domingo, 4 de abril de 2010

Armando Nogueira, a edição manipulada e a eleição presidencial de 1989


Domingo de Páscoa, dia de bons textos no Ouro de Tolo.

A semana passada foi marcada pelo falecimento do jornalista Armando Nogueira, grande cronista e um chefe de jornalismo Global bastante controverso, para dizer o menos.

Repercuto aqui texto do jornalista Paulo Henrique Amorim sobre um dos episódios mais famosos de manipulação de informação da história recente, que foi a edição do Jornal Nacional sobre o último debate da campanha presidencial de 1989. Armando Nogueira era o chefão do jornalismo da Globo à época e sua participação no episódio é cercada de dúvidas até hoje.

Paulo Henrique Amorim, testemunha ocular do fato, faz um relato que ajuda a jogar alguma luz sobre o episódio, exemplo acabado de manipulação jornalística. Reproduzo o texto aqui, inclusive com a mesma foto da publicação original.

Originalmente publicado na quarta feira, dia 30, em seu "Conversa Afiada", as referências a jornais feitas no texto são da mesma data. A propósito, li há alguns anos o livro citado no texto ("Notícias do Planalto") e tenho de concordar com a avaliação do jornalista.

"O que a Globo não contou sobre o Armando Nogueira é por que o mandou embora.

Roberto Marinho era menos esperto do que se diz.

Na sucessão do Governo Sarney – que ele co-presidiu – Roberto Marinho ficou vendido: não sabia quem apoiar.

Apoiou Quércia, Covas, namorou o Afif e só foi apoiar o Collor depois que o Collor estava na frente das pesquisas.

O Collor jamais se esqueceu disso.

E o Roberto Marinho sabia que o Collor não esqueceria isso.

Desde o início da campanha, Collor construiu uma ponte com Alberico de Souza Cruz, que Armando tinha nomeado vice para cuidar dos jornais das praças. Woile Guimarães – de caráter de outra estirpe – cuidava dos jornais de rede. Alberico ajudou a vestir em Collor o manto púrpura do “caçador de marajás ”. (A Veja não deixava o manto arrastar no chão.)

Em Nova York, num intervalo de uma Assembleia Geral da ONU, Collor me contou que a ponte dele com a Globo sempre foi o Alberico.

O Dr Roberto se sentiu desamparado.

Estava mal acostumado com o Sarney.

No Sarney, o Mailson da Nóbrega só foi nomeado Ministro da Fazenda depois que o Dr Roberto assentiu.

Aí, veio o debate que decidiu o segundo turno, Collor vs Lula.

E a edição do jornal nacional foi uma patranha só.

A edição do debate – em que a Globo, por instrução do Roberto Marinho, selecionou “tudo o que era bom para o Collor” e “tudo o que era ruim para o Lula” ; uma pesquisa por telefone (quando não havia telefone no Brasil); e um editorial do Alexandre Garcia que queria dizer assim: se o Collor ganhou o debate,  isso é a democracia. Logo, vá lá domingo e vote no Collor para realizar a democracia.

Na Carta Capital – em dezembro de 1999 – e em meu livro “Plim-Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”, já contei o que eu vi e ouvi, naquele dia da edição do debate.

“(Mario Sergio) Conti errou na ida e na volta. Errou na volta, porque, na volta de Collor à planície, a reportagem decisiva foi a da IstoÉ com o motorista Eriberto França – e isso não ficou claro no (livro) Notícias do Planalto(da editora Companhia das Letras). Errou na ida, porque na ida de Collor ao poder, o episódio decisivo foi a edição do debate entre Collor e Lula, feita no Jornal Nacional. E Notícias descreve esse episódio de forma superficial, que atenua a responsabilidade de Roberto Marinho e de Alberico Souza Cruz, diretor dos jornais em rede a Globo. Só isso explica O Globo de 27 de novembro [de 1999] dedicar ao livro (de Conti)  três páginas no primeiro caderno. Como se sabe, O Globo não recebia um lançamento editorial com tanto entusiasmo desde a Epístola aos Romanos. Sobre o episódio da volta, quando Conti dirigia a Veja, a revista concorrente de IstoÉ, o livro Imprensa e Poder: Ligações Perigosas, de Emiliano José, é mais completo do que Notícias.

Vou tratar da ida.

Então, dezembro de 1989, eu era editor de economia da Rede Globo. Na sexta- feira, dia 15, ao chegar à redação, percebi que uma tempestade se formava. Conversei com o Ronald Carvalho, editor de política. Com Wianey Pinheiro, responsável pela cobertura das eleições e também responsável pela edição do debate que o jornal Hoje, ao meio-dia, tinha exibido. Zanzei pela redação e ilhas de edição e soube:

•    O dr. Roberto não gostou da edição de Hoje e mandou o Jornal Nacional dar tudo o que fosse bom para o Collor, e tudo o que fosse mau para o Lula.

