quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Favelado é inimigo ?

Leio que o Governo do Estado está negociando a compra de mini-Caveirões (foto) para permitir um melhor desempenho das forças policiais nas operações em comunidades.

Longe de fazer análises técnicas sobre as operações policiais e sua eficácia, queria chamar a atenção para o fato de que, cada vez mais, o favelado, morador de comunidade, é visto como um inimigo por parte do Estado.

As comunidades, as favelas, são vistas como fator de desestabilização social que precisam ser contidas ou exterminadas. Removê-las seria o ideal, queimá-las no 'microondas', melhor ainda. Como estas não são "soluções" previstas e aceitas, recorre-se à força policial indiscriminada.

Marginal se prende em trabalho de inteligência, não subindo o morro e matando a três por dois, na maioria de casos pessoas sem antecedentes criminais. Caveirão é política do confronto e do extermínio.

O confronto deve ser a última solução para a dissuasão de práticas criminosas.

Como já afirmei em outras ocasiões, o problema da violência só se fará equacionado a hora em que o Estado estiver na comunidade não somente através da Polícia, mas também com Saúde, Educação, Saneamento e, especialmente, Emprego. Sem isso, é "enxugar gelo", praticar extermínio e tapar o sol com a peneira.

Ajuda muito, destarte, uma limpeza na Polícia, deixando nela realmente quem tem vocação e expurgando quem está na corporação com outros tipos de interesses.

Também não adianta remover favelas. Precisamos lembrar-nos que elas estão ali muito por conveniência do pessoal do asfalto que contrata a sua mão de obra, desde o início do século passado. Fica mais perto do trabalho e o patrão não precisa pagar a passagem...

Remover somente vai satisfazer à "dondocada" do Leblon e adjacências, sem atacar o problema maior. Outra coisa: onde realocar estas favelas ?

Parece uma melhor solução retomar o controle das comunidades pelo Estado e permitir a geração de infraestrutura adequada, transformando-as em bairros com um mínimo de condições de vida. Impor a primazia da lei oficial, não da oficiosa.

Sinceramente, cada vez mais acho equivocadas as políticas de segurança pública e de ocupação do espaço urbano aqui do Rio de Janeiro.

Oportunidades de Emprego - Rio de Janeiro

Pessoal, vou fugir um pouquinho do escopo do blog, mas é para atender um pedido muito especial.

Empresa atacadista de autopeças aqui no Rio está precisando, com urgência, de três profissionais:

- Técnico Contábil
- Auxiliar de Vendas
- Auxiliar Administrativo

É para trabalhar no bairro da Penha e início imediato.

Quem se interessar, basta enviar um currículo para curriculo@filrio.com.br , a/c Daniele.

Escolhas tecnológicas, uma tortura

Certas escolhas, decididamente, são meio complicadas de se fazer.

Um bom exemplo são os celulares. Desde que peguei o meu Nokia E62, smartphone, que recebi há quase dois anos, resolvi manter algo na linha de smartphones e associados.

Só que agora está chegando a hora de trocar e eu, que sou fã de Nokia, confesso que estou perdido diante de tantas opções. Até porque os dois aparelhos da Nokia que eu gostaria, o N97 e o E75, aina não se encontram disponíveis em minha operadora.

Também não posso esperar muito pois o meu aparelho, depois de muito judiado, está em campo só "fazendo número", como se diz. Resolveu criar vida própria.

Acabei me restringindo a quatro modelos de smartphones, dois da Blackberry, um da Nokia e o quarto, o famoso IPhone, da Apple.

Para mim é ainda mais difícil porque gosto de fazer escolhas racionais. Olhando sob este aspecto, a melhor escolha seria o E71: é Nokia, atende às minhas necessidades, é o sucessor natural do aparelho que uso e tem um preço bem acessível. Só que está há quase um ano no mercado e logo estará superado pelos dois aparelhos que citei anteriormente.

O Blackberry 8310 também é uma escolha razoável, mas possui o mesmo problema de defasagem, além de não ter 3G.

Já o 9000 é mais caro, mas mais completo. E o Iphone é muito bom para e-mail e internet, que utilizo bastante, mas fraco para outras utilizações.

Sinceramente, não sei qual aparelho escolher. Procuro comparar os recursos de cada um e vejo muito complicada uma escolha racional. Simultaneamente são parecidos em termos de recursos e em design (à exceção do aparelho da Apple), e pelo menos para mim, que escolho racionalmente, torna a decisão uma tortura.

Alguma sugestão ?

Esta questão me leva a pensar outra coisa: até que ponto este diversidade de escolhas que a gente pode fazer realmente nos é válida.

Quando saíram os celulares, por exemplo, eram três, quatro modelos. Atualmente, só de smartphones são mais de vinte possíveis opções. Para carros, até dez anos atrás eram quatro fábricas, hoje são mais de dez.

Logicamente, podemos dizer que temos mais opções de usar melhor os nossos parcos recursos. Por outro lado, sinceramente não sei se depois de um certo número de opções, começa a ficar contraproducente. Acaba levando a uma compra emocional, e isso não é lá exatamente a melhor forma de se gastar o nosso pouco dinheiro disponível.

O pior é que para uma faixa de preços parecida, os recursos também são parecidos, em média. Lógico que um pacote como este que a Fiat fez para o Uno Mille desequilibra isto, mas logo as demais fábricas respondem a este momento de mercado - um bom exemplo é o Ka completo por um preço parecido.

Até porque, quando se desequilibra um mercado, a tendência é ganhar terreno e consequentemente ser dominante, o que leva à acomodação.

Porém, voltando ao nosso tema, confesso que esta variedade de opções é uma tortura, ainda mais quando não se consegue estabelecer hierarquias racionais e definidas segundo critérios mensuráveis.

Entretanto, temos de escolher. A vida, em resumo, é a variedade de escolhas.

SOS Boi da llha


Para fechar a trilogia de posts sobre escolas de samba: eu faço parte da diretoria do Boi da Ilha do Governador, escola de samba do terceiro grupo (Acesso B), que desfila na terça feira de carnaval da Marquês de Sapucaí.

Só que infelizmente, nós perdemos tanto a nossa quadra quanto o nosso barracão após o último carnaval - ambos eram alugados. Conseguimos um novo espaço para sediar o nosso barracão, local onde se preparam as alegorias do desfile.

Entretanto, o local está descoberto, e necessitamos de ajuda para poder fazer a obra de cobertura do mesmo. A escola é pobre e não tem a totalidade de recursos.

Se você, leitor, quiser dar a sua ajuda, agradecemos muito. As instruções estão no cartaz acima. Só lembro que eu faço parte da comissão que administra esta verba.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O nascimento de um samba enredo

Este blog tem o saudável hábito de publicar textos de autores convidados, especialistas em suas áreas de atuação.

Hoje tenho um grande presente para dividir com meus 19 leitores: um grande autor, um grande artista, divide conosco os seus segredos de criação e conta para a gente como nasce um samba enredo.

Aloísio Villar, compositor Estandarte de Ouro em 2001 e Prêmio Sambanet 2008, ambos com o Boi da Ilha do Governador, com quem tive a honra de vencer duas disputas na Acadêmicos do Dendê (2007/08), é o nosso convidado desta noite de terça. Uma visita ilustre no Ouro de Tolo.

Passemos ao texto, sem mais delongas. Apenas à guisa de informação, "sinopse" é o texto escrito pelo carnavalesco da escola, explicando o tema que a escola levará para seu desfile - o enredo.

"Poderia aqui chegar e tentar botar poesia nessas palavras de como se faz um samba-enredo, imitar João Nogueira e falar que "ninguém faz samba só porque prefere", mas não é assim.

Talvez samba-enredo seja a única forma de música em que além da inspiração é necessária a transpiração, o dom não basta, tem que haver um entendimento de como funciona a fórmula.

Com o tempo você vai pegando os macetes, os atalhos de uma sinopse, nas parcerias que faço parte sou o letrista e na nossa fórmula de fazer samba ele começa por mim ou pelo grupo de letristas que a parceria tiver (caso tenha mais algum), pra facilitar a feitura da letra é importante que a sinopse esteja dividida em setores, representada para os leigos no número de carros alegóricos, cada carro desses inicia um setor, tendo a sinopse setorizada vc divide também a letra que quer fazer em setores, quantos versos vai deixar pra cada um destes setores no samba.

As sinopses sempre trazem palavras ou frases em negrito, que são peças fundamentais pra serem colocadas no samba, uma letra de samba-enredo tem que englobar o máximo do enredo que puder mas não pode se esquecer que antes de tudo aquilo ali é uma música, uma obra de arte, então tem que haver poesia, sentimento. Não é só a parte prática.

