus 4 anos (hoje tenho 23).

É engraçado, porque apesar de ser carioca, amar nossa Portela, o samba-enredo e as escolas de samba, sempre fui um amante à distância, pela TV. Nunca assisti a um desfile ao vivo na Sapucaí (espero fazê-lo em 2013) e, até o ano passado sequer tinha ido a um ensaio. Também não tenho qualquer conhecimento mais profundo sobre música além das três marcações de surdo.

Por isso, apesar de ter razoáveis conhecimentos sobre harmonia, evolução, conjunto e bateria, não tenho a menor condição de discutir com os experts Pedro Migão e Aloísio Villar. Sobre samba-enredo meus comentários acabam sendo mais baseados no senso comum e na experiência de 18 anos de safras (além dos sambas históricos que qualquer iniciado TEM que conhecer). Por isso, não comentei sobre os sambas-enredo esse ano nem sobre os desfiles, o que o Migão fez magistralmente.

Porém tem uma área que eu conheço bastante: enredos e suas sinopses. Seja pelos anos a fio que fiz questão ler todas as sinopses do Grupo Especial, seja pelos anos de treino intenso em redação, seja pelos conhecimentos gerais que acumulei nos meus anos de formação. Com isso acho que posso comentar sobre os enredos com a propriedade que o Ouro de Tolo merece.

Para piorar, a partir do ano que vem também virarei vidraça e farei minha estréia escrevendo a sinopse da Escola Virtual Estrela D’Alva, que desfila no Grupo de Elite do Virtuafolia.

É justamente a análise das sinopses do especial para 2013 é que faço aqui, aproveitando o fato que a última sinopse, Grande Rio, foi divulgada no início desta semana.

Para começar já posso dizer que estou decepcionado. Depois de ótimos enredos que tivemos ano passado, que propiciou com sobras a melhor safra dos últimos 20 anos (com direito a um samba antológico da Portela e outro quase da Vila Isabel), achava que as escolas tinham aprendido a lição.

Ledo engano.

A safra de 2013 é medonha, com poucas salvações. Alias, existem duas ou três escolas que conseguiram se “superar” e talvez fosse mais fácil tirar "Danoninho" de pedra do que fazer samba para alguns enredos propostos. Também temos uma profusão de enredos CEP (cidade, estado, país ou, se o leitor quiser, em referência ao código postal dos Correios). Mas vamos à análise escola por escola em ordem de desfile.

Em tempo: as notas que atribuo se referem apenas à qualidade da sinopse, seja em coerência, correção ou em estrutura; e a possibilidade dela facilitar ou não o trabalho dos compositores. Não levei em consideração a capacidade da escola ou de cada carnavalesco individualmente falando em transformar a sinopse em fantasias e alegorias.

Começamos hoje com as escolas de domingo, como o Editor Chefe informou na introdução deste artigo.

1. Inocentes de Belford Roxo

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves

O enredo tem a intenção de comemorar os 50 anos de imigração sul-coreana no Brasil, algo muito parecido com o que a Porto da Pedra fez em 2008 com o centenário da imigração japonesa. Mas dizer que o resultado saiu muito ruim ainda seria um elogio.

Eu li e reli a sinopse, mas até agora não entendi onde ela quis começar, nem onde ela tenta terminar, muito menos tive qualquer pista sobre o que as sete confluências do rio tem a ver com isso.

A Coréia do Sul já não é tão fácil de carnavalizar quanto o Japão, nem sua cultura está tão enraizada nas mentes dos cariocas. Talvez por isso, a sinopse tenta ser algo mais aberta, dizendo a importância da água para o povo sul-coreano e, aqui e ali, joga algumas informações sobre o país que não encontram qualquer encaixe no enredo. Em um ano de enredos ruim, ele parecia conseguir ser a proeza de ser o pior deles, e por muito. Isso até o último dia 23 (amanhã os leitores entenderão o que quero dizer).

Esse enredo ruim complica ainda mais a situação de uma escola que já é péssima em virtude dos acontecimentos estranhos de sua vitória no grupo de acesso em 2012. É quase pule de dez para o rebaixamento - e ainda estamos em agosto...

Nota: 2.

2. Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage

Mal começamos e já chegamos na polêmica do ano.

Depois de anos batendo nas escolas que tinham enredos bem ruins mas patrocinados, os salgueirenses até agora não se adaptaram ao papel de vidraça do ano. Com isso atormentam a paciência de qualquer um que ouse cometer a heresia de dizer que o enredo não é “culturalmente relevante” (seja lá o que isso signifique), formando uma patrulha ideológica que deixaria com inveja qualquer fã-clube de banda adolescente. Para piorar, a agremiação caiu em uma posição de desfile horripilante, a pior possível das que estavam disponíveis para sorteio aberto.

