sábado, 15 de maio de 2010

Eis que chegamos ao primeiro aniversário...


Bom, hoje, 15 de Maio, um ano de Ouro de Tolo. Parece que foi ontem.

Originalmente este espaço foi concebido como uma espécie de "descompressão" da rotina massacrante do dia a dia. Havia pensado muito diferente este espaço originalmente, mas como um filho que criamos para o mundo ele passou a andar nas próprias pernas e ganhou vida própria.

De certa forma este blog é a cara do pai: polêmico, multi-facetado, buscando o aspecto inusual dos assuntos e sempre respeitando o direito à discordância e estabelecendo um espaço de debate permanente.

Não falo muito mais porque a coluna "Sobretudo" de amanhã faz uma descrição melhor que a mais inspirada que poderia escrever.

Quero agradecer nominalmente a todos aqueles que brilham e brilharam com suas colunas: Affonso Romero, Fabrício Gomes, Marcelo Einicker, Marcelo Ikeda, Walkir Fernandes e Adriana Martins.

Também agradecer a monstros sagrados como Luis Nassif, Luiz Carlos Azenha, Marco Aurélio Mello (que, amanhã, assina coluna especial de aniversário), Lúcio de Castro, Lédio Carmona, Rodrigo Mattar, Brizola Neto, Rodrigo Vianna e outros próceres blogueiros que tiveram textos reproduzidos aqui.

Também a Alisson Fúrfuro, que assina as imagens de cabeçalho - bem diferentes da tosca foto que abre este post e foi a primeira imagem utilizada.

Gostaria de poder escrever mais, mas o tempo anda curto e, hoje, eu não consigo mais atualizar o blog pela rede do trabalho. Por isso o retorno nos comentários está mais lento.

E acima de tudo quero agradecer aos meus leitores e comentaristas, que levam o Ouro de Tolo ao patamar de aproximadamente 140 acessos diários de média hoje em dia.


Em um ano - o contador foi instalado em 19 de maio de 2009 - o blog teve 36.348 acessos únicos, o que dá  uma média de 100 acessos diários aproximadamente. Foram 63.597 pages wiews neste período, lembrando que com apenas uma visualização se lê uma semana de blog.

Maio caminha para ser o mês com maior número de acessos.


Ressalte-se que em quatro meses e meio de 2010 já tivemos mais acessos únicos que todo o ano passado. São dados do Statcounter e se referem às 19:30 de ontem, 14 de maio.

Foram 775 posts neste ano inicial.

E o Ouro de Tolo sempre manterá a sua proposta, que é a de buscar outras visões dos fatos, refletir o que a correria do dia a dia não nos permite parar para pensar e buscar trazer opiniões e debates. Além de literatura.

Estarei em São Paulo este final de semana, em um curso no Solo Sagrado, mas o blog terá uma especialíssima programação em comemoração a seu aniversário. Leia, comente e divulgue.

E, acima de tudo, obrigado !!!!!

P.S. - Não deixe de concorrer aos livros, o post para inscrição está aqui.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Final de Semana - "Teatro dos Vampiros"



Final de semana, amanhã aniversário do blog - com direito a novo visual e programação especial - e uma música para o final de semana sobre a qual não irei escrever muito. Deixo apenas a letra.

Acho que os leitores gostarão.

Teatro Dos Vampiros

Legião Urbana

(Renato Russo)

"Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...

E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
É sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...

Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão procurando emprego...

Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...

Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito...

Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo
E não consegui dormir...

Vamos sair!
Mas estamos sem dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...

Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém..."


Promoção de Aniversário


Bom, com o novo layout temos início à comemoração do primeiro aniversário do Ouro de Tolo, a se completar amanhã, 15 de maio.

Como forma de marcar este primeiro natalício estarei dando de presente dois livros, ambos temas de nossa série "Resenha Literária". O primeiro (acima) é Sangue Azul, de Leonardo Gudel. Ele retrata o cotidiano aterrorizador da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

O segundo é "Conquistando o Inimigo", abaixo, que conta como Nelson Mandela usou o esporte para proceder à pacificação da África do Sul. Ambos livros excelentes e que foram resenhados aqui.

Para concorrer é fácil: basta colocar um comentário neste post com nome, cidade, qual o livro de preferência e uma frase sobre o Ouro de Tolo ou o dono deste blog. As duas frases que eu considerar as mais criativas e originais serão premiadas, uma para cada livro.

Participe ! O resultado será divulgado na terça feira à tarde.


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Imagens do Maraca


Bom, sobre o jogo de ontem não quero falar muito, apenas que levei uma hora e quarenta do Centro da Cidade ao Maracanã, um percurso de aproximadamente sete quilômetros.

Coloco aqui fotos e vídeo feitos pelo leitor e amigo Fabrício Gomes, que mostram a beleza da torcida rubro-negra, a Magnética. Também é importante para notar o ponto do estádio onde eu estava.


A homenagem ao time Campeão Mundial em 1981.


Momentos antes da entrada do time em campo.


Mais expectativa.


Com o novo - e belo - Manto Sagrado.

Julgamentos, maniqueísmos, imprecisões e zonas cinzentas


Um dos grandes males da vida cotidiana é a maldita mania que o ser humano tem de sair estabelecendo julgamentos e penas em tudo o que vê.

Aferrado a códigos de conduta duvidosos e a visões estreitas de vida, o indivíduo tende a rotular e classificar tudo como "bem ou mal", "certo ou errado", "correto ou incorreto", "ético ou anti-ético". Determina vereditos e informa "penas".

Não se pratica a análise das razões. Pensa-se apenas em encaixar pessoas e condutas em uma das "formas" ou "caixinhas" usadas pelo determinado como "senso comum". Não se analisam as razões objetivas de comportamentos ou atitudes, mas sim condena-se ou absolve-se em um código politicamente correto bastante falho.

Muitas vezes, o que parece incompreensível ou absurdo torna-se bastante razoável quando observamos as condições existentes. A postura "incorreta" ou "inexplicável" pode ter todo sentido quando analisamos as causas que levaram àquela situação. Outras questões podem até ser incorretas segundo os códigos morais ou  regimentais, mas tornam-se justificáveis - embora ainda incorretas - quando analisamos o quadro geral.

Algo também irritante é o maniqueísmo. As pessoas e situações tendem a ser classificadas em extremos, sem perceber que entre os dois pontos limite existem diversos posicionamentos que necessariamente podem ser analisados e aceitos. É como se houvesse um permanente clima de "Fla-Flu" em todos os aspectos da vida humana.

Também existem "zonas cinzentas", com situações indefinidas, perfeitamente normais. A sociedade vive em transição, o homem vive em transição, e comportamentos e atitudes aparentemente conflitantes podem conviver por períodos de tempo.

Mais um ponto que perpassa negativamente isto tudo é a praga chamada hipocrisia. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço, mesmo quando se pratica o que se condena. Em especial os evangélicos são mestres nesta "arte".

Esquece-se que se destroem vidas ou deixa-se de tomar atitudes necessárias por causa destes julgamentos e pressões da sociedade, sem ter acesso aos motivos e ao quadro. Quantas pessoas infelizes temos por terem medo deste tipo de situação e acabarem se acomodando com medo do que ocorre e ecoa em suas tangências ? Quantas vidas destruídas por vereditos inadequados e apressados ?

Cada dia mais temos compulsão pela vida alheia e isso pode ser visto pelo cada vez maior sucesso destas revistas e colunas de jornais e internet dedicadas à vida das "celebridades". Julgamos seus comportamentos como se parentes fôssemos. E reproduzimos este comportamento com as pessoas em volta, dando rótulos a tudo e engessando a espontaneidade.

Mandamos para a forca sem direito à defesa e sem compreender as razões humanas. Dane-se, não sou eu quem está lá. infelizmente o pensamento é este.

O mundo seria bem melhor com um ser humano menos hipócrita, menos politicamente correto, menos "juiz" e menos maniqueísta. Deixem o julgamento para o Juízo Final individual.

Onde há julgamento, troque pela compaixão. Onde há hipocrisia, troque pela verdade. Onde há maniqueísmo, troque pela compreensão. Onde há condenação, troque pela solidariedade.

Pense nisto.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O fim do Canecão


Uma notícia que passou meio despercebida com a euforia da convocação da Seleção Brasileira para a próxima Copa do Mundo foi o fechamento daquela que é considerada a mais importante e tradicional casa de espetáculos da cidade, o Canecão.

Após uma longa disputa judicial com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que data desde 1997, esta finalmente conseguiu a reintegração de posse do local após uma longa batalha jurídica.

A casa foi aberta em 1967 como uma cervejaria trazendo shows de variedades. À época a responsável pelo terreno era a extinta Associação de Servidores Civis do Brasil, que ao invés de utilizar o valorizado espaço para sua sede social o sublocava.

