Nesta segunda feira, o tema deste blog não poderia ser outro: o diagnóstico de câncer da laringe dado ao ex-presidente Lula no último sábado.
Eu iria escrever sobre o tema, mas a coluna Bissexta, do advogado Walter Monteiro, traz o assunto de uma forma muito mais brilhante. Só tenho a dizer que neste episódio ficou claro o ódio de classe e o sentimento de egoísmo e exclusão de certos setores da sociedade brasileira - a ponto de até órgãos de imprensa conservadores terem sido obrigados a fechar a área de comentários de seus sites dado o ressentimento destilado.
Lamento, também, o comportamento de certos jornalistas torcendo abertamente pela morte do ex-presidente. É um bom sinal de que o jornalismo político no Brasil está cada vez mais político-partidário e cada vez menos jornalismo.
Mas o ex-presidente é mais forte e vai sair desta. Força, Lula!
Vamos ao texto.
A Raiva Que Não Passa do Presidente Operário
Fiz um raio-X da face. Eu e meu médico quase caímos para trás quando vimos o resultado. Há um espaço mínimo para as minhas vias respiratórias. É uma surpresa que eu nunca tenha me queixado de dificuldade para respirar, pois tenho um quadro claro de rinite não alérgica. Me receitou um remédio e disse que eu deveria notar uma melhora na respiração.
Fui na farmácia munido da receita. A vendedora me perguntou se eu ia comprar o remédio na “farmácia popular”. Frequentador assíduo de farmácias, sempre em busca de fraldas e leite infantil, já tinha visto dezenas de cartazes dessa tal farmácia popular, mas não tinha a menor ideia de como funcionava. A moça me disse que era um programa do Governo, que fornecia gratuitamente, ou com desconto substancial, uma série de medicamentos. O meu, por exemplo, sairia por um terço do preço.
Eu já estava pronto para lamentar que eu não deveria ser elegível ao benefício, até porque não tinha cadastro, inscrição, cartão de identificação ou coisa que o valha, nem estava com vontade de enfrentar um exército de burocracia para receber o desconto, quando veio o gerente me explicar melhor.
Ele me pediu a receita e a minha identidade. Digitou algumas coisas no computador, sem que eu visse do que se tratava. Imprimiu um recibo e me fez assinar. E me vendeu o remédio por um terço do preço, dizendo que daqui a 30 dias eu poderia comprar outro em qualquer farmácia conveniada. Nunca imaginei que fosse tão fácil e tão bom esse programa, que dá desconto até para gente que, como eu, claramente não precisa desse apoio.
Fiquei pensando nesse minúsculo episódio pessoal ao ler as raivosas manifestações da tigrada na web, exigindo que o ex-Presidente Lula vá se tratar pelo SUS.
Para meu gosto pessoal, a saúde pública brasileira está parecida com o time do Flamengo – nem tão boa que a gente possa sentir orgulho, nem tão mal que a gente chegue a sentir vergonha. A imprensa, como é o seu papel, destaca, sempre, as mazelas mais severas, mas há avanços sutis entre o que já vivemos tempos idos e a minha historinha revela um deles.
Muita gente acredita que saúde pública é sinônimo de hospital público.
Não é.
O Sistema Único de Saúde se baseia, essencialmente, na descentralização das atividades desempenhadas pelos governos da União, Estados e Municípios. E a rede privada participa do sistema de forma complementar, mediante convênio. Aliás, dos cerca de 6.500 hospitais que atendem ao SUS praticamente a metade pertence à iniciativa privada.
Portanto, essas manifestações demandando ao ex-Presidente que vá se tratar em um “hospital público” dão a medida do grau de desconhecimento de gente que se acha intelectualmente diferenciada, mas sequer sabe o que se passa no país e onde a população busca serviços públicos de saúde.
