Mostrando postagens com marcador Samba de Terça. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Samba de Terça. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Samba de Terça - "E a Magia da Sorte Chegou"



Nestes tempos de incêndios, desculpas esfarrapadas e "febeapás", nossa coluna de hoje, excepcionalmente na quinta feira, traz aquela que foi uma das maiores tragédias carnavalescas e que poderia ser, também, uma tragédia em mortos e feridos: Unidos da Viradouro 1992, "E a Magia da Sorte Chegou".

A vermelha e branca de Niterói durante muitos anos desfilava apenas no carnaval da cidade limítrofe ao Rio de Janeiro, que possuía um desfile bastante forte, embora de nível inferior ao do Rio de Janeiro. Sua grande concorrente era a Acadêmicos do Cubango, cujo samba "Afoxé", defendido em 1979 no carnaval local e reeditado em 2009 abriu esta série - embora eu pretenda reescrever este texto.

No final da década de 80 a Viradouro, com nova diretoria - capitaneada pelo banqueiro do jogo do bicho José Carlos Monassa - passou a desfilar no carnaval da Cidade Maravilhosa e obteve uma ascensão meteórica: em três anos a escola veio do quarto grupo, então último - hoje são seis - para o Olimpo do samba.

No ano anterior, em sua estréia no Grupo Especial, mesmo abrindo o desfile e ainda de dia a escola obteve um honroso sétimo lugar com um enredo em homenagem à comediante Dercy Gonçalves. Detalhe é que a escola acabou a apuração empatada com a quarta colocada Beija Flor e somente nos critérios de desempate caiu para o sétimo lugar.

Para 1992, a estratégia da diretoria da escola era dar um salto de qualidade e buscar o título do carnaval carioca. O presidente e patrono não mediria esforços - e grana - para levar a vermelho e branco a seu objetivo.

O enredo escolhido pelos carnavalescos Max Lopes e Mauro Quintaes foi "E a Magia da Sorte Chegou", que visava fazer uma homenagem ao povo cigano contando seus costumes, suas crenças, sua história, as perseguições sofridas pelo povo e a sua luta pela liberdade.


A preparação da escola seguia a todo vapor. O carro que representava a Sibéria e os ciganos russos (acima) era considerado o grande "xodó" dos carnavalescos. A escola se preparava com grandiosidade para o carnaval.

Poucos dias antes do desfile, um dos carnavalescos, Max Lopes, mostrou o barracão a um grupo de ciganos que fora convidado especialmente para este fim. Ao final da visita, um dos líderes do grupo virou para Max Lopes e disse que "estava faltando uma fogueira, que toda festa cigana tem fogueira e que deveria haver alguma representação desta em um dos carros".

O carnavalesco disse que não iria alterar o projeto e depois da partida do grupo teria feito o seguinte comentário: "eu já estou homenageando os caras, ainda querem se meter no meu trabalho?" A escola ainda teve outros problemas na preparação de seu desfile. A equipe da escola ainda contava com o lendário Mestre Marçal, além de Paulinho de Pilares, no comando da bateria, bem como o puxador Quinzinho, ex-Império Serrano.

A Unidos do Viradouro seria a sétima e penúltima escola a desfilar no domingo de carnaval, 01 de março. Na verdade ela seria a sexta a desfilar, só que a Acadêmicos de Santa Cruz ganhou na justiça o direito de desfilar no Especial aquele ano - faltara luz no ano anterior e ela não foi julgada. Só que a escola da Zona Oeste desfilou às cinco da tarde e, óbvio, foi a última colocada...

A vermelha e branca pisou na avenida com pinta de campeã. Belos carros, o excelente samba muito bem puxado e a escola, embora muito grande, estava compacta. Um grande e marcante desfile. Mas...



Em frente ao Setor 11 o carro das geleiras russas, com os cães, pegou fogo de forma inexplicável até se consumir totalmente. Uma densa fumaça negra subiu pela pista e a escola ficou parada longo tempo até que o fogo consumisse todo o carro, com material inflamável.

O carro, o mais belo do desfile, consumiu-se inteiro. Como podem ver no vídeo acima da extinta TV Manchete, que possui uma boa descrição do fato, o socorro demorou demais - até pelas características do Sambódromo - e se não houve uma grande tragédia foi por pura sorte. A escola ficou parada um bom tempo e com isso acabou estourando o tempo máximo de desfile em 13 minutos, o que representou uma penalização de igual número de pontos na apuração.

Com isso, o sonho do título e até de uma boa colocação estava acabado, desfeito. Pelo menos não houve vítimas.

Na apuração, a escola obteve o total antes da penalização pelo tempo de 294,5 pontos, o que a deixaria incrivelmente ainda na terceira colocação. Lembre o leitor que a escola ficou parada um longo tempo e que isso impacta nos quesitos Evolução e Conjunto. ou seja, caso não houvesse o incêndio provavelmente a escola brigaria de igual para igual com Estácio e Mocidade, as grandes vencedoras daquele ano.

Penalizada, os 281,5 pontos relegaram a escola apenas ao nono lugar. Se o carnavalesco tivesse ouvido os ciganos...

Vamos ao belo e melodioso samba, de autoria de três lendas do carnaval: Gelson (já falecido, autor também do inesquecível "Gosto que Me Enrosco", da Portela 1995), Flavinho Machado e Heraldo Faria. Aqui você pode baixar a versão original do cd daquele ano.

O samba tem uma frase que é a síntese do povo cigano: "a liberdade é sua religião".

Vamos à letra:

"Uma estrela brilhou
Brilhou, brilhou, brilhou
Tão cintilante e os magos iluminou
Será o novo sol do amanhã
O arco-íris da aliança que não se apagará
Vem do Oriente com sua arte de criar
Na palma da mão lê a sorte
Com a magia do seu olhar
Chegando ao velho continente
A marca da desilusão
Castigo, degredo, açoite
Porque tanta discriminação ?

A cada passo, a poeira levanta do chão
Ferreiro, feiticeiro, bandoleiro
A liberdade é sua religião

E vem chegando o dono desse chão
No berço, a mão do menino
Abriu-se ao destino, eis a nova Canaã
Ê, ê, cigano, bandeirante em busca de cristais
Canta, dança, representa
Dá vida a nossos laços culturais
Cigano-rei, mineiro iluminado
O mundo não vai esquecer
Plantou no solo brasileiro
A realização do amanhecer
É uma nova era, ô, ô, a magia da sorte chegou

O sol brilhará, surge a estrela guia
E sob a proteção da lua
Canta a Viradouro, que a sorte é sua"

Aproveito para informar aos leitores que a coluna "Samba de Terça" está sendo publicada também no site "Galeria do Samba", um dos mais prestigiosos do carnaval carioca. Os textos inéditos serão publicados sempre aqui pela manhã e lá na parte da tarde. É um pequeno reconhecimento ao trabalho de resgate da memória do nosso carnaval empreendido nestas linhas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Samba de Terça - "E Por Falar em Amor, Onde Anda Você?"



Em mais uma terça feira, mais uma oportunidade de relembrar sambas inesquecíveis, desfiles inesquecíveis.

Nosso tema de hoje é uma samba que é muito caro para mim, pois marcou minha volta à avenida após três carnavais afastado do Grupo Especial por motivos pessoais, por um lado. E por outro, finalmente a minha estréia no Desfile das Campeãs do carnaval carioca.

A Portela vinha de uma quarta colocação no carnaval anterior, em 2008, retornando ao grupo das escolas que desfilavam no sábado das campeãs após dez anos. Para 2009, a escola havia perdido o carnavalesco Cahê Rodrigues para a Acadêmicos da Grande Rio, trazendo então Lane Sanmtana - com passagens pela Unidos da Tijuca e outras escolas - e Caribé, campeão do Grupo de Acesso B pela Inocentes de Belford Roxo em resultado bastante contestado.


