sábado, 26 de dezembro de 2009

Sobretudo

Sábado, é dia da nossa coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário e rubro-negro Affonso Romero.

Hoje ele faz uma resenha da biografia de Wilson Simonal e do DVD "Ninguém Sabe o Duro Que Dei". Tenho o livro, está na minha longa lista de prioridades ainda não lidas...

Passemos ao texto, sem maiores delongas.

"Ninguém sabe a dura que deram nele...

Combinei com nosso amigo Pedro Migão que eu faria uma resenha do livro “Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal” assim que terminasse a leitura da biografia do cantor. Por sorte, eu sou um relaxado e deixo tudo para o final do prazo. Então, deu tempo de ver em DVD o documentário “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, que andou arrancando aplausos (literalmente) em sessões abertas e festivais.

Tecnicamente, tanto o livro quanto o filme cumprem bem o seu dever, são bem realizados, mas não inovam na linguagem, nem brilham a ponto de ofuscarem sua principal estrela: Wilson Simonal. E nem precisam de nenhum artifício estético: impressionam pelo conteúdo, pela história quase inacreditável que têm para mostrar, pelo extraordinário personagem sobre o qual nos vêm contar (quase) tudo.

Ainda que você pense que conhece a história, Wilson Simonal de Castro será sempre uma surpreendente fonte de contradições e novidades. Dono de uma voz única e de uma bossa incomparável, Simonal foi, na década de 1960, um dos maiores cantores do Brasil, tanto na opinião da crítica quanto em apelo popular. Numa época em que os artistas se apresentavam em boates, clubes e teatros, foi o primeiro cantor brasileiro a dominar multidões em ginásios.

E esta é a primeira grande surpresa para a parte da platéia (ou de leitores) que não conhecem Simonal. Como pode um cantor de tamanho sucesso desaparecer da História da música? Neste ponto, o DVD é superior ao livro. O sucesso de Simonal não é contado, mas mostrado em cenas raras bem pesquisadas pelos documentaristas. Está tudo lá, é tudo verdade.

Eu cresci numa casa onde havia discos do Simonal. Aquele cantor me ficou nos ouvidos mesmo depois que seus discos já não eram encontrados nas lojas. Ainda assim, eu tinha dúvidas se sua presença indefectível na mídia de antigamente seria alguma confusão de minhas reminiscências infantis. Explico: a partir de 1971, quando eu tinha 5 anos, Simonal foi sumindo, sumindo, sumindo da mídia, até “morrer” para o grande público.

Eu guardava lá no fundo da memória os ecos de um boato que eu não compreendia naquela época. Guardava o impacto da morte de Erlon Chaves, o maestro que eu via sempre no Programa Flávio Cavalcanti, que enfartou numa rua do bairro do Flamengo defendendo o amigo Simona, que era acusado de dedo-duro. Imaginem a pouca ou nenhuma lógica que aquilo fazia na cabeça de uma criança.

Cresci ouvindo os LPs antigos do Simonal, conhecendo mil versões para seu sumiço, nada de convincente.

Livro e DVD têm o mérito de revelar que o Simonal era o Simonal do qual me lembrava vagamente, e que os discos antigos guardavam intacto. Não são pretensiosos, não dão uma versão definitiva para o mistério. Apontam caminhos, buscam um quadro menos baseado em fofocas e mais atento às contradições do caso policial que envolveu o cantor num redemoinho que o arrastou para o fundo do poço.

O livro tem a oportunidade de ser mais detalhado. Trata-se de uma boa pesquisa. O filme mostra, pela primeira vez, a versão do contador que foi o pivô do evento que deflagrou a derrubada do mito Simonal.

Ao longo da leitura, eu me indignei, me emocionei, cheguei a chorar algumas vezes, questionei comigo mesmo a fragilidade do sucesso e da fama, a estrutura da sociedade brasileira, refleti sobre temas como violência, prepotência, poder, intransigência, racismo. mídia, liberdade, radicalismo e muitos outros. Raras são as histórias reais capazes de envolver tantos temas e sentimentos. Aliás, uma sensação inevitável é de que a vida de Wilson Simonal parece um folhetim irreal, cujos capítulos estão mal amarrados pelo autor. É chocante quando nos damos conta,  página após página, que foi tudo real.

O DVD concentra o impacto inteiro na passagem entre suas duas partes: o sucesso e o declínio. Trabalha o contraste de um Simonal regendo um Maracanãzinho lotado numa cena e, logo em seguida, amargando uma campanha massacrante que destruiu sua carreira.

Um amigo que também leu o livro, também fã do cantor, me disse que o lado chato de certas histórias é já saber o final. É o caso. Então, evito comentar os detalhes sobre o desenrolar da trama, para não tirar sua surpresa também sobre o começo e o meio de livro e filme. Mas não me furto a dividir com o caríssimo leitor minha impressão final sobre ambas as obras.

Antes de mais nada: concordo com Miele quando ele diz que Simonal foi o maior cantor que este País já teve. Seguindo: bom de voz e de molejo, a carreira de Wilson Simonal foi construída sobre a certeza que o cantor tinha sobre este talento, uma segurança capaz de seduzir qualquer público. Ele mesmo se definia como “mascarado”. E, fundamental: a certeza e a “máscara”, em determinado momento, se transformaram em grave arrogância.

Por outro lado: Simonal incomodava muita gente. Seja por inveja do seu talento e posição, seja por motivos pessoais ou políticos. Junte um sujeito arrogante, por um lado; e inimigos poderosos por todos os outros lados; tudo o que era necessário para uma grande explosão é o pavio, porque a bomba já estava armada.

Livro e DVD são generosos ao mostrar possibilidades, versões e opiniões, mas deixarem para o público as conclusões. Ambos merecem sua atenção e suas conclusões.

A minha? Tudo em Simonal era perdoável, mas seus inimigos não podiam perdoar aqueles defeitos e qualidades – principalmente as qualidades – vindas de um homem negro. Numa época de conflitos e radicalização da questão racial no mundo inteiro, num país de pais-joões, o ídolo negro casado com uma loira enrolou-se na própria malandragem e, sob a ótica da elite de então, merecia ser calado. O resto são as versões que, como sempre, tornaram-se maiores que o fato."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Cinecasulofilia

Hoje é dia de Natal, mas é sexta feira. Então, não pode faltar a nossa coluna sobre cinema, em parceria com o blog Cinecasulofilia.

Nossa crítica hoje é sobre o novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, "Abraços Partidos". Como de hábito, escrita pelo cineasta e crítico Marcelo Ikeda.

Algo sobre abraços partidos

"Vi o novo filme do Almodóvar e confesso que fiquei bem decepcionado com ele. O roteiro se alonga além do necessário, vários cacoetes de estilo, uma 'mise en scene' preguiçosa (o que foi a cena em que o garoto desmaia de overdose?). Há coisas interessantes lá pelo meio do filme mas como um todo achei bem insatisfatório. De qualquer forma, um caminho de continuidade com o que Almodóvar vem trilhando: quebras na narrativa, histórias dentro de histórias, um filme sobre o fabular, um cinema de referências especialmente ao cinema americano dos anos quarenta e cinqüenta. Mas me pareceu que o filme tinha 150 minutos e foi cortado para ter uma duração mais palatável. Por exemplo, a vida pregressa da Penélope Cruz. Parece que as motivações dos personagens ficam todas no ar, a serviço de uma narrativa, mas que não se encaixa como uma proposta orgânica. Não vivemos com os personagens, apenas acompanhamos a narrativa. Isso pode até ser um mérito mas não foi esse o caso, pois as reviravoltas, ao melhor estilo almodovariano, são intensas e grandes e megadramáticas. Enfim, o filme não me convenceu. Quanto ao papel do cineasta e do produtor, achei pura balela. O filme que o diretor tentava fazer é ruim demais. 'Água Viva do Assayas' é muito mais interessante."

Final de Semana - "Blowing in the Wind"



Véspera de Natal, feriado prolongado, mas não poderia me esquecer da música para o nosso final de semana.

Aproveito para desejar um Feliz Natal, e que as pessoas possam ter o ano todo, os doze meses, o espírito de solidariedade que grassa nesta época do ano.

E que o vento traga as respostas pedidas em 2010, como o tema de nossa música hoje: "Blowing in the Wind", de Bob Dylan. Aqui em uma versão diferente, da cantora Joan Baez.

Antes do vídeo, coloco aqui uma tradução aproximada da letra. Possui o sentido todo da reflexão que esta época perpassa.

Boa ceia.

