segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Dezessete anos em noventa minutos


Dia inteiro de reuniões, uma ressaca tremenda (mas com uma boa causa) e somente agora consigo escrever.

No excelente livro "Febre de Bola", em que o escritor inglês Nick Hornby fala sobre a sua paixão pelo Arsenal, em um capítulo ele conta a saga da quebra de um jejum de 18 anos do time inglês sem um campeonato nacional. Ele fala que só acreditou na conquista do sonhado título quando o árbitro apitou o final da partida.

Faço este paralelo para escrever que, ontem, meu sentimento era exatamente o mesmo. Aliás, eu passei uma semana inteira muito tensa, tanto que sequer escrevi aqui na semana passada sobre a partida. Queria esperar, até porque fora testemunha ocular de recentes decepções.

Além disso, dezesete anos não são dezessete dias. Tínhamos noventa minutos para mudar isso.

Cheguei ao Maracanã por volta da uma e meia da tarde, ou seja três horas e meia antes do jogo. O estacionamento do prédio da Petrobras, onde deixo o carro, tinha grande fila - algo que nunca tinha visto nos últimos anos.


Pego o meu ingresso com a santa alma que me permitiu estar no estádio, tomo uma latinha de cerveja e sigo para a entrada da rampa. A experiência da final do Estadual fazia crer que, faltando três horas para o início do jogo, a entrada pela rampa das arquibancadas seria fácil. Enganei-me redondamente...

Cheguei na rampa do Bellini, muito tumulto e uma fila gigantesca. Dei a volta para entrar pela rampa da Uerj, entrei na fila, começou o empurra-empurra e resolvi sair para tentar uma outra alternativa.

Dei sorte. Dentro da confusão em que estava para entrar - e quase nenhum policiamento - de repente vi-me dentro do "cercado" que leva às catracas. Passei meu ingresso, subi a rampa e me dirigi às arquibancadas amarelas à direita das cabines de rádio - onde normalmente fica a torcida adversária.


Enganei-me redondamente quanto à tranquilidade. Tomei um refrigerante - a última bebida que minha garganta veria até o final do jogo - e sentei-me em meu lugar.

Cheguei a ver o final da preliminar com os Masters do Flamengo (foto acima), enquanto alternava com uma leitura que havia levado. O clima era de confiança, mas sem aquela euforia desmedida típica dos rubro-negros. Pairava o fantasma dos dezessete anos e das decepções recentes em jogos decisivos.


À medida em que passava o tempo, uma eletricidade percorria o ar e elevava o clima de tensão. E as arquibancadas cada vez mais lotadas.

Tenho certeza de que havia mais gente que o número de ingressos vendidos, porque estava superlotado. Se estourasse uma briga acredito que haveria uma tragédia.

Sem dúvida alguma, o aceso ao estádio e esta questão da superotação precisam serem revistas.


Na entrada do time em campo, uma grande festa. O clima estava bastante tenso, entretanto estávamos confiantes. Duas cenas engraçadas: os torcedores do Grêmio unidos conosco e os gritos uníssonos de "entrega" de nossa torcida.

Eis que surge, do nada...o gol do Grêmio. Olhamos uns pros outros com aquela cara: "de novo?" O time não jogava bem, talvez pressionado pela necessidade de fazer o resultado.

Vem o gol de David, euforia e esperança: "ainda dá".

Eu estava muito tenso. Cheguei a me sentir mal durante o intervalo.


No início do segundo tempo, o time fez uma "corrente" no centro do campo e ali me convenci de que a história seria diferente. Pressão e o gol salvador, que foi em frente onde eu estava. Privilégio.

Os caras ainda perderam um gol feito, mas depois não incomodaram mais. Para o Grêmio a derrota pela diferença mínima era ideal: atendia ao seu objetivo de não deixar o grande rival ser campeão, mas afastava os boatos de que o time entregaria o jogo.

Final de jogo, a catarse. Dezessete anos e vários fracassos expurgados em um só grito: "é campeão". Não dá para descrever em palavras o que senti naquele momento. É um misto de alegria, euforia, alívio e recompensa.

Basta comparar a foto mais acima, de antes do jogo, com a que posto abaixo, já depois:


O retorno, alegre retorno, foi bastante tranqüilo. Fui pra casa ver todo o noticiário esportivo e beber até não poder mais.

Eu gravei dois vídeos, um da entrada em campo e outra logo após o apito final do árbitro, colocarei aqui amanhã.

Apesar de todo o sufoco, de toda a desorganização, valeu muito a pena. Certas coisas não têm preço.

Esta semana ainda falarei bastante sobre esta grande conquista. Mas Nick Hornby tinha toda a razão.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Ei Al Capone...


Domingo, dia de reproduzir bons textos no Ouro de Tolo.

Hoje repercuto texto (e foto) do jornalista Marco Aurélio Mello, do blog "Doladodelá", sobre uma das formas mais comuns de driblar a Receita Federal e a legislação trabalhista: criar uma "Pessoa Jurídica" a fim de pagar menos Imposto de Renda. Para a empresa é vantajoso porque ela não paga os encargos sobre a folha de pagamento para o referido funcionário.

Em seu texto acredito que ele se refira à maior empresa de comunicação do país, mas esta é uma prática observada em diversas grandes empresas nacionais.

Vamos ao texto. Aliás, o blog do jornalista merece muito uma visita detalhada. Diria que é indispensável.

"- Alô.
- Oi, pode falar?
- Peraí, deixa eu sair da redação. Tá muito barulho aqui. Fala...
- Estou sabendo que tem uma penca de ex-colegas seus sendo investigados pela Receita Federal.
- Como soube disso?
- Eu tenho minhas fontes, não é assim que vocês falam?
- Mas o que você sabe?
- Soube que há alguns anos eles formaram empresas e se transformaram em pessoas jurídicas. Muitos por má fé, outros por terem contadores incompetentes, acumularam patrimônio incompatível com as receitas apuradas ao longo dos anos.
- Noooossa, e agora?
- Parece que uma ex-colega já conseguiu acordo e está tentando vender um apartamento no Rio para saldar o débito com o fisco.
- Jura, é tanto assim?
- Acho que é, viu. Fizeram uma reunião recentemente na mansão de um deles no Morumbi para discutir o assunto. Só tinha figurão. Levaram até um advogado renomado. O plano é desenvolver a tese da defesa conjuntamente e, se possível, envolver as organizações.
- Aí seria o escândalo dos escândalos!
- Pois é, estão tratando o assunto com o maior cuidado, para evitar publicidade. Na Receita, ninguém tem acesso aos processos, a não ser o alto escalão. É sigilo absoluto.
- Mas razões não faltam para vazamentos, oras.
- É que o Governo teme que, se vazar, as organizações podem fazer uma campanha dizendo-se vítima de perseguição e censura.
- Ah, entendi. Bom, neste caso, você acha que eu devo publicar?
- Se você fizer daquele jeito, como se fosse ficção, acho que tudo bem.
É, amigos, mais um diálogo tão factível, mas tão factível que, aposto, vai ter internauta pedindo os nomes. Se alguém perguntar se recebi mesmo um telefonema desses, eu nego."

sábado, 5 de dezembro de 2009

Muito perto do título


Lendo o título deste post, meus 35 leitores devem ter pensado que me referia ao jogo de amanhã entre Flamengo e Grêmio, que pode decidir o Campeonato Brasileiro de 2009.

Mas não é este o tema. Só falarei de Flamengo e Grêmio na segunda feira.

Quero falar de uma outra decisão que pode também ocorrer amanhã: o Migão Clube, meu time no Hattrick, precisa de um empate em dois jogos para sair de um longo jejum sem títulos. E por tabela ascender à Quarta Divisão na estrutura brasileira do jogo.