Como habitual na gestão do Presidente Nilo Figueiredo, a Portela demorou bastante até definir seu enredo para o carnaval 2009. Falaram-se em várias alternativas, até que se definiu um tema clássico e poético: "E Por Falar em Amor, Onde Anda Você?", onde a escola falaria do sentimento que move o mundo: o amor.

Era mais uma tema que propriamente um enredo, mas tinha o mérito de ser o primeiro enredo não patrocinado desde que a atual diretoria assumiu a escola. E, com certeza, geraria grandes sambas apesar do tempo extremamente curto para a disputa propriamente dita.

Nas palavras da sinopse:


"O amor é a linguagem universal. Nasceu junto com o homem e ainda se multiplica em sementes, resistindo bravamente às investidas do mal.

Assim como o ar, o amor deveria estar presente em todos os lugares. Sem ele, ninguém consegue respirar. Muito menos, suspirar.

Caligrafia divina, o amor tem escrita fina, escrevendo certo por linhas tortas. Está nas Sagradas Escrituras e nas línguas mortas. Enfrenta os maiores desafios para vencer os obstáculos que o separam da felicidade. O amor é início, meio e fim - mas não tem idade.

Ah, o amor!...


Dizem que na Idade das Trevas, quando o homem ainda vivia na obscuridade, entre as mazelas da guerra e epidemias que varriam o solo europeu, um rei deu tudo de seu. Demonstrou que o amor a seu país e à sua gente era mais importante que a própria vida. Ensinou que o homem depende da honra para atingir seus ideais e foi glorificado pelos poderes de uma espada, no silêncio dos séculos adormecida.

Diante de Sua Majestade curvaram-se doze cavaleiros que juraram eterna lealdade, defendendo o Rei e o Estado. Lendas de aventuras e heroísmo circulavam por todos os povoados, perpetuando a coragem e o estoicismo através de gerações medievais. Feitos de bravura e resignação tornaram-se uma tradição, sinônimos de verdadeiras provas de amor.

Era assim que a vida se construía. Cada degrau da escadaria guardava uma página de magia e um "quê" de bruxaria. E um feitiço impediria que a noite se encontrasse com o dia...

A distância deixada quando o amor se vai, brota uma lágrima no rosto da saudade. Na Índia, a lenda tornou-se realidade. O imperador jamais conseguiu mensurar a intensidade da dor desde o momento em que perdeu a sua amada.


Mandou construir um palácio para traduzir o que sentia: durante vinte anos, noite e dia, vinte mil homens puseram pedra sobre pedra para erguer a morada de quem já não existia.

Hoje, quando o sol se põe, o mármore do palácio ainda muda de cor, escrevendo sobre a terra o que restou de uma fascinante história de amor.

Ah... as histórias de amor! Elas atravessaram os mares e foram escritas em areias de praias brasileiras. Eram histórias-metade, histórias inteiras, que ensinavam o amor à nossa terra, à nossa gente e a todo esse continente chamado Brasil.

Histórias que contavam a mistura de raças e pensamentos, insurreições e movimentos pelo amor à liberdade. Histórias que custaram a vida, engrandeceram a morte, e com muito amor consolidaram a História dessa pátria tão querida.


Ah, meu Brasil! Que bom seria se todos te amassem... te respeitassem e zelassem pelo que é teu!

Que bom seria se cuidássemos da Natureza com mais amor!

Com toda a certeza, é a maior de nossas riquezas e a esperança para o planeta não sufocar com o calor. Devemos lutar pela sua integridade e pelo ar que respiramos.

Em nome do Pai, das Espécies e de todos os Seres Humanos.

Ah, meu Brasil, de sonhos possíveis, de tantos feitos incríveis!

Meu Brasil de ouro, de prata e de bronze; meu Brasil, que é craque nas onze!

Minha província mineral, tão rica no solo quanto em pérolas desse tesouro cultural.


Amor sugere emoção e é capaz de derreter o mais forte dos bravos. Basta tocar o coração. Foi assim que o vento levou... e nos arrebatou com um beijo à meia-luz, num cabaré em Casablanca. É assim que o amor nos conduz, meio Ghost, do outro lado da vida. Amores sem medida nos olhos do ator, refletido nos lábios da atriz - no escurinho do cinema, chupando drops de anis. Este é o amor com suas emboscadas, arrastando-nos para as ciladas da vida, transformando a platéia apaixonada em manteiga derretida.

Amor é energia. É a força que nos move para encontrar as soluções do dia-a-dia. É fonte de inspiração e plataforma de criação para uma vida mais sadia.

Amor é Física, é Química, é o fenômeno da aproximação: é o mistério que materializa a teoria da imaginação!

Amor envolve com sutileza: nos conselhos da mãe, nas palavras da professora, nos ensinamentos da fé, nas manifestações da Natureza.



O amor não é um privilégio do homem e também desperta "frisson" entre os animais. Nesse festival de paixão, quem ousa mais?

Os relógios anunciam que o tempo não pára e é hora de deixar o amor de lado para produzir. E tome tecnologia! Toda hora, todo dia. Escravo dos ponteiros, o homem vive pendurado nos fones do Ipod. Debruçado no laptop. Enfiado no PC... Será que ninguém mais se curte? Não, agora muitos namoram em salas virtuais e na interface do orkut.

A família já não se conhece, ninguém mais se fala - nem se abala. Na sala de jantar do nosso enredo, a TV de plasma é quem põe à mesa. E quando a gente descobre, o medo e a violência estão no cardápio do horário nobre.

Precisamos evoluir sem perder a essência: o sentimento é soberano. Eis a Ciência que dá sentido à vida do ser humano.


O amor traz saudade e nos acalanta no balanço do bonde que arrastava foliões para o Centro da Cidade. O bonde dos cordões, salão itinerante de um tempo sem maldade.

Lá se vão confetes e serpentinas, o bloco da esquina, o Bafo e o Cacique sacudindo a Avenida. Brincar, cantar, pular não era apenas fantasia. A gente era feliz e não sabia.

Amar também é viver de nostalgia e flutuar na magia de amores efêmeros, como num baile de carnaval. Amores anônimos, mascarados, dissimulados, atrevidos, insuflados por cupidos fantasiados, enternecidos por anjos endiabrados.


"Quanto riso!
Oh, quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão
O Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão..."

É chegado o momento de fazer uma reflexão para responder à pergunta que vem lá do coração:

- E por falar em Amor, onde anda você?

Tomara que nosso reencontro se dê nesta noite gloriosa, antes que a orquestra encerre o baile com a "Cidade Maravilhosa".

É hora de ir embora, preciso cuidar da vida. Falei tanto de amor, que bateu a maior saudade da minha Portela querida.



GRES PORTELA
Presidente: Nilo Figueiredo
Autores: Marta Queiroz e Cláudio Vieira
Carnavalescos: Lane Santana e Jorge Caribé
Desenvolvimento: Equipe de Criação do GRES Portela



A disputa de samba foi um espetáculo à parte. Com um enredo e sinopse que ajudavam, os poetas portelenses estavam inspirados, o que gerou uma grande safra de sambas. A escola tinha pelo menos sete sambas em condições de ir para a avenida: os cinco finalistas e mais os sambas das parcerias de Juan Espanhol e Caixa D´Água.

