quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Resenha Literária - "Olho por Olho"

Como escrevi na resenha anterior, o final de semana foi bastante profícuo em termos de leituras. Consegui ler três livros.

Com isso, aqui temos a segunda resenha desta semana: "Olho por Olho", do jornalista Lucas Figueiredo.

Basicamente, conta a história do "Brasil: Nunca Mais", livro que contou a prática da tortura no Regime Militar. Este é um livro fundamental para se entender a história recente do país. Por outro lado, apresenta o "Orvil", que seria a "resposta" dos militares ao livro em questão - que jamais foi publicado.

A história do "Brasil: Nunca Mais" tem lances inacreditáveis, e que eu desconhecia. O arquivo do Superior Tribunal Militar foi todo copiado, em uma operação de guerra; daí tirados os dados que, depois, embasaram as denúncias apresentadas no livro.

Também conta como este processo - que desaguaria no livro - foi financiado, através de participação decisiva de D. Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Paulo à época.

Revela também os autores da versão final a ir para as livrarias - Ricardo Kotscho e Frei Betto.

Diga-se de passagem: Ricardo Kotscho é um privilegiado. Ele foi ator ativo em todas as grandes passagens da história do Brasil da década de 80 para cá. Onde tem coisa boa na política ou no jornalismo, provável que tivesse a mão dele ali. Muito legal.

Na segunda parte do livro o autor passa a descrever o "Orvil", que era a versão dos militares dos fatos dispostos no livro anterior. Este livro, cuja publicação foi vetada pelo então Presidente José Sarney, muitas vezes manipulava os dados contidos nos próprios processos para manter versões já contraditas de assassinatos e "desaparecimentos".

Além disso, os próprio livro dos militares acaba elucidando o destino de alguns "desaparecidos", em uma brilhante trabalho de pesquisa do autor.

Outro pedaço do livro é destinado a contar a mística envolvida em torno do livro do Exército após o veto à sua publicação. Cerca de 15 cópias do "Orvil" foram feitas e circulavam com um fervor quase religioso entre a comunidade militar. Tal qual a Maçonaria, a divulgação era apenas aos "iniciados".

Aos poucos este controle foi se afrouxando e, inclusive, o Orvil se encontra disponível na internet.

Livro muito bom, que pode perfeitamente ser lido como um "thriller" de suspense. Texto fluente e, com toques de ironia aqui e ali, acaba transformando um tema "pesado" em uma leitura bastante agradável.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sobre o Apagão


Bom, como já fartamente noticiado, ontem houve um apagão que atingiu 18 estados mais o Distrito Federal.

Para mim pouco mudou. Ao contrário do que ocorre normalmente, já estava deitado, lendo, a hora em que houve o problema. Aproveitei para dormir, a falta de ar-condicionado incomodou um pouco, mas quase não percebi.

Como volta e meia falta luz onde moro, só fui saber que havia sido um problema generalizado quando cheguei ao trabalho hoje. A energia foi restabelecida por volta das três da manhã, pelo que disse a minha esposa.

Ao que parece, foi um problema localizado em uma das linhas de transmissão. Como nossa matriz de eletricidade é basicamente hidráulica, e rios com potencial para geração de energia elétrica não necessariamente estão perto dos maiores mercados consumidores, esta é uma dificuldade com a qual temos de conviver. O preço que pagamos para ter uma energia mais "limpa". Nada a ver com sobrecarga de consumo, como ocorrido em governos anteriores.

Mas nem é sobre isso que queria escrever. Acredito que tenha sido uma falha técnica, passível de ocorrer. Gerou transtornos, mas paciência. Acontece.

Quero escrever sobre os ridículos que se disseram e escreveram hoje sobre o assunto. Na tentativa de partidarizar a questão e responsabilizar o governo pelo ocorrido, disseram-se os maiores absurdos:

"O Brasil precisa diminuir a sua dependência de combustíveis fósseis" - Lúcia Hippolito, CBN (ué, não sabia que o rio que alimentava Itaipu era feito de petróleo, e não água)

"O governo é responsável porque baixou o IPI da chamada 'linha branca', e isso aumentou a sobrecarga" - a mesma cidadã (ué, as pessoas trocam seus eletrodomésticos por modelos mais eficientes, não?)

"O apagão desta madrugada nos informa que o planejamento energético brasileiro precisa levar em conta a mudança climática" - a inacreditável Míriam Leitão, O Globo (já foi dito que não há influência dos ventos e muito menos do aquecimento global nesta questão)

Entre outras coisas, o "Estadão" escreveu que "o mundo questiona a escolha das Olimpíadas" e a Folha, "que a culpa é de Lula".

Penso que este episódio mostrou bem o papel que a chamada "grande imprensa" vem desenvolvendo nas questões nacionais. Os fatos são torcidos e retorcidos de forma a gerar dividendos eleitorais para a oposição ou estimular inquietação nacional, a fim de propiciar as condições para uma atividade golpista - aos moldes de Honduras. Informar a população sobre o que realmente ocorre é absolutamente função secundária.

Lembro aos meus 31 leitores que redes de rádio e televisão são concessões públicas, sujeitas a cumprirem regras. Só que ultimamente este fator foi convenientemente "esquecido", de forma a transformar estas em difusoras eletrônicas de partidos políticos. Mal comparando, é a mesmíssima prática das Igrejas Evangélicas, tão criticadas por estes órgãos de imprensa. Estão tão errados quanto.

"Faça o que eu digo, não faça o que eu faço."

(Foto: R7)

Lula no Financial Times - Entrevista


O Presidente Luis Inácio Lula da Silva deu uma entrevista ao jornal britânico Financial Times bastante interessante, onde ele aborda assuntos que, normalmente, a imprensa daqui não se preocupa em saber. Destaco, entre tantos assuntos, o reconhecimento ao vice-presidente José de Alencar. Outros temas interessantes são o modelo de Estado em seu pensamento e o raciocínio político do presidente.

Apesar de um tanto quanto extensa, vale muito a pena a leitura. Agradeço ao Viomundo pela disponibilização da tradução.

Entrevista publicada no dia 8 de novembro pelo jornal britânico Financial Times:

Financial Times: Sr. Presidente, me diga, como é que o Brasil saiu da crise financeira e econômica global tão rapidamente?

Presidente Lula: Bom, primeiro de tudo, eu acredito que é importante para você entender o que aconteceu no Brasil antes da crise. Estávamos determinados a acabar com a paralisia que o Brasil sofreu durante os anos 80 e 90. O Brasil teve de voltar ao caminho do crescimento e investir em infra-estrutura como condição para o sucesso nas décadas futuras. Uma coisa importante é que muitas das medidas que alguns países  tomaram só após a crise, o Brasil já as havia feito em janeiro de 2007.

Deixe-me lhe dizer algo que vai soar como uma ironia do destino. Eu tinha medo de concorrer a um segundo mandato. Não estava satisfeito com a idéia de concorrer novamente. Por quê? Porque eu tinha a impressão de que um segundo mandato, poderia ser apenas mais da mesma coisa. Teria falta de motivação se as coisas não fossem bem, e tudo que tínhamos conseguido fazer no primeiro mandato, não seria suficientemente bom para sustentar um segundo mandato. Eu ainda tinha muito vivo em minha mente os erros de Fernando Henrique Cardoso [Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor ], em seu segundo mandato. O fracasso dele ainda estava em minha mente.

Muito bem, em 2006, discutindo o segundo mandato, disse aos meus colegas que era necessário começar 2007 com um programa de investimento que iria nos ocupar completamente nos próximos quatro anos. E nós preparamos o PAC. O PAC é o programa de crescimento acelerado. O PAC iria ser lançado em 2006. Mas um dos meus conselheiros em comunicação aconselhou-me não lançá-lo em 2006, porque seria visto como parte da campanha de políticos durante as eleições, e que poderia perder a credibilidade com a população.

E os meus assessores disseram - "Você não precisa do programa de aceleração do crescimento para ganhar esta eleição" - as eleições presidenciais de 2006. Então, o PAC foi lançado somente após as eleições, e é isso que nós fizemos em 22 de janeiro de 2007. E o PAC foi uma das principais razões da crise ter chegado tarde ao Brasil e é uma das razões do Brasil ter saído da crise em primeiro lugar, porque para um país desenvolvido, US $ 300 bilhões de investimentos é nada, mas para um país do tamanho do Brasil que não estava acostumado a fazer tais investimentos, os investimentos públicos, um programa de investimentos do governo para quatro anos de US $ 300 bilhões, era um desafio extraordinário.

Então o que aconteceu realmente foi que, quando veio a crise, o Brasil já está fazendo muitos investimentos, coisa que outros países só começaram a discutir hoje. O Brasil já estava fazendo investimentos pesados. As coisas já estavam em curso e, em uma reunião com o meu Ministro da Fazenda, com o Presidente do Banco Central, com o Ministro do Planejamento, disse a eles, "temos agora de tratar a economia como se estivéssemos em guerra".