•    O Alberico mandou o Ronald editar como se fosse a luta em que o Mike Tyson destroçou o pobre coitado do Pinkle Thomas, dias antes transmitida pela Globo.

Isso, o que eu ouvi.

Agora, o que eu vi.

Vi por ali, como se fosse um dos nossos, o Daniel Tourinho, presidente do PRN, o partido do Collor. Vi o Alberico na ilha (de edição). Não importa se ele disser que não editou. Como todos os profissionais da Globo sabiam, o Alberico não tinha idéia do que fazer numa ilha de edição. Ele se sentia tão à vontade ali quanto no hall de entrada do Louvre.

Imediatamente após o Jornal Nacional, liguei para o Ronald e perguntei – não me lembro exatamente das palavras – ‘como é que você fez uma coisa dessas?’ Ele respondeu que decidiu exagerar, forçar a mão, para o espectador perceber que se tratava de uma manipulação. Depois da publicação de Notícias, o Ronald me contou também que, logo após o Jornal Nacional, recebeu um telefonema do dr. Roberto para dizer que, daí para frente, era assim que queria a cobertura política.

Conti tem quatro explicações para o que aconteceu: 1. ‘O único critério objetivo’ para editar um debate de forma imparcial é dar aos dois candidatos o mesmo tempo (página 269). 2. O dr. Roberto determinou, muito antes, que a cobertura da campanha obedeceria à regra: todos os candidatos teriam o mesmo tempo. 3. O dr. Roberto não revogou essa ordem, ao determinar que a edição deveria ‘evidenciar que Collor vencera’ (página 270). 4. Os responsáveis pela indisciplina foram Alberico e Ronald (página 270). 5. A manipulação do debate não tem a menor importância, nem a cobertura parcial (‘o bom e o mau’), que a Globo fez toda a campanha. Pesquisas (páginas 273 e 274) demonstram que a decisão de votar em Collor independia do que a Globo fizesse. Collor encarnava ‘um Brasil… moderno. Como nas democracias da Europa Ocidental, o eleitor se expressara… com base no posicionamento (sic) ideológico…’ (página 274).

Vamos por partes.

Tempo em televisão não é critério para avaliar objetividade. Ao contrário. Dependendo de quem está na ilha de edição, dar mais tempo pode destruir um entrevistado. Quanto mais não é melhor.

Na linguagem da política, aliás, tempo não tem nenhuma relação com persuasão. O discurso de Lincoln em Gettysburg pode ser lido em dois minutos e sete segundos. O fato de a Globo distribuir o tempo com ‘critério objetivo’ levanta suspeitas, também em outra circunstância. Na cobertura da campanha Fernando Henrique vs. Lula, a Globo deu aos dois o mesmo tempo. Mas, e as inúmeras e redundantes entrevistas do ministro da Fazenda Rubens Ricupero sobre o Plano Real? Ricupero já disse desconfiar que as entrevistas se desenrolavam, na verdade, num palanque.

(Espera-se que essa questão fique esclarecida, um dia, quando sair o livro – título provisório – Laços de Ternura, que está sendo escrito por um jornalista nos Estados Unidos – cujo nome não posso revelar – sobre ‘ a imprensa e Fernando Henrique Cardoso’.)

Se fosse uma grave indisciplina desrespeitar a ordem de distribuir o tempo por igual, o Alberico não teria sido nomeado para o cargo do Armando meses depois. Corre por baixo de toda a narrativa de Conti a justificativa de que Collor ganhou o debate: o próprio Lula achou isso.

Suspeita-se que Manga, aquele notável goleiro do Botafogo, também achasse que o Collor ganhou o debate. E daí? O papel de um jornal é reproduzir o que aconteceu. E o que aconteceu  não estava no Jornal Nacional. Se houve uma vitória no debate, não houve uma goleada. O que foi ao ar no Jornal Nacional é uma manipulação. A edição do Pinheiro e do Carlos Peixoto, a do Hoje, era uma edição que os profissionais da Globo subscreveriam. (Com duas ou três exceções, é claro…) Porque ela reproduzia o que aconteceu, em tamanho menor e é para isso, como os cartógrafos, que serve um editor.

Se o Lula tivesse ‘vencido’ o debate, o Jornal Nacional daria com uma divisão ‘criteriosa’ do tempo – a versão que mostrasse que Lula ganhou?

E a pesquisa? No Hoje e no Jornal Nacional, colada à edição do debate, havia uma pesquisa da Vox Populi (que trabalhava para o Collor, como ressalta Conti): por 44% a 32%, a opinião pública considerou que Collor venceu o debate. Se Lula tivesse ‘vencido’? O Jornal Nacional daria uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo?

Sobre o impacto da cobertura da Globo no eleitor. É bom lembrar que, segundo as pesquisas, Lula e Collor foram para o debate empatados.

A hipótese do livro – os três programas do partido foram mais importantes para a vitória de Collor do que a ajuda da Globo (página 274) – tem tanto valor científico quanto a proposição inversa. Na página 276, por exemplo, Boni diz: ‘Supor que o debate tenha influenciado a eleição é ridículo’.

