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segunda-feira, 28 de março de 2011

Resenha Literária - "O Mundo em Queda Livre"

Não, leitor, ainda não é a vez em que o livro sobre a história do petróleo será objeto de nossa coluna. Ainda faltam umas 400 páginas...

Nosso objeto de hoje é um livro atualíssimo e que mostra o desastre financeiro mundial, em especial o americano, e todo o jogo de pressões que levou a algumas das decisões mais disparatadas em termos de política econômica dos últimos tempos.

Escrito pelo Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, este "O Mundo em Queda Livre" mostra como a desregulamentação pregada pelos teóricos do livre mercado levou a uma catástrofe.

Stiglitz explica como a falta de controle sobre o sistema financeiro americano, trazida pelo "fundamentalismo de mercado" de Reagan e Bush, levou ao crescimento indiscriminado dos bancos, ao surgimento de produtos financeiros extremamente sofisticados - muitas vezes simples apostas, quando quase fraudes - e a falta de ação do Banco Central americano sobre a "bolha" do mercado imobiliário, que acabou "estourando", provocando a crise americana e, por "contaminação", mundial.

O economista explica que as hipotecas do mercado imobiliário americano, "tóxicas" por envolverem má concessão de crédito, casas avaliadas a um preço irreal (a bolha) e juros absolutamente altos e refinanciáveis foram "embaladas" e revendidas a outros bancos como produtos financeiros "bons" - contaminando todo o mercado mundial.

Outro ponto do livro é mostrar que o socorro financeiro fornecido pelo governo, com recursos públicos, acabou sendo utilizado pelos bancos não para estimular a economia americana, mas para recompor as reservas de capital, por um lado, e pagar bônus a seus executivos. Na visão destes últimos, a culpa pela crise econômica seria dos próprios consumidores e compradores de hipotecas, "que não teriam se informado sobre os riscos".

Também aponta os problemas da baixa regulamentação do mercado financeiro americano, em especial a não separação entre os bancos comerciais e os de investimento, e a formação de bancos "grandes demais para quebrar", que acabam em uma situação de virtual impunidade: se tornam-se insolventes, o governo tem de vir em seu socorro para que a perda de confiança no sistema bancário não venha a provocar uma quebra geral, com consequências catastróficas. O autor defende que estes bancos deveriam por ação do governo serem divididos em unidades menores, a fim de não possuírem uma influência demasiada sobre o sistema financeiro.

Stiglitz promove um debate teórico expondo o porquê das idéias keynesianas - de John Maynard Keynes, economista e cuja filosofia econômica eu também me alinho - serem mais adequadas neste momento para os Estados Unidos e o mundo desenvolvido saírem da crise econômica. A explicação é que, com muitos  americanos perdendo suas casas, seus empregos e renda, somente uma ação de gastos governamentais irá estimular a economia suficientemente a ponto de fazer girar o "círculo virtuoso" do crescimento.

Diminuir gastos governamentais e aumentar impostos, como pregam os neo liberais, somente diminui a massa de consumo da economia e aumenta a crise - as pessoas tem menor dispêndio, as empresas trabalham abaixo de sua capacidade possível e empregam menos pessoas, diminuindo a renda.

Em outro capítulo o autor mostra como o presidente americano Barack Obama sucumbiu ao poderosíssimo lobby dos banqueiros e de Wall Street, adotando medidas que eram boas para este segmento, mas ruins para os Estados Unidos e para o povo.Na prática, os bancos que adotaram uma gestão temerária foram premiados, enquanto o povo ficou com a conta para pagar na forma de encolhimento de renda, da perda de suas casas e de seus empregos. 

E o presidente americano, na prática, atuou a serviço dos interesses de Wall Street, capitulando e renegando tudo o que defendeu na campanha.

Embora mais sofisticada teoricamente (até por terem objetivos diferentes), a abordagem do livro lembra a de "Enganados", de John Perkins, que resenhei anteriormente. São um bom exemplo de como o Estado pode ser utilizado a serviço dos mais poderosos e em prejuízo da população, que acaba escravizada pelas dívidas.

Fico longe, muito longe de esgotar aqui os assuntos tratados no livro, mas digo aos leitores que é leitura obrigatória para se entender a mais recente crise econômica. Conhecimento anterior em teoria econômica ajuda na compreensão, mas mesmo o leitor não-especialista consegue acompanhar bem o raciocínio, ajudado por uma tradução que não complica a compreensão.

Na Travessa, custa R$ 66 - livros de Economia não são exatamente baratos...


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Resenha Literária - "José Alencar, Amor à Vida - A saga de um Brasileiro"

Sim, leitores, eu ainda não terminei de ler o livro sobre a história do petróleo...

Mas neste meio tempo estive em Praia Seca antes da viagem de férias e como não dava para levar um tijolo de quase três quilos como é o livro sobre a história do petróleo aproveitei para ler este "José Alencar - Amor à vida", biografia do ex-vice presidente escrita pela jornalista da Folha de São Paulo Eliane Cantanhêde.

Apesar da impressionante história de vida do biografado, eu estava reticente a comprar o livro, porque a autora foi opositora intransigente do Governo Lula e utilizou-se de seu espaço no jornal onde trabalha para fazer política partidária.

Resolvi adquirir o exemplar somente depois de ler a resenha que a jornalista Milly Lacombe escreveu em seu blog sobre livros - que, obviamente, está bem melhor que estas parcas linhas.

A história do ex-vice presidente é contada de forma quase linear pela autora, desde a infância onde alternou momentos de maior pobreza com outros de fartura até a chegada à Vice-Presidência  e a luta contra os tumores que ele enfrenta desde 1997.

Este é um capítulo à parte do livro: Alencar teve mais de cinquenta tumores desde 1997, esteve desenganado em pelo menos duas ocasiões e passou por situações absolutamente dramáticas. Uma de suas operações durou dezoito horas - é chamada de "a grande cirurgia" no livro - e teve entre seus procedimentos a "lavagem" do abdômen com uma solução quente de quimioterapia.

Em outra ocasião ele se submeteu a outro procedimento para fazer radioterapia diretamente sobre os órgãos. Mas todos estes sacrifícios foram vencidos com uma inabalável vontade de viver e uma atitude sempre positiva e otimista. Os médicos afirmam de forma uníssona que jamais o viram reclamar, nem mesmo nos momentos mais difíceis.

A autora também descreve o primeiro encontro entre Alencar e Lula, em 1999 - e em como Lula saiu já naquele dia convencido de que tinha achado o seu vice ideal.

Na descrição dos anos enquanto vice reside o maior senão do livro: Cantanhêde o tempo todo tenta desqualificar as realizações dos dois mandatos do Presidente Lula, atribuindo-os, todos, a Fernando Henrique Cardoso. Nada mais falacioso.

Mas o exemplar tem o mérito de descrever as articulações que levaram à sua escolha como candidato e o teor das "costuras" políticas que foram necessárias para diminuir as resistências tanto de setores mais à esquerda do PT como do empresariado. Outro ponto curioso é que em determinados momentos do governo Alencar verbalizava exatamente o pensamento da ala esquerda do PT, que se encontrava silenciada.

Nacionalista, apoiou o golpe de 1964 mas também foi entusiasta da campanha "Diretas Já". Enquanto dirigente de sindicatos patronais buscou entendimento com as entidades de trabalhadores, apoiado na máxima de que um dependia do outro. Votou em Lula no segundo turno de 1989 e apoiou o impeachment de Collor.

Outro capítulo importante é a história do surgimento da Coteminas, apoiada em financiamento da Sudene mas, também, em uma profunda experiência prévia com tecidos. Com o crescimento da empresa ela foi se expandindo e ocupa fábricas em Minas, no Rio Grande do Norte e em outros locais. Hoje o executivo chefe é seu filho Josué, único homem - ele tem mais duas filhas, netos e bisnetos.

Desnuda um pouco, também, do que ocorre em uma campanha política, em especial a nível estadual e municipal. Alencar foi candidato a governador de Minas Gerais em 1994 (derrotado) e eleito senador em 1998. Em seus quatro anos no Senado adotou uma postura nacionalista e discreta, mas atuante.

Ou seja, a história do menino do interior, sem grandes recursos, mas com imensa capacidade e que se tornaria grande empresário, vice-presidente e, acima de tudo, um exemplo de perseverança e vontade de viver merece muito ser lida.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 32. Vale muito a pena.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Resenha Literária - "Eu Odeio Meu Chefe"

Bom, como os leitores podem ver, ainda não terminei a leitura do livro sobre a história do petróleo. Mas avancei bastante e devo ter lido uns 60% do exemplar.

Enquanto isso, venho lendo algumas coisas em paralelo. Uma delas foi este livrinho, uma série de crônicas corporativas chamado "Eu Odeio Meu Chefe". 

De autoria do publicitário Beto Ribeiro - autor do divertidíssimo e para lá de politicamente incorreto "Poder S/A", é uma descrição dos tipos de chefe encontrados em uma corporação, bem como de tabus e outros comportamentos corporativos.