Vencida essa parte a nossa letra é repassada pros músicos, tem uns que recebem a letra crua já e colocam pelo menos uma idéia de melodia, com essa melodia a parceria toda se reúne, aí já com o cavaquinista (nossa parceria tem melodista que toca cavaco); e daí a melodia é desenvolvida, várias vezes nessa fase a letra sofre reparações para se adequar a melodia.

Dúvidas são tiradas com o carnavalesco, ele aprovando o samba é passar para os cantores e gravar, em uma disputa de samba-enredo, essa é a parte mais artística, a partir da entrega do samba começa uma fase que é uma mistura de empresarial e política, então por isso, essa parte da feitura é mais saborosa."

(Foto: Boi da Ilha 2009, Prêmio Sambanet de Melhor Samba Enredo. Fonte: Galeria do Samba)

Samba de Terça

Hoje o dia está bem enrolado, mas não podia deixar de colocar a já tradicional coluna de todas as terças feiras, a "Samba de Terça".

Nesta coluna, voltaremos à Avenida Intendente Magalhães e ao desfile do Acesso C de 2007, já retratado nesta coluna.

A escola é a Unidos de Villa Rica, uma das representantes de Copacabana e que tem um desfile no Grupo Especial em sua história - 1995. O enredo, "Carukango".

A Villa Rica contaria a história de um guerreiro africano que fundou um quilombo às margens da hoje Macaé e que, após a sua morte se tornou um orixá. Uma história de liberdade tragicamente encerrada, com a destruição do quilombo e o assassínio de seu líder.

Nas palavras da sinopse:

"(...)Seu corpo a céu aberto, permitiu a liberdade que o guerreiro tanto desejava; onde a mãe natureza, utilizando-se dos poderes de Iansã a rainha dos ventos, soprou e derramou os seus restos, nas águas do rio que passava as margens da estrada onde ficou sua exposição. Foi nas águas do rio que a liberdade alcançou, indo ao mar para os braços carinhosos de Iemanjá, que o leva em suas "correntes", de volta à mãe áfrica.

O rio tranqüilo que desce da serra á caminho do mar, que me leva pra África, vou te nomear: Carukango é teu nome, guerreiro valente! Que virou orixá. "

(Fonte: Galeria do Samba)

O valente samba, muito bem puxado pelo amigo Maurício Poeta, dava bem o recado do enredo e permitiu uma boa evolução na avenida.

A escola foi a décima a desfilar no domingo de carnaval, 18 de Fevereiro, na passarela de desfiles da Avenida Intendente Magalhães.

Infelizmente, a Villa Rica sofreu com a falta de estrutura e com um incêndio que destruiu dois dos três carros às vésperas do desfile, e acabou rebaixada para o Acesso D com a décima terceira e penúltima colocação, com 145,3 pontos.

Vamos à letra do belo samba, que possui uma curiosidade: um de seus autores é o Mestre de Bateria Ricardinho, com passagens por Tuiuti, Arranco, Cubango e Tijuca.

Autor(es)
Leonardo Trinta, Everton César, Ricardinho e Leo Torres

Puxador(es)
Mauricio Poeta

Sobre um mar de sofrimento
Villa Rica navegou
Com seu grito de lamento negro
se eternizou
Liberdade... Uma estrela a brilhar
Esse líder feiticeiro
Não se deixou escravizar
Lá na Serra do Deitado, com seu legado
O quilombo se formou
Há de ser sempre lembrado
Pelo exemplo que deixou

E lutando, Carukango
Liderou sua nação
Almejando a liberdade
Com bravura e emoção

Na batalha... entregou a própria vida
Os quilombolas ressuscitam na avenida
Têm na cor um grande orgulho
A negritude é a razão maior
Seu sangue derramou e Iansã soprou
Vai Carukango, envolvido em nosso manto
Pros braços de Iemanjá
Nas suas águas, com as bençãos de Oxalá
Um braço forte retornando para o lar

Oh! Mãe África
Venho aqui te exaltar
Em memória dos seus filhos
Salve nosso Orixá!

Abaixo pode-se ver um vídeo do desfile.



Semana que vem, falaremos de um grande samba, que passou duas vezes pela avenida, e em escolas diferentes: "Círio de Nazaré", Estácio de Sá 1975.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Petróleo, Pré Sal e Marco Regulatório

Meus 19 leitores devem ter visto na imprensa o debate sobre o marco regulatório do petróleo, que deverá ser alterado após as descobertas dos campos do pré sal.

Basicamente, existem três modelos de exploração dos campos de petróleo hoje em dia no mundo:

1) Monopólio: existente em vários dos grandes produtores (Arábia Saudita, Irã, Venezuela, México), onde o Estado detém o monopólio da extração e do refino do petróleo. Normalmente, há uma empresa estatal que é a operadora deste monopólio.

À guisa de exemplo, a Saudi Aramco, a maior empresa de petróleo do mundo, é a estatal da Arábia Saudita, país que detém as maiores reservas provadas do mundo.

2) Contratos de Concessão: modelo adotado no Brasil atualmente, é utilizado em países que não sejam exportadores expressivos de petróleo. Leiloam-se áreas de exploração (os "blocos), e as empresas vencedoras ganham o direito de explorar aquela área por determinado período.

Se não encontrarem petróleo ou gás natural, podem devolver as áreas, mas não recuperam o investimento. Caso encontrem, possuem a propriedade do óleo e do gás encontrados, pagando ao Estado as taxas determinadas.

No Brasil, hoje, o modelo é este. As empresas concessionárias pagam royalties às cidades pelo uso do território das mesmas e a "Participação Especial", que pode ser definida como um "pedágio" pago pela empresa para poder vender livremente o óleo prospectado, encontrado e extraído.

3) Partilha de Produção: utilizado em países exportadores como a Noruega e a Bolívia, é o seguinte: o Estado contrata - através de licitação ou não - empresas para explorar e extrair óleo e gás a seu serviço, e remunera a operadora através de percentagem do petróleo extraído. A área prospectada não pertence às empresas, que, na prática, prestam um serviço ao Estado e são remunerados em petróleo por este.

Com as descobertas do pré sal, faz-se necessário mudar o atual marco regulatório brasileiro. Por quê ?

Porque somente com as descobertas já anunciadas, o Brasil muda totalmente de patamar na geopolítica do petróleo, pois passa de auto suficiente para um potencial exportador. Além disso, a decisão sobre a utilização ou não das reservas passa a ser política de Estado outra vez.

Outro ponto que deve ser considerado é a taxa de sucesso de praticamente 100% encontrada na perfuração dos poços na camada pré sal. Normalmente, a cada dez poços furados se acha óleo em, no máximo, quatro.

Vem se falando na criação de uma empresa nova, estatal, para administrar as reservas brasileiras. Seguiria o modelo da Noruega, onde a Statoil, empresa de economia mista, é a operadora dos campos, sozinha ou em parcerias, mas existe a Petoro unicamente para administrar as reservas.

Outro ponto importante é a participação da Petrobras no processo. Existe a possibilidade de a empresa ser "contratada" para operar os campos novos, por ser uma empresa de economia mista e por ser a líder tecnológica nas condições extremamente inóspitas de exploração em águas ultra-profundas.

Outra corrente defende o aumento da participação do Estado na empresa, tornando desnecessária a criação de uma nova empresa estatal. A Petrobras seria a fiel depositária e a operadora destes campos.

Setores da oposição parlamentar e da imprensa advogam a manutenção do sistema atual de parceria, com a proibição da atuação da Petrobras nas novas áreas e ampliação da presença transnacional na exploração de petróleo. Este seria transformado em pura "commodity", com o Estado renunciando ao papel geopolítico de deter grandes reservas de óleo e gás.

No modelo de partilha de produção, o Estado fica com a maior parte da mesma. Daí, poderemos ter três formas de operação:

1) O Estado remunera com parte da renda do petróleo a empresa contratada;
2) Uma empresa, estatal, é determinada como operadora destas reservas;
3) Um modelo misto, formam-se consórcios, mas com a empresa operadora dos campos determinada pelo Estado;

Outro fator que precisa ser levado em consideração é o reembolso à Petrobras dos investimentos feitos no desenvolvimento da tecnologia adequada à perfuração (campos de sete quilômetros de profundidade, incluindo uns dois de sal, este em forma líquida devido à absurda pressão) e à pesquisa destes campos.

Parece mais ou menos claro que, mesmo que a empresa não seja determinada como operadora do Estado, seja reembolsada através da entrega de áreas sem licitação - que, neste modelo de partilha, é opcional.