Nos Estados Unidos, a literatura sobre o assunto é farta. Há quem diga que o célebre debate de John Kennedy e Richard Nixon – em que Nixon apareceu com a barba por fazer e a toda hora limpava o suor do rosto – não teve a menor importância. O eleitor já decidira votar em Kennedy. Tanto isso deve ser verdade que, dessa data em diante – foi o primeiro debate presidencial transmitido ao vivo, pela TV – todos os candidatos à Presidência, pelo mundo afora, vão aos debates na televisão de tamancos, barba por fazer e os cabelinhos do peito a sair pela camiseta em V.

O livro de Conti não mete a mão no câncer.

E é por isso que o título tem o sabor de tofu. Notícias do Planalto – o que diz sobre ‘a imprensa e Fernando Collor’?

Trabalhei no Jornal do Brasil com um profissional exemplar, José Silveira. Ele dizia que ‘matéria que não tem o que dizer não tem lead; e matéria que não tem lead não dá título’. O livro de Conti não deu título porque não tem lead. Não tem tese. Não dá murro. Não tem uma revelação estarrecedora.

Aquela edição foi a do debate do Collor. Poderia ter sido a do Quércia, porque, a certa altura, o candidato de Roberto Marinho era o Quércia. E, então, o Alberico vinha a São Paulo, toda semana, despachar com Carlos Rayel, homem do Quércia para a imprensa.

Quando Collor começou a subir, o Alberico ficou amigo pessoal do Collor e falava com ele todo dia, por telefone – mesmo depois de presidente. Como se diz amigo pessoal de Fernando Henrique. E se preparava para ficar amigo pessoal de Ciro Gomes quando caiu, de tão amigo se tornara de Sérgio Motta.

O importante não é o Alberico. O Alberico fazia os amigos que o dr. Roberto deixava. O Alberico administrava o varejo e abria portas que Roberto Marinho, sozinho, não abriria. (O livro não deixa claro que Collor detestava Roberto Marinho.)

O episódio do debate é o ponto culminante de uma política de manipulação de opinião pública, através do noticiário da maior rede de televisão comercial do mundo, fora dos Estados Unidos. Uma política que não começou com o Collor nem acabou com ele. É uma pena que Conti não tenha conseguido daí extrair um título. Poderia ser O Bom e o Mau – como a imprensa cobriu a campanha Collor vs. Lula. Já facilitava. Depois viriam O Bom e o Mau II, O Bom e o Mau III…”

“O bom e o mau”, copyright CartaCapital nº 113 (22/12/99)

Com o debate e a eleição do Collor, o Dr Roberto tratou de mandar o Armando embora (que não conhecia o Collor) e botar no lugar alguém que o Collor conhecia muito bem.

Foi assim que Armando caiu.

O jornal nacional se chamou “nacional”, não porque fosse “nacional”, já que não havia rede nacional, mas porque o patrocinador era o Banco Nacional.

Agora, ele precisava no comando do jornalismo de um homem em que Collor confiasse.

Armando costumava dar uma versão inexata dos acontecimentos.

Está hoje, na pág. A11 da Folha (*) :

“Na edição Collor-Lula eu fui o marido enganado. O cara que dirigia a área (Alberico) fez modificações à revelia do próprio empresário. Fez aquela manipulação por jogada pessoal, porque era ligado ao Collor.”

Ora, o diretor de jornalismo era ele.

E foi o próprio “empresário” quem mandou “o cara que dirigia a área” escolher o “bom” do Collor e o “mau” do Lula.

Outra imprecisão está na primeira página do Globo de hoje, de autoria do magistral Chico Caruso.

Chico mostra o Dr Roberto a receber o Armando no céu, (?) na companhia do Evandro Carlos de Andrade e o convida para fazer um jornal.

Não era bem assim.

Evandro dirigia o Globo e não era amigo do Armando.

Evandro achava que o Armando fazia mau jornalismo e ganhava bem demais.

O Armando achava que o Evandro fazia mau jornalismo e pouco se importava com o péssimo salário que o Globo sempre (e até hoje) pagou.

Na TV Globo do Armando, era melhor ter trabalhado no Jornal do Brasil, onde Armando brilhou, do que no Globo do Evandro.

Depois, Evandro foi substituir o Alberico para fazer uma limpeza de área e impor o novo comando à rede Globo – os filhos no lugar do Dr Roberto.

Evandro fazia questão de dizer que não entendia nem queria entender de televisão.

Tanto assim que as únicas coisas que fez enquanto esteve lá foi contratar a urubóloga Miriam Leitão e o Torquemada Jabor.

Foi o Armando quem me levou para a Globo.

Aprendi muito com ele.

Especialmente a escrever para a televisão.

Ele era um craque.

Armando inventou o jornalismo na televisão brasileira e o Ali Kamel vai passar a vida sentado lá, sem mexer no que o Armando fez (melhor do que ele).