Desde quando o tema foi anunciado, com o patrocínio da Revista Caras (via lei Rouanet), as brincadeiras, galhofas e decepções com a escolha já pululavam nas redes sociais. O Salgueiro completa 60 anos em 2013 e por isso era esperado que ele mesmo fosse o enredo, ou ainda a homenagem a Xangô.

Quando o tema foi lançado, eu já esperava uma sinopse fraca. Mas sua divulgação superou minhas péssimas expectativas: a sinopse é muito ruim e só não a classifico como a pior do ano, principalmente quanto à estrutura, porque superar a Inocentes era uma tarefa hercúlea.

Ela tenta ser aberta, mais insinuando do que explicando, mas ao mesmo tempo tenta fazer uma abordagem histórica da fama que exigiria bastante explicação para se tornar coerente. Apenas como exemplo segue uma estrofe da sinopse que, a exemplo da excelente sinopse de 2012, foi feita em versos:

“Ora se esconde, ora se revela
A máscara no rosto é uma interrogação
Não sei se a mocinha é princesinha bela
Se diz uma mentira, e tem cara de fera!”

Alguém entendeu o que isso tem a ver com fama? Se entendeu, favor me explicar. Mesmo quando claramente identificamos o propósito, falta qualquer tipo de ligação com o anterior e o posterior, fazendo ao invés de enredo mini-contos sem nexo.

Assim como não entendi, os compositores também não e em uma escola que já gosta de um samba “pula-pula” isso foi traduzido como “Ihh, a sinopse está aberta, estamos livres, pode tudo”. Ou seja, lá teremos mais um samba em que o Salgueiro irá “sacudir, levantar e explodir a fama no ritmo da bateria furiosa”...

Só o talento infinito de Renato Lage e uma possível obra milagrosa do compositor Dudu Botelho (o único que não pula na área) terão o poder de consertar esse samba do crioulo-doido famoso armado no “caldeirão”. [N.do.E.: ao que parece o talentoso compositor abriu mão de disputar samba na Academia este ano.]

Nota: 3,5

3. Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Eu juro que enquanto eu lia a sinopse da Tijuca me passavam pela cabeça flashes do Caronte de 2011.

Diferentemente da viagem maluca de Paulo Barros sobre o medo de 2011 que só ele entendeu, pois ninguém ainda encontrou o nexo entre medo e Priscila, Rainha do Deserto, a sinopse desse ano sobre a Alemanha em mais um enredo CEP é bem enxuta.

Porém sofre da mesma falta de nexo que percebi na sinopse de “Esta noite levarei sua alma” e que foi mostrada nua e crua na avenida. A transição entre o deus Thor, da tradição nórdica, para a Alemanha da pujança científico-cultural dos sec. XIX e XX, que claramente é o ponto crucial desse enredo patrocinado pelo Instituto Goethe, é muito fraca - para não dizer inexistente.

Em um enredo com muitas informações relevantes, esse problema de introdução pode até passar despercebido ou bastante minimizado na avenida, mas está lá e é um obstáculo...

A Alemanha por si só já tem elementos para fazer um enredo interessante e a abordagem é um tanto diferente do “padrão CEP”. Mas não achei no enredo algum traço genial de Paulo Barros para contar o enredo, tal como o “desembarque da corte para coroar o rei Luis do Sertão” do ano passado. Alias, até agora estou procurando a marca de Paulo Barros nessa sinopse e pela primeira vez desde 2004 não achei isso. Pode ser um problema.

Por fim, a Tijuca tem que fazer de tudo para conseguir fugir do Fusca, evitando menções a Hitler (que seriam necessárias nesse caso) e problemas com a comunidade judaica carioca - sempre alerta contra as escolas de samba. A boa notícia é que a sinopse me pareceu ser concebida exatamente para isso e dá o espaço necessário para falar dos automóveis, indispensáveis em um enredo sobre Alemanha, mas sem identificá-los.

Em resumo: não é um ótimo enredo, mas em se escapando de algumas armadilhas que ele concebe, é até interessante. Porém, como já é tradição na Tijuca de Paulo Barros, será uma tarefa complicada para a ala de compositores.

Nota: 6,5.

4. União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Finalmente, depois de algumas homenagens em grupos de acesso (a última em 2011 em um conturbado desfile do Império Serrano), alguma escola leva o poetinha Vinícius de Moraes para o Grupo Especial.