Não podíamos perder tempo em reuniões e ouvindo um monte de pessoas. As medidas anti-cíclicas tinham que ser implementadas imediatamente. E nós tivemos a participação do Congresso. Isso foi muito importante, porque todas as medidas, todos os projetos que nós mandamos para o Congresso para enfrentar a crise, o Congresso aprovou-los muito rapidamente. Mesmo a oposição passou nossas medidas muito rapidamente em uma demonstração clara de que todos estavam muito preocupados com os efeitos da crise no nosso país.

É importante lembrar que em 22 de dezembro de 2008, eu fiz algo que eu nunca imaginei que eu faria. Houve um grande pânico provocado pela imprensa e nos meios de comunicação sobre os E.U.A, o que estava acontecendo na Grã-Bretanha, na Europa, uma crise mundial, e toda a imprensa dizendo que o consumo iria cair. Então eu fui na TV nacional e fiz uma declaração, uma declaração de nove minutos para chamar o povo brasileiro a comprar mais, consumir mais de uma forma responsável. Havia uma idéia de que os trabalhadores não estavam comprando mais nada porque estavam com medo de perder seus empregos, e eles não conseguiriam pagar suas prestações, suas contas. Fui à televisão para dizer que era compreensível esse medo de perder o emprego, mas que eu tinha certeza que eles iriam perder seus empregos se não comprassem nada. Portanto, era necessário que, dentro do orçamento de cada um, deverámos comprar tudo o que nós esttvéssemos interessados em comprar.

Ao mesmo tempo concedemos incentivos fiscais para a indústria automobilística, para produtos de linha branca, geladeiras, máquinas de lavar, fogões e materiais de construção. E por último, mas não menos importante, anunciamos um programa de construção de um milhão de casas para a população de baixa renda, das quais metade são para a faixa de renda muito baixa, que é de zero a três salários mínimos. E nós colocamos R $ 100 bilhões, o equivalente a US $ 50 bilhões a mais ou menos, no banco de desenvolvimento nacional, um banco estatal, pelo que poderá financiar projetos de desenvolvimento.

Lançamos no mercado mais R $ 100 bilhões dos depósitos compulsórios que os bancos têm de manter no Banco Central, para abrir os fluxos de crédito. Fizemos os bancos públicos comprarem as carteiras de bancos pequenos usadas para financiar compras de carros usados e nós tomamos a iniciativa de comprar dois bancos importantes; a Caixa Econômica do Estado de São Paulo e 50 por cento do Banco Votorantim . Isso é um banco de direito privado.

Por que fazemos isso? Porque o mercado de carros usados ficou paralisado, completamente sem vendas. Se você não vender seu carro usado, você não compra um carro novo, e Banco do Brasil, que é um banco estatal, não tinha experiência neste domínio, no financiamento de veículos usados, assim, ao invés de ensinar o seu pessoal a aprender sobre financiamento de carros usados, compramos um banco que tinha grande experiência no mercado de carros usados; o governo comprou 50 por cento desse banco.

E hoje, graças a Deus, o mercado se normalizou e a indústria automobilística no Brasil é vende normalmente os carros novos.

E então, nós também enfrentamos um problema muito sério de venda de caminhões. Nós queríamos renovar a frota de caminhões no Brasil. E agora nós desenvolvemos um programa de financiamento para permitir que as pessoas possam comprar caminhões novos, em condições altamente vantajosas. Assim, o autônomo, motorista free-lance poderia comprar seu próprio caminhão.

Em julho do ano passado, lançamos um outro programa chamado Mais e Melhor Alimentação, e que financiou a compra de 60.000 tratores e 300.000 máquinas agrícolas para a agricultura familiar.

FT: Senhor Presidente, sobre a imagem que o senhor descreveu para um grande momento. O senhor disse que estava preocupado com o seu segundo mandato. Muitos financistas internacionais e dos mercados de Wall Street estavam preocupados antes e durante o seu primeiro mandato. Será que eles erraram a leitura? Que tipo de socialista o senhor é?

PL: Primeiro de tudo, eles erraram a leitura, mesmo. Se as pessoas tivessem lido minha biografia, perceberiam a forma sempre muito responsável que conduzimos nossa atividade junto ao  movimento sindical no Brasil, e se essas pessoas levassem em conta o fato de que tínhamos perdido três eleições anteriores, e que havíamos esperado por 12 anos, tempo suficiente para o partido amadurecer e para um candidato a amadurecer. E eu era o único candidato  no Brasil que não poderia falhar. Eu não podia me dar ao luxo de cometer erros. Eu não poderia proceder do mesmo modo que [Lech] Wałęsa fez na Polonia, ou nenhum trabalhador jamais seria eleito presidente novamente.Estávamos trabalhando com a idéia da necessidade do sucesso, para que outros trabalhadores pudessem ter os mesmos sonhos que tive, e eles também poderiam concorrer à presidência. Então, eu estava trabalhando obsessivamente com a convicção de que eu não podia cometer erros.

Assim, em nível internacional, acredito que eles fizeram uma análise sociológica às pressas. Eles me julgaram erradamente, a mim mesmo e o nosso partido além de subestimar nossas possibilidades. Os melhores intelectuais no Brasil estavam nos apoiando.Tínhamos ao nosso lado a maioria dos movimentos sociais. Tínhamos o apoio da maioria do movimento operário. Tínhamos uma grande parte da esquerda política no Brasil. Também tivemos ao nosso lado o que faltava para eu termos vencido as eleições anteriores, e que foi um grande empresário como meu vice-presidente; ter alguém da classe empresarial para ser meu vice-presidente, que era a maneira de conquistar os 20 por cento dos votos que faltaram em cada uma das eleiçõs anteriores.

Então eu trouxe para ser  vice-presidente uma pessoa que considero ser o melhor vice-presidente do mundo, um homem do mundo empresarial, que tem hoje a maior empresa têxtil no mundo. Ele é  vice-presidente e ajudou a quebrar tabus e preconceitos no mundo empresarial. Este foi um passo importante que só depois das eleições alguns setores empresariais começaram a compreender, e aqui eu quero dizer publicamente, que Gordon Brown era alguém muito importante, uma pessoa muito importante, porque através de todo esse tempo, ele confiava no Brasil e sempre falou bem do meu governo. E o diretor-gerente do FMI, eu me lembro de uma reunião em Paris, em 2003, quando eu estava conversando com [Horst] Köhler sobre o Brasil, sobre a minha vida. Isso foi quando eu tinha sido pouco menos de um mês no cargo. E, de repente, estávamos abraçados e nós estávamos a chorar.

FT: O quê, você Köhler?

PL: Sim, em Paris, 2003; janeiro de 2003. Então havia muita compreensão de alguns líderes internacionais, apoiando as nossas políticas, diferentemente de outros períodos. Todo mundo que veio nos visitar sabia dos esforços que nós estávamos emppreendendo, e em seguida, eles começaram a falar bem do Brasil ao redor do mundo. Assim, os mercados tornaram-se um pouco menos preconceituosos, e [Jacques] Chirac foi uma figura muito importante que me apoiou. Olha, eu estou falando sobre o direito do povo de direita.

FT: Você persuadiu [George W] Bush?

PL: Sim. Sou muito grato ao presidente Bush. Lembro muito bem como se fosse hoje. Em 10 de dezembro de 2002, antes da inauguração, fui a Casa Branca para falar com o presidente Bush. Bush estava falando sobre a guerra do Iraque, o futuro da guerra do Iraque , de uma forma muito obsessiva, dizendo que estava lutando contra o terrorismo ... Ele falou muito francamente. Após 40 minutos disse ao presidente Bush - "Presidente Bush, o Iraque é de 14.000 quilômetros de distância do meu país. Não tenho nada contra o Iraque, mas tenho uma outra guerra no Brasil. Essa é a guerra é para acabar com a fome no meu país. Esta é a minha prioridade. Assim, a partir daí em diante, nós estabelecemos uma amizade muito boa. Tornei-me um amigo de Bush.

FT: Senhor Presidente, quero fazer outra pergunta sobre a economia, mas muito brevemente, o senophr se referiu à sua formidável coligação que o ajudou a ganhar o seu primeiro mandato. Essa coligação que pode manter-se unida quando deixar o poder?

PL: Sim

FT: Por quê?

PL: Sim, e nós estamos sempre construindo esta coligação. Primeiro de tudo, porque sei que quem vai ser o futuro presidente não será capaz de mudar todas as conquistas que a sociedade brasileira veio a se beneficiar. Em segundo lugar, porque eu tenho um candidato muito bom, ela é muito competente, que conhece o Brasil muito bem. Muito poucas pessoas sabem o Brasil como ela faz, ela é o grande gerente do sucesso do nosso governo.

FT: Mas ela não tem o seu carisma, Senhor Presidente.

PL: Ela vai ter que construir. Uma coisa que eu acredito que é importante é que se eu conseguir eleger Dilma, o meu grande contribuição será para lhe permitir desenvolver seu próprio estilo, para desenvolver sua própria maneira de fazer as coisas.