Mas, o Armando perdeu o pênalti aos 45 do segundo tempo, no dia do debate do Lula com o Collor.

Paulo Henrique Amorim"

sábado, 3 de abril de 2010

30 Gols Históricos


O Jornal Extra trouxe na última quinta feira um CD com 30 Gols Históricos rubro negros. Neste há desde um gol de Zico em 1974 até o gol do Imperador Adriano no jogo contra a Universidade do Chile pela Taça Libertadores de 2010.

Estão lá gols de títulos como o Mundial, Libertadores, Brasileiros e Estaduais, partidas importantes e históricas. Como são gravações da Rádio Globo, temos vozes como as de Waldir Amaral, Jorge Cúri, José Carlos Araújo e outros.

São 30 gols e como a tiragem foi muito pequena - tal qual o CD dos Gols do hexa lançado anteriormente - e não foi distribuída fora do Rio de Janeiro coloco aqui para que aqueles que queiram ouvir as narrações dos gols.

Basta clicar no link abaixo:


O gol de Rondinelli na decisão de 1978 (foto acima) é uma das narrações trazidas entre os áudios. Bom divertimento.

(Foto: Jogo Aberto)

O Golpe Civil-Militar de 1964 e a Classe Média: vilã ou massa de manobra da História?

O texto publicado abaixo sobre o aniversário do Golpe Militar de 1964 suscitou um réplica bastante interessante do leitor e colunista Fabrício Gomes. Como historiador ele elaborou um texto que complementa e contextualiza com rigor científico o assunto tratado.

Divido com vocês abaixo, para comentários e análises.

"Discordo da abordagem histórica adotada no texto, a começar pelo título do artigo. Vamos então falar didaticamente, tentar explicar isso para todos entenderem: não houve um "golpe militar" e sim um "golpe CIVIL-MILITAR". O acréscimo da palavra "civil" acontece aí justamente porque todo o aparato que envolveu o episódio contou com a ajuda (e anuência) da CLASSE MÉDIA, o principal sustentáculo do golpe.

A história (e os fatos) confirmam isso, quando pegamos, por exemplo, duas tentativas anteriores de golpe, tambem empreendidas pelos militares: em 1955, quando setores conservadores do Exército a pedido do então presidente Carlos Luz - e tambem do ex-presidente Café Filho - tentaram impedir a posse de Juscelino sob o pretexto de que ele não tinha a maioria dos votos e, com isso, não poderia assumir. E em 1961 (quando novamente os mesmos setores conservadores, personificados pela UDN, após a renúncia de Jânio Quadros, tentaram impedir a posse do então vice-presidente João Goulart, que se encontrava em viagem a China - até tentativa de assassinato a Jango foi pensada, leiam sobre a "Operação Mosquito", tentativa de abater o avião de Jango em seu retorno ao Brasil - na ocasião, o golpe foi abafado pela Rede da Legalidade do governador do RS, Leonel Brizola.

Através desses dois exemplos, percebemos claramente que houve frustração dos golpes justamente porque a classe média não chancelou aquele empreendimento. Em ambos os casos, próprios setores do Exército, legalistas, inibiram a ação golpista. Em 1955, o então Ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Duffles Lott, com sua "novembrada", garantiu a posse de JK; e em 1961, a atuação imprescindível do General Machado Lopes, comandante do III Exército (Rio Grande do Sul), que ao se dirigir ao Palacio Piratini, sede do Governo daquele Estado, para prender Brizola acabou aderindo à Rede da Legalidade.

No caso de 1961, o Exército "calou a boca" mediante a instauração de um novo modo de governo, o Parlamentarismo - que restringia a atuação de Jango e transformava a presidencia da República num cargo pra lá de simbólico. Quem mandava mesmo era o primeiro-ministro Tancredo Neves. A partir de 1963, o quadro mudou, mais precisamente em 06 de janeiro daquele ano, com o plebiscito que definiu o retorno do regime presidencialista. Com isso, Jango readquiria plenos poderes.

A figura de João Goulart é bastante emblemática nesse sentido: para alguns, um trabalhista histórico, herdeiro político de Getúlio Vargas. Jango seria incensado por seu padrinho político, que o prestigiara em seu segundo governo, elevando Jango a Ministro do Trabalho (um cargo que historicamente era destinado sempre ao PTB). Para outros Jango era um comunista infiltrado no Planalto, incentivador de uma República Sindicalista e influenciado diretamente por seu cunhado Brizola. Mas na verdade Jango não passava de um nacionalista: mas não a ponto de rejeitar capital estrangeiro. É válido lembrar que antes do Golpe Jango visitou os EUA e foi bem recebido por lá.