Explicando aos leigos: o Hattrick é um jogo "manager" de futebol, online, onde temos um time e montamos toda a estrutura dele. Existem duas competições: o Campeonato, sempre com grupos de 8 equipes e cujo número destes aumenta de acordo com a divisão. E a Copa do Brasil, disputada por times até a Sétima Divisão.

Meu time, na Quinta Divisão, é considerado uma equipe média na estrutura do jogo. O Brasil tem 8 divisões em sua estrutura. Países como a Espanha e a Suécia - onde o jogo foi criado - tem dez.

Faltando duas rodadas - cada campeonato possui catorze e a temporada possui dezesseis semanas - meu time lidera com seis pontos de vantagem sobre o segundo colocado, que possui ligeira vantagem no saldo de gols - primeiro critério de desempate.

Ou seja, somente perco o título se perder os dois jogos e o São Gonçalo vencer as duas partidas restantes. Difícil, não impossível.

Confirmando a conquista, volto à quarta divisão, onde já passei várias temporadas e obtive um título - meu ponto alto na história do jogo. Tive o direito de jogar uma temporada na terceira, de onde fui rebaixado.

Meu adversário amanhã é o AHK, sediado em São Paulo e que joga em casa. A partida se inicia às 21 horas de Brasília e no primeiro turno vitória do Migão Clube por dois a zero.

É um jogo bastante lúdico e que recomendo. Pode ser acessado aqui.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Final de Semana - "I´m Old Fashioned"


Sexta feira bastante chuvosa aqui no Rio, uma música como de hábito para o final de semana.

Hoje atendo à sugestão do leitor Fabrício Gomes e coloco uma música clássica americana, "I´m Old Fashioned", de autoria de Jeromy Kern e Johnny Mercer.

A versão que coloco aqui é do filme "You Were Never Lovelier", de 1942. Interpretação dos inesquecíveis Fred Astaire e Rita Hayworth.

Coloco a letra abaixo, que em português tem o sentido de "eu estou fora de moda, mas isto não me importa se você está comigo".

"I am not such a clever one about the latest fads
I admit I was never one adored by local lads
Not that I ever tried to be a saint
I’m the type that they classify as quaint

I’m old fashioned, I love the moonlight
I love the old fashioned things
The sound of rain upon a window pane
The starry song that April sings
This years fancies are passing fancies
But sighing sighs, holding hands
These my heart understands

I’m old fashioned but I don’t mind it
That’s how I want to be
As long as you agree
To stay old fashioned with me.

I’m old fashioned but I don’t mind it
That’s how I want to be
As long as you agree
To stay old fashioned with me."
 

Grupos da Copa de 2010



Na tarde de hoje foi realizado o sorteio dos grupos para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

A composição dos grupos pode ser vista acima, em imagem do Globoesporte.com. Faço abaixo uma pequena análise grupo a grupo:

Grupo A - pela primeira vez acredito que o país-sede vá ficar fora da segunda fase da competição. Arriscaria mais: é capaz de não somarem um único ponto.

Classificados: França em primeiro, México em segundo

Grupo B - Grupo bastante tranquilo para a Argentina. Nigéria é uma equipe em decadência e a Grécia é só defesa. A Coréia do Sul pode ser a surpresa do grupo.

Classificados: Argentina e Coréia do Sul

Grupo C - Mamão com açúcar para a Inglaterra. EUA e Eslovênia brigam pela segunda fase e a Argélia é zebra.

Classificados: Inglaterra e EUA

Grupo D - Apesar da força ascendente de Gana, Alemanha e Sérvia são as favoritas destacadas. A Austrália não assusta.

Classificados: Sérvia e Alemanha

Grupo E - A Holanda nada de braçada, Dinamarca e Camarões brigam pela segunda vaga. O Japão é zebra.

Classificados: Holanda e Dinamarca

Grupo F - Um dos grupos mais fáceis. A Itália tem tradição de se enrolar na primeira fase, mas vai ter de se esforçar muito para que isso aconteça. O Paraguai, que vem jogando um futebol original, é favorito à outra vaga.

Classificados: Paraguai e Itália

Grupo G - o nosso grupo é o mais difícil após o ocupado pelos anfitriões. Entretanto, acredito que se classifique. Se Portugal jogar o que vinha jogando nas Eliminatórias, volta daí mesmo, porque a Costa do Marfim é a melhor equipe africana atualmente.

Classificados: Brasil e Costa do Marfim.

Grupo H - Se a Espanha não amarelar como de hábito, passa fácil. Chile e Suiça brigam pela segunda vaga e Honduras fará turismo.

Classificados: Espanha e Chile.

Cinecasulofilia

Mais uma sexta feira, final de semana que promete ser bastante movimentado.

No dia dedicado à cultura neste Ouro de Tolo, como de hábito nossa coluna sobre cinema; parceria com o excelente blog Cinecasulofilia.

Como habitualmente, texto do cineasta e crítico Marcelo Ikeda.

No Meu Lugar
De Eduardo Valente


"Há algo de belo em No Meu Lugar: a forma como o diretor reconstruiu uma história de violência não propriamente interessado nas causas sociais ou nas motivações psicológicas que construíssem um clímax, mas que tenta respirar junto com essas pessoas comuns em seu dia-a-dia pequenos momentos de alegrias e infortúnios. Há algo de belo em como o filme dialoga com um sentido do precário, da instabilidade do mundo e das relações e em como os “tempos fracos” tomam conta do fluir da narrativa.

Há algo em No Meu Lugar que me remete a um certo cinema japonês. O filme me lembrou – não sei ao certo porquê – de Suzaku e Eureka. De Eureka, há a ideia da tragédia e do assassinato e da narrativa que respira com os personagens. De Suzaku já há um outro conjunto de referências: o fato de o autor filmar Laranjeiras e seus arredores, como os locais próximos onde vive (assim como Kawase filma a sua cidade natal Nara), além de ambos serem realizadores com uma relação íntima a Cannes após a repercussão de um primeiro filme (o primeiro longa de Kawase e o primeiro curta de Valente).

Há um certo quê de cinema japonês que por outro lado já nos remete ao primeiro curta de Eduardo Valente, a obra-prima Um Sol alaranjado, que era claramente influenciado pelo cinema de Ozu e também tinha uma certa-estrutura de quebra-cabeças (vide o seu cartaz).

Há um certo quê de um cinema japonês mesmo num certo olhar para a rotina do dia-a-dia ou ainda (eu diria especialmente) na dificuldade de as pessoas demonstrarem os sentimentos, como o pai policial à filha, ou mesmo o menino negro à sua nova namorada. Isso é interessante quando se conhece o diretor (ainda que à distância, como é o meu caso): uma pessoa bastante falante que faz filmes sobre a solidão, o que me lembra o que considero o melhor texto crítico do diretor (Valente também é crítico de cinema) www.contracampo.com.br/43/rumorejosondas.htm . Aliás penso que esse texto talvez seja uma chave de elucidação das intenções do diretor com o filme.

* * *

Mas acontece que ainda que o filme tenha essas premissas interessantes não há como esconder um enorme sentido de frustração ao final da sua exibição. Esses “algos”, essas intenções, acabam se dissolvendo ao longo do filme pela insuficiência da direção em criar uma atmosfera ao filme, tarefa que seria na verdade o grande mérito do diretor. Se o filme parece ter tantos pontos comuns com o cinema japonês, na verdade escapa de sua verdadeira essência: o suposto distanciamento do cinema japonês em ver o mundo desvela no fundo uma enorme intimidade, uma enorme paixão em entender as contradições e os desafios dos seus personagens. No Meu Lugar, ao invés dessa admirável fugacidade, acaba soando ora simples (simplório mesmo) ora frio, simplesmente porque a flutuação de suas “microhistórias” (o filme se desenvolve entrecruzando “pequenos momentos” em torno de três narrativas que ao final – na verdade já ao começo – se cruzam) não envolve o espectador num clima de flutuações, mas meramente revela uma certa banalidade.