Essa gente não tem pudores de manifestar seu preconceito de modo explícito. Nunca, nunca mesmo, se viu mobilização semelhante para que qualquer um dos milhares de políticos fosse obrigado a passar por situação semelhante.
Depois que a gente atinge uma certa idade (uns 30 anos), ir ao médico, fazer exames de rotina e tratar alguma coisa vira uma constante. Idade, vale dizer, já alcançada por todos os políticos. E estão todos eles aí se tratando com seus respectivos médicos particulares, nos hospitais e clínicas particulares, sem despertar qualquer estranheza nos 'neocons' apatetados e desinformados.
Tudo isso porque a raiva do presidente operário não passa. Nem uma doença grave ou um drama pessoal arrefece os ânimos dos ressentidos.
Mas eu vou ser generoso e dar um alento à mesquinharia alheia.
Os políticos brasileiros dividem suas preferências entre os hospitais Albert Einstein (onde faleceu o ex-Presidente Itamar Franco) e o Sírio Libanês (onde Lula está se tratando). Detesto ser estraga prazeres da campanha sórdida de vossas senhorias, mas ambos são um dos muitos hospitais conveniados da rede SUS. Ressalvo que o Albert Einsten tem uma cobertura mais ampla para os usuários do SUS e o Sírio Libanês atua apenas em casos mais restritos
Para poupar trabalho, deixo o link da página do Ministério da Saúde mostrando que há sim hospitais de boa qualidade à disposição de qualquer um.
Sou obrigado a concordar que o digamos "padrão de atendimento" possa não ser o mesmo para os pacientes pagantes e para os não pagantes. Mas essa é uma outra discussão, inclusive de natureza ética. Capaz inclusive de requerer um artigo exclusivo sobre a famigerada "dupla porta", que é o apelido que se dá à prática de encaminhar os pacientes particulares a um setor do hospital e a turma do SUS a outro setor menos luxuoso.
O que importa é saber que ter hospitais de qualidade, ao menos em tese, não é uma exclusividade de ex-presidentes. Mudem de assunto, corvos! Vamos torcer pela saúde de Lula.
Eu iria escrever sobre o tema, mas a coluna Bissexta, do advogado Walter Monteiro, traz o assunto de uma forma muito mais brilhante. Só tenho a dizer que neste episódio ficou claro o ódio de classe e o sentimento de egoísmo e exclusão de certos setores da sociedade brasileira - a ponto de até órgãos de imprensa conservadores terem sido obrigados a fechar a área de comentários de seus sites dado o ressentimento destilado.
Lamento, também, o comportamento de certos jornalistas torcendo abertamente pela morte do ex-presidente. É um bom sinal de que o jornalismo político no Brasil está cada vez mais político-partidário e cada vez menos jornalismo.
Mas o ex-presidente é mais forte e vai sair desta. Força, Lula!
Vamos ao texto.
A Raiva Que Não Passa do Presidente Operário
Fiz um raio-X da face. Eu e meu médico quase caímos para trás quando vimos o resultado. Há um espaço mínimo para as minhas vias respiratórias. É uma surpresa que eu nunca tenha me queixado de dificuldade para respirar, pois tenho um quadro claro de rinite não alérgica. Me receitou um remédio e disse que eu deveria notar uma melhora na respiração.
Fui na farmácia munido da receita. A vendedora me perguntou se eu ia comprar o remédio na “farmácia popular”. Frequentador assíduo de farmácias, sempre em busca de fraldas e leite infantil, já tinha visto dezenas de cartazes dessa tal farmácia popular, mas não tinha a menor ideia de como funcionava. A moça me disse que era um programa do Governo, que fornecia gratuitamente, ou com desconto substancial, uma série de medicamentos. O meu, por exemplo, sairia por um terço do preço.
Eu já estava pronto para lamentar que eu não deveria ser elegível ao benefício, até porque não tinha cadastro, inscrição, cartão de identificação ou coisa que o valha, nem estava com vontade de enfrentar um exército de burocracia para receber o desconto, quando veio o gerente me explicar melhor.