Em 1992 a universidade cedeu por cinco anos o espaço à casa de shows; entretanto, em 1997 ao término deste houve uma batalha judicial pela retomada do terreno. Em 2002 o Tribunal de Contas da União decidiu que a UFRJ deveria retomar o terreno e o prédio, e ano passado a Procuradoria Regional Federal do Rio de Janeiro decidiu que não somente os donos do Canecão deveriam fechar o local e devolvê-lo à universidade como pagar R$ 4 milhões a título de indenização. Com uma série de recursos a execução foi protelada, até que o local finalmente foi fechado anteontem.

O Canecão foi palco de boa parte da história moderna da Música Popular Brasileira. Por seu palco passaram monstros sagrados como Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Maria Bethania e Gal Costa, entre outros.

Também foi local de momentos históricos, como o último show da carreira de Cazuza - já bastante doente - e o lançamento da carreira de Elymar Santos, que, "na cara e na coragem", alugou a casa e lançou-se para o sucesso.

Sem dúvida alguma, é uma perda para a cidade, já carente de grandes casas de espetáculos. É mais um golpe na noite carioca, que vem sofrendo com as consequências da chamada "Lei Seca" e com dificuldade de transporte que não o carro particular.

Talvez tenha faltado à direção da universidade um pouco de flexibilidade para encontrar uma solução que não resultasse no lamentável epílogo da última segunda feira. Conheço o hoje reitor Aloísio Teixeira dos meus tempos de graduação em Economia e ele não era exatamente um especialista na arte de negociar.

A UFRJ alega que criará no espaço um Centro Cultural, entretanto tenho sérias dúvidas se realmente será dada esta destinação ao terreno. Não duvido que fique fechado, apodrecendo.

Fui a poucos shows no Canecão, mas tenho a satisfação de dizer que vi a minha "Santíssima Trindade" ao vivo na casa de Botafogo: Paulinho da Viola (em duas ocasiões, 1997 e em 2001), Chico Buarque (1999) e Maria Bethania (2009, última vez em que estive lá). O som é bastante satisfatório e a visão do palco, mesmo nos lugares mais distantes, é aceitável.

Entretanto, decisão judicial não se discute, cumpre-se. Ficará a memória, perdem-se os empregos e perde-se uma boa opção de show. Paciência, é o que dirão os defensores da lei a qualquer custo. Não me incluo entre estes, um bom acordo entre as partes é sempre melhor alternativa à lei pura e fria.

(Foto: O Globo)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Dunga e Milton Neves



Não sou exatamente um fã do atual técnico da Seleção Brasileira, embora reconheça que o seu trabalho redespertou o interesse tanto dos jogadores como da própria torcida pela Seleção.

Mas não posso deixar de parabenizar a resposta dada pelo técnico ao "jornalista" Milton Neves na coletiva de hoje após o anúncio dos jogadores que defenderão a seleção na Copa de 2010. Colocou-o em seu devido lugar, o de "Rei do Merchan". Assistam e tirem suas próprias conclusões.

A propósito, você compraria um carro usado do "jornalista" em questão ? Eu jamais. Este cidadão é o exemplo mais acabado de uma praga que assola o jornalismo esportivo, que é o conflito de interesses.

19:30



A procura de ingressos para a partida pelas Quartas de Final da Taça Libertadores da América entre Flamengo e Universidade do Chile está superando todas as melhores expectativas. Até a noite de ontem haviam sido vendidos cerca de 51 mil ingressos e a expectativa é que durante o dia de hoje sejam vendidos os ingressos restantes. A expectativa é de 84 mil pessoas no Maracanã na noite de amanhã.

Evidentemente que a épica classificação diante do Corinthians aumentou o interesse do torcedor rubro negro pela partida, mas há outro fator que queria ressaltar como fator indutor da demanda pelos ingressos: o horário do jogo.

Por imposição da tv aberta, o Flamengo vem jogando sempre no horário "de boate" de 21:50, que significa ir ao ar após a novela e extremo sacrifício àqueles que vão ao estádio. O jogo termina por volta da meia noite, o que significa que haverá dificuldades de retorno para casa para quem depende de transporte público - por exemplo, o Metrô só funciona até vinte e três horas - e o dia seguinte de trabalho está irremediavelmente comprometido devido às poucas horas de sono.

Chegou a ocorrer o absurdo de jogar neste horário no feriado de 21 de abril, quando poderia ter sido perfeitamente à tarde.

A emissora diz possuir pesquisas dando conta de que o público que vai ao estádio "prefere" este horário. Entretanto, nunca vi estes números, e uma preferência por ir dormir quase duas da matina beira quase a esquizofrenia, a meu ver.

Na prática, este horário atende aos interesses comerciais representados pela novela das nove, que não pode ser deslocada de seu horário. Durante o horário eleitoral gratuito teremos jogos no inacreditável horário das 22:30, o que significa partidas se encerrando quase à uma da manhã.

Entretanto, para esta importante partida do esquadrão rubro-negro, surpreendentemente a Rede Globo optou por não transmitir o jogo em rede aberta, o que permitiu a marcação da partida para o horário das 19:30.

Este é um horário que facilita bastante o torcedor. Inicia-se de forma a permitir que ele vá direto do trabalho e se encerra de maneira a facilitar o translado e posterior descanso daqueles que vão ao estádio. Talvez seja um pouco cedo demais dependendo de onde se trabalhe - 20 horas poderia ser melhor - mas é muito superior à "Sessão Coruja".

A televisão alega que paga caro pelos direitos e que pode impor data e horário das partidas. Evidente que seus interesses devem ser atendidos, mas dentro das normas do bom senso e buscando conciliar os objetivos àqueles que pagam para assistir o jogo "in loco".

Senão, daqui a pouco poderemos ter jogos às seis da manhã ou ao meio dia de uma segunda feira, neste raciocínio de "eu pago, eu posso tudo". E o torcedor/espectador que se dane.

Este ano de 2010 tivemos outro caso na mesma competição, que relatei aqui. O jogo contra o mesmo adversário pela primeira fase foi remarcado para uma data e local onde o estádio não estava em suas melhores condições devido à chuva e num horário onde as pessoas trabalhavam. Com o estádio vazio o time empatou e este resultado quase custou a eliminação da competição - com sérios prejuízos.

Por meu turno havia decidido que somente iria ao estádio às 22 horas em caso de finalíssima de uma competição. Contudo estarei no estádio amanhã, sabendo que no máximo às dez da noite já estarei em casa - a tempo de assistir aos melhores momentos e ainda dormir em um horário condizente com quem inicia a sua jornada de trabalho às oito horas da manhã.

O vídeo é da última vez em que o Flamengo jogou neste horário pela Libertadores - no feriado de vinte e três de abril de 2008. Também foi a última vez em que fui a um jogo no estádio em meio de semana e a primeira vez em que a Maria Clara, minha filha mais velha, esteve no estádio. Vitória flamenga.

Lembro que antigamente os jogos à noite eram, no máximo, às 21 horas. Espero que a lotação que se espera esgotada desta partida de amanhã possa fazer os homens que mandam no futebol brasileiro refletirem sobre o absurdo de certas medidas adotadas.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O jacaré


O como sempre bem informado Marco Aurélio Mello em seu DoLadoDeLá (link ao lado) informa que o Presidente Lula foi a campo para diminuir a "temperatura" desta pré-campanha presidencial.

Pelo relato, parece que está se costurando uma espécie de 'acordo' a fim de que, qualquer que seja o resultado das eleições, permitir que não haja grandes rupturas na condução da política e especialmente da economia. Por outro lado, proporcionar aos maiores veículos de comunicação do país uma espécie de "saída honrosa" da radicalização em que se envolveram, inclusive com calúnias e inverdades.

Agora, algumas coisas deste "acordo" me parecem absolutamente incoerentes.

Um bom exemplo seria a eventual manutenção do presidente da Petrobras. Ora, a atuação da oposição no debate do marco regulatório é justamente no sentido de diminuir ao mínimo o tamanho da empresa e tentar garantir o naco das empresas estrangeiras na exploração do pré-sal, em posição de preponderância.

Não custa lembrar, também, que o próprio pré-candidato José Serra já afirtmou que "imprivatizáveis são BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica." Ou seja, a petroleira brasileira, na visão programática, é possível sim de estar no programa de privatizações.

Outra questão que levanto é o absoluto desprezo pelos movimentos sociais caracterizado pelos governos da oposição. Isso irá mudar ? Não creio.

Prefiro entender o movimento descrito como uma espécie de "pacto de não agressão". A grande imprensa conservadora percebeu que poderia ter imensas perdas em caso de vitória da pré-candidata do atual governo; e resolveu abrandar as críticas a fim de não perder contratos publicitários ou então ter de enfrentar algum tipo de legislação regulatória mais rígida.

