domingo, 18 de outubro de 2009

Entrevista: João Henrique Areias


Em parceria com o blog "Flamengo Eternamente", reproduzo aqui entrevista do candidato à Presidência do Flamengo João Henrique Areias. Vale a pena ver as idéias do candidato da Chapa Cinza às eleições.

Ressalto que todos os candidatos que responderem às perguntas feitas pelo blog parceiro terão suas respostas publicadas aqui, em que pese o Ouro de Tolo estar apoiando Areias. Aqui, antes de mais nada, é um espaço democrático.

Passemos à entrevista:

Empresário, sócio Proprietário e Membro Nato do Conselho Deliberativo do Flamengo. Trabalhou 12 anos na IBM Brasil nas áreas de vendas, marketing e comunicação e desde 1987 é profissional do esporte, tendo desenvolvido alguns dos mais importantes projetos esportivos do Brasil, que vão desde a viabilização do Clube dos 13 em 1987 até a Arena Petrobras em 2005 para abrigar os jogos do Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. Foi responsável pelo Marketing do Flamengo em 1987-88, 1992 e 2004. De fevereiro a junho deste ano, foi Vice Presidente de Esportes Olímpicos, conquistando o Sul Americano e o Bi Campeonato Brasileiro de Basquete(www.flabasquete.com), colocando em dia os salários da equipe, trabalhando em tempo integral e aplicando um novo modelo de gestão baseado no profissionalismo com 10 ex-alunos do seu curso de Gestão e Marketing Esportivo.

1. Boa parte das receitas do clube para o seu mandato já foram adiantadas e provavelmente o contrato de patrocínio já estará assinado, como o senhor imagina ter recursos para gerir o clube e ainda implementar todas as melhorias prometidas em sua campanha? Há algum projeto específico para lidar com a dívida atual?


A situação econômico-finaceira do Clube é grave, mas tem solução, a partir de um programa de aumento das receitas e austeridade na gestão das despesas.

Hoje, as receitas atingem R$ 150 milhões. Através de ações de marketing, temos a meta de atingir R$ 500 milhões, em três anos. Afirmo isso baseado na minha experiência como profissional dessa área. O MKT do Flamengo, a partir do MKT do Futebol sofrerão profundas reformulações.

As despesas serão administradas, com austeridade e transparência, de sorte a permitirem o indispensável equilíbrio financeiro, incluindo o pagamento do passivo.

Vamos trabalhar com um grupo de especialistas na área financeira, e elaborar e cumprir um Orçamento por Objetivos, considerando os Planos, Programas, Projetos e metas estabelecidos.

Para levantar com segurança o passivo do Flamengo e encaminhar com propriedade as negociações para liquidá-lo, já no dia 1º de janeiro de 2010 vamos instalar a Diretoria do Contencioso. Pari passo, solicitamos ao Flamengo um pedido de criação de uma comissão para auxiliar a transição do candidato vencedor, já a partir do dia 08 de dezembro.

2. O senhor é a favor da construção de um novo estádio já em seu mandato? Em caso positivo, qual o orçamento previsto, de onde virão os recursos financeiros e em que local esse estádio poderá ser construído?

Sim, o Flamengo tem que ter o seu estádio, ou usar o Maracanã, como se assim fosse, a exemplo do que ocorre com o Milan e Internazionale, em Milão.

Pretendemos encaminhar a solução para o Estádio, nos primeiros seis meses de nossa gestão.

Na hipótese de construir um estádio próprio, um Grupo de Trabalho, com renomados especialistas no assunto, vai indicar as especificações básicas do projeto, os custos e as condições de viabilização dos recursos.

Não faremos nada de improviso, não daremos pronunciamentos precipitados, não lançaremos factóides. Respeitaremos sempre a Nação.

3. O senhor é a favor da transformação do futebol do Flamengo em uma sociedade anônima de capital aberto?

O Flamengo tem uma dívida que representa, no mínimo, 3 vezes, o seu faturamento anual. Os encargos desta dívida são grandes, tanto pelo pagamento de juros aos bancos, quanto pela antecipação de receitas, o que ocasiona descontos consideráveis aos nossos devedores. Já pedimos formalmente que estes dados sejam informados a todos os candidatos e que se crie uma equipe de transição, a partir do dia 8 de dezembro, para não causar mais danos materiais e à imagem do clube.

Outro aspecto não menos importante, é a falta de credibilidade do clube, representado, principalmente, pela falta de cumprimento de compromissos com funcionários, atletas e outros credores como o governo, patrocinadores, etc.

O Movimento Fla21, entende que somente um modelo jurídico e de negócios que dê segurança a estes públicos e aos investidores, podem restabelecer o equilíbrio financeiro do clube e, um modelo possível é o da sociedade empresarial, que está sendo desenvolvido por um grupo de empresários de sucesso em suas atividades, com a ajuda de especialistas da área. A definição deste modelo se dará após amplo e urgente debate com os associados e formadores de opinião (Stakeholders). Até que este modelo seja definido, no entanto, trabalharemos com um modelo que dê autonomia de gestão financeira e operacional para as nossas unidades operacionais (futebol, esportes olímpicos, remo e fla-gávea). Deve se ressalvar, no entanto, que as questões estratégicas atinentes a estas unidades operacionais deverão estar sempre sob a responsabilidade dos associados representados pelos poderes do clube e seus dirigentes não remunerados.

O fundamental é que, qualquer modelo precisa atender os interesses esportivos do clube. Deve ser elaborado pelo Flamengo e não trazido de fora para dentro como tem ocorrido no futebol brasileiro, pela fragilidade institucional dos clubes, que acabam se tornando permeáveis para a entrada de qualquer tipo de capital.

Não podemos esquecer também o Protocolo de Intenções firmado entre o Flamengo e o CFZ/Zico. Há que se conhecer em que pé se encontram essas negociações. De repente, isso pode ser um atalho interessante.

4. O senhor tem algum projeto de sócio torcedor? Em caso positivo, quais os benefícios previstos para quem se associar? Qual o custo de implementação desse projeto? Os futuros sócios torcedores terão direito à privilégios na compra de ingressos e descontos na aquisição de produtos licenciados? Terão direito à voto?

Apesar das informações ultimamente divulgadas, dando ênfase ao sucesso de alguns projetos “sócio-torcedor”, vemos com muito cuidado essas iniciativas. O Flamengo lançou, recentemente, o “Cidadão Rubro-Negro”. É preciso avaliar os primeiros resultados.

Agora, o que deve ser realçado é que entre as candidaturas, a única que tem um projeto para a Torcida é a nossa. Vamos incrementar o Projeto Nação Rubro-Negra, com toda uma estrutura profissional, com a finalidade de desenvolver e implantar mecanismos de interação com o nosso maior patrimônio, a Nação Rubro-Negra, para se alcançar benefícios recíprocos (Clube-Torcida).

5) Qual o seu projeto para atrair mais público ao estádio? O senhor  planeja aumentar o preço dos ingressos, como forma de incremento da receita, pensa em reduzi-lo ou manteria a política de preços atuais? Como se dará a relação com os torcedores na arquibancada e as organizadas? Qual a sua visão sobre o comportamento atual do nosso torcedor?

Em 2004, quando estava no Fla Futebol, conseguimos implantar a venda de carnês, tendo batido o recorde nacional, até então do SãoPaulo e do Atlético-PR. O segredo está em termos um estádio confortável e seguro, além de um time competitivo à altura das nossas tradições. Esta é a fórmula do sucesso e não o aumento puro e simples dos ingressos. Para isto é necessário que tenhamos um estádio onde possamos explorar todas as propriedades e não só os ingressos. Hoje, o Maracanã, apesar do alto aluguel, não permite que exploremos os camarotes e espaços publicitários que são vendidos para clientes como Unimed por exemplo, patrocinador de um de nossos rivais, o Fluminense. Vamos buscar um acordo com o Governo do Estado ou com quem venha a arrendar o estádio, num modelo benéfico para ambas as partes. Caso contrário teremos de buscar a viabilização de ume estádio próprio, na faixa de 60-80 mil pessoas.

6) - Como e quando vai terminar nosso CT?

Esse é um assunto da maior prioridade. O CT é a base da pirâmide do negócio esporte como um todo. É a fábrica de craques e novos talentos.

Vamos buscar parceiros (aliás já temos algumas negociações) para concluir o CT no menor prazo possível. Em uma primeira etapa, vamos concluir as instalações para dotar a base de uma infraestrutura sólida e moderna, dentro do projeto de completa reestruturação do setor. O nosso lema vai ser: “Craque o Flamengo faz no Ninho do Urubu”.