É preciso também levar em conta o panorama geopolítico da época: fim da década de 1950, início dos anos 1960, tivemos a Revolução Cubana acontecendo em Cuba (1959) - a propósito, tambem uma revolução nacionalista. O rótulo de "revolução comunista" só veio 2 anos depois. No contexto da Guerra Fria, o mundo polarizava-se entre EUA e URSS e quem se alinhava a um lado, era considerado inimigo do outro. Os EUA, diante do exemplo cubano, resolveu implementar uma política que observava diretamente os países da America Latina e Terceiro Mundo.

Ser nacionalista naquela época era ter a possibilidade de ser confundido com a vermelhidão ideológica importada de Moscou. E isso é logico que assustava a classe média, que foi alertada do perigo comunista. Apesar de toda propaganda ideológica feita por instituições como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais - dirigido pelo General Golbery do Couto Silva), IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) entre outros, fica difícil acreditar que milhões de pessoas pudessem servir de massa de manobra; sendo totalmente manipuladas por meios de comunicação da época (que inclusive eram mais distintos em opinião do que temos hoje, com o predomínio de uma emissora de TV apenas). Não é possivel que aqueles institutos pudessem enganar tanta gente - o que nos leva a refletir que, de alguma forma, a classe média brasileira se identificava, de fato, com o medo ao perigo comunista e a restrição às liberdades impostas por seu exemplo mais emblemático - o regime cubano, do ditador Fidel Castro.

As Marchas da Família com Deus e pela Liberdade levavam, em media, 500 mil pessoas, em várias capitais do Brasil: Rio, São Paulo, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte etc. Houve uma grande mobilização popular. Setores conservadores das Forças Armadas contariam então,com o elemento que lhes faltou nas duas tentativas anteriores de golpe, em 1955 e 1961: a classe média.

É bom ressaltar, porém, que as Forças Armadas não eram um bloco monolítico: no interior das Armas, várias cisões existiam. Nas eleições do Clube Militar, em 1962, disputavam chapas que eram nacionalistas (apelidadas de comunistas) e chapas anti-nacionalistas (apelidadas de entreguistas). Venceu a chapa anti-nacionalista. Era comum então, os rumos do Exército serem direcionados pelos resultados das eleições no Clube Militar. Mas dentro do próprio Exercito havia sim setores identificados com Jango, que concordavam com sua política.

Friso isso porque o senso comum aponta para uma certa polarização integral na epoca: Jango x Militares. Tal compreensão do fato é equivocada. O proprio dispositivo militar que cercava Jango (comandado pelo Ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro) é um exemplo de que havia um racha no proprio exercito sobre isso. O comandande do II Exército, Amaury Kruel, lotado em São Paulo era amigo pessoal de Jango, tendo seu filho conseguido um emprego público a graças intervenção do presidente. O general Kruel poderia perfeitamente garantir a permanencia de Jango no poder - e realmente houve uma negociação para isso, mas a imposição dada seria que Jango se desfizesse de Brizola e da CGT - o que Jango recusou veementemente.

Entendendo tambem a práxis política e operacional do Governo Jango é interessante perceber que o presidente não contava com a simpatia da propria esquerda da época. Luis Carlos Prestes e outros comunistas históricos viam o governo tomar atitudes de morosidade diante do cenário da epoca. Achavam que Jango estava indo muito devagar e que o presidente cedia aos interesses "imperialistas" (o que quebra a versão de que Jango era contrario totalmente aos EUA). Leonel Brizola inclusive queria assumir a Pasta da Fazenda em 1963 - fato que não ocorreu. O ex-governador, deputado mais votado no Estado da Guanabara, discordava veementemente das posições de Jango - inclusive sua participação no comício da Central em 13 de abril deu-se apenas de ultima hora, pois Jango não concordava em ser influenciado por ele.

É bem possivel que Jango fosse muito indeciso em suas ações. E isto de fato colaborou para sua deposição em 01/04/1964. Era alvo de críticas da esquerda e da direita justamente por não se posicionar. Acreditava-se que daria um golpe em 01 de maio de 1964 - o que nunca ficou provado.

Finalizando, acho completamente sem fundamento comparar Lula com Jango, principalmente porque Lula conta em seu governo (ou com a simpatia), com ex-arenistas históricos - Sarney, Collor, Maluf, Francisco Dornelles, Jader Barbalho, entre outros antigos "coronéis" da ditadura. Outro erro é apontar apenas a UDN como partido que apoiava o golpe. Juscelino também apoiou o golpe, pois estava interessado nas eleições de 1965.

Criar um clima de golpismo, afirmando que "dependendo dos resultados de outubro/2010, os rumos podem mudar", é, na minha visão, atitude precipitada e que vai contra as regras de uma democracia. Assim como Lula assumiu o governo em 2003, o partido derrotado seja qual for deveria aceitar o resultado tal como ele emergir das urnas. É a regra do jogo político.