Não arrisco indicar o modelo que o governo adotará, mas pessoalmente acredito que a Petrobras, através de um aumento de capital, estaria perfeitamente apta a desenvolver o papel de guardiã destas reservas e destes campos petrolíferos. A empresa é de controle estatal, tem tecnologia, tem acesso a crédito e pessoal qualificado.

Quanto ao modelo, acredito que é necessária a mudança para o modelo de partilha de produção. Todos os países exportadores não-monopólios procedem assim, pois contempla o papel geopolítico do óleo e do gás no tabuleiro internacional. Até porque não se sabe quanto de óleo há nas áreas não prospectadas.

Lógico que não esgoto o tema neste texto, mas já dá uma boa noção dos interesses que o tema envolve. E explica a CPI da Petrobras...

(Foto: Petrobras)

Inacreditável e Revelador


Eu escrevi aqui na sexta feira sobre o urubu albino que apareceu em Sergipe, inclusive relacionei à torcida do Flamengo.

Não é que no sábado roubaram o urubu ?

Inacreditável a cobiça das pessoas e a sua falta de senso. E o pior é que o animal necessitava de cuidados médicos e é bem possível que não resista à aventura.

Onde a ganância vai parar ?

5.000 Acessos

Ia escrever ontem, mas acabei não o fazendo.

Na madrugada de domingo o blog alcançou o seu acesso único de número 5.000 desde que instalei o contador - três dias depois que iniciei o "Ouro de Tolo".

Queria agradecer aos meus leitores e àqueles que gostam e divulgam o blog.

Aproveito para ressaltar que todos os textos de minha autoria que constam neste espaço têm livre reprodução e divulgação, desde que citada a fonte.

Obrigado !

Resenha Literária - " Pentatri: a história dos cinco tricampeonatos cariocas do Flamengo"

Ontem consegui ler quase que de um fôlego só este livrinho, objeto de nossa "resenha literária" de hoje.

O livro, de autoria do jornalista Paschoal Ambrósio Filho, é um painel dos cinco tricampeonatos estaduais alcançados pelo "Mais Querido" - 42/43/44, 53/54/55, 78/79/79Especial, 99/2000/01, 07/08/09.

Ele traz fichas técnicas resumidas dos jogos das cinco conquistas e conta a história, e as histórias, das conquistas.

O Flamengo não possui uma literatura muito ampla, ainda mais em livros recentes. Em que pese o esforço do jornalista Celso Pupo, que lançou ano passado três obras sobre a história do clube, e o relançamento de uma série de crônicas do escritor José Lins do Rêgo ("O Flamengo é puro amor"), a historiografia do clube ainda é bastante escassa.

"Pentatri" é uma leitura agradável e leve. Interessa a quem quer conhecer um pouco mais da história do clube, por um lado, e tem o mérito de transcrever fontes primárias da época, em especial para as duas primeiras conquistas.

Também esmiúça a hstória do falecimento do Presidente Gilberto Cardoso, antes da conquista de 1955.

Para mim é curioso porque é falado tanto o primeiro jogo que assisti no Maracanã - o do tri de 1979 - como o mais recente, a conquista de 2009. 30 anos se passaram...

Na Livraria da Travessa o livro custa R$28. Recomendo.

A próxima resenha ainda está indefinida: estou entre "Testemunhas da China", a biografia do presidente Lula ou um livrinho muito interessante que comprei recentemente sobre profissões "diferentes' na Roma antiga.

domingo, 9 de agosto de 2009

Direto do Túnel do Tempo

Retiro do blog do jornalista Flávio Gomes foto do GP de Mônaco de 1972, mais precisamente dos treinos, com Beltoise e Emerson Fittipaldi na Curva Loews. A prova marcou a única vitória do piloto francês na categoria, sob uma chuva torrencial.

Bons tempos em que a Fórmula 1 era decidida nas pistas e não nas pranchetas dos engenheiros... qualquer dia irei escrever aqui a relação dos dez maiores que vi correr.

Acho que criarei polêmica.

Clemente V e a Ordem dos Templários

Ontem, a pedido de uma pessoa próxima, fiz algumas pesquisas na internet sobre o Papa em questão. Divido com vocês, abaixo, a compilação que fiz do material que "garimpei".

A história daria um bom livro, a propósito.

"Clemente V, nascido Bertrand de Gouth (1264 - 20 de Abril de 1314) foi Papa entre Junho de 1305 e 1314.

Ele nasceu em Villandraut, Gironda, na região de Bordeaux, cidade da qual se tornou arcebispo em 1299.

Eleito após um pacto selado com o então rei da França Filipe, “O Belo”, da França. Este rezava que o rei com seu poder e influência o ajudaria a alcançar o papado se Bertrand retirasse a excomunhão da familia real, colocada pelo papa anterior.

Ele foi eleito Papa após um longo conclave realizado em Perugia, onde se defrontaram os interesses dos cardeais italianos e franceses.

O seu pontificado ficou marcado por duas coisas: pela mudança da Santa Sé de Roma para Avignon em 1309, justificado pelos tumultos existentes em Itália, e pela destruição trágica da Ordem dos Templários (ordem criada pela própria Igreja Católica), que defendia e protegia os cristãos pela Terra Santa. Veremos isto abaixo.

A decisão de transferir a sede papal para Avignon foi tomada por indicação do rei francês Filipe IV, o Belo, inaugurando um período em que a autoridade e a influência do papado diminuíram muito diante do poder dos reis de França; e teve como resultado político-religioso o cisma do Ocidente, com o estabelecimento de dois Papados, em Roma e Avignon.

Descendia de família nobre e foi bispo de Comminges (1295-97), depois arcebispo de Bordeaux (1297-1305), foi eleito papa (1305) como sucessor de Bento XI (1303-1304), após o longo conclave de Perúgia, e sob influência do clero e governo franceses.

Como os cardeais franceses eram majoritários, Filipe IV, rei de França, conseguiu que o seu favorito fosse proclamado Papa. O arcebispo Bertrand adotou o nome de Clemente V.

Foi coroado em Lyon na presença de Filipe, o Belo, que sempre o manteve sob seu poder de influência. Na prática, o Papa Clemente V era um títere do rei francês.

O rei da França, inspirador do ultraje de Anagni, passou a exercer fortes pressões sobre ele. Conseguiu de imediato a supressão da poderosa e desafeta ordem religiosa e militar dos Templários, sendo o líder Jacques DeMolay - contando 70 anos - preso, condenado e queimado vivo na fogueira. Ele morreu em Paris, no ano de 1314, satisfazendo uma vingança pessoal do monarca e a posse deste sobre as enormes riquezas da Ordem.

Também promoveu a anulação das bulas que proibiam os monarcas de exigir impostos dos eclesiásticos e reafirmavam a autoridade do papa. Conta-se também que atendendo aos insistentes pedidos do rei, canonizou o papa Celestino V e, na Itália, apoiou Roberto de Anjou, rei de Nápoles, que se tornou o líder do partido guelfo.

Voltando à questão da transferência do Papado: alegando ser uma localização mais adequada do que Roma para administrar a igreja, pois a França era politicamente mais importante, transferiu a sede do papado de Roma para Avignon, cidade ao sul de França, onde havia um grande mosteiro, ali fixando residência (1309) e dando início ao chamado Cativeiro de Avignon, que durou quase 70 anos (1309-1377).

No âmbito religioso, celebrou o Concílio de Vienna (1311-1312), 15º Concílio Ecumênico, que estabeleceu a inocência do Papa Bonifácio VIII (1294-1303) pela morte de seu antecessor, e onde realizou sua obra mais importante, uma notável coleção de leis canônicas, denominadas Clementinae, as Clementinas, incluídas no Corpus iuris canonici.

Também levou à fundação na Europa de várias cátedras de línguas asiáticas, fundou a Universidade de Oxford e pôs fim à antiga dissidência entre a Ordem franciscana e os espirituais.

Suas disposições testamentárias favoreciam a própria família de forma tão evidente que, por determinação de seu sucessor, João XXII, originaram um processo.

Papa de número 196, morreu em 20 de abril (1314), em Roquemaure, Nimes, na Provença, após ingerir esmeraldas reduzidas a pó para curar sua febre e um ataque de angústia e sofrimento, que provavelmente cortaram seus intestinos. O remédio foi receitado por médicos desconhecidos, quando o papa retornava a sua cidade natal, e foi sucedido por João XXII (1316-1334).Reza a lenda de que seria vítima da maldição lançada por Jacques de Molay quando de sua morte. Tanto ele quanto o rei francês Felipe pereceram menos de um ano após ter sido queimado vivo na fogueira."

sábado, 8 de agosto de 2009

Os pingos nos is

O excelente comentário do Bruno no post sobre José Sarney me leva a fazer alguns esclarecimentos sobre os dois posts que escrevi aqui esta semana.

