Hoje ele faz uma resenha da biografia de Wilson Simonal e do DVD "Ninguém Sabe o Duro Que Dei". Tenho o livro, está na minha longa lista de prioridades ainda não lidas...
Passemos ao texto, sem maiores delongas.
"Ninguém sabe a dura que deram nele...
Combinei com nosso amigo Pedro Migão que eu faria uma resenha do livro “Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal” assim que terminasse a leitura da biografia do cantor. Por sorte, eu sou um relaxado e deixo tudo para o final do prazo. Então, deu tempo de ver em DVD o documentário “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, que andou arrancando aplausos (literalmente) em sessões abertas e festivais.
Tecnicamente, tanto o livro quanto o filme cumprem bem o seu dever, são bem realizados, mas não inovam na linguagem, nem brilham a ponto de ofuscarem sua principal estrela: Wilson Simonal. E nem precisam de nenhum artifício estético: impressionam pelo conteúdo, pela história quase inacreditável que têm para mostrar, pelo extraordinário personagem sobre o qual nos vêm contar (quase) tudo.
Ainda que você pense que conhece a história, Wilson Simonal de Castro será sempre uma surpreendente fonte de contradições e novidades. Dono de uma voz única e de uma bossa incomparável, Simonal foi, na década de 1960, um dos maiores cantores do Brasil, tanto na opinião da crítica quanto em apelo popular. Numa época em que os artistas se apresentavam em boates, clubes e teatros, foi o primeiro cantor brasileiro a dominar multidões em ginásios.
E esta é a primeira grande surpresa para a parte da platéia (ou de leitores) que não conhecem Simonal. Como pode um cantor de tamanho sucesso desaparecer da História da música? Neste ponto, o DVD é superior ao livro. O sucesso de Simonal não é contado, mas mostrado em cenas raras bem pesquisadas pelos documentaristas. Está tudo lá, é tudo verdade.
Eu cresci numa casa onde havia discos do Simonal. Aquele cantor me ficou nos ouvidos mesmo depois que seus discos já não eram encontrados nas lojas. Ainda assim, eu tinha dúvidas se sua presença indefectível na mídia de antigamente seria alguma confusão de minhas reminiscências infantis. Explico: a partir de 1971, quando eu tinha 5 anos, Simonal foi sumindo, sumindo, sumindo da mídia, até “morrer” para o grande público.
Eu guardava lá no fundo da memória os ecos de um boato que eu não compreendia naquela época. Guardava o impacto da morte de Erlon Chaves, o maestro que eu via sempre no Programa Flávio Cavalcanti, que enfartou numa rua do bairro do Flamengo defendendo o amigo Simona, que era acusado de dedo-duro. Imaginem a pouca ou nenhuma lógica que aquilo fazia na cabeça de uma criança.
Cresci ouvindo os LPs antigos do Simonal, conhecendo mil versões para seu sumiço, nada de convincente.
Livro e DVD têm o mérito de revelar que o Simonal era o Simonal do qual me lembrava vagamente, e que os discos antigos guardavam intacto. Não são pretensiosos, não dão uma versão definitiva para o mistério. Apontam caminhos, buscam um quadro menos baseado em fofocas e mais atento às contradições do caso policial que envolveu o cantor num redemoinho que o arrastou para o fundo do poço.
O livro tem a oportunidade de ser mais detalhado. Trata-se de uma boa pesquisa. O filme mostra, pela primeira vez, a versão do contador que foi o pivô do evento que deflagrou a derrubada do mito Simonal.
Ao longo da leitura, eu me indignei, me emocionei, cheguei a chorar algumas vezes, questionei comigo mesmo a fragilidade do sucesso e da fama, a estrutura da sociedade brasileira, refleti sobre temas como violência, prepotência, poder, intransigência, racismo. mídia, liberdade, radicalismo e muitos outros. Raras são as histórias reais capazes de envolver tantos temas e sentimentos. Aliás, uma sensação inevitável é de que a vida de Wilson Simonal parece um folhetim irreal, cujos capítulos estão mal amarrados pelo autor. É chocante quando nos damos conta, página após página, que foi tudo real.