FT: Alguma vez o senhor pensou em um terceiro mandato? E eu pergunto, porque eu só passei uma hora e meia com o presidente [Álvaro] Uribe.

PL: Eu comecei a entrevista dizendo que eu estava com medo do meu segundo mandato. Acredito que o sucessor que consegue isso através de uma eleição não tem o direito de pensar de um terceiro mandato, porque o sucessor, uma vez eleito tem direito apenas a um segundo mandato.

FT: Vamos voltar para a economia. É esse crescimento atual é sustentável? É demasiado dependente de commodities?

PL: Não, não é dependente de commodities. O crescimento é sustentável porque envolve diversos setores. Commodities sim, são importantes. O setor industrial é importante. As exportações são importantes. A indústria de construção naval e da indústria da construção são importantes. A indústria petroquímica é importante. Ou seja, nós tomamos a decisão de tornar o Brasil uma economia grande e verdadeira, e Deus ajudou-nos de duas formas, basicamente.

Em primeiro lugar, porque o mundo vai continuar a precisar de mais alimentos, e o Brasil tem todas as condições adequadas para produzir parte desse alimento. Em segundo lugar, porque descobrimos uma enorme reserva de petróleo, e nós não queremos usar o petróleo como tradicionalmente os países produtores de petróleo têm usado , para ser apenas meros exportadores de petróleo cru e petróleo cru não combina com o desenvolvimento nacional. Portanto, estamos desenvolvendo um fundo no escopo do novo marco regulador da indústria do petróleo só para cuidar especificamente ...

FT: Não há a preocupação do demasiado peso da mão do Estado?

PL: Não, não estou preocupado. Estamos desenvolvendo um fundo com o objetivo de investir em educação, ciência e tecnologia, saúde, cultura e meio ambiente. Estas são as prioridades. É um fundo que será investido nos mercados, e vamos repassar todos os investimentos que temos neste fundo. Nós não vamos gastar o dinheiro do fundo. Queremos ser exportadores de derivados de petróleo, e não exportadores de petróleo, porque nós queremos desenvolver uma forte indústria de petróleo e uma indústria naval forte também. Queremos construir nossas plataformas de perfuração, nossas próprias plataformas offshore, e os nossos próprios navios. E nós queremos desenvolver uma forte indústria petroquímica. Nós já estamos trabalhando nisso.

FT: Petrobras é uma empresa de classe mundial. Nós sabemos disso. Mas você vai precisar de alguma tecnologia estrangeira aqui.

PL: Sim, e nós queremos isso, e nós queremos compartilhar o nosso conhecimento com estrangeiros também, então é por isso que estamos fazendo todos os esforços para incentivar as empresas de petróleo em todo o mundo a desenvolver parcerias conosco na construção de estaleiros com docas secas, para que possamos construir coisas no Brasil.

FT: Muitas pessoas que criticam o seu governo, mas também existem pessoas que não são tão críticas, disseram que há uma pressão do Estado nesse sentido. Houve pressão sobre a Vale, por exemplo, para investir na produção de aço? Como vê a relação entre os setores público e privado no futuro governo?

PL: Eu acredito que, se você analisar as coisas corretamente, duvido que em qualquer momento da história do Brasil o setor privado tenha tido mais respeito por parte do Estado do que tem hoje. Duvido que eles não tenham aproveitado esse respeito, ou que já tenham ganho mais dinheiro. O que peço a Vale é que deve transformar minério de ferro em aço no Brasil e, ao mesmo tempo, comprar o maquinário e os navios que precisa no Brasil, porque é assim que você trazer a tecnologia para o país.
Agora, se você não fizer isso, o que acontece? Nós vamos vender o nosso minério de ferro para a China. China vai construir navios de grande porte. China produz 540 milhões de toneladas de aço, eo Brasil só fabrica 35milhões de toneladas de aço. E precisamos exportar material com valor agregado também.

FT: Senhor Presidente, o senhor é um patriota econômico, então? Ou você é um nacionalista econômico?

PL: Eu sou um patriota, um patriota econômico. Isso é um termo que eu gosto. Sim, gosto disso. Isso me agrada. Você tem que pensar sobre o futuro do país. O minério de ferro e petróleo, estas são coisas que funcionam para fora, por isso, se você não tiver cuidado, logo você esgotará a oferta, e ficará órfão. Então o que precisamos fazer? Temos que aproveitar este momento e construir uma base industrial mais sólida e no Brasil. Nós não estamos cometendo nenhum pecado. Nós queremos ser um país mais industrializado.

FT: Não é um pecado, mas as pessoas querem entender qual a forma de Estado não vai ser no futuro. Quão grande é o papel do Estado na determinação do futuro da economia do Brasil?

PL: A minha visão do Estado é que esta discussão sobre o estado ... na minha opinião, a discussão usual sobre o papel do estado terminou como resultado da crise global. Por um longo tempo, em todo o mundo, inclusive no Brasil, as pessoas disseram que o estado não tinha e os mercados governariam tudo. E no Brasil, você sabe, eles até pensaram que o mercado deve regular até mesmo a educação , o que é uma idéia absurda.
Então, primeiro de tudo, e quero deixar isto bem claro aqui, eu sou contra o Estado ser o gestor da economia. Eu sou contra essa idéia. O estado tem que ser forte, mas como um catalisador de desenvolvimento, uma entidade que impulsiona o desenvolvimento em nível regional no nosso país, e o estado ao mesmo tempo, deve exercer a supervisão das boas práticas, econômicas e políticas de boas práticas. E podemos dar-lhe um exemplo. Por que o sistema financeiro no Brasil não quebrou na crise? Porque ele é fortemente regulamentado.

FT: Porque lá o senhor não tem muitos loiros de olhos azuis...

PL: É importante esclarecer isso, porque quando eu falei sobre o cabelo loiro e os olhos azuis, quando a crise aumentou, eu estava reagindo aos comentários de pessoas que colocaram a culpa da crise sobre os migrantes e imigrantes. As pessoas pobres da África e do mundo vão ter de pagar a crise e que não foram eles que causaram. Então é por isso que eu disse, esta crise não é uma crise dos pobres, não é proveniente do pobre, ou latino-americanos, ou de africanos. Essa crise é proveniente dos ricos com os olhos azuis. E eu disse isso ao Gordon Brown em palácio, no Palácio do Presidente.

Você sabe o que fizemos no Brasil há dois meses? Legalizamos todas as pessoas que estavam em situação irregular no Brasil, todos eles, para dar uma demonstração clara aos países ricos que não temos de perseguir os pobres por causa de uma crise econômica da qual não são culpados.

Agora, por favor, preste atenção. Você pode imaginar que se todos os países ricos gastassem 10 por cento do dinheiro que eles gastaram na crise global para salvar o sistema financeiro em uma política de ajuda aos países mais pobres do mundo? Os países ricos dizem que não podem ter recursos para financiar a redução da pobreza nos países pobres. Mas, para salvar seus bancos, eles encontraram trilhões e trilhões. Se tivessem ajudado alguns países pobres, o mundo seria um lugar melhor. O dinheiro que eles não tinham para ajudar os países pobres, de repente apareceu. Trilhões e trilhões de dólares apareceram para salvar um sistema financeiro que havia sido quebrado de forma irresponsável.

Então, eu acredito que isso deve servir de aviso para nós. O Estado não pode controlar tudo ou intrometer-se em todos os assuntos, mas você não pode manter o estado longe de tudo, como era nos anos 80 e nos anos 90.

FT: Senhor Presidente me perdoe a brincadeira, mas eu gostaria de citar uma outra coisa que você disse, voltando para assuntos externos, o que eu pensei que era um pouco ideal, que é: o senhor disse que quando começou como sindicalista, se houvesse um problema no Brasil, você iria culpar o governo. Então, quando o senhor estava disputando a presidência como candidato da oposição, se houvesse um problema, o senhor culparia o governo. Mas então, quando o senhor se tornou presidente do Brasil, e houve um problema em seu país, o senhor culpou os Estados Unidos?

PL: Não, não vou para o inferno por esse pecado. Nunca transferi minhas responsabilidades para os outros. Quando eu era um líder trabalhista  colocava menos culpa no governo, porque era um líder dos metalúrgicos. Isso não teve nada a ver diretamente com o governo; era diretamente com a classe empresarial. Quando eu estava lutando contra o governo era porque eles não forneciam informações sobre as taxas de inflação. Eles ocultavam essa informação, ou mentiam, ou quando o governo proibiu as manifestações dos trabalhadores ou para chegar a um acordo. Eles iriam intervir na mesa de negociação. Mas a minha luta naqueles dias era contra os empregadores, e não contra o governo.

É verdade, sim, que todo mundo que está na oposição, põe a culpa no governo. É verdade. Eu fiz isso também. O meu partido fez isso também. Mas, por favor, eu nunca coloquei a culpa seja no imperialismo ianque, e menos ainda sobre os outros países ricos, porque a culpa, porque o Brasil é o que é, a culpa deve ser colocado na elite brasileira, a elite econômica e política. Esses são os únicos culpados. Pessoas que não têm uma mentalidade para pensar sobre questões sociais ... Eles não pensam  no país como um todo e, durante séculos eles eram ficaram subordinados a outros interesses, subservientes.