Ele me pediu a receita e a minha identidade. Digitou algumas coisas no computador, sem que eu visse do que se tratava. Imprimiu um recibo e me fez assinar. E me vendeu o remédio por um terço do preço, dizendo que daqui a 30 dias eu poderia comprar outro em qualquer farmácia conveniada. Nunca imaginei que fosse tão fácil e tão bom esse programa, que dá desconto até para gente que, como eu, claramente não precisa desse apoio.
Fiquei pensando nesse minúsculo episódio pessoal ao ler as raivosas manifestações da tigrada na web, exigindo que o ex-Presidente Lula vá se tratar pelo SUS.
Para meu gosto pessoal, a saúde pública brasileira está parecida com o time do Flamengo – nem tão boa que a gente possa sentir orgulho, nem tão mal que a gente chegue a sentir vergonha. A imprensa, como é o seu papel, destaca, sempre, as mazelas mais severas, mas há avanços sutis entre o que já vivemos tempos idos e a minha historinha revela um deles.
Muita gente acredita que saúde pública é sinônimo de hospital público.
Não é.
O Sistema Único de Saúde se baseia, essencialmente, na descentralização das atividades desempenhadas pelos governos da União, Estados e Municípios. E a rede privada participa do sistema de forma complementar, mediante convênio. Aliás, dos cerca de 6.500 hospitais que atendem ao SUS praticamente a metade pertence à iniciativa privada.
Portanto, essas manifestações demandando ao ex-Presidente que vá se tratar em um “hospital público” dão a medida do grau de desconhecimento de gente que se acha intelectualmente diferenciada, mas sequer sabe o que se passa no país e onde a população busca serviços públicos de saúde.
Essa gente não tem pudores de manifestar seu preconceito de modo explícito. Nunca, nunca mesmo, se viu mobilização semelhante para que qualquer um dos milhares de políticos fosse obrigado a passar por situação semelhante.
Depois que a gente atinge uma certa idade (uns 30 anos), ir ao médico, fazer exames de rotina e tratar alguma coisa vira uma constante. Idade, vale dizer, já alcançada por todos os políticos. E estão todos eles aí se tratando com seus respectivos médicos particulares, nos hospitais e clínicas particulares, sem despertar qualquer estranheza nos 'neocons' apatetados e desinformados.
Tudo isso porque a raiva do presidente operário não passa. Nem uma doença grave ou um drama pessoal arrefece os ânimos dos ressentidos.
Mas eu vou ser generoso e dar um alento à mesquinharia alheia.
Os políticos brasileiros dividem suas preferências entre os hospitais Albert Einstein (onde faleceu o ex-Presidente Itamar Franco) e o Sírio Libanês (onde Lula está se tratando). Detesto ser estraga prazeres da campanha sórdida de vossas senhorias, mas ambos são um dos muitos hospitais conveniados da rede SUS. Ressalvo que o Albert Einsten tem uma cobertura mais ampla para os usuários do SUS e o Sírio Libanês atua apenas em casos mais restritos
Para poupar trabalho, deixo o link da página do Ministério da Saúde mostrando que há sim hospitais de boa qualidade à disposição de qualquer um.
Sou obrigado a concordar que o digamos "padrão de atendimento" possa não ser o mesmo para os pacientes pagantes e para os não pagantes. Mas essa é uma outra discussão, inclusive de natureza ética. Capaz inclusive de requerer um artigo exclusivo sobre a famigerada "dupla porta", que é o apelido que se dá à prática de encaminhar os pacientes particulares a um setor do hospital e a turma do SUS a outro setor menos luxuoso.
O que importa é saber que ter hospitais de qualidade, ao menos em tese, não é uma exclusividade de ex-presidentes. Mudem de assunto, corvos! Vamos torcer pela saúde de Lula.
(Foto: O Globo)