Isso porque o bom cinema japonês utiliza esses “tempos fracos” e esse suposto distanciamento para aprofundar as complexidades da natureza humana, diante de uma ontologia refletida numa forma particular de estar no mundo. Valente não consegue imprimir ao filme um olhar que respira com esses personagens mas parece mais preocupado em seguir os estratagemas desses códigos visuais.

Ou ainda, se os “tempos fracos” do cinema japonês sempre apontam para um além do vazio desses planos, em No Meu Lugar o diretor fica simplesmente na ilustração desses “pequenos momentos”, ao invés de simplesmente mergulhar neles. É só pensar por exemplo no que Hou realizou em A viagem do balão vermelho (ver aqui).

Com isso o filme fica sempre a meio caminho entre suas intenções e a sua realização de fato, a meio caminho entre um cinema da beleza e da precariedade dos pequenos momentos da vida (um certo cinema contemporâneo) e um cinema “ilustrativo” de temas e climas, excessivamente dominado pelo bom termo de narrativo, como se algo apontasse para a sua incapacidade de dar um passo além, de decidir claramente o que se quer.

* * *

Isso parece apontar para uma outra coisa além do filme. Me parece que não ousar dar “esse passo além” possa estar relacionado com um universo de expectativas e possibilidades fora do filme. Talvez – ironia perversa do destino – todas as invejáveis condições que o diretor teve para realizar um primeiro filme (ter uma produtora do porte da Videofilmes, a já garantida estréia em Cannes) tenham representado mais um “peso” ao invés de um impulso à criação. Diante de todas essas perspectivas, diante da potência do mundo, Valente preferiu os meios termos, preferiu a opção de fazer um filme “morno”. Diante da beleza dessas oportunidades, é como se o diretor preferisse não arriscar para não correr o risco de errar. Não se comprometeu mas também não ousou ir além. Uma pena, até porque isso parece não ser muito afim com a própria visão de cinema de seus diversos textos críticos, que elogiam o risco, o vigor da criação, a devoção de um realizador por um filme.

Ver No Meu Lugar para mim tem uma outra importância: a de pensar a posição de um crítico quando parte para a realização de um filme, ou ainda, refletir em que medida o crítico, na tessitura da mise en scene de um filme, é coerente com aquilo que defendia para o cinema através de seus textos críticos (veja o que escrevi sobre os filmes de Alex Viany aqui).

No Meu Lugar me parece um filme com inúmeros pontos em comum com Não Por Acaso: um primeiro longa com um elogiado currículo prévio do diretor como curta-metragista, tendo uma estrutura de produção invejável (O2 ou Videofilmes), um filme com narrativas paralelas que se cruzam, um projeto fracassado diante das expectativas que se impunham. Mas a balança ainda pesa mais favorável ao filme do Barcinski, porque Valente não teve a pressão de uma major em suas costas, e o filme do Barcinski é mais afirmativo como uma espécie de resposta a questões de sua filmografia (para mais detalhes veja o que escrevi sobre Não Por Acaso aqui).

De qualquer forma, o que falta a No Meu Lugar é o desejo do sonho, o desejo de se aventurar por lugares não-percorridos, por caminhos esguios e sinuosos, um fascínio pela descoberta. Isso – especialmente vindo de um crítico de cinema e de um realizador de um primeiro filme – talvez seja a “crítica mais negativa” que um filme como esse poderia receber."

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Honestidade Seletiva


Sinceramente, tem certas coisas que eu não entendo.

O PSDB tratou de se retirar do Governo Arruda em Brasília, do qual participava ativamente e dava suporte incondicional. Mesmo ocupando importantes secretarias no governo do Distrito Federal, tratou de jogar o governador às feras sob o pretexto de "defender a moralidade e a honestidade na coisa pública."

Pois é. O mesmo PSDB, defensor da moralidade e campeão no trato com o dinheiro público possui uma governadora, Yeda Crusius (foto), do Rio Grande do Sul.

A citada está chafurdada há tempos em um escândalo de proporção muito maior - sobre o qual escrevi aqui e depois aqui - e os caciques do partido tucano simplesmente fingem que não é com eles.

Ao contrário, barram todas as tentativas de investigação pela Assembléia Legislativa e ainda acionaram seus braços jornalísticos a fim deste escândalo receber uma cobertura bastante discreta dos órgãos de imprensa.

Sem contar o fato de que um dos operadores do esquema em Brasília também ganhou concorrências em São Paulo e a "Operação Castelo de Areia". Esta última investiga o pagamento de propinas pela Construtora Camargo Correa não somente a políticos paulistas do partido tucano como a políticos do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Nehuma palavra da grande imprensa quanto a isso, a propósito.

Evidentemente, o cálculo político do PSDB e do DEM no "Arrudagate" não é o da defesa da moralidade e da honestidade. Estas são usadas para fazer uma cortina de fumaça a fim de encobrir o principal objetivo. Ou os leitores pensam que o governador candango foi jogado às feras em nome da defesa da honestidade ?

Evidente que não.

Eu não consigo determinar o que estaria por trás deste movimento de abandonar Arruda à ptópria sorte. Talvez determinar um foco a fim de encobrir outros problemas, ou preservar a pré-candidatura do Governador José Serra. Este já vem enfrentando uma série de problemas em seu próprio quintal, especialmente de má gerência de obras e de recursos públicos (metrô, educação, pedágios, enchentes e outros).

Lembro também aos leitores que o DEM voltou atrás na decisão de expulsar Arruda de seus quadros depois quee ste ameaçou contar o que sabia. O bom e velho rabo preso.

Termino apenas lembrando aos amigos que não existe "meia ética" ou "meia honestidade". Ou se é, ou não é.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O egoísmo dos evangélicos



Antes de mais nada, um aviso aos meus 35 leitores: o tema é altamente polêmico.

Quero falar aqui de algo que vem me incomodando há muito tempo, que é a ostensiva presença dos grupos neo-pentecostais na vida brasileira e sua teoria de que "são os escolhidos".

Grosso modo, a teoria neo-pentecostal, baseada em uma interpretação bastante particular da Bíblia, é a seguinte: não importa o que você tenha feito em sua vida terrena, se na hora da morte você se "converter" estará salvo.

Ou seja: você pode matar, estuprar, roubar, sacanear os outros, fazer o que quiser, desde que na hora da morte se arrependa e se converta.

Por outro lado, se você faz o bem a vida inteira, acumula méritos, leva uma vida honesta e ética, pratica a verdade e o belo e se dedica à causa de Deus, mas em outra religião: vai direto para o inferno, sem escalas, para o sofrimento eterno.

Não sou profundo conhecedor de Teologia, mas isso não me parece nem um pouco coerente. E se tem uma característica Divina, esta é a justiça.

Só que não falarei aqui de Teologia. Quero chamar a atenção para os efeitos práticos desta postura das seitas neo-pentecostais.

Darei o exemplo do trânsito: 90% das fechadas que eu levo, invariavelmente, possuem no vidro traseiro adesivos do tipo "Deus é Fiel", "Ministério Apascentar", "Canção Nova", "Primeira Igreja Batista de São Longuinho do Oeste" e coisas semelhantes.

Como a doutrina evangélica prega que estes são "os escolhidos", o homem alarga este conceito e resolve que tem prioridade em tudo: no trânsito, nos empregos, nas filas e em qualquer lugar em que necessite haver algum tipo de ordem.

Sempre veem o próprio lado e a própria conveniência em primeiro lugar. Em seu raciocínio, como são os "escolhidos" por Deus, obviamente creem que são mais importantes que as outras pessoas.

Outro problema é que o conceito de "moral" ou de "ética" acaba sendo bastante discutível: o fiel não pode beber ou se divertir, por exemplo, mas pode receber propina ou dar calotes.