O DVD concentra o impacto inteiro na passagem entre suas duas partes: o sucesso e o declínio. Trabalha o contraste de um Simonal regendo um Maracanãzinho lotado numa cena e, logo em seguida, amargando uma campanha massacrante que destruiu sua carreira.
Um amigo que também leu o livro, também fã do cantor, me disse que o lado chato de certas histórias é já saber o final. É o caso. Então, evito comentar os detalhes sobre o desenrolar da trama, para não tirar sua surpresa também sobre o começo e o meio de livro e filme. Mas não me furto a dividir com o caríssimo leitor minha impressão final sobre ambas as obras.
Antes de mais nada: concordo com Miele quando ele diz que Simonal foi o maior cantor que este País já teve. Seguindo: bom de voz e de molejo, a carreira de Wilson Simonal foi construída sobre a certeza que o cantor tinha sobre este talento, uma segurança capaz de seduzir qualquer público. Ele mesmo se definia como “mascarado”. E, fundamental: a certeza e a “máscara”, em determinado momento, se transformaram em grave arrogância.
Por outro lado: Simonal incomodava muita gente. Seja por inveja do seu talento e posição, seja por motivos pessoais ou políticos. Junte um sujeito arrogante, por um lado; e inimigos poderosos por todos os outros lados; tudo o que era necessário para uma grande explosão é o pavio, porque a bomba já estava armada.
Livro e DVD são generosos ao mostrar possibilidades, versões e opiniões, mas deixarem para o público as conclusões. Ambos merecem sua atenção e suas conclusões.
A minha? Tudo em Simonal era perdoável, mas seus inimigos não podiam perdoar aqueles defeitos e qualidades – principalmente as qualidades – vindas de um homem negro. Numa época de conflitos e radicalização da questão racial no mundo inteiro, num país de pais-joões, o ídolo negro casado com uma loira enrolou-se na própria malandragem e, sob a ótica da elite de então, merecia ser calado. O resto são as versões que, como sempre, tornaram-se maiores que o fato."
Combinei com nosso amigo Pedro Migão que eu faria uma resenha do livro “Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal” assim que terminasse a leitura da biografia do cantor. Por sorte, eu sou um relaxado e deixo tudo para o final do prazo. Então, deu tempo de ver em DVD o documentário “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, que andou arrancando aplausos (literalmente) em sessões abertas e festivais.
Tecnicamente, tanto o livro quanto o filme cumprem bem o seu dever, são bem realizados, mas não inovam na linguagem, nem brilham a ponto de ofuscarem sua principal estrela: Wilson Simonal. E nem precisam de nenhum artifício estético: impressionam pelo conteúdo, pela história quase inacreditável que têm para mostrar, pelo extraordinário personagem sobre o qual nos vêm contar (quase) tudo.
Ainda que você pense que conhece a história, Wilson Simonal de Castro será sempre uma surpreendente fonte de contradições e novidades. Dono de uma voz única e de uma bossa incomparável, Simonal foi, na década de 1960, um dos maiores cantores do Brasil, tanto na opinião da crítica quanto em apelo popular. Numa época em que os artistas se apresentavam em boates, clubes e teatros, foi o primeiro cantor brasileiro a dominar multidões em ginásios.
E esta é a primeira grande surpresa para a parte da platéia (ou de leitores) que não conhecem Simonal. Como pode um cantor de tamanho sucesso desaparecer da História da música? Neste ponto, o DVD é superior ao livro. O sucesso de Simonal não é contado, mas mostrado em cenas raras bem pesquisadas pelos documentaristas. Está tudo lá, é tudo verdade.
Eu cresci numa casa onde havia discos do Simonal. Aquele cantor me ficou nos ouvidos mesmo depois que seus discos já não eram encontrados nas lojas. Ainda assim, eu tinha dúvidas se sua presença indefectível na mídia de antigamente seria alguma confusão de minhas reminiscências infantis. Explico: a partir de 1971, quando eu tinha 5 anos, Simonal foi sumindo, sumindo, sumindo da mídia, até “morrer” para o grande público.