Como já escrevi aqui em outras ocasiões, penso que somente teremos um quadro mais preciso das eleições após a Copa do Mundo. Acredito, também, que o povão irá votar com o bolso.

Reproduzo abaixo o artigo original. Tirem suas próprias conclusões.

P.S. - O jacaré da foto é porque o bichinho tem cara simpática, mas causa estragos que é uma beleza. Bem apropriado para certos personagens da política atual.

"Diálogo com os Donos do Poder"

Muitos vão achar loucura, mas quem entrou em campo para "abafar" o fogo e diminuir a quentura em relação à sucessão presidencial foi o próprio presidente da República, ao lado de seu fiel comunicólogo Franklin Martins. Isso talvez explique os encontros reservados que a candidata Dilma Rousseff teve com o diretor de redação dA Folha de S. Paulo, Otávio Frias Filho, o Otavinho, e com Roberto Civita, presidente do Conselho Editoral da Abril e editor sênior do grupo, no mês passado. Há quem diga que os Marinho também já teriam acenado com a possibilidade de um encontro secreto com a candidata do governo, costura que teria sido feita pelo próprio presidente, na comemoração de 10 anos do jornal Valor Econômico. O que nos ajuda a entender, portanto, a guinada repentina ao centro dos jornais impressos e o abrandamento das agressões gratuítas que a candidata situacionista vinha sofrendo das "penas de aluguel". Ao mesmo tempo, curiosamente, o candidato da oposição passou a ser visto amistosamente, ao lado de sua adversária. Os donos do poder decretaram que a transição, se houver, será lenta e gradual, sem rupturas. Amparada por uma espécie de anistia ampla, geral e irrestrita. Dilma está na dela, cumprindo o protocolo e ouvindo disciplinadamente os conselhos do padrinho, que acha que na base da boa conversa fatura mais essa. Ao mesmo tempo, para se manter no jogo, Serra veste o figurino de bom moço, do "paz e amor". Tenta emplacar com os indecisos a idéia de que é uma consequência natural no processo democrático. Um esforço que incluiria, inclusive, o convite para governar com a oposição e a manutenção em postos-chave de nomes consagrados, entre eles: Celso Amorim (chanceler), Henrique Meirelles (Banco Central), José Sérgio Gabrielli (Petrobras) e Luciano Coutinho (BNDES), entre outros. Muitos incautos podem até mergulhar no mar ao ouvir este doce canto de sereia... Mas o fato é que os donos do poder (sempre pragmáticos) descobriram que a agenda neocon não cola mais. Ninguém quer Estado mínimo, verdísmo subjetivo e fanatismo religioso. E como o dinheiro não tem ideologia...

domingo, 9 de maio de 2010

Gastronomia e Cerveja - Parte IV


Após um longo intervalo, voltamos a falar de cerveja. Nosso colunista e chef de cozinha Emerson Mantovani volta a escrever para o Ouro de Tolo.

O artigo de hoje é sobre a (falta de) qualidade das cervejas de grande escala vendidas no país, razão do baixo preço das mesmas.

"Com certeza é um tema bastante controverso, mas gostaria de colocar aqui para os leitores do blog do amigo Migão algo que tenho pensado durante os últimas semanas, principalmente porque estou em falta com o Pedro; pois fiquei de escrever quinzenalmente para o blog mas ainda estou estruturando meu tempo.

Mas voltemos ao tema cerveja. Como todos sabem, ou não, a cerveja é produzida a partir de água (excelente qualidade), lúpulo (planta européia), cevada maltada (gramínea cerealífera) que são fermentados por leveduras (fungos). Ela é o resultado desta fermentação alcoólica sendo sua maior parte a água. Características a parte de cada produtor, cada tipo de cerveja, aqui no Brasil o único produto realmente nacional que integra os ingredientes da cerveja é a água.

Podem vocês perguntar em que ponto quero chegar, e já vou dizer. Se todos os ingredientes da cerveja são importados como pode a cerveja brasileira ser tão barata? Fazendo pesquisas podemos perceber que o preço da cevada e do lúpulo só vem aumentando no cenário mundial e sabemos que importações no Brasil contam vários impostos, todos os produtos chegam ao Brasil com uma imensa carga tributária.

Comparando preços nossas cervejas são bem mais baratas que em outros países, mesmo com a carga tributária elevada.

E porque a cerveja custa barato?

Podemos falar da alta escala de produção, que diminui o custo fixo e o preço por unidade. Mas este não é o fator mais importante.

Porque nossas cervejarias fazem cervejas tão baratas? São elas “monges beneditinos” que ficam preocupadas com o preço que o povo paga na sua cervejinha de fim de semana?

Claro que não, sabem que se fizerem produto mais caro não vendem e a grande maioria do povo não está nem ai pra qualidade da cerveja, quer somente tomar uma “gelada” e pronto.

Infelizmente aqui no Brasil nossa cerveja pilsen (lager) é de péssima qualidade, péssima pode até ser elogio. Quando vemos as microcervejarias fazendo produtos de qualidade o preço sobe bastante, normalmente o dobro ou mais. E o povo em matéria de comida e bebida está mais preocupado com o preço.

Aqui fica a minha indignação as grandes cervejarias do Brasil, utilizam produtos de péssima qualidade, colocam aditivos para incorporar sabores e odoros a água e dizem que isto é cerveja. Para as marcas "premium" este quadro melhora um pouco, mas ainda é insuficiente.

Na realidade nem sabemos o que é cerveja.”

sábado, 8 de maio de 2010

Sobretudo

Mais um sábado e, após interregno, de volta a coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero.

Hoje o tema é a conduta dos meninos do Santos, que vem galvanizando o país. Confesso que discordo de alguns pontos, mas o Ouro de Tolo é um espaço dedicado ao contraditório.

"Esporte não é palhaçadinha

A sensação do primeiro semestre do futebol brasileiro é o jovem e talentoso time do Santos. Contando com a coragem do técnico Durval Junior, a equipe é armada para jogar para a frente e conta com jogadores habilidosos e criativos recém-saídos dos juniores como Neymar, Paulo Henrique Ganso e André, além do astro Robinho, com as mesmas características técnicas.

Foram campeões paulistas sobrando na primeira fase da disputa, passando com certa tranqüilidade pelo São Paulo na semifinal e disputando jogos finais duríssimos contra o modesto, mas bem montado, Santo André.

Tudo estaria muito bem, e esta deveria ser uma novidade alvissareira para o cada vez mais fechado, feio e morno futebol mundial. Entretanto...

Bem, o problema começa quando a superioridade e a ousadia no uso dos recursos técnicos resvala na molecagem e no desrespeito ao adversário. Jogar sem maiores preocupações defensivas pode ser apenas ousadia e agressividade tática, mas o time santista dá sinais de que isso é muito mais um reflexo da sua despreocupação com o aspecto competitivo.

Como assim, se a equipe acaba de se sagrar campeã? Será que isso, por si só, não prova a validade de sua postura em campo? Adiante veremos que talvez não. Provavelmente, não.

O time santista andou fazendo gols no atacado, em alguns jogos atropelou adversários em clara desvantagem técnica com uma enxurrada de gols. Isso é bom, demonstra vontade de brilhar e, até certo ponto, compromisso com o resultado. Muito melhor um time que continua jogando em busca do gol mesmo depois de abrir boa vantagem, que outros que tocam a bola debochadamente e partem para firulas gratuitas. E o time santista se destacou por buscar sempre o gol, continuar jogando em direção ao gol, em velocidade, cheio de recursos, mesmo depois de já ter a vantagem no placar. E a maior parte das jogadas de efeito, mais que firulas, foram reflexo da inventividade em prol da busca de espaços e soluções na caminhada em direção à meta adversária.

O caldo santista começou a desandar na hora de comemorar os gols. Comemoração é explosão de alegria, congraçamento com a própria torcida. Provocação só se admite como resposta a pancada ou provocação anterior do time ou torcida adversários. Fora isso, é fanfarronice.

E logo logo os moços da Baixada começaram a dar demonstrações desta fanfarronice. Era um tal de reboladinha para cá, trejeito para lá, coreografia abusada... aliás, parênteses para a coreografia: o sujeito gastar algum tempo da vida bolando uma forma de comemorar os gols que virá a fazer é, para dizer pouco, o prenúncio do desrespeito ao oponente. E se não fizer o gol? Ensaiar a comemoração é quase que como jogar na cara alheia a certeza de que o gol sairá, a vitória será certa. Isso é pretensão da pior espécie. É como a bailarina que, antes mesmo de bem dançar, ensaia o agradecimento aos aplausos.

É até fácil soterrar de gols as babas das primeiras fases da Copa do Brasil. Também não é raro aplicar duros golpes em uma ou outra equipe que frequente a rabeira da tabela do Paulistão. Mas, a bem da verdade, a meninada abusada dava conta também de jogos teoricamente mais duros, apesar de demonstrar a natural dificuldade contra os grandes clubes e contra equipes médias bem postadas em campo. Ou seja, alguns ensaios foram dedicados a gols que, na prática, não aconteceram.