Este último tinha versos que eram poesia pura: 

"Paixão quando marca
No peito é sufoco
É feitiçaria
No coração"

Meu preferido era o samba da parceria de Serginho Procópio, que tinha, além de uma cadência que respeitava os grandes sambas portelenses, um refrão do meio sensacional:

"Eu trouxe rosas pra te dar, são emoções
Detalhes feitos pra tocar os corações
Quem ama a Portela hoje vem pra cantar
O amor assim da cor do céu da cor do mar"

Mas o samba favorito de grande parte dos portelenses era o da parceria da compositora Eliane Faria, filha do grande Paulinho da Viola. Tinha um refrão absolutamente "arrasa quarteirão", que dizia:


"Meu coração tem mania de amor
Sem a Portela não sei o que sou
21 vezes me fez delirar
É o meu rio, o meu céu e o mar"

A final de samba foi extremamente concorrida. Além das duas parcerias que citei aqui, tínhamos a sempre favoritíssima formada por Scafura e Diogo Nogueira - cuja "rádio corredor" dizia desde o início que seria o vencedor - e duas parecerias que representavam, os dois maiores "escritórios" de sambas carioca: a de Cristiane Mazarim, representando Cláudio Russo, e a de Flávio Bororó, trazendo André Diniz consigo.

O samba de Serginho Procópio sofreu com estranhíssimas falhas de som na finalíssima, e Eliane Faria e parceiros fizeram uma apresentação absolutamente inesquecível. Entretanto, uma vez mais a diretoria da escola ignorou os segmentos da escola e consagrou como campeão o samba de Júnior Scafura, o pior dos cinco concorrentes finalistas. Um bom samba, mas com um pecado mortal para o enredo: era frio.



Outra grande novidade da Portela para aquele carnaval era a porta bandeira Daniele Nascimento, nada mais que filha da grande Vilma, a maior da história da azul e branco.


A escola seguia seus preparativos sob desconfiança geral. Dizia-se que os carnavalescos eram inexperientes e que o barracão estava atrasado. Os portelenses, em particular, estavam confiantes em um bom resultado.

Por meu turno, eu estava bastante ansioso. Não desfilava desde o malfadado desfile de 2005 - contei aqui a história - e iria voltar à avenida, com a minha paixão, na mesma ala. Quando estive na quadra, após um longo jejum, em janeiro, chorei copiosamente de emoção ao ver a bateria tocar.


A escola seria a quarta a desfilar na segunda feira de carnaval, 23 de fevereiro. A concentração teve um início um pouco estressante, mas depois se tornou tranquilíssima. Minha fantasia, como vêem acima, representava o "amor virtual".

A Portela passou amorosa, flutuando pela avenida Marquês de Sapucaí. Para quem desfilou como eu foi muito bacana, pois pudemos brincar carnaval de uma forma bastante agradável. Vim na última fila de minha ala, auxiliando na Harmonia, e assim mesmo brinquei muito.

Chorei quando vi Daniele dançando com todo seu simbolismo.


O criticado samba, apesar de frio, possibilitou um desfile delicioso à escola, por não cansar para se cantar e evoluir. A Portela saiu da avenida como uma das favoritas a voltar entre as seis campeãs do carnaval no sábado seguinte.

Em uma apuração onde o Salgueiro se destacou merecidamente desde o início como vencedor, a escola brigou ponto a ponto com a Beija Flor e a Vila Isabel pelo vice campeonato, acabando por lograr o terceiro lugar, com 397,9 pontos - e perdendo o segundo lugar na última nota. Era a melhor classificação desde 1995 para a minha águia de Oswaldo Cruz.

Entretanto, a passagem na escola no sábado das campeãs foi muito boa, como se pode ver no vídeo abaixo. Eu, particularmente, quebrava o tabu de jamais ter desfilado nesta ocasião - e brinquei muito.



Vamos abaixo ao samba, que o leitor pode ouvir em uma versão completa da avenida, desde o esquenta até o final:



Autores: Ciraninho, Diogo Nogueira, Júnior Escafura, Wanderley Monteiro e L.C. Máximo 
Puxador: Gilsinho 

"Brilha Portela! Das trevas renasce o amor 
Doze cavaleiros se uniram 
Um rei a lealdade conquistou 
Lendas de um povo europeu 
Feitiços, mistérios, magia 
A lua vem beijar o astro rei 
A noite se encontra com o dia 
Lágrimas nos olhos do imperador 
Na índia, o palácio da saudade 
Mãe África negra! O amor cruza o mar! 
Liberdade! 

Meu coração guerreiro 
É raça, é filho desse chão 
Meu canto tem raiz, é brasileiro 
É natureza e miscigenação 

Cenas de cinema, lindos temas de amor 
A união da família, momentos que o vento levou 
O homem tem que usar a consciência, 
As maravilhas da ciência 
Para viver em harmonia 
Vem recordar... ranchos, blocos e cordões 
Os mascarados no nos salões 
As fantasias no Municipal 
Embarque nesse bonde, é Carnaval! 
São vinte e uma estrelas que brilham no meu olhar 
Se eu for falar da Portela não vou terminar 
Lá vem minha águia no céu da paixão! 
O azul que faz pulsar meu coração! 

Oh! Majestade do Samba 
Meu orgulho maior é tua bandeira! 
Chegou minha Portela! Meu eterno amor! 
A luz de Oswaldo Cruz e Madureira"

(Fotos: Fabrício Gomes e Liesa)



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Samba de Terça - "A Grande Constelação das Estrelas Negras"



Mais uma terça feira, ares soteropolitanos, e a nossa coluna "Samba de Terça" traz um samba - sugestão do leitor Emerson Braz - que nem é brilhante, mas é personagem de um dos resultados mais polêmicos da história do carnaval carioca: Beija Flor 1983.

A Beija Flor era uma escola pequena, que transitava entre o primeiro e o segundo grupos do carnaval carioca. Em 1974 e 1975 desfilou com enredos de exaltação à ditadura militar, o que granjeou antipatias extremas em setores da intelectualidade carioca.

Em 1976 o banqueiro do jogo do bicho Anisio Abrahão David assumiu a escola - onde se encontra até hoje - e investiu fortemente para colocá-la no grupo das grandes. Trouxe do Salgueiro o carnavalesco bicampeão Joãozinho Trinta e gastou muito dinheiro a fim de revolucionar o visual dos desfiles.

Com isso, a escola foi tricampeã em 1976, 77 e 78, vice em 1979, campeã de novo em 1980 - junto com a Portela e a Imperatriz Leopoldinense - e vice em 1981.

Entretanto, em 1982 a escola foi apenas a sexta colocada, ainda tendo de enfrentar um desconto de pontos como punição por ter desfilado com pessoas vivas em suas alegorias - isso era proibido no regulamento daquele ano.

Para o ano seguinte a escola de Nilópolis optaria por um enredo de fácil comunicação com o público: "A Grande Constelação das Estrelas Negras". O objetivo era listar personalidades negras de destaque como Pelé, Clementina de Jesus, Ganga Zumba e a passista da escola Pinah - que havia deixado embasbacado o Príncipe Charles da Inglaterra em evento aqui no Brasil.

A escola não tinha tradição de grandes sambas, à exceção de 1976 - e o samba escolhido para o carnaval de 83 também não era dos melhores daquele ano. Ainda mais comparando-se com sambas como o do Império Serrano, o da Portela e o da Mocidade Independente, entre outros.

Aliás, Joãozinho Trinta e Paulo Barros, dois dos grandes revolucionadores artísticos do carnaval têm a característica de que as escolas onde passam não possuem grandes sambas enquanto estão lá. Curioso.

Os autores da composição eram o puxador Neguinho da Beija Flor e seu irmão, Nego - este mesmo que hoje é intérprete da Mocidade. Era um samba curto e que estava a serviço do visual proposto pelo carnavalesco.