Devo lembrar que quando passamos pelo FlaFutebol, em 2004, juntamente com o Junior e o José Maria Sobrinho, é que teve início, graças ao nosso empenho, a construção do CT. O terreno estava abandonado há mais de 20 anos. Dentro da maior crise financeira naquele ano terrível, deixamos três campos prontos e em uso.

7) Faça um pequeno resumo dos seus planos para o clube no seu mandato.


Antes de mais nada, é importante ressaltar que essa eleição, na verdade, deverá ser entendida como um plebiscito entre teses conservadoras e por propostas de mudanças, claramente expostas por aqueles que se propõem a fazer uma verdadeira revolução. Não baseamos nossa candidatura em cima apenas de nomes, mas principalmente sobre um conjunto de idéias de um grupo de Rubro-Negros formado por sócios do Flamengo e torcedores, todos bem sucedidos em suas atividades profissionais.

O nosso mandato será caracterizado, principalmente, por:

- Equacionar as dívidas do clube, de forma a tirar o Flamengo da enorme dependência financeira em que vive hoje, principalmente junto ao governo, empresários e jogadores, e com isso trazer o Flamengo de volta às grandes conquistas. De fato, o Flamengo está vendido e o Fla21 pretende recomprá-lo para seus sócios.

- Gerir o futebol de forma autônoma, profissional e firme, afastando o desmando, o apadrinhamento e os interesses não rubro-negros, implantando metas claras de resultados e criando uma estrutura capaz de dar suporte aos jogadores e à comissão técnica. Concluir o CT. Reformular totalmente a base. “Craque o Flamengo faz no Ninho do Urubu.”

- Valorizar a marca Flamengo – com um relacionamento de alto nível (expertise e credibilidade) com os mercados de comunicação, marketing e publicitário.

- Investir – de forma poderosa – nos esportes olímpicos do Clube. O Flamengo, por seu histórico, sua localização e pelo seu poder de mobilização / paixão tem que ser o clube líder na Rio 2016.

- Reformar o espaço físico do Fla-Gávea (que na realidade deveria ser apresentado como o maior clube do Leblon – o bairro com o m2 mais caro do Brasil) – com a conseqüente valorização financeira do título, além da satisfação dos sócios.

- Desenvolver e implantar mecanismos de interação com a Torcida, o maior patrimônio do Flamengo, de sorte que a gestão do Futebol ocorra em sintonia com a Nação e proporcione benefícios recíprocos.

Para tanto, torna-se necessário uma adequação do Estatuto à realidade que atualmente vivenciamos.

Agradeço pelo seu interesse e convido-o a participar, junto conosco, nessa empreitada de conduzir o nosso Flamengo a “Ser o Clube mais vencedor das Américas e um dos maiores do mundo”, que é a Visão que norteia o Fla21.

Muito obrigado.

João Henrique Areias
Fla21 – CHAPA CINZA
Participe dos Grupos de Trabalho em Fla 21

sábado, 17 de outubro de 2009

Crônica: teatro na escola

Bom, é final de semana, e temos aqui mais uma crônica. Hoje um pouco diferente, porque é uma história real. Alguns detalhes aqui e ali podem conter imprecisões - lá se vão 21 anos - mas é uma história real.

Em 1988, eu fiz a oitava série, que era a última do antigo Primeiro Grau, como bolsista no Colégio Anglo Americano, na Barra da Tijuca. Era no tempo em que a Barra era quase deserta, ainda. A Avenida das Américas, onde ficava - e fica ainda hoje - o colégio, era quase um ponto isolado, junto com o suprermercado Freeway, naquela imensidão.

Segue o texto:

"O ano era 1988. A série, oitava, última do antigo Primeiro Grau.

A professora de português na volta das férias de julho propôs uma peça teatral sobre o folclore brasileiro. Eu havia feito confusão quanto à data do retorno e voltei apenas uma semana depois às aulas.

Quando voltei, a peça já estava mais ou menos escrita, com os seus papéis. Surgiu um impasse, porque eu era considerado um dos melhores em redação e, com a vaidade peculiar somada à imaturidade dos 13 anos exigi que fizesse parte da equipe redatora.

Havia ainda outro problema: como eu era bolsista e demorara a retornar, acreditaram que eu havia desistido e simplesmente eu era o único aluno sem quaisquer participação na peça teatral. Explico aos mais novos: naqueles tempos telefone era artigo de luxo, como eu não tinha aparelho em casa simplesmente não havia como me contactar.

Pois bem: ainda tentei forçar uma situação escrevendo em tempo recorde na velha máquina de datilografar uma outra peça - sobre escolas de samba! Óbvio que sequer foi vista...

Negocia daqui, negocia dali, marcou-se uma reunião no sábado seguinte para que eu visse o texto e desse algumas sugestões. Fez-se a reunião e escrevi algumas (pequenas) alterações, aceitas.

Entretanto, preciso ser justo: embora meu nome tenha aparecido como um dos autores, ao lado da Patrícia Moretzohn (filha de autora de novelas e, hoje, autora da novela Malhação, da Rede Globo), o texto é dela. Na prática, minha participação no texto é cosmética.

A peça contaria a história da capoeira como resistência cultural dos escravos ao domínio imposto a eles. Olhando retrospectivamente, não deixa de ser irônico ver adolescentes bem nascidos, praticamente todos brancos, contando a história dos negros...

Talvez como um prêmio de consolação deram-me um papel pequeno, mas fundamental na estrutura: eu era o escravo que morria a chibatadas no tronco, fato gerador do aparecimento da capoeira na peça. Tinha uma única fala, mas... 

A história era dividida em dois atos: o primeiro era a revolta dos escravos e sua repressão, e o segundo contava o surgimento da capoeira. Era até muito bem escrita.

Nos ensaios, eu ainda voltava no segundo ato como um dos escravos da roda de capoeira ao final, mas depois fui persuadido a não voltar: afinal de contas, estava morto e não pegava bem mortos voltarem para o mundo dos vivos. Duro era explicar isso para um garoto de 13 anos que já se achava inferior aos colegas e que tivera negados todos os seus pleitos...

Originalmente, meu papel tinha duas falas, mas uma foi cortada durante os ensaios. A menina que fazia o papel de feitora (preconizando os tempos modernos) era a Fernanda, uma já naquela idade alta e bela moça. Ela estava sempre com um chicote, mas, obviamente, apenas fingia que batia. Eu deveria estrebuchar igual a um porco no matadouro, morrendo sem dar um pio - acho que foi por isso que me tornei um economista...

Nossa roupa era uma calça de um tecido rústico branco e eu ficava sem camisa na peça. Era (extremamente) magro, embora não usasse ainda óculos, e a calça ficava um verdadeiro balão de gás em minhas pernas. Paciência...

Após exaustivos e, confesso, divertidos ensaios chegou o dia da apresentação. Não me lembro se foi aberto ao público externo, mas tinha muita gente naquele dia no auditório do colégio. Todo mundo nervoso, eu dando de ombros - quase não participava mesmo... só me aborreci porque a calça que me coube ficou parecendo aquelas vestimentas de palhaço.

Chegava a ser engraçado ver aquele monte de jovens, brancos e praticamente todos de classe alta ou média alta (adivinhem quem era a exceção) fazendo papel de escravos.

Inicia a peça, a história vai se desenrolando. Fernanda estava bonita de roupa de feitora  - antecipando os tempos vindouros de dominação da mulher - e chapelão de caubói.

Enfim acontece o meu minuto de fama efêmera - não eram quinze ? Sou levado por outros colegas ao tronco e vem Fernanada para executar a pena. Digo a minha fala e...

Ela resolve bater de verdade. Uma, duas, três, várias chicotadas. Eu gritando de verdade e a platéia indo à loucura. Penso que foi um dos minutos mais longos da minha vida.

Dei graças a Deus quando a cortina baixou.

Sinceramente até hoje não sei se ela se empolgou com o público e quis dar realismo à cena ou se acabou errando no fingimento e acertou de verdade.

Desci para a coxia, intervalo para o segundo ato, muito aborrecido. Estava com as costas completamente vermelhas e, confesso, muito puto. Minha vontade era trocar de roupa e ir embora, mas fui dissuadido a ficar. Da coxia, acompanhei o segundo ato.

Voltei ao palco, ainda vermelho e com dor, para os aplausos. Tudo correu excelente na apresentação e fomos muito elogiados. Acho que eu era o único a não sorrir. Nem dava, estava com uma dor...

Pelo menos ganhei um pedido de desculpas e um beijinho de Fernanda. Para um garoto pobre e feio como eu, era a glória. No final, tudo acabou bem.

Hoje recordo com saudade, mas custei a ficar contente na ocasião. Ainda mantenho contato ocasional com alguns colegas de turma, principalmente através do Orkut - algo que me deixa muito satisfeito. Principalmente porque, hoje, não fico nada a dever a nenhum deles. Venci.