O autor, em misto de coisa séria e galhofa, divide os tipos de chefe em vinte e três espécimes, a saber: "Sim", "Não", "Grito", "Sei que sou bom demais", "Benchmark", "Indicação", "Novela Mexicana",  "Reunião", "Tropa de Elite", "Paz e Amor", "Vergonha Alheia", "Teoria da Conspiração", "Pinóquio", "Come Nada Quieto", "171", "Feedback", "Quem, Eu?", "Duas Caras", "Sonhar Não Custa Nada", "Crepúsculo", "Ao Mestre com Carinho", "Dono" e "Bom" - este último não existe segundo o autor.

Descreve estes espécimes e "ensina" como se defender e tirar proveitos destes. Inclui ainda algumas dicas de "como irritar seu chefe" como arremate deste capítulo.

A segunda parte do livro trata basicamente de dois assuntos: comportamento corporativo e a (falta de) utilidade do setor de Recursos Humanos. Em descrições muito engraçadas, o autor vai desmascarando práticas muito comuns do mundo corporativo e em especial da área de RH.

Incorpora ainda uma cartela de "bingo corporativo" para reuniões, um "guia prático do estagiário e do trainee" e dicas de moda empresarial e de comportamento, entre outros assuntos.

Livrinho curto, que se lê em uma ida ou volta para o trabalho - se o leitor não estiver dirigindo, claro. Deve ser lido mais como algo sarcástico do que levado a sério, embora algumas indicações do livro dêem o que pensar. Um exemplo:

"Missão: os textos das Missões criados pelo RH para conceituar para que afinal serve uma empresa só não são piores que as poesias toscas em dia de eliminação de Big Brother Brasil. Missão não serve para nada. Ninguém lê. Nem mesmo quem a escreveu." (do capítulo "As Bobagens Top do RH")

Na Saraiva, custa R$ 29,90. É garantia de boas risadas. Mas se preocupe se reconhecer demais sua empresa no livro... (não, isso não ocorreu comigo)


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Resenha Literária - "500 Cervejas"


Após um bom tempo, temos nossa coluna "Resenha Literária" de volta. Explico a demora.

Estou atracado há pelo menos uns dois meses na leitura de "O Petróleo: Uma História mundial de conquistas, poder e dinheiro", de Daniel Yergin, a história definitiva sobre o assunto. O problema é que o livro tem quase 1,1 mil páginas e, ainda por cima, eu tive um final de ano muito corrido, de forma que minha leitura caiu bastante de ritmo.

Para o leitor ter uma idéia, no momento em que escrevo este post - noite de terça - eu tinha lido exatas 289 páginas do exemplar. Somando-se alguns percalços no trabalho - eu não tinha a menor vontade de continuar no assunto quando chegava em casa - surgiu a oportunidade de ler este "500 Cervejas".

Dica do blog "Atelier de Cervejas" - cujo link o leitor pode encontrar aqui mesmo, à direita - e do qual retirei as fotos que ilustram esta resenha, é uma leitura rápida, fácil e que se consiste em uma boa introdução no mundo da cerveja.

O mote do livro é simples: elencar as "500 Melhores Cervejas do Mundo". De autoria do especialista inglês Zak Avery, é um passeio por 500 exemplares, traduzindo tipos, sabores, teores de álcool, malte e lúpulos, além de harmonizar com os diferentes tipos de refeições. Entretanto, tem um problema: é focado demais no binômio Europa Central e Estados Unidos.

A América Latina tem apenas três exemplares na lista, uma cerveja mexicana, uma peruana e outra chilena. Contudo, há exemplares da Eisenbahn e da Colorado que podem perfeitamente estar na relação, sendo superiores, até, a cervejas européias que estão lá e que já experimentei - no caso das cervejas de trigo isto é muito claro.

Avery inicia descrevendo as matérias primas para a cerveja, seus métodos de produção e as diferenças. Explica que hoje a água não é tão importante para a qualidade da bebida e que pode ter suas propriedades "corrigidas" de forma a atender à necessidade de produção desta ou daquela qualidade. O curioso é que na linguagem dos mestres cervejeiros a água usada na fabricação é chamada de "licor".

A cevada, principal matéria prima, tem sua transformação em malte cuidadosamente descrita em um dos capítulos. Os grãos são postos a germinar a fim de liberar amidos e açúcares fermentáveis; em determinado momento está é interrompida e o agora chamado malte é colocado no forno e tostado. Este ponto de torrefação é um dos determinantes do tipo da cerveja e sua cor. Ainda temos maltes defumados, que geram as chamadas "Rauchbiers" - no Brasil a Eisenbahn tem um excelente exemplar deste estilo.

Também é descrito o papel do lúpulo, planta herbácea da família "humulus lupulus" e que pode determinar tanto o sabor de uma cerveja - o "amargor" - quanto o aroma. Tal diferença é determinada no momento de sua adição no processo de fermentação: adicionados no início, conferem amargor à bebida; mais tarde, apenas aromas.

Não podem faltar as leveduras, que fazem o trabalho de fermentação propriamente dito e transformam os açúcares do mosto (constituído de malte, água e lúpulo) em álcool, gás carbônico e ésteres - que compõem os aromas da bebida.

Aqui temos uma diferença importante.

Temos dois grandes grupos de cerveja, as "lager" - de consumo maciço no Brasil - e as "ale". As duas são diferenciadas justamente pela levedura utilizada e a forma de fermentação.

A levedura do tipo "lager" faz o seu trabalho a temperaturas mais baixas, precipita-se no fundo do recipiente e leva mais tempo para fazer seu trabalho. Este processo mais lento de fermentação é chamado, em alemão, "lagering" - de onde vem o nome da cerveja.

Com isso temos cervejas mais leves, "limpas" e refrescantes. São as clássicas "louras geladas".

Por outro lado, a levedura do tipo "ale" fermenta mais rapidamente, a temperaturas mais altas e no alto do recipiente. Isso gera sabores mais frutados e complexos.

Entretanto, se estas duas são as principais "famílias" da bebida, temos tipos como a "kolsch" - típica de Colônia, na Alemanha, feita com levedura do tipo 'ale' mas fermentada "a frio". Aqui no Brasil a Eisenbahn, uma vez mais, possui um excelente exemplar deste tipo, difícil de achar aqui no Rio, mas que saboreio enquanto escrevo estas linhas.

Ou seja, o livro mostra que existem diversos pontos de torrefação do malte, diferentes lúpulos, diferentes cepas de leveduras e diferentes temperaturas. É um mundo altamente diversificado.

Após esta explicação básica, o livro percorre as "500 Cervejas" do título, separadas por tipo e tendo pelo menos cinco exemplares de cada um destes. Vindo de exemplares menos encorpados para os mais, o autor apresenta uma introdução sobre cada categoria e classifica os exemplares em "clara/escura", "pouco ou mais encorpada", percentual de álcool e descrição dos sabores presentes na degustação.

Esta última chega a ser curiosa, tal a variedade de sensações despertadas no autor. A tradução às vezes dá umas "escorregadas", como escrever um mar de sensações e escrever "que é quase saborosa". Também dá sugestão de pratos que harmonizam com as cervejas analisadas.

Não chega nem perto do "Larrousse da Cerveja", que já resenhei, mas é uma boa introdução e bom panorama, em especial para aqueles que não são iniciados no assunto. É leitura rápída e prazeirosa.

Só achei o livro na Saraiva Online, a R$ 36. Foi lá que comprei, porque não vi à venda em livrarias físicas aqui no Rio de Janeiro.

Prosit!

P.S. - Das 500 cervejas descritas, devo ter algo de 40 no meu portfólio. Ou seja: muitas tulipas ainda me esperam...



quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Resenha Literária - "Elisete Cardoso - Uma Vida"

Após um interregno razoável, a coluna "Resenha Literária" está de volta. Explico.

Eu terminei de ler "Elite da Tropa 2" - alvo da resenha anterior - e peguei para ler o livro referência de Daniel Yergin sobre a indústria do petróleo. Entretanto, como o livro é um "tijolo" de mais de mil páginas e uns três a quatro quilos de peso - embora seja sensacional - não havia a menor condição de levá-lo nesta rápida viagem que fiz semana passada a Campinas.

Isso abriu espaço para a leitura deste "Elisete Cardoso - Uma Vida", que iniciei em viagem e terminei no retorno ao Rio de Janeiro.

De autoria do jornalista Sérgio Cabral, retoma a série de biografias de nomes da música popular brasileira escritas pelo autor - das quais lá tive a oportunidade de ler as que enfocam Tom Jobim, Nara Leão e Ataulfo Alves, esta resenhada. É um trabalho sensacional de resgate da memória da Música Popular Brasileira empreendido pelo jornalista, apoiado pela Companhia Editora Nacional.