Vinícius é uma pessoa densa, com várias facetas, muitas coisas para contar e uma ligação especial com o carnaval e com o bairro da Ilha do Governador, o que sempre acaba sendo uma faca de dois gumes. Se por um lado dá um enredo muito interessante e inspirativo, pode acabar se perdendo no gigantismo e na falta de uma estrutura dependendo da viga mestra da história que se conta no enredo. Porém o enredo não deixa nada a desejar: fala de todos os pontos de Vinícius com uma lógica que o amarra e dá sentido.

Alias, é de se destacar o que foi a grande inovação desse ano em sinopses: a mesma foi elaborada em forma de uma entrevista fictícia entre a União da Ilha e o homenageado, buscando suas respostas em várias outras entrevistas concedidas pelo homenageado e pelo que ele próprio escreveu em seus livros. Acho que foi inclusive essa solução que deu um jeito de, mesmo com tantas informações, o enredo fazer sentido.

Inicialmente, fiquei com apenas uma ressalva conta ele: sua extensão exagerada. Não me lembro de ver enredo tão grande (deve dar umas 7 ou 8 páginas) e fiquei com receio dos compositores se perderem no meio de tanta coisa para se colocar em apenas um samba.

Porém, o colunista deste Ouroi de Tolo Aloísio Villar, que é atual vencedor de samba-enredo da Ilha, elogiou bastante o enredo: disse que isso não é o menor problema e que ele adoraria ter mais quatro ou cinco enredos assim. Se ele afirma isso, quem sou eu para contradizer?

Mas fica aqui a nota triste, que nada tem a ver com a sinopse, pela direção da escola transformar o jornalista e insulano apaixonado Anderson Baltar “persona non grata” simplesmente por ele aderir a um movimento de modernização do carnaval. Ei, não era a Ilha a escola mais democrática do Rio?

Nota: dez, dez, nota 10!

5. Mocidade Independente de Padre Miguel

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada

A Mocidade foi a primeira escola a anunciar o tema de seu enredo para 2013, ainda em setembro de 2011. Não me lembro de nenhuma escola divulgar seu tema com tanta antecedência. Quando o mesmo foi anunciado, os detratores de plantão já vieram reclamar que “Rock não dá samba” e que a Mocidade jogou fora o carnaval com mais de um ano de antecedência.

Eu já achava o contrário, que eles poderiam fazer um ótimo enredo sobre os grandes momentos das várias edições do evento: grande show do AC DC, a ressureição de James Taylor, o fato de todo carioca ter um lado sambista que gosta de rock - entre outros.

Mas quando vi a sinopse me decepcionei mais uma vez. Um texto inacreditavelmente longo que simplesmente faz uma declamação laudatória histórico-institucional da marca Rock in Rio. A típica sinopse que não é nada carnavalizável e que os compositores terão que rimar Lisboa com Madri e Rio de Janeiro. Uma pena para uma escola que estava buscando a recuperação e tinha surpreendido com um lindo Portinari ano passado.

Nota: 5

6. Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes

Se esse ano nós portelenses pudemos nos gabar de ter o samba do ano, para 2013 podemos nos gabar de termos o enredo do ano, junto com a Ilha. Além disso, diferentemente do ano passado em que fomos lanternas convictos [N.do.E.: na verdade não, a Porto da Pedra entregou ainda depois], agora a Portela é a segunda escola a entregar a sinopse.

Paulo Menezes, em mais uma tacada genial, juntou três datas importantes para qualquer amante da escola. Oficialmente o enredo é sobre o bairro no qual a escola cresceu, Madureira, que completa os 400 anos da freguesia que lhe deu origem em 2013. Pasmem: mesmo tendo duas grandes escolas Madureira nunca foi tema de nenhuma escola a passar nem no Especial, nem o Acesso A, nem no B.

Como falar de Madureira sem falar de Portela é impossível (junto com o Mercadão são os dois traços que identificam o bairro perante qualquer carioca), é óbvio que iremos nos auto-referenciar por uma boa parte do tempo para comemorar nossos 90 anos. Alias, a sinopse até abre uma bela brecha para ter “mais 90 e menos 400” como diz o nosso editor. Além disso o Império Serrano também estará presente como um dos homenageados.

Por fim, assim como Clara Nunes foi o fio condutor do enredo desse ano sobre a Bahia, quem melhor que Paulinho da Viola para ser o desse ano? É claro que Paulo Menezes, que não é bobo, usou desse artifício e assim também comemora os 70 anos de idade do grande compositor portelense.

Ou seja, é um enredo com a cara da escola e nesse ponto ele é imbatível esse ano.

Para melhorar, a sinopse foi escrita em estilo bem aberto, típico do carnavalesco, apostando apenas nas ligações de campos semânticos mais cognitivos do que estruturais, justamente para deixar os compositores livres para criar e não se amarrar em qualquer ordem. Foi assim que saiu o “Madureira sobe o Pelô” ano passado.