A prática política é bastante emblemática: ao invés de utilizarem a religião para reformar a política, não somente não o fazem como ainda utilizam os fiéis como massa de manobra. Assim eleitos, repetem as velhas manias da locupletação e da perpetuação de estruturas há muito carcomidas e viciadas.

O vídeo acima é emblemático: corruptos brasilienses orando sob a liderança de um pastor para agradecer o dinheiro decorrente de propinas ! É inacreditável.

Outro bom local de observação são os locais de trabalho. Geralmente, não medem esforços para privilegiar-se, não importando o que ocorrerá com os colegas. Passei certa vez uma situação onde uma colega de trabalho queria me exorcizar cada vez que dizia que iria pro samba; mas tramou com os chefes a minha demissão para ficar no meu lugar.

Evidente que a culpa não é da Bíblia, mas sim das interpretações oportunistas da mesma a fim de colocar Deus a serviço de suas conveniências. Isso é muito ruim, a meu ver.

Por isso que chamo este post de "o egoísmo dos evangélicos".

P.S. - Opiniões discordantes serão muito bem vindas, desde que respeitosas.

Resenha Literária - "O Grande Irmão"

Completando a série de resenhas, hoje temos um livro bastante interessante, que analisa a influência americana no Golpe Militar de 1964 e o posterior relacionamento com a ditadura militar.

Baseado principalmente em documentos revelados recentemente dos arquivos de órgão norte-americanos, Carlos Fico faz um painel muito preciso do período compreendido entre os anos imediatamente anteriores ao golpe de estado e o final do Governo Médici - onde termina o período dos documentos liberados.

Grosso modo, o livro é dividido em quatro partes:

1) A preparação do golpe. Neste trecho desnuda-se o papel americano na deposição de Jango e o imediato reconhecimento - que o próprio Presidente Johnson considerou precoce - do novo regime.

Revelam-se detalhes da "Operação Brother Sam", que consistia em apoio militar e logístico aos amotinados em caso de resistência legalista. Também desnudam-se uma série de programas assistenciais americanos em solo brasileiro.

2) Castello Branco e as "relações carnais". Período em que o governo brasileiro alinhou-se totalmente, com requintes de subserviência ao governo norte-americano. Os principais representantes desta postura eram o desgraçado do economista Roberto Campos (que a esta hora deve estar passando um sufoco tremendo no fundo do fundo do inferno) e o embaixador nos EUA Juracy Magalhães.

Destrincha também o uso dos programas de empréstimo como fator de pressão sobre o governo brasileiro e mostra o acesso irrestrito que o pessoal da Embaixada americana tinha com o presidente Castello Branco e os mais altos círculos de poder.

3) Costa e Silva: período de relativo distanciamento e de muita preocupação com o progressivo endurecimento do regime militar. O governo americano ficou bastante preocupado em sua imagem ao apoiar uma ditadura, então trazia suporte mas não da forma escancarada do governo anterior.

Outro momento retratado são as constantes lutas de poder dentro do próprio Departamento de Estado norte-americano e o problema criado pelo sequestro do embaixador Charles Elbrick.

4) Garrastazu Médici. Apaziguamento tendo em vista a crescente preocupação e desejo do governo brasileiro em possuir um papel mais preponderante na América do Sul.

O livro mostra manobras ocorridas durante a visita de Médici aos EUA no sentido de mostrar aos brasileiros que seu país era importante aos EUA - ao mesmo tempo, a realidade era de que o Brasil não tinha a menor importância na geopolítica americana, preocupada que estava com o Vietnã.

Outrossim, diminui a preocupação com a tortura e a ditadura - o "problema" era o Chile de Allende.

Obviamente que esta resenha não esgota os assuntos tratados no livro, mas acredito que seja leitura indispensável para se entender um pouco das relações Brasil-EUA.

Nas livrarias online, somente no Submarino pode ser encontrado para pronta entrega, ao preço de R$ 38.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Samba de Terça - "Oxumaré, a Lenda do Arco Íris"

Terça feira, dia de trazer mais um samba para a nossa coluna semanal.

Nossa escola de hoje é a Imperatriz Leopoldinense, que atualmente granjeia uma fama não muito simpática entre a população por causa de alguns campeonatos muito contestados entre a década de 90 e o início desta. Infelizmente mistura-se a instituição com as pessoas.

Entretanto, os meus 35 leitores devem desconhecer o fato de que a grande escola da Leopoldina já possuiu sambas afro em sua história.

É exatamente deste que falarei hoje: "Oxumaré, a Lenda do Arco Íris", 1979.

A verde e branca da Leopoldina voltava ao Grupo 1 (hoje, Especial) após o vice-campeonato do Grupo 2 no ano anterior. O presidente Luiz Pacheco Drummond optou por, mesmo asism, demitir o carnavalesco Max Lopes e trazer o carnavalesco Mário Barcellos.

O enredo proposto pelo carnavalesco destinava-se a contar a história dos arco-íris através da tradição afro-brasileira. Um tema de baixo custo e que se adequava às condições financeiras da época.

A Imperatriz foi a primeira escola a desfilar na noite de domingo de carnaval, 25 de fevereiro de 1979. A escola fez um desfile fluente, embalada pelo belo samba de Gibi, Darcy do Nascimento e Dominguinhos do Estácio, melodioso mas de fácil assimilação.

Na apuração dos votos, a escola obteve o sétimo e penúltimo lugar, com 140 pontos. Entretanto a escola não sofreu a penalização do rebaixamento, que não houve nesta oportunidade.

Com isso, o patrono da escola resolveu investir para a escola de Ramos se tornar finalmente uma das grandes do carnaval carioca, a começar pela contratação do carnavalesco campeão em 1979, Arlindo Rodrigues. Mas esta é outra história...

Vamos à letra do belo samba, que pode ser ouvido, em sua versão de estúdio, aqui. Abaixo, um vídeo do desfile.

"O arco-íris
Colorindo a passarela
Para Oxumaré passar
Os orixás estão em festa
Oi deixa a gira girar

Bata palma mãe pequena
Batam palmas Iaôs (bis)
Firma ponto meu Ogan
No rufar do seu tambor

Olha lá o arco-íris
Fazendo a natureza chorar
Menino vira menina
Quando por baixo passar
Diz a crendice popular
O rei ficou ciente
De tudo que aconteceu
Porque foi que os rios secaram
E o céu escureceu
E os negros africanos
Com a sua tradição
Quando vêem o arco-íris
Fazem esta louvação

Arrobóboia, Oxumarê
Arrobóboia, Oxumarê, Oxumarê (bis)"
 


Semana que vem, minha Portela querida, mestre Davi Correa: 1982, "Meu Brasil Brasileiro".

Resenha Literária - "Sob a lupa do economista"

Com a profusão de assuntos dos últimos dias, acabou que ficaram faltando as duas resenhas de livros lidos durante o feriado de Zumbi dos Palmares.

Pela ordem de leitura, comento este "Sob a Lupa do Economista", de autoria de Carlos Gonçalves e Mauro Rodrigues.

A proposta dos autores é relacionar e explicar sob a teoria econômica fatos do cotidiano que o leitor muitas vezes não faz a menor idéia de que possuem relação entre si. Uma espécie de "Freaknomics" tupiniquim.

O livro passa por artigos tão díspares como a formação de um mercado de órgãos humanos, o porquê da existência dos terroristas, relações entre doenças tropicais e desenvolvimento econômico e a preservação dos animais da savana africana.

Muito interessante, nestes tempos em que a demanda supera muito a oferta por ingressos no jogo que pode decidir o Campeonato Brasileiro, o artigo sobre os cambistas.

A tese dos autores, trocando em miúdos, é de que o cambista existe para equilibrar o mercado em jogos decisivos e permitir ao fã que acompanha o clube o ano todo mas que não poderia pagar o preço de equilíbrio dos ingressos assistir "in loco".