Antes de mais nada: eu não estou defendendo o Presidente do Senado. O que eu alerto o tempo todo é que a campanha para retirá-lo do cargo não tem nada de moralidade.

José Sarney é representante do que temos de mais atrasado na política brasileira. Isto é fato. A questão é que estão vendendo a saída dele como se fosse a resolução dos problemas éticos do Congresso, quando sabemos que não é assim. Sou a favor de uma limpeza ampla, geral e irrestrita.

Por que o pessoal do DEM está "quieto" ? Simples, eles controlam há tempos a Primeira Secretaria da Casa e sabem que, se forem investigar a fundo, eles ficarão em maus lençóis.

Querem tirar ? Tirem. Mas levem junto todos aqueles que possuem os mesmos pecados. O que não dá é revestir luta política de "cruzada contra a moralidade".

Sobre a Petrobras, o objetivo da CPI é claro: enfraquecer a posição da empresa na definição das leis e regras que regerão o pré-sal. Trabalho com contratação de serviços e meus 18 leitores não fazem idéia das normas e procedimentos que temos de seguir.

Em tempo: hoje existe muito menos influência política, em relação a outros tempos. Além disso, a Petrobras não depende de um centavo de dinheiro público: ao contrário, é a maior pagadora de impostos do país.

Bolsa-Família: pesquisa recente indicou que o programa agregou cerca de 2 milhões de votos a Lula. Ou seja, insignificante. Outro efeito ignorado é o estímulo à economia local do programa, que gera empregos em pequenos serviços e no comércio. Lembro que o benefício é atrelado à matrícula na escola.

Para fechar, se Lula quisesse se perpetuar no poder teria apoiado a emenda constitucional do terceiro mandato. Ele tem seus defeitos mas golpista, decididamente, não é um deles.

Golpista é parte da oposição e a imprensa, que já perceberam que, se depender do voto, não voltam tão cedo a ocupar o Planalto.

E vamos debatendo, que o contraditório é sempre bom.

Solidariedade

Para começar o final de semana, queria falar um pouquinho de algo que nos falta muito: solidariedade.

Não falo de doações a instituições de caridade ou a pessoas em particular. Falo, sim, daquele dia a dia em que somente pensamos em nós mesmos e, muitas vezes, nos esquecemos daquela pessoa ao nosso lado.

Não cedemos o lugar a grávidas ou a pessoas de idade. Fazemos questão de fechar o carro que está atrás de nós. Entretanto, enchemos o peito para dizer que contribuímos com a campanha social disso ou daquilo, muitas vezes a milhares de quilômetros de distância.

Somos contra a fome, mas desperdiçamos comida. Falamos em preservar a natureza, mas mantemos um nível de consumo acima das possibilidades de renovação da Terra. Defendemos o amor ao próximo, todavia praticamos o egoísmo dia a dia.

A verdadeira solidariedade começa ao nosso lado. Ideais são belos, mas só valem quando existem na prática. Altruísmo de discurso é hipocrisia.

Para ilustrar, as imagens do desfile do Império Serrano, de 1996, que homenageou o maior símbolo deste sentimento no Brasil, o sociólogo Herberth de Souza, o Betinho.

Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, ver na prática o seu exemplo de vida e sua doação ao próximo nos anos derradeiros, e são estas pequenas coisas que fazem a vida valer a pena.

Sejamos solidários na prática, a cada momento, a todo momento, isto é possível.

Um ato de amor.

P.S. - Carnaval executado pelo saudoso amigo Ernesto do Nascimento. São dois vídeos, o segundo é continuação do primeiro.



sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Música para o Final de Semana - Era dos Festivais

Sempre às sextas feiras dou uma indicação de música para abir bem o final de semana.

Hoje farei um pouquinho diferente. Falarei de duas canções que representam uma das maiores e mais famosas batalhas culturais de que se tem notícia: o Festival da Tv Record de 1966 e o inesquecível - mesmo para quem não viveu como eu - duelo entre "Disparada" e "A Banda".

As duas músicas chegaram à final daquele festival claramente polarizadas e francas favoritas ao título. Em clima de Fla-Flu, enfrentavam-se a moderna música rural de Geraldo Vandré e Theo de Barros e a nascente genialidade de Chico Buarque de Holanda. Duelo de titãs.

"Disparada" era defendida por Jair Rodrigues, à época já uma estrela da moderna MPB nascente. "A Banda", pelo próprio autor e pela musa da Bossa Nova, Nara Leão.

Ambas tinham suas particularidades no arranjo. "A Banda" contava com o acompanhamento de uma banda de música, "Disparada" tinha como trunfo uma queixada de burro, que fazia um som absolutamente marcante.

Após apresentações absolutamente apoteóticas, as canções foram declaradas campeãs após um providencial empate.

Escrevo "providencial" porque, de acordo com o testemunho do músico e produtor musical Zuza Homem de Melo, que fazia parte da organização do festival, na verdade "A banda" era a vencedora de acordo com os votos de jurados, em contagem de sete a cinco em seu favor.

Segundo o testemunho, Chico ponderou que "Disparada" não era pior que sua música, que não aceitaria ganhar sozinho, que os ânimos da platéia estavam exaltados; disse que não apareceria para receber o prêmio se fosse o vencedor e, então, propôs-se o empate por parte da organização.

A história deste festival pode ser lida no excelente "A Era dos Festivais", livro do produtor musical. Disponível apenas para compra no Submarino.

Na minha humilde opinião de apreciador de boa música popular brasileira, penso que Chico Buarque tem razão. Disparada é um dos pontos altos da carreira de Vandré, ao passo que "A Banda", a despeito de sua enorme qualidade, não é sequer uma das dez melhores da carreira do genial artista.

Abaixo, as letras das canções e os videos das apresentações na final do festival. Detalhe que o vídeo de "A Banda" vem de um dos DVDs que foram lançados recentemente na série sobre o compositor.

Ressalvo que sou apaixonado pela gravação original de "Disparada", que, aliás, ganhou uma releitura bastante interessante - embora inferior - no último cd do cantor Jair Rodrigues, o qual já resenhado aqui.

Boa diversão. Pergunta aos meus 18 leitores: qual é a melhor ?

Disparada
Composição: Geraldo Vandré e Theo de Barros

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu...

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei...

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei...

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu...

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

A Banda
Composição: Chico Buarque

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor...






Vans & Ônibus: a Verdade

Ontem escrevi aqui post sobre o famigerado "choque de ordem" da Prefeitura carioca, com diversas críticas ao mesmo.

A noite, com calma, li a matéria do jornal O Dia sobre a proibição de vans por parte da Prefeitura, e a conclusão que eu chego é a seguinte, e estarrecedora.

Na prática, o objetivo é devolver às empresas de ônibus o monopólio do transporte rodoviário na cidade.

Para quem não é aqui do Rio de Janeiro, as empresas de ônibus formam o cartel e o grupo de pressão mais fortes do Rio de Janeiro. No Legislativo e no Executivo não se toma nenhuma decisão que prejudique os interesses deste grupo.

Haja visto a concorrência para as concessões de linhas, que estão embargadas no Judiciário faz tempo. Ou a tentativa de diminuir o número de coletivos na Zona Sul e o aumento na Zona Oeste, também embargada.

Resumindo, o que vai acontecer é que as empresas irão acabar com a concorrência das vans e, aos poucos, deixarem de operar com microônibus estas linhas, aumentando a taxa de ocupação de seus coletivos e embolsando estes lucros.

Para um bairro como a Ilha do Governador, esta é uma medida trágica. Não há linhas de trem ou metrô, e as linhas regulares de ônibus, além de quase inexistentes, possuem pouquíssimos carros e sempre caindo aos pedaços. Vai uamentar o número de carros nas ruas e, cosequentemente, piorar o trânsito.

Sei que há problemas em algumas cooperativas de vans, especialmente em ligações com grupos externos à legalidade. Entretanto, era mais fácil regularizar as mesmas, e não entregar tudo de mão beijada às empresas de ônibus.

Sinceramente ? Lamentável. Choque de ordem é apenas em quem não pode se defender.

Sobre Urubus

Vejo matéria no site do jornal O Globo sobre a existência de um urubu alpino em Sergipe, como mostram as fotos deste post - retiradas de lá.