"How many roads must a man walk down before you call him a man?
How many seas must a white dove sail before she sleeps in the sand?
Yes and how many times must the cannon balls fly before they're forever banned?
The answer my friend is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind

How many years can a mountain exist before it is washed to the sea?
Yes and how many years can some people exist before they're allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head pretending that he just didn't see?
The answer my friend is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind

Yes and how many times must a man look up before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows that too many people have died?
The answer my friend is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind"

Tradução:

Soprando ao vento

"Quantas estradas precisará um homem andar 
Antes que possam chamá-lo de um homem? 
Sim e quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar 
Antes que ela possa dormir na praia? 
Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voar 
Até serem para sempre abandonadas? 
A resposta meu amigo sopra no vento 
A resposta sopra ao vento

Quantas vezes precisará um homem olhar para cima 
Até poder ver o céu? 
Sim e quantos ouvidos precisará um homem ter 
Até que ele possa ouvir o povo chorar? 
Sim e quantas mortes custará até que ele saiba 
Que gente demais já morreu? 
A resposta meu amigo sopra ao vento 
A resposta sopra ao vento

Quantos anos pode existir uma montanha 
Antes que ela seja lavada pelo mar? 
Sim e quantos anos podem algumas pessoas existir 
Até que sejam permitidas a serem livres? 
Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça 
E fingir que ele simplesmente não ver? 
A resposta meu amigo sopra ao vento 
A resposta sopra ao vento"

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Dia de Natal, mas dia do nascimento de Jesus Cristo ?



24 de Dezembro, a ceia já está no forno...

E o Ouro de Tolo, mantendo a tradição de sempre ver o outro lado das coisas, divide com os seus 39 leitores um texto no mínimo polêmico.

Escrito pelo leitor, amigo, vizinho e historiador Fabrício Gomes, apresenta pesquisas que indicam o nascimento de Jesus Cristo como não ocorrido em 25 de dezembro.

Mas não adiantarei o teor das pesquisas. Passemos ao texto, sem maiores delongas.

"FELIZ ANIVERSÁRIO, JESUS... OU FELIZ NATAL?

E vem chegando o Natal...

Mais do que ser o período onde o comércio mais fatura no ano – e, para as crianças, a ansiedade pela chegada de Papai Noel em seu trenó, diretamente da Lapônia, com todos os presentes – é o período sagrado para as religiões cristãs, que representa o nascimento de Jesus Cristo.

Entretanto, devemos desejar um Feliz Natal ou um Feliz Aniversário para Jesus? Em 25 de dezembro comemora-se realmente o júbilo de Cristo?

É questão deveras polêmica, mas vou aqui expressar minha opinião sobre o fato, baseado em pesquisas históricas.

Jesus de Nazaré, Jesus Nazareno ou Jesus da Galiléia teria nascido em Belém com o nome de Yeshua ben(bar)-Yoseph, ou seja, Jesus filho de José.

O nascimento de Jesus é o episódio que aparentemente assinala o início da era cristã. No entanto, devido a um erro de cálculo, cometido no século 6 d.C. pelo monge Dionísio, o Pequeno, as duas datas não coincidem. Sabe-se hoje que Jesus nasceu antes do ano 1 - entre 8 e 6 a.C. Pode-se afirmar isso graças a uma passagem muito precisa do evangelho de Lucas. Segundo ele, o fato aconteceu na época do recenseamento ordenado pelo imperador romano César Augusto. Esse censo, o primeiro realizado na Palestina, tinha por objetivo regularizar a cobrança de impostos. E os historiadores estão de acordo em situá-lo no período que vai de 8 e 6 a.C.

Nesse triênio, o ano mais provável é 7 a.C, já que nele se deu um evento astronômico que poderia explicar uma outra passagem da narrativa evangélica: a "estrela" natalina mencionada por Mateus. Trata-se da conjunção dos planetas Júpiter e Saturno, que produziu no céu um ponto de brilho excepcional. Se o astro de Mateus foi mais do que um enfeite mitológico, ele deve corresponder a tal fenômeno, que certamente impressionou os astrônomos da época. Esses sábios, atraídos a Jerusalém pelo movimento aparente do ponto luminoso, seriam os "magos do Oriente", de que fala o evangelista.

Com o recenseamento de Lucas e a "estrela" de Mateus, conseguimos chegar o mais perto possível do ano do nascimento. Entretanto, o mês e o dia continuam uma incógnita.

Mas cabe um exercício de raciocínio, ante a algumas pesquisas realizadas por historiadores. Vejamos:

Um grande concílio foi realizado pela comunidade cristã no século V de nossa Era, para decidir em que data fixar este polêmico acontecimento. Decidiu-se então fixar no dia 25 de dezembro, ou meia-noite do dia 24. Entretanto esta escolha não foi feita ao acaso.

Os Patriarcas e as superiores autoridades eclesiáticas, esporadicamente se reuniam em concílios para discutir e estabelecer as tradições, dogmas e liturgias a serem seguidas pela teologia cristã, assim como suas doutrinas.

Com o propósito de aproveitar muitas das antigas cerimônias místicas, os Patriarcas da Igreja copiaram dos templos do Egito e das doutrinas e práticas essênias e da Grande Fraternidade Branca, tiveram que inventar certas passagens e princípios relacionados à vida e obra de Jesus e adaptá-los às referidas cerimônias. Se fez necessário então, para consolidar uma nova teologia e firmar algumas novas doutrinas, ignorar e pôr de lado muitos dos fatos que tornariam suas decisões inconsistentes.

O primeiro ponto a ser avaliado seria a contradição existente em um dos pontos do senso comum tradicional do nascimento de Jesus, onde é dito que ao nascer o Menino, estavam os pastores guardando seus rebanhos no campo. Seria muito improvável que os pastores a que a Bíblia se refere, estivessem no campo cuidando de seus rebanhos no inverno. Nesta época do ano, afirmam os que conheciam as condições da Palestina à época, os pastores não ficavam no campo nem de dia nem de noite, e que este incidente foi introduzido à crônica de Seu nascimento, quando era comumente aceita a versão de que Jesus viera ao mundo em abril ou maio.

O que os Patriarcas levaram em conta ao escolherem esta data, foi o conhecimento que através dos séculos precedentes, todos os Grandes Mestres ou Grandes Avatares nascidos de virgens (Jesus não foi o primeiro nem o único) e que eram Filhos de Deus e considerados Salvadores ou Redentores, haviam nascido ou a 25 de dezembro, ou em data próxima.

Na Índia, este período já era comemorado muitos e muitos séculos antes da Era Cristã, na forma de um festival religioso, durante o qual o povo ornamentava suas casas com flores e as pessoas trocavam presentes com amigos e parentes.

Na China, também muitos séculos antes da Era Cristã, era celebrado o Solstício de Inverno, onde no dia 24 ou 25 de dezembro, fechava-se o comércio e tudo o mais. Assim como os antigos persas celebravam esplêndidas cerimônias em homenagem a Mitra, cujo nascimento ocorrera a 25 de dezembro.

Vários deuses egípcios nasceram no dia 25 de dezembro, e, em praticamente todas as histórias religiosas de povos antigos, iremos encontrar celebrações idênticas às referidas. Osíris, filho da santa virgem e deusa Nut, nasceu a 25 de dezembro, assim como os gregos também celebravam, nesta mesma data, o nascimento de Hércules.

Logo, a data de 25 de dezembro vem sendo considerada um dia místico há muito tempo, e por muitos povos diferentes. A esse respeito temos as declarações do Reverendo Gross, autoridade no assunto e autor de diversas obras a esse respeito nas quais afirma que realizava-se em Roma, antes da Era Cristã, no dia 25 de dezembro, uma festa com o nome de Natalis Solis Invicti (Natalício do Invencível Sol). A data era comemorada com espetáculos públicos e com muita alegria, fechando-se o comércio, adiando-se declarações de guerra e execuções, permutando presentes entre amigos e parentes e concedendo liberdade aos escravos.

Assim como ocorria na China, o Solstício de Inverno era comemorado entre os primitivos germânicos séculos antes do nascimento do Menino Jesus. Entre os escandinavos, neste mesmo período, era comemorado o que se chamava Festa do Yule. O termo Yule ainda sobrevive, designando a véspera de Natal. É interessante notar que o vocábulo Yule equivale ao francês Noel que por sua vez corresponde à palavra hebraica ou caldaica Nule. Notamos também a presença de celebrações no referente período entre os druidas na Grã-Bretanha e na Irlanda, e mesmo no antigo México.

As antigas religiões pré cristãs européias comemoravam nessa data festivais de inverno (como o Alban Arthan, por exemplo) que comemoravam o renascimento do Sol. Os escandinavos, por exemplo reverenciavam Frey, deus da paz e prosperidade. Na Roma pagã, o período entre 17 e 25 de dezembro (solstício de inverno no hemisfério norte, chamado pelos romanos de Saturnália) eram dedicados a ritos de fertilidade (com relação à colheita) e ritos de adoração ao sol.

Como a Igreja não podia simplesmente proibir essa comemorações, tratou de incorporá-las ao seu calendário, fazendo do festival de inverno, o Natal (em nossa versão tropical, o verão).

O calendário judaico tem 13 meses. Maria teve uma gestação de três meses. Segundo evangelhos apócrifos, Maria engravidou no mês de nissan, primeiro mês do calendário judaico e teve Jesus três meses depois. Jesus por esses evangelhos teria nascido no nosso atual abril.

De acordo com a mitologia romana dia 25 de dezembro era o dia do aniversário do deus que representava o sol. Quando os cristãos se uniram aos povos pagãos essa data foi introduzida como data base do nascimento de Jesus. Fato cômodo para os antigos e hoje comercial.