Contra o instável Palmeiras, um jogo daqueles em que o Santos contava definir o placar na hora em que bem entendesse. Como acontecia com o mitológico time liderado por Pelé, dariam conta de levar 2 gols por pura negligência defensiva e, sem dificuldade, virar o jogo com 3 gols de puro talento? Não foi bem assim e veio a inevitável derrota.

Aprenderam alguma coisa? Não, continuaram a jogar sem responsabilidade tática, como um time de pelada da turma da rua onde, por feliz coincidência, o destino pôs para morar um grupo especialmente brilhante de atacantes.

E, entre declarações inoportunas, tietagem explícita da imprensa e mais coreografias, chegaram até a final de um Campeonato Estadual esvaziado contra um clube de tradições modestas, mas que também fez um campeonato eficiente e ofensivo, se bem que com muito menos talento e bem mais disciplina tática: o Santo André.

No primeiro tempo do primeiro jogo, levaram um vareio de bola. Fosse o time do ABC dotado de mais recursos e tradição, o campeonato teria sido colocado na lixeira em 45 minutos. Entretanto, uma boa bronca do técnico Durval Junior colocou a ordem lógica de novo dentro de campo e os meninos jogaram o suficiente para saírem com a vantagem de 3x2. Como fizeram a melhor campanha na primeira fase, foram para o jogo final com a vantagem de poderem perder por até o mesmo um gol de diferença, apesar do susto.

De passagem, jogaram mais um jogo sem preocupação defensiva, este pela Copa do Brasil contra o Atlético de Luxemburgo em pleno Mineirão, e saíram de lá com mais uma derrota de pelada de rua.

E aprenderam alguma coisa? Não, novamente não.

No último jogo do Paulistão, entraram em campo com o mesmo salto alto de sempre. Autosuficiência impressa em seus rostos. Sem concentração, levaram um gol em segundos. Mostraram o talento de sempre, empataram o jogo por duas vezes. Ainda assim, o primeiro tempo terminou com a vantagem andreense: 3x2. O placar do primeiro jogo, invertido o lado, mas que ainda dava o título ao Santos.

O Santo André teve um gol mal anulado. O jogo, que deveria ter sido fácil, tornou-se tenso e violento. Expulsões justas abriram espaços em campo. A cada lance, mais firulas desnecessárias e provocações.

No segundo tempo, ainda mais firulas, provocações e, por fim, um triste esboço de time talentoso segurando a bola, fugindo do jogo, fazendo cera, envergonhando sua própria conquista. Até que, aos 45 minutos, o Santo André carimbou sua segunda bola na trave santista.

Era como se os Deuses do futebol avisassem: desta vez, nós estamos ao lado do talento, então vocês serão campeões. Mas cuidado: o esporte não é palhaçada. Vocês poderiam ter posto tudo a perder. Foram campeões derrotados no último jogo por uma equipe bem inferior. Por duas traves e um erro grosseiro da arbitragem, não perderam o título. Muito pouco para quem espera ter encantado o Brasil.

E fica a explicação: não vão à Copa, apesar do talento e da beleza das jogadas. Era o Campeonato Paulista, e a derrota por 3x2 serviu. Fosse a Copa do Mundo, e uma derrota no último jogo valeria a perda do título. Lugar de brincar não é dentro de um campo sério de competição e diante de um adversário que deve sempre ser dignificado.

Para ficar na analogia mais imediata, vi esta semana a polêmica luta do UFC entre o extraordinário Anderson “ Spider” Silva e o disciplinado Damien Maia. O Aranha venceu com as sobras de seu talento e velocidade indiscutíveis e aparentemente insuperáveis. Mas, por alguma razão obscura, o grande campeão resolveu, no meio da luta, brincar no octógono. Desfez do adversário, provocou, rebolou, fugiu do confronto aberto, xingou, gesticulou, provocou gratuitamente. Enfim, baixou-lhe um misto de Robinho e Neymar do vale-tudo.

A reação da platéia (tanto ao vivo quanto via satélite, ao redor do mundo das lutas) foi a demonstração do fosso que separa o futebol dos outros esportes. O grande campeão Aranha foi implacavelmente vaiado, apesar da vitória incontestável e de sua ampla superioridade técnica. Afinal, a tênue linha que separa o UFC do velho circo do tele-catch é a dignidade e o respeito às artes marciais e seus princípios.

A luta do Aranha equivalia, em tudo, às reboladinhas de Robinho, Neymar e Cia. em suas comemorações coreografadas. E, ao final, Aranha e Santos confirmaram o favoritismo e foram campeões. A diferença é que, para recuperar o prestígio e o respeito, o Anderson Silva teve que pedir desculpas públicas aos fãs e ao adversário. Enquanto isso, a irreverência dos garotos da Vila faz deles os heróis do momento.

Desculpem, mas discordo: esporte não é palhaçada."

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Final de Semana - "A Majestade, o Sabiá"



O meu leitor, pelo menos aquele que me conhece um pouco melhor, deve estar estranhando bastante a música escolhida para este final de semana. Afinal de contas, música sertaneja não é bem a minha praia.

Entretanto, "A Majestade, o Sabiá", que descobri em versão ao vivo no cd comemorativo dos 70 anos de idade de Jair Rodrigues (infelizmente não disponível no Youtube), tem uma bela letra e reflete muito do meu momento atual.

Aqui apresento surpreendente - e bela - versão na voz da cantora Roberta Miranda, autora da música. Ouçam sem preconceitos e gostarão tanto quanto eu.

"Meus pensamentos
Tomam formas e viajo
Vou pra onde Deus quiser
Um video-tape que dentro de mim
Retrata todo o meu inconsciente
De maneira natural
Ah! Tô indo agora
Pra um lugar todinho meu
Quero uma rede preguiçosa pra deitar
Em minha volta sinfonia de pardais
Cantando para a majestade, o sabiá

Tô indo agora tomar banho de cascata
Quero adentrar nas matas 
Aonde Oxossi é o Deus
Aqui eu vejo plantas lindas e selvagens
Todas me dando passagem perfumando o corpo meu

Está viagem dentro de mim
Foi tão linda
Vou voltar a realidade
Pra este mundo de Deus
Pois o meu eu
Este tão desconhecido
Jamais serei traído
Pois este mundo sou eu"

Cinecasulofilia - O Mais Importante Filme da Década

Mais uma sexta feira, e mais uma "Cinecasulofilia", escrita em parceria com o blog de mesmo nome.

Como sempre, texto do cineasta, professor de cinema e crítico Marcelo Ikeda, agora também fã número 1 do Icasa de Juazeiro do Norte.

O mais importante filme da "década"

Aos poucos vem sendo publicado um conjunto de listas com os melhores filmes da primeira década do novo século. Na verdade, são listas “dos anos 00”, já que de fato a década começa em 2001 e termina em 2010. De qualquer modo, e aproveitando isso, minha lista é encabeçada com um filme finalizado em 2000. Um certo annus mirabilis, o ano da virada. É curioso pois nesse conjunto de listas publicadas em nenhuma delas vi listado esse filme que é certamente o filme mais significativo da “década”.

Ele se chama As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty, de Jonas Mekas (foto). Mekas já garantiu o seu lugar na história do cinema com um filme absolutamente genial como Walden: Diaries, Notes & Sketches, de 1969, coletando imagens realizadas nos cinco anos anteriores. A enorme grandeza de Mekas é entender que o cinema possa ser não apenas um diário, mas essencialmente um esboço. Enquanto o cinema clássico norte-americano busca os tempos fortes, as ações determinadas, e realiza inúmeros takes até encontrar o “take perfeito”, a “ação funcional”, Mekas revira pelo avesso a forma como um realizador oferece imagens para o espectador. Intitulando seu filme-diário como “notas e esboços”, Mekas aponta para o caráter de incompletude, mas não como um “processo por vir”, ou como mera etapa para alcançar afinal uma “obra acabada”. Ao contrário, a grandeza de seu cinema é apontar para a impossibilidade de se chegar ao fim, de se terminar um processo. O que aproxima o processo de realização do próprio ato de viver, permeado de imperfeições, rasuras e garranchos. Pois são exatamente essas imperfeições que garantem à vida sua beleza, mas uma beleza essencialmente transidia.