Quanto à chicoteadora, perdi completamente o contato. Nunca mais vi. Entretanto, acredito que continue uma bonita e inteligente moça, como era."

10 Mil Acessos

Na noite de quinta, 15 de outubro, o Ouro de Tolo alcançou a marca de 10.000 acessos únicos desde maio, quando foi criado. Foram 429 posts neste período, já contando com os de ontem, sexta.

Obrigado a você, leitor, pela confiança, pelos comentários, pelos elogios e pelas críticas. E não deixe de divulgar o blog, se achar interessante.

Obrigado !

Reitero que todos os textos de minha autoria do Ouro de Tolo têm livre cópia e reprodução em meio digital, desde que citada a fonte.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Final de Semana - Woodstock 40 Anos



Para abrir o final de semana, uma homenagem aos 40 anos do festival de Woodstock.

Esta semana comprei um CD duplo com gravações do festival, com canções de diversos dos artistas que participaram do festival. Comprei nos últimos tempos dois livros sobre o tema, mas também estão na interminável lista de livros a ler...

Dois vídeos sobre o festival que garimpei, como de hábito, no Youtube. O primeiro é o extraordinário Joe Cocker e sua insuperável versão para "With a Little Help fom My Friends", dos Beatles.

Abaixo, uma cantora que não conhecia e cujas duas faixas presentes na coletânea me deixaram absolutamente encantado: Joan Baez e sua "We Shall Overcome".

Aliás, queria pedir um auxílio aos meus 23 leitores: se souberem onde consigo comprar CDs da cantora, por favor me indiquem, pois procurei nas lojas online e não tem nada para entrega rápida. Nem na Saraiva em que fui na quarta também tinha.

Enquanto isso, deleitem-se com os vídeos. Energia pura.

Cinecasulofilia - Em tempo de Festival do Rio (III)

Mais tarde hoje, mas não poderia deixar de trazer a nossa coluna semanal sobre cinema. Parceria com o excelente blog Cinecasulofilia, do amigo - e cineasta - Marcelo Ikeda.

Sem delongas, vamos à crônica de hoje.

35 Doses de Rum
(Claire Denis)

Alguns podem até achar de que se trata de um filme menor da francesa Claire Denis, e, de fato, este 35 Doses de Rum é bem menos ambicioso que outros filmes como Bom Trabalho ou A Intrusa. Mas um dos encantos desse singelo filme é exatamente o de ser um filme menor, como, à sua maneira, o irresistível Sexta à noite também o era. Nesse filme íntimo, Claire Denis observa de forma prosaica a vida de uma família negra de classe média baixa que vive no subúrbio de Paris. A delicadeza, a generosidade, o olhar para essa família simples sem preconceitos pré-determinados sobre questões essencialmente étnicas ou sociais, marcam a beleza desse filme, diferentemente, por exemplo, do discurso panfletário dos últimos filmes de um Ken Loach. A possibilidade de olhar para essa família de uma forma humana, doce, enfim, com uma generosidade, é o que afirma o humanismo do olhar de Claire Denis. Os personagens não são meros joguetes representativos de sua condição étnica ou social, que irrompe para o primeiro plano, como se sua existência na dramaturgia se justificasse apenas como exemplos de um discurso: ao contrário, somos convidados a respirar e a existir junto com esses personagens, em suas pequenas dores e alegrias.

Nisso, sim, afirmo – tema que vem sendo explorado em praticamente todos os textos sobre este filme – que 35 Doses de Rum não deixa de ser uma homenagem, ainda que singela, ao cinema de Ozu. Esta homenagem não precisa ser feita através de câmeras baixas ou de lentes 50mm (os recursos estéticos mais conhecidos do diretor japonês), ou mesmo a partir de uma simetria formal calcada em planos estáticos: nesses aspectos o filme de Claire Denis é bem diferente dos filmes de Ozu. No entanto, assim como Hou fez em Café Lumière, a sabedoria de Denis é dialogar explicitamente com Ozu mas modelar esse diálogo segundo a vida desses personagens, e ser fiel a uma estética particular, a um certo rigor pessoal na forma de olhar para esse universo. É nesse espelho ético a grande contribuição do olhar de Denis.

Há alguns gracejos e referências explícitas, especialmente ao filme Pai e Filha, que Ozu refilmou de diversas formas ao longo de sua filmografia. Uma delas é o fato de o pai presentear a filha com uma panela de fazer arroz tipicamente japonesa: uma referência bela, poética, e que ao mesmo tempo não deixa de falar sobre o atual fenômeno da globalização. Mas o diálogo com Ozu é mais íntimo e não se resume aos gracejos superficiais, às referências de objetos ou às referencialidades para os olhares atentos dos cinéfilos. Pois se Denis assim o fizesse ela estaria traindo exatamente o olhar genuíno de Ozu.

Pois 35 Doses de Rum, acima de tudo, é um filme de Denis, um filme sobre os corpos na chuva que buscam um abrigo contra a tempestade, e encontram compreensão, um filme sobre a condição feminina, um filme sobre ser estrangeiro num país outro, um filme sobre uma mudança de casa, sobre o sentido de estar em casa, um filme sobre a condição humana, sobre a terrível necessidade de estar junto, sobre o desejo pelo afeto. Filme menor, filme humano de um sopro generoso, um respiro vital e necessário. Quero revê-lo mas tenho a impressão de que 35 Doses de Rum é um filme subestimado, pela sua falsa simplicidade.

Transmissão divertida

Sexta feira, dia de temas mais leves, como de hábito.

Quarta feira à noite, como o jogo da seleção foi mais cedo - e confesso que nem assisti, preferi ver Argentina e Uruguai - fiquei zapeando no controle remoto a procura de jogos restantes das Eliminatórias para a Copa.

Eis que me deparo com um Trinidad e Tobago versus México, pela última rodada do torneio da América Central. Era um jogo que nada valia, porque a seleção azteca estava classificada à Copa de 2010 e os trinitários, eliminados.

Parêntesis necessário: eu gosto muito destes jogos considerados "trashs". Não me restrinjo somente às realidades douradas das primeiras divisões. Quanto mais "alternativa" for a partida, mais eu gosto.

Bom, mas voltando ao assunto do post: a BandSports, canal por assinatura foi quem transmitiu o jogo. É um canal que assisto muito pouco, na verdade televisão em geral é algo que quase não vejo. O narrador e o comentarista, que infelizmente os nomes me escapam, optaram por uma transmissão bastante divertida e pelo lado do bom humor.

Como o jogo em si estava bastante monótono, a dupla passou quase todo o tempo falando de coisas periféricas à partida. Falaram das marcas em volta do campo, do nome dos jogadores, faziam piada com tudo e todos, criticavam o nível de seleções classificadas para a Copa da África... Acabou sendo bem divertida a partida. Nas horas vagas traduziam as imagens da tela.

Enviei uma mensagem para os caras - o canal possui um endereço eletrônico para estas transmissões ao vivo - eles leram no ar. Enviei outra, leram novamente e ainda me pediram que respondesse a duas perguntas feitas no ar, sobre meus palpites para os classificados ! Hilário.

O jogo em si, que teve um segundo tempo bastante animado até, acabou em empate: dois a dois. Com direito a uma furada cinematográfica do atacante trinitino no finalzinho: ele driblou, cortou para dentro, armou o chute, chutou e... se estabacou no chão. Rolei de rir em casa.

Achei bem legal porque os caras resolveram não se levar a sério, nem o jogo a sério. Não ficaram com aquele pedantismo de achar que aquele momento era o mais importante do universo e sabiam que somente prenderiam a atenção do telespectador àquela pelada que narravam se dessem ao assistente algum diferencial.

Bola dentro. Foi muito divertida e irreverente a partida.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Políticos no cargo são inimputáveis ?

Leio na imprensa hoje e ouço na BandNews pela manhã que a Justiça gaúcha retirou o nome da Governadora Yeda Crusius da ação por improbidade movida pelo Ministério Público.

A alegação dos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região é que, como agente político, Yeda Crusius somente pode ser julgada politicamente, na Assembléia Legislativa do estado - onde possui ampla maioria.

Na prática, é o seguinte: ela  - ou qualquer político - pode cometer os desvios que quiser, roubar o que quiser, não prestar contas de seus atos no cargo e mobiliar quarto dos netos com dinheiro público que a pena máxima que pode sofrer é perder o cargo. Isso, se não tiver maioria na casa legislativa correspondente.

Traduzindo em português claro, esta decisão abre o seguinte precedente: políticos não poderão ir para a a cadeia por improbidade administrativa.

O Ministério Público irá recorrer ao STF, mas os advogados da Governadora garantem que o entendimento da instância máxima do Judiciário é semelhante. Ou seja, pode roubar a vontade que cadeia é para pobre, preto e puta.