Elisete Cardoso (1920-1990) é considerada por muitos a maior cantora que o Brasil já teve. Para os mais jovens isto pode soar estranho neste país sem memória - falarei sobre isso mais abaixo - mas quem lê a biografia, a ouve e conhece a sua história não tem muito como discordar. Não por acaso, recebeu a alcunha de "Divina".

Sérgio Cabral conta linearmente a sua história, partindo da infância pobre - onde conviveu com ninguém menos que Tia Ciata, cuja casa é considerada o "Marco Zero" do samba carioca - e difícil e demonstrando desde tenra idade o dom para o canto e a dança.



Cabral enfoca o início de carreira da cantora, onde ela chegou a trabalhar como dançarina em casas noturnas que seriam precursoras das atuais gafieiras. Não era o que o leitor pode estar imaginando; eram casas com o regulamento extremamente rígido e que haviam dançarinas especializadas nos diferentes ritmos.

Havia uma espécie de "cartão" que era picotado a cada música que os frequentadores dançavam com as moças - e o pagamento era feito ao final. Logo Elisete passou ao conjunto da casa noturna, com sua voz maravilhosa.

Daí para o rádio e, enfim,, o estrelato. Eram tempos em que a cultura popular brasileira era balizada pelo rádio e, posteriormente, a televisão.

Elisete se consolida como a grande intérprete dos grandes compositores. Em sua longa e vitoriosa carreira ela interpretou nomes como Ary Barroso, Cartola, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Hermínio Belo de Carvalho, Nelson Cavaquinho, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Zé Kéti, Paulo César Pinheiro, Élton Medeiros e muitos outros. Como o leitor pode ver, uma verdadeira seleção brasileira.

Abaixo, "Sei Lá, Mangueira", de Paulinho da Viola e Hermínio Belo.



Cabral também passa pela atribulada vida amorosa da cantora, que se casou duas vezes e teve um incontável número de namorados, em tempo em que isso era um tabu. O tema também traz ao livro a questão das hoje chamadas "revistas de celebridades", que já naquela época publicavam notas maldosas e/ou inverídicas sobre as vidas dos grandes artistas.

Inclusive havia uma coluna muito famosa - que deu o nome ao que hoje é o arquétipo de "fofoqueira" - denominada "Mexericos da Candinha", na "Revista do Rádio".

O autor relata também a vida cotidiana da cantora, apoiado não somente na convivência pessoal como no depoimento de pessoas próximas. Elisete era uma pessoa muito simples, que gostava de cozinhar, da boa mesa e dos amigos e da família - um filho biológico e outra adotiva, que lhe deram netos.

Cabral mostra a relação da cantora com as escolas de samba, em especial com a Unidos de Lucas, agremiação da qual foi madrinha e posteriormente enredo, em 1974 - no final deste texto disponibilizo letra e áudio deste samba. Aí reside o único senão do livro: não fica explícita a relação da biografada com a Portela, sua escola de coração. Já no final do livro o autor escreve que Elisete "não perdia um desfile da escola na década de 80", mas sem explicar o porquê daquela ligação ou se a cantora envolvera-se ou desfilara pela águia de Madureira anteriormente.

Na parte final da obra observa-se o progressivo afastamento da música da cantora das rádios, mas mantendo um público fiel para seus shows. Relatam-se as viagens ao Japão, abrindo mais um mercado para a música brasileira, e seus problemas com a indústria fonográfica em sua última década de vida. Nos dois derradeiros capítulos descreve-se a doença no estômago - um câncer - que acabaria por causar o seu falecimento em 07 de maio de 1990.

Ainda assim, a doença não afetaria a sua fantástica capacidade de interpretação e sua voz, como o vídeo abaixo, gravado poucos meses antes de sua morte, comprova. Observem a cantora interpretando, "à capella", Ary Barroso:



Vendo e ouvindo estas gravações, fico entristecido em saber que apenas 20 anos após sua passagem a cantora está praticamente esquecida. Até as pessoas da minha geração - tenho 36 anos - conhecem muito pouco da obra da "Divina", que foi a maior cantora da música popular brasileira durante décadas, reverenciada por nomes como Sarah Vaughan e outros.

Também não posso conter a minha tristeza ao observar - como escrevi em março - que a "cultura de massa" está cada vez mais medíocre, cada vez mais descartável, com qualidade dia a dia mais questionável. São manifestações que daqui a dois, três anos estarão esquecidas.

Outro ponto preocupante é observarmos que os principais compositores brasileiros de hoje são os mesmos da década de 60: Chico, Caetano, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Edu Lobo e outros do mesmo naipe. Não houve renovação, a meu ver muito pela progressiva "guetização" que a MPB sofreu em termos de rádios de massa e televisões abertas. Quando eles morrerem, quem restará ?

Também vale lembrar que em termos de intérpretes o quadro não é muito diferente, embora tenham surgido algumas boas cantoras: Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, Teresa Cristina e mais uma ou duas. Uma curiosidade do livro é que das três cantoras que Elisete indicou como "sucessoras", duas acabaram falecendo antes dela - Clara Nunes e Elis Regina. Restou apenas Maria Bethânia.

Cabral, na introdução, também explica a opção pela grafia "Elisete", com a justificativa de que "a língua não pode ser submissa ao arbítrio dos cartórios." Vale lembrar que a cantora foi registrada como "Elizette".

Curiosamente, eu só tinha visto o livro para compra na outra ocasião em que estive em Campinas - onde adquiri meu exemplar. Aqui no Rio nunca vi o exemplar à venda, em lugar nenhum - e olha que sou rato de livrarias... Online a Submarino está com uma boa promoção, a R$ 29,90.

É uma biografia indispensável para se conhecer um pouco da história da MPB e de uma de suas maiores cantoras - que precisa ser relembrada.

Abaixo, o áudio e a letra do samba enredo em que a Unidos de Lucas homenageou-a, em 1974. A escola foi segunda colocada no Grupo 2, obtendo a ascensão ao grupo das grandes escolas de samba:



"Mulata Maior - A Divina Elizeth Cardoso

(Joãozinho Empolgação, Pedro Paulo e Zeca Melodia)
Puxador: Carlão Elegante

"Lucas em tempo de carnaval
Da imaginação do nosso escritor
Entre tantas coisas belas
Cantar você, mulata, gênio musical
Ouvi-la cantar
É um prazer em nosso dia a dia
E nesta festa popular, a você
Exaltamos com honras de alegria

Arrasta, mulata
Sua sandália de ouro
Levanta a poeira do asfalto
Mulata maior, meu tesouro

No Municipal você foi sensação
No exterior, Brasil em forma de canção
Hoje a nossa escola está feliz
Porque ao invés de ouvi-la está cantando pra você

Vem, mulata, vem sorrir
E cantar com essa gente
Que está sempre a aplaudir"




sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Resenha Literária - "Elite da Tropa 2"

O leitor já teve a oportunidade de conferir aqui dois capítulos do lançamento editorial mais badalado deste ano: o novo livro da série "Elite da Tropa", inspiradora dos filmes "Tropa de Elite".

Mais cedo o leitor viu a resenha do filme. Agora trago a do livro.

Algumas histórias do livro estão presentes no filme, mas são duas obras diferentes, com começos diferentes, histórias diferentes e especialmente finais diferentes. Até porque como escrevi mais cedo o filme se utiliza de trechos do primeiro livro, em especial as tramas palacianas na Secretaria de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro.

De autoria dos mesmos autores da edição anterior, Luiz Eduardo Soares (ex-secretário Nacional de Segurança Pública), André Batista e Rodrigo Pimentel (egressos do Bope), neste segundo exemplar o trio ganha o reforço de Cláudio Ferraz, delegado chefe da DRACO - Delegacia de Repressão ao Crime Organizado.

De acordo com o posfácio do livro, a redação final foi dada por Luiz Eduardo Soares a partir das histórias selecionadas pelos quatro autores. Segundo este as histórias foram fundidas e entrelaçadas, mas a exemplo do filme algumas cenas são facilmente reconhecíveis.

O narrador do livro é um policial civil pertencente à Draco que sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e acaba paraplégico por conta disso. Ele cria um perfil no Twitter e mesclando comentários no microblog e narrações de fatos vai tecendo a trama e entrelaçando os capítulos.

Logo no segundo deles é decifrado o mistério do desaparecimento da engenheira Patrícia Franco, ocorrido na Barra da Tijuca. Em que pesem as alterações cosméticas - no livro é uma arquiteta e tem 30 anos, ao contrário dos 24 com que ela desapareceu na vida real - o trecho da publicação narra com detalhes a sequência dos fatos.

Segundo o relato do livro ela foi morta por engano - ao não parar após solicitação de viatura policial - e seu corpo queimado e enterrado por milicianos. Chega-se a armar uma operação (clandestina) de "desova" do que restou do corpo da moça, mas a operação acaba abortada. Como resultado há o assassissato de um policial na Fonte da Saudade, dias depois - na vida real, foram dois PMs as vítimas da execução.