A Beija Flor foi a décima segunda e última escola a desfilar, já na no final da manhã da segunda feira de carnaval, 14 de fevereiro - sob um sol escaldante. Toda em branco e prata, a agremiação encerrou os desfiles daquele ano. Se o leitor observar o vídeo com atenção verá que os carros da escola nada mais eram que plataformas para mulatas e destaques - como Jesus Henrique e a cantora Clementina de Jesus - sem esculturas que contassem o enredo - mais tema que enredo.

A expectativa para a apuração era de que a Mocidade Independente, o Império Serrano e a Portela duelariam ponto a ponto pelo título. Mas...

Em um resultado surpreendente a escola de Nilópolis conquistou o título, com 204 pontos, três à frente da Portela e quatro do Império Serrano. A Mocidade parou apenas em sexto, mais de dez pontos atrás da campeã.

Logo depois começaram a aparecer as histórias da apuração. A primeira delas foi a de um jurado de samba enredo, que deu nota sete para o Império Serrano (um escândalo) e  dez somente para a Beija Flor. O sujeito, que não tinha muitas condições financeiras, apareceu na semana seguinte ao carnaval com um Monza 0km - o carro considerado "chique" à época - dado por não se sabe quem.

E tivemos o "Fator Messias Neiva". Jurado de alegorias, decidiu o carnaval ao dar Nota Dez apenas para a Beija Flor - que só tinha pessoas em cima dos carros, mais nada - e seis para Portela e Mocidade. Como a diferença final foi de três pontos, ele deu o título à Beija Flor. 

Ele foi acusado de ter recebido 1 milhão de cruzeiros - a moeda da época - para dar estas notas. Mas vamos à matéria publicada no jornal O Globo em 19 de fevereiro de 1983, sábado seguinte ao desfile, que uma boa alma digitalizou, colocou em uma das listas de discussão e eu tive o cuidado de guardar. Ela fala por si só - os grifos são meus:

"Messias nem se lembra dos enredos das escolas

O jurado Messias Neiva afirmou ontem ter "esquecido" até o enredo da Portela e só poderá explicar por que lhe deu nota seis em Alegorias e Adereços se ver o teipe do desfile. Ele disse ter esquecido também o enredo e a razão da nota oito à Imperatriz Leopoldinense e não se lembra sequer do enredo do Império Serrano. Reconheceu que não entende de samba e disse que, se a Mocidade Independente tivesse colocado o tatu no chão, e não em cima da árvore "levaria mais dois pontos".

Artista plástico, morador de Caxias, Messias Neiva disse não ter recebido qualquer orientação da Riotur sobre como votar: "Fui lá e dei nota de acordo como que senti na hora". Ele informou que foi convidado para o júri por um freguês de seus quadros, o juiz José Cauipe, que o apresentou ao Coronel Annibal Uzêda. Nas reuniões a que compareceu, soube apenas que não poderia dar nota zero.

Justificativas

Ele mostrou ao GLOBO o papel no qual justificou as notas dadas à Unidos da Tijuca, União da Ilha, Mocidade Independente e Mangueira - únicas escolas que mereceram anotações ao lado da nota. A Unidos da Tijuca, por exemplo, tirou sete porque "um cidadão empurrava um carro à paisana":

- Esse cara matou o desfile da escola, porque ela merecia mais, mas ele empurrava um carro alegórico sem estar fantasiado. (A Riotur, porém, permite que os componentes empurrem os carros sem fantasia, o que em todas as escolas.)

Messias Neiva, que disse viver de sua pintura "desde a década de 50", começou a carreira como pintor de letreiros eleitorais. Sobre a acusação de ter recebido Cr$ 1 milhão da Beija-Flor para lhe dar dez, disse:

- É muito pouco para eu sujar meu nome.

Ele confirmou que vem recebendo ameaças de morte e recusou-se a dar seu endereço, em Caxias, onde mora com a família. A entrevista foi na casa de um amigo, em Copacabana.

Esquecimento

Messias afirmou que julgou o desfile "como artista e não como sambista", porque não entende de samba. A Mocidade Independente foi a única escola que ontem soube analisar rapidamente, mas se referiu a seu enredo como "aquela coisa da selva":

- Da Mocidade eu sei: nos carros, vinha a vegetação lá em cima uma mulher, com onças em volta dela trepadas na árvore. No segundo carro, vinham tatus nas copas das árvores: foi nesse carro que ela levou pau. Se ela colocasse os pássaros em cima e o tatu em baixo eu aumentaria a nota em dois pontos: de seis para oito. No terceiro carro, vinha a selva, mas faltou a mulher: ou seja, ela adoeceu ou se atrasou. A Riotur disse que, se faltasse um componente, a gente tinha direito até de deixar de votar. E eu vi o espaço da figura viva vazia.

- E a Mangueira, por que mereceu seis?

- Ah, a Mangueira estava fraca de alegoria e aquele trem realmente era maravilhoso, enchia os olhos da gente, mas era só um belo trabalho de carpintaria.

- E o seis da Portela?

- Dei o que ela merecia.

- Mas por que merecia seis?

- Porque na hora eu vi e achei que era seis. Agora não me lembro mais. Como é que posso me lembrar do que vi há quatro dias?

- Você não se lembra nem do enredo? Qual era o enredo da Portela?

- Sinceramente não sei, não posso me lembrar de todos. Sei que a escola estava maravilhosa, não houve falhas.

- E por que o seis, se não houve falhas?

- Ih, já vi que você é portelense. Ora, não sei me lembro. Na hora, eu achei que era seis. Se você me trouxer o teipe do desfile, eu digo.

- Ué, a União da Ilha?

- A União da Ilha tenho aqui anotado ( e começa a ler sua justificativa): "Uma senhora sonolenta em cima de um carro, oferecendo perigo". Dei nota sete por isso.

Visão Precária

Messias Neiva não se lembra nem do enredo da Beija-Flor, única escola que mereceu sua nota dez, "porque desfilou de dia, para o sol, e pude ver tudo melhor". Ele explicou que os desfiles durante a noite são sempre prejudicados pela má visibilidade (ele abaixou-se junto ao abajur para ler, sem óculos, suas anotações com dificuldade de visão e, na Avenida Marquês de Sapucaí, também não usava óculos).

- O artista da Beija-Flor fez a obra para desfilar de dia, com sol, e o trabalho ficou bem visível. Vi, achei que estava bom e dei dez.

- Mas a Imperatriz também desfilou durante o dia e mereceu oito. Por que?

- Porque não sou obrigado a dar dez para todo mundo. Ninguém me disse que eu tinha que dar dez a todas. Vi a Imperatriz, o artista dela era excelente, mas achei que merecia oito.

- Você se lembra do enredo dela?

- Não, não me lembra mais.

- E a Portela, desfilou de dia ou à noite?

- A que horas a Portela desfilou? Não sei. Vai ver ele saiu à noite, quando fica difícil de a a gente ver os trabalhos.

Dinheiro, Não

Messias Neiva, de 58 anos, disse que não conhece o Presidente de Honra da Beija-Flor, o banqueiro-do-bicho. Aniz Abraão David, o Anísio, e nem tem interesse em conhecê-lo.

Muito contrariado com a repercussão de suas notas, comentou que, se soubesse que perderia a tranqüilidade, teria dispensado o convite para ser jurado:

- Olhe, eu tenho casa própria, um sitio na serra de Petrópolis e vivo de minha arte. Graças a Deus, não preciso do dinheiro de ninguém e Cr$ 1 milhão seria até muito pouco para sujar meu nome. Tenho quadros vendidos na Europa e nos Estados Unidos. Até Frank Sinatra comprou um quadro meu quando veio aqui.

Messias Neiva vende quadros pequenos a preço entre Cr$ 60 a Cr$100 mil e disse que terá "um prejuízo incalculável" ao manter fechado seu ateliê na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, localização que não considera longe de Caxias, onde mora. Ele disse que está evitando ir ao ateliê devido às ameaças:

- Graças a Deus, não tenho quadros mais para vender. Estão todos vendidos, por enquanto. Só tenho um conselho a dar aos próximos jurados da Riotur, não aceitem."