Confesso que ao terminar de lê-la meu coração portelense chorou um bocado. Ah, e antes que eu me esqueça: como diz a sinopse a capital do samba é Madureira e samba bom é aqui na Portela.

Nota: dez, dez, nota 10!

Amanhã teremos as escolas de segunda feira. Até lá!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Paulinho da Viola


Como escrevi na semana passada, sábado retrasado estive no show de Paulinho da Viola realizado em apresentação única na casa de shows Vivo Rio, aqui no Rio de Janeiro.

Em uma casa absolutamente lotada, Paulinho desfiou grandes sucessos de seu repertório, algumas músicas menos conhecidas e um bloco de canções que jamais haviam sido registradas - uma delas, inclusive, teve parte da melodia aproveitada em "Dança da Solidão". 

A memória musical do samba está repleta de canções que jamais foram registradas e que estão se perdendo à medida que os mais velhos estão falecendo e não se registra.

Participaram do show também os músicos João Rabello e Beatriz de Faria, filhos do cantor e compositor e que demonstraram que trazem o talento de berço. Ambos tiveram momentos solo, e João interpretou um choro de forma bastante feliz. Registre-se também a presença na plateia de Elton Medeiros, um dos maiores compositores do samba brasileiro e parceiro de Paulinho em diversas músicas.

Enfileirando sucessos, em muitos momentos a platéia cantou junto, como na própria "Dança da Solidão", "Pecado Capital", "Coração Leviano" - que fez parte do bis - "Onde a Dor Não Tem Razão" e "Foi Um Rio que Passou em Minha Vida" - estas duas, nos vídeos que registrei e disponibilizo aqui neste post.

Também merece menção o fato de Paulinho ter interpretado "Sei Lá, Mangueira" (parceria com Hermínio Belo de Carvalho) e o samba de exaltação da União de Jacarepaguá, escola que frequentou antes de chegar à Portela e na qual foi homenageado em 2009. Neste último caso me surpreendeu o fato de muita gente saber este samba e cantar junto, porque praticamente só o conhece quem frequenta o desfile do Acesso B na Terça Feira Gorda, onde a agremiação hoje desfila.

Sempre é um prazer muito grande assistir a um show do cantor e compositor - como escrevi no post da sexta feira passada - mas faria dois pequenos senões, que não empanam o brilho da apresentação mas soam perceptíveis a um fã mais acurado como eu: primeiro o fato de não ter cantado qualquer canção de compositores da Portela.

E segundo, a meu ver mais grave, foi não ter mencionado à platéia o enredo da azul e branco para 2013, do qual ele é um dos homenageados. Acho que não custaria nada fazer a gentileza de informar a um público que majoritariamente não acompanha as escolas a esta época do ano.

Apesar disso, sem dúvida alguma passei uma noite bastante agradável no último sábado, em que pese o enrolado e lento serviço da casa - é algo que pode melhorar, até porque piorou bastante em relação à minha última ida a esta casa, por ocasião do show de Chico Buarque.

Mas valeu a pena. Viva Paulinho!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Final de Semana - "Dança da Solidão"


Amanhã, uma vez mais, terei oportunidade de assistir a mais um show de um de meus cantores e compositores favoritos: Paulinho da Viola.

Entre shows solo e combinados com a Velha Guarda da Portela, será a sexta vez a que irei assistir a um show do sambista. Mas já faz quase uma década em que tive esta oportunidade rara pela última vez.

A canção que trazemos, de autoria de Paulinho e interpretada em dueto com Marisa Monte, é "Dança da Solidão", uma de minhas preferidas no repertório de Paulinho. É canção triste e ao mesmo tempo esperançosa, como a letra que disponibilizo abaixo.

"Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão

Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão

Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado

Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão

Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água não terá mais amargura"

Complementando, como eu havia previsto Paulinho da Viola será o fio condutor do enredo da Portela para 2013, que enfoca os 400 anos da Freguesia de Irajá - que originou o bairro de Madureira - e os 90 anos da Portela. A sinopse, que disponibilizo abaixo, foi entregue aos compositores e a disputa de samba inicia-se dia 29 de julho.

Aliás, será curioso ver a Portela com uma disputa de samba um mês mais longa em relação aos últimos anos. A sinopse, bela e emocionante, permitirá uma vez mais grandes sambas à Águia.

“Madureira... onde o meu coração se deixou levar”

Rio de Janeiro, 1970.
Avenida Presidente Vargas.

“Nesta Avenida colorida a Portela faz seu carnaval...”

Com o rosto molhado de suor e lágrimas, vejo a minha Escola conquistar a plateia com mais um desfile. Agora com um sabor especial, se aquecendo... “senti meu coração apressado, todo o meu corpo tomado, minha alegria voltar...”