Mais importante do que ser a comemoração de uma data, o Natal deve ser a REFLEXÃO, deve ser um “olhar para dentro” de nós mesmos. Mas tais sentimentos não devem durar apenas no mês de dezembro ou se restringir à época natalina. Independente de ser comemorado nesta ou naquela religião, o verdadeiro Natal deve acontecer todos os dias do ano. O nascimento de Cristo deve ser nosso renascimento diário, avaliando erros e renovando nossa fé e esperança num futuro melhor, através do conjunto de nossas ações.

Feliz Natal!"

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

É dia de Natal !!!!!!!


Bom, meus leitores devem ter pensado que eu surtei de vez. Nada disso.

Na minha tradição religiosa, 23 de Dezembro é o dia em que, por analogia, comemoramos o nosso Natal.

Meishu-Sama - em português, "Senhor da Luz" - nasceu Mokiti Okada em 23 de dezembro de 1882, em Tóquio, Japão. Teve uma infância repleta de problemas de saúde e financeiros.

Após a morte do pai abriu a "Loja Okada", a qual engendraria grande sucesso. Entretanto, foi a falência duas vezes e em 1929, aos 37 anos, doou a loja aos seus funcionários - esta vivia período de grande prosperidade - e abraçou a causa religiosa. Ele havia recebido a primeira Revelação Divina em 1926. Em 1931 no topo do Monte Nokoguiri recebeu a Revelação da Transição da Era da Noite para a Era do Dia.

Casou-se duas vezes e teve filhos.

Em 1935 fundou a Igreja Messiânica Mundial para a difusão do Johrei. Eram tempos pré-Segunda Grande Guerra e a nascente Obra de Salvação da humanidade enfrentou muitas dificuldades e perseguições. Meishu Sama foi preso por duas ocasiões, mas nunca esmoreceu.

Após o término da Segunda Guerra construiu os três Solos Sagrados japoneses, nas cidades de Hakone, Atami e Kyoto, bem como um dos mais importantes museus de arte japoneses.

Meishu-Sama ascendeu ao Mundo Divino em 10 de fevereiro de 1955, aos 72 anos.

Receba nesta data a minha Gratidão. É Natal.

P.S. - Para saber mais, basta clicar sobre os links abaixo:

Vergonha no Judiciário !



Foi estupefato que li hoje a notícia de que Daniel Dantas simplesmente conseguiu afastar do "Caso Satiagraha" o juiz Fausto de Sanctis e paralisar os processos que correm contra ele advindos da citada operação da Polícia Federal.

Tal proeza se deve a liminar obtida no Superior Tribunal de Justiça. O poderosíssimo empresário trabalha, agora, para anular todo o processo e obter punições àqueles que tiveram a audácia de investigá-lo.

Fica comprovado também o que ele afirma em encontro filmado e gravado durante as investigações: que o seu problema era com as primeiras instâncias, que nos tribunais superiores ele "acertava tudo". Pelo visto, acertou.

Não é a primeira demonstração de poder do banqueiro: quando da decretação de sua prisão preventiva, conseguiu dos habeas corpus em tempo recorde, concedidos pelo presidente do STF Gilmar Mendes. Um cidadão como eu ou você, leitor, conseguiria isso ?

Vale lembrar que Gilmar Mendes, como escrevi anteriormente, era Advogado Geral da União no Governo FHC. Daniel Dantas era o principal "operador" dos políticos então no poder.

Daí... vai que ele abre a boca ? Melhor não se arriscar. E o Judiciário de joelhos perante este cidadão.

Vergonhoso. Um acinte.

Falam tanto dos políticos, mas mais urgente é a reforma no Judiciário. Mal ou bem os políticos você pode trocar de quatro em quatro anos. Os juízes são eternos.

Aqueles que tentam fazer seu trabalho com correção, raridades, são perseguidos, punidos exemplarmente pela própria corporação e até assassinados - basta ler "Espírito Santo", que resenhei recentemente.

O mais incrível é que esta liminar foi concedida na última hora do último dia de funcionamento dos tribunais antes do recesso. Na calada da noite.

Pensem o que quiserem.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Direto para o inferno

Acabei não comentando ontem, mas faleceu sábado passado aos 96 anos o ex-embaixador americano no Brasil Lincoln Gordon.

Embaixador entre 1961 e 1966, foi conspirador ativo no movimento que levou à derrubada do Presidente João Goulart, inclusive participando da elaboração de um plano de contingência para os EUA apoiarem com armas e suprimentos os golpistas em caso de resistência. Esta era chamada "Operação Brother Sam".

Durante o mandato do Marechal Castello Branco era o representante norte-americano das chamadas "relações carnais" do governo brasileiro com seu congênere do norte. Sua influência era tamanha que muros nas cidades brasileiras chegavam a ser pichados com frases como:

"Abaixo os intermediários, Lincoln Gordon para presidente"

No livro "O Grande Irmão", que resenhei recentemente há um bom perfil de Gordon e de sua atuação tanto no movimento golpista de 1964 quanto no governo militar.

Que não descanse em paz.

Samba de Terça - "Verde que Te Quero Rosa, Semente Viva do Samba"



A vida continua, hoje é terça feira e dia da coluna "Samba de Terça".

Hoje, por sugestão da leitora Tânia Tgart, vamos falar de veha e boa Manga, 1983: "Verde que Te Quero Rosa, Semente Viva do Samba".

A verde e rosa vinha em uma fase de resultados magros. Seu último título havia sido em 1973 e a escola havia passado até por risco de rebaixamento em 1980, quando obteve o oitavo lugar com o enredo "Coisas Nossas" - o clássico desfile onde doparam o grande Garrincha para que ele pudesse desfilar.

Para o carnaval de 1983, a Mangueira optou por uma volta às suas origens. Cinco anos após cantar seu cinquentenário, a Estação Primeira optou por um enredo onde relembrava seus últimos quatro carnavais campeões: "Reminiscências do Rio Antigo" (61), "O Mundo Encantado de Monteiro Lobato" (67), "Samba, Festa de um Povo" (68) e "Lendas do Abaeté" (1973).

Max Lopes, que vinha de um excelente trabalho na União da Ilha (o inesquecível "É Hoje") foi contratado para desenvolver o enredo, cujo título foi retirado de um dos discos de Cartola.

A Mangueira foi a quinta escola a desfilar na noite de domingo de carnaval, 13 de fevereiro de 1983. A escola trazia um carro "pede-passagem" com o nome da escola e do enredo (foto ao alto), iniciando seu desfile com 3 mil componentes e mais de 50 alas.

Seu primeiro setor mostrava a comunidade da escola e trazia um trem como carro alegórico, que soltava fumaça. O setor sobre o Rio Antigo se valia de figuras de Debret, com alegorias de mão em suas fantasias.

Após vinha o setor dedicado a Monteiro Lobato, focado nos personagens do "Sítio do Pica Pau Amarelo" - que era um grande sucesso na TV Globo aquele momento. Tripés, palha e motivos africanos relembravam o desfile de 1968.

"Lendas do Abaeté" trazia a ala das baianas em branco e rosa. No final do desfile, tripé trazia um destaque representando Mestre Cartola.

Infelizmente, a escola patinou em problemas de Harmonia com abertura de pequenos claros no final da escola, bem como a costumeira invasão de pista que havia naquela época. Além disso, a bateria desfilou sem chapéu, o que prejudicou o julgamento da escola.

Na apuração dos resultados, a escola obteve o quinto lugar, com 193 pontos. Em um resultado muito contestado, a beija Flor mais uma vez se sagrou campeã do carnaval. Deve isto especialmente às notas do jurado Messias Neiva, que deu nota dez somente para a escola da Baixada e outras muito baixas para as suas concorrentes. Estranho...

Vamos à letra do samba, que pode ser ouvido, em sua versão de estúdio, aqui. Seus autores são Heraldo Faria, Flavinho Machado e Geraldo Neves. Os dois primeiros, multicampeões em Niterói - Heraldo Faria é autor de "Afoxé", que abriu a nossa série.

"Amor, vem agora
Ver o esplendor do luar
A noite é linda senhora
Que o poeta vai acordar
Desperta Cartola
Vem pra avenida
Se a Mangueira é uma porta aberta
Você é a razão da sua vida

Você plantou, viu germinar
E a semente cresceu formosa
Deu Mangueira verde de manga rosa

Seus frutos de alegria e tristeza
Afagaram o pranto
Acendendo a chama da beleza
Seu nome é poesia
Nasceu da Primeira Estação
As suas pastoras, estrelas de um novo dia
É forca, é raça, é coração

Cantar, cantar, brincar, brincar
Deixa a brisa da euforia nos levar

Para reviver de novo
Tradições do Rio antigo
Monteiro Lobato, samba festa de um povo
Lendas do Abaeté

Mangueira é um canto de fé
E leva o samba na poeira e no pé"

Abaixo, um vídeo do desfile.



A coluna dará uma parada nestas festas de final de ano, e retorna dia 12 de janeiro com mais um samba de uma escola do Grupo Especial: Unidos de Vila Isabel, 1990, "Se Esta Terra Fosse Minha". Sugestão do leitor Paulo Renato Vaz.

Relembro que o blog segue normalmente, com atualizações diárias, neste período de festas.

Azul e amarelo



Na última sexta feira o Conselho Deliberativo do Flamengo aprovou as novas camisas do clube para a temporada 2010.