E tenho dito para muitos líderes, os líderes políticos da América Latina, parar de colocar a culpa nos outros. Olhar para dentro de seu país, o que acontece dentro de seu país. O que acontece com a classe política em seu país, olhar para eles. Como é que o setor empresarial se comporta em seu país? É muito fácil você transferir suas responsabilidades para outros, colocar a culpa nos outros.

FT: O senhor mantém boas relações com outros países da América Latina que seguem políticas diferentes das suas, e têm idéias diferentes das suas.

PL: Bem, eu carrego comigo uma lição que eu aprendi. Eu penso de quando o Presidente Nixon, em 1973, decidiu fazer da China um parceiro comercial preferencial. Eu acredito em convivência com a diversidade. Nós não temos o direito de pensar que outras pessoas devem pensar como nós. Temos de trabalhar muito e democracia permite-lhe ter relações pacíficas entre os diferentes países.

E olha como isso é extraordinário. Temos excelentes relações com a Colômbia e o Peru, temos excelentes relações com Venezuela e Bolívia. Porque eu faço isso? Porque para mim, as diferenças entre nós são muitas vezes históricas. Nós ainda temos muitos problemas que herdamos do século 19 na América Latina; fronteiras, questões de fronteiras terrestres questões, mar.

Então, qual é o papel de um país que é a maior economia, a maior da população e tem  muito mais tecnologia? Qual é o papel que o Brasil deveria ter? Não se trata de estabelecer uma política hegemônica vis-à-vis a outros países. Ou ele deve estabelecer uma relação democrática, para que as pessoas possam ver que não estamos interferindo ou com ingerência na política interna de sua soberania, na sua política soberana. Você não pode empurrar as pessoas em cantos. É muito importante para você entender que ... Eu sempre digo que o Brasil não deve trabalhar no sentido de hegemonia, mas apenas para a construção de parcerias, porque durante o século 20, ou pelo menos, dois terços do século 20, a Política Estadual de os E.U. foi no sentido de convencer países sul-americanos que o grande império era o Brasil.

Então olhe para este paradoxo. Empresários bolivianos tinham medo dos empresários brasileiros, mas eles não tinham medo dos empresários americanos. Empresários mexicanos tinham medo dos empresários brasileiros, mas eles não tinham medo dos empresários americanos. Chávez foi um professor da academia militar, e ele dizia isso publicamente em suas aulas, dizia que os militares venezuelanos devem estar muito alertas contra o império brasileiro. Na política você só aprende a teoria maquiavélica: dividir para conquistar. No Brasil, sob o meu governo, nós começamos a reconstruir a confiança na América do Sul, porque você não pode se desenvolver sem a confiança política. E graças a Deus, estamos conseguindo fazer isso.

FT: Os Brics são quatro os países com os seus próprios interesses divergentes. Você acha que é um grupo significativo?

PL: Sim, é. O maior exemplo que posso dar é a União Europeia. Parecia impossível há 30 anos para nós imaginar que a União Europeia seria  como hoje. Há quantos anos a França foi bombardeada pela Alemanha? Então, de repente, todos esses países estão juntos, e agora eles ainda decidiram eleger um Presidente da União Europeia e um ministro dos negócios estrangeiros. Isso é algo fantástico. Quem poderia imaginar que a Alemanha iria eleger uma mulher da Alemanha Oriental tornar-se chanceler da Alemanha?

Então, é para essas coisas positivas que temos de trabalhar. É como quando você encontra uma nova namorada. Se você olhar apenas defeitos e falhas, você vai conseguir nada. Mas se você olhar pelo lado positivo, pode acabar se casando. E na política, temos que saber existem divergências entre os Brics, e colocá-los de lado. Coloque as divergências de lado e começar a trabalhar sobre os pontos que podemos construir juntos, e é assim que vamos construir uma aliança forte entre os Brics.

Não se trata de exigir que alguém deve fazer concessões sobre as coisas que eles não acreditam. Queremos desenvolver objetivos que possam ser alcançados por todos. Deixe-me dar um exemplo.

Sugeri na reunião passada, dos BRICs, que foi em Yekaterinburg, que devemos começar a operar em nossas próprias moedas. Nós não precisamos do dólar. Podemos comérciar com a nossa própria moeda nacional. Isso iria ajudar sobretudo que as pequenas e médias empresas tenham acesso a moeda nacional e os bancos centrais fornecem a garantia. Qual é o problema? Não há problema. É apenas uma questão cultural, porque estamos acostumados com o dólar, mas isso pode mudar. E esta é uma mudança extraordinária para os países que têm de comprar dólares. Agora, nesta crise, tivemos que colocar nosso dinheiro de reservas para garantir os nossos exportadores devido à crise de crédito.

FT: Ninguém poderia imaginar...  Vocês estavam mesmo emprestando dinheiro ao FMI. Há uma ironia histórica.

PL: A ironia foi quando eu chamei de Rato o FMI e disse que eu não queria o dinheiro do FMI. Ele disse, não, nós precisamos de emprestar o dinheiro para o Brasil. O Brasil precisa de pedir emprestado. Brasil deve manter seus empréstimos com o FMI. É muito importante para mim, para mostrar que o Brasil ... Eu disse: não, eu não quero seu dinheiro. E ele estava realmente chateado quando recebeu de volta os US $ 16 bilhões que nós emprestou. E eu ainda trabalhei com a idéia de que vamos chegar ao final do meu mandato com uma taxa de inflação de 4 por cento. Não muito tempo atrás eu costumava sonhar de acumular US $ 100 bilhões em reservas cambiais. Em breve teremos $ 300 bilhões.

FT: Vamos falar sobre Copenhague. O Brasil está em uma posição incomum. Tem uma matriz energética limpa e pode reduzir as suas emissões de CO2 através da redução do desmatamento. Mas isso é muito difícil para os outros países emergentes? O que o Brasil pode oferecer em termos de liderança?

PL: O Brasil vai com muito cuidado e com grande responsabilidade para Copenhagen. Em primeiro lugar, já assumiu o compromisso, em setembro do ano passado na ONU, para se estabelecer uma meta, um alvo, para reduzir o desmatamento em 80 por cento até ao ano 2020. E o Brasil tem outras coisas que pretende fazer. Primeiro, porque 85 por cento da nossa energia elétrica é limpa. E de nossa matriz energética total, 47 por cento é limpa. Nenhum outro país tem tanta energia limpa. O Reino Unido tem somente 2 por cento de energia limpa.

Agora o Brasil compreende a realidade de cada país e o Brasil não vai fazer o discurso fácil de fazer exigências aos outros. Não, nós vamos mostrar em Copenhagen, qual é a meta para o Brasil e nós não queremos nos subordinar os outros países a adotar a meta brasileira.

Objetivos no Brasil são objetivos do Brasil, mas vamos trabalhar para que possamos construir um acordo que poderia ser viável para outros países.

Creio que algo importante já está ocorrendo. Todo mundo percebe que todos nós temos que fazer algo. E eu acredito que com todos fazendo um pouco de sua parte, podemos evitar a morte do planeta. Temos um processo de aquecimento de 2 graus nos últimos 30 anos. Nós estamos tentando trabalhar com a idéia, juntamente com outros países e, certamente, a minha conversa com o primeiro-ministro Gordon Brown noite será na questão ambiental. Nós já conversamos com os E.U.A. , com a França e com a Alemanha. Em 26 de novembro, vamos ter uma reunião com os países amazônicos, em Manaus, a capital do Amazonas. Já temos o mapeamento do zoneamento agro-ecológico da cana para a floresta, e agora nós estamos fazendo um levantamento de como podemos recuperar as terras degradadas no Brasil, e nós estamos fortalecendo nossa política de bio-diesel. Acabamos de aprovar para 1 de janeiro o diesel B5. Para o próximo ano vamos ter uma mistura de 5 por cento de biodiesel no óleo diesel.

FT: O que você vai pedir de Gordon Brown?

PL: O Brasil não está pedindo nada.

FT: E o que Gordon Brown vai pedir ao Brasil?

PL: O Reino Unido sempre foi e continuará a ser um parceiro internacional. Eu acredito que o Reino Unido deve trabalhar com a idéia da Europa para avançar um pouco mais, inclusive em termos de bio-diesel no óleo diesel e também em termos de redução do aquecimento global. Deverá haver um fundo para financiar os países mais pobres. A UE irá desenvolver um trabalho extraordinário de seqüestro, seqüestro de carbono.

FT: Teria que ser como o Fundo Amazônia do Brasil?