E então pensei:

“Meu coração tem mania de amor...” E que amor é esse que me conquista a cada dia? Que amor é esse que move toda essa gente? De onde vem isso tudo e como essa história começou?

E é isso que vou descobrir.

E assim, com a alma aquecida de emoções, lá fui eu para Madureira, de trem, cantando samba, assim como Paulo Benjamin fazia décadas atrás.

“Eu canto samba
Porque só assim eu me sinto contente
Eu vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver...”

Quero trilhar os caminhos desse povo, como um “peregrino”, descobrir sua gente, sua cultura, sua fé, o seu canto e o seu samba.

Descobrir sua história.

Pisar onde outrora pisaram tropeiros, escravos, boiadeiros, mercadores e imperadores, caminhos de trabalho e suor, onde antes só se viam fazendas, engenhos e fé, afinal toda essa história começa pela fé.

E o povo dança, o povo canta; dança o branco, dança o negro.

“Pisei na pedra
A pedra balanceou
Levanta meu povo
Cativeiro se acabou”

Negros fugidos, negros forros. Festa, jejum e esmola. Samba, dança, música e religião. Enfrentar a dor através da arte.

Casas de umbanda e casas de candomblé, liderança e mistério, atraindo a atenção para a “roça”.

Caminhos de terra, caminhos de ferro.

E o povo vai chegando, de tudo quanto é direção. Imigrantes de dentro e de fora. Os caminhos viram estradas.

Estradas de terra, estradas de ferro.

Chega o progresso e com ele os ambulantes, que depois viram mercadinhos, os mercadinhos viram mercados e os mercados viram mercadões.

E eu... vou seguindo meu caminho.

Vou ouvindo batuques, ritmos e sons. Sons sincronizados, parecendo sapateado. Mas são apenas sons de pés, que dançam, chutam e pulam. Pés que vão construindo outros caminhos. Não importa se num tablado, no asfalto ou na grama, o importante é a ginga, que por vezes me lembra a de um malandro. Como tantos que esta história construiu. Ou como tantos que aqui chegaram para construir outras histórias. Malandros loiros, brancos, mulatos, sararás, crioulos. Assim como as músicas, loiras, brancas, mulatas, sararás e crioulas, ou como se diz agora: black.

“No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança”

E o batuque continua.

Marchinhas, mascarados, coretos, baianas, blocos de sujo, carnaval...

São os caminhos da folia! Caminhos da fantasia, onde cada um é o que deseja ser, onde mulher pode virar homem e homem, virar mulher. E é através da fantasia, do sonho, que nascem duas das maiores Escolas de Samba da história.

E que orgulho hoje ver Portela e Império, juntas, a cantar que esse nosso lugar “que é eterno no meu coração. E aos poetas traz inspiração pra cantar e escrever”.

Madureira é assim. Amor, atividade intensa, vivida com orgulho suburbano, lugar de morada da altiva nobreza popular, pois aqui reside a Majestade do Samba.

“Não posso definir
Aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar...”

Tantos são os caminhos, e por eles vou atrás de suas histórias, me sentindo cada vez mais parte integrante dela, deste lugar e destes caminhos, que hoje se encontram mais uma vez, afinal...

Sou Paulo, sou Paulinho, da Viola e da Portela.

E tenho muito orgulho em contar esta história para vocês, afinal... “o meu coração se deixou levar.”

E, agora, o mesmo trem que me trouxe, me leva de volta, e continuo batucando, não mais como Paulo Benjamin fazia, mas como todos os Portelenses continuam fazendo ainda hoje, preservando a sua memória e o seu lugar, que eternamente será conhecido como a “Capital do Samba”.

“Madureiraaa, lá lá laiá.”

Paulinho da Viola,
pelas mãos de Paulo Menezes (e mais uma vez os caminhos se cruzam).

Este enredo é dedicado aos noventa anos da Portela e a todos os portelenses que, infelizmente, não estão mais entre nós, mas que continuam abençoando a Portela lá de cima, do Olimpo dos sambistas.

Enredo e pesquisa: Paulo Menezes e Carlos Monte

(Fonte: PortelaWeb)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Final de Semana - "O Ideal é Competir"

Nesta sexta feira, salvo alguma mudança de última hora a Portela estará divulgado a sua sinopse para o carnaval 2013. Este fato, em si, é inédito: é a primeira vez desde que a atual administração assumiu a escola que temos a sinopse do enredo já em maio - o que irá propiciar mais tempo para os compositores e para a disputa em si.