O raciocínio é de que é melhor perder nestas horas para garantir a fidelidade do torcedor no restante no ano. Então entra o cambista para equilibrar oferta e demanda por ingressos. Eles se utilizam da "Teoria dos Jogos" para explicar isso.

Apesar do viés excessivamente neo-liberal dos autores, que domina o pensamento destrinchado no livro, é uma leitura bastante interessante. Faz pensar.

Na Travessa, custa R$ 50. A Campos/Elsevier, editora do livro, não prima por preços atraentes, infelizmente.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Vontade Divina


Ontem estive dedicando na Outorga da Luz Divina na Vila da Penha, que é a Igreja central da minha região.

Explicando a quem não é membro: A Outorga da Luz Divina é a cerimônia que marca a entrada como membro da Igreja Messiânica. É outorgado o Ohikari, medalha que permite ao novo membro ministrar Johrei - a nossa oração.

Isto posto,volto à manhã de ontem. Normalmente, três ou quatro unidades são escaladas para montar a equipe de dedicantes necessária a um culto como este. São aproximadamente 40 pessoas envolvidas na preparação e na organização.

Eu estava escalado para auxiliar as pessoas que seriam outorgadas na Nave da Igreja. Entretanto, cerca de uma hora antes do Culto o responsável geral olhou para a minha cara e me pediu: "Pedro, você vai ser responsável pelos oficiantes".

Quem leu o artigo sobre o casamento messiânico observou a explicação da função dos oficiantes na celebração. Pois é, também leu que há quatro anos não exercia tal função em cultos. Quanto mais ser responsável...

Procurei distribuir as tarefas - até porque haviam mais dedicantes que o número necessário - e não tendo vergonha de perguntar onde tinha dúvida à responsável pela parte litúrgica. Um errinho aqui, outro ali, mas acabou saindo tudo certo - unica e exclusivamente graças à qualidade dos meninos que fizeram muito bem os seus papéis.

Porém, o que fiquei pensando e me perguntando é como enxergar a Vontade Divina. Porque deu aquele "estalo" no responsável e acabei com uma responsabilidade que jamais havia exercido ? Não sei.

Muitas vezes, teimamos em não ver a direção que nossa vida precisa ou irá tomar.

Nas fotos, a equipe de oficiantes e as duas recepcionistas que nos auxiliaram. Obrigado !


O escândalo de Brasília



Final de semana corrido, mas não posso deixar de comentar o escândalo de corrupção que estourou envolvendo o Governador de Brasília, José Roberto Arruda (foto abaixo), seu vice e mais da metade da Câmara Distrital da cidade.

Penso que este é um exemplo muito elucidativo de que, como escrevi em artigo anterior, o DEM (ex-PFL) age da mesma forma, até pior, do que tudo o que critica em seus adversários políticos. Na prática, posam de virgens em bordel, coisa que, absolutamente, não o são.

As imagens são inacreditáveis.

Aproveito para reproduzir abaixo dois textos. Um do site Congresso em Foco, citado pelo jornalista Luis Nassif. E outro, do jornalista, tucano-pefelista e anti-petista Ricardo Noblat.

Congresso em Foco:

Arruda e integrantes do esquema souberam da investigação. Temendo pela vida, Durval desistiu de prosseguir com grampos

(Rudolfo Lago)

"A intenção da Polícia Federal e do Ministério Público não era estourar agora a Operação Caixa de Pandora. A investigação deveria prosseguir, com o rastreio do dinheiro da propina e com mais grampos feitos pelo ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa, que, após um acordo de delação premiada, concordara em gravar em áudio e vídeo conversas com o governador José Roberto Arruda e outros integrantes da, como classifica o inquérito, “organização criminosa”. Ocorre, porém, que no início de novembro, a operação vazou. Arruda tentou, em vão, ter acesso ao processo. A documentação inclusa no inquérito mostra que a informação sobre a existência da investigação chegara também à imprensa: há uma solicitação do jornal O Estado de S.Paulo para ter acesso ao processo, para “formulação de matéria jornalística”. Os passos do vazamento que precipitou o final da operação são detalhados no final do último volume de apensos do processo.

No dia 4 de novembro, Durval recebe uma mensagem de celular vinda do chefe da Casa Civil do governo do Distrito Federal, José Geraldo Maciel: “Seja bem cauteloso, mais do que você já tem sido”. Os dois, então, combinam um encontro na quadra 309 Sul, ao lado da banca de revista. Maciel diz a Durval que ficou sabendo que o STJ havia determinado à Polícia Federal que investigasse, no âmbito do DF, cerca de 30 pessoas. Que poderiam fazer parte dessa investigação o presidente Tribunal de Justiça do DF, Nívio Geraldo Gonçalves, o procurado geral de Justiça do DF, Leonardo Bandarra, o governador José Roberto Arruda e o vice-governador Paulo Otávio.

Quando Maciel passou essa informação a Arruda, a resposta do governador foi a seguinte: “Se a fonte for do STJ, então é confiável,e a investigação existe”. Arruda deu, então, ordem a todos os secretários e para todas as pessoas “que manipulassem dinheiro” para que agissem com cautela. Geraldo Maciel comentou que não concordava com o fato de haver no governo tanta gente “captando recursos financeiros”, e que acreditava que Arruda teria “perdido o controle” da sua rede de captadores.

No dia 12 de novembro, o cerco se aperta e Durval manda a seguinte mensagem para um celular da Polícia Federal, às 16h09: “Situação ficando insustentável”. Completava dizendo que Maciel já comentara sobre o processo 650. Que já sabia que o relator era o ministro Fernando Gonçalves e que as quebras de sigilo foram determinadas pelo ministro Felix Fischer. E que Arruda pediu vistas do processo, por meio de seu advogado, Cláudio Fruet. Ao final da mensagem, Durval pergunta: “O que fazer?” Às 16h26, ele manda outra mensagem para o mesmo celular da PF: “Começo temer pelo desconhecido. Outra: disse tratar-se de delação, só não sabe de quem”.

No dia 13, Durval vai à PF e presta um depoimento em que dá mais detalhes da conversa que tivera no dia anterior com Maciel. Na conversa, o chefe da Casa Civil informa a ele já saber que o processo tem como alvos ele próprio, Arruda, o conselheiro do Tribunal de Contas Domingos Lamoglia e Durval. Sabia também que a investigação se iniciara a partir de uma delação premiada. Maciel diz a Durval desconfiar que a delação teria sido feita por “algum empresário descontente”. Arruda pedira vistas do processo através do advogado Cláudio Fruet, escolhido por ter “suposta influência no STJ”. Maciel pergunta, então: “Você sabe mais alguma coisa a respeito disso?”.

À PF, Durval diz acreditar que Maciel, àquela altura, já tiha “quase certeza” de que o delator era ele. E completa dizendo que se sente ameaçado, porque Arruda “é fascinado pelo poder, e é capaz de qualquer coisa para preservá-lo”. E que o chefe de gabinete de Arruda, Fábio Simão, “é capaz de executar qualquer ordem ou desejo do governador”, já tendo um histórico de “contratação de capangas para provocar baderna e brigar na rua”. Perguntado se “temia pela sua vida”, Durval “respondeu que sim”.

“Ou me mato ou mato você”

Antes de agir como colaborador da polícia, Durval já gravava Arruda. E Arruda sabia disso. Durval relata em seu depoimento que, entre os dias 20 e 25 de dezembro de 2008, Arruda disse a ele a seguinte frase: “Se você apresentar essas imagens da minha pessoa, você me avise com cinco dias de antecedência que é para eu sumir ou dar um tiro na minha cabeça ou te matar”. Durval diz que a conversa se deu no seguinte contexto: Arruda teria lhe oferecido R$ 60 milhões e mais R$ 10 milhões por cada ano de governo subsequente, num total de R$ 100 milhões, para que não fizesse qualquer denúncia referente às atividades de arrecadação ilítica de recursos públicos. Ao final do depoimento, Durval diz que “já não se sente confortável” em prosseguir “com a colaboração nos moldes que vinha sendo feito”.