Eu guardava lá no fundo da memória os ecos de um boato que eu não compreendia naquela época. Guardava o impacto da morte de Erlon Chaves, o maestro que eu via sempre no Programa Flávio Cavalcanti, que enfartou numa rua do bairro do Flamengo defendendo o amigo Simona, que era acusado de dedo-duro. Imaginem a pouca ou nenhuma lógica que aquilo fazia na cabeça de uma criança.
Cresci ouvindo os LPs antigos do Simonal, conhecendo mil versões para seu sumiço, nada de convincente.
Livro e DVD têm o mérito de revelar que o Simonal era o Simonal do qual me lembrava vagamente, e que os discos antigos guardavam intacto. Não são pretensiosos, não dão uma versão definitiva para o mistério. Apontam caminhos, buscam um quadro menos baseado em fofocas e mais atento às contradições do caso policial que envolveu o cantor num redemoinho que o arrastou para o fundo do poço.
O livro tem a oportunidade de ser mais detalhado. Trata-se de uma boa pesquisa. O filme mostra, pela primeira vez, a versão do contador que foi o pivô do evento que deflagrou a derrubada do mito Simonal.
Ao longo da leitura, eu me indignei, me emocionei, cheguei a chorar algumas vezes, questionei comigo mesmo a fragilidade do sucesso e da fama, a estrutura da sociedade brasileira, refleti sobre temas como violência, prepotência, poder, intransigência, racismo. mídia, liberdade, radicalismo e muitos outros. Raras são as histórias reais capazes de envolver tantos temas e sentimentos. Aliás, uma sensação inevitável é de que a vida de Wilson Simonal parece um folhetim irreal, cujos capítulos estão mal amarrados pelo autor. É chocante quando nos damos conta, página após página, que foi tudo real.
O DVD concentra o impacto inteiro na passagem entre suas duas partes: o sucesso e o declínio. Trabalha o contraste de um Simonal regendo um Maracanãzinho lotado numa cena e, logo em seguida, amargando uma campanha massacrante que destruiu sua carreira.
Um amigo que também leu o livro, também fã do cantor, me disse que o lado chato de certas histórias é já saber o final. É o caso. Então, evito comentar os detalhes sobre o desenrolar da trama, para não tirar sua surpresa também sobre o começo e o meio de livro e filme. Mas não me furto a dividir com o caríssimo leitor minha impressão final sobre ambas as obras.
Antes de mais nada: concordo com Miele quando ele diz que Simonal foi o maior cantor que este País já teve. Seguindo: bom de voz e de molejo, a carreira de Wilson Simonal foi construída sobre a certeza que o cantor tinha sobre este talento, uma segurança capaz de seduzir qualquer público. Ele mesmo se definia como “mascarado”. E, fundamental: a certeza e a “máscara”, em determinado momento, se transformaram em grave arrogância.
Por outro lado: Simonal incomodava muita gente. Seja por inveja do seu talento e posição, seja por motivos pessoais ou políticos. Junte um sujeito arrogante, por um lado; e inimigos poderosos por todos os outros lados; tudo o que era necessário para uma grande explosão é o pavio, porque a bomba já estava armada.
Livro e DVD são generosos ao mostrar possibilidades, versões e opiniões, mas deixarem para o público as conclusões. Ambos merecem sua atenção e suas conclusões.
A minha? Tudo em Simonal era perdoável, mas seus inimigos não podiam perdoar aqueles defeitos e qualidades – principalmente as qualidades – vindas de um homem negro. Numa época de conflitos e radicalização da questão racial no mundo inteiro, num país de pais-joões, o ídolo negro casado com uma loira enrolou-se na própria malandragem e, sob a ótica da elite de então, merecia ser calado. O resto são as versões que, como sempre, tornaram-se maiores que o fato."





