Para nós, rubro-negros, o urubu é uma ave simbólica, pois representa o nosso símbolo e a nossa afirmação.

Originalmente, o termo "urubu" era um apelido pejorativo, dado a nós flamengos pela origem negra e pobre predominante em nossa torcida.

Eis que, em junho de 1969, haveria um Flamengo e Botafogo que mudaria esta história. Nosso time já estava há um bom tempo sem vencer a cachorrada, e naquele dia dois torcedores soltaram um urubu, com a bandeira do clube amarrada nas patas, dentro do Maracanã.

A massa imediatamente reagiu gritando "urubu, urubu", e o Flamengo venceu o jogo por dois a um, quebrando uma incômoda escrita.

Mestre Henfil imediatamente adotou o urubu como símbolo em seus desenhos e a ave acabou definitivamente adotada como nossa mascote. De símbolo de preconceito transformou-se em símbolo de união.
Como mostram as imagens, gosto muito do desenho do chargista Mario Alberto. Dos chargistas atuais, foi quem conseguiu o melhor desenho.

Agora, este urubu alpino me transmite uma outra imagem, a de que todos podem ser flamengos independente de raça, cor, religião, sexo ou classe social.

É a natureza se rendendo ao Mais Querido.

Cinecasulofilia

Bom, hoje é sexta feira, dia da nossa coluna sobre cinema, em parceria com o excelente blog Cinecasulofilia, do amigo Marcelo Ikeda.

Vamos ao texto de hoje, rapidinho porque mais uma reunião me espera:

Serbis
Brillante Mendoza

À parte o meu preconceito em relação ao tipo de filme que Brillante Mendoza contrói – uma espécie de Cláudio Assis filipino, se bem que melhorado – é preciso dizer que Serbis não é nada desprezível. Ao que se propõe, faz com uma clareza até certo ponto surpreendente. Mendoza olha para um submundo – uma família que subsiste em torno da atividade de um decadente cinema pornô – mas domina os recursos (às vezes cacoetes) de um certo cinema contemporâneo, como já no primeiro plano fica claro, uma bela sequência de uma adolescente nua se olhando no espelho em meio a flares, reflexos de luz e outras fagulhas de luminosidade. Em seguida, diversos planos longos da trajetória dos personagens que nos dão a ver a geografia física, decadente e sinuosa, das escadarias do cinema, e que também são uma espécie de lar para essas pessoas (o acolhimento do repulsivo sem julgar é uma das principais características do filme). A decadência desse cinema não tem uma elegância nostálgica como em Goodbye Dragon Inn: aqui mergulhamos nesse submundo e no dia-a-dia cheio de pequenos afazeres dessa família que tenta se virar para sobreviver. É certo que Mendoza quer explorar uma certa miséria através de um certo esteticismo berrante – e isso me incomoda um tanto no filme: cabras no cinema, furúnculos, cartazes grotescos, recursos estilizados, sexo, etc. E nisso parece uma certa aberração de filmes como O Pântano, que querem a partir de um caos apresentar um certo atraso de todo um estado de coisas. Mas para além desses cacoetes, Mendoza sabe construir um cinema leve de climas e pequenas modulações para além do mero estereótipo (exemplo é a beleza da criança brincando entre os gays do cinema pornô), sabe às vezes construir um certo olhar delicado, uma certa admiração implícita por esse submundo decadente que o atrai, essa certa atmosfera kitsch. Estilhaços de breves narrativas que se entrecruzam sem que necessariamente formem um todo articulado, como fica claro no final do filme, adequadamente fragmentado, em que, num recurso chupado de Corrida Sem Fim, o negativo estoura, e percebemos que se trata de um filme dentro do filme, um arroubo de homenagem irônica a essa magia peremptória do cinema, breve mas fulminante.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O famigerado "choque de ordem"

Estou para escrever sobre este assunto há algum tempo, mas queria observar mais o que iria acontecer.

A imprensa conservadora vem fazendo grande estardalhaço sobre o "choque de ordem" da Prefeitura do Rio. Na prática, o que significa isso ?

Podemos resumir a uns poucos pontos: repressão e proibição do comércio ambulante, inclusive em muitos casos de camelôs legalizados; reboque de veículos, mesmo que estacionados em áreas permitidas; "limpeza" de mendigos e moradores de rua dos bairros da Zona Sul; repressão do transporte em vans e kombis.

Antes de analisarmos ponto a ponto, deixemos claro uma coisa: Eduardo Paes, prefeito da cidade, está se comportando muito mais como presidente da Associação de Moradores do Leblon do que como Prefeito do Rio de Janeiro. Todas as decisões administrativas estão pautadas nos interesses de uma parcela da população compreendida entre a Urca e a Barra da Tijuca.

Por outro lado, isto é reflexo da guinada à direita dada pelo povo carioca desde 1992. Plataformas políticas de centro ou de esquerda foram varridas do mapa aqui na cidade. Isto explica o aparente apoio da população às medidas, pelo menos da parcela que se expressa em jornais e forma opinião.

Vamos analisar cada um dos pontos do "choque de ordem":

1) Repressão aos camelôs: da maneira como foi feita, só estimulará a criminalidade. Buscou-se diminuir e até eliminar o vendedor final, que muitas vezes depende daquela barraquinha para tirar o seu sustento; sem ir nas fontes de ilegalidades que permeiam o tema. Ao invés de reprimir as redes de produtos ilegais, optaram por retirar as barracas de circulação.

Sou a favor de discuplina, mas da maneira como foi feita, "varreram para debaixo do tapete".

2) Reboque de Veículos: aqui onde trabalho volta e meia tem correria de funcionário para evitar reboque dos seus veículos. Não respeitam as vagas legalmente determinadas, multando e rebocando a bel prazer. Para mim, isso é abuso de poder, até porque onde teriam de proibir o estacionamento irregular, não o fazem.

3) "Limpeza" de mendigos: quem é mais antigo deve se lembrar da história do sumiço de moradores de rua no Rio Guandu. A política atual, embora não tão drástica, é semelhante: sumir com eles das vistas das dondocas do Leblon.

Não há uma política social sustentada de amparo a estas populações. É varrer das ruas e "desová-los" o mais distante possível. O importante é que a fina flor da alta sociedade da cidade não seja importunada em seus deslocamentos.

4) Vans e kombis: o ponto mais polêmico. Concordo que precisa haver uma regulamentação, mas hoje o que ocorre é a proibição pura e simples. Além disso, fazem "blitzes" na hora do rush, aporrinhando os pobres moradores em seus deslocamentos indo e vindo do trabalho.

Só que na data de hoje apareceu a verdade por trás da repressão: apenas microônibus poderão se estabelecer como transporte alternativo. Ou seja, voltará tudo às mãos das empresas de ônibus, que é o lobby mais organizado e poderoso da cidade - e que não foi alvo do choque de ordem...

Quero ver a população se virar na Ilha do Governador, por exemplo, com pouquíssimas opções de ônibus, pouquíssimos coletivos e em péssimo estado de conservação. Depois ainda tenho de ler o Secretário de Transportes dizer que "o trânsito na Ilha é ruim porque todo mundo usa o carro." Queria que a gente se deslocasse como, a pé ?

Concluindo: este "choque de ordem" só atingiu quem trabalha e quem não pode se defender. Nos verdadeiros e poderosos focos de desordem urbana, nada foi mexido. Mas a hipocrisia das elites da Zona Sul está garantida.

P.S. - Que fique claro que não sou a favor da desordem. Todavia, as verdadeiras questões de utilização do espaço urbano, as verdadeiras causas da desordem, estão intocadas nesta proposta cosmética e excludente do atual prefeito.

Estamos ficando para trás

Mais uma derrota do Flamengo com participação estratégica da arbitragem. Em Sampa, o Botafogo também pode reclamar do mesmo assunto.

Não escreverei aqui que "existe esquema de arbitragem", e outras coisas, mas queria chamar a atenção para um fato que é inexorável: o futebol carioca, hoje, é apenas o quarto ou quinto centro de futebol no país. Estamos atrás, certamente, de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, e ombreando-nos com o Paraná.

Os resultados falam por si. Em Campeonatos Brasileiros, desde 2001 que o futebol carioca não conquista um título ou um vice-campeonato. A estrutura do nosso futebol é bem precária, para dizer o menos. Os clubes afogam-se em dívidas e perdem a capacidade de investimento.

A qualidade dos nossos dirigentes, também, contribui para esta decadência. Estes obtém sucesso em suas vidas particulares de forma inversamente proporcional à derrocada financeira dos clubes. São amadores no trato com as questões, além de não saberem pensar os clubes de forma profissional e estruturada. Talvez nem interesse fazer isso.