PL: Pode ser algo semelhante para o Fundo Amazônia. Estamos indo para ir à reunião com a mente aberta, de modo que outras propostas poderiam ser benvindas. Acho que não é hora de radicalizar. O bom senso deve prevalecer. Se queremos apenas fazer um discurso ideológico, um discurso fácil, nós poderíamos obter alguns aplausos, mas não vamos obter nenhum resultado. E agora não é o momento de colocar a culpa em ninguém. Agora é a hora de encontrar uma saída.

FT: Senhor Presidente, muito obrigado.

(Foto: Agência Folha)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Resenha Literária - "Woodstock"

O final de semana foi bastante profícuo em termos de leitura. Consegui ler três livros e iniciar um quarto.

Começo por este "Woodstock", do jornalista Pete Frontale. A partir do depoimento de quem fez o festival, ele traça um interessante painel sobre o que foram os três (quase quatro) dias de "paz e amor" do festival de Woodstock, em agosto de 1969.

Basicamente o autor (que esteve no festival) organiza o livro na ordem cronológica dos dias e dos shows. Vai contando ótimas histórias de bastidores do festival e de sua organização enquanto faz um relato bastante fiel de cada apresentação.

Aliás, lendo o livro é inacreditável que tenha dado tudo certo. A estrutura montada era para, no máximo, 50 mil pessoas. Apareceram 500 mil. Não houve conferência dos ingressos vendidos e muita gente assistiu ao festival de graça. Derrubaram as cercas que delimitavam o local do evento.

Por outro lado, o clima de "paz e amor" estava bem presente no evento. Não houve registros de grandes brigas em Woodstock, apesar das drogas, do frio e, em certos momentos, da falta de alimentos disponíveis.

É uma boa fotografia do momento "romântico" que vivia o mundo e a cultura. O esquema para a montagem do festival era absolutamente amador - para o bem e para o mal.

Um bom exemplo disso é a ordem de apresentação: chegou-se ao cúmulo de se colocar no palco um artista que não estava escalado, sem contrato, sem absolutamente nada, para cobrir um "buraco" na grade. A absoluta indisponibilidade de se chegar ao local do evento (uma fazenda em Bethel, estado de Nova York) fez com se abrissem lacunas nas apresentações.

Outro fator complicador foi a chuva. Sem o isolamento elétrico necessário, vários artistas levaram grandes choques no palco. E a fazenda onde se realizou o festival se tornou um lamaçal.

Entretanto, o festival marcou grandes shows. E a revelação de uma grande estrela, o guitarrista Carlos Santana, que era praticamente desconhecido e só entrou na escalação como 'contrapeso' de um outro artista. Seu show em Woodstock lançou-o ao estrelato.

O autor relata cada show, cada artista e as suas histórias de carreira. Por curiosidade, os maiores cachês foram de US$ 10 mil à época. Mesmo com a inflação, é uma ninharia levando-se em conta os valores que são pagos nos dias de hoje para apresentações equivalentes.

Outra boa faceta do livro é dar ao festival a sua merecida importância na história da cultura de massa.


Excelente leitura, ainda mais se complementada com outro livro que resenharei ainda esta semana. Tão bom que me despertou a vontade de comprar o documentário oficial do festival, mencionado diversas vezes no exemplar - o que já o fiz.

Samba de Terça - "Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar"

Nossa coluna "Samba de Terça", no dia de hoje, irá falar de um dos carnavais do início da carreira do atual campeão do carnaval: Renato Lage.

Ele estreou como carnavalesco solo em 1980, trazendo a Unidos da Tijuca para o Grupo 1A (atual Grupo Especial) com um enredo sobre Delmiro Gouveia, industrial que resistiu aos coronéis alagoanos do início do Século XX.

Para 1981, objeto de nosso texto, Renato Lage trouxe para a reestréia da Unidos da Tijuca entre as principais escolas de samba o enredo "Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar". Baseado no livro de Manoel Cavalcanti Proença "Manuscrito Holandês", o enredo conta a história do herói Mitavaí contra o malvado Macobeba.


"O Manuscrito Holandês se aproxima de uma epopéia por apresentar um herói que enfrenta obstáculos sobrenaturais. Porém, este herói não o faz em nome de uma nação e sim em nome de um amor. A imagem de herói de Mitavai fora criada por interesses políticos e econômicos e por esses mesmos interesses essa imagem foi denegrida. Se Mitavaí foi herói, este reconhecimento verdadeiro ele só teve por parte da natureza, de quem ele recebera amizade verdadeira e desinteressada. Quando o caboclo adentra a cidade, é manipulado pela astucia dos poderosos. Mitavaí é um herói de gestos e palavras simples a quem o povo caboclo admira."

Naqueles tempos de pré-abertura política, o enredo pode ser visto como a luta do povo oprimido, mas forte, contra a opressão política e o poder do dinheiro que já então reinava. Era uma metáfora da situação da época.

Macobeba era o dinheiro, o poder, a força que oprimia o povo mas não o vencia. Mitavaí era a representação deste povo represado desde 1964, mas que não poderia contido ser por muito mais tempo.

Eram tempos alegóricos, liberdade vigiada.

O samba soube traduzir bem este espírito e navega entre o livro e a situação nacional com grande desenvoltura, permitindo-se, ainda, um trocadilho no refrão final - que pode ser cantado com um palavrão no último verso.

Como campeã do Grupo 1B (atual Acesso A), a Unidos da Tijuca abriu o desfile do domingo de carnaval, primeiro de março de 1981. Trazia como novidades a estréia do puxador Sobrinho como intérprete oficial e o depois afamado Laíla na direção de Harmonia. A passarela de desfiles já era a atual Marquês de Sapucaí, com arquibancadas desmontáveis.

A escola fez um valente desfile e conquistou o oitavo lugar na apuração com 131 pontos, cumprindo o seu objetivo de permanecer no grupo principal. Eram tempos onde não se rebaixavam automaticamente as escolas que vinham do grupo de Acesso...

Vamos à letra do samba, que pode ser ouvido, em sua versão original, aqui:

Autores:
Celso Trindade, Negâ, Azeitona, Ronaldo, Ivar, Buquinha e Edmundo Araujo Santos

"É tão sublime exaltar
Neste dia de folia
(E cantar) a odisséia de um valente brasileiro
Contra o monstro estrangeiro
Que com todo o seu dinheiro
Quer calar a nossa voz (e o nosso herói)
E o nosso herói sai no rastro da maldade
Pelos campos e cidades
Atrás do gafanhoto feroz

Tetaci, Tetaci, agasalha com seu manto
O nosso herói Mitavaí

Mitavaí, bom lavrador e vaqueiro
Deixa o sertão brasileiro
Vai combater Macobeba Maldita
Que devora o mato e o mito
Rádio, jornal e TV
Lança e com certeiro bote
Fere o monstro no cangote, pra valer !
E ferido assim de morte
Bicho ruim não quer morrer
E o caboclo injuriado
Toma o caminho do mar
Jurando que um dia vai voltar
Tira daqui, leva pra lá
O que hoje dá pra rir
Amanhã dá pra chorar

Maldito bicho
Se me ouviu
E não gostou do meu samba
Vai pra longe do Brasil"

Abaixo, o leitor pode ver um vídeo com parte do desfile da escola.



Semana que vem, iremos brincar de roda: "Parece até que foi ontem", Unidos de Vila Isabel 1985. Até lá.

20 Anos sem o Muro de Berlim

Ontem, 09 de novembro, completaram-se 20 anos da queda do muro de Berlin.

Este foi o marco simbólico de uma série de transformações: a reunificação da Alemanha, o fim do socialismo planificado, a afirmação do liberalismo como doutrina econômica (naquele momento), a desintegração da URSS e o ressurgimento do nacionalismo naquela região da Europa.

Comete um erro quem afirma que houve a queda do socialismo. O modelo soviético e das repúblicas do leste europeu poderia ser definido muito mais como um "capitalismo de estado" do que propriamente um modelo "socialista".

A organização da produção seguia exatamente o modelo capitalista, só que o único dono dos meios de produção era o Estado. Obviamente, a própria ineficiência e o peso da burocracia acabaram por inviabilizar o sistema.

Mesmo em termos de implantação da democracia representativa, não se pode dizer que houve a disseminação deste modelo por todos os países. Basta ver a questão da Rússia, que hoje é uma ditadura tão ou mais cruel quanto ao tempo soviético. Talvez com a desvantagem do banditismo extremado.

O modelo capitalista implantado de forma desordenada nos países do Leste Europeu levou a extrema concentração de renda, pobreza absoluta, queda do padrão de vida da população e a apropriação do Estado por interesses privados. A privatização ocorrida nestes países foi uma das maiores transferências de renda para o setor privado ocorridas na história mundial.

Um bom exemplo desta questão é observar o que ocorreu com a indústria de petróleo na Rússia.

Em termos sociais deve-se relativizar a questão da liberdade, porque foi 'compensada' pela opressão trazida pela dramática deterioração das condições econômicas do povo. Hoje, vinte anos depois, já há países com melhora em sua situação social, mas sem dúvida houve um "preço social" bastante elevado a ser pago.