(O Globo, 19/02/1983)

Bom, como vêem, no mínimo bastante suspeito o que ocorreu com este julgamento de 1983. Mas o que passou à história é que, por meios suspeitos ou lícitos, mas de forma injusta, a Beija Flor foi a campeã do carnaval.

E naquele ano a escola iniciaria um longo jejum de quinze anos sem títulos, somente quebrado em 1998 - em um empate com a Mangueira para lá de contestado...

Vamos à letra do samba:

"A Grande Constelação das Estrelas Negras"

Ô ô ô Yaôs quanto amor
Quanto amor
As pretas velhas Yaôs
Vêm cantando em seu louvor

A constelação
De estrelas negras que reluz
Clementina de Jesus
Eleva o seu cantar feliz
A Ganga-Zumba
Que lutou e foi raiz
Do negro que é arte, é cultura
É desenvoltura deste meu país
Êh ! Luana
O trono de França será seu baiana
Pinah êêê Pinah
A Cinderela negra
Que ao príncipe encantou
No carnaval com o seu esplendor
Grande Otelo homem show
Em talento dá olé
E o mundo inteiro gritou, Gol ! 
(É gol)
Gol do grande Rei Pelé

Ô Yaôs"


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Samba de Terça - "Sonho de Um Sonho"



Se aproximando o carnaval e temos mais uma edição de nossa coluna "Samba de Terça". Hoje, atendendo à sugestão do leitor Rodrigo Mattar, nosso samba é Unidos de Vila Isabel 1980, "Sonho de um Sonho".

Eram outros tempos. Eram anos onde a criatividade não era tolhida pelos enredos patrocinados e que temas mais abstratos ainda faziam muito sucesso na avenida de desfiles.

A Vila Isabel, naqueles tempos, era considerada uma escola média. Sua primeira guinada (haveria uma segunda, a partir de 2005) rumo às grandes só ocorreria a partir de 1985 - contei aqui a história - e nas décadas de 60, 70 e início de 80 a escola se baseava em bons enredos, grandes sambas e uma bateria extremamente competente.

Para o carnaval de 1980 os carnavalescos Fernando Costa e Sílvio Cunha propuseram o enredo "Sonho de um Sonho". Baseado em poema de mesmo nome do imortal Carlos Drummond de Andrade, falava do sonho de uma sociedade mais livre, mais democrática e mais aberta.

Os leitores mais atentos hão de perceber que o enredo era uma alegoria; na prática o que se pedia era mais liberdade, abertura política e social. A anistia política havia sido decretada há menos de um ano, mas o clima político ainda era o da abertura "lenta, gradual e segura", determinada pelo ex-presidente Ernesto Geisel e que o Presidente de então João Figueiredo não parecia muito determinado a seguir. Haviam pressões da caserna por um novo fechamento do regime e, em que pese não haver mais a tortura nos porões do regime a liberdade de expressão ainda era diminuta.

A Vila Isabel trazia neste enredo alegórico o pedido de liberdade. A necessidade de "prisão sem tortura", das "mentes abertas", "sem bicos calados" e "inocência feliz". Um clamor de liberdade.

Sem aquelas amarras impostas pelas sinopses imensas dos dias de hoje, carnavalescos determinando o que deve constar no samba e exigências de patrocinadores, o samba que saiu deste enredo abstrato era poesia pura, com passagens líricas e comoventes. Em minha opinião, um dos maiores sambas de enredo da história.

O curioso é que a autoria deste samba de enredo é atribuída a Martinho da Vila, Rodolpho e Graúna, mas se o amigo observar com atenção o vídeo do desfile que abre este post verá o narrador Hilton Gomes atribuindo a autoria, também, a Beto Sem Braço e Aluísio Machado, dois dos maiores compositores da história do Império Serrano. 

Fico com a versão do vídeo, porque se não fosse verdade não teria sido dito em rede nacional na transmissão. Ou seja, o samba é de Martinho da Vila, Rodolpho, Graúna, Beto Sem Braço e Aluísio Machado. Pode ser que os dois compositores imperianos não tenham assinado oficialmente ao samba devido a restrições da ala de compositores da Vila Isabel - afinal de contas, eles pertenciam ao Império Serrano.

Bom, o que se sabe é que é um dos maiores sambas da história. E que foi aprovado pelo grande Drummond, em crônica escrita no "Jornal do Brasil" à época.

A Unidos de Vila Isabel foi a terceira escola a desfilar na noite do domingo de carnaval, 17 de fevereiro de 1980. Eram tempos onde haviam dez escolas no Grupo 1A - que era o nome do hoje Especial à época - que passavam em uma única noite. Embora o desfile já fosse na Marquês de Sapucaí, ainda era uma estrutura tubular, provisória - montada e desmontada todo ano.

A escola, que não tinha grandes recursos, veio com fantasias e alegorias simples, apoiada em no belo samba e em uma bateria cadenciada. Repare o leitor ao observar o vídeo como era diferente o andamento da passagem da escola pela avenida.

Em uma apuração "sui generis" - não havia desempate - a escola ficou na quarta colocação, com 88 pontos, empatada com União da Ilha e Mocidade Independente - e atrás somente das três campeãs, Portela, Imperatriz e Beija Flor. 

Muita gente diz que a escola foi vice-campeã neste carnaval, mas como pode ser a segunda colocada se haviam três escolas à frente dela? É a mesma coisa das Olimpíadas, onde não há distribuição de medalha de prata em caso de empate no primeiro lugar. Portanto, a Vila Isabel foi a quarta colocada, repetindo seus melhores resultados até então.

Vamos ao belo samba, que pode ser ouvido abaixo em sua versão de estúdio:



"Sonhei
Que estava sonhando um sonho sonhado
O sonho de um sonho
Magnetizado
As mentes abertas
Sem bicos calados
Juventude alerta
Os seres alados 

Sonho meu
Eu sonhava que sonhava 

Sonhei
Que eu era o rei que reinava como um ser comum
Era um por milhares, milhares por um
Como livres raios riscando os espaços
Transando o universo
Limpando os mormaços 

Ai de mim
Ai de mim que mal sonhava 

Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz 
Ai meu Deus
Falso sonho que eu sonhava 
Ai de mim
Eu sonhei que não sonhava
Mas sonhei"


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Samba de Terça - "Oferendas"



Mais uma terça feira, o carnaval se aproximando e mais uma coluna "Samba de Terça" no dia de hoje. Com um samba de estilo bastante diferente do que vemos hoje, mas de alta qualidade: "Oferendas", Unidos da Ponte 1984.

O carnaval daquele 1984 teria uma série de alterações ao que se costumava ver nos desfiles das grandes escolas. A primeira delas era o fato de que haveriam catorze escolas no desfile. Devido a uma falha no sistema de iluminação, a Caprichosos de Pilares não fora julgada no ano anterior, o que invalidou o rebaixamento - nenhuma escola foi rebaixada. A Unidos da Ponte, décima primeira colocada no ano anterior - e que seria relegada ao então grupo 1B - acabou sendo mantida no grupo das principais escolas de samba.

Outra grande novidade é que, com catorze agremiações, o desfile pela primeira vez seria em duas noites, no domingo e na segunda feira de carnaval. Tal medida se fazia necessária pois em 1983, com doze escolas em uma única noite de desfiles, tal havia terminado praticamente a uma hora da tarde. Com duas agremiações adicionais, tornou-se impraticável realizar o espetáculo em apenas uma noite.