A grande novidade é a existência de um uniforme em azul e amarelo, como terceira camisa. Foi aprovado com condições: não pode ser utilizada no Maracanã, somente fora de casa; e apenas uma vez a cada trinta dias.

Segundo o que li em órgãos de imprensa que estiveram presentes à reunião, a nova camisa será semelhante à montagem que coloco aqui. Seria uma cópia do uniforme número 1 apenas com a troca das cores.

Entretanto, o colunista do Flamengo no Globoesporte.com afirmou que a camisa na verdade não tem as cores citadas como predominantes, apenas terá detalhes em amarelo e azul sobre uma base em vermelho ou preto.

Como ele possui um bom relacionamento com o pessoal da Olympikus, é fonte que não se deve descartar, apesar de contraditória com o relato de jornalistas presentes ao evento.

Assim quando do lançamento da camisa atual, furo exclusivo do Ouro de Tolo, estou tentando obter os desenhos reais. Contudo, gostaria muito que a camisa fosse igual ou semelhante à montagem apresentada aqui.

Muitos de meus leitores devem estar se perguntando: "o que tem a ver o Flamengo com as cores azul e amarelo?"

Para aqueles desconhecedores da história do centenário clube carioca, o Flamengo originalmente era um Clube de Regatas dedicado, obviamente, ao remo.

Suas primeiras cores eram o azul e ouro, que foram trocadas em 1896 pelo vermelho e o negro pelo fato de desbotarem demais com o sal e a salinidade da Baía de Guanabara. Portanto, a proposta de terceiro uniforme se coaduna com os primórdios da história flamenga e está perfeitamente ajustada à tradição do clube. Basta ver a bandeira ao lado, existente na sala de troféus da Gávea.

Por outro lado, este terceiro uniforme irá permitir uma nova fonte de renda ao clube. Basta ver as camisas de goleiro azul e amarela, individuais, que a Olk vendeu que nem água. Nestes tempos empresariais em que o futebol vive, sempre é uma boa opção aliar a modernidade com a tradição.

Em 1997 houve a tentativa de se aprovar um uniforme predominantemente azul - com detalhes em amarelo, preto e vermelho (foto). A camisa chegou a ser colocada a venda pela Umbro, então fornecedora, e obteve números expressivos de vendas. Infelizmente, à época não tive grana para adquirir meu exemplar.

Entretanto, o modelo acabou não sendo aprovado pelo Conselho Deliberativo. Consta que, durante os debates, um senhor de mais ou menos 90 anos - daqueles que defendem que o clube deva ser administrado como em 1912, aliás tipo este que predomina no Conselho do clube - levantou-se e disse o seguinte: "o Flamengo é vermelho e preto, jamais poderia ver a arquibancada em tons de azul". Sua posição foi seguida histericamente por outros velhinhos, e o então presidente Kleber Leite foi obrigado a retirar da pauta sob risco de não aprovação.

Em nome de uma tradição duvidosa rasgaram milhares de reais. Ainda denota desconhecimento da história do clube, como vimos aqui. Menos mal que, apesar das restrições, o Conselho atual não repetiu o erro.

Eu, particularmente, seria ainda mais radical. Colocaria este como o segundo uniforme, para variar um pouco do insosso branco. Ainda mais se o uniforme branco for igual ao da montagem abaixo, publicada pelo jornal O Dia, e que lamentavelmente não tem um desenho muito feliz.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Velórios, lápides e mórbidas curiosidades



Como escrevi no post anterior, ontem minha tia Diva, irmã de minha mãe, faleceu após longa enfermidade. Mas, conforme dito com muita propriedade por minha sogra, "o importante é cuidar dos vivos", principalmente a minha mãe que é muito apegada a ela.

Entretanto, não é este o tema do post. Apenas faço o registro de que tudo na vida é efêmero, e que, um dia, seremos nós a ver a tampa de concreto baixando sobre nosso corpo imprestável.

Portanto, precisamos pensar duas vezes antes de aborrecimentos desnecessários, consumos desnecessários, vidas esbanjadas e desperdiçadas. O que fica além do espírito são o nosso nome, nossas realizações e nossos descendentes. Estes continuam a nossa missão enquanto Terra e a nós cabe renascer em outra dimensão personificados em espíritos.

Só que queria falar de outra coisa.

Hoje, durante o sepultamento, confesso que tenho um estranho hábito: o de observar as lápides que encontramos no caminho percorrido pela urna mortuária até a sua parada final. Automaticamente, faço as contas para saber com quantos anos o morador daquele túmulo fez a sua passagem.

Eu me pego imaginando como terá sido a vida daquela pessoa, e as circunstâncias da morte em especial naqueles que pereceram jovens. Nesta ocasião de hoje, duas delas me chamaram bastante a atenção, ambas jovens moças e falecidas por volta dos trinta anos de idade.

Vítimas de violência ? Doenças crônicas ? Parto ? Jamais saberemos.

Parece mórbido. E é.

Por outro lado, ultimamente os velórios tem sido ocasiões para rever pessoas que, muitas vezes, acabamos colocando em segundo plano na nossa rotina cada vez mais massacrante e com mais atividades em menos tempo. Assim como os casamentos, esta ocasião bem mais agradável que aquela.

Particularmente não gosto de longas cerimônias antes do sepultamento. Acabam se transformando em um "chá de desespero" se não tomarmos cuidado. Neste caso em especial a expressiva presença de familiares e amigos bem como de diversos Ministros da Igreja acabaram tornando o velório até agradável, obviamente levando-se em conta a circunstância nada alegre do momento.

O duro é pensar que um dia será a nossa vez de estar dentro daquela caixa em cima daquela mesa... espero que a minha vez demore uns setenta anos para acontecer. Pelo menos.

Peço até desculpas aos meus 38 leitores pelo tema, mas queria fazer estas considerações. O Ouro de Tolo também é um espaço para reflexões.

Os Gols do Hexa - Download



Final de semana muito complicado, com falecimento na família, traslado e sepultamento. Mas a vida continua, para morrer basta estar vivo. Entretanto, falarei sobre isso em post próximo.

Como a vida continua, o jornal Extra publicou no final de semana um cd com os gols de todos os campeonatos brasileiros e um resumo da conquista deste ano. Só que em uma lambança monumental a tiragem do CD foi limitadíssima.

Eu consegui um exemplar porque o meu jornaleiro no sábado pela manhã havia reservado um destes para mim e eu adquiri. Entretanto, fui um felizardo.

Como pouquíssima gente conseguiu o cd para compra e não sabemos se haverá nova remessa, coloquei para download aqui o álbum. Basta clicar sobre o link na frase anterior, em azul escuro.

Reitero que, caso haja nova tiragem, é dever de todo rubro-negro adquirir o encarte original, até pelo preço acessível - R$ 9,90.

Recomendo especialmente a faixa do terceiro gol contra o Santos em 83, o entusiasmo do grande e inesquecível Waldir Amaral chega a ser comovente.

Todas as gravações são do acervo da Rádio Globo.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Afogaram os pobres


Durante a semana a Rede Record repercutiu em seu jornal noturno o fato de que comunidades da Zona Leste paulistana continuam debaixo d´água após as últimas chuvas.

Domingo é dia de repercutir bons textos. Selecionei dois textos do jornalista Luiz Carlos Azenha sobre a situação, publicado em seu ótimo Viomundo. Coloco também uma matéria do Uol relatando que houve uma opção deliberada por alagar estas áreas - o que é um escândalo.

Vamos aos textos, que relacionam (des)políticas públicas, cobertura da imprensa e velhas políticas de remoção de pobres.

Combater as enchentes punindo as vítimas

"O prefeito Gilberto Kassab anunciou planos para combater as enchentes... punindo as vítimas. Encheu? É só retirar os moradores. Combater as causas do transbordamento do rio Tietê? Dá trabalho. Exige criatividade. Projeto de longo prazo. Portanto, é mais fácil remover as vítimas.

Sim, sim, sei que muitos ambientalistas acreditam que a solução é dar espaço ao rio para transbordar. Quem sabe, demolir a marginal do Tietê. E fazer um imenso parque nas margens do rio. Acho que, a longo prazo, deveria ser mesmo esse o objetivo.

Como solução para a enchente de um bairro, que persiste dias depois que o rio Tietê transbordou, o prefeito Kassab anunciou a antecipação do projeto para fazer um parque. Que vai exigir a remoção de alguns milhares de moradores. As vítimas das enchentes.

Notem, no entanto, que o prefeito não falou em outras medidas: os clubes que ficam às margens do rio, em terrenos públicos, serão retirados? Alguma medida para evitar as construções de grandes condomínios próximos à marginal? É óbvio que não, né?

Ou seja, sob o manto do ambientalismo, o que o prefeito e o governador José Serra estão promovendo é a "limpeza" dos pobres da região. Como sempre, a corda estoura do lado do mais fraco. Os ambientalistas vão saudar o prefeito, que teria dado um passo na direção certa. Vamos esperar, agora, pelos anúncios de novos empreendimentos às margens da marginal. Publicados nos mesmos jornais que vão festejar o prefeito e o governador por terem dado "um passo na direção certa".


Ali Kamel inunda os pobres
 
Não foi por opção pessoal, mas por obrigação profissional. Vi a cobertura do Jornal Nacional sobre as novas enchentes em São Paulo, na quarta-feira (16).