Meus 22 leitores reclamam quando digo isso, mas o Judiciário é muito pior que os políticos em geral. Até porque estes últimos podem ser tirados do cargo por nós de tempos em tempos. Já os juízes são eternos...

Mais uma vez clamo aqui por uma reforma ampla, geral e irrestrita no Poder Judiciário. Do jeito que está não dá.

P.S. - Em tempo, a permanência da Governadora no cargo é um escárnio. A omissão da grande imprensa, também. Ah, se ela não fosse do PSDB...

Obama, a Fox News e a imprensa

Sites como o Viomundo e o excelente blog do jornalista Rodrigo Vianna repercutiram uma notícia que não vi em nenhum dos veículos da "grande imprensa": que o presidente americano Barack Obama resolveu tratar a cadeia Fox News como braço jornalístico do Partido Republicano, não mais como um órgão da imprensa. Resolveu colocar as coisas em seus devidos lugares.

A Fox News é uma rede de televisão que tem como missão difundir os valores e as posturas do conservadorismo partidário norte-americano, bem como as idéias republicanas. Para isso, não hesita em recorrer a artifícios de bradar que "Obama é socialista porque quer dar acesso universal à saúde", e "ganhar o Prêmio Nobel da Paz é sinal de fraqueza".

Defendem as idéias "bushianas" de que o resto do mundo deve se curvar aos Estados Unidos e aqueles que desejarem algum tipo de diálogo em que não haja a concessão de vantagens arrasadoras aos americanos deve ser invadido e tomado.

Além disso, são adeptos da prática denominada "porta giratória", ou seja, alternam-se entre cargos no governo e altas posições na iniciativa privada. Quando estão do lado estatal, trabalham a favor destas companhias. Um caso bastante exemplar desta postura é o da Monsanto.

Obama decidiu não conceder mais entrevistas ao referido veículo e afirmou que "serão tratados como o que realmente são: adversários políticos". Cansou de ver os fatos deturpados em nome de posturas claramente político-eleitoreiras.

Boa decisão, que reflete o conflito aberto existente entre o Presidente e sua oposição - que, parece, ainda não entendeu que perdeu as eleições. Jogo limpo e aberto.

O curioso é como a situação se parece com a situação brasileira. O "jornalismo" da Globo, comandando por um tucano de carteirinha, é dirigido como se fosse um partido político. Órgãos como a Folha e o Estadão seguem o mesmo caminho. O importante não é informar, sim fazer valer na marra as posições políticas dos donos e diretores dos órgãos. Como diz o jornalista Mino Carta, "o Brasil é o único país onde jornalista chama patrão de colega".

Lula, entretanto, optou por caminho diverso a Obama. Preferiu descentralizar verbas publicitárias por outros órgãos de imprensa e adotar uma postura de conciliação ou, pelo menos, convivência forçada. Prefere que o tempo mostre à população o que realmente ocorre no Brasil real, tão diferente do mostrado pelo "Jornal Nacional". E que o desempenho da Economia faça o restante...

Mas aplaudo aqui a decisão de Barack Obama.

P.S. - A Carta Capital desta semana publicou excelente matéria sobre as televisões compradas por instituições religiosas cristãs e sua ligação com as eleições de 2010. Recomendo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Novo patrocinador tricolor


Tempos difíceis exigem medidas extremas. Apresento a vocês, em primeira mão, o patrocinador principal do Fluminense para a temporada de 2010. Para tempos funéreos, um plano funeral.

O plano de saúde, anterior dono da camisa tricolor, agora estará presente apenas nas mangas. Representará a (falta de) saúde do pobre do torcedor.

(Montagem: Alisson Fúrfuro)

Resenha Literária - "Guia Ilustrado Zahar de Cerveja"

O bom do feriadão é que a gente pode sempre diminuir o nosso atraso na leitura.

Aproveitei para terminar este "Guia Ilustrado Zahar de Cerveja". Escrito pelo americano Michael Jackson, homônimo do cantor recentemente falecido, é um passeio pelo mundo da cerveja.

Inicia falando dos ingredientes, passa pelos métodos de fabricação, e escorre por uma cansativa descrição dos países cervejeiros e suas empresas. Coloca claramente preferências pessoais como base de análise, e nem abarca toda a indústria: por exemplo no Brasil só cita a Eisenbahn, e só um tipo dela. Supervaloriza a indústria americana de cerveja e expressa em diversos momentos preferências pessoais.

Por outro lado, fiquei sabendo coisas que eu não conhecia sobre a indústria cervejeira, como as cervejas de sorgo africanas (que segundo a foto disponibilizada parece mais leite que qualquer outra coisa) e leis americanas que proíbem a venda de cerveja acima de um determinado teor alcoólico em certos estados. Também são bem legais a diferenciação histórica feita e as informações sobre o maquinário de certas fábricas.

O livro também tem problemas de tradução, como por exemplo usar a expressão "cerveja de barril", tipicamente portuguesa, para chope. Levei uma semana até entender isso...

Vale como consulta a certos aspectos e pela primeira parte, sobre fabricação e ingredientes da bebida, bastante didática. A parte sobre microcervejaerias parece ser bem completa.

Entretanto, sugiro comprar de uma vez o "Guia Larrousse da Cerveja", que será objeto de próxima leitura. Ainda não li porque é um tremendo "tijolo" e não dá para tirar de dentro de casa, mas entrou na pauta de prioridades próximas.

Na Travessa o "Guia Zahar" custa R$ 39.

A próxima resenha será sobre um livro delicioso: "O Leitor Apaixonado: Prazeres à Luz do Abajur", do escritor e jornalista Ruy Castro.

Praia Seca, Feriadão


Como escrevi na sexta, mais uma vez passei o feriadão em Praia Seca. Saí do Rio sexta á tarde e voltei na segunda após o almoço. Consegui descansar e ler bastante.

Mas queria escrever sobre o proceso de despoluição da Lagoa de Araruama.

Quem conheceu a Lagoa em seua áureos tempos, quando a estrada ainda era de terra batida - levava-se uma hora até a rodovia asfaltada, percurso de 12 quilômetros - sabia que suas águas eram cristalinas. Andavam-se 100, 200 metros dentro d´água com a água na altura dos joelhos.

Os moinhos de sal iam a todo o vapor.

Mas veio o progresso, o esgoto e... as águas ficaram sujas e poluídas. Barrentas, até.


De um ano para cá, aproximadamente, alargaram o canal que liga a lagoa a mar aberto e coibiram o despejo de esgoto in natura nela. O resultado é visível, como se vê pelas fotos. Melhorou muito.

Pena que diminuiu a salinidade dela e isso está matando a atividade econômica retratada pela extração de sal.

Até que deu para pegar um solzinho neste feriado. Ando completamente sem paciência para ficar estirado ao sol, mas só de olhar as meninas deu para trocar o "amarelo-escritório" pelo "vermelho-turista"...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Samba de Terça - "Templo Negro em Tempo de Consciência Negra"


Volta de feriado, dia com bastante trabalho a fazer... Mas não podíamos ficar sem a já nossa tradicional seção "Samba de Terça".

Nesta terça falo da única das "quatro históricas" que não havia sido retratado aqui: a Acadêmicos do Salgueiro, atual campeã do carnaval carioca - com todos os méritos, diga-se.

Como sempre, dentro do espírito da seção, vamos falar de um samba e um desfile que não entram para os anais de sambas históricos da "Academia". Entretanto, é um belo samba.

A agremiação tijucana sempre teve como seu slogan o "nem melhor, nem pior, apenas diferente". E diferente é o que ela faria naquele carnaval de 1989: um enredo sobre o Centenário da Abolição da Escravatura... um ano depois !

O enredo, dos carnavalescos Luis Fernando Reis e Flávio Tavares, fazia uma abordagem crítica da Abolição da Escravatura e lembrava ídolos negros campeões da luta pela liberdade, como a Escrava Anastácia e Martin Luther King. Também reverenciava a cultura e a religião africanas e refletia sobre a situação do negro na sociedade àquele momento.

Como diziam a sinopse e o roteiro de desfile. Notem o número de alas e de carros, muito diferentes dos tempos atuais.

"Descrição do Enredo

I - Introdução:

"Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente", essa frase define muito bem o Salgueiro, sempre arrojado e marcante, original e atrevido, verdadeiramente uma escola forte, livre e solta, comprometida com seu tempo e nele pioneira, sempre surpreendente e inovadora, e é assim que a desejamos no carnaval de 1989, livre e soberana em seu estilo, transmitindo liberdade e resistência.

Quando todos lembraram do negro em 1988, nós do Salgueiro só o faremos em 1989, não apenas Por sermos diferentes, também porque nos parece que o movimento negro, a luta negra não se finda em 88, ela é maior que o centenário dessa dita liberdade, dessa falsa abolição. É importante que essa chama não se apague e que no 101º, 102º, 103º ano da libertação dos escravos ainda se proclame igualdade entre negros, mulatos e brancos.