Esta mudança gerou um outro problema: a questão do julgamento. A alegação era de que em duas noites de desfiles não se teria como garantir os mesmos critérios de notas sem prejudicar nenhuma escola. Partiu-se para uma solução que hoje parece ruim, mas que à época fazia sentido: haveriam duas competições - domingo e segunda - as duas escolas vencedoras seriam declaradas campeãs e haveria um "Supercampeonato" no sábado seguinte envolvendo as três primeiras colocadas de cada dia e as duas campeãs do Grupo de Acesso.

Além disso, pela primeira vez o desfile teria um palco fixo: o Sambódromo. As arquibancadas desmontáveis que eram colocadas todos os anos foram substituídas por uma estrutura em concreto armado, projetada pelo  arquiteto Oscar Niemeyer, que jamais vira um desfile na vida - basta ver o Sambódromo que se percebe isso...

Além de passarela de desfiles, funcionaria um colégio no local e havia a idéia de se utilizar a Passarela de Desfiles - especialmente a Praça da Apoteose - como um espaço de manifestação política.


A Unidos da Ponte apresentaria para o carnaval de 1984 um enredo de temática afro: "Oferendas". O mote do tema era descrever as oferendas que são do agrado dos orixás do candomblé. Cada um dos orixás cultuados possui a sua comida preferida, que deve ser ofertada a intervalos regulares.

A estrutura do enredo era bem simples: orixá, sua oferenda predileta, orixá, sua oferenda predileta. Algo sem as sofisticações desnecessárias das sinopses de hoje, que muitas vezes chegam a ter dez, doze páginas sem a menor necessidade.

O samba da escola seguiu a mesma linha, optando por descrever as oferendas aos orixás de uma forma didática, mas com uma melodia contagiante e que envolvia não somente o componente como aqueles que gostam de samba de enredo. Sem dúvida alguma, o leitor que ler a letra do samba que disponibilizo ao final deste post vai ter uma aula de ebós de candomblé.

A pequena escola da Baixada seguiu sua preparação com dificuldades. Ela seria a segunda escola a desfilar na segunda feira de carnaval, depois da campeã do Grupo de Acesso do ano anterior, a Estácio de Sá, ex-Unidos de São Carlos - que mudara de nome naquele ano.


Dentro de suas possibilidades, a escola fez um desfile bastante interessante na noite de segunda feira de carnaval, 04 de março. Apesar da excessiva estilização dos orixás - apontada no vídeo que disponibilizo acima - a escola, de forma simples, passou o seu recado - apesar da falta de recursos.

Uma curiosidade é que algumas alas vieram com comidas mesmo, sem estilização - como a ala de pipocas para Obaluaê. Notem, também, o andamento mais lento do samba, a menor compactação das alas e o destaque dado ao canto e à dança.

O regulamento determinava que a última colocada de cada dia seria relegada ao Grupo de Acesso - antigamente chamado de "1B". Com 168 pontos, a escola acabaria relegada - e venceria o Grupo de Acesso no ano seguinte com o belo samba "Dez, Nota Dez".

Vamos ao samba, uma aula de candomblé, que pode ser ouvido abaixo. Tem uma estrutura um pouco diferente do que vemos hoje, com apenas um refrão.

Aqui há uma versão ao vivo para se baixar, com qualidade não muito boa mas registro histórico válido. A curiosidade é que, ao contrário dos "condomínios" de nove, dez autores a que assistimos hoje o samba tem um único autor. O puxador, Grillo, venceria samba como autor na Portela em 2002, ao lado de Davi Correa.

Uma curiosidade é que o samba seria reeditado para 2011 - a escola encontra-se no Acesso C, que é a quarta divisão do samba carioca - mas depois a agremiação optou por um enredo inédito - mas com temática parecida.



Autor: Jorginho
Puxador: Grilo

"Axé
O samba pisa forte no terreiro
É mistério, é magia
É mandingueiro
Malungo se liberta no Zambê
Esquece o banzo
É hora de oferecer
Pra Exú e pomba-gira
Tem marafo e dendê
Muitas flores e pipocas
Para Obaluaê
A Oxumaré
Creme de arroz e milho
Pra Iansã o acarajé
Pai Oxalá, nosso canto de fé

Tem amalá pra Xangô
Lá na pedreira
Tem caruru pros Erês
Tem brincadeiras

E pra Oxossi
Milho cozido no mel
Mãe Oxum, Omolucum
Pra Nanã, sarapatel
Mel de abelhas pra Ogum
Rosas brancas a Iemanjá
Oferendas traz a Ponte
Pra louvar os Orixás"

(Agradecimentos a Marcelo Sudoh e Chico Frota)


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Samba de Terça - "Num Passe de Mágica"



Nossa coluna "Samba de Terça", a última do ano, traz uma escola já enfocada aqui - com o maior samba enredo de todos os tempos, "Os Sertões" - com um samba que, se não é um dos maiores de sua história, é bastante pitoresco: é o único samba enredo da história do carnaval carioca dedicado exclusivamente ao Revéillon.

Como estamos na semana do Ano Novo, o último texto do ano pode ser considerado "temático": Em Cima da Hora 1989, "Num Passe de Mágica". Escolas como a Beija Flor em 1997 e a Acadêmicos do Dendê em 2004 também se referem ao revéillon, mas dentro de enredos com outras temáticas.

A escola de Cavalcanti - onde uma vez fui jurado no concurso da rainha de bateria, mas esta é oura história - havia passado pela última vez no Grupo Especial em 1985, mas atravessava tempos difíceis. Chegara a estar no terceiro grupo no ano anterior, sendo promovida com o vice-campeonato - atrás apenas da campeã Tupi de Brás de Pina, hoje extinta.

Os carnavalescos Regina Celi e José Leonídio desenvolveram um enredo que buscava mostrar toda a temática, a esperança e o ritual do Ano Novo: os orixás, a festa, o estourar do champanhe, a cor branca e os demais aspectos da festa.

Entretanto, a escola atravessava dificuldades. Se hoje, vinte anos depois e com todo o crescimento deste grupo no carnaval carioca há problema de falta de recursos financeiros, imaginem naqueles tempos. Ainda mais vindo do que hoje se chama "Acesso B", terceiro grupo, e abrindo o desfile do sábado de carnaval, o que é uma situação bastante problemática para qualquer escola de samba - o público ainda está frio e os jurados costumam ser mais rigorosos, até pela falta de referencial.

A Em Cima da Hora abriria o desfile do sábado de carnaval, 04 de fevereiro de 1989. Além das dificuldades naturais de uma escola que vem de um grupo inferior promovida e abre o desfile, a azul e branca enfrentou uma forte chuva durante o seu desfile, o que a prejudicou mais ainda.

As fantasias eram simples e, como se pode ver no vídeo que abre este post, a escola veio com um contingente de componentes bastante desfalcado. Por outro lado, pode-se ver a ginga dos passistas, pura arte, e uma bateria cadenciada.

O curioso é que o vídeo é interrompido duas vezes para entrarem entrevistas com integrantes da escola seguinte, a Tupi de Brás de Pina.

Além da chuva, a escola sofreu com fantasias e alegorias extremamente simples, reflexo da falta de recursos.Isso fica claro observando-se as imagens.

Com todas as dificuldades, a escola ainda teria de enfrentar um grupo onde cairiam quatro escolas entre dez agremiações. O descenso de quatro agremiações tinha como objetivo receber escolas vindas do Grupo Especial, "inchado" com 18 escolas e que rebaixou um número maior a fim de contar com apenas 16 para o ano de 1990.

A apuração trouxe o resultado esperado: o nono e o penúltimo lugar e o rebaixamento ao Grupo 2 - atual Acesso B - com 182 pontos. Entretanto, é um samba histórico pelo ineditismo do tema, que jamais seria trazido novamente de forma isolada, como nunca, também, havia sido enredo antes.