Entretanto, tal qual o filme o foco do livro é a questão das milícias. Como estas se formaram, como passaram a dominar os espaços urbanos da cidade e a violência com que impuseram seu domínio. O narrador também enumera as dificuldades do combate a estas milícias, por estarem entranhadas nos comandos das Polícias e em esferas acima de poder.

Outro ponto abordado é a dificuldade de colocar milicianos na cadeia. Como se depende demais do depoimento das testemunhas - há fortes críticas ao trabalho da perícia em determinada parte - e estas são muito suscetíveis à pressão dos chefes das milícias, muitas vezes estas retiravam seus depoimentos e deixavam os investigadores de "mãos atadas", sem poder prosseguir. Ainda se passa de passagem por elementos coniventes, também, no Judiciário.

Também é descrito o caso da tentativa de assassinato de um famoso miliciano em São Pedro da Aldeia, onde no livro morreriam a mulher grávida e o enteado dele. Na vida real apenas ele morreu, pelo menos pelo que pesquisei no Google.

Na segunda metade do livro o eixo se desloca um pouco e se foca em dois personagens: no defensor dos direitos humanos chamado no livro de "Marcelo Freitas", que depois se torna deputado, e no comandante do Bope Lima Netto. O narrador, aposentado por invalidez, vai trabalhar no gabinete do deputado em questão, que chefia uma CPI sobre as Milícias.

Esta segunda metade se inicia com a rebelião de 11 de setembro de 2002 em Bangu I, onde quatro criminosos foram mortos dentro do presídio pelos líderes do Comando Vermelho. Embora a liderança tenha sido de Fernandinho Beira Mar, no livro paarece um "Russo", que seria um ex-bandido arrependido e que volta para a cadeia devido a uma extorsão praticada por maus policiais. Este "Russo", pelas descrições feitas perece ser o hoje falecido José Carlos dos Reis Encina, o "Escadinha".

A rebelião deixa clara a vacilação da então governadora Benedita da Silva, que recebe ordens de um "figurão" do partido para invadir a cadeia - José Dirceu ? Entretanto, o comandante do Bope à época se nega a cumprir a ordem da governadora, e a negociação acaba terminando razoavelmente a contento.

Os negociadores são os citados "Lima Netto" e "Freitas". Este último é claramente inspirado no deputado estadual Marcelo Freixo, que entretanto em comentário feito a mim no Twitter  dias atrás negou ter sido o inspirador do personagem. Contudo, fazendo-se nova pesquisa no Google descobre-se que Freixo foi um dos negociadores da rebelião em questão.

O livro mostra a nascente amizade entre Freitas e o policial do Bope, que acaba resultado em uma tentativa de armação contra o então militante de direitos humanos, salvo pela intervenção providencial do coronel. Na parte final contam-se alguns casos do Bope, o coronel cai em desgraça e vai preso e vislumbram-se as tentativas por parte de Freitas de retribuir o favor prestado anteriormente.

Em seu final, que, confesso, achei meio "anti-climático", fica o gancho para que a série tenha continuidade em um terceiro exemplar. Que seria salutar e, diria eu, necessário.

"Elite da Tropa 2" é fundamental para se entender como funcionam não somente a segurança pública e as polícias como também o jogo político no qual nós cidadãos estamos envolvidos, como marionetes. Também coloca as coisas em seus devidos lugares ao deixar claro que milícia é máfia.

Ou seja, leitura indispensável.



terça-feira, 19 de outubro de 2010

Resenha Literária - "Dopaz"

Mais uma resenha nesta terça feira.

Rescaldo do feriadão em Barra do Piraí, este "Dopaz", da jornalista gaúcha Tahiane Stochero, é um retrato das dificuldades encontradas pelo Exército Brasileiro na missão de paz no Haiti.

O livro conta as dificuldades enfrentadas para pacificar "Cité Soleil", a maior favela da capital haitiana Porto Príncipe, e as estratégias utilizadas a fim de empreeender a tarefa.

A missão era fundamental para o sucesso da Minustah, pois havia a necessidade de se reduzir a sensação de insegurança provocada pela ação destas quadrilhas que se encastelavam neste local e promoviam sequestros, roubos e assassinatos.

O Exército precisou de um plano de ação bastante elaborado, comandado pelo "DoPaz" - Destacamento de Operação de Paz - uma espécie de "BOPE" do Exército. Os soldados do batalhão de elite tomaram para si a função de liderar o processo de ataque e ocupação da favela em questão, prendendo os principais líderes criminosos.

A autora entra no cotidiano dos soldados e narra as ações empreendidas a fim de pacificar a área e promover ações sociais a fim de conquistar a confiança da população. Salta aos olhos a extrema violência necessária a fim de repelir os bandidos, e as situações de risco em que os soldados se envolvem - milagrosamente, sem nenhuma morte em combate para este batalhão.

Outra faceta é a dificuldade de relacionamento com o poder constituído haitiano, que possuía relações com estes grupos de foras da lei e muitas vezes os avisava das operações da força de paz. Por outro lado, também retrata os imprevistos de se ter uma força de paz multinacional - como os barbeiros motoristas de tanques jordanianos e os latino americanos que muitas vezes não conseguiam entender as determinações dos brasileiros.

Tal e qual na segurança pública brasileira do dia a dia, os militares da força de elite também precisam conviver com ordens estapafúrdias vindas "de cima" - como destruir um banheiro público, artigo raro naquela localidade.

Ao fim e ao cabo de muitos tiros, alguns homicídios e mais algumas prisões, finalmente a grande favela foi ocupada e os brasileiros puderam oferecer as suas ações sociais, obtendo a confiança dos moradores, muito pobres.

O último capítulo é dedicado ao terremoto haitiano de 2010 e aos problemas criados pelo desmoronamento da Penitenciária Nacional, que acabou por libertar todos os líderes criminosos cuja captura havia sido bastante penosa.

Fica clara a diferença entre este livro e o que resenhei recentemente, "Haiti, depois do inferno". A repórter gaúcha (abaixo) neste "Dopaz" traça um retrato muito mais fiel e aprofundado da missão brasileira no país caribenho, embora fale do terremoto apenas no último capítulo.

Apesar de um prefácio absolutamente desnecessário com uma velha e embolorada pregação anticomunista, recomendo bastante. Na Travessa, custa R$ 31. Com ação contínua e descrição adequada dos fatos, é bem interessante.


Resenha Literária - "Soccernomics"

Nossa resenha de hoje é de um livro que já foi tratado aqui anteriormente, em uma das edições da coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro.

"Soccernomics", do jornalista inglês Simon Kuper e do economista polonês Stefam Szymanski, procura explicar sob o ângulo econômico a paixão do futebol, à moda de livros como "Freaknomics", "Superfreaknomics", "Sob a Lupa do Economista", "Falsa Economia" e outros. E estes chegam a conclusões surpreendentes quando utilizam no futebol os recursos teóricos da Economia e da Matemática.

O mote do livro, que perpassa todos os capítulos, é uma única frase: "a estupidez está para o futebol assim como o petróleo está para a indústria do petróleo". Com este axioma simples os autores demonstram que na maioria das vezes os clubes são geridos com decisões que fogem aos padrões dos manuais de administração.

Um bom exemplo, descrito no Capítulo 4, é o método utilizado pelas equipes na hora de contratar um técnico. Normalmente não são levados em consideração fatores como a qualificação teórica, os cursos ou o conhecimento técnico, tático e - no caso europeu - financeiro. O que se leva em conta são a disponibilidade imediata, o poder de atração (ou de ser um bom "relações públicas") e também terem sido ex-jogadores.

Outro capítulo muito interessante é sobre o mercado de transferências, com algumas dicas valiosas. As mais importantes seriam:

1) Estar tão disposto a vender bons jogadores quanto a comprá-los;
2) Jogadores mais velhos são sobre-valorizados;
3) Compre jogadores com problemas pessoais (com desconto) e depois ajude-os a lidarem com seus problemas;

Os autores argumentam que um bom desempenho no mercado de transferências pode mitigar outra das conclusões do livro: a de que o desempenho dos clubes nas competições é consequência direta do total de salários gasto - não, leitor: os autores não conhecem o Kleber Leite...

Também é muito interessante um ponto levantado pelos autores no mercado de transferências, embora seja mais válido para os clubes europeus: os dirigentes gastam fortunas muitas vezes obscenas para contratar os craques, mas não gastam poucos milhares de euros no auxílio à adaptação dos mesmos ao novo clube. Muitas vezes, isso faz a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Os autores chegam a relatar um "estudo de caso" sobre o tema, que foi o da adaptação dos brasileiros ao PSV Eindhoven, da Holanda. Isso se tornou um diferencial na hora de agir no mercado de transferências, pois promissores jogadores daqui passaram a utilizar o clube para se ambientar à Europa e depois irem para clubes de maior expressão.

Debate-se também o tamanho microscópico dos clubes perto das maiores corporações mundias, e por outro lado o conceito de que "clube não quebra".