Contudo, embora o marketing da queda do muro tenha sido no sentido da vitória do capitalismo liberal, foi muito mais fadiga do modelo ineficiente adotado que opção pelo ultra-liberalismo. Este gerou apoenas um mundo mais desigual e mais individualista, onde o egoísmo é a base da sociedade e de sua convivência.

Sem dúvida alguma, a Alemanha foi vencedora, por retomar seu curso histórico enquanto nação. Sob este aspecto, a queda do muro foi altamente salutar.

Portanto, o Muro de Berlim possuiu um significado de simbolismo para mudanças que estavam já em curso. O gesto em si apenas acelerou o curso das transformações em andamento.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Humor Negro

Final de semana de sol e praia, dia de trabalho bem complicado hoje.

Queria falar um pouco de humor negro.

Uma das coisas que mais admiro no ser humano é a capacidade de rir das desgraças que nos acometem. E o humor negro, quando feito com inteligência, é bastante agradável.

Faço este preâmbulo para dizer que na vida nem tudo é euforia por um lado, nem tristeza desmedida de outro. Rir nestes momentos ajuda a nos manter equilibrados e serenos.

Como já escrevi aqui antes, gosto muito da "Turma do Penadinho", da Turma da Mônica. É uma forma mais "séria" de humor, com grandes sacadas em seus textos.

Reproduzo abaixo historinha publicada na "Revista da Magali" que está nas bancas. Absolutamente genial. Mas não se esqueçam de comprar a revistinha.

Aliás, um dia retomarei o assunto "morte" por aqui. Deixa eu ter um pouco mais de tempo.

Boas risadas.












domingo, 8 de novembro de 2009

Reacender a chama - já !


Domingo, dia de publicar bons textos aqui no Ouro de Tolo.

Hoje, coloco aqui texto do amigo Rodrigo Mattar, jornalista do Sportv e dono do blog "A Mil Por Hora", um dos nossos favoritos. O belo texto faz uma análise do momento da Fórmula 1 e das mudanças que levaram ao quadro atual.

Acrescento ao texto uma idéia: de que, como parceiras, as montadores são bem vindas - como nos Anos 80. Não como donas do negócio.

A foto é da Tyrrell P-34, de 1977, um dos projetos de seis rodas e que, inclusive, obteve vitórias na categoria.

Vamos ao texto, publicado originalmente sexta feira no "A Mil por Hora":

"Boa tarde leitores e leitoras. Após uma manhã na rua, fritando num calor senegalesco, agora o blogueiro desfruta das delícias do ar condicionado da redação do Sportv, convidando todos vocês pra uma reflexão sobre o momento que passa a Fórmula 1. Especialmente após a saída da Toyota e dos crescentes rumores de que a Renault pode seguir o mesmo caminho até o fim do ano de 2010.

Tudo isso que a categoria viveu, este processo de quatro escuderias caindo fora num espaço inferior a dois anos, sendo três montadoras - Honda, BMW e Toyota - além de um “time B”, a Super Aguri, deve ser imputado às mazelas da administração de Max Mosley à frente da FIA, deixando um senhor abacaxi para seu sucessor - Jean Todt, eleito com o apoio do britânico - descascar.

É bom lembrar que no início dos anos 90, assim que assumiu a entidade, ele e Bernie Ecclestone tentaram fortalecer a Fórmula 1 dando um tiro fatal no Grupo C. O antigo Mundial de Esporte Protótipos, com seus carros potentes e sensacionais, foi assassinado pela FIA quando o regulamento daquele campeonato foi equiparado à F-1, numa tentativa de fazer montadoras como Mercedes-Benz, Toyota e Peugeot se bandearem para o outro lado.

A Sauber, com apoio dos alemães, foi a primeira a chegar em 1993, um ano antes da Peugeot. A Toyota entrou em 2002, mas passou um ano inteiro fazendo treinos com um carro-laboratório. Todas as três investiram pesadas somas e só a Mercedes sobrevive na categoria.

Nessa mesma época, meados dos anos 90, a FIA aumentou de forma cruel a caução que as equipes tinham de pagar para se inscrever a cada temporada, limitando também a “franquia” para 12 equipes e 24 carros. Os valores saltaram de US$ 300 mil para absurdos US$ 48 milhões - três vezes mais, por exemplo, do que gastavam Forti Corse, Lola e Minardi na época. A arrogância deu certo, porque espantou os times menores. Alguns tiveram morte natural e outros sucumbiram ao dinheiro, feito a Tyrrell, comprada pela British American Tobacco.

Um por um, saíram de cena os “garagistas”, como Giancarlo Minardi, Ken Tyrrell, Gérard Larrousse, Guy Ligier, Beppe Lucchini, Keith Wiggins, Jackie Oliver e Eddie Jordan - só pra citar os que a memória ainda recorda. Até Paul Stoddart pode ser incluído no rol: ele detinha a propriedade da Minardi e a vendeu para Dietrich Mateschitz, da Toro Rosso, em sociedade com Gerhard Berger.

Em meio à sanha das montadoras, sobraram apenas três nomes com passado 100% ligado ao automobilismo: a Ferrari, embora seja de propriedade da Fiat desde 1973, é fruto da paixão sem limites de Enzo Ferrari, o lendário Commendatore morto em 88. Os outros dois são Ron Dennis e Frank Williams. E hoje, apenas Frank carrega solitário a bandeira dos garagistas.

Mas é bom saber que em 2010 ele talvez não esteja só. Com a vinda de equipes feito a Campos, por exemplo, resgata-se a ideia da velha e boa Fórmula 1 dos anos 70, onde com exceção de Matra, BRM, Ferrari e depois da Alfa Romeo, bastava às equipes - predominantemente inglesas - construir seus carros com motores Ford Cosworth e caixa de câmbio Hewland.

Saíam receitas vencedoras. Projetos fracassados, também. Mas foi assim que conhecemos gente como Morris Nunn, Teddy Yip, John Surtees, Ron Tauranac, Tony Southgate, Lord Alexander Hesketh, Harvey Postlethwaite, Maurice Philippe, David Baldwin, Ralph Bellamy, Mike Pilbeam, Günther Schmidt, Gustav Brunner, Rory Byrne, Brian Hart, Ted Toleman e outros com os quais tomamos intimidade com o passar dos anos.

Este texto pode parecer - e é - saudosista. Sei que os tempos são outros, que sem dinheiro na Fórmula 1 nada funciona. Mas um componente que nenhuma montadora vai ter, especialmente pelo automobilismo, uma vez que investir no esporte é nada mais do que pura e simplesmente business, essa turma garagista tinha de sobra.

Paixão.

É preciso reacender - já - essa chama. Senão mais uma vez poderemos ver a Fórmula 1 refém de sua própria sorte no futuro e deixando pilotos de grande talento, como o japonês Kamui Kobayashi, na rua da amargura."

sábado, 7 de novembro de 2009

A economia gay

Domingo passado realizou-se aqui no Rio de Janeiro, em Copacabana, a última edição da Parada Gay carioca.

Hoje já é o terceiro maior evento da cidade, atrás apenas do carnaval e do reveillon.

Não irei debater aqui questões polêmicas nem dizer se é certo ou errado, etecetera e tal. Diria, para não ficar em cima do muro, que não temos direito de julgar a postura alheia e discriminar ou diferençar por causa disso. O artigo quinto da Constituição é bem claro.

Quero falar um pouquinho do impacto econômico não somente da Parada Gay como do próprio fenômeno da homossexualidade e sua implicação econômica.

Normalmente, o homossexual típico é bem sucedido profissionalmente, mora sozinho e, no caso de casais, em média não possui filhos. Ou seja, ele possui um potencial de consumo, em média, maior que o de casais heterossexuais com a mesma faixa de renda.

O que ocorre ? Há uma maior disponibilidade para viagens neste grupo populacional. Primeiro pela maior renda disponível e, segundo, por não haver tantos empecilhos a impedir viagens. Viajam muito e, o mais importante: com grana para gastar.

Partindo-se desta base, vemos como é importante receber bem este tipo de turista.

A cidade do Rio de Janeiro foi eleita "o melhor destino gay do mundo" por um órgão especializado. Partindo disso, deveria-se ampliar uma série de entretenimentos e serviços direcionados, de maneira a atrair o turista e retê-lo para outras ocasiões.

O turista bem atendido sempre volta, ainda mais atendido com respeito e sendo introduzido em um ambiente de naturalidade. O retorno para a cidade é um gasto médio superior ao turismo heterossexual, com a vantagem de ser um filão ainda muito pouco explorado - por puro preconceito. Há pesquisas que demonstram esta diferença de dispêndio médio por dia.

Além disso, eventos como a Parada propiciam mais uma data atrativa à cidade e favorecem todo o setor econômico ligado à organização do evento. Movimenta e impulsiona a economia.

Entretanto, não podemos pensar nesta categoria apenas "com os olhos dos cifrões". Despir-nos do preconceito, estabelecer uma relação de confiança e aceitação e prover serviços e lazer adequados às suas especificidades são condições indispensáveis para que a cidade possa lucrar com este tipo de visitante.