Choveu muito. Choveu torrencialmente. Choveu oito dias em quatro horas, de acordo com o JN.

O JN dedicou boa parte das reportagens, com gráficos e tudo, a provar que os pobres invadiram o Jardim Pantanal e, portanto, merecem o que estão sofrendo.

Sim, sim, os pobres da zona Leste de fato invadiram as várzeas do Tietê. Mas, não foram os únicos. São Paulo fez oficialmente a opção de ocupar as várzeas do rio Tietê quando construiu a marginal Tietê sobre as várzeas que serviam para a expansão do rio durante a cheia.

Ali Kamel, não o ator pornô, o guia do Jornalismo Nacional, reprisou em São Paulo a teoria que gosta de pregar, sempre de forma dissimulada, no Rio de Janeiro: a remoção dos pobres.

Eles são um estorvo. Poluem o cenário.

A certa altura o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, aparece na reportagem para dizer que não pretende mais bombear as águas do lugar alagado. Na singela explicação para o descumprimento da promessa, uma fala risível: se a gente tirar a água, mais água vem. Ora, ele não deveria ter pensado nisso antes de fazer a promessa?

Chove muito. Os pobres estão onde não deveriam estar. E sofrem por isso.

Essa é a lógica da cobertura do Jornal Nacional: culpar a população.

Assim como o governador de São Paulo, quando fala no assunto, enfatiza: a culpa é da população, que joga lixo na rua.

Aliás, onde anda o governador José Serra? Ah, sim, não vale misturar o governador com assuntos tão prosaicos como a limpeza da calha do Tietê, uma verdadeira desocupação das várzeas que atinja também os ricos ou um sistema de controle de vazão dos rios Tietê e Pinheiros que não puna apenas os bairros pobres.

Ele está em Copenhague, resolvendo os problemas climáticos do planeta.


Comportas fechadas na barragem da Penha para proteger a marginal ajudaram a alagar a zona leste
 

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias


Em São Paulo

As seis comportas da barragem da Penha, na zona leste de São Paulo, foram completamente fechadas às 2h50 do dia 8 de dezembro, dia em que a cidade enfrentou fortes temporais e viu diversos pontos alagarem como há muito tempo não se via. Somente dois dias depois, às 17h20, todas as comportas foram abertas. Os dados, fornecidos pelo engenheiro responsável pela barragem, João Sérgio, indicam que houve uma clara escolha da empresa responsável: alagar os bairros pobres da zona leste para evitar o alagamento das marginais e do Cebolão, conjunto de obras que fica no encontro dos rios Tietê e Pinheiros.

"Mesmo fechando as comportas, encheu o [córrego] Aricanduva. Se eu não tivesse fechado aqui, teria alagado as marginais e toda São Paulo", justificou Sérgio, que explicou que a decisão vem da direção da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia). Ele acrescentou ainda que no dia 9 duas comportas foram abertas às 10h10 e mais duas às 21h.

O engenheiro argumenta que cada barragem (são quatro em São Paulo: Móvel, Penha, Mogi das Cruzes, Ponte Nova) é responsável apenas por administrar o fluxo de água do local e não sabe o que acontece nos outros pontos, porque não há comunicação. Mas ele acredita que as comportas foram abertas nas barragens de cima, em Mogi, e isso influenciou no alagamento da região da zona leste.

"Não recebo informações de outras barragens. As de cima são administradas pela Sabesp e as de baixo pela Emae. Eu só respondo por essa barragem e às ordens da Emae", disse. "Também acho estranho o nível da água não baixar aqui e não sei por que está indo para os bairros, mas não precisa ser especialista para ver que está assoreado [o rio]".

Ele trabalha há quase 15 anos no local e conta que desde o governo de Orestes Quércia (1987-1991) não são colocadas dragas para desassorear o rio na parte que fica acima da barragem. "O governo tentou colocar de novo, mas a própria Secretaria de Meio Ambiente não deixou, porque não tinha bota-fora [local para despejar a terra retirada]", afirmou.

O desassoreamento do rio daria mais velocidade ao escoamento da água e aumentaria a área de reserva de água perto da barragem, o que impediria o transbordamento para os bairros adjacentes.

Para Ronaldo Delfino de Souza, coordenador do Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal, o governo fez uma opção. "Ou alagava a marginal ou matava as pessoas no Pantanal. E matou", disse. "E ainda bota a culpa nas moradias. O Estado só se preocupa com o escoamento de mercadorias, só pensa em rodovia. Vida humana não importa".

Moradores e deputados estaduais fizeram nesta quarta-feira (17) uma inspeção no local para saber se a abertura das comportas tinha relação com o alagamento no Jardim Romano e no Jardim Pantanal, que já dura nove dias.

O movimento, formado por moradores de diversos bairros localizado na várzea do rio Tietê, acusa o governo do Estado e a prefeitura de manterem a água represada além do necessário como forma de obrigar as famílias a deixarem a região, onde será construído o Parque Linear da Várzea do Rio Tietê. Há anos, os moradores resistem em sair dali, porque dizem que o governo não apresenta um projeto habitacional concreto e apenas oferece uma bolsa-aluguel.

"Não era para as máquinas estarem trabalhando aqui? Cadê? Não tem um funcionário do governo aqui", reclamou, apontando para as ilhas que aparecem no meio do rio, logo acima da barragem da Penha. As dragas são vistas somente na parte de baixo da construção.

"Os córregos do Pantanal já estavam muito cheios três dias antes da chuva. Como não abriram a barragem sabendo que ia chover?", perguntou Souza, indignado. "O que a gente viu aqui é que não houve possibilidade de escoamento, porque a água ultrapassou o nível das comportas e não tinha velocidade para descer, não tinha gravidade", concluiu.

Segundo os registros da barragem, no dia 8 a água ficou acima do nível das comportas por 5 a 6 horas. Sérgio explicou que a queda do rio Tietê é de apenas 4% e por isso a vazão demora cerca de 72 horas desde a barragem de Mogi das Cruzes até o centro da cidade -- isso sem chuva. "É demorado, sempre foi", disse.

"Imagina o que uma hora de comportas fechadas não faz de estrago lá no Pantanal", falou Souza, diante dos dados. "Se fecha aqui, a água para de novo, perde velocidade e vai demorar mais 72 horas para descer", afirmou.

Os deputados estaduais que acompanharam a inspeção concordam con a teoria dos moradores. "Foi feita uma escolha e a corda estourou do lado mais fraco", afirmou o deputado estadual Raul Marcelo (PSOL). "É uma questão grave. A falta de comunicação e de um gerenciamento unificado são prova de uma falta de governância e de um planejamento na administração das barragens, o que levou, em grande parte, ao fato do bairro do Pantanal ter sido alagado".

"Há uma estranha coincidência de que no momento da desocupação há um alagamento desses e ninguém consegue escoar a água. Não havia uma inundação dessas há 15 anos e o nível das águas está subindo mesmo sem chuva. É muito estranho e as autoridades têm que explicar", completou o deputado estadual Adriano Diogo (PT).

Eles farão um relatório sobre a inspeção e pretendem denunciar o caso, junto com a situação da estação de tratamento de esgoto, aos Ministérios Públicos Estadual e Federal."



sábado, 19 de dezembro de 2009

Alguns são mais iguais que os outros



O título deste post é uma alusão à clássica frase de George Orwell, "todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros".

Escrevo isto porque venho acompanhando com grande interesse a história sobre a guarda do menino Seal, disputado pelo padrasto brasileiro e pelo pai, norte-americano.

Resumidamente, a história é a seguinte: o menino é filho de um americano e de uma brasileira. Eles se separaram, ela se casou novamente e veio a falecer após o parto da segunda filha - aliás, segundo o noticiário da época em episódio onde há suspeita de erro médico.

Bom, normalmente o que ocorre é o pai ficar com a guarda do menino após a morte da mãe, né ? Mas...

Ocorre que o padrasto do menino é o advogado Paulo Lins e Silva, de família famosa nos tribunais brasileiros. E...

A história sempre é a mesma: o pai do garoto ganha a guarda nos tribunais inferiores, chega no STF o advogado em questão consegue uma liminar. Na última quinta feira o Tribunal Regional Federal concedeu liminar, imediatamente Lins e Silva correu ao STF e obteve em tempo recorde uma liminar suspendendo os efeitos da ação - cujo mérito o STF não julgou ainda.

Ressalto que o Brasil está criando um precedente muito perigoso nas relações internacionais, porque está quebrando o princípio da reciprocidade nestes assuntos. Amanhã ou depois é um brasileiro que necessita trazer seu filho para o Brasil e este precedente pode criar dificuldades.

Contudo, a reflexão que eu queria fazer é como o Judiciário brasileiro trabalha de acordo "com a cara do freguês". Se o padrasto do menino não fosse quem ele é, com estreitas ligações com os próceres da justiça, este caso já não estaria resolvido a favor do pai ?

Este mote pode ser aplicado a outras situações. No Brasil de hoje rico ou famoso só vai preso em uma situação: se não pagar pensão alimentícia. No mais, pode transgredir a lei a vontade que não corre risco de ir para a cadeia.