Isto está ainda mais explícito em As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty. Enquanto Walden era um grande (leve) tour de force para estabelecer um estilo (um modo de ver o mundo a partir do cinema), em GLIMPSES (como vou carinhosamente intitular o filme daqui em diante), finalizado 30 anos depois, Mekas pôde consolidar essa forma de ser, como um filme de maturidade. Digo isso porque vejo Glimpses, de uma certa forma, como uma continuação de Walden, não só por seguir e aprofundar a idéia do filme-diário e das relações entre o cinema e a vida, mas pelo próprio fato de que o material compilado nesse filme abrange o período de 1970-2000, exatamente o período pós-Walden. A ambição do filme pode ser vista na duração: enquanto Walden cobre um período de 5 anos (1964-69), Glimpses abrange trinta. Além disso, é o mais longo filme de Mekas, com 4 horas e 48 minutos de duração.

Glimpses já começa com uma voz-over do próprio Mekas que expõe sua metodologia de montagem. Que trechos selecionar? Como organizar esses trinta anos a partir da montagem? Daí que Mekas oferece uma linda resposta: diante de um armário lotado de “rolinhos”, Mekas desiste de organizá-los em ordem cronológica, ou por “assuntos agrupados”, estabelecendo relações, composições, diálogos programados, como típico exercício de montagem. Simplesmente o realizador vai pegando os rolinhos por acaso (“by chance”), e montando as imagens a partir dessa revisão de cada rolinho, escolhidos por um critério aleatório. A beleza disso é que não se trata de um “dispositivo” ou coisa do tipo, mas simplesmente aponta para uma consciência da impossibilidade de organizar esses registros de uma maneira sistêmica, totalizante. É como se Mekas tivesse cansado de encontrar “um sentido” na vida, mas simplesmente tenha se concentrado em observá-la passar por ele (não passar diante dele, mas por dentro dele), e que ocasionalmente ele tenha se surpreendido (encantado) com breves momentos de beleza. É nessa fugacidade da beleza, nessa transitoriedade que reside o encanto da vida, ou ainda, a importância do cinema, nessa tentativa quase heróica de tentar registrar o inefável, de tentar congelar um momento de beleza, mesmo sabendo que esse breve instante está prestes a se perder. Enquanto o observamos, vivemos.

Walden foi recebido à época com um certo desdém. Hoje, quarenta anos após sua primeira exibição, parece que começamos a ter a dimensão do que essa obra representa, em termos de uma reavaliação das teorias realistas de cinema, e especialmente do papel do documentário. Num espaço estranho (frágil, delicado, robusto) entre o documentário, a ficção e o ensaio experimental, Walden foi mal compreendido em sua época, rotulado como “filme experimental”, dada a participação de Mekas no cenário alternativo dos filmes vanguardistas norte-americanos nos anos sessenta. Mas por outro lado foi o próprio Mekas que valorizou (defendeu) documentários criativos como os dos Irmãos Mayles.

Walden e Glimpses são dois documentários, e é fundamental que possamos inserir o nome de Mekas nas tradicionais “histórias do documentário”. No entanto, a própria idéia de documentar, registrar, se complexifica. Mekas documenta mas não se interessa propriamente pelo fato, é como se ele não se interessasse pelos fatos em si, pelas imagens em si, mas o que se desperta a partir deles. Ao mesmo tempo os fatos e as imagens são tudo o que se tem. Ainda, não se trata mais de documentar um acontecimento, ou de ficcionalizar uma narrativa, mas ambos se confundem. Viver é narrar a própria vida. 

Vendo os filmes de Mekas, filmes geniais como os de Zhang-Ke ou até mesmo os de Pedro Costa parecem brincadeiras infantis, experimentos ingênuos na forma como articulam a ficção e o documentário, em como procuram inscrever o “real” no cinema, a partir de associações ou relações definidas, a partir de categorias prévias, ou ainda como um espaço geográfico estará inscrito no filme de ficção. Nos filmes-diário de Mekas, nenhuma dessas categorias faz mais sentido. Sua proposta de cinema é de outra natureza: as relações entre a ficção e o documentário (ou, melhor dizendo, entre a vida e o cinema) são muito mais orgânicas e intensas. É como se enquanto os outros realizadores ainda estão presos à estrutura griffithiana ou à imagem neo-realista (ainda que as revirando pelo avesso), Mekas fosse dialogar com Lumiére.

Para terminar, GLIMPSES é o melhor filme da nova década porque apenas hoje (nesta nova década) é possível enxergar onde daria aquela trilha que o autor desbravou lá no fim dos anos sessenta. Anos sessenta que por sua vez também é uma espécie de “annus mirabilis” dentro do século passado. Walden é uma ilha dentro do cinema dos anos sessenta, cujos caminhos só podem ser vistos hoje, nesta nova década, em que reina uma extrema individualização dos modos de consumo e de produção da imagem, em que proliferam no youtube miríades de auto-imagens, estimuladas pela facilidade do registro do digital. É maravilhosa a forma como Mekas se insere e se opõe a tudo isso: a radicalidade com que Mekas abraça esse projeto retomando o outro de trinta anos atrás e como, ao mesmo tempo, essa radicalidade é acompanhada com um tom idílico, levemente romântico, doce, esperançoso, vivo, dinâmico, inovador, pouco pretensioso. Acima de tudo, os filmes de Mekas são um ato diante da vida, uma posição diante do mundo. Não seria exagero afirmar que nunca antes o cinema alcançou tamanho grau de refinamento e beleza, garantindo ao filme um lugar privilegiado na história do cinema (se isso ainda fizer sentido)."

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A fábula do cachorro sem dono


Uma vez havia um cachorro. Destes de rua, vira-latas.

Comia as latas de lixo que revirava. Vagava pelas ruas, assombração terrena neste mundo cão. Sobrevivia.

Seu sonho era ganhar um afago, um carinho. Andava, latia docemente, buscava agradar e fazer agrados, abanava o rabinho. Mas sempre era tratado a paulada por aqueles a quem tentava se aproximar. Sofria.

Caminhava pelas ruas, olhar dócil e ao mesmo tempo de tristeza infinita. Tentava, se esforçava para tal, andava e olhava e sentia. 

Quando olhavam para ele, sempre buscavam a imprecação: "sai daí ! Some! Vou te dar chumbinho!" Mal sabiam que a solidão e a carência eram piores que qualquer veneno que o matasse fisicamente.

Um dia, após muito caminhar pela vida de cão, recolheu-se ao banco de praça que lhe servia de abrigo. Perto dele havia uma bela morena moça, fazendo seu exercício cotidiano.

Para nosso cão nada parecia que seria diferente.

Entretanto, a morena moça olhou para o cachorrinho. Contemplou-o. Viu que atrás de um cachorro de rua havia um coração entristecido e endurecido pelas pauladas nossas de cada dia. Contudo, naquele olhar canil percebeu um coração pronto para se conquistar e oferecer um prêmio majestoso.

A moça o chamou. Nosso cão olhou, desconfiado. Afinal de contas, quantas pauladas recebera ?

Mas ela o chamou de novo, com uma doçura na voz que derreteu o gelo do canino coração. O vira-lata se permitiu um rasgo de esperança e atendeu ao apelo.

Como recompensa, pela primeira vez em sua "vida de cão" ganhou um afago e palavras doces. A moça o pegou no colo e, a partir dali, tudo seria diferente.

Ganhou veterinário, uma cama, um lar. Acima de tudo, pôde amar e ser correspondido pela jovem.

Esta, solitária e triste, descobriu uma razão de viver naquele cãozinho fiel, dulcíssimo e sempre com um sorriso à espera de sua menina. O amor sempre vence.

A moça e seu cão foram felizes para sempre.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Financiamento Eleitoral - alguns dados para se pensar


Recebo por e-mail do amigo Emerson Braz interessante matéria baseada em dados do Tribunal Superior Eleitoral informando sobre os principais financiadores dos partidos no ano de 2009 - onde, é bom que se ressalte, não houve eleição.

Os dois setores que mais efetivaram doações aos partidos políticos, tanto de governo quanto de oposição, foram as empreiteiras e os bancos. As primeiras foram responsáveis por 68% das doações de quatro partidos: PT, PSDB, DEM e PMDB.

Não custa lembrar que tais empresas normalmente possuem expressivos contratos com os governos, sejam estaduais, federais ou municipais. Apenas quatro construtoras - Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Carioca Christiani Nielsen e JM Terraplanagem - responderam sozinhas por 39% das doações aos quatro partidos - cerca de R$ 6,2 milhões.

Evidentemente, estas empresas - e o setor de construção civil como um todo - não ofertam estes valores por convicção ideológica ou pelos lindos olhos dos políticos. Elas esperam retorno em obras, muitas vezes com valores de realização acima dos praticados no mercado.

Por exemplo, a Andrade Gutierrez, principal financiadora de tucanos até 2008 e petistas nos últimos três anos, teve R$ 108 milhões em contratos no mesmo ano de referência. A Queroz Galvão, que em 2009 assumiu o posto de maior financiadora dos tucanos teve R$ 28 milhões em obras - especialmente nos governos paulista e de Minas.