Com estas condições atendidas - e minha percepção, olhando de fora, é de que ainda há um caminho a se percorrer nesta direção - a cidade terá totais condições de lucrar bastante, gerando divisas, empregos e renda.

Que seja bem vindo o turista gay.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Final de Semana - "Love of My Life"



Lá se vão quase 25 anos, mas acho que eu nunca me esqueci de uma das maiores performances de palco que eu já vi na minha vida: Rock in Rio I, Janeiro de 1985.

O show do Queen acabou se tornando histórico exatamente por este fator. O domínio de público mostrado pelo vocalista Freddie Mercury - falecido precocemente, de AIDS, em 1991. O vídeo que coloco acima mostra bem isso.

Eu, que era um garoto de dez anos, fiquei muito impressionado com a performance histórica do grupo. Virei fã.

A música não poderia ser outra: "Love of my life". Observem o coro das 200 mil pessoas que acompanhavam o show na Cidade do Rock.

Uma combinação perfeita: um grande show, uma grande música, amor está no ar. Gente, música e amor são um bom começo para um final de semana.

Vamos à letra. Vai em inglês mesmo, que estou bastante enrolado.

Love Of My Life
Queen
Composição: Freddie Mercury


Love of my life, you've hurt me
You've broken my heart, now you leave me.
Love of my life can't you see,

Bring it back bring it back,
Don't take it away from me,
Because you don't know
What it means to me.

Love of my life don't leave me,
You've taken my love, you now desert me,
Love of my life can't you see,

Bring it back bring it back,
Don't take it away from me,
Because you don't know
What it means to me.

You will remember
When this is blown over,
And everythings all by the way,
When I grow older,
I will be there at your side,
To remind you how I still love you
I still love you.

Back hurry back
Please bring it back home to me
Because you don't know
What it means to me
Love of my life
Love of my life
Yeah

Obra do Metrô


A foto não está muito boa porque foi tirada meio no susto - sempre tem um Guarda Municipal pronto a multar na Leopoldina - e não sei porque cargas d´água o aplicativo de "zoom" da câmera do meu celular não está funcionando.

Mas faço o registro do desafio que é a construção do viaduto que ligará a Linha 2 direto a Botafogo. Pode-se ver as vigas de concreto (branco) caminhando para se encontrarem. Ali ainda estrará a sustentação do viaduto e, obviamente, os trilhos do metrô.

Percebam, também, o céu extremamente azul ao fundo. A foto foi tirada por volta de oito e meia da manhã.

Acho salutar qualquer solução que vise a desafogar o trânsito na cidade e aumente a capacidade e a disponibilidade de transporte de massa. Ainda mais se permitir a diminuição da dependência da cidade do transporte rodoviário, via ônibus, e seu conhecido poder de lobby.

Cinecasulofilia - "Partir"

Terça é dia de "Samba de Terça" e, sexta, residência de nossa coluna sobre cinema - publicada em parceria com o excelente blog Cinecasulofilia.

Sem muitas delongas, passemos ao texto, como de hábito assinado pelo crítico e cineasta Marcelo Ikeda.

Partir
de Catherine Corsini

Há algo de doce no argumento de Partir, da diretora francesa Catherine Corsini: uma mulher rica, cansada da vida fútil com o marido, resolve largar tudo para viver com um pedreiro espanhol. Essa mudança radical nos lembra tanto um filme quanto Amantes, de James Gray, quanto mesmo de Gertrud, a obra definitiva de Carl Dreyer. No argumento, há uma tensão entre diferentes classes sociais e mesmo étnicas. O filme claramente aponta para uma crise, já que a confortável vida burguesa da protagonista não a satisfaz, e ela deixa tudo “pelo amor”. Mas, claro, o sistema, representado pelo marido da protagonista fará de tudo para restabelecer a ”ordem”, e em seguida, o filme irá desvelar seu verdadeiro objetivo: o de ser um thriller de perseguição, o de apontar para o preço pago pela protagonista, ou ainda, um filme sobre a opressão. Catherine Corsini não é Dreyer ou Gray: ela dirige tudo com mão dura, como uma “diretora alemã”. Nada pode ficar nos meios tons ou na penumbra: existe uma preocupação da diretora em desenvolver a narrativa de forma clara e fazer o espectador mergulhar nos instrumentos da opressão. Não existe uma sutileza, uma descoberta pelo feminino que não seja preenchido pelo desejo do filme de seguir um plot com blocos duros que tornam esse movimento da protagonista um mero joguete de representações sociais já dadas pela diretora. Dessa forma, todo o desenvolvimento de Partir é óbvio: é um filme que denunciando o totalitarismo, é absolutamente totalitário, como o seu final (desesperado, exagerado) comprova. Falando aparentemente de uma sutileza, Corsini realiza um filme descabidamente autoritário. Por fim, Kristin Scott Thomas tenta salvar o filme do desastre com uma atuação convincente, com uma postura de contenção, típica dos seus trabalhos, mas a limitação do material a impede de alcançar passos mais largos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FHC, o morto-vivo

A imprensa 'psdebista' brasileira publicou com grande estardalhaço um artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso onde ele chama o governo Lula de "neoperonista" e defende o modelo mercado-americanófilo.

Vamos relembrar um pouco o que foi o Governo Fernando Henrique Cardoso.

Eleito sob a esteira do Plano Real e reeleito sob o câmbio apreciado - o país quebraria dias após a eleição - seu governo foi marcado pela aplicação das teses do chamado "Consenso de Washington", conjunto de dez teses ideológicas revestidas de viés econômico:

1) Disciplina fiscal
2) Redução dos gastos públicos
3) Reforma tributária
4) Juros de mercado
5) Câmbio de mercado
6) Abertura comercial
7) Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições
8) Privatização das estatais
9) Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas)
10) Direito à propriedade intelectual


Destes dez preceitos, diria que sete foram cumpridos na íntegra, um parcialmente (privatização) e dois não foram aplicados (reforma tributária e direito à propriedade intelectual).

Além disso, esmagou o sindicalismo - a ponto de o funcionalismo público e categorias como os petroleiros terem ficado os oito anos do mandato sem um único reajuste salarial - e se utilizou das privatizações para privilegiar grupos e gerar uma nova casta empresarial.

Sua política social pode ser resumida na clássica frase "a questão social é caso de polícia". O desemprego e a concentração de renda atingiram níveis alarmantes. Em 2002, no último ano de mandato, o desemprego bateu recorde histórico e a inflação estava em cerca de 20% ao ano. A economia não crescia mais que 1% ao ano e as taxas de juros estavam em níveis catastróficos - destruindo emprego e renda.

Empenhou-se em destruir a Petrobras e sucatear o serviço público. Ignorou Educação e Saúde. Mesmo a tão elogiada gestão de Serra à frente deste último ministério primou mais pela pirotecnia que pelo atendimento básico e universal.

Na política externa, notabilizou-se pela total subserviência aos Estados Unidos e o apoio à ALCA, que fatalmente destruiria a indústria nacional a médio prazo e nos tornaria uma grande Guatamela ou Honduras.

Pois bem. É este cidadão, que não se elege nem vereador em Itaboraí, que se arroga o papel de "farol iluminado brasileiro" e escreve artigos dizendo o que o governo deve ou não fazer. Ora, se quer fazer isso, dispute e ganhe as eleições !

Na verdade, a reação e os artigos deste senhor são a resposta conservadora à nova política que está aí. Repugna a idéia de que aqueles fora da elite possam viver dignamente sem mendigar migalhas junto aos donos do poder.

A cada dia, a cada minuto, mais ele guina suas posições na direção da defesa de políticas excludentes e que representem o Estado a serviço de uns poucos. Não sou crédulo a afirmar que isto não existe hoje, mas pelo menos os mais desassistidos hoje possuem condição de ter um emprego.

Na comparação de indicadores, não há um único ítem onde os Anos FHC levem vantagem.

Pois é. Ao invés de estar aposentado e cuidando do filho menor de idade que tem, FHC se arvora a porta-voz do que temos de mais retrógrado em política.

Só que suas palavras, emitidas como o último Santo Graal, somente encontram ressonância na imprensa cada vez mais conservadora do país. Nem mesmo os próceres tucanos querem ver a sua imagem atrelada a do ex-presidente, pois bem sabem que este é o "beijo da morte".

FHC, o morto-vivo. Lamentável é ainda darem importância a figura tão nociva aos interesses nacionais. Aliás, chega a ser engraçado vê-lo chamando o Brasil de hoje de "república sindicalista" se lembrarmos que seus tempos tiveram a marca indelével do ódio ao trabalhador.

Se formar um mercado interno e aumentar o poder de compra do trabalhador - que irá consumir e, consequentemente, tornar mais próspera a indústria e os capitalistas - é ser partidário de uma "república sindicalista", então eu preciso rasgar o meu diploma.

Velha ordem, velhas políticas, velha história. Daqui a pouco o veremos defendendo os incêndios nas favelas como política social - de preferência, com os moradores dentro.