Ainda sem título no momento em que escrevo, o enredo da Portela irá falar dos 400 anos da Freguesia de Irajá - que deu origem ao bairro de Madureira - e dos 90 anos da própria agremiação, ambos a se completar em 2013. Vamos aguardar a abordagem dada pela sinopse do carnavalesco Paulo Menezes, mas minha expectativa e torcida é de que o enredo tenha mais Portela e menos Madureira.

Faço esta introdução para dizer que hoje temos uma canção de exaltação à Portela em nossa faixa musical: "O Ideal é Competir", de autoria de Casquinha (que cheguei a conhecer pessoalmente) e Candeia. A versão é a de Paulinho da Viola, de seu cd "Bebadosamba".

Aliás, por falar em Paulinho não me surpreenderia se ele for uma espécie de "fio condutor" do enredo de 2013 da Portela, tal qual como feito por Clara Nunes neste 2012. É um palpite.

Vamos à letra da música.

"Quando a Portela chegou
A platéia vibrou de emoção
Suas pastoras vaidosas
Defendiam orgulhosas
O seu pavilhão
Portela
A luta é teu ideal
O que se passou, passou
Não te podem deter
Teu destino é lutar e vencer


Óh, minha Portela
Por ti darei minha vida
Óh, Portela querida
Óh, minha Portela
Por ti darei minha vida
Óh, Portela querida


És tu quem levas a alegria
Para milhares de fãs
És considerada, sem vaidade
Na cidade
Como super campeã das campeãs
Eu quisera ter agora
A juventude de outrora
Idade de encantos mil
Pra trilhar contigo passo a passo
No sucesso ou no fracasso
Pela glória do samba do Brasil"

sábado, 14 de abril de 2012

Final de Semana - "Velha Guarda da Portela"


Neste sábado, semana do aniversário da Portela, nosso tema da faixa musical do Ouro de Tolo não poderia ser outro que não a Velha Guarda Show. Em vídeo que acredito ser da década de 70, a Velha Guarda Musical desfia sucessos como o seu próprio hino e o hino oficial da Portela - cuja história é registrada no vídeo.

Vamos à letra do Hino da Velha Guarda:

Hino da Velha Guarda da Portela (Chico Santana)

A Velha Guarda da Portela vem saudar
Com este samba para a mocidade brincar
Estamos aí, como vocês estão vendo
Estamos velhos, mas ainda não morremos
Estamos aí, como vocês estão vendo
Estamos velhos, mas ainda não morremos

Enquanto há vida há esperança
Diz o velho ditado, quem espera sempre alcança
Nosso teor não é humilhar a ninguém
Nós só queremos mostrar o que a Velha Guarda tem
Nosso teor não é humilhar a ninguém
Nós só queremos mostrar o que a Velha Guarda tem

Aproveito para lembrar que foi recentemente relançada a coleção "História das Escolas de Samba". São quatro CDs (Portela, Salgueiro, Império Serrano e Mangueira) gravados entre o final de 1974 e o início de 1975. Foram gravados pelas Velhas Guardas das escolas, alternando sambas de quadra com sambas de enredo.

Em minha avaliação os CDs de Portela e Império Serrano são bem superiores aos outros dois. Na Saraiva custa R$ 64, o que não é caro dada a raridade e o fato de ser uma caixa com quatro discos.


Aproveitando para fazer uma nota meio off topic: o amigo Marco Aurélio Mello, do blog DoLadoDeLá, produziu documentário sobre as andanças de médico na "Cracolândia" paulista. Irá ao ar amanhã, às 21 horas, na Rede Record.

Prestigie.

Aqui o leitor pode ter mais detalhes sobre o documentário.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Nove Décadas Portelenses


Exatamente hoje, 11 de abril, a Portela comemora 89 anos de vida e inicia as festividades de seus 90 anos, a se comemorarem ano que vem. A escola terá enredo para 2013 (confirmado na última feijoada pela Diretoria da escola) sobre o bairro de Madureira, com apoio institucional da prefeitura do Rio de Janeiro e que permitirá, também, que a escola conte um pouco de sua história e de seus 90 anos.

A princípio toda a equipe do carnaval 2012 irá permanecer, sendo a única dúvida, no momento em que escrevo, o puxador Gilsinho. Vale destacar que pela primeira vez desde 2003 a escola irá repetir seu carnavalesco, no caso o talentoso Paulo Menezes.

A escola de samba foi fundada a partir de dois blocos, o "Baianinhas de Oswaldo Cruz" e o "Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz". A data de fundação do primeiro bloco é considerada como de nascimento da Portela, por causa dos blocos e seus sucessores que desembocaram na escola. Oswaldo Cruz e seus sambistas foram formados a partir da confluência entre migrantes vindos de Minas Gerais - em especial da cidade de Matias Barbosa, próxima a Juiz de Fora - e desalojados do morro da Providência, no Centro do Rio.