Vamos à letra do samba, que o leitor pode ouvir acima:

Autores:
Nunes, Jorginho das Rosas, Reinaldo Vilas e Bigo

Puxadores:
Rocha e Adilsinho

Vou levantar o astral
Fazer o meu carnaval e cair na folia
Erguer a taça de cristal
Transformar minhas lágrimas em fantasia
Qual será o orixá
Que reinará os novos dias
Como num passe de mágica
Com muito mais sabedoria

Noite bela
Assista a missa meu amor na catedral
Põe o vinho sobre a mesa
E convida o pessoal


Adeus ano velho
Felicidade para o ano que vem
Que a paz se harmonize em seu interior
Quando os anjos disserem amém
No sorriso da criança uma nova esperança
O seu grito está no ar
Acenda em seu peito aquela chama
Dê um abraço em quem te ama
E traga alegria pra seu lar
Seja rico ou seja pobre todos fazem reveillon
Nas esquinas pelos bares
Em casa ou nos salões
Com pierrot e colombina, serpentina pelo ar
O povo de braços abertos

Se confraterniza feliz a cantar
Oh divina luz que me conduz e ilumina o meu viver
Como é linda a passarada
Numa revoada ao amanhecer




terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Samba de Terça - "Aquaticópolis"



Nesta terça feira, retomaremos o tema da coluna anterior e trazemos um carnaval que é declaradamente inspirado no "Tupinicópolis" que mostramos aqui.

A Renascer de Jacarepaguá é uma escola nova, fundada em 1992. Entretanto, suas raízes são antigas, derivadas do antigo bloco "Bafo do Bode", fundado em 1959 - e do qual herdou a quadra, que fica no Tanque, um dos sub-bairros de Jacarepaguá.

A escola oscilou nos grupos inferiores até a chegada do Presidente, patrono e mecenas Antônio Carlos Salomão, consagrado presidente da escola. Em 2005 a escola chegou ao Acesso A, segunda divisão das escolas de samba, e por lá se mantém, crescendo ano a ano em seu desempenho e sua estrutura.


Para 2010, a escola esperava dar mais um salto de qualidade após o surpreendente vice campeonato do ano anterior. Para isso a escola trouxe nada menos que o carnavalesco Paulo Barros, que revolucionara os desfiles nos anos anteriores; e a grande promessa Wagner Gonçalves, com bons trabalhos na Inocentes e posteriormente na Cubango - com um belo enredo sobre a bailarina Mercedes Batista.

Barros e Wagner propuseram um enredo que era uma homenagem e uma referência a Fernando Pinto e "Tupinicópolis": uma cidade aquática, no fundo do mar, uma "Atlântida" no carnaval. "Aquaticópolis".


A sinopse era uma homenagem clara a Fernando Pinto:

"Sinopse

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará...

...Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo


A Renascer de Jacarepaguá lança um novo olhar sobre o espelho d''agua e vislumbra a sua imagem, distorcida e refletida, parodiando uma ficção de impostação fabulística : a lendária Aquaticópolis. Uma Megalópole Aquática, na qual humanóides, em um jogo lúdico, convivem entre os crustáceos, anfíbios, peixes, moluscos, mantendo uma civilização exótica nas profundezas do mar. O bio-acquo-magnetismo desenvolveu brânquias e membrana nos habitantes dessa fantástica cidade, estabelecendo assim uma força capaz de resistir à grande pressão da água.

Tudo em Aquaticópolis é Biofilosofia Aquática e compõe um Coletivo Aquático, uma Metrópole Marinha.

Aquaticópolis é a ilusão da cidade pós-moderna composta por toda a engrenagem marítima. Imponente e fascinante, esta cidade ergue-se entre algas, corais, bolhas, espumas e águas vivas, decorrente de riquezas naturais. Aquaticópolis é uma carnavalização consciente das necessidades de preservação ambiental.


O cotidiano da cidade navega entre o dia e a noite, velejando por entre as obrigações do dever que envolvem a indústria e o comércio (e a informalidade desses setores); a educação, a segurança e a saúde (e principalmente a falta delas), determinando assim todo o planejamento de uma grande metrópole.

A locomoção na aglomerada cidade se dá através do transporte marítimo resultante de um grande desenvolvimento industrial, com bases nos investimentos na infornáutica e tecnologia, gerando a acqualização profissional do cidadão acquaticopolitano. A concentração e dispersão da cidade vão seguindo todo um mar de movimentos fluindo em perfeita harmonia.

Entretanto, uma tormenta provocada pela Ganância e a Ambição das questões políticas dessa espinha social, desencadearam um choque térmico de ordem e desordem entre os valores, criando assim camadas e escamas sociais. Pérolas da Aldeia Marinha, na qual poucos conduzem o remo e muitos se deixam levar pela correnteza. E assim, entre a maresia e a ressaca, a fascinante Aquaticópolis é incapaz de resolver os problemas de poluição e conter ondas de violência, transbordando o caos e o stress.

A noite na cidade é fascinante. Os shows que embalam a Concha Acústica emitem sons de caráter libertário. A iluminação fluorescente, vinda de peixes bioluminescentes, dando brilho e glamour à cidade, impulsionando novas performances náuticas que geram cardumes de possibilidades. Nos Lençóis, a sensualidade é um mix de moda, cultura e entretenimento.

Em Aquaticópolis, a correnteza represada criou uma sociedade naufragada nas mazelas. E assim, nos desprezados escombros, são reconstruídos valores outrora ancorados na memória em que se entrelaçam presente, passado e futuro, formando um verdadeiro divisor de águas. Inovações e invenções que nos dias de folia fazem com que o povo de Aquaticópolis, abençoado pelo Rei dos Mares, dê um original "banho de mar à fantasia" que vai se renovando sempre como uma onda no mar...

Mergulhe nessa fantasia e venha Renascer em Aquaticópolis.

Para Fernando Pinto e Marvel Stan Lee"



A disputa de samba, no entanto, teve alguns percalços. Passo a palavra ao compositor Gabriel Carqueijo, vencedor em 2009, petroleiro e portelense como eu, que esteve lá e pode dar o seu relato:

(por Gabriel Carqueijo)

"O carnaval de 2010 da Renascer de Jacarepaguá foi desenvolvido pelos carnavalescos Paulo Barros e Wagner Gonçalves. No primeiro encontro com os compositores, durante a apresentação do enredo, os carnavalescos deixaram bem claro que tratava-se de uma homenagem ao carnaval de 87 da Mocidade do genial Fernando Pinto.

Simples assim: algo como substituir os índios e as aldeias daquele desfile por seres marinhos e o fundo do mar. Quinze sambas foram inscritos e, após dois meses de disputa, três composições foram para a final. Os mesmos que haviam participado da final no ano anterior. 

Nossa parceria (Gabriel da Penha, Leandro Nogueira, Luiz Gustavo, Deco e Igor do Cavaco – campeões em 2009), a parceria de Cláudio Russo, Adriano Cesário, Fabio Costa e Cia. e a parceria de Moisés Santiago, Jayme Cesar e Cia.


O samba da parceria do Moisés seguia uma linha mais animada e irreverente, com um refrão bem popular, ao estilo das últimas composições do Salgueiro, sua escola de origem: “Deixa a água rolar (deixa! deixa!) / Vem que eu sou Renascer (vem ver! Vem ver!) / Aquaticópolis, um mundo de magia / É show, é carnaval, é Alegria!”

O samba de Claudio Russo e parceiros não se prendia tanto ao texto da sinopse. Conseqüentemente, era mais poético. A cabeça do samba era bem bonita: “Nas profundezas desse mar / Aqua-cidade da magia / Meu sonho vai se transformar / Buscando a hidroarmonia / Eu vou... / Ao oceano da minha ilusão / Vai navegando o meu coração / Vencendo a bruma / Na branca espuma / Corais... / Manto bordado num grande portal / Meu acalanto a caminho do cais / Brilha a sereia do meu carnaval”.