O maior financiador do DEM, a JM Terraplanagem recebeu R$ 23 milhões de um total de R$ 60 milhões em obras, na sua totalidade em Brasília. Equivale a quase 40% do total.

Estes números, que expressam uma estreita correlação entre a hierarquia das doações e o total de recursos públicos recebidos demonstram uma séria anomalia no sistema político brasileiro. Obviamente que os recursos doados servem para exercer algum tipo de "lobby" a fim de obter vantagens e benefícios em concorrências e licitações.

Existe no Congresso Nacional há anos, como parte de um projeto de reforma política, uma proposta de lei visando instituir o financiamento público das campanhas. Este projeto separa uma verba pública para o financiamento das campanhas e proíbe doações de pessoas jurídicas.

Certamente não diminui o "Caixa Dois", mas é um importante fator inibidor do conflito entre o interesse público e a busca de obtenção de vantagens particulares - e indevidas.

À guisa de exemplo, no Japão - onde o primeiro ministro Yukio Hatoyama é filho da principal acionista da empresa de pneus Bridgestone - foi retirado da "gaveta" projeto de lei que proíbe qualquer tipo de doação a partidos ou a políticos. A proposta é substituir por uma espécie de "fundo partidário" distribuído de acordo com o tamanho da bancada - algo parecido com o que se propõe aqui.

O projeto voltou a debate no país nipônico após suspeitas de que a empresa de pneus havia feito doações irregulares para o primeiro ministro.

Voltando ao Brasil, tais números são uma prova cristalina de algo deve ser feito a fim de aumentar a governança política do país, buscando diminuir esta promiscuidade entre empresas e governos. Os dados deixam clara a estreita correlação entre doações a partidos e vitórias em concorrências e licitações públicas.

Coincidência ?

Cacique de Ramos: "Cachaça, uma bebida com várias denominações"


Quarta feira, dia de nossa coluna "Cacique de Ramos", do historiador, publicitário e sofredor fanático da Imperatriz Leopoldinense Fabrício Gomes. O tema de hoje é boa e velha "branquinha", a cachaça.

Cachaça: uma bebida com várias denominações

Abre, abre-bondade, abre-coração, abrideira, abridora, aca, ácido, aço, acuicui, a-do-ó, água, água-benta, água-bórica, água-branca, água-bruta, água-de-briga, água-de-cana, água-de-setembro, água-lisa, água-pé, água-pra-tudo, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, aguardente, aguarrás, agundu, alicate, alpista, alpiste, amarelinha, amorosa, anacuíta, angico, aninha, apaga-tristeza, a-que-incha, aquela-que-matou-o-guarda, a-que-matou-o-guarda, aquiqui, arapari, ardosa, ardose, ariranha, arrebenta-peito, assina-ponto, assovio-de-cobra, azeite, azougue, azulada, azuladinha, azulina, azulzinha, bafo-de-tigre, baga, bagaceira, baronesa, bataclã, bicarbonato-de-soda, bicha, bichinha, bicho, bico, birinaite, birinata, birita, birrada, bitruca, boa, boa-pra-tudo, bom-pra-tudo, borbulhante, boresca, braba, branca, brande, branquinha, brasa, braseira, braseiro, brasileira, brasileirinha, brava, briba, cachorro-de-engenheiro, caeba, café-branco, caiana, caianarana, caianinha, calibrina, camarada, cambraia, cambrainha, camulaia, cana, cana-capim, cândida, canguara, canha, canicilina, caninha, caninha-verde, canjebrina, canjica, capote-de-pobre, cascabulho, cascarobil, cascavel, catinguenta, catrau, catrau-campeche, catuta, cauim, caúna, caxaramba, caxiri, caxirim, caxixi, cem-virtudes, chá-de-cana, chambirra, champanha-da-terra, chatô, chica, chica-boa, chora-menina, chorinho, choro, chuchu, cidrão, cipinhinha, cipó, cobertor-de-pobre, cobreia, cobreira, coco, concentrada, congonha, conguruti, corta-bainha, cotréia, crislotique, crua, cruaca, cumbe, cumbeca, cumbica, cumulaia, cura-tudo, danada, danadinha, danadona, danguá, delas-frias, delegado-de-laranjeiras, dengosa, desmanchada, desmanchadeira, desmancha-samba, dindinha, doidinha, dona-branca, dormideira, ela, elixir, engenhoca, engasga-gato, espanta-moleque, espiridina, espridina, espírito, esquenta-aqui-dentro, esquenta-corpo, esquenta-dentro, esquenta-por-dentro, estricnina, extrato-hepático, faz-xodó, ferro, filha-de-senhor-de-engenho, filha-do-engenho, filha-do-senhor-do-engenho, fogo, fogosa, forra-peito, fragadô, friinha, fruta, garapa-doida, gás, gasolina, gaspa, gengibirra, girgolina, girumba, glostora, goró, gororoba, gororobinha, gramática, granzosa, gravanji, grogue (CAB), guampa, guarupada, homeopatia, iaiá-me-sacode, igarapé-mirim, imaculada, imbiriba, incha, insquento, isbelique, isca, já-começa, jamaica, januária, jeriba, jeribita, jinjibirra, juçara, junça, jura, jurubita, jurupinga, lágrima-de-virgem, lamparina, lanterneta, lapinga, laprinja, lebrea, lebréia, legume, levanta-velho, limpa, limpa-goela, limpa-olho, limpinha, linda, lindinha, linha-branca, lisa, lisinha, maçangana, maçaranduba, maciça, malafa, malafo, malavo, malunga, malvada, mamadeira, mamãe-de-aluana (ou aluanda ou aruana ou aruanda ou luana ou luanda), mamãe-sacode, manduraba, mandureba, mangaba, mangabinha, marafa, marafo, maria-branca, maria-meu-bem, maria-teimosa, mariquinhas, martelo, marumbis, marvada, marvadinha, mata-bicho, mata-paixão, mateus, melé, meleira, meropéia, meu-consolo, miana, mijo-de-cão, mindorra, minduba, mindubinha, miscorete, mistria, moça-branca, moça-loura, molhadura, monjopina, montuava, morrão, morretiana, muamba, mulata, mulatinha, muncadinho, mundureba, mungango, não-sei-quê, negrita, nó-cego, nordígena, número-um, óleo, óleo-de-cana, omim-fum-fum, oranganje, oroganje, orontanje, oti, otim, otim-fifum, otim-fim-fim, panete, parati, parda, parnaíba, patrícia, pau-de-urubu, pau-no-burro, pau-selado, pé-de-briga, péla-goela, pelecopá, penicilina, perigosa, petróleo, pevide, pílcia, pilóia, pilora, pindaíba, pindaíva, pindonga, pinga, pingada, pinga-mansa, pinguinha, piraçununga, piribita, pirita, pitianga, pitula, porco, porongo, preciosa, prego, presepe, pringoméia, pura, purinha, purona, quebra-goela, quebra-jejum, quebra-munheca, quindim, rama, remédio, restilo, retrós, rija, ripa, roxo-forte, salsaparrilha-de-brístol, samba, santa-branca, santamarense, santa-maria, santinha, santo-onofre-de-bodega, semente-de-arenga, semente-de-arrenga, sete-virtudes, sinhaninha, sinhazinha, sipia, siúba, sorna, sumo-da-cana, sumo-de-cana-torta, suor-de-alambique, suor-de-cana-torta, supupara, suruca, tafiá, tanguara, teimosa, teimosinha, tempero, terebintina, tiguara, tindola, tíner, tinguaciba, tiguara, tiquara, tira-calor, tira-juízo, tira-teima, tira-vergonha, titara, tiúba, tome-juízo, três-martelos, três-tombos, uca, uma-aí, unganjo, upa, urina-de-santo, vela, veneno, venenosa, virge, virgem, xarope-de-grindélia, xarope-dos-bebos, xarope-galeno, ximbica, ximbira, xinabre, xinapre e zuninga (Fonte: Dicionário Houaiss). 

“Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de 38 a 48 por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida pela destilação do mosto fermentado de cana-de-açúcar com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada de açúcares até seis gramas por litro, expressos em sacarose." 

Foi assim que, em outubro de 2003, por meio do Decreto 4.851, o governo brasileiro oficializou a cachaça como um produto tipicamente brasileiro. 

Quando os portugueses descobriram o País detectaram no solo as características ideais para a cultura da cana-de-açúcar, que no século XVI era um dos produtos mais valiosos do planeta e depois passou a ser a base da economia nacional. Ao trazerem as primeiras mudas da planta, os lusos acabaram proporcionando, também, as condições para o surgimento daquela que é a mais brasileira das bebidas: a cachaça. Já no século XVII ela era obtida nos engenhos que produziam cana. 