Diante da situação, no dia 13 de novembro, o delegado Alfredo José de Souza Junqueira, da Inteligência da PF, envia uma correspondência ao ministro do STJ, Fernando Gonçalves. “Inicialmente, a Polícia Federal havia planejado trabalhar sigilosamente com (…) Durval Barbosa Rodrigues por um período maior que o que se encerra neste momento”, explica o delegado. “Entretanto, os investigados tiveram acesso indevido a informações protegidas por segredo de Justiça e tomaram conhecimento da investigação”, continua.

“Considerando que ainda não se identificou a origem do vazamento, pode-se concuir que o sigilo das informações contidas nos autos do inquérito e nos autos apartados não será preservado por muito tempo”. Junqueira pede, então, a Fernando Gonçalves que autorize a execuçãod e mandatos de busca e apreensão nas casas e nos escritórios dos suspeitos. Fernando Gonçalves concede a autorização no dia 26 de novembro. As buscas acontecem, então, na manhã do dia 28 de novembro. E uma crise política sem precedentes instaura-se na política de Brasília."


Noblat:

"Pouco importa o que venha a fazer o governador José Roberto Arruda (DEM), do Distrito Federal. Pode ficar no cargo para evitar o risco de ser preso. Pode pedir licença. Se renunciar ao mandato tanto pior.

Mas uma coisa é certa: o plano de se reeleger foi engolido pelo mensalão embolsado por ele e sua turma. Não tem pão? Vá comer panetone.

Esse, sim, é um mensalão digno de ser encarado como tal e tratado com deferência. Perto do mensalão de Arruda, o do PT denunciado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) não passou de um mensalinho.

É razoável supor que o mensalão do PT movimentou mais grana. Ocorre que ele era federal. O novo mensalão é distrital. De resto, vista de longe, Brasília se limita à Esplanada dos Ministérios.

É por isso que a maioria dos brasileiros não dá bola para o que se passa dentro das quatro linhas da política brasiliense. A imprensa de fora só raramente – embora muitos dos seus jornalistas vivam aqui.

Esqueça a imprensa local. O DNA dela é governista.

No último sábado, por exemplo, os dois principais jornais da cidade operaram o prodígio de noticiar o mensalão de Arruda livrando a cara de...De quem mesmo? De Arruda. O terceiro jornal não deu uma linha.

Repetiram a dose no domingo.

A imagem inaugural do mensalão do PT foi aquela do funcionário da empresa Correios & Telégrafos recebendo uma gorjeta de R$ 3 mil.

A do mensalão do DEM foi a do governador recebendo uma gorda quantia de dinheiro.

A gorjeta foi paga por um ex-bicheiro interessado em fazer negócios com o Correios.

O dinheiro foi entregue a Arruda pelo seu secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa.

Não há um único depoimento que incrimine Lula ou o vice-presidente José Alencar na denúncia aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra os mensaleiros do PT.

Fita de vídeo ou de áudio que flagre mensaleiros de alto coturno discutindo a partilha do “faz-me rir”? Não existe. Mesmo contra o ex-ministro José Dirceu, apontado como chefe da “organização criminosa”, há poucos indícios de fato consistentes.

Arruda também foi filmado conversando com Durval e com o chefe da Casa Civil do governo sobre a necessidade de unificar a forma de pagamento de propinas a secretários de Estados e deputados distritais.

E outra vez foi filmado ouvindo Durval explicar que 40% do dinheiro arrecadado junto a quatro empresas da área de informática caberiam a ele, Arruda, 30% ao vice-governador Paulo Octavio e o resto ao demais beneficiados.

Há pontos em comum entre os dois mensalões.

Primeiro: o dinheiro serviu para facilitar a aprovação na Câmara dos Deputados e na Câmara Legislativa do Distrito Federal de projetos dos governos Lula e Arruda.

Segundo: os presidentes de ambas as Câmaras participaram do esquema.

Terceiro: Lula chamou seu mensalão de Caixa 2. Arruda chamou o dele de ação meritória para a compra de panetones destinados a saciar a fome dos pobres.

Sempre se poderá dizer que os mensaleiros do PT demonstraram mais esperteza. Deixaram menos rastros capazes de mandá-los para a cadeia.

Os mensaleiros distritais foram confiantes demais, relapsos demais e acreditaram em excesso que escapariam impunes.

Produziram o mais bem documentado escândalo da história política recente do país. Coisa de deixar Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, de queixo caído.

Os mensaleiros do PT tentaram se apossar da máquina do Estado, segundo a denúncia acolhida pelo STF.

Os mensaleiros de Brasília, não – a máquina do Estado é deles desde que Joaquim Roriz chegou ao poder pela primeira vez. Ele governou quatro vezes. Em 2006, ajudou seu ex-pupilo Arruda a se eleger.

Arruda herdou de Roriz parte dos seus auxiliares. Durval foi um deles. Afinal, por que mexer em time que estava ganhando?

O calendário gregoriano nada tem a ver com o calendário político.

A se levar em conta o primeiro, o governo Arruda acabaria no dia 31 de dezembro de 2010. Com base no segundo, o governo acabou na semana passada.

Pode até seguir se arrastando por aí como um morto vivo, mas acabou.

Resta saber o que fará o DEM com seu único governador.

O DEM é famoso por ser o partido mais rápido no gatilho quando cobra providências do governo contra os que ferem os bons costumes.

O destino político de Arruda está nas mãos da direção do DEM. Se ele acabar expulso não terá legenda para concorrer às próximas eleições. Se é que idéia tão bizarra ainda passa pela cabeça dele."



(Foto: O Globo)

Bingo !


Mais uma vez, o Ouro de Tolo sai na frente. Em agosto, escrevi aqui que América e Olaria seriam os clubes promovidos à Primeira Divisão do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro.

Sábado passado o campeonato teve seu término. Adivinhem quais foram os dois clubes promovidos ? América e Olaria. Como queríamos demonstrar.

A Segundona do Rio tá igualzinha aos grupos de Acesso do carnaval carioca...

domingo, 29 de novembro de 2009

Ficção Universitária


Essa é da série que, como diria o Marco Aurélio Mello, são "histórias de ficção".

Digamos que uma grande universidade brasileira tenha feito seleção para ingresso de mestrandos em determinado curso. Em uma seleção destas, são aceitos candidatos com origem de graduação de todas as instituições a oferecer cursos que atendam aos requisitos de determinado mestrado.

Também tomemos como fato que os candidatos a mestrandos tenham de apresentar um projeto de dissertação a ser desenvolvido durante o curso, muitas vezes derivados dos trabalhos finais apresentados no final da graduação.

Pois é: dos dez aprovados após as provas, entrevistas e análise de currículos, oito fizeram graduação no mesmo departamento da grande universidade que oferece o referido curso de mestrado.

Mais: destes oito, cinco foram orientados no trabalho final de graduação por  professores da banca julgadora do concurso.

Restaram dois aprovados, certo ?

Um deles veio com o projeto de dissertação já acertado para ser orientado por um dos professores da banca, e o outro é um jornalista estrangeiro que presta serviços de tradução a este departamento, por um lado, e consegue livros importados na referida língua, por outro.

Mais: como a classificação acabou exatamente desta forma ? A diferenciação foi feita pela nota da prova; a suspeita é de que tais foram 'corrigidas' tendo ao lado o currículo dos candidatos. Como se diz em contabilidade, a boa e velha "marreta".

Isto é Brasil. Mas, se me perguntarem se é verdade, nego até a morte.

sábado, 28 de novembro de 2009

Grupo Especial 2010 - Primeiras Impressões dos Sambas



Semana passada publiquei aqui um texto com as primeiras impressões sobre o cd do Grupo de Acesso A para 2010.

Hoje trago a minha primeira opinião sobre os sambas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, o principal espetáculo de nosso carnaval.