Nas palavras do site "PortelaWeb", do qual sou um dos fundadores e ainda hoje membro - e que inaugura ainda neste mês novo layout, iniciando as comemorações dos 90 anos da agremiação. Merece uma atenção e uma visita detalhadas:

" (...) Em 1923, tentando rivalizar com o grupo de dona Esther, alguns jovens, sob a liderança de Galdino, resolveram fundar outro bloco na região, o "Baianinhas de Oswaldo Cruz", que não demoraria muito a se dissolver devido a uma briga interna. Após o desentendimento, parte dos integrantes do "Baianinhas de Oswaldo Cruz" funda outra agremiação carnavalesca, o "Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz", que tinha como líderes Paulo Benjamim de Oliveira (o Paulo da Portela), Antônio Caetano e Antônio Rufino, três homens que se completavam em suas múltiplas funções.

Segundo Amaury Jório e Hiram Araújo, em "Escola de samba: vida, paixão e sorte", os sambistas que fundaram a Deixa Falar - considerada por unanimidade, inclusive pelo pessoal da Portela, a primeira escola de samba do Brasil - queriam organizar um bloco pacífico, sem brigas ou arruaças como era característica dos blocos de então. Assim sendo, inspiraram-se no bloco formado pelo pessoal do "Oswaldo Cruz", que brincava o carnaval com paz e alegria, tendo em Paulo uma liderança incontestável. Por meio disso, podemos concluir que a Portela não foi a primeira escola de samba, foi mais do que isso; serviu de fonte de inspiração para a primeira escola, exemplo para a Deixa Falar, que faria escola inclusive na própria Portela.

No final da década de 20, o grupo receberia um grande reforço de fora: Heitor dos Prazeres, amigo do presidente Paulo Benjamim de Oliveira (foto). Com um samba do próprio Heitor, o "Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz" se sagraria vencedor da primeira disputa entre os principais redutos de samba, ocorrida em 20 de janeiro de 1929. Estiveram presentes sambistas de Oswaldo Cruz, Mangueira e Estácio.

A vitória trouxe, além de uma grande felicidade, muitos problemas para o conjunto carnavalesco. Heitor dos Prazeres, um "estrangeiro", ganhou mais prestígio dentro do grupo. Tanto que por sugestão sua o bloco passou a se chamar "Quem nos faz é o capricho" e ganhou sua primeira bandeira, também idealizada por Heitor, já para o carnaval de 1929. Todas as modificações de Heitor tiveram total consentimento de Paulo, uma vez que, devido a sua crescente fama no centro da cidade, Heitor dos Prazeres ajudava a divulgar o nome da escola.

Em 1930, já com Heitor afastado devido a um desentendimento com Manuel Bam-Bam-Bam e Antônio Rufino, o grupo desfilou pelas ruas do subúrbio e da Praça XI. Em 1931, a escola superou uma série de dificuldades para poder desfilar. Isto fez com que os sambistas da estrada do Portela mudassem o nome do bloco para "Vai Como Pode". Com esse nome, a futura Portela começou a aparecer nos poucos jornais que cobriam os primeiros desfiles de escolas de samba, fato este que faz com que, de todos os nomes anteriores da Portela, esse seja o mais lembrado.

Também em 1931, Antônio Caetano desenharia a primeira bandeira da escola. Segundo depoimento para as autoras Lygia Santos e Marília T. Barboza da Silva, em "Paulo da Portela: traço de união entre duas culturas", Caetano, desenhista da Marinha, declarou ter pensado no sol nascente e no valente povo da ilha japonesa. Instituiu as cores azul e branco em homenagem ao manto de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da escola desde a fundação, e como símbolo a Águia, por ser a ave que voa mais alto. Para Candeia, Caetano teria desenhado na verdade um Condor, ciente de ser esta na verdade a ave que alça vôos mais altos na natureza. Provavelmente, todos interpretaram o símbolo como uma águia, fazendo com que Caetano não tivesse outra saída senão a de concordar com que a Águia "assumisse o posto" de símbolo máximo do grupo. Surgia assim o símbolo mais importante e aguardado do carnaval carioca.

Antônio Caetano também entraria para a história como o primeiro carnavalesco do Carnaval carioca. Foram de sua autoria os primeiros enredos que a Portela levou para o desfile. De suas mãos surgiu a primeira alegoria de uma escola de samba: um rústico globo terrestre no enredo "O samba dominando o mundo", na grande vitória da ainda "Vai Como Pode" no desfile que entrou para a história como o primeiro desfile oficial, em 1935.