Por isso dizemos que o Salgueiro é atrevido, arrojado e diferente, pois quando essa chama de luta começar a arrefecer nós a avivaremos, a reacenderemos com nosso evoluir, cantar e dançar em :
SALGUEIRO - TEMPLO NEGRO EM TEMPO DE CONSCIÊNCIA NEGRA

II - Os Quadros:

1º Quadro: SALGUEIRO - TEMPLO NEGRO
Na primeira parte do desenvolvimento mostraremos o SALGUEIRO TEMPLO NEGRO, uma homenagem aos nove enredos Afros já cantados pelo Acadêmico do Salgueiro.

01 - Comissão de Frente - são os guardiãs do Templo Negro, altivos e imponentes, negros e elegantes, tradicionais e respeitosos senhores salgueirenses - velha-guarda.

02 - Carro Abre-Alas - será o carro título do enrêdo, totens, chifres e panteras fazem proteção à gruta negra, à pantera templo, símbolo da luta e da coragem negra - SALGUEIRO NEM MELHOR NEM PIOR , APENAS DIFERENTES.

03 - Ala dos Leopardos
04 - Ala dos Sacerdotes
05 - Ala das Negras Raízes
06 - Ala do Banzo

07 - Carro Navio Negreiro - aprisionados vinham os negros em navios sem cor e sem bandeira, era finda liberdade, em alto mar mas ainda em terra, era o sonho de liberdade que ainda existia, mas ali morreria, iniciava-se a escravidão.

08 - Ala da Democracia Racial
09 - Ala da Guarda Quilombola
10 - Ala da Nobreza de Palmares

11 - Carro Portais de Palmares - negro escravizado é sonhando e tentando liberdade, nas matas, nos sertão negro retoma a liberdade e lembra MÃE - AFRICA, MÁSCARA, ESCUDOS E LANÇAS no rodopiar de negritude, negro era livre de novo com a FORÇA DE ZUMBI.

12 - Ala do Rei Zumbi
13 - Ala da Consciência Negra

12 - Tripé Xica da Silva - saudoso ano de 1963, primeiro campeonato salgueirense. O Minueto foi destaque desse enrêdo, só nos cabe o recordarmos na graciosidade das crianças do Salgueiro.

13 - Ala do Minueto (crianças)
14 - Ala dos Negros da Xica
15 - Ala da Suntuosidade Negra A.

16 - Carro dos Jardins da Xica - negra feia nobre, feita livre, comprada pela graça, pelo amor, atrevida e requintada, fez - se rainha em seu jardim a negra influência sobre o requinte dos salões, Ouro e Palha, Veludo e Prata.

17 - Ala da Suntuosidade Negra B.
18 - Ala do Ouro Negro
19 - Ala de Passistas
20 - Ala de Chico-Rei

21 - Carro de Chico-Rei - "Era o ouro depositado na pia" - Cabeça Negras, ouro nos cabelos, negra riqueza, liberdade enfim - Chico-Rei.

22 - Ala dos Negros Senhores
23 - Ala de Religiosidade Negra

ERGUE-SE O PAVILHÃO SALGUEIRENSE - NO RODOPIAR DE DORIS E NA ELEGÂNCIA DE ELCIO - 1º CASA DE MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA.

24 - Ala das Baianas do Bonfim
25 - Ala das Mucamas A.

26 - Carro da Bahia Negra - negra Bahia, dos orixás, das oferendas, da Festa da Lavagem do Bonfim, muito brilho, muito espelho, num belo sincretismo - Oxalá - Senhor do Bonfim.

27 - Ala das Mucamas B.
28 - Ala da Capoeira
29 - Ala do Séquito do Rei
30 - Ala da Embaixada Negra

31 - Tripé da Festa para um Rei Negro - é festa no Recife, a corte negra vinda do Congo visita a negrada pernambucana, lampiões e máscaras, adornos africanos em terras holandesas.

32 - Ala dos Príncipes Africanos
33 - Ala das Lembranças D’África
34 - Ala dos Pássaros da Liberdade

35- Carro do Valongo - Rio de Janeiro - Cais do Valongo, são negros acorrentados esperando a escravidão, a liberdade já vai longe, é um sonho longe que se vai, como as gaivotas do cais.

NOS DOIS ÚLTIMOS ENRÊDOS AFROS - "DO IORUBÁ À LUZ, A AURORA DOS DEUSES" "NO BAILAR DOS VENTOS RELAMPEJOU MAS NÃO CHOVEU" FALA O SALGUEIRO DOS NEGROS ORIXÁS, ASSIM TEREMOS:

36 - Ala de Exú

37 - Tripé Exú - Abridor de caminhos, despachos em potes de barro, o Tronco de Exú, Tridentes em Ouro, Vermelho e Preto.

38 - Ala de Samba Show
39 - Ala de Iansã

40 - Tripé de Iansã - São nuvens, são raios, é tempestade, é Iansã.

41 - Ala de Pai Xangô A.

42 - Carro de Pai Xangô - "Xangô é nosso Pai, é nosso Rei", protetor do Salgueiro, morro e escola, da mesma cor, em seu trono, guarnecido por leões, Xangô, pai protetor, guerreiro como nós, justiceiro do bem, salgueirense também.

43 - Ala de Pai Xangô B.
44 - Ala de Ogum A.

45 - Tripé de Ogum e Oxossi - Irmãos de sangue e luta, Ogum o guerreiro, Oxossi, o caçador.

46 - Ala de Ogum B.
47 - Ala de Oxumaré A.

48 - Tripé de Oxumaré - Serpente no lado masculino, arco-íris no momento feminino - Deusa do tempo, das cores e do movimento.

49 - Ala da Cultura Salgueirense
50 - Ala de Oxum

51 - Tripé de Oxum - Ouro e Riqueza, Águas de Rio, Cachoeiras, Mamãe Oxum.

52 - Ala de Oxalá

53 - Tripé de Oxalá - A pureza da paz, a sabedoria a limpidez de intuito e da vontade - Branco e Brilho - benção de Oxalá.

Antes, porém, de mostrarmos a 2ª parte do enrêdo, façamos uma rápida reflexão sobre o título: SALGUEIRO TEMPLO NEGRO, nos parece que não somente o Acadêmicos do Salgueiro merece o título como também o próprio morro do Salgueiro, que outrora fora um quilombo, refúgio de negros fujões, leia - se: sedentos de liberdade, e hoje numa visão social é um novo quilombo, por ser uma comunidade carente, predominantemente negra e afastada pela elite branca e dominante, como outros morros e favelas, e que ainda mantém viva, apesar de serem pequenas as manifestações, resquícios tradicionais dos negros como o caxambú, o jongo e a folia de reis.

Sem dúvida alguma, o morro do Salgueiro é também um Templo Negro.

54 - Ala da Tradição Salgueirense

2º CASAL DE MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

55 - Ala da Musicalidade Salgueirense
56 - Ala da Cultura Salgueirense A.

57 - Carro da Tradição Salgueirense - O morro do Salgueiro, alegorizado, fantasiado onde floresce a tradição, a cultura, a liberdade e o amor salgueirense - "Salgueirar vem de criança".

58 - Ala da Cultura Salgueirense B.


2º Quadro: SALGUEIRO EM TEMPO DE CONSCIÊNCIA NEGRA

Durante todo o ano de 1988, comemorou -se o centenário da abolição da escravatura, nos parece no entanto que esse momento é mais de reflexão, é mais de conscientização do que propriamente de festividades, é tempo de repassar esse 100anos de abolição dentro de uma análise real, sem falsos sentimentalismos, numa visão nua e crua de uma realidade negra no Brasil; verdadeiramente o negro ainda não se libertou, ainda é preconceituado e num dado sentido ainda é escravo de uma sociedade que o alija de todo o processo social, cultural, político e financeiro. E ainda se diz que em nosso país não há preconceito racial, não há preconceito de cor, e é triste reconhecer essa farsa, o preconceito não é nítido, não é claro, ele vem escamoteado, não Por palavras, mas por gostos e atitudes que o torna mentiroso e hipócrita. E se assim não fosse não existiria uma Lei, hoje tornada inafiançável , que pune o preconceito racial. É triste afirmar: no Brasil há discriminação.