Em outro trecho da obra, os autores aplicam modelos matemáticos ao desempenho das seleções nas competições mundiais, elencando premissas para a formação de boas seleções: 10 mil horas de prática de futebol enquanto jovem e renda per capita aproximada de US$ 15 mil são duas delas. Eles apontam a Turquia, os EUA e a Espanha como futuras forças do futebol - pelo menos quanto a esta última um prognóstico acertado, haja visto que o livro foi escrito antes da Copa do Mundo da África do Sul. E aponta o Brasil como perda de influência global, pois sua média de vitória já é tão alta - cerca de 70% dos pontos - que não tem muito para onde aumentar.

"Soccernomics" dedica parte de um capítulo a analisar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, chamando a atenção para o seguinte fato: sediar estas competições não traz riqueza nem grandes benefícios econômicos. O argumento é de que, no caso brasileiro, ainda há a justificativa de que o país precisa modernizar os seus estádios a fim de atrair um público de maior poder aquisitivo, bem como a infraestrutura das cidades do país - em especial o Rio de Janeiro.

Entretanto, este fenômeno não passaria de transferência de renda de outros setores da economia para o setor de entretenimento ou esportivo.

Em outra parte, analisa-se o comportamento das torcidas e desmonta-se o mito do "torcedor monolítico e monogâmico". Dividem-se os torcedores típicos em três tipos: os "fanáticos", os "eventuais comprometidos" e os "eventuais negligentes" - estes últimos mais fãs de futebol que de equipes propriamente ditas.

Outra conclusão interessante é que bons desempenhos de seleções ou clubes em grandes competições diminuem o número de suicídios naquele país ou cidade não somente durante a competição como em períodos de tempo subsequentes.

Apesar de ser focado demais no futebol inglês, é indispensável para se entender o "negócio" futebol. Não esgoto aqui os temas, mas sem dúvida é um conhecimento que agrega valor e nos faz entender, muitas vezes, a irracionalidade e o empirismo da administração dos clubes.

E olha que eles escreveram sobre o futebol inglês, criticando acidamente o modelo de gestão dos clubes. Fico me perguntando se eles usassem como base da pesquisa clubes como o Flamengo, o Fluminense ou o Corínthians, por exemplo. Ou o futebol brasileiro como um todo.



segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Resenha Literária - "Haiti, depois do inferno"

Mais uma segunda feira, desta vez feriadão para mim, e uma resenha que já era para estar aqui há bastante tempo, pois a leitura ainda é "rescaldo" dos dias entre Campinas e Paulínia.

Na verdade este "Haiti, depois do inferno" deveria ter estado aqui antes de "Diplomacia Suja", porque foi lido antes, mas optei por trocar a ordem devido à oportunidade do momento de então.

O livro, de autoria do correspondente da Tv Globo nos Estados Unidos Rodrigo Alvarez, é um relato da cobertura jornalística do terremoto que assolou o país caribenho, o mais pobre da América Latina.

Mas não somente isso: Alvarez traça um panorama do povo, do trabalho da Missão de Paz encabeçada pelo Brasil e explicita a arrogância imperialista do exército americano, mais preocupado em mandar e em ações pirotécnicas do que propriamente ajudar.

O relato começa com a odisséia que foi chegar ao país via República Dominicana. A equipe - formada também pela repórter Lília Teles e os cinegrafistas - alugou um helicóptero para ir de um país a outro, sem saber como seria a estadia no Haiti.

Entretanto, o Exército Brasileiro deu todo apoio aos jornalistas brasileiros: teto para dormir, alimentação, água potável e, o mais importante para os repórteres: uma conexão rapidíssima de internet para o envio das matérias ao Rio de Janeiro. Ou a São Paulo, dependendo da sede da emissora - haviam concorrentes ocupando o mesmo espaço, mas solidariedade não faltou.

Rodrigo Alvarez descreve, em um texto jornalístico mas caloroso, suas andanças pela capital Porto Príncipe sempre acompanhando as patrulhas dos militares brasileiros. Descreve a miséria e a total falta de infraestrutura do país, ainda mais agora depois do terremoto.

Também descreve a ação pirotécnica dos americanos, que desembarcaram com grande estardalhaço em Porto Príncipe apenas para mandar e fazer marketing para a televisão. O autor registra algumas pequenas escaramuças entre os militares brasileiros - que já estavam lá - e os americanos em sua exibição prepotente de força.

Outro ponto que me chamou a atenção foi o "código de ética" do povo local. Trabalhador que roubasse trabalhador, mesmo que fosse por comida e mesmo todos famintos, era linchado até a morte. O repórter também descreve com certo espanto a cena onde oito meninos dividem uma garrafa de água de meio litro que ele havia dado a eles.

Por outro lado, ele descreve a visita que fez a um resort para turistas americanos no norte do país, chamado Labadee. Duas empresas de cruzeiros marítimos mantém hotéis no local, onde as praias são mantidas isoladas do resto do país. Algo como um condomínio de luxo, com arame farpado, no meio de uma favela.

Finalizando, ele descreve a odisséia para deixar o país e os dias seguintes, onde ele sofreu de "estresse pós-traumático". Passou alguns dias de folga no Brasil e ao retornar para New York passou a se questionar sobre os sentido das coisas que ele vivia ali com a tragédia instalada a apenas três horas de vôo - algo como daqui do Rio ao Recife.

Livro curto, intenso, com linguagem acessível e que se lê rapidamente. O autor encontrou o tom certo para descrever a tragédia, objetivo sem ser frio, caloroso sem ser dramático. Salta aos olhos o esforço do Exército brasileiro no país devastado não somente para manter a ordem como para prover algum tipo de infraestrutura ao Haiti.

Também recomendo para aqueles que possuem curiosidade de saber os bastidores de uma cobertura jornalística como essa, com os altos perrengues passados para enviar as matérias para exibição posterior.

E com preço acessível: na Livraria da Travessa, custa R$ 20. Recomendo.

Acabei comprando semana passada livro que saiu recentemente sobre o trabalho dos militares brasileiros no país latino americano: "Dopaz", da jornalista Tathiane Stochero. Resenha próxima aqui - com a necessária comparação.


terça-feira, 21 de setembro de 2010

Resenha Literária - "O Evangelho de Barrabás"

Ainda como rescaldo dos livros lidos em minha última viagem a trabalho, temos aqui este "O Evangelho de Barrabás", do já outras vezes resenhado aqui José Roberto Torero em parceria com Marcus Aurélio Pimenta.

O mote do livro é contar a história de Barrabás, que segundo a tradição da Bíblia teria sido o ladrão libertado pelos governantes da Judéia após a população o ter escolhido em comparação a Jesus Cristo. A tradição cristã indica que à época haveria um costume de se libertar um prisioneiro por ocasião da Páscoa, mas historicamente não há evidências desta prática.

Aliás, a própria existência de Barrabás é considerada duvidosa pelos estudos históricos mais recentes, baseados no Novo Testamento e no Talmud, livro sagrado judeu.

Bom, mas este "O Evangelho de Barrabás", escrito pelos ateus Torero e Pimenta, parte dos registros escassos sobre a figura para construir uma sátira sensacional calcada na figura de Barrabás.

Os autores reproduzem a história de Barrabás dando-lhe uma biografia. Nasceu fecundado pelo Altíssimo, e no caminho para o parto encontrou-se com os pais de Jesus Cristo - embora seu pai achasse que tinha sido mesmo é enganado pela esposa, ambos também José e Maria.

Seus pais foram assassinados e crucificados em uma vingança perpetrada pelos romanos após a humilhação de um de seus soldados pela gente da cidade. Barrabás se salva milagrosamente e vaga sem rumo por quarenta dias, até encontrar o bando de Atronges, formado de doze homens fugitivos.

Atronges era um agricultor de olivais que, certo dia, cozinhou cobradores de impostos em azeite fervente. Obviamente, foi perseguido e sua mulher morta no episódio de vingança, mas ele conseguiu se esconder com sua filha no deserto. Aos poucos foram se juntando a ele fugitivos por diversos motivos - e as histórias contadas sobre os componentes do grupo são engraçadíssimas - e aí formou-se uma malta de assaltantes e coisas afins.

Barrabás se junta ao grupo ainda moleque, cresce com os integrantes do grupo e se enamora pela filha de Atronges, Maria Madalena. Exatamente quem o leitor está pensando.

Uma das discíupulas mais fiéis de Jesus Cristo, a antes prostituta Maria Madalena - que depois se tornaria santa - no livro é filha de Atronges e se torna namorada de Barrabás. Posteriormente passa a ser uma fanática religiosa, seguindo sempre o profeta "da moda". Mas sem esquecer Barrabás.

Barrabás no livro é traído por Atronges e acaba preso, onde divide cela com o apóstolo João Batista - que ganha fama de pregador chato... Se livra e após uma série de percalços reencontra seu protetor - e Maria Madalena.