Tanto JK como outros políticos e a classe média se arrependeram a partir de 1965/1966 ao perceber os rumos que o regime tomava. O general Humberto de Alencar Castello Branco assumiu a presidencia querendo promover eleições presidenciais em 1965. Mas novamente setores conservadores de dentro do exército não concordavam com isso. A ascensão do general Costa e Silva pode ser entendida então como "um golpe dentro do golpe". Depois vieram AI-5, acirramento de perseguições políticas, etc etc etc, mas aí já é assunto para outro post futuro."

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Resenha Literária - "O português que nos pariu"

Nossa seção "Resenha Literária" está bastante atrasada, mas aos poucos vou colocando aqui as leituras feitas quando do estágio em Salvador.

O livro analisado é bastante apropriado a um dia como hoje, pois fala de história, religião, grandes navegações, colonização judia, Santa Inquisição - que de santa não teve nada - tramas políticas de reis e rainhas e um povo como fio condutor deste caldo de cultura todo.

Falo de "O Português que nos pariu", da escritora Ângela Dutra de Menezes. O livro, originalmente de 2000, teve uma segunda edição ampliada no ano passado e é esta que é objeto de nossa resenha.

Em um texto bastante leve e com uma ironia bastante fina perpassando todo o livro a leitura é agradável e em muitos momentos bastante engraçada. A autora passeia pela fundação de Portugal, mostrando os povos e as influências que geraram o povo português, sua língua e sua formação como nação.

Uma das facetas mais interessantes dos textos é a história da colonização do Brasil pelos chamados "judeus sefarditas", fugitivos da Santa Inquisição espanhola e que encontraram abrigo em Portugal. Entretanto, com a chegada desta a terras lusitanas muitos destes judeus fugiram para o Brasil a fim de escapar da fogueira, colonizando áreas distantes do litoral àquela época - como a Baixada Fluminense e as expedições dos bandeirantes. Basta lembrar que o cemitério judaico mais antigo do Brasil é o de Vila Rosali, que fica em São João de Meriti - Baixada Fluminense.

Muitos dos sobrenomes mais comuns em nossa terra são derivados destes judeus, bem como parte considerável de nossa cultura. Outro ponto curioso é que em Portugal eles se "convertiam" ao Cristianismo mas apenas para consumo público: privadamente continuavam professando a religião judaica, sob "vistas grossas" dos reis portugueses. Tal arranjo mudou com a chegada da Santa Inquisição a terras portuguesas e, mais ou menos na mesma época, à quebra do Tesouro; o que levou o governo a apoiar tais processos a fim de se apropriar dos bens judeus.

Outra história bem interessante é sobre a unificação do país e a gana que os exércitos tinham pela degola dos opositores. A autora trata inclusive de uma ordem religiosa que tinha como prática na guerra tal ato - inclusive com um santo destinado aos cortadores de gargantas.

Interessante também é a história das Grandes Navegações portuguesas. Pedro Álvares Cabral, por exemplo, não era um exímio navegador mas foi colocado como comandante da expedição que tomaria posse do Brasil - a autora defende com teses bem consistentes que os portuguesas já sabiam da existência de terras que posteriormente seriam chamadas de brasileiras. Obviamente os comandantes das treze naus eram navegadores experientes de forma que Pedro Álvares Cabral fosse uma espécie de "rainha da Inglaterra". Também é relatada a desgraça com que ele foi recebido na volta, por terem sobrado apenas três caravelas e perdido alguns comandantes bastante experientes da esquadra. A propósito, as cores do Brasil na verdade são as cores da Casa Real de Bragança, que comandou Portugal por três séculos.

Também são muitos bons os perfis de reis traçados no livro. Descobre-se que o Rei Sebastião possuía traços visíveis de megalomania e um profundo misoginismo. A invasão ao Marrocos comandada por ele tinha tudo para dar errado, e resultou não somente na morte do Rei como na dizimação de boa parte da nobreza do país à época. Como resultado não somente o país foi anexado à Espanha como o "sebastianismo" se enfronhou de forma decisiva na alma lusitana.

Perfil também bastante interessante é o de D. João VI e sua imensa habilidade política, ao contrário da fama histórica de "paspalho comedor compulsivo de frangos assados". Destaque para o fato dele ter frustrado todas as tentativas de D. Carlota Joaquina em empreender algum tipo de poder real no Império, bem como ter sido o único soberano europeu continental a não ter sido preso ou dominado por Napoleão.

Obviamente aqui não esgoto as boas histórias que o livro conta, mas é leitura bem interessante. Instrutiva e divertida. Na Livraria da Travessa custa R$ 32.

Completando, apresento abaixo o mapa de Waldseemuller, feito em 1507 e que já traz um retrato bastante próximo ao correto da América. Tal mapa é um dos indícios que mostram que a esquadra de Cabral já sabia o que iria encontrar em sua expedição. Esta história de "calmaria", "acaso" e que tais é lenda.

Cinecasulofilia - "Morro do Céu"


Sexta feira, feriado... mas como de hábito temos a nossa coluna sobre cinema, a "Cinecasulofilia", parceria com o blog de mesmo nome.