Se você tem amigos na Justiça também pode se considerar inimputável. Se for juiz, desembargador ou algo parecido, aí tem uma avenida de liberdade pela frente. Pode fazer o que quiser.

Não sou advogado nem tenho saber jurídico, mas dois princípios que devem reger o trabalho togado devem ser o da impessoalidade e o da imparcialidade. Ambos não chegam nem perto dos tribunais brasileiros.

Vigora a "Doutrina Gilmar Mendes": "cadeia é para pobre, preto e puta."

Por isso que já escrevi aqui que, antes da reforma política, mais importante e urgente é a reforma do Judiciário. Político bem ou mal você pode trocar de quatro em quatro anos. Já os juízes...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Final de Semana - Tributo a Walter Alfaiate



Semana complicada, em que deu vontade de enviar gente direto para o inferno.

Nossa música para o final de semana é um tributo ao grande sambista Walter Alfaiate, que se encontra internado com problemas coronarianos em um hospital público da cidade.

Espero que nosso grande compositor e cantor possa sair dessa. O curioso é que seu nome artístico vem do fato do sambista ser alfaiate realmente, cujos ternos sao bastante afamados por sua alta qualidade.

Tive a oportunidade de assisti-lo, juntamente com a cantora Dorina, em um show promovido pela empresa há uns dois anos atrás.

Nossa música é "Sacode, Carola", talvez a mais conhecida do repertório do grande portelense. Letra e música dele.

"Mexe e remexe com jeito, carola
E deixa o papai te aplaudir

(Oi)
Sacode carola
Faz aquele de babado
Faz mais um jogo de samba, carola
E mete o teu sapateado
(Oi de babado e coisa e tal)

(Oi)
Sacode carola
Que eu quero ver sacudir
Mexe e remexe com jeito, carola
E deixa o papai te aplaudir

(Oi)
Sacode carola
Faz aquele de babado (faz)
Faz mais um jogo de samba, carola
E mete o teu sapateado
(Oi de babado e coisa e tal)

(Oi)
Sacode carola
Que eu quero ver sacudir
Mexe e remexe com jeito, carola
E deixa o papai te aplaudir

Esse teu requebrado (Oba!)
Me deixa abafado (Oba!)
Faz mais um bocado (Oba!)
Pro papai te aplaudir

"Isquindin", meu benzinho (Oba!)
Faz mais um pouquinho (Oba!)
Faz mais um passinho (Oba!)
Pururu de samba"
 
Abaixo, uma raridade: um vídeo de Walter Alfaiate cantando "Contos de Areia", samba enredo portelense de 1984 e que já foi tema de nossa coluna "Samba de Terça".

Detran e exame médico vagabundo



Esta semana estou em processo de renovação de carteira do Detran, que está vencendo. Como fiz a prova escrita quando da primeira habilitação, basicamente é pagar a taxa, tirar a foto e fazer o exame médico.

Ontem fui fazer o tal do exame. O Detran-RJ tem um sistema de "sorteio" para indicar a clínica agraciada, que receberá R$ 42 sem fazer muito esforço, como veremos abaixo.

Como indiquei o local de trabalho para fazer o exame, me deram uma clínica em Vila Isabel pertinho do bairro onde labuto, no Estácio. No mapa não dá nem um palmo.

Só consegui horário de manhã cedo. Depois de levar uns quinze minutos até achar uma vaga para estacionar, cheguei com alguma antecedência à clínica para fazer o exame.

Clínica ? Melhor dizer uma sala com duas divisórias: em uma tiram as nossas impressões digitais e preenchemos um formulário, além de pagar a taxa. Na outra é a avaliação propriamente dita.

Ainda esperei um pouco, porque havia uma jovem grávida agendada à minha frente. Fiz os procedimentos e entro na sala do médico, que pelo portunhol tinha todo jeito de ser um daqueles bolivianos que imigraram para o Brasil.

O cidadão me fez duas ou três perguntas, mediu a minha pressão, auscultou, procedeu a dois ou três testes de visão e... me declarou apto. Uma piada. Acho que levei mais tempo procurando vaga para estacionar que no interior da clínica.

Menos mal que fiz o Periódico da companhia há pouco tempo e gozo de boa saúde, mas é esta a avaliação que se procede para reautorizar o sujeiro a dirigir ?

Na prática, é uma mina de ouro que cobra R$ 42 apenas para dar um carimbo na ficha do sujeito e permitir que ele possa continuar dirigindo por mais cinco anos. Se uma clínica destas fizer quarenta avaliações diárias, por mês são aproximadamente R$ 30 mil com pouquíssimo esforço. E olha que não levo em consideração o exame para Primeira Habilitação, onde a taxa é de cerca de R$ 110. Acho que só perde para a agiotagem em rentabilidade de negócio.

Sabendo-se que muitos acidentes são causados por deficiências cognitivas, visuais ou motoras dos condutores, não é de se admirar o elevado índice de acidentes.

Bom, semana que vem pego a carteira nova. Mas que esta avaliação médica é uma farsa, isto o é.

A foto acima foi descolada no blog do jornalista Flávio Gomes, um dos meus favoritos. Mostra como o problema dos acidentes de carro é antigo, e nada mudou neste tempo todo. Ou melhor: hoje a expressão "mulher ao volante, perigo constante" não necessariamente é verdadeira. Só em alguns casos...

Cinecasulofilia - "É Proibido Fumar"

Sexta feira, final de ano se aproximando...

Mas não poderia faltar a nossa coluna sobre cinema, "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o excelente blog de mesmo nome.

Como sempre, escrita pelo crítico e cineasta Marcelo Ikeda, o texto de hoje é sobre o filme "É Proibido Fumar", em cartaz no Riode Janeiro.

Boa leitura.

É Proibido Fumar
De Anna Muylaert


"Vamos direto ao ponto: é Proibido Fumar é um olhar sobre a questão ética no Brasil, ou ainda, uma investigação particular em como é possível sobreviver diante de um país “que não deu tão certo”. Babe – como o próprio nome já nos indica – é uma mulher que vive do passado: ela quer recuperar o antigo sofá da Tia Dinah. Uma conversa com sua irmã – rica, alta, bem-sucedida – é uma espécie de síntese do filme: enquanto a irmã torrou a herança para estudas nos Estados Unidos, Babe permaneceu na casa da mãe, “com seu antigo violão”. O violão, a música, é um símbolo desse olhar saudosista para um passado, diante de uma vida que não avança.

Quando Babe fica triste com a vida, ela encontra rapidamente uma saída: traga um cigarro. Ela no fundo sabe que “o cigarro parece ser seu amigo mas no fundo é seu maior inimigo”, mas “dá um jeitinho”: o cigarro é o subterfúgio para apagar um pouco a dor de enfrentar a verdadeira origem das coisas, e se não é possível uma solução de verdade, pelo menos se pode tragar um cigarro. O cigarro é uma droga entorpecente, que anestesia a dor da experiência da vida. Babe assim não enfrenta seus problemas de frente: de cigarro em cigarro, ela “vai levando essa vida”. Os créditos de abertura do filme mostram a fumaça de um cigarro, como se o próprio cinema fosse uma espécie de droga entorpecente diante do marasmo da vida.

A música – ou o violão que Babe nunca toca mas que representa essa amarra romântica junto a um passado – também não deixa de ser espelho dessa fissura da vida. Afinal de contas, ninguém gosta de Chico Buarque, e sim os sambas. “Canta canta minha gente deixa a tristeza pra lá. Canta forte canta alto que a vida vai melhorar”.

Mas o ponto é que Anna Muylaert vê uma certa beleza nessa imobilidade de vida. Enxerga nas entrelinhas do gesto passivo de Babe – fumar um cigarro – um certo ato de resistência diante de uma vida cada vez mais guiada pela obsessão pela eficiência, pela necessidade de ser um vencedor. Vê uma beleza romântica, um certo gesto zen de aceitação (não de resignação) diante dos limites e da dificuldade da vida, uma certa sabedoria cotidiana. Faz um filme intimista, quase todo dentro de um apartamento, em torno de um meio-casal. Acontece que – ao contrário do cinema de Ozu, por exemplo – Muylaert busca as superfícies dessa imagem e desse relacionamento, se esquiva das verdadeiras questões, sejam elas estéticas ou mesmo afetivas sobre sua personagem. Muylaert faz piadas rasteiras sobre esse encontro, parece no meio do filme mais interessada em brincar com certos climas do cinema de gênero (um romance se torna um filme policial), com uma virada no meio do filme que nos lembra a quebra narrativa de seu primeiro filme – Durval Discos. Assim como Babe, Muylaert, diante do anacronismo do cinema brasileiro, parece que “vai levando essa vida”, “vai levando esse filme”, sem tomar uma decisão firme sobre o que de fato deseja essa mulher.

É Proibido Fumar é um filme sobre a questão ética no Brasil. Babe fuma para ir levando, e tudo o mais se arruma no jeitinho. Miklos vai levando o relacionamento com Babe, já que parece que é melhor ficar com uma do que perder as duas, já que ele não consegue ficar com quem realmente é fissurado. O porteiro do prédio também “arruma um jeitinho” para voltar para sua terra natal. O que parece interessante no filme é a posição dúbia da realizadora diante do universo que retrata: às vezes possui uma posição crítica, às vezes parece gostar da ingenuidade e do descompromisso desse modo de estar no mundo, às vezes parece desinteressada, preferindo os meios-tons e as formas narrativas. A posição de Muylaert como diretora parece ter muito em comum com a natureza de sua protagonista, uma enorme dificuldade de saber o que quer: espia pelo buraco da parede o mundo do lado, parece ser uma mulher independente mas no fundo é uma mulher indecisa e solitária.