Resenha Literária - "Zé Cabala e outros filósofos do futebol"

Ainda como resultado da ida a São Paulo, faltava a resenha do segundo livro que concluí a leitura: "Zé Cabala e e Outros Filósofos do Futebol", de José Roberto Torero, escritor e, nas horas vagas, cronista esportivo.

O livro é uma série de crônicas sobre futebol, uma vez mais. Entretanto, o ângulo é diferente do outro livro do mesmo autor que resenhei, "Os cabeças de bagre também merecem o paraíso".

Este livro é uma série de crônicas do autor, também publicadas originalmente em jornais, onde ele cria um personagem fictício - "Zé Cabala" - que conversa com os espíritos de jogadores do passado e já falecidos.

Outra parte do livro são textos onde é feita a adaptação de grandes filósofos da história e sua atuação se técnicos de futebol fossem. Bastante interessante.

Leitura leve, que entrete e que trata o futebol sob ângulos que muitas vezes em nossas paixões não observamos. O texto irônico e reflexivo de José Roberto Torero faz pensar, muitas vezes, no componente absurdo que envolve este esporte e na maioria das situações não nos damos conta.

O livro é inferior ao outro resenhado do mesmo escritor, mas ainda assim recomendo fortemente. No Submarino está custando R$ 31,90. Você nem percebe que o livro acabou de tão prazeirosa é a leitura.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

35 Anos


35 anos.

Como escrevi no tópico sobre aniversários, já estive mais animado com esta data. Talvez a correria do dia a dia tenha deixado um pouco de lado a ansiedade.

Entretanto, se eu for parar para pensar no caminho que percorri até aqui, só tenho a agradecer a Deus pelo que tenho hoje.

Por outro lado, acho que jamais imaginaria a chegar aos meus 35 anos no estágio em que estou. Tenho muito o que agradecer, porque alcancei acho que muito mais do que se esperaria de mim quando era criança.

Sempre lutei muito para alcançar meus objetivos. Sob este prisma, não tenho do que me queixar.

Por outro lado, obviamente não conquistei alguns de meus sonhos. Uns ainda são perfeitamente possíveis; outros, creio que pertencem ao passado inatingível. Entretanto, aprendi que temos, sempre, de agradecer pelo que temos, pelo que nos é permitido conquistar; que nossa força é muito maior que nosso próprio pensar.

Procuro levar uma vida sempre tentando progredir e esmerando-me para ser útil a Deus. Isso é o que importa. Pequenos prazeres aqui e ali, a companhia da família e dos bons amigos. Pesando na balança, não tenho muito do que me queixar.

Entretanto, não tenho como ficar parado: ainda tenho muito para conquistar. Para o alto e avante ! E que venham mais 35 anos, e mais 35, e mais 35...

P.S. - Relendo o texto, ele ficou parecendo até livro de auto ajuda. Que coisa horrorosa...

30 Anos de Maraca



Sim, é verdade que hoje eu completo 35 anos de vida. Entretanto, queria falar de uma data ainda mais importante: exatamente hoje eu completo 30 anos de Maracanã.

Meu primeiro jogo foi exatamente o do vídeo acima: Flamengo zero, Botafogo zero. Foi a partida do tricampeonato estadual daquele ano.

Minhas lembranças são esparsas. Lembro-me de que fiquei um bom tempo sobre os ombros do meu pai, e a imagem que tinha era a de um jogo bastante movimentado. Curiosamente, relendo anos atrás jornais da época, descobri que foi uma peleja até chata.

Também recordo-me da festa ao final da partida com o tricampeonato estadual.

Naqueles tempos, ao contrário de hoje, criança não pagava nas arquibancadas - hoje somente nas cadeiras azuis. Entretanto, o ingresso era bem mais barato.

Nestas três décadas, obviamente houve anos em que estive mais presente e outros, nem tanto. Entretanto, mesmo nas piores fases de grana jamais deixei de estar presente a pelo menos uma partida por temporada.

Acho que poucas sensações superam adentrar a rampa do estádio e ver o campo lá embaixo. Ou então acompanhar o canto da torcida rubro-negra em seu frenesi apaixonado de calor.

Vi o melhor time da história (1981) e o pior (2005). Aliás, neste último ano, vi quase todas as partidas jogadas na Arena da Ilha. Tinha de ter estômago... Assisti a títulos consagradores e vergonhas inolvidáveis.

Fui testemunha ocular de grandes momentos e, também, grandes tristezas. Entretanto, nada apagou a chama de paixão pelo meu time.

Durante muitos anos assisti de arquibancada por causa da emoção de estar junto à torcida e ao calor do canto. Ir ao estádio e voltar com voz é sinal de que você não se esforçou suficientemente para ver seu time vencer. Cada voz, cada garganta, faz parte do décimo segundo jogador, é flama que incendeia e transforma o perna de pau mais empedernido em um novo Zico.

Zico, aliás, o maior jogador que vi jogar.

Ultimamente estou ficando velho e chato, evitando grandes aglomerações. Somando-se aos problemas nos joelhos, mudei-me para as cadeiras inferiores (azuis).

Ultimamente confesso que tenho ido pouco. O nascimento das meninas e a dupla "pay per view e televisão de LCD" me afastaram um bocado do estádio. Este ano estive duas vezes, na final do Estadual e contra o Santo André, pelo Brasileiro. Além disso, a estúpida proibição de cerveja nos estádios - da qual tratei em texto anterior - também me desanima um bocado.

Talvez não saberia apontar "o meu jogo inesquecível". Seria capaz de listar uns dez ou vinte jogos que, para o bem e para o mal, marcaram-me sobremaneira. Recentemente, levei a Maria Clara em uma partida da Libertadores e senti a emoção de ver que o ciclo recomeçava.

Além do Maraca (insuperável) e da Arena da Ilha, já assisti a jogos no campo do Madureira (Conselheiro Galvão) e no Engenhão (Brasil e Bolívia). Conheço também o Canindé (SP), mas foi em um evento da Igreja.

Trinta anos se passaram, como se fossem ontem. E que venham mais trinta, e mais trinta. Que a magia rubro-negra sempre permaneça com sua chama acesa enlevando seus corações apaixonados.

São estas coisas que fazem a vida valer a pena.

Resenha Literária - Chico Buarque

Uma das coisas boas de se viajar é que sempre consigo ler um ou dois livros. Desta vez, li dois e comecei um terceiro. Com isso, nossa seção "Resenha Literária" está de volta.
O livro que analiso neste post é "Chico Buarque", de Wagner Homem. Ele se propõe a contar a história das canções de Chico Buarque, desfazendo mitos e fazendo revelações.

O autor é webmaster do site do cantor e compositor e amigo pessoal do mesmo. Consultou diversas fontes e arquivos disponibilizados pelo genial artista, de forma que é um painel bastante preciso da obra do maior compositor vivo da MPB.

Disposto em ordem cronológica, é uma sucessão de saborosas histórias e desvenda um pouco a maneira como Chico Buarque relacionava-se com seus parceiros. Inclusive os "duelos" mantidos com Tom Jobim para manter ou alterar determinadas letras.

Uma das revelações do livro é de que "Apesar de você" foi feita realmente em protesto contra o regime militar que vigia à época. Também faz justiça a Gilberto Gil, ao revelar que o trocadilho "Cálice/cale-se" é de autoria do baiano.

Aliás, um dos melhores momentos do livro é quando explicita as relações com a Censura dos Anos 70 e os subterfúgios do autor para driblar a instituição. Mostra como foi criado o personagem "Julinho da Adelaide", a fim de ter suas canções aprovadas.

Leitura rápida, instrutiva e esclarecedora. Joga luzes sobre o processo de criação de um gênio. Além disso, traz letras de músicas que até eu, que me considero um razoável conhecedor da obra do artista, desconheço.

Excelente sugestão de leitura. Na Travessa, custa R$ 40.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Amizades são eternas


Meus 29 leitores devem estar pensando: "ele vai falar de novo do domingo?"

Sim e não. Na verdade, quero chamar a atenção para algo que, muitas vezes, não percebemos em nosso dia a dia: que as pessoas que verdadeiramente gostam da gente não nos esquecem.

Isto ficou claro para mim desta vez. Pessoas que já não via há tempos vieram falar e relembrar os bons tempos, preocupadas comigo e querendo saber como eu estava. Não tem preço.

Não tirei fotos com todos os amigos que vi, mas coloco aqui algumas destas fotos, como uma homenagem à amizade.


Fernanda Tito;




Julio César, meu companheiro de muitas batalhas;



Ministro Rafael, que foi meu colega de turma no Pré-Seminário de Formação Sacerdotal em 1996;



Novos amigos, Melgar e Rafael - mas não menos importantes;



Marcelo, Márcia, Bruno e o querido Zorro;



Luana, minha madrinha, ministrando-me Johrei.

São estas coisas que tornam mais feliz o exercício da vida. Por mais que esta seja uma fase difícil, que o esforço não compensa o resultado, vale a pena viver.