Coluna assinada pelo titular do blog, o crítico, cineasta e torcedor fanático da Acadêmicos de Santa Cruz Marcelo Ikeda.


A juventude no cinema brasileiro recente (I): Morro do Céu 
Ainda que tímida, é interessante observar que nos anos de 2009 e 2010, tem existido uma tendência no cinema brasileiro recente de fazer filmes sobre jovens. Uma outra questão – que o Felipe Bragança apontou há alguns anos no Festival de Tiradentes, ainda que não exatamente dessa forma – é se os filmes que falam sobre jovens são efetivamente jovens, mas, de qualquer forma, o que quero apontar aqui é a existência, num período curto de tempo, de um conjunto de longas-metragens brasileiros que se debruçam sobre os rumos da juventude, fato raro no cinema brasileiro em geral. São eles: Morro do Céu, de Gustavo Spolidoro, Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodansky, e Estrada Para Ythaca, dos Irmãos Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes. São filmes complementares na forma como observam os caminhos para juventude, e como se utilizam dos elementos da linguagem cinematográfica para refletir sobre suas visões de mundo e de cinema. Mas, cada um à sua maneira, e em maior ou menor grau, são filmes notáveis, estimulantes, que em geral buscam uma certa lufada de ar fresco. Acredito que a juventude, com suas angústias, dúvidas e inseguranças, mas sua paixão, autenticidade e verdade, parece ser um bom caminho para se pensar em possibilidades para o mundo.

Morro do Céu foi realizado pelo gaúcho Gustavo Spolidoro num pequeno vilarejo no interior do Rio Grande do Sul, que dá título ao filme, financiado pelo DOCTV. É curioso pensar Morro do Céu como produto do DOCTV, já que a formação de Spolidoro é quase toda da ficção, e, talvez por isso, Morro do Céu, seja um filme praticamente ficcional. É incrível como Spolidoro trabalha no tênue limite entre a ficção e o documental. Ainda que trabalhe registrando o cotidiano de alguns dos moradores do local, em especial um jovem chamado Bruno Storti, Morro do Céu apresenta elementos ficionais na forma como estrutura sua narrativa, e como utiliza habilmente artifícios como uso da trilha sonora, convenções de personagens, paralelismos que são retornados adiante no filme, diálogos que revelam motivações que “levam o filme para frente”, etc. Com isso, Morro do Céu mostra que Spolidoro, talvez pela influência da mostra de cinema que organiza, o CineEsquemaNovo, é um bom leitor do cinema contemporâneo, não só pela forma sutil com que articula a ficção e o documentário, mas essencialmente porque soube absorver a principal lição desse cinema: a sabedoria de saber observar, articulando de maneira orgânica uma geografia física a uma geografia interior. Nesse aspecto é extraordinário o amadurecimento de Spolidoro: enquanto sua filmografia anterior preocupava-se, acima de tudo, com os fetiches do processo de filmagem, em especial os planos-sequência, agora Spolidoro utiliza a sutileza e a sugestão, com planos de câmera parada, um cinema que aponta pouco para si e para o seu processo de construção, ainda que na verdade, se revele de um profundo e complexo processo de elaboração estilística. Essa transformação de uma estética revela no fundo uma transformação de uma possibilidade de ver o mundo. O cinema de Spolidoro quase sempre falou sobre jovens, mas sua “linguagem jovem” era repleta de excessos, atitudes radicais, um humor escrachado, um movimento incessante muitas vezes para lugar nenhum. Mas a diferença é que agora Spolidoro apontava sua câmera para o interior, um canto recôndito, desconhecido e misterioso: agora seria necessário observar, e não apontar de antemão. Morro do Céu é bonito porque é um filme que sabe observar. Observar de forma íntima, delicada, profunda, sugerindo mais do que dizendo. Observar sempre de muito perto mas mantendo uma certa distância, uma distância respeitosa, delicada, eu diria quase oriental. Nunca invadindo uma intimidade, machucando, apontando para o espectador as dificuldades e os dilemas daquele menino, daquela comunidade, mas sempre observando, dialogando, sugerindo. Isso tudo foi possível, porque além de um sentimento pelo mundo, existia uma técnica, que se espelha num modo de realização. Praticamente todo o filme foi feito apenas pelo próprio Gustavo, que, “sozinho”, pôde acompanhar seu tímido protagonista de maneira delicada, deixando-o à vontade. Esse filme foi possível porque Gustavo encontrou uma handycam HD full de enormes possibilidades técnicas e intimistas: uma VIXIA HG-21, que custa cerca de US$1000. Ainda assim, Spolidoro não buscou os maneirismos da câmera digital, mas optou por um certo distanciamento, um certo rigor, baseados na não-intervenção e na opção pela câmera parada.