Uma boa medida de como os nosso ex-grandes clubes ficaram para trás reside no fato de que o clube carioca que possui o melhor Centro de Treinamento é o Tigres do Brasil, que acabou de subir para a Primeira Divisão Estadual e é gerido como um um clube empresa.

Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo, os dois primeiros penso eu um pouco mais, necessitam urgentemente profissionalizar as suas gestões, investir em estrutura, trazer novamente o torcedor para perto dele através de um bom marketing e aprender com as boas práticas de clubes de outros estados. Precisam também se unir para enfrentar a crescente perda de influência a nível nacional. Basta ver os clubes que recebem maior atenção da mídia nacional.

Mais uma medida necessária é uma defesa mais firme dos interesses junto à CBF. Leva quem fala mais alto, e hoje, falamos baixinho.

Se este processo não começar rápido, nosso destino será o de ter presença marginal no contexto do futebol brasileiro. Ainda dá tempo de reverter este quadro, mas precisa ser feito rápido.

Penso que o Botafogo está um pouquinho à frente neste cenário, mas lá o problema é outro: falta de grana. O clube, além disso, pelo tamanho de sua torcida possui bem menos oportunidades de auferir recursos com marketing do que Flamengo e Vasco.

Precisamos nos organizar. Ou os bons tempos jamais voltarão. E continuaremos a ser esbulhados pelo soprador de apito da ocasião...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Entendendo o Fator Sarney

Com o brilhantismo de hábito, o jornalista econômico Luis Nassif explica, com a clareza que não consegui ontem, o porquê da necessidade de se manter José Sarney na presidência do Senado.

Transcrevo aqui parte do texto. Sua totalidade, com links para outras colunas do articulista, pode ser encontrada aqui.

Entendendo o Fator Sarney

É tarefa inglória essa de tentar explicar o significado político da tentativa de derrubada de Sarney - ainda mais sabendo que Cláudio Humberto foi acionado para atacar o senador Pedro Simon.

Mas, vamos lá, que o desafio é bom.

Ponto 1 - Sarney representa, de fato, o lado complicado da política brasileira.
É um coronel político, trata os adversários menores (nos seus estados) sem complacência, vale-se de alianças no Judiciário e de facilidades no Executivo. (...)

Ponto 2 - o grupo alagoano não é flor que se cheire.
Vide os ataques de Cláudio Humberto contra Simon que repetem, em escala menor, os assassinatos de reputação da mídia.

Ponto 3 - golpe e legalidade.
É aí que a porca torce o rabo. A derrubada de Sarney faz parte de uma manobra político-midiática visando desestabilizar o jogo político. Quer-se no Senado alguém que facilite CPIs e articulações que precipitem crises políticas.

Não fosse esse o intuito, não haveria a fulanização da crise do Senado em Sarney. Haveria interesse em identificar todos os beneficiários de atos secretos (não sobraria um Senador de pé), de exigir a punição de todos ou - melhor ainda - de batalhar pelas reformas no Senado.

Já tenho experiência suficiente para saber o significado de crises políticas. Afetam a vida de todos, dependendo de sua intensidade paralisam a economia, provocam terremotos no mercado, criam divisões que levam anos para serem corrigidas.

Ponto 4: o Judas da Semana Santa.
Para se legitimar perante os leitores, e impor seu poder de intimidação, a mídia precisa de Sarney, como precisou de Maluf, Quércia, Collor, Renan, Ibsen, Jader, o deputado do castelo e tantos personagens dessa natureza.

Pega políticos controversos e o transforma na personificação do mal, naquele que precisa ser destruído a qualquer custo, sob pena da moralidade soçobrar. Poupou apenas o pior deles, ACM.

São jogadas de cartas marcadas. Evidentemente, há políticos melhores e piores. Mas se a mídia decidir destruir qualquer político - de Lula a FHC, de Dilma a Serra, do PT ao PSDB - ela conseguirá elementos, factóides, armações ou provas. O modelo político brasileiro expõe todos.

Quando se entra nesse jogo, se está transferindo para a mídia o poder de definir quem é o atacado e quem é o poupado. Está se conferindo a ela um poder absurdo, de defenestrar o presidente do Senado, sempre que lhe der na telha, de tentar derrubar presidentes (como fizeram com Collor, em certo período tentaram com FHC e há cinco anos tentam com Lula), de calar o Judiciário com denúncias, sempre que alguma decisão não for do seu agrado. Pergunto: esse poder será exercido com critério, com moderação opu obedecerá aos interesses específicos dos grupos jornalísticos?

É barato o preço a ser pago pela degola seletiva de Sarney? Creio que não. É jogar o epicentro da crise no Senado, reforçar o papel da mídia de derrubar quem quiser, de impor seu padrão e seus interesses a qualquer poder e de expor o país a qualquer crise, contanto que seus objetivos sejam alcançados.

Espero que, um dia, Sarney pague por todo seu passado. Mas espero que isso ocorra seguindo todos os procedimentos legais, não sendo empurrado goela abaixo do país por esse alarido midiático. Por isso, ao mesmo tempo que aguardo a condenação de Sarney, espero que o presidente do Senado resista e não se deixe derrubar por esse jogo de sombras e interesses.

Conflitos na Nigéria e Intolerância

Passaram quase despercebidos na imprensa brasileira os últimos conflitos envolvendo o Exército local e uma seita religiosa fanática, que resultaram em quase 800 mortos em cerca de uma semana de conflito.

Uma pena que não tenha sido dado o destaque merecido, pois é um bom exemplo de um fenômeno que cada vez mais acomete o ser humano: a intolerância.

Segundo o que se noticiou, o conflito envolveu os seguidores de uma seita radical islâmica, que queria aplicar a "Sharia", lei religiosa, àquela localidade. No conflito que se seguiu morreram quase 800 pessoas, inclusive o líder da seita - que é mais radical que o "Taleban" afegão.

Algo que vemos, nos dias de hoje, é que o homem está cada vez mais individualista e menos tolerante à discordância. Tendemos a considerar como inimigos aqueles que de nós divergem. Levado ao extremo, se chega a barbáries como esta.

Outra consequência disso é a maior restrição a direitos individuais que, volta e meia, os governos vem aprovando pelo mundo. Podemos resumir na máxima "você pode fazer o que quiser, desde que eu permita".

Nós, que lutamos tanto pelos nossos direiros e contra o totalitarismo, acompanhamos, e nos acostumamos, com uma forma de totalitarismo ainda mais perversa, que é a progressiva diminuição dos direitos individuais.

Paralelamente, o sectarismo ganha terreno e ao invés de união, o que observamos é a cada vez maior fragmentação do indivíduo em células, cegas às demais e impondo a nossa verdade como verdade absoluta.

Não acredito que a culpa deste fenômeno seja da religião. Ela é meio, mas a intolerância se verifica em posições políticas, econômicas, sociais e religiosas. Na Nigéria a religião foi o estopim, entretanto se analisarmos políticas como o "choque de ordem" da prefeitura carioca, concluiremos que não passa de manifestação de intolerância social.

Afastem estes camelôs daqui porque são gentalha, afastem os mendigos daqui porque não são dignos deste lugar, se não arruma emprego como camelô é que não pode... este discurso do choque de ordem é reflexo de intolerância, também. Alargando o raciocínio, se estas células prejudicadas organizadas fossem, poderíamos ter um conflito de proporções semelhantes.

Meishu Sama escreve em seus Ensinamentos que a melhor forma de paz mundial é fazer com que cada país realce as suas características, ou, para usar a imagem empregada, "deixe a sua cor mais forte, brilhando". Dominar, impor a sua opinião, seria "pintar outros países com a sua cor", e na instância final ampliar o sectarismo e a vontade una.

Não encerrarei com apelos à paz mundial ou coisa parecida, soa piegas, mas peço aos meus 17 leitores que reflitam um pouco sobre seus egoísmos, sobre sua capacidade de tolerância e sobre o papel que desempenhamos na sociedade.

O pior mal que podemos fazer é quando o fazemos pensando ser um bem; e impor o nosso pensamento e a nossa cultura como "certos" é um mal desta classe.

Reflitamos. Que estas 800 mortes não tenham sido em vão.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Samba de Terça

"Marcado pela própria natureza..."

Quem nunca ouviu estes versos ? Eles se referem àquele que, para mim, é o maior samba de enredo de todos os tempos: "Os Sertões", trazido no ano de 1976 pela Em Cima da Hora, simpática agremiação de Cavalcanti.