Barrabás começa a "fazer milagres" confiando no poder do barro. A célebre cena da disputa entre ele e Jesus Cristo é reproduzida de forma impagável no livro. Depois ele convoca as pessoas para um anfiteatro e "prova" - com a ajuda de um anão e vinho - que pode ressuscitar.

Não contarei o final do livro, mas ele me dá a impressão de fazer uma espécie de "libelo" anti religioso. Talvez seja a parte mais séria da história.

Milagres como os do pão, do vinho e do cego também são retratados com humor. Sei que perdi algumas piadas pelo fato de não conhecer praticamente nada da Bíblia, mas assim mesmo me diverti bastante. É garantia de boas risadas.

"O Evangelho de Barrabás" pode ser comprado na Livraria da Travessa, a R$ 31. Leitura divertida, que talvez cause constrangimento em cristãos mais ferrenhos, mas texto inteligente e que entrete.

Recomendo.


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Resenha Literária - "Diplomacia Suja"


O bom de se viajar a trabalho é que se consegue ler bastante. Até porque como não dirijo para chegar ao trabalho nestas ocasiões, consegue-se ler bastante no transporte que nos leva à refinaria.

Nossa resenha de hoje é de um livro que mostra como a hipocrisia permeia as relações políticas internacionais; bem como explicitar o quão pouco vale a vida humana quando se contrariam interesses dos donos do poder.

Craig Murray chegou ao Uzbequistão em 2002 para ser um dos mais jovens embaixadores da história do Reino Unido. Com 43 anos, era uma carreira brilhante que chegava a um ponto bastante alto.

Eram tempos pós onze de setembro e esperava-se que o novo representante inglês no país trabalhasse no sentido de manter como aliado o país da Ásia Central, ex-república soviética rica em petróleo e gás e que possuía em seu território uma base militar norte-americana e era ponto estratégico na passagem ao Afeganistão. Além disso corroborar a política americana na região - eram tempos de "relações carnais" entre os Estados Unidos e a ilha européia.

Entretanto, assim que chega ao país o novo embaixador assiste a um nada justo julgamento de dissidentes políticos e recebe fotos de um opositor do regime literalmente fervido e cozinhado em água quente igual a um frango ou  um pedaço de carne.

A partir daí Craig Murray passa a usar seu prestígio de representante britânico e sua imunidade diplomática no sentido de defender os direitos humanos e a dissensão ao regime ditatorial do presidente Karimov. Outrossim, passa a representar os interesses de empresas britânicas de uma forma de "capitalismo" bastante peculiar empregada no país, onde os parentes do mandatário controlavam com mão de ferro todas as principais empresas do Uzbequistão.

Só que a oposição do embaixador começa a criar embaraços a Londres e, especialmente, aos EUA. A mensagem era clara: Karimov é um aliado na então "Guerra contra o Terror" e, portanto, é um promotor dos direitos humanos, do capitalismo - não deve ser importunado.

Além disso, as mensagens de Craig Murray abjurando provas obtidas sob tortura de eventuais "terroristas" começaram a afetar as relações bilaterais EUA-Reino Unido: depois se saberia que os americanos enviavam ao país prisioneiros para serem torturados na base militar.

Permeando estes fatores há a luta para se fazer respeitar o corpo diplomático em uma república despótica e, ao mesmo tempo, estruturar a representação da Grã Bretanha no país.

Longe de se fazer parecer um paladino da luta contra a tortura e a favor dos direitos humanos, Murray mostra as suas aventuras pela noite da cidade, sua fama de "bom copo" e suas aventuras amorosas por Tashkent, capital do país asiático.

Sua atuação como paladino dos direitos humanos começa a incomodar o Ministério das Relações Exteriores britânico, e começam a forjar-se provas para removê-lo do cargo. Em um primeiro momento, apoiado pelas empresas que possuíam representação no país e outras entidades, mantém-se no cargo, mas acaba sendo destituído em meados de 2004.

Neste meio tempo ele sofre um problema de saúde que no livro insinua ter sido provocado - ou seja, uma tentativa de assassinato. E ainda conhece uma "stripper" uzbeque pela qual se apaixona, causando o fim de seu casamento.

Removido da embaixada devido aos interesses anglo-saxões, acaba por passar um período de miséria até um acordo de rescisão onde sai da carreira diplomática. Logo depois o governo de Tashkent entrega aos russos a exploração de petróleo e gás, e o governo aliado se torna uma ditadura implacável, inimiga dos direitos humanos, anti-capitalista e que deve ser perseguida...

Com isso Murray é meio que "reabilitado", e embora o livro termine neste momento, examinando-se sua trajetória posterior percebe-se que ele retornou a um patamar de vida confortável - hoje é reitor da Universidade de Dundee, na Escócia.

As memórias do embaixador mostram a hipocrisia que comanda o relacionamento entre os países, também deixando claro que a máxima de Maquiavel de que "os fins justificam os meios" é o motor das relações. O livro também é muito interessante ao mostrar a burocracia interna da diplomacia e o que move estas engrenagens.

Quanto ao Uzbequistão, continua hoje o que sempre foi depois de se separar da extinta União Soviética: uma cleptocracia onde a oposição é esmagada, cozinhada em água fervente e, depois do alinhamento recente com os russos, "inimiga" das potências ocidentais. Merece destaque o "Massacre de Andijon", em 2005, onde número inestimável de pessoas foi morta em protestos pela democracia - muitas por falta de socorro após o Exército abrir fogo contra os manifestantes.

Eu me pergunto como próceres esportivos como Zico, Felipão e Rivaldo foram utilizados na propaganda do país ao trabalhar no Bunyodkor, hoje principal time de futebol do país e que tem no governo seu patrono. Emprestaram sua imagem a uma ditadura que tortura, mata e rouba.

Murray também mostra como um atentado a bomba na capital Tashkent, feito pelo próprio governo a fim de culpar opositores, foi utilizado pela CIA para estimular a opinião pública contra a Al Qaeda e os muçulmanos. Além disso descreve a rota do ópio afegão e do envolvimento direto dos líderes uzbeques (e dos políticos protegidos dos americanos no Afeganistão) na exploração do tráfico desta droga.

Hoje o ex-embaixador vive na Escócia com a esposa, Nadira (foto abaixo), a ex-stripper que conheceu no país. O casal tem um filho.


A edição brasileira é tradução da versão americana, muito mais completa que a inglesa - extensamente censurada pelo governo local. Custa R$ 46 na Livraria da Travessa.

Penso que é indispensável para aqueles que gostam de geopolítica, de política e para mostrar como pessoas em posição de poder podem ser sórdidas ao extremo - tanto no governo de um país, quanto em posições de chefia em um departamento ou autarquia governamental.

Enquanto pesquisava para escrever esta resenha, caiu-me em minha tela as fotos a que me refiro no início - a do oposicionista fervido e cozinhado vivo pelo regime. São imagens fortes.

Impossível não se revoltar.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Resenha Literária - "Enganados"

Como os leitores podem perceber, a semana passada entre Campinas e Paulínia foi proveitosa, como sempre, em termos de leituras.

Trago aos leitores a resenha deste "Enganados", novo livro do economista americano John Perkins - autor dos indispensáveis e já resenhados "Confissões de Um Assassino Econômico" e "A História Secreta do Império Americano".

Neste exemplar o autor se utiliza de conceitos desenvolvidos em seu livros - em especial "Confissões" para explicar a crise econômica americana e, por tabela, mundial.

Ele inicia mostrando a oposição entre as teorias econômicas de Keynes e as de Milton Friedman e como a vitória dos teóricos deste levou a um mundo de concentração econômica, pobreza e quebradeira de empresas e pessoas.

Grosso modo, a teoria keynesiana advoga que o Estado é necessário na tarefa de regulamentar os setores econômicos e intervir em setores onde a iniciativa privada não se interesse ou onde seja de caráter estratégico para o país. Além disso, é função do Estado estimular a demanda agregada da economia e regulamentá-la.

Milton Friedman é considerado o pai do "monetarismo", doutrina que advoga que qualquer ação do estado apenas tem como consequência o aumento da quantidade de moeda na economia e, finalmente, inflação. Também advoga a total desregulamentação de todo e qualquer mercado, com a justificativa (falaciosa) de que a interferência estatal cria zonas de ineficiência.

John Perkins mostra como a adoção de políticas monetaristas levou os Estados Unidos e o mundo à crise atual, com concentração de renda cada vez maior, ganhos cada vez maiores dos grandes "CEOs" das empresas e as mazelas das políticas empresariais de "maximizar lucros a curto prazo", a fim de aumentar os bônus corporativos. E trata da captura do Estado norte-americano por estas corporações. O autor chega a cunhar a expressão "barões ladrões" para definir a atuação destes presidentes e donos de grandes empresas.

Sem qualquer regulação, tais executivos e suas companhias adotaram práticas predatórias que levaram prejuízos a consumidores e países, bem como a uma crise financeira bastante grave.