Nossa parceria optou por descrever o enredo. Detalhes e a ordem da sinopse foram respeitados por nós. De acordo com a sinopse, o enredo começava com a escola de samba lançando seu olhar para o fundo do mar e avistando essa cidade submersa, onde os seres humanos se adaptaram para ali viver, ganhando brânquias e guelras. 

A cidade se desenvolveu, tornando-se uma megalópole marinha. A tecnologia, o transporte... toda a modernidade trazia mais vantagens para a vida ali. A vida noturna também era bastante agitada. Como toda cidade, Aquaticópolis tinha problemas de desigualdade, miséria, pirataria... Mas todos esses problemas eram esquecidos numa única época do ano. Carnaval! O rei dos mares ordenava e os súditos iam festejar!!!


Dessa forma, compusemos o samba levando em conta essa cronologia que destaquei:

"MERGULHEI NO ESPELHO AZUL DO MAR 
A FANTASIA REFLETE EM MEU OLHAR 
BELEZAS DE UMA CIDADE 
ONDE A HUMANIDADE VEIO ENCONTRAR 
A HARMONIA COM A NATUREZA 
TANTA RIQUEZA PARA DESVENDAR 
ASSIM... 
AQUATICÓPOLIS EVOLUIU 
UMA METRÓPOLE ENTÃO SURGIU 
ALÉM DA IMAGINAÇÃO 
INOVANDO O DIA-A-DIA A TECNOLOGIA 
NAS ÁGUAS, A TRANSFORMAÇÃO 

A LUZ DO LUAR VEM PRATEAR 
UM SHOW DE ESTRELAS-DO-MAR 
TUDO É FESTA... ESPLENDOR! 
QUEM DERA CONQUISTAR UM GRANDE AMOR (bis) 

AMANHECEU... 
OS VENTOS TRAZEM A REALIDADE 
PIRATARIA E DESIGUALDADE 
BANHADAS PELA AMBIÇÃO 
CORRENTES DISPUTAM PODER 
O POVO CANSOU DE SOFRER 
NADA PRA SOBREVIVER 
PORÉM... NUM DIA DE MAGIA 
A ONDA DA ALEGRIA INVADE O CORAÇÃO 
É CARNAVAL! 
UM LINDO CORAL CLAMA A PRESERVAÇÃO 

VEM NAVEGAR 
NO OCEANO DE EMOÇÃO 
RENASCE EM JACAREPAGUÁ 
O SONHO DE SER CAMPEÃO"

Aqui o leitor pode ouvir e baixar o samba.


É sempre bastante difícil falar de uma Final quando se perde, mas foi uma final bastante equilibrada, porém com erros da bateria. A Bateria criou uma bossa para ser apresentada no dia da final e que encaixaria nos 3 sambas. 

Durante a apresentação do primeiro samba (Moisés e parceiros) e do segundo samba (Gabriel e parceiros), a bateria não encaixou a bossa, atravessaram o samba e as apresentações, pelo menos no início, foram caóticas, apesar da participação ativa das torcidas. Já no terceiro samba (Cláudio e parceiros), a bossa encaixou perfeitamente.

O site CARNAVALESCO fez a reportagem sobre a Final e mencionou o problema dessa bossa

O samba rendeu muito bem no desfile, a bateria fez uma ótima apresentação e a escola veio bem colorida e com uma curiosidade: SEM PLUMAS! 

Não fosse o problema ocorrido durante a apresentação da Comissão de Frente, quando um integrante da escola empurrou o tripé utilizado pela comissão, o que não é permitido pelo regulamento, a Renascer de Jacarepaguá teria sido vice-campeã novamente, ficando atrás somente da São Clemente."


Bom, o Gabriel já contou de certa forma o final da história, mas vamos retroceder e voltar à noite de 13 de fevereiro de 2010, sábado de carnaval. A Renascer seria a sexta escola a desfilar, posição que tinha escolhido por ter sido a vice campeã no ano anterior.

Após uma comissão de frente não muito feliz - e que seria penalizada - a escola começava a passar, trazendo um sopro de criatividade neste marasmo de plumas, índios, egípcios e cidades que vemos no carnaval atualmente. Todos os elementos de uma cidade iam sendo apresentados de forma inusual e muito feliz.

Eu, que estava nas frisas do Setor 3, imediatamente relacionei a Fernando Pinto o que estava vendo, sob alguns protestos, confesso, de amigos mais antigos. 

As fantasias em espuma relacionavam a muitos o talentoso - e precocemente falecido vítima do drama da cocaína - Oswaldo Jardim. Era como se os espíritos dos dois carnavalescos estivessem permeando e sendo novamente revividos na avenida. Algumas fantasias, como a da arraia carnavalesca (abaixo), eram sensacionais, inteligentíssimas. O samba, embora não tenha sido espetacular, embalou bem o cortejo da vermelha e branca.


Lembro aos leitores que uma escola sem se utilizar de plumas não necessariamente é uma solução de bom gosto: basta ver o que a Portela fez este ano, onde as fantasias também não tinham plumas, mas eram simplesmente lamentáveis...

Apesar do problema da comissão de frente - alegou-se que outras pessoas que não os integrantes dela empurraram o tripé - na visão de muita gente, inclusive eu, a escola saiu do desfile como uma das grandes favoritas à vitória e a única vaga ao Olimpo do samba, o Grupo Especial. Mas...

Em resultado sobre o qual já protestei aqui outras vezes e que até a minha filha mais velha perceberia que não teve muito a ver com o que se viu naquele sábado de carnaval (acho que o leitor entende o que eu quero dizer) a escola sofreu uma penalização de dois pontos e acabou apenas com o oitavo lugar, com 267,2 pontos.

Sem a perda de pontos a escola seria a vice campeã do carnaval, atrás apenas de um inacreditável "10 de ponta a ponta" da "campeã" São Clemente. Infelizmente todo o mundo do samba sabe o que ocorreu, mas provar é que são elas...

Bom, vamos ao samba, da parceria já citada. Abaixo o leitor pode ouvir a versão ao vivo na avenida dele:



"Nas profundezas desse mar
Aquacidade da magia
Meu sonho vai se transformar
Buscando a hidro harmonia
Eu vou ao oceano da minha ilusão
Vai navegando o meu coração
Vencendo a bruma na branca espuma
Corais, manto bordado no grande portal
Meu acalanto a caminho do cais
Brilha a sereia do meu carnaval

O tempo não para, como uma onda no mar
No espelho d'água, eu hoje vou me acabar
No horizonte de peixes minha paixão
A minha fonte de inspiração

Tormenta social
Corrente da ressaca de ambição
É tão desigual a maré da exclusão
A noite traz um show de cores que fascina
A concha faz um som que treme a marina
Embaixo dos lençóis a sedução
E a comunidade é abençoada
Pelo rei dos mares, assim embalada
Renova seus sonhos, renasce então
Na face de um folião

Sou Renascer de Jacarepaguá
As águas vão rolar, é carnaval
Vem mergulhar nessa alegria
Eu quero ver banho de mar a fantasia"

Abaixo, podemos ver mais um vídeo do excelente desfile da escola. Mas nem tudo foi decepção: Paulo Barros conquistaria seu primeiro título de campeão do carnaval pela Unidos da Tijuca, e com a boa repercussão do desfile da Renascer Wagner Gonçalves transferiu-se para a Estação Primeira de Mangueira.

Nada mal.



(Fotos: Arquivo Pessoal Pedro Migão)


P.S. - O post com a promoção das camisas rubro-negras está aqui embaixo