Ainda nesse ano, os sambistas de Oswaldo Cruz enfrentaram um impasse na hora de renovar a licença para os desfiles. O delegado Dulcídio Gonçalves não gostava do nome "Vai Como Pode" e só renovaria a licença se o nome fosse trocado. Após uma longa discussão entre Paulo da Portela e seus amigos, o próprio delegado sugeriu o nome que atravessaria fronteiras e entraria definitivamente para a história da arte e da cultura do Brasil: GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA PORTELA, em uma homenagem à rua onde ficava a sede do grupo.

Entre as contribuições da Portela para o carnaval carioca neste período, além da primeira alegoria, merecem destaque a caixa-surda, o reco-reco, a comissão de frente uniformizada, a corda para separar os desfilantes da platéia, o destaque e até o apito da bateria. Segundo muitos estudiosos, o primeiro samba-enredo foi "Teste ao samba", de autoria de Paulo da Portela, que fez o papel de professor distribuindo diploma aos componentes da escola fantasiados de alunos, em frente à comissão julgadora. Um espetáculo que empolgou a Praça XI e está seguramente entre os maiores desfiles de todos os tempos."

No texto acima temos também a origem da águia como símbolo da escola. Ela passou a ser o carro abre-alas em 1969 e a partir de então sempre é uma das grandes atrações do carnaval carioca. A Portela conquistou 21 campeonatos, sendo o último em 1984 - dividido com a velha Manga.

Entretanto, a azul e branca de Oswaldo Cruz pode se orgulhar de não ser uma "escola de desfile". Sob as asas da águia altaneira se encontra toda uma dinastia de sambistas que movimentam todos os elementos pertinentes ao samba: o partido alto, o samba de terreiro, a resistência cultural e a aceitação do ritmo e de seus precursores na sociedade brasileira.

Portela é sinônimo de elegância. Paulo da Portela, símbolo máximo dos primeiros tempos e fundador da dinastia "sangue azul" da nobreza suburbana já alertava aos membros da escola: "mantenham sempre o pé e o pescoço ocupados". Ou seja, sapato e gravata eram indispensáveis.

A elegância pregada por Paulo marcou profundamente a Majestade do Samba, tornando-se parte indissociável de seu DNA. O próprio caminhar do portelense é diferenciado, exibe uma nobreza e até uma certa soberba de quem sempre se acostumou a andar de cabeça erguida, sem se sentir inferior a nada nem a ninguém.

Suas andanças são referência de grandes sambas. À notável tradição de sambas de terreiro soma-se uma coleção inigualável de sambas de enredo de alta qualidade. Sua arena é o samba pesado, cadenciado, que facilita o canto e a sagrada dança do samba.

Sua lista de grandes nomes é inenarrável, mas apenas para ficar nos grandes líderes temos Paulo da Portela, Natal da Portela, Candeia, Clara Nunes, Manacéa, Monarco e Paulinho da Viola, entre muitos outros.

A partir de 2012, em que pesem alguns problemas de gestão, a escola parece estar iniciando um novo ciclo em sua história, que pode levar em um futuro próximo à quebra de jejum de títulos. Os tempos são de esperança e confiança em um futuro melhor, embalados no grande samba que apresentamos neste último carnaval.

Salvo algum percalço, em 2013 também completarei uma marca pessoal: será meu décimo desfile pela escola (2001 a 2005, 2009 a 2013), onde sou também sócio com direito a voto. Custei-me a decidir por uma escola de samba de coração, mas muito depois compreendi que não escolhemos a Águia: ela que nos escolhe.

Parabéns, Portela, meu amor !


(Foto: Barbara Alejandra, Desfile das Campeãs de 2012)


P.S. - Volta e meia pedem-me para elencar os melhores sambas de enredo da escola. Indico abaixo dez deles, sem ordem de qualidade - que podem ser ouvidos no site PortelaWeb:

 - "Lendas e Mistérios da Amazônia" (1970/2004);
 - "Seis Datas Magnas" (1953);
 - "Rio, Capital Eterna do Samba" (1960);
 - "Das Maravilhas do Mar, Fez-se o Esplendor de Uma Noite" (1981);
 - "Contos de Areia" (1984);
 - "Adelaide, a Pomba da Paz" (1987);
 - "Tributo à Vaidade" (1991);
 - "Gosto que me Enrosco" (1995);
 - "Ilu Ayé" (1972);
 - "E o povo na Rua Cantando, É Feito uma Reza, um Ritual" (2012);

Além disso, há três sambas muito pouco falados da escola e que eu particularmente gosto muito, que são os de 1973, 1982 e 1994.

E para você, leitor, quais são os melhores sambas de enredo da Portela? Indique na área de comentários.