Outro aspecto interessante da primeira parte do livro é a tese do autor de que as práticas dos "assassinos econômicos "deram tão certo" nos países do Terceiro Mundo que foram aplicadas nos Estados Unidos: aprisionar o povo pelas dívidas.

Perkins também mostra o desacerto causado pelos PAEs - Programas de Ajuda Econômica - impostos pelo Fundo Monetário Internacional aos países dependentes e dos lucros gerados para as grandes corporações multinacionais.

Também desmascara a hipocrisia de donos de empresas como a Microsoft que doam milhões a instituições de caridade mas escravizam os povos com práticas monopolistas e de concentração de recursos.


Uma revelação importante do livro é o fato de tratar o golpe de Honduras como parte integrante de defender os interesses da "corporatocracia", no caso representada por indústrias produtoras de bananas e outras frutas. Nas palavras do autor:

"Todas as pessoas com quem falei no Panamá estavam convencidas de que o golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, foi arquitetado por duas companhias norte-americanas, com apoio da CIA. No começo daquele ano, a Chiquita Brands International, Inc. (ex-United Fruit) e a Dale Food Company, Inc., tinham criticado severamente o Presidente Zelaya por defender um aumento de 60% no salário mínimo de Honduras, alegando que a medida reduziria os lucros corporativos.


(...) O vice-presidente de um banco panamenho, que prefere continuar anônimo, me disse: 'toda multinacional sabe que, se Honduras aumentar os salários, o resto da América Latina e do Caribe terá de acompanhar. Haiti e Honduras sempre estabeleceram o patamar para o salário mínimo. As grandes companhias estão determinadas a deter o que chamam de revolta esquerdista neste hemisfério. Derrubando Zelaya, estão enviando mensagens intimidadoras a outros presidentes que tentam elevar o padrão de vida de seus povos.


(...) A íntima relação entre os líderes do golpe militar de Honduras e a corporatocracia foi confirmada alguns dias depois da minha chegada ao Panamá. O Guardian inglês publicou uma matéria dizendo que 'dois dos principais conselheiros do governo golpista hondurenho têm relações estreitas com o Secretário de Estado dos Estados Unidos.


(pp. 215-216)

Na segunda parte o autor elenca algumas formas de sairmos desta crise rumo a um mundo sustentável. Chama a atenção especialmente para o que ocorre na China. Em suas palavras, começa a haver consciência ambiental e a questão da disciplina freia o egoísmo e o materialismo.

Ressalta adicionalmente que nós, consumidores, temos poder de mudar estas práticas corporativas perniciosas, desde que livres das dívidas. Como exemplo, escreve que temos uma série de subprodutos de cereais como o milho absolutamente dispensáveis - flocos, com açúcar, sem, entre outros - enquanto um bilhão de pessoas no mundo lutam diariamente para se alimentar, sofrendo de inanição.

Mais uma vez, é um livro indispensável e que faz pensar. Devido às referências que faz no texto, a leitura anterior de "Confissões de Um Assassino Econômico" torna mais profundo o entendimento das questões tratadas, mas não chega a ser indispensável  - para este caso - a leitura do livro.

Na Travessa, custa R$ 31.


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Resenha Literária: "Onde a corrupção veste toga"

Bom, o leitor antigo do Ouro de Tolo sabe que o Espírito Santo é um estado onde o Poder Judiciário é, digamos, "mais complicado" que em outras partes do Brasil.

Sabe porque resenhei aqui "Espírito Santo", que conta a história do envolvimento da Polícia e de juízes na morte do juiz Alexandre Martins, que investigava o envolvimento destes em diversos atos criminosos. Inclusive, a resenha foi recomendada por Luiz Eduardo Soares, um dos autores, em seu blog pessoal.

Este "Onde a Corrupção Veste Toga", de certa forma, é uma continuação de "Espírito Santo". Compilado pelos jornalistas Rogério Medeiros e Stenka do Amaral Calado a partir de matérias veiculadas pelo site "Século Diário", é uma investigação elaborada a partir da "Operação Naufrágio", que investigava venda de sentenças, nepotismo e outras irregularidades de um Judiciário que se achava acima do bem e do mal, sem ter de prestar contas à sociedade.

Nas palavras do desembargador Josenider Varejão, um dos principais envolvidos no escândalo: "Abaixo de Deus, nós é que botamos pra quebrar."

O repertório de irregularidades descritas pelo livro é farto: nepotismo, venda de sentenças, manipulação de concursos, compra de imóveis a preços subfaturados, loteamento e "saque" de cartórios, corporativismo, desvio de verbas, advocacia pessoal, corrupção, padrões de vida incompatíveis com a renda e muitos outros.

Além disso, as matérias mostram como o Tribunal de Justiça do Estado era utilizado pelo Governador Paulo Hartung para manter um arranjo institucional onde seus inimigos fossem enviados ao ostracismo e aliados políticos com problemas na Justiça mantivessem seus mandatos sem problemas.

O curioso é que, de herói em "Espírito Santo", o Governador passa a vilão neste exemplar - e a hipocrisia de sempre utilizar a bandeira da "limpeza institucional" para justificar seus atos.

O material é pródigo na descrição de atos criminosos. Bons exemplos são a manipulação de concursos para que os aprovados fossem parentes dos desembargadores e o "loteamento" dos cartórios do estado. Inclusive um destes foi alvo de briga dentro da família do desembargador Frederico Pimentel (foto abaixo), ex-presidente do Tribunal de Justiça do Estado, por causa da divisão dos recursos do mesmo.


Outra história escabrosa do livro é a compra por parte de desembargadores de imóveis a preços (bem) abaixo do mercado da Construtora Galwan, especialmente. Estes imóveis, de alto luxo e metragens imensas, eram vendidos de forma facilitada e a preços baixos para os desembargadores e demais membros influentes do Poder Judiciário local, inclusive a membros do Ministério Público.

Em troca, a Construtora em questão obteve uma série de decisões favoráveis na mais alta esfera dos tribunais capixabas. Esta relação promíscua entre a empresa e os desembargadores é bem explorada em um dos capítulos.

Os capítulos finais mostram a tentativa de fazer de Frederico Pimentel "boi de piranha" da investigação e a entrevista por este dada a fim de tentar se livrar de tal papel. E a monumental pizza ao final do processo, onde as punições atingiram apenas a família do citado juiz.

Também é tema do livro o silêncio da imprensa tradicional, comprado através de anúncios oficiais por parte do governador.

As histórias contadas deixam claro que o Judiciário é muito pior que o Executivo ou o Legislativo. Reclamamos dos políticos mas, mal ou bem, eles podem ser trocados de quatro em quatro anos. E os juízes?

Outra pergunta: quem controla o Judiciário ?

Bom, na Travessa o livro custa R$ 30. Apesar de ser uma colagem de matérias e ser, por isso, carente de um ritmo mais encadeado, é leitura obrigatória.

Até para percebemos quão injusto é o sistema que deveria ser o guardião da justiça, mas, ao que parece, está preocupado mesmo é com questões mundanas, por um lado, e em defender os interesses dos mais ricos e mais poderosos, do outro.

Estarrecedor.


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Resenha Literária: "À Sombra do Ditador"


De volta após algum interregno temos a nossa já tradicional "Resenha Literária".

O livro de hoje é indispensável para se entender um dos personagens mais sórdidos, sanguinários e cruéis da história recente da América Latina: Augusto Pinochet, ex-ditador do Chile - que, sinceramente, espero que neste momento esteja no fundo do inferno.

Já abordei tal personagem na resenha de "Os Anos do Condor", mas este "À Sombra do Ditador", do ex-embaixador chileno no Brasil e ex-Vice Ministro das Relações Exteriores Chileno Heraldo Muñoz, trata o ditador como a figura central do livro.

Baseado nas memórias do autor - que viveu na oposição ao regime, em documentos do governo chileno e em entrevistas, traça um bom panorama da história do país desde os tempos pré-golpe até o fim do ditador, quando teve de conviver com a pecha de ladrão por terem sido encontradas contas no exterior com nomes falsos, frutos de comissões recebidas em diversos negócios - em especial envolvendo armas.

Uma das revelações do livro é de que Pinochet somente se incorporou aos conspiradores golpistas no último instante. Sua trajetória anterior no Exército trazia a marca de sempre estar a favor dos donos do poder e por uma habilidade de sempre perceber antes para onde os ventos sopravam.

Conta também como ele assumiu o comando do golpe em detrimento dos demais conspiradores e consolidou o seu poder. O livro revela, baseado em documentos e entrevistas, que se o Presidente deposto Salvador Allende não se matasse no Palácio de La Moneda acabaria morrendo na queda do avião disponibilizado para levá-lo ao exílio: a ordem era colocar pouco combustível na aeronave para que esta caísse.