O enredo trazia para a avenida o livro com o mesmo nome do escritor Euclides da Cunha, que retratou a Guerra de Canudos, ocorrida nos últimos anos do Século 19. Livro que, aliás, li quando tinha meus dezenove anos...

A agremiação àquele ano fazia parte do que hoje chamam Grupo Especial - à época, era denominada Grupo 1, que desfilava na Avenida Presidente Vargas.

Eram outros tempos. O samba só tinha um autor (Edeor de Paula, na foto com o Estandarte de Ouro ganho naquela ocasião) e não havia aquele engessamento determinado pelas sinopses de hoje em dia. Nas palavras do próprio, em trecho de entrevista concedida ao excelente site "O Batuque" - fonte, também, das fotos:

OBatuque.com - Rola um boato na quadra da Em Cima da Hora que o samba caiu. É verdade isso?
Edeor de Paula – Não, não. Posso até falar com você. Quando chegou a semifinal, caíam dois sambas. E ficariam três para a grande final. Era por pontos corridos. A diferença entre um samba e outro chegava a dois ou três pontos. Os que caíram antes estavam muito distante disso. Quando meu samba foi pra final, não sei o que arrumaram. Fiquei a 20 pontos do Baianinho. Era muita coisa, não dava para recuperar. Eu ia perder. Cheguei a falar com vice-presidente na época: "Ô, Zeca, quer saber de uma coisa? Eu vou embora. Pode retirar meu samba, porque eu vou embora". Ele falou: "Pelo amor de Deus, não faça isso! Houve um problema, eu não sei o que é, mas eu vou saber". Respeitando o Baianinho, o samba passou bem pra caramba para ficar uma diferença daquela. Não dava. Na sexta-feira fui comunicado que tinha que conversar com o pessoal da Academia de Letras. Fomos nós quatro. Os quatro não formavam parceria única, não. Era um de cada samba. Só tinha um samba que tinha dois compositores. Quando eu cheguei pra conversar com o presidente da ABL, o Dirceu Quintanilha, ele me pediu pra cantar todos os sambas que havia ganho, o samba de terreiro, o samba de quadra e o samba-enredo. Eu falei que não era cantor, mas mesmo assim ele pediu pra cantar. Depois que eu cantei "Os Sertões", ele olhou para o presidente e falou: "É, presidente. Só se houver eclipse! Esse samba vai sair daqui e vai correr o mundo." E meu Pai Maior falou amém! O mundo pode não conhecer o Edeor de Paula, mas conhece a minha obra.

OBatuque.com - Quantos cantores já regravaram este samba?
Edeor de Paula – Olha... Honestamente, foram muitos. A mais recente regravação é do Raimundo Fagner, que nunca cantou samba.

OBatuque.com - Como foi o anúncio de "Os Sertões" como samba campeão?
Edeor de Paula – O presidente Chiquinho, que ainda está vivo, chamou os três concorrentes e fomos os quatro até a secretaria.

OBatuque.com - Quatro?
Edeor de Paula – É. Três sambas na final, cada samba com apenas um compositor. Só tinha um samba com dois parceiros.

OBatuque.com - Se fosse hoje...
Edeor de Paula - Se fosse hoje, não daria tanta gente na secretaria. Teriam mais de 20 pessoas (risos). Aí, o presidente falou: "Já tem o resultado, já tem o ganhador". Tinha uísque e cerveja à vontade. "Vamos fazer primeiro nossa festinha aqui". A quadra tava cheia. Foi um ano inesquecível da Em Cima da Hora, embora a quadra não fosse coberta. Chiquinho veio e anunciou entre os compositores: "O samba que a escola vai levar para a Avenida é o de Edeor de Paula". Foi uma alegria só. Todos nós nos abraçamos. O presidente pediu pra nos apresentarmos de novo, sem ninguém poder falar quem ganhou. Mas já tinha um ganhador. Tivemos que disfarçar tanto, que um colega meu já falecido, o Cabrinha, me perguntou como é que a gente está. Eu falei: "Estamos bem, nada foi resolvido ainda". Mentira: eu já era o vencedor. Depois de todas as apresentações, o locutor anunciou: "O samba que a Em Cima da Hora vai levar para a Avenida tem o seguinte refrão: 'Os jagunços lutaram até o final, defendendo Canudos naquela guerra fatal'". Chorei muito. E me desculpa, ainda fico emocionado. De alegria também se chora. Depois me carregaram, me jogaram pro alto. Na hora tava me machucando. Cheguei a falar com um cara lá: "Ô meu irmãozinho, dá um jeito aí. Tá brabo. Tá me machucando", mas ele tava muito doido cantando meu samba, nem ouviu (risos).

OBatuque.com - Como foi o desfile?
Edeor de Paula – Foi um desfile triste. Foi uma tempestade. Antes do carnaval, o barracão mais bonito era o nosso. A imprensa comentava que a escola estava entre as três primeiras colocadas. O desastre começou na saída do primeiro carro do barracão. Não sei quem foi o gênio que projetou aquele carro. Pra sair do barracão, tiveram que serrar o carro. É brincadeira? Chegou na Avenida, caiu uma tempestade. O carro de Canudos não desfilou. Os adereços se estragaram, um desastre que marcou a escola. Depois disso, a escola nunca mais subiu. A única coisa boa para a escola foi eu ter ganho o Estandarte de Ouro de Melhor Samba.

OBatuque.com - A queda da escola teve alguma relação com a política, já que era um samba considerado revolucionário e vivíamos a ditadura militar?
Edeor de Paula – Alguns jornais comentaram isso na época, mas eu não acredito. A escola não tinha estrutura. Passou. Eu continuo Em Cima da Hora. Já fiz samba em outras escolas, mas continuo Em Cima da Hora.

OBatuque.com – "Os Sertões", se estivesse concorrendo hoje, venceria?
Edeor de Paula – Não. E não mesmo. Hoje tá tudo mudado. Não sei se pra melhor ou pra pior. A começar pela bateria. Tá parecendo corrida de cavalo. "Foi dada a largada!" Aquela correria (risos). Ainda restavam três escolas que mantinham essa linha: Mangueira, Império Serrano e Unidos da Tijuca, mas hoje já mudaram tudo. Quem tá voltando com isso, ultimamente, é a Beija-Flor. Lá o negócio é sério. Tem que saber fazer samba. Lá não entra marcha. A prova taí, tricampeã do carnaval. O povo não quer correria, ele quer escutar uma boa música, um bom trabalho e uma boa poesia. Você pode ver, estão rimando piche com maxixe, aí fica difícil.

A beleza do samba está em resumir em versos simples e fortes toda a complexidade do livro e a rotina dos combates durante a Guerra de Canudos. Com isso, trouxe a singela simplicidade do sertanejo. Conta a batalha sem descrever minuciosa e historicamente o conflito. Um poema concreto.

Como o próprio autor descreve na entrevista, a escola foi prejudicada pela chuva, pelo atraso do início do desfile e por sua própria posição de abrir o mesmo, além de sofrer com a sua falta de estrutura.

Com todos estes fatores, a escola obteve apenas o décimo-terceiro e penúltimo lugar, com 77 pontos, sendo rebaixada para o Grupo 2. Entretanto, o samba ganhou o Estandarte de Ouro daquele carnaval de 1976.

A Em Cima Da Hora voltaria a desfilar no Grupo Especial em 1985, mas hoje, comandada por uma nova "rapaziada", a escola está no Acesso D, que corresponde à quinta divisão do samba.

Aqui você pode ouvir o samba, em três versões: a original de 1976, a gravação recente do Dudu Nobre, e uma efetuada pela cantora Fernanda Abreu para o CD "Aula de Samba", de que particularmente não gosto, pelas "firulas" impostas na gravação.

Vamos à letra:

"Os Sertões"
(Edeor de Paula)

Marcados pela própria natureza
O Nordeste do meu Brasil
Oh! solitário sertão
De sofrimento e solidão
A terra é seca
Mal se pode cultivar
Morrem as plantas e foge o ar
A vida e triste nesse lugar

Sertanejo é forte
Supera miséria sem fim
Sertanejo homem forte
Dizia o Poeta assim

Foi no século passado
No interior da Bahia
O Homem revoltado com a sorte
do mundo em que vivia
Ocultou-se no sertão
espalhando a rebeldia
Se revoltando contra a lei
Que a sociedade oferecia

Os Jagunços lutaram
Ate o final
Defendendo Canudos
Naquela guerra fatal

Abaixo, um vídeo muito curioso: uma apresentação do samba em Copenhagen, na Dinamarca, que garimpei no Youtube. Vale pela curiosidade.

Em tempo, 2010 marca o centenário de morte do autor do livro, Euclides da Cunha. Bem que poderiam reeditar o samba...