Seduzida com o romantismo da opção pelo isolamento de Babe, mas também sem querer aprofundar as conseqüências dessa opção, Muylaert faz um dos filmes mais brasileiros do cinema recente: simplesmente “vai levando essa vida”. Ao contrário de “é proibido fumar”, adverte o oposto: “é preciso fumar”. Poderia pelo menos atrair as companhias de cigarro como investidoras da Lei do Audiovisual. Há uma certa beleza nessa opção, nesse olhar para o pequeno, nessa tentativa de jogar para longe um certo rancor típico de um cinema paulista de anos atrás. Mas apesar de alguns momentos bonitos, é pouco."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O egoísmo dos evangélicos (II)

Semana passada eu tinha um convite para uma formatura, a qual acabei não indo devido a outros compromissos. Entretanto, queria falar um pouquinho sobre algo que me incomoda terrivelmente.

A festa era comandada por pessoas ligadas à religião evangélica e, obviamente, não tinha a menor chance de haver uma cervejinha sequer.

Sinceramente, acho isso um tremendo egoísmo. É algo na linha "você está em minha casa, tem de fazer o que eu quero, na hora que eu quero, do jeito que eu quero." Não há a menor preocupação em criar um clima agradável para recepcionar aqueles que são visitas e que professam outro tipo de religião.

Faço a ressalva de que o evento em questão não era dentro de uma igreja.

O meu raciocínio é simples: se eu convido pessoas para a minha casa, penso em formas de agradar aqueles que dispendem o seu tempo, precioso tempo, a fim de prestigiar o nosso evento.

Por exemplo: eu não fumo, mas se sei que receberei um fumante, coloco um cinzeiro na varanda do apartamento. Não custa nada.

Pois é. Para os evangélicos, mais importante que agradar seus convidados é impor a sua Fé a ferro e fogo. Aquela cervejinha e mesmo música que não seja produção das próprias igrejas - a chamada música "gospel", que não tem nada a ver com a original americana - são inapelavelmente vetadas.

Ou seja, mesmo que não sejamos praticantes da religião, temos de segui-la em eventos por estes organizados. Mal comparando, seria a mesma coisa que eu dar uma festa e obrigar todos os participantes a receberem Johrei, fazendo três reverências e três palmas.

Ainda pode ser pior: em muitos casos, a pregação é feita no sentido de converter os não-crentes. Certa vez estive em um casamento onde o objetivo do pastor era mais convencer os presentes a seguirem sua crença que oficiar o casamento. Nós, que estamos ali por termos laços com as pessoas, somos obrigados a escutar esta cantilena.

Que fique claro que não sou pessoa de ficar bêbado ou de ter alteração. Bebo minha cervejinha socialmente, como os meus 38 leitores sabem perfeitamente.

É muito chato para quem não é crente ter de ficar "no bico seco" e ouvindo música religiosa quando não se é evangélico. Denota uma falta de respeito com aqueles que nossos convidados são. E depois não entendem quando damos uma desculpa qualquer para não ir.

Ah, não quer ver pessoas bêbadas ? Ok, serve duas ou três rodadas de cerveja e vinho ou direciona apenas a quem bebe. Coloca uma música suave. Evita as pregações inúteis.

Mas não. A imposição das nossas convicções é mais importante que qualquer outra coisa. Somos os escolhidos, eles são hereges e precisam aprender conosco se não quiserem ir ao inferno. Isso é muito chato.

Como escrevi no artigo anterior, este é o egoísmo dos evangélicos.

P.S. - Pelo menos, depois de dez anos de convivência, em eventos (quando ocorrem  na casa das pessoas, lógico) da família da minha esposa já não me olham de cara feia quando levo minha cota particular de latinhas. Até dão uma 'bicada' escondidos... mas este comportamento é tema para outro post.

Sobretudo

A partir de hoje, teremos uma coluna nova no blog.

Ela se chama "Sobretudo" e tem como autor o amigo , rubro-negro e publicitário Affonso Romero - que já escreveu aqui alguns textos sobre o Clube de Regatas do Flamengo.

Esta coluna trará, dentro do espírito do Ouro de Tolo, textos e temas que fujam do olhar convencional sobre a vida, os fatos e as pessoas.

A coluna de estréia será publicada hoje, quinta, mas a partir da próxima semana a "Sobretudo" estará sempre aos sábados com um novo texto publicado.

O texto de estréia é uma fábula a partir do "curling", esporte de inverno que é uma espécie de bocha sobre gelo. Vamos ao texto e seja bem vindo o nosso novo colunista.

"Brasil, dezembro de 2075: Flamengo Hexacampeão Brasileiro de Curling

Vou lhe contar uma história muito improvável, caríssimo leitor. Mas um cientista amigo meu viajou no tempo e me garantiu que é verídica. Sim, o Flamengo será Hexacampeão Brasileiro de uma modalidade esportiva chamada curling no ano de 2075.

Talvez você não saiba, mas o curling é uma espécie de bocha jogada sobre uma pista de gelo. Esta é uma definição pobre, e simplificar assim o futuro esporte das massas poderia me fazer ser chamado de herege no final deste século XXI. Bem, mas por enquanto, já nos é suficiente saber que é um esporte que faz parte do programa das Olimpíadas de Inverno e é bastante jogado hoje no Canadá.

Voltando à história futura: em 2020, alguns jovens cariocas retornando de um curso feito no Canadá, trouxeram o material necessário para praticar aqui o jogo e improvisaram uma “pelada” com amigos locais num rinque de patinação de um shopping da Ilha do Governador. O grupo foi crescendo, atraindo a atenção de uns passantes, até que alguém resolveu que aquela brincadeira deveria ser levada mais a sério.

Um deles, sócio do Flamengo, procurou o departamento de bocha do rubro-negro, propondo uma adesão do clube ao novo esporte que, apesar de ser de inverno, também poderia ser jogado em recintos fechados e refrigerados nestes calorentos trópicos. Apesar de certa semelhança com a bocha, aquela proposta soou exótica demais ao Flamengo. Afinal, o clube consagrado como o então duodecacampeão nacional de futebol não queria colocar os pés numa fria.

Sendo assim, a turma resolveu fundar um novo clube, batizado de Fluminense Curling Club, assim mesmo em inglês, para soar bem pedante. Escolheram as cores sépia, lilás e anil (veja bem: anil, não apenas azul). Alguns sócios do Flamengo ajudaram a fundar o novo clube, mantendo-se associados a ambos, porque se empolgaram com aquele novo jogo. Entre eles, o nonagenário Presidente Marcio Braga, em sua décima-quinta passagem pela direção do Flamengo, que virou fã incondicional do curling e está na primeira ata do FCC como fundador do clube. Assim, montaram uma quadra definitiva e de curling no aprazível bairro das Laranjeiras e ganharam 5 dos 6 primeiros Estaduais de curling, porque só tinham para competir o BotaGelo CC.

Até que, um dia, o técnico do FCC resolveu escalar um amigo na final do Estadual de 2027, afastando o capitão e principal craque do time e criando um tremendo mal-estar entre os atletas. O time jogou e foi campeão mesmo assim mas, no dia seguinte, todos os principais jogadores pediram desligamento.

Naquele intervalo de tempo, o curling deixava de ser tão exótico, apesar de continuar restrito a poucos participantes. Mas a ESPN, na falta de programação melhor, passou a transmitir alguns jogos e uma garotada de menor poder aquisitivo improvisava uns jogos semelhantes com chaleiras e vassouras sobre cimento liso. Por isso mesmo, não foi tanto estranhamento a reação do Flamengo quando aquela turma voltou a procurar o clube propondo novamente que fosse adotada pelos ares da Gávea.

Depois de algum debate, e apesar da resistência do pessoal do futebol, o Flamengo passou a disputar o campeonato de curling já no ano seguinte, ainda que com um uniforme um pouco diferente daquele usado no futebol, uma camisa chamada de “pipa-de-centavo”, também nas cores vermelha e preta.

A novidade de ter o time de maior torcida do Brasil disputando o jogo fez com que rapidamente o curling ganhasse visibilidade (no primeiro momento) e imensa popularidade (logo após).

Você está a par, caro leitor, do chamado “efeito-estufa” e da acelerada subida da temperatura média do Planeta. Imagine que, dentro de poucos anos, será praticamente impossível assistir a um jogo de futebol no Maracanã num domingo de sol. Ninguém resistirá ao calor, nem mesmo os atletas em campo. Enquanto isso, o curling será disputado em confortáveis e cada vez mais acessíveis ginásios climatizados.

Some-se isso à emocionante disputa de um jogo de curling (não sei se é de seu conhecimento, mas o curlig é chamado de “o xadrez do gelo”) e não fica difícil perceber as razões pelas quais o curling rapidamente superou o futebol em popularidade, importância e identificação com a cultura popular brasileira.