A partir de toda essa reflexão, não poderíamos considerar como "Redentora" a Princesa Isabel, não achamos conveniente sua inclusão em nosso enrêdo, a final liberdade não se assina, se conquista numa luta constante, sem trégua até que venha a liberdade, assim como lutou Zumbi dos Palmares, líder maior de todo o movimento negro brasileiro , ou como ANASTÁCIA, negra escrava, corajosa e destemida, hoje símbolo abençoado da resistência, ou ainda como João Cândido, marinheiro negro, dito livre, porém escravizado pelas chibatadas da oficialidade branca, que liderando a, em sua grande maioria, negra marujada pôs fim aos castigos na Marinha brasileira. Três negros fortes, marcantes, orgulho da raça, símbolo sempre vivos da resistência negra que personalidade coragem e destemor de toda a luta, de toda a consciência.

59 - Tripé João Cândido - "Sem revolta e sem chibata". E foram canhões tornados negros que apontaram para o Rio, enfim acabou o castigo, foi-se a chibata, veio a liberdade pelas negras mãos de João Cândido.

60 - Ala dos Novos Grilhões
61 - Ala da Luta Negra (crianças)

62 - Carro da Consciência Negra - "Linda Anastácia sem mordaça o novo símbolo da massa a beleza negra me seduz", entre guerreiros e atabaques o som da religiosidade negra - sem mordaça - livre.

63 - Ala de Samba Show II
64 - Ala a Luta Negra não se finda A.

65 - Tripé Zumbi - Zumbi é consciência negra, é raça , é força e destemor, é negritude, símbolo vivo de uma luta, que hoje recomeçar no livre e despojado cantar salgueirense .

66 - Ala a Luta Negra não se finda B.
67 - Ala da Esperança Negra
68 - Ala da Elegância Negra (baianas)
69 - Ala da Velha-Guarda
70 - Ala dos Negros Guerreiros (bateria)


III - Abordagem do Enrêdo

Um dos maiores líderes negros da humanidade foi o reverendo norte - americano Martim Luther King que certa vez afirmou: "BLACK IS BEAUTIFUL" - "NEGRO É BELO", e essa frase nos inspirará por todo o enrêdo, até mesmo nos permitiremos aprofunda-la um pouco mais, o negro não só é belo, mas também é rico, pomposo, forte, exuberante e fundamentalmente LIVRE, e é nessa riqueza, nessa beleza e nessa liberdade que abordaremos nosso enrêdo. As fantasias serão leves e ricas e trarão sempre a característica africana, já que acreditamos que enquanto na África o negro ainda respirava liberdade e por aqui só sentiu preconceito, evitaremos inclusive, a figura do negro escravo, servil e submisso, que tanto agrada à elite dominante, optaremos Por um negro forte, guerreiro. Resistente e livremente africano. As alegorias serão coerentemente negras, criativas e pomposas belas e adequadamente ricas."

 
A escola desfilou já na manhã de segunda feira de carnaval, 06 de fevereiro de 1989. Fez um belo desfile e era apontada como uma das favoritas, ao lado de Beija Flor, Imperatriz e União da Ilha. O resultado, porém, colocou a escola no quinto lugar, com 207 pontos.

O regulamento daquele ano previa descarte de notas e eram computadas apenas duas notas por quesito, havendo apenas notas inteiras. O inconformismo na vermelha e branca da Tijuca após o resultado gerou um protesto que considero genial para o Desfile das Campeãs: uma faixa onde se lia apenas:

"NEM MELHOR, NEM PIOR. APENAS ROUBADO"

Isto é a Academia e sua longa e bem vinda tradição de subversão no samba carioca.

Em minha opinião, achei justo o resultado da escola naquele ano, a propósito.

Aqui você pode ouvir o samba, em sua versão de estúdio. Abaixo, um vídeo do desfile original da escola. O curioso é que a versão de estúdio é bem mais acelerada que o samba na avenida.

Passemos à letra:

Autores
Alaor Macedo, Helinho do Salgueiro, Arizão, Demá Chagas, Rubinho do Afro

Puxador: Rixxa

"Livre ecoa o grito dessa raça
E traz na carta
A chama ardente da abolição
Oh! Que santuário de beleza
Um congresso de nobreza
De raríssimo esplendor
Revivendo traços da história
Estão vivos na memória
Chica da Silva e Chico Rei
Saravá os deuses da Bahia
Nesse quilombo tem magia
Xangô é nosso pai, é nosso rei

Ô Zaziê, Ô Zaziá
O Zaziê, Maiongolé, Marangolá
Ô Zaziê, Ô Zaziá
Salgueiro é Maiongolê, Marangolá

Vai, meu samba vai
Leva a dor traz alegria
Eu sou negro sim, liberdade e poesia
E na atual sociedade, lutamos pela igualdade
Sem preconceitos sociais
Linda Anastácia sem mordaça
O novo símbolo da massa
A beleza negra me seduz
Viemos sem revolta e sem chibata
Dar um basta nessa farsa
É festa, é Carnaval, eu sou feliz

É baianas,
O jongo e o caxambu vamos rodar
Salgueirar vem de criança
O centenário não se apagará"


Semana que vem, a pedidos, União da Ilha. O samba ? "Fatumbi", 1998.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A cara do Brasil

Bom, feriadão, dia de textos interessantes lidos durante a semana.

Recorro uma vez mais à excelente análise do jornalista econômico Luis Nassif. Em seu blog esta semana ele faz uma análise estratégica muito interessante do Brasil, que reproduzo aqui.

Boa leitura.

"Em meu livro “Os Cabeças de Planilha”, a partir da observação do dia a dia da economia, procurei desenvolver a tese de como se daria o estalo, o processo que deflagraria a percepção de desenvolvimento nacional e que pudesse vitaminar todo o organismo econômico, tal como ocorreu no governo JK.


Pensava em algo assim:


1. O país vai desenvolvendo, ano a ano, um conjunto cada vez mais amplo de setores modernos.


2. Quando esses avanços são percebidos no seu todo – e por todos os setores -, deflagra-se o movimento modernizador, desperta-se o chamado “espírito animal” na economia.


3. Em algum momento, algum evento político ou econômico daria o tiro de partida, despertando o país para essa nova realidade.


4. Ganharia o galardão de Estadista o político que conseguisse mostrar que o país é composto pela soma de todas as partes, o mercado, o sistema financeiro, as políticas sociais, os movimentos sociais, o agronegócio, a indústria, os cientistas, os gestores, as multinacionais, as pequenas e micro empresas e se transformasse na síntese, conduzindo.


***


A Constituição de 1988 permitira grandes avanços sociais. O governo Collor fizera o trabalho sujo de desmonte do modelo anterior, de redução da dívida pública para patamares civilizados e deixara plantadas as sementes de programas de qualidade, da abertura gradativa da economia. Mesmo aos trambolhões, o governo Itamar Franco manteve a chama da responsabilidade social que emergiu com a Constituinte.


***


FHC pegou o país pronto, uma conjuntura internacional extraordinariamente favorável (com o reposicionamento das multinacionais no mundo), o PSDB tornou-se o pólo de atração de quadros técnicos dos melhores – PUC Rio, FGV São Paulo, FEA.

FHC tinha preparo, história, acesso aos movimentos de esquerda e aos empresários, à academia e à política. Todos os grupos modernizadores, plantados nos anos anteriores, convergiram automaticamente para sua candidatura, em 1994.


Mais que isso, tinha a espoleta política capaz de deflagrar a auto-estima nacional: um plano de estabilização bem sucedido.


Naqueles primeiros anos, o país regurgitava o novo. Estudos eram tirados das gavetas, por todos os cantos havia a esperança da inovação, da mudança de hábitos, da modernização.


***


Foi essa oportunidade histórica que FHC jogou no lixo. O que explica esse desperdício? Em parte, porque sua única obsessão era o chamado controle do Estado – a criação de oportunidades de enriquecimento para novos grupos, através da privatização.


Mas, muito, por conta da extrema falta de compromisso com o país. Era apenas um deslumbrado com o poder. De imediato afastou do Palácio os dois tucanos que poderiam impulsionar o governo – Sérgio Motta e José Serra.


***


Com o tempo, conseguiu descaracterizar completamente não apenas seu governo, mas o próprio PSDB.


Tirou do partido a vitalidade inicial, a busca do novo, a visão de conjunto e pragmática sobre o país, a ponto de descaracterizar completamente o próprio José Serra – cuja submissão intelectual e emocional a FHC um dia ainda será objeto de análises mais aprofundadas.

Em busca do tempo perdido – 1

A inação de FHC gerou quinze anos de atraso ao país. Só agora se retoma a trilha perdida, por conta da intuição de Lula. Não é por outro motivo que o ex-Ministro Delfim Netto – que não é de gastar elogio à toa – declarou dia desses que Lula salvou o capitalismo brasileiro. Não se trata de mera retórica. Depois das cabeçadas iniciais, Lula conseguiu entender muito melhor do que FHC a lógica do Estadista.