O cd será lançado dia 02 de dezembro, mas já tive acesso aos áudios oficiais. Reitero, porém, que é dever de todos nós comprar o cd quando disponibilizado nas lojas.

Destaque absoluto do cd: as gravações melhoraram estupidamente em relação a pelo menos os últimos dez últimos anos. Gravado ao vivo, parece um disco de escolas de samba, sem o irritante padrão "pagode de enredo" dos últimos álbuns. Bola dentro para os produtores.

A safra em geral não pode ser considerada ruim. Inclusive com sambas diferentes do padrão a que estamos acostumados nos últimos tempos, de "dez linhas, refrão, dez linhas, refrão".

Abaixo coloco minha primeira impressão sobre cada samba, na ordem em que desfilarão. Obviamente, são idéias que vão se modificando à medida em que mais ouvimos as canções:

Domingo:

1 - União da Ilha - fruto de uma junção que, dizem quem acompanhou a disputa, puramente política, é mais um exemplar da insossa safra da escola nos últimos anos. Samba apenas mediano. Destaque para o alusivo ao final da faixa. Seu enredo é sobre a história de Dom Quixote de La Mancha.

2 - Imperatriz - grande samba, um dos melhores da safra - embora inferior ao samba do Império Serrano de 2006, com o mesmo enredo sobre a religiosidade do brasileiro. Entretanto, o samba em minha opinião é um dos três melhores deste ano.

Destaque para o belo refrão:

"A Imperatriz é um mar de fiéis
No altar do samba, em oração
É o Brasil de todos os deuses!
De paz, amor e união"

Lamento apenas o fato de o puxador ser o Dominguinhos do Estácio, que não canta nada faz tempo...

3 - Unidos da Tijuca - o samba para o enredo sobre o segredo é o melhor da "Era Paulo Barros", que, normalmente, gera sambas ruins. Destaque para os belos versos:

"Unidos da Tijuca, não é segredo eu amar você
Decifrar, isso eu não sei dizer
São coisas do meu coração"


4 - Unidos do Viradouro - o tema sobre o México ganhou um samba que agrada a muita gente, mas que particularmente não gosto.

5 - Salgueiro - o título conquistado em 2009 com um samba sofrível, mas que obteve a pontuação máxima dos jurados, parece não ter feito bem à escola. Uma vez mais, o samba para 2010 é, a meu juízo, o pior do ano. Letra batida e melodia "samba-axé", "pula-pula", em seu desfile sobre o livro. Diga-se de passagem que a escolha deste samba gerou muita polêmica na escola e em quem acompanha o dia a dia do carnaval.

6 - Beija Flor - o enredo é "chapa-branca" (Brasília e seus 50 anos), mas o samba agrada, dentro da recente tradição de boas composições da escola. Deverá proporcionar uma boa evolução à representante de Nilópolis.

Segunda Feira:

1 - Mocidade Independente - como diria Mestre Fernando Pamplona, é uma "marchinha safada". Mas que marchinha gostosa de ouvir !

Ou, como diz um colega meu, torcedor da verde e branco de Padre Miguel: é um "samba-prostituta", todo mundo gosta, mas ninguém quer na sua casa (escola). O enredo é sobre a noção de Paraíso.

2 - Porto da Pedra - a escola de São Gonçalo trará uma apresentação na passarela com um tema adequado: a moda. Entretanto, o samba é aquém do que o enredo permitiria, com aquele que eu chamaria de "verso-trash" do ano:

"Há muito tempo o homem deu no couro"

3 - Portela - já escrevi quando este samba foi escolhido, e a alteração na letra feita para atender ao patrocinador (Positivo Computadores) só piorou o quadro.

É um samba de fraco para mediano, mas que deve funcionar para o desfile da escola. Ressalto que foi mais uma escolha cercada de controvérsias. Mas, no quadro geral, até que se sai bem, ainda mais levando-se em conta a horrorosa sinopse sobre tecnologia e inclusão social.

4 - Acadêmicos do Grande Rio - mais uma fusão destinada a atender os interesses do patrocinador, uma grande cervejaria e seu camarote. O refrão de um samba foi enxertado no restante de outro.

O samba reflete a salada que é o enredo, um misto de 25 anos de Sambódromo (que foram em 2009) com o "Camarote Nº1.

5 - Unidos de Vila Isabel - Noel Rosa, o homenageado, ganhou um grande samba. Para mim, o melhor da safra, disparado. A composição tem uma estrutura diferente da que estamos acostumados a ouvir nos últimos anos, e este é o grande diferencial.

Obviamente, samba do grande Martinho da Vila. Entretanto, cabe o dever de assinalar que o samba de enredo é bastante semelhante uma outra música de Martinho, "Presença de Noel" - em parceria com Gracia do Salgueiro, já falecido.

Aliás, esta foi outra disputa de samba cercada de polêmica, pelos rumores de que o samba já estaria escolhido antes mesmo da disputa. Lendas do carnaval.

6 - Mangueira - a verde e rosa encerrará os desfiles do Grupo Especial com um belo samba sobre a música brasileira. Destaque para a inovação de três puxadores principais, todos muito bons: Rixxa, Zé Paulo e Luizito.

Termino o texto com um presente aos meus 35 leitores: aqui você pode ouvir e baixar três sambas: Vila Isabel, Portela e Imperatriz.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Final de Semana - "Corsário"



Semana corrida, o blog ficou meio abandonado esta semana - no que peço desculpas a meus 35 leitores - mas como de hábito trago a indicação musical a abrir mais um final de semana.

Retornando à boa e velha Música Popular Brasileira, uma parceria histórica na música brasileira: João Bosco e Aldir Blanc. A música, Corsário.

Uma letra extremamente trabalhada, embora concisa, e com uma força absolutamente arrebatadora.

Transcrevo abaixo a letra, e acima o vídeo em versão do próprio João Bosco.

Corsário

Composição: João Bosco e Aldir Blanc

"Meu coração tropical está coberto de neve mas
Ferve em seu cofre gelado
E à voz vibra e a mão escreve mar
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais

Roserais nova Granada de espanha
Por você eu teu corsário preso
Vou partir na geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar procurar o mar

Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos
E as rosas partindo o ar
Nova granada de espanha
E as rosas partindo o ar
Iela, iela, iela, iela la la la"

Cinecasulofilia - Padrões de Beleza

Mais uma sexta feira, o funil está apertando bastante, mas nossa coluna sobre cinema não poderia faltar apesar do dia corrido que se avizinha. Como sempre, de autoria do cineasta e crítico Marcelo Ikeda, dono do excelente blog Cinecasulofilia.

O texto de hoje é um pouquinho diferente: analisa os padrões de beleza e sua analogia com a indústria do cinema. Leitura indispensável.

Padrões de Beleza

"Sabemos que o padrão de beleza em voga hoje no mundo é basicamente um padrão europeu. A mulher bonita é aquela alta, magra, branca, com traços finos e proporcionais. A afirmação de um padrão é um processo histórico, mas que possui implicações culturais, econômicas e ideológicas. É claro que esse padrão é estimulado por uma indústria de cosméticos, que torna a beleza uma mercadoria, vendendo um conjunto de produtos de beleza e mesmo padrões de comportamento, como serviços de academia e cirurgias plásticas, entre muitos outros exemplos.

Esse padrão de beleza é um padrão discreto, equilibrado. O exotismo pode se enquadrar como forma de “mudar para permanecer o mesmo”, já que ele é aceito até o ponto em que não abala as estruturas desse mesmo padrão: um nariz torto, uma boca com lábios volumosos, chamam a atenção para a “diferença na identidade”. São na verdade exceções que confirmam a regra.

Os concursos de beleza, as capas das revistas publicitárias e as modelos de passarela reproduzem esse estratagema, pois dão legitimidade aos padrões de beleza em voga.