A história corre, como deveria ser, até que, já no ano de 2075, o Flamengo, ainda o clube de maior torcida do Brasil, uma verdadeira Nação com 97 milhões de almas, fez uma imensa festa rubro-negra do Oiapoque a Punta del Leste para comemorar o hexacampeonato brasileiro de curling. É isto (ou melhor: será), acredite ou não o paciente leitor.

Você me dirá: mas que história improvável! Conforme o prometido, esquecido leitor. Veja na primeira linha, eu já previa esta sua reação. Improvável, sim; impossível, jamais.

Lembre-se que, há um século, era o futebol que parecia exótico demais, e era o remo que movia multidões (multidão, naquela época, era um conceito que envolvia umas poucas centenas de pessoas) até a beira da Baía de Guanabara para ver os atletas do Flamengo derrotando os jovens portugueses, filhos da elite comercial do Brasil neo-republicano. E soou bastante estranho aquele pedido de um bando de jovens ricos - alguns, suíços meio afrescalhados - levados por uns sócios ao Flamengo e propondo que o clube das regatas passasse a disputar partidas de um esporte em que havia contato físico e cujo objetivo parecia ser correr atrás de uma esfera de couro.

E assim, com a assinatura do presidente do já popular Flamengo de então, fez-se a ata inaugural do Fluminense Football Club. Até que, ao admitir o futebol anos depois, o Flamengo abriu as portas da popularidade ao “rude esporte bretão”, e o resto é história.

Como se repetirá na história do curling, que alguém contará daqui a um século, foi uma dissidência do Flamengo quem “fundou” o Fluminense, e não o contrário. O Flamengo já existia, já era popular, já era campeão no mar. E não foi a popularidade do futebol quem fez o Flamengo aderir ao esporte. O futebol só se tornou popular no Rio (e, por conseguinte, no Brasil da República Velha) depois da adesão do Flamengo, coincidência ou não – algum dia desses eu conto que não, e por que. Mas no inicio da década de 1910, o futebol carioca ainda era restrito às elites, fechado atrás de muros de clubes prestigiosos e sua popularização tão improvável quanto parece hoje ao amigo leitor a popularidade do curling em 2075.

Pois assim será: prepare o coração de seus netos. No quarto final do século XXI o mundo será bastante diverso do atual. A temperatura ao ar livre será insuportável, ilhas sumirão do mapa, o curling será mais popular que o futebol. Aliás, o que é mesmo futebol? Mas uma coisa permanecerá: o Flamengo ainda será hexacampeão brasileiro. De curling, mas será."

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Propagandas Infantis

Tenho o hábito de, quando acordo pela manhã, ligar a televisão no canal Cartoon Network. Primeiro porque passam alguns desenhos antigos de que gosto e segundo porque as meninas acordam cedo e assim a mãe delas consegue dormir um pouco mais.

Ontem, apressado e atrasado para sair de casa, me deparo com uma série de comerciais no referido canal. Todos, sem exceção, estimulando o consumo das crianças e, principalmente, o das meninas - a proporção era de três comerciais de bonecas para um voltado aos meninos.

Pois é. O comercial mais inacreditável era o da boneca Polly (uma espécie de "Barbie paraguaia") que exibia uma espécie de autorama voltado às crianças do sexo feminino. A "linha de chegada" determinada pelo brinquedo (foto) nada mais era que a porta de entrada do shopping!

O comercial reforçava o tempo inteiro esta idéia: "seja mais rápida, vença suas amigas e chegue primeiro ao shopping". Ou seja, além de estimular a compra do brinquedo, ainda reforça a idéia de que a felicidade reside em consumir.

Ressalto que o público alvo deste tipo de comercial, no canal citado, são crianças que não possuem o menor discernimento no uso do dinheiro, bem como de valores considerados adultos. Não possuem qualquer bagagem e repetem, tal papagaios, o que ouvem nos comerciais. O indefectível "compra, pai?"

Obviamente que meu papel de pai reside em incutir em minhas filhas os valores adequados, mas sou radical: este tipo de comercial, no canal em que é veiculado, deveria ser proibido.

Mal comparando, é o mesmo caso das leis que proíbem a propaganda de bebidas alcoólicas ou do cigarro. Os comerciais de brinquedos vendem valores que absolutamente os produtos não tem, e pior: para um público que ainda está sendo formado, não tendo discernimento do que é certo e errado.

Da mesma maneira em que os comerciais de fumo e álcool são proibidos por se associarem a benefícios intangíveis somente vistos pelos profissionais de marketing, os comerciais de bonecas estimulam o consumo desenfreado por parte de mentes ainda em formação.

Infelizmente, é lamentável o que o ser humano é capaz de fazer por causa de dinheiro. É nestas horas em que a regulação do Estado se faz necessária.

Canais infantis, voltados para um público infantil ou pré-adolescente, deveriam ser impedidos de veicular publicidade. Até porque o assinante já paga caro para assistir estes canais.

Mas isso é outra história...

As modernas máquinas digitais

Como escrevi no post anterior, precisei comprar uma máquina fotográfica para um evento, pois a câmera da minha esposa havia se quebrado.

Já estava querendo trocar a câmera digital há algum tempo, entretanto haviam outras prioridades e vinha adiando.

Queria uma máquina da Kodak, porque ela tem uma característica que me é importante, fotografar bem alvos em movimento. Para quem tira 300 fotos por noite na Sapucaí isto faz muita diferença - a Sony que tínhamos era horrorosa neste particular.

Adquiri a Kodak C1013 (10.3 MP), que é um exemplar longe de ser "top de linha", mas que me atende perfeitamente e a um preço bastante razoável. O que me impressionou é a quantidade de recursos de que a máquina dispõe para que as fotos possam sair em melhor qualidade e sem retrabalho.

Confesso que ainda irei levar um tempo para entender a máquina, porque tive pouco tempo e as possibilidades tanto de modos de fotografia quanto de pré-edição das fotos no próprio aparelho são gigantescas - e novas para a minha compreensão.

Mas é sinal da evolução tecnológica termos produtos com cada vez mais recursos, a preços menores, com mais facilidades. No caso em questão foi um choque para mim, que já achava excelente a câmera acoplada ao meu aparelho celular - que é superior a muita máquina badalada no mercado.

Bom, o que importa é que consegui tirar as fotos no evento, como podem ver abaixo. Aos poucos aprendo como mexer nela direito. O ser humano existe para isso.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Facilidade de crédito e análise macroeconômica

Sábado passado precisei comprar às pressas uma máquina fotográfica, para um evento que tinha no domingo.

Como estou com o limite do meu cartão todo tomado ainda com aquela história de aluguel de carro e franquia de seguradora, e já estava tarde, optei por ir às Casas Bahia que ficam na esquina da rua onde moro - aproximadamente a um quilômetro de distância.

Incrível: apresentei identidade, CPF e o crachá da empresa em que trabalho, e me deram o crédito ! Escolhi a máquina que me interessava, da Kodak, passei no caixa e a fatura chega dia 25 na minha casa.

Tive um exemplo claro do porquê o Pão de Açúcar pagou cerca de R$ 1,4 bilhão pelo controle da empresa. O importante é vender.

Obviamente, se tivesse pesquisado preço teria achado talvez um preço menor - embora uma rápida pesquisa feita enquanto escrevia este post me mostrou que paguei um preço bastante razoável. Entretanto, como escrevi acima, foi uma compra de urgência.

Este caso me leva a refletir sobre outro aspecto, que foi a expansão do crédito na economia brasileira.

Os tempos de alta inflação deixaram os bancos locais muito acomodados, porque o ganho com as aplicações em títulos do governo tinham altíssimo rendimento e risco praticamente nulo.

Com isso, ficou comprometida e colocada em segundo plano a função primordial bancária, que é a de proporcionar crédito à economia.

Nos últimos anos, com a queda de rendimento dos títulos do governo proporcionada pela progressiva baixa da taxa básica de juros os bancos redescobriram este filão e voltaram a emprestar.

Observou-se um duplo movimento que expandiu a nossa economia: por um lado a expansão do emprego e dos salários, aumentando a massa salarial; do outro, a elevação do crédito ao consumidor.

Com isso, gerou-se um círculo virtuoso: com o maior consumo, as empresas vendem mais, contratam mais empregados, aumentam a sua produção e permitem o aumento da massa salarial. Esta gera uma nova rodada de expansão do consumo, e o ciclo segue.

Ressalto que a aposta no mercado interno como resposta à crise mundial de 2008 revelou-se extremamente acertada, entretanto só foi possível devido à política econômica de expansão de emprego e de renda via massa salarial e programas de transferência de renda.

Em crises semelhantes na década de 90 optou-se por uma política recessiva de compressão salarial, o que elevou a desigualdade de renda e aprofundou a crise; haja visto que as empresas ficaram sem ter para quem vender, seja no plano interno, seja no externo.

Também não havia disponibilidade de crédito devido às estratosféricas taxas de jurtos daquele período. Nunca o setor bancário ganhou tanto dinheiro em tão pouco tempo, com risco mínimo.

Concluindo, economia em que não há forte oferta de crédito é economia que não cresce. Por outro lado há a necessidade de expansão de renda e de emprego a fim de sustentar a inadimplência em níveis aceitáveis.