Em busca do tempo perdido – 2

O caminho passava pela conciliação da nação em torno dos novos valores do desenvolvimento. Ao contrário de FHC – que encontrou o país pronto – Lula precisou construir seu próprio caminho. O primeiro desafio consistia em desarmar seu próprio partido – um amálgama de várias tendências e de vários estilos políticos. Depois das cabeçadas iniciais, quando bateu no fundo do poço – o episódio dos chamados “mensaleiros” – começou a virada.

Em busca do tempo perdido – 3

A crise ajudou a domar as áreas mais radicais do partido. Quem não se enquadrou saiu para montar partidos mais à esquerda. Dentro do governo, Lula abriu espaço para o agronegócio (através do Ministério da Agricultura), para a agricultura familiar (através do Ministério do Desenvolvimento Agrário), para o mercado (através do Banco Central) e para os movimentos sociais (através do Ministério da Integração Social).

Em busca do tempo perdido – 4

Ao mesmo tempo em que imprimia uma política econômica muito ortodoxa, pouco a pouco foi montando a área desenvolvimentista do governo, com o eixo BNDES-Ministério da Fazenda. Demorou para implementar a nova política? Para muitos, demorou. Mas aguardou o tempo político. Quando eclodiu a crise mundial, veio a oportunidade para a mudança na política econômica. Aproveitou-se com um senso de oportunidade único.

Em busca do tempo perdido – 5

No plano político, projetou a imagem de um pacificador inesperado, tendo em conta seu histórico de lutas sindicais pesadas. Apesar de alvo da mais inclemente campanha de mídia que um presidente jamais encarou – mais acirrada e prolongada que a própria campanha do impeachment – jamais radicalizou suas críticas ou se valeu do poder do príncipe para pedir a cabeça de jornalistas – o oposto de alguns adversários.

Em busca do tempo perdido – 6

Por tudo isso, a herança bendita de Lula não foi FHC. Foi o movimento pela qualidade, o pensamento desenvolvimentista, os mercadistas, os que construíram o agronegócios e os movimentos sociais. Em suma, essa grande confluência de setores e fatores que compõem o Brasil moderno. O sindicalista semi-alfabetizado soube entender a complexidade do país muito mais do que o sociólogo consagrado."

Maria Bethânia

Volto ao assunto música, pois quero comentar as minhas últimas aquisições e não tive o menor tempo para tal na última semana.

Comprei os dois últimos lançamentos da diva Maria Bethânia, "Tua" e "Encanteria".

"Tua" é um álbum de canções de amor. Já "Encanteria" reflete a Fé, em seus mais intrincados e significantes sentidos.

"Tua" é um álbum de canções mais lentas e românticas. "Encanteria" transita desde o samba de roda baiano até similares do samba de enredo carioca, permeando os chamados "pontos de macumba".

Entretanto, ambos são músicas clássicas e reflexo da plena maturidade da intérprete. Obrigatórios.

Pessoalmente, gostei mais de "Encanteria". Não por um ser melhor que o outro, mas por ter um estilo de canções que são mais do meu agrado.

Aqui o leitor pode conhecer um pouco dos dois discos e ouvir algumas faixas.

Disponibilizo aqui a letra da faixa-título de "Encanteria", de autoria do bom e velho Paulo César Pinheiro - autor de clássicos como "Portela na Avenida", por exemplo. Ritmo delicioso e letra ao estilo dos sambas enredo de antigamente. Biscoito fino.

"Encanteria"

(Paulo César Pinheiro)

Vou queimar a lamparina
Quando o Rei me der sinal
Eu sou da Casa de Mina
Ele é da Casa Real

Eu desci da lua cheia
Pelo raio que alumia
Eu cheguei na sua aldeia
Pra fazer encanteria

Eu vim ver minha maninha
Dona do fundo do mar
Ela canta de noitinha
De manhã torna a cantar

Moço, apaga essa candeia
Deixa tudo aqui no breu
Quero nada que clareia
Quem clareia aqui sou eu

Vou queimar a lamparina
Quando o Rei me der sinal
Eu sou da Casa de Mina
Ele é da Casa Real

Vim depressa como o vento
Mas não sei porque é que eu vim
Foi num canto de lamento
Que alguém chamou por mim

Acho que cheguei mais cedo
Antes de quem me chamou
Mas se me chamou com medo
Vou-me embora, agora eu vou

De qualquer maneira eu deixo
Nessa casa minha luz
Abro ponto e ponto fecho
Deixo o resto com Jesus

domingo, 11 de outubro de 2009

Guerreiro

Carrinho guerreiro.

Último tanque, abastecido com álcool, pelo menos quatro ocasiões em que ficou uma hora ou mais parado nos últimos dias... e assim mesmo quando abasteci anteontem o carro fez dignos 7km/l.

Meus 22 leitores devem estar pensando: "mas 7km/l não são vantagem nenhuma!" Para esta semana que passou, em especial, é sim.

Quinta à noite levei uma hora e meia para percorrer cerca de um quilômetro e meio. A pé seria mais rápido. Depois outra hora e dez para fazer cerca de quinze mil metros. Deu tempo de ler dois jornais, ler e responder e-mails no Blackberry, comer biscoitos... isto tudo ao volante.

Só nos últimos dez dias foram quatro ou cinco ocasiões semelhantes. Além da chuva, as obras do metrô nas imediações da Praça da Bandeira estão tornando ainda mais caótico o já complicado acesso à Leopoldina. Caminhos alternativos também se encontram saturados.

Espero que melhore a circulação depois da inauguração deste novo trecho do Metrô. Está muito complicado.

Mas a hora é de tecer loas ao valente carrinho.



Canções de Chico

O blog MPB, do site do jornal O Globo, traz boa matéria sobre livro que se dedica a contar histórias envolvendo as canções daquele que é o maior compositor da história da música brasileira, Chico Buarque de Holanda.

Reproduzo aqui o texto, abrindo em alto astral este domingo imprensado no meio de um feriadão.

O link para a compra do livro pode ser encontrado aqui. O preço é até razoável, R$ 35. Vou encomendar meu exemplar.

Passemos ao texto, de autoria de Leonardo Lichote:

"Em 1971, Chico Buarque escreveu para Vinicius de Moraes, comentando as sugestões de mudanças que o poeta deu para a letra de “Valsinha”, parceria da dupla. De forma carinhosa, mas convicta, ele refutava quase todas as alterações oferecidas pelo parceiro: “Prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. (...) Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda”; “Convidou-a para rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar, que é dar um passeio e é dançar”; “Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. (...) E eu também gosto do decotado ligado ao ‘ousar’, que ela não queria por causa do marido chato”.

A carta — fascinante por revelar a gênese da composição e, mais que isso, mostrar como e por que foram feitas as escolhas do artista por essa ou aquela palavra — é uma das maiores preciosidades encontradas em “Chico Buarque — História de canções” (Leya), de Wagner Homem. No livro, o autor apresenta os bastidores de cada música do compositor, desde a pré-história de sua carreira — de “Canção dos olhos” e “Marcha para um dia de sol”, apresentadas nos “sambafos”, encontros etílico-musicais da época de estudante de Arquitetura em São Paulo — até seu último disco, “Carioca”. Sempre de forma despretensiosa e leve.

— O livro não tem objetivo analítico, acadêmico — explica Homem. — São casos reunidos, não há uma tentativa de interpretação. Usando a linguagem cinematográfica, é uma panorâmica, não um close, uma busca de profundidade.

A contextualização histórica (a situação política do Brasil, a morte de amigos como Tom Jobim, o exílio, os períodos em que Chico se dedicou à sua porção escritor) no início de cada capítulo está afinada com sua ideia de “panorâmica”:

— Mais que entender a poética de Chico, a contextualização serve para que se compreenda sua carreira. Sobretudo até 1985 (quando se encerra o regime militar), sua história está amalgamada à do Brasil, às vezes até contra sua vontade.

A relação conflituosa de Chico com a ditadura começou, o livro mostra, já com a “A banda” — o governo quis usá-la numa propaganda de alistamento militar e o compositor protestou. Ela segue sendo testemunhada em sua obra: no nascimento dos pseudônimos Julinho da Adelaide, seu parceiro e irmão Leonel Paiva e o projeto de um “Pedrinho Manteiga”, todos criados para driblar a censura; nos versos substituídos (“nos teus pelos”, de “Atrás da porta”, virou “no teu peito”) para passar pelos censores; nas canções criadas para entrar no lugar das cortadas (“Noite dos mascarados” foi composta para cobrir o espaço deixado por “Tamandaré”, que teve a gravação proibida); nas curiosas implicâncias dos agentes do Estado.

— Mario Prata me contou que em “Trocando os miúdos” a censura implicou com “o livro do Neruda”. Como pode citar um poeta comunista? Chico então argumentou que a canção não teria como ser subversiva: “Ela ficou com o livro, mas nunca leu” — diverte-se Homem.