Por outro lado, temos a consciência do quanto esse padrão de beleza é fútil, pois o que importa de verdade é a “beleza interior”, uma beleza verdadeira, e não um rótulo ou um estereótipo de beleza imposto cada vez mais por um mercado que trata a beleza como um produto de publicidade barato. Esse modelo de beleza é em geral superficial, vazio, mesquinho, jogando para escanteio o que é verdadeiramente belo.

Fico pensando até que ponto o cinema não repete esse paradigma. Os filmes que se destacam são aqueles que reproduzem determinados padrões de beleza ditados pelos padrões europeus, ditados pelos modismos, pelo “mercado publicitário dos autores”, em que essa beleza é na maior parte das vezes meramente superficial. Aquele filme que foge de certos padrões de beleza é empurrado para uma marginalidade. Os festivais de cinema e os críticos dão legitimidade aos padrões de beleza cinematográficos já estabelecidos, ditando modismos, elogiando o exotismo que convém, descobrindo e esquecendo autores da noite para o dia, numa bolsa de valores dos novos gênios da arte cinematográfica. A beleza é transitória, e a busca é superficial, por uma beleza que aparece gritantemente, que aponta para a sua própria beleza. Uma beleza gratuita, fútil, auto-referencial, que aponta exclusivamente para si mesma. Os autores são virtuoses do plano ou da fotografia, malabaristas da linguagem cinematográfica.

Não pretendo aqui discutir o que é o belo: não é este meu propósito e seria muito ambicioso tentar fazê-lo. Só quero apontar para o fato de que desconfio profundamente de filmes aparentemente belos, assim como desconfio de mulheres aparentemente belas. Não é um preconceito, ou que de antemão elas (ou eles) sejam ordinários, mesquinhos, mas o fato é que estes é que têm maior chance de que suas virtudes sejam descobertas, enquanto há outros “patinhos feios” que não revelam de cara sua beleza incomum.

O desafio do crítico (ou daquele que se diz crítico) é problematizar sempre esse padrão de beleza já consolidado, e apontar para outras formas de se ver o mundo. Esse me parece ser um engajamento político possível da crítica cinematográfica, um engajamento verdadeiramente desinteresseiro."

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ingresso Difícil

Bom, como devem ter visto na imprensa, hoje começou - e deve se encerrar - a venda de ingressos para o jogo Flamengo e Grêmio, que pode decidir o Campeonato Brasileiro de 2009.

Como trabalho e não tenho a menor condição de ir para a fila, optei por tentar comprar pela internet, no website de uma empresa chamada "Ingresso Fácil". Este empresa é o braço da internet da famigerada BWA, que controla a bilheteria de diversos clubes brasileiros, entre eles o Flamengo - este contrato já foi tema de post aqui mesmo no blog.

Acesso lentíssimo, todo mundo reclamando que não conseguia e... eu consegui ! Fiz o cadastro, reservei os ingressos e...

Na hora de pagar, o site só aceita débito Itaú, Mastercard de Itaú, Real, Bradesco ou Caixa Econômica ou Diners dos mesmos bancos. Ainda liguei para a Daniele para saber se ela tinha algum Mastercard, mas não tinha. Me senti aquela pessoa que ganha na loteria, mas perde o bilhete.

Ou seja, a velha prática de criar dificuldades para vender facilidades. O que deveria ser uma comodidade - a compra pela internet - acaba sendo um estorvo. O curioso é que já adquiri ingressos pela Ticketmaster e não tive o menor problema.

Qual o sentido de se oferecer a compra se os meios de pagamento são extremamente restritos ? Eu consegui comprar, tenho dinheiro - no caso, limite no cartão de crédito - e acabei não conseguindo obter o que queria devido às dificuldades criadas pela empresa. Será que o objetivo é sobrar mais ingressos para cambistas ?

Lembro que a maior base de cartões de crédito, hoje, é da plataforma Visa - e o site não aceita esta forma de pagamento.

Acredito, até, que consiga ir ao jogo, mas é impressionante como estas relações de consumo acabam se tornando relações de compadrio. Isto é péssimo.

A propósito, é impressionante como é um padrão do Clube de Regatas do Flamengo o desrespeito ao seu torcedor. Ele deveria ser um cliente, um consumidor, mas é tratado como se dependesse de favores do clube. Há uma massa ávida para consumir, mas o clube faz questão de mantê-los o mais longe possível. As iniciativas neste sentido são sempre das empresas parceiras, nunca do clube - cuja diretoria tem horror a torcedor.

Agora, o nome "Ingresso Fácil" é propaganda enganosa. Deveria se chamar "Ingresso Difícil".

P.S. - acho que preciso de um banho de sal grosso...



(Foto: O Globo)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Gol de canela e desventuras com a locadora Unidas

Acho que comentei aqui quando do acidente que tinha direito a alguns dias de carro reserva previstos na apólice.

Pois é. A locadora que trabalha com a minha seguradora é a tal da Unidas.

O primeiro carro que me alugaram era um Gol, destes modelos novos, inteiramente "pelado". Até aí tudo bem, era o que estava na apólice. O carro é extremamente duro e super desconfortável, o banco se fosse de madeira seria mais aconchegante. Por outro lado, o carro anda direitinho para um motor 1.0.

Tudo bem. Reservei o carro para esta semana, os cinco dias restantes a que tenho direito. Combinei com a minha corretora e com o pessoal da Bradesco Seguros que, dado o fortíssimo calor aqui no Rio, trocaria o carro por um com ar condicionado e pagaria a diferença. O pessoal da seguradora  - que, diga-se de passagem, até agora procedeu de forma bem correta comigo - no sábado confirmou que estava ok.

Chego na segunda pra pegar o carro e qual não foi a minha surpresa ao ser informado de que teria de levar um carro inteiramente "pelado" novamente. A alegação era de que não haviam disponíveis carros com ar, nem se eu pagasse. Ainda fui atendido com rispidez na loja, na linha do "é isso ou nada". O detalhe é que no local onde retiramos o carro haviam vários carros com ar e direção... Ou seja: má-vontade.

Faço a ressalva de que há um tal de "depósito de segurança", feito no cartão de crédito e depois (teoricamente) estornado que com as duas locações tomou todo o limite do meu cartão. Já era para terem estornado o primeiro e até agora nada.

Chego no local para pegar o carro básico e me entregam uma Palio, preta, duas portas. O carro todo sujo, com a direção puxando exageradamente para a esquerda e com a luz interna quebrada, O aparelho de som, único luxo do carro, só tem auto-falantes no porta-malas do veículo. Nunca vi isso.

Claramente, era um veículo destes de grandes empresas que terceirizam a sua frota, como Oi e Vivo. É com ele que terei de conviver - melhor seria dizer aturar - até sexta. A direção chega a ser perigosa, porque é exageradamente dura e, consequentemente, não permite respostas rápidas. Exige uma força descomunal para as manobras de estacionamento.

Menos mal que tive uma Palio por três anos e as reações deste não são muito diferentes do carro que eu tinha - apesar deste ser bem menos equipado.

Ressalto que não é privilégio da Palio, o Gol é igualzinho. São carros que não deveriam ser vendidos sem direção hidráulica, chega a ser maldade com o consumidor.

Já estava vendo uma locação particular por outra empresa, quando me ligam hoje avisando que estenderam o período do carro reserva devido à demora do conserto do meu carro (que só deve ficar pronto entre a última semana de 2009 e a primeira de 2010). A seguradora me passou uma reserva de carro com ar e direção, vamos ver se eles acatam - eu pagarei a diferença mas, como é o preço cobrado à seguradora (uns 30% mais barato que o valor com desconto para particulares), vale muito a pena. Saberei somente na segunda feira se não haverá novos problemas.

Uma coisa é certa: por conta própria, Unidas nunca mais. Péssimo atendimento e desprezo ao cliente. Em tempo: Gol também não.