Em 1532, numa fazenda em São Vicente (SP), os colonizadores - que até então eram apaixonados pela bagacera (bebida destilada de uva) e pelos vinhos do Porto - descobriram o vinho de cana, uma bebida que restava nos tachos de rapadura e era dada a animais e, posteriormente, aos escravos, para ficarem mais dóceis e esquecerem a saudade da terra natal. Ela era apenas fermentada, mas logo depois os portugueses começaram a destilá-la e deram o nome de cagaça, para, depois, mudar para cachaça. 

Assim, a produção se difundiu pelos engenhos, que instalaram "casas de cozer méis" (os alambiques), e a bebida ganhou notoriedade. Ela era usada inclusive como moeda na compra de escravos e destacou-se ainda mais com a expansão da busca pelo ouro em Minas Gerais, já que era consumida para espantar o frio da região da Serra do Espinhaço. 

Como a cachaça começou a fazer sucesso - e assim foi reduzido o consumo de vinhos do Porto e da bagacera portuguesa -, a metrópole resolveu proibir, por várias vezes, sua produção, comercialização e o consumo, alegando que ela estava prejudicando o trabalho de extração do ouro. A tentativa, no entanto, não foi bem-sucedida. E felizmente, pois foi também com os recursos dos impostos da fabricação da cachaça que a Coroa Portuguesa reconstruiu Lisboa, depois que a capital lusa foi assolada por um terremoto. Além disso, por ser tipicamente brasileira, a bebida tornou-se um símbolo de resistência à Coroa, cultuada pelos inconfidentes. A produção foi se aperfeiçoando e a cachaça passou a integrar os jantares palacianos e as festas religiosas. 

A bebida continuou fazendo sucesso, mas muitas vezes foi marginalizada, associada às camadas pobres e ao alcoolismo. Essa imagem vem sendo revertida ao longo das últimas décadas, o que se comprova pelo fato de a cachaça ter espaço garantido em restaurantes e bares requintados e na adega dos brasileiros."

terça-feira, 4 de maio de 2010

Samba de Terça - "Noel, a Presença do Poeta da Vila"


Após um intervalo, a nossa coluna "Samba de Terça" está de volta. Por enquanto com frequência quinzenal, quando estivermos mais perto do carnaval de 2011 voltaremos a falar semanalmente.

Reinicio a série com uma samba que ainda está "fresquinho" na cabeça dos leitores: Unidos de Vila Isabel 2010, "Noel, a Presença do Poeta da Vila".

A escola do bairro da Zona Norte carioca foi bastante badalada antes do desfile. Seu enredo seria o centenário de Noel Rosa, sambista e compositor dos maiores da história do samba e da música popular brasileira, "cria" do bairro.

O enredo era de autoria do carnavalesco Alex de Souza, do historiador Alex Varela e do grande compositor Martinho da Vila. Reproduzo a sinopse abaixo:


"1910. Ano marcado por grandes transformações, prenunciadas com a passagem do Cometa de Halley. Entre outros fatos: a Revolta da Chibata, liderada pelo "Almirante Negro", João Cândido, cujo motim ameaçou bombardear o Rio de Janeiro, e o nascimento de Noël de Medeiros Rosa, popularmente conhecido como Noël Rosa, em 11 de dezembro. A partir desse dia, a música popular brasileira nunca mais seria a mesma.

O pai era um amante da cultura francesa. Pela proximidade das festas natalinas deu ao filho o nome de Noël, termo que equivale a Natal entre os franceses. Também era tradição no bairro de Vila Isabel, no período natalino, passar o rancho, quando todos iam ouvir o canto das "Pastorinhas". 

Desde sua infância, Noël se revelava irreverente. Ele era da rua. Na escola, gostava das piadas proibidas e das brincadeiras obscenas. Começou estudando numa escola pública, e, depois se transferiu para o tradicional São Bento, onde imperava os rigores educacionais. A rua e os seus tipos eram a sua grande paixão. "Poeta-cronista" da cidade; cidade que cabia em Vila Isabel. Bairro síntese dos personagens cariocas: os pequenos burgueses, o bicheiro, os malandros, o seresteiro, o sinuqueiro, o cartiador, o mendigo, o vigarista, o proxeneta, o valentão, entre tantos outros. 

Noël preferia a luz das estrelas à luz solar. Ele acompanhava os cantores da madrugada com o seu inseparável violão. Ficou conhecido pelo bairro. No ano de 1929, um grupo formado por jovens de classe média do conjunto musical Flor do Tempo o convidou para formar um novo grupo: o Bando dos Tangarás, grupo composto por Almirante, Braguinha, Henrique Brito e Alvinho. O conjunto se dedicou à moda da época: a música nordestina; emboladas; sambas com tempero do Nordeste; embora, seus trajes e seus sotaques mais pareciam de caipiras. A indústria e o comércio fonográfico cresciam bastante no Rio de Janeiro, quando foram convidados para gravar pela Parlophon, subsidiária da Odeon.

A inserção no Bando dos Tangarás abriu o caminho para Noël iniciar sua carreira como compositor popular. Ainda em 1929, ele escreveu a sua primeira composição, uma embolada, intitulada "Minha Viola".

Noël Rosa tinha grande admiração por Sinhô, frequentador assíduo da Casa da Tia Ciata, localizada na Praça Onze, onde os batuques do samba, influenciados pelo maxixe, ecoavam livremente. O "Poeta da Vila", contudo, se integrou a outro tipo de samba, que veio do bairro do Estácio, onde vivia Ismael Silva, e se espalhou pelos morros da cidade como o Salgueiro, Mangueira, Favela, Saúde, Macacos. Noël subiu ao morro e se integrou aos sambista que lá viviam. E compôs com algum deles, como Cartola, do Morro da Mangueira, e Canuto e Antenor Gargalhada, do Salgueiro. O "poeta" e Franscisco Alvez (que juntos fizeram parceria no grupo "Ases do Samba") foram os maiores responsáveis pela consagração de diversos compositores negros de samba. 

Este tipo de samba que veio do Estácio, mais marcheado e acompanhado por instrumentos de percussão, era aquele tocado nos blocos, como o "Deixa Falar", que deu origem a primeira "Escola de Samba". No carnaval de Vila Isabel havia dois blocos: o Cara de Vaca, organizado, com componentes selecionados e cercados por um cordão de isolamento, e o Faz Vergonha, composto por populares e com sambas improvisados, do qual fazia parte Noël Rosa. As batalhas de confete no Boulevard eram o ponto alto do desfile de blocos.

Desde a adolescência, Noël adorava a serenata e serestas. O local favorito das noitadas era o cruzamento do Ponto dos Cem Réis, em Vila Isabel, onde os bondes "mudavam de seção". Ponto de botequins e esquinas. Era ali que se reunia com os amigos e tomava sua cerveja preferida, a Cascatinha. No Café Vila Isabel, ele compôs a maior parte das suas composições. De bar em bar, em "Conversa de Botequim", e de amores em amores, como o que sentia por Fina, para quem fez os "Três Apitos", teceu suas canções. Frequentava também os prostíbulos do Mangue, e era facinado pelos malandros, homens que exploravam as mulheres, minas ou mariposas, e viviam da jogatina. Na Lapa chegou a conhecer o famoso Madame Satã, como também Ceci, a sua "Dama do Caberé".

O ano de 1930 mudou a história do Brasil e a vida de Noël Rosa. Na política nacional, Getúlio Vargas assumiu a presidência do país por meio da chamada Revolução de 30. Nosso "Poeta" gravou o seu primeiro samba de história: "Com que Roupa?", que fazia alusão de forma humorada a um Brasil de tanga, ilhado em pobreza, a fome e a miséria alastrando-se como praga, consequencia imediata da crise da bolsa de Nova York que abalou o mundo inteiro. O samba conquistou a cidade. A composição de sucesso passou a integrar o programa de diversas peças do teatro de Revista, todas encenadas nos palcos da Praça Tiradentes, que vivia dias de fulgor e esplendor. No mesmo ano conseguiu ser aprovado no vestibular para a Faculdade de Medicina. Contudo, ficou insatisfeito com o curso e abandonou-o. Ainda assim, compôs "Coração", conhecido como um "samba anatômico". O "novo regime" de Vargas e suas medidas governamentais também não passariam desapercebidas pelo compositor, ganhando tons de críticas bem humoradas nas letras de alguns de seus sambas como "O Pulo da Hora" ou "Que Horas São?" sobre a criação do horário de verão; "Psilone" composto em função da nova reforma ortográfica; "Samba da Boa Vontade", sobre o pedido de Vargas aos brasileiros para manter o sorriso, mesmo num momento de crise; e, ainda "Tenentes ... do Diabo", samba jocoso quanto aos tenentes getulistas, rivais dos "Democratas".