Semana que vem, farei uma homenagem a um amigo querido, assíduo frequentador deste blog: "Carukango", Unidos de Villa Rica 2007. Até lá.

Collor, o Senado e a imprensa

Decididamente, o mundo dá voltas.

Fui cara pintada, participei de passeatas para o impeachment deste cidadão. Naquele momento, o país vivia ainda uma fase de sonho com a política. Eram tempos de consolidação da democracia, após 21 anos de ditadura militar.

Por outro lado, é forçoso reconhecer, olhando retrospectivamente, que os delitos que culminaram com o seu impeachment são de bem menor monta levando-se em conta o que ocorreu, por exemplo, na década de 90 e no início deste milênio.

Por que digo isso ? Porque não vi o noticiário ontem (tava fazendo mercado...) e hoje, dando aquela "mapeada" pelo noticiário na internet me deparei com os acontecimentos da sessão do Senado ontem.

Jamais diria que um dia concordaria com este cidadão, mas penso que ele tem razão em dois pontos: quando fala que "é o Senado como um todo", ou seja, não há mais ou menos honestos; e quando se refere ao papel da grande imprensa.

Eu estou indignado com certos senadores - Artur Virgílio é um bom exemplo disso - que posam de vestais, criticam a presidência da casa, mas incorrem nos mesmos pecados. Isso tem nome: hipocrisia.

A varredura no Senado e na política como um todo precisa ser ampla, geral e irrestrita. Tirando uma meia dúzia de exceções que confirmam a regra, é tudo igual, é tudo reflexo da sociedade anti ética em que vivemos.

Vende-se a saída de José Sarney como uma panacéia que irá devolver a moralidade à política. Penso que o político em questão já deveria estar fora da política há muito tempo, mas para mim isto tem outro nome: golpismo.

Como já escrevi em outro artigo, a intenção de defenestrá-lo do cargo é dar à oposição o controle do Legislativo.

O PSDB já controla o Supremo Tribunal Federal, ou seja, o Judiciário, e a grande imprensa está em uma cada vez mais indisfarçada campanha política. Obtendo o controle do Congresso faltaria apenas convencer os militares para, uma vez mais, utilizá-los como ponta de lança para apear Lula do poder.

Apesar das (necessárias) concessões feitas, o Governo Lula contrariou muitos interesses ao dar atenção para as camadas mais pobres da população. A oposição já percebeu que não tem a menor chance em 2010.

Restariam dois caminhos: o bombardeio intenso a fim de tentar virar o jogo eleitoral, ou a quartelada pura e simples. Por isso estes movimentos a fim de obter pela força o controle do Senado Federal.

O Congresso não ficará mais ético com a saída dele de lá. Para isso, a vassoura precisa varrer mais e melhor. Entretanto, é luta política pura. Não se enganem.

Agora: triste é o país onde Fernando Collor de Mello tem razão...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A tecnologia está me cansando

Escrevi mais cedo que passei o final de semana meio que longe de tudo.

Fui para Praia Seca no final da manhã de sábado e permaneci lá por cerca de 30 horas, desligado do mundo. Celular desligado, longe do computador - embora a Daniele tenha levado o computador portátil - e fora de televisão.

Aproveitei para ler um pouco - terminei de ler o livro objeto de resenha no post abaixo - brincar com as minhas filhas e descansar um pouco.

Achei que iria ter "crise de abstinência", mas, à exceção de uma rápida olhada no notebook para confirmar a efetivação do Andrade no comando técnico do Flamengo, até que me virei bem sem isso.

Depois, enquanto voltava dirigindo, pude observar todas estas populações que vivem com o mínimo de tecnologia, vivem menos estressados. E vivem bem.

Tenho internet em casa há pelo menos dez anos. Sempre fui um entusiasta da tecnologia, tenho smartphone, blog, Orkut, três contas pelo menos de e-mail e computador pessoal. Muito me auxilia.

Entretanto, temos de delinear a fronteira entre o que facilita e o que estressa. Não é o meu caso, todavia hoje observo muitas pessoas que preferem a vida virtual à real. São incapazes de tomar um chope com amigos, mas ficam horas em MSNs da vida.

Eu estou começando a cansar disto. Gosto de informática, gosto de internet, mas irei reduzir o número de horas disponibilizada. Se bem que, em casa, ultimamente só tenho utilizado o micro uma ou duas vezes por semana, já está em um ritmo legal.

Este final de semana me mostrou que a tecnologia facilita, mas não torna a nossa vida totalmente dependente dela. Precismos estar mais "olho no olho" as pessoas, voltar a uma vida mais real. Dominar a máquina para não ser dominada por ela. Torná-la nossa aliada e não nosso senhor feudal.

A foto é apenas uma ilustração, eu desfilei na Portela este ano vestido de notebook... em minha defesa tenho o fator de ter escolhido a ala sem ver a fantasia. Depois é que soube.

Chinelo, uma odisséia... sem final feliz

Como já escrevi aqui outras vezes, estou ficando velho e estou ficando ainda mais chato do que já sou.

Como eu não escrevi aqui ainda, eu não gosto de chinelo no estilo Havaianas. Nunca gostei. Aquela tira entre os dedos me machuca e incomoda.

Sempre utilizei chinelos tipo "Rider", como o que está na foto. Como a tira é por cima, não machuca o pé. Ainda uso um número acima do meu, para ficar bem confortável.

Tinha um deste tipo da marca Speedo - que é igual ao Rider, fabricado pela mesma empresa, só muda a marca - que arrebentou. De sexta feira para cá procurei em dezenas de lojas, em dois shoppings, e... não achei !!!!

Só encontrei Havaianas e genéricos do mesmo tipo. Ou aqueles chinelos de couro que podem ser tudo, menos confortáveis. Ainda comprei um Havaianas para levar para Praia Seca no sábado, mas deixei por lá. Me machuca e me irrita.

Alguém sabe como faço para encontrar um destes ? Esta situação, decididamente, está me irritando.

Chinelo, acima de tudo, deve ser confortável para o dono. Um chinelo que incomode possui um poder maior que o de muitas outras coisas no sentido de irritar o ser humano.

Quem não é feliz com o seu chinelo não é feliz na vida.

Resenha Literária - "Cães de Guarda - Jornalistas e Censores, do Ai-5 À Constituição de 1988"

Finalmente temos de volta a nossa seção "resenha literária". E volta em grande estilo, com um tema polêmico em um livro polêmico: censura e colaboracionismo no Regime Militar.

O livro é a adaptação da tese de doutorado da autora e parte de três eixos centrais: a história da censura do Brasil, a legislação que envolve o tema e respaldava a censura prévia e o estudo de caso envolvendo o jornal "Folha da Tarde", perpassando a "Folha de São Paulo".

Entre as várias polêmicas do livro, destaco também a auto-censura que parte mais conservadora da sociedade se impunha e solicitava aos órgãos de repressão.

Beatriz Kushner, a autora, entrevista vários censores e escreve sobre o cotidiano do trabalho destes. Entretanto, ressalta que boa parte da denominada "grande imprensa" se impôs um ritual de auto-censura e, muitas vezes, contratavam policiais ou ex-censores para "balizar" o que poderia ou não ser publicado.

Também traz à baila o papel do Grupo Folha, que não somente auxiliou com recursos financeiros e logísticos (carros) a repressão e a tortura como tinha um jornal que, na fase mais terrível da caça aos opositores do regime era uma espécie de "Diário Oficial" dos torturadores e da guerra suja: a 'Folha da Tarde'.

Sejamos claros: o "Grupo Folha" apoiava a tortura.

Também deixa evidente que, muitas vezes, os grandes órgãos de imprensa "compravam" a versão oficial das mortes de opositores ao regime, encobrindo o óbvio: que haviam perecido sob tortura nas dependências da polícia.

Excelente e esclarecedora leitura. Recomendável, ainda mais em um ambiente como o de hoje, onde os grandes grupos de jornais e televisão estão claramente envolvidos em uma campanha com ares de golpista.

Na Saraiva, o livro está custando R$ 52. E boa leitura.

Julho de 2009

Buenas, após um final de semana meio que isolado do mundo, estamos aqui.

Começamos com os números de julho do Ouro de Tolo. Tivemos 1.486 visitas únicas e 3.393 page views. 77 posts, com 136 comentários.

Agradeço a você, leitor, pela preferência. E não se esqueça de divulgar o blog aos seus contatos. Obrigado !

Aproveito para ressaltar que todos os textos de minha autoria publicados neste blog tem livre reprodução, desde que citada a fonte.