Outra revelação é de que além de ter mandado exterminar com requintes de crueldade correligionários de Allende e opositores do regime, os conspiradores que se opuseram em algum momento à sua liderança também foram assassinados, ou mortos em acidentes e infecções "estranhas".

O exemplar é sórdido na descrição dos assassinatos cometidos pelo regime e nas torturas realizadas em verdadeiros "campos de concentração" abertos pelo regime para a tortura e o desaparecimento de presos políticos. Outro lado é o atentado sofrido pelo ditador em 1986 por integrantes de um grupo pára-militar, no qual por muito pouco não obtiveram o intento de assassinar Pinochet.

Também se descobre que a opção econômica pelo liberalismo irrestrito não era uma convicção pessoal de Pinochet. Pragmático, optou por esta linha a fim de tirar a economia do Chile da crise, o que conseguiu apesar de um brutal custo social. Assim mesmo a inflação em nenhum momento foi totalmente controlada durante a ditadura, bem como o desemprego sempre se manteve alto no período.

Como integrante da frente das oposições que liderou o "Não" ao plebiscito de outubro de 1988 - que significou o fim da ditadura chilena - Heraldo Muñoz descreve a formação da coalizão democrática, com lances de suspense, marchas e contra marchas. É uma bonita história de vitória da democracia ainda que jogando sob as regras determinadas pelo ditador.

A partir daí descreve-se a progressiva perda de poder do caudilho assassino e o processo sofrido na Espanha que resultou em sua prisão na Inglaterra e quase extradição - episódio também alvo de narrativa em "Os Anos do Condor". E seu crepúsculo, abandonado pelos fiéis aliados e enfrentando denúncias comprovadas de corrupção.

Ressalte-se, também, a sorte do autor em momentos cruciais da história, quando decisões erradas poderiam tê-lo transformado em mais uma vítima da repressão. Seu papel como articulador das oposições e na refundação do Partido Socialista Chileno, bem como a descrição das articulações entre as diversas correntes  é bem interessante para quem gosta de política.

Lembre-se, adicionalmente, do apoio dado pelo governo americano a Pinochet através do Secretário de Estado Henry Kissinger, e como os EUA foram afastando-se aos poucos do carniceiro, especialmente após o assassinato do ex-Chanceler de Allende Orlando Letelier, a poucas quadras da sede do governo americano em Washington. A ação, perpetrada a ordem do ditador, foi considerada audaciosa demais e marcou um ponto de inflexão na política americana em relação ao Chile.

Faço o registro do apoio incondicional da "Dama de Ferro" inglesa Margaret Thatcher a Pinochet, com respaldo total no episódio da prisão do ditador e declarações de apoio às atrocidades cometidas pelo governo chileno durante o regime de exceção.

Nesta resenha não esgoto todos os assuntos tratados, mas é leitura indispensável não somente para se conhecer um período da história que não deve se repetir quanto para aqueles que gostam de política. Certas passagens chegam a ser revoltantes, tamanha a crueldade dos órgãos governamentais.

Em resumo, livro obrigatório. Na Travessa, custa R$ 47.

Disponibilizo abaixo vídeo descoberto no site da Editora Zahar com uma palestra do autor sobre o livro. Apesar de ser em inglês, não é de difícil compreensão. Também reproduzo abaixo entrevista do autor ao Estadão, concedida na última semana.


Pinochet: o horror revisitado
Em livro, chileno Heraldo Muñoz, diplomata e ex-assessor de Allende, reabre feridas da ditadura


João Paulo Charleaux - O Estado de S.Paulo

Poucos ditadores foram tão minuciosamente escrutinados pela literatura latino-americana quanto o chileno Augusto Pinochet (1915-2006). O general que comandou durante 17 anos um dos regimes mais brutais do mundo - responsável por mais de 3 mil mortes e desaparecimentos, além de 28 mil casos de tortura - teve seu duro rosto marcial e seus medonhos óculos escuros transformados na própria personificação do terror dos regimes militares.

Uma figura assim, tão caricata de suas próprias brutalidades, dificilmente teria uma nova faceta a revelar. Mas o chileno Heraldo Muñoz, membro ativo do governo socialista de Salvador Allende durante o golpe de 11 de setembro de 1973, conseguiu transformar o que já seria um excelente relato emocional numa análise acurada do contexto político que selou o destino não apenas do Chile, mas de vários países do mundo que serviram de tabuleiro para o tenso jogo de interesses entre EUA e URSS nos anos 60 e 70.

Muñoz - que foi embaixador do Chile nas Nações Unidas até o início do ano, quando assumiu o cargo de diretor do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) - conta no livro A Sombra do Ditador - Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Zahar, 394 páginas, R$ 59) sua aventura como militante combativo (e combatente) nos anos de chumbo. Mas, mais do que isso, revela documentos pouco conhecidos sobre o envolvimento dos EUA no golpe e sobre o tenso bastidor do governo Allende, que tornou insustentavelmente aguda a divisão política do país a ponto de sofrer o que seria o primeiro golpe contra um líder marxista eleito democraticamente. A seguir, os principais trechos da entrevista que Muñoz concedeu ao Estado, de Nova York, por e-mail:

O sr. descreve um Pinochet astuto e oportunista, mas não muito inteligente. Não é demais supor que um homem assim tenha sido capaz de ficar no poder por 17 anos, resistindo não apenas às pressões dos democratas, mas passando para trás seus rivais militares também?

Pinochet se manteve no poder por uma combinação de fatores. Primeiro, ele tinha uma capacidade política inata e uma certa sagacidade, embora carecesse de bagagem cultural ou inteligência. Além disso, ele foi hábil em concentrar na polícia secreta da ditadura, a Dina, não apenas seu poder de repressão contra a dissidência, mas também contra qualquer sinal de desafio à sua autoridade proveniente de seus colaboradores mais próximos, fossem eles civis ou militares. Por outro lado, é importante lembrar que uma grande parte dos chilenos queriam, principalmente no início da ditadura, o restabelecimento da ordem e o fim da polarização política que caracterizou o último ano do governo Allende. Além disso, a Guerra Fria também ajudou, pois os EUA viram em Pinochet um aliado contra o comunismo.

Como o sr. compara as ditaduras do Chile e do Brasil?

O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a ditadura Pinochet, o que não é surpreendente se você considerar que alguns dos idealizadores do golpe no Chile reuniam-se regularmente na embaixada brasileira em Santiago. A ditadura brasileira também assessorou o regime Pinochet em técnicas de tortura e deu enorme apoio financeiro de emergência. No Brasil, entretanto, a ditadura foi mais institucional, menos personalista. Além disso, foi uma ditadura que teve a capacidade de fazer sua própria transição. E apesar de ter sido mais curta que a ditadura chilena, foi igualmente dura em termos de perdas humanas e torturas.

Seu livro torna clara a participação dos EUA no golpe no Chile, transcrevendo diálogos entre Pinochet e Henry Kissinger, secretário de Estado do então presidente americano Richard Nixon. A política americana para a América do Sul mudou quanto de 1973 para cá?

A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet uma vez me contou uma piada que era assim: Sabe por que não há golpe de Estado nos EUA? É porque lá não existe uma embaixada americana. Mas as coisas têm mudado. Primeiro, pelas prioridades que os EUA têm hoje em outras partes do mundo, especialmente depois do 11 de setembro de 2001. Depois, porque o presidente Barack Obama quer inaugurar uma nova página de relações com a região, embora os frutos sejam escassos.

O que há em comum entre a direita que venceu as eleições do Chile em janeiro e a que governou o país nos 17 anos de ditadura Pinochet?

A direita chilena não fez ainda sua mea-culpa por ter dado apoio ativo à ditadura de Pinochet. Há setores importantes da direita que rechaçam as violações de direitos humanos, é verdade. E o próprio presidente Sebastian Piñera (que assumiu em março rompendo uma hegemonia democrática da esquerda que durou de 1990 a 2010) votou contra a continuidade do regime Pinochet no plebiscito de 1988. Na verdade, a direita sabe que, para ganhar eleições, precisa hoje afastar-se da herança de Pinochet. Mas ainda há uns poucos dentro do governo que relutam em fazer isso, mesmo pagando um alto custo político.

O sr. conta que, um dia antes do golpe de 1973, Allende se preparava para propor a realização de um plebiscito sobre sua permanência no poder. A prática tem sido muito repetida nos últimos anos por presidentes sul-americanos de esquerda. É possível estabelecer alguma comparação entre estas duas formas de fomentar uma suposta democracia participativa direta?

Mas aquela foi uma consulta diferente. O que Allende buscava era uma saída política para a crise. Ele não planejava mudar a Constituição ou outras normas vigentes no país. O plebiscito de 1973 teria evitado um banho de sangue que a ditadura provocou. Provavelmente, Allende teria sido derrotado, ainda que ele tivesse esperanças de convencer o povo chileno usando seus melhores argumentos.

A SOMBRA DO DITADOR
De Heraldo Muñoz. Editora Zahar (tradução Renato Aguiar, 396 págs., R$ 59).