No começo de 1934, teve o início a famosa polêmica envolvendo os compositores Noël Rosa e Wilson Batista. Este último compôs "Lenço no Pescoço". Noël rebateu com "Rapas Folgado". Em resposta, Wilson compôs "Mocinho da Vila". Ainda no mesmo ano, no período da primavera, Noël compôs "Feitiço da Vila", uma homenagem para a rainha primaveril de Vila Isabel, Lela Casatle. Samba que colocou Noël em evidência, uma vez que o Brasil inteiro cantou a composição. A polêmica deu uma trégua e reacendeu no ano seguinte. O sucesso do "Filósofo do Samba" incomodou Wilson Batista, que gravou "Conversa Fiada". Noël reagiu com "Palpite Infeliz". Wilson respondeu com dois novos sambas: "Frankstein da Vila" e "Terra de Cego".

Os anos trinta foram a chamada Era do Rádio, consagrada com a criação da Rádio Nacional. Em pouco tempo, o país inteiro ouviria suas rádio-novelas, seus programas de auditório e viria surgir muitas estrelas da nossa música, as chamadas cantoras do rádio. Marília Baptista e Araçy de Almeida foram as maiores intérpretes das canções de Noël. Este também atuou no rádio. No Programa do Casé, de Adhemar Casé, na Rádio Philips, Noel cantava e trabalhava como contra-regra. E, em 1935, Almirante conseguiu-lhe na Rádio Clube do Brasil, trabalhando como libretista no programa "Como se as óperas célebres do mundo houvessem nascido aqui no Rio". Escreveu o libreto da ópera "O Barbeiro de Niterói" uma paródia ao "Barbeiro de Sevilha". Fez também as revistas radiofônicas "Ladrão de Galinhas" e a "Noiva do Condutor". As composições de Noël também foram utilizadas no cinema. Em Alô, Alô, Carnaval (1936), compôs "Pierrot Apaixonado", em parceria com Heitor dos Prazeres. Para o filme Cidade Mulher (1936), ele compôs seis músicas, dentre as quais "Tarzan, Filho do Alfaiate", em parceria com Vadico.

No ano de 1937, os céus do Brasil foram atravessados pelo cometa de Hermes. Os cometas inspiraram durante milênios profundos temores na humanidade, que os considerava sinais divinos de maus presságios. O medo persistia. Foi assim com o cometa de Halley naquele ano de 1910 e voltou a ser vinte sete anos depois. E, de fato, realmente foi. Na noite do dia 04 de maio, no mesmo chalé onde nasceu na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, faleceu, acometido pelo "mal do século"

Da mesma forma que nasceu num ano turbulento, Noël disse "Adeus" num ano de grandes transformações, cumprindo assim um ciclo de mudanças. Ele mudou a história da música popular brasileira. As serestas e serenatas não seriam mais as mesmas sem a sua presença. Uma outra "Festa no Céu" faria ele entre anjos e arcanjos. Para sua felicidade, não viu a instalação do Estado Novo, com seu caráter repressivo e censurador, nem mesmo a chegada do "Tio Sam". Não viu também a vida boêmia da Lapa se substituída pelas boates chiques de Copacabana, onde Aracy de Almeida, o imortalizou. Também não teve o prazer de ver a fundação do GRES Unidos de Vila Isabel, Agremiação carnavalesca do bairro que tanto cantou. No firmamento do samba, assim como a estrela Dalva, a estrela de Noël, finalmente, no céu despontou e jamais se apagou. Foi o seu "Último Desejo". Por isso, cantamos: "Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila, ao abraçar o samba". Saudades de ti, Noël!!! 

Carnavalesco: Alex de Souza

Autores do Enredo: Alex de Souza, Alex Varela (historiador) e Martinho da Vila

Redação do Texto da Sinopse: Alex Varela"



A disputa para a escolha do samba foi recheada de polêmicas. Primeiro o presidente da escola anunciou que não haveria disputa e Martinho da Vila faria o samba. Depois que haveria uma parceria entre Martinho e André Diniz, os dois maiores vencedores de sambas enredo da história da escola.

No fim acabou havendo o concurso tradicional, mas com fortes suspeitas de que já haveria um resultado antes mesmo de seu início.

Ainda tem mais. O samba de Martinho, que se sagrou vencedor, é muito semelhante a uma outra composição do artista, em parceria com Gracia do Salgueiro. Disponibilizo abaixo a letra:

"Se um dia
A boemia me chamasse
Com saudade e perguntasse
Por onde anda Noel
Com o meu sorriso responderia
O autor de "Filosofia"
Anda na terra e no céu
Eu não sambei com Noel
Com ele eu não cantei
Porém um dia sonhei
Que eu era o seu menestrel
Eu não bebi com Noel
Eu não vivi com Noel
Mas sei que ele está presente
Com a gente em Vila Isabel
E na avenida
Se me vêem como espelho
Eu sou o seu aparelho
Num transe de carnaval
E a fantasia que se usa
Já tem os tons de lá do céu
Que são as cores
Da nossa Vila Isabel"

Veremos abaixo que a primeira parte do samba enredo tem, sim, uma letra muito semelhante a esta. Para completar a polêmica, existe uma lenda (jamais confirmada) que conta a "Presença de (André) Diniz" no samba após a vitória no concurso - o vitorioso e talentoso compositor teria "arrumado" a melodia do samba para torná-lo mais apropriado ao desfile.


Polêmicas à parte, era um belo samba, muito bem gravado no CD pelo puxador Tinga. Aqueles que discordam dos rumos que o samba de enredo vem tomando, entre os quais me incluo, torciam para que o samba fosse bem na avenida e mudasse o paradigma vigente atualmente, de "dez versos, refrão do meio com quatro, segunda parte também com dez versos e refrão final explosivo com mais quatro versos".

Havia uma grande expectativa para o desempenho do samba na noite de 15 de fevereiro, segunda feira de carnaval. A escola pisaria a passarela como a quinta e penúltima a desfilar.

Entretanto, preciso fazer um parêntese antes de continuar. Tal qual a Portela, o Império Serrano e a Mangueira, a Vila é uma escola que tem muita resistência a Mestres de Bateria vindos de fora da escola. E a grande atração da escola era a troca no comando da bateria, com Mestre Átila, premiadíssimo no Império Serrano. E...

A escola pisou na avenida como grande favorita. O samba, aclamado.

Mas dois fatores arrasaram o desempenho do samba e, por tabela, o da escola.

O primeiro foi uma falha no som que impedia a captação correta dos instrumentos da bateria e dos puxadores e que alterou totalmente a cadência do mesmo para os espectadores e os desfilantes.


O segundo... 

Bom, o segundo fator foi o desempenho lamentável da bateria, que desde o seu "esquenta" estava bastante estranha. Embolava, atravessava e se percebia claramente descompasso entre as peças "grandes" e as "pequenas".

A minha sensação no ponto onde eu estava (Setor 3, início da pista) era de que o surdo que faz a marcação para os microfones - o chamado "guia" - estava totalmente atravessado.

Em suma, a bateria foi uma lástima. A ponto de Mestre Átila fazer duas "paradinhas" seguidas em frente ao ponto da pista onde eu estava para ver se conseguia acertar o ritmo. Para quem não conhece, as paradinhas são recursos que visam abrilhantar o desfile de uma escola, mas também podem ser utilizadas para corrigir erros da bateria - algo como "parar para começar de novo".

Mas nem este recurso deu jeito. Lógico que estas coisas são muito difíceis de se provar, mas minha hipótese é de que tenha sido algum tipo de "inconformismo" pela vinda de um Mestre de fora da escola - em português claro, sabotagem. Entretanto, são apenas hipóteses.

O certo é que mesmo em um andamento excessivamente exagerado e que inibiu o efeito da bela melodia, o samba ainda salvou as notas máximas. A bateria foi bastante penalizada nas notas mas assim mesmo ainda a escola salvou um quarto lugar no resultado final.

Vamos à letra do samba e, abaixo, um vídeo do desfile da escola.

"Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu
Seus sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele a bordel
Mas sei que está presente
Com a gente neste laurel

Veio ao planeta com os auspícios de um cometa
Naquele ano da Revolta da Chibata
A sua vida foi de notas musicais
Seus lindos sambas animavam carnavais
Brincava em blocos com boêmios e mulatas
Subia morros sem preconceitos sociais

Foi um grande chororô
Quando o gênio descansou
Todo o samba lamentou
Ô ô ô
Que enorme dissabor
Foi-se o nosso professor
A Lindaura soluçou
E a Dama do Cabaré não dançou
Fez a passagem pro espaço sideral
Mas está vivo neste nosso carnaval
Também presentes Cartola
Araci e os Tangarás
Lamartine, Ismael e outros mais
E a fantasia que se usa
Pra sambar com o menestrel

Tem a energia da nossa Vila Isabel"

Reparem na estrutura bem diferente do samba, com apenas um - e longo - refrão.



Na próxima coluna, outro samba de 2010 que sofreu com questões exógenas a ele: Imperatriz Leopoldinense.