Histórias como essa (e a da carta a Vinicius, a de “Noite dos mascarados”...) podem já ter sido ouvidas por quem acompanha a trajetória de Chico. Afinal, é difícil algum detalhe de sua obra ainda manter o ineditismo depois de tantos estudos, entrevistas, especiais de TV e projetos dedicados ao compositor — apenas nos últimos anos, uma série de 12 DVDs dirigidos por Roberto de Oliveira, um documentário com o making of de “Carioca” (“Desconstrução”, de Bruno Natal) e o livro de ensaios “Chico Buarque do Brasil”. “Chico Buarque — Histórias de canções”, porém, tem o mérito de reunir o que de mais significativo se disse sobre as canções do artista. Textos e vídeos que saíram de um arquivo que Homem monta, informalmente, desde 1965, quando ouviu Chico pela primeira vez.

O garimpo rendeu curiosidades pouco lembradas, como a paródia de “Vai passar” feita para a campanha de Fernando Henrique Cardoso pelo governo de São Paulo; a revelação de que “muito jabá” foi pago para que “Construção” tocasse no rádio; e uma tradução nonsense da versão alemã para “A banda”.

O projeto do livro começaria a tomar forma apenas no fim da década de 1980, quando Homem foi convidado a reunir as letras de Chico para o songbook “Chico Buarque: Letra e música”. Quando a internet começou a crescer, Homem, que já tinha as letras de Chico digitalizadas, sugeriu ao artista a criação de seu site oficial.

— Foi no site que surgiu a ideia de, junto às letras, pôr links para histórias que eu conhecia sobre aquelas canções. Transcrições de entrevistas, artigos... — lembra o autor.

Chico não deu, portanto, novas entrevistas a Homem para o livro — há algumas histórias e comentários que o autor presenciou em sua convivência com o compositor. Mas o homenageado acha que teria pouco a acrescentar, como afirma em e-mail reproduzido na contracapa: “Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu”. 

***
TRECHOS DO LIVRO
"Sonho de um carnaval"

(...) não foi nada agradável passar pelo saguão do teatro e ouvir João de Barro, o Braguinha - autor de tantos sucessos, entre os quais a imortal letra para "Carinhoso", de Pixinguinha -, dizer que a música era uma porcaria"

"Januária"

Numa noite de boemia, o pintor Di Cavalcanti prometeu a Chico um quadro seu. Cumpriu a promessa enviando Januária, que foi o ponto de partida para essa composição.
Quando eu organizava as canções para o livro Chico Buarque letra e música, Chico me perguntou de onde eu havia tirado o verso "logo aponta os lábios dela", já que o correto era "logo aponta os lados dela". Respondi que era assim mesmo que ele cantava no LP de 1968. Preocupado com o erro, pus-me a escutar o velho vinil, até que, finalmente, o ouvido viciado conseguiu entender que, de fato, era "lados". (...) Não foi um consolo nem uma justificativa, mas me senti aliviado quando descobri que tanto Isaurinha Garcia (no álbum Chico Buarque e Noel Rosa) como Caetano Veloso (no CD Contemporâneos, de Dori Caymmi) cantam "lábios" (...).
Em 2004, na exposição comemorativa de seus 60 anos, com curadoria de seu sobrinho Zeca Buarque Ferreira, um manuscrito mostrava que num primeiro rascunho o verso era "sempre aponta a casa dela".

"Passaredo"

Para surpresa de muitos que passaram a ver o compositor como um militante ecológico, Chico revelou durante um programa de televisão que não só não entendia de bichos como os detestava. E admitiu até um sacrilégio: deliciou-se com uma capivara assada ao som de sua composição. A vingança viria logo depois, quando, no terraço de sua casa, ouvindo "Passaredo", um representante dos ofendidos fez cocô na sua cabeça.

"Ode aos ratos"

A cantora Mônica Salmaso contou, durante um show, que soube de fontes fidedignas a seguinte história: escrevendo a letra, Chico percebeu que lhe faltavam informações sobre as características dos ratos, e ligou para o amigo Paulo Vanzolini, compositor e zoólogo:

- Vanzolini, aqui é o Chico. Eu estou escrevendo uma letra sobre ratos e queria que você me ajudasse a saber como eles são. O nariz, como é que é? É frio? Quente? Macio? Duro? E a pelagem?
- Ô Chico! Você mente tanto sobre mulher... Porque não inventa qualquer coisa também sobre os ratos?
- Pô, Vanzolini... Pelos ratos eu tenho o maior respeito."

sábado, 10 de outubro de 2009

Sete horas de agonia


A foto está meio tremida, mas foi tirada do carro em movimento. Linha Vermelha, sexta feira véspera de feriado com chuva, aproximadamente 19:30. Tudo absolutamente parado.

Entre quinta e ontem, mais de sete horas preso no trânsito. Chuva mais feriado prolongado, somado a acidentes, deu nisso. Só nos resta ter paciência, é o preço que se paga por viver em uma grande cidade.

Ainda mais o Rio, onde se junta uma geografia complicada com um lobby poderoso das empresas de ônibus. Isto é algo que, mais cedo mais tarde, terá de ser enfrentado. Apesar das doações de campanha.

Pelo menos havia uma grande compensação quando cheguei em casa. Um suculento prato de rabada somado a uma cerveja gelada. Vejam a foto, tirada antes da degustação, e notem o prazer da recompensa...


Final de Semana



Sábado, início de feriadão, não poderíamos nos esquecer de nossa música para o final de semana.

Estamos ainda em ritmo de Jogos Olímpicos. A escolha de hoje é a música símbolo de um dos videos apresentados, "Aquele Abraço", de Gilberto Gil. Uma ode à cidade.

O curioso é que, originalmente, a música foi concebida como uma despedida do país, uma canção do exílio. Foi escrita antes de Gil ir exilado para Londres. Ela se transformou de símbolo de um tempo negro a retrato acabado da alegria carioca.

Curiosos caminhos tortuosos...

Como aqui no Ouro de Tolo sempre temos uma visão diferente dos fatos, apresento a versão gravada pelo inolvidável Tim Maia. O vídeo, garimpado no Youtube, parece ser uma espécie de recado da autora a um amigo estrangeiro.

E a canção ainda fala do Flamengo e da Portela, duas de minhas paixões... Em 1994, quando foi homenageado pela Mangueira, Gilberto Gil chorou como criança no camarote da escola quando a Águia de Oswaldo Cruz aportou na Sapucaí.

Vamos à letra:

Aquele Abraço
(Gilberto Gil)

O Rio de Janeiro
Continua lindo
O Rio de Janeiro
Continua sendo
O Rio de Janeiro
Fevereiro e março...

Alô, alô, Realengo
Aquele Abraço!
Alô torcida do Flamengo
Aquele abraço!...(2x)

Chacrinha continua
Balançando a pança
E buzinando a moça
E comandando a massa
E continua dando
As ordens no terreiro...

Alô, alô, seu Chacrinha
Velho guerreiro
Alô, alô, Terezinha
Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha
Velho palhaço
Alô, alô, Terezinha
Aquele Abraço!...

Alô moça da favela
Aquele Abraço!
Todo mundo da Portela
Aquele Abraço!
Todo mês de fevereiro
Aquele passo!
Alô Banda de Ipanema
Aquele Abraço!...

Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
Aquele Abraço!
Prá você que meu esqueceu
Ruuummm!
Aquele Abraço!
Alô Rio de Janeiro
Aquele Abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele Abraço!...

O Rio de Janeiro
Continua lindo
O Rio de Janeiro
Continua sendo
O Rio de Janeiro
Fevereiro e março...

Alô, alô, Realengo
Aquele Abraço!
Alô torcida do Flamengo
Aquele Abraço!...(2x)

Chacrinha continua
Balançando a pança
E buzinando a moça
E comandando a massa
E continua dando
As ordens no terreiro...

Alô, alô, seu Chacrinha
Velho guerreiro
Alô, alô, Terezinha
Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha
Velho palhaço
Alô, alô, Terezinha
Aquele Abraço!...

Alô moça da favela
Aquele Abraço!
Todo mundo da Portela
Aquele Abraço!
Todo mês de fevereiro
Aquele passo!
Alô Banda de Ipanema
Aquele Abraço!...

Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Graças a Deus!
Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
É claro!
Aquele Abraço!
Prá você que meu esqueceu
Ruuummm!
Aquele Abraço!
Alô Rio de Janeiro
Aquele Abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele Abraço!...

Todo mês de fevereiro
Aquele Abraço!
Alô moça da favela
Aquele Abraço!
Todo mundo da Portela
E do Salgueiro e da Mangueira
E todo Rio de Janeiro
E todo mês de fevereiro
E todo povo brasileiro
Ah! Aquele Abraço!...