Mas falando de tudo isso, deixamos de ir ao essencial: quem é Bruno Storti? quais são os seus sonhos, seus desejos, o que lhe afeta? O filme mostra o seu cotidiano entre o final do período de aulas e as férias escolares, até o Carnaval. Spolidoro observa o cotidiano de Bruno: o estudo para as provas, seu trabalho amador como mecânico, seu grupo mais próximo de amigos, a vontade de ter uma namorada. De alguma maneira, Morro do Céu me lembrou de um filme muito íntimo para mim: Kes, o primeiro filme de Ken Loach, que mostra um menino que resiste a ter a vida de seus pais e trabalhar na mina de carvão e que nas horas vagas tenta adestrar um pássaro. Mas em Morro do Céu não se trata disso: é quase como se esse “romance de formação de consciência” fosse composto a partir de uma “decantação” e não de uma “agitação”. O desejo de Bruno está no extracampo, talvez perdido entre as folhagens reveladas nos belos grandes planos gerais do filme, que permitem um respiro adequado a essa reflexão, ou mesmo entre os abandonados caminhos dos trilhos do trem (Suzaku?), que possam levá-los para o além: desejo pela “borboletinha de Cotiporã”, que nunca vemos, nem mesmo no Carnaval, desejo pela fábrica na Itália, que nunca vemos, desejo pelo fora e pelo dentro, desejo por ser outro, desejo por ser si mesmo, desejo tímido, interior, libertário, humano, que revela no fundo que a grande sabedoria de Spolidoro não é escancarar, arrancar de dentro da dramaturgia essas dificuldades, mas simplesmente em respirar de uma maneira muito respeitosa e delicada uma possibilidade de ser."

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Final de Semana - "Portela, Passado de Glória"



Final de semana prolongado, daqui a pouco pé na estrada...

Hoje a música foi escolhida pelo fato de estar na minha cabeça desde a confirmação do enredo da escola para o carnaval 2011: "Portela, Passado de Glória", cantada pela Velha Guarda Show. Também não deixa de ser uma homenagem antecipada aos 87 anos de fundação da escola, a serem comemorados dia 11 de abril.

O vídeo acima é de uma apresentação de 1994, que acredito seja uma das primeiras da Velha Guarda Portelense fora das quadras das escolas. A letra, de Monarco, é de uma simplicidade e concisão que chegam a ser comoventes.

Portela, Passado De Glória
(Monarco)

Portela, eu às vezes meditando, quase acabo até chorando
Que nem posso me lembrar
Teus livros têm tantas páginas belas
Se for falar da Portela, hoje não vou terminar
A Mangueira de Cartola, velhos tempos do apogeu
O Estácio de Ismael, dizendo que o samba era seu
Em Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira
Todos só falavam Paulo Benjamin de Oliveira

Paulo e Claudionor quando chegavam
Na roda de samba abafavam
Todos corriam para ver
Pra ver, se não me falha a memória
No livro da nossa história tem conquistas a valer
Juro que não posso me lembrar
Se eu for falar da Portela, hoje eu não vou terminar

Golpe Militar de 1964


Hoje, primeiro de abril, comemora-se o aniversário da entrada do país em uma era de trevas e autoritarismo: o Golpe Militar de 1964.

O golpe foi dado pelos comandos militares para depor o Presidente João Goulart, que vinha tentando empreender uma política extremamente moderada de concessões a classe trabalhadora e de reformas de base - que sequer teriam o alcance desejado. Que fique claro, para começo de conversa: Jango não era comunista e não chegava nem perto de ser um.

Além disso, no contexto de Guerra Fria governos reformistas mesmo que moderados não detinham a simpatia dos Estados Unidos, que desejavam que os países da América do Sul mantivessem uma política incondicional de alinhamento. Isto incluía tratamento privilegiado às grandes empresas norte americanas, com regimes tributários especiais e condições favorecidas de competição.

Desaguando, uma elite personificada na UDN que não conseguia conquistar o poder no voto e que via com horror a possibilidade dos mais pobres passarem a fazer supermercado todo mês e se organizar a fim de obter melhores condições de trabalho e influir na vida política da nação. Aliás, ainda hoje, há políticos do DEM e do PSDB que tem ânsia de vômito ao ver os menos favorecidos fazendo compras em mercado ou em grandes lojas de eletrodomésticos...

Tínhamos adicionalmente uma imprensa em campanha aberta contra o governo e com intenções claramente golpistas. Esta insuflou as classes médias mais conservadoras, em especial de São Paulo, que saía em "Marchas pela Democracia e pela Liberdade" pelas ruas das grandes cidades. Como a história mostraria, não passaram de massa de manobra de políticos e jornalistas sem voto, pois tudo o que menos houve nos vinte e um anos seguintes foram liberdade e democracia no sentido estrito dos termos. Só tiveram a liberdade de oprimir o trabalhador e a democracia de concordar com os poderosos.

Completando o quadro, uma questão militar envolvendo infiltrados em associações de baixa patente - o infame "Cabo Anselmo" era um deles - e pouca habilidade política de Jango em lidar com a questão.

Minha visão foi de que a UDN utilizou-se dos militares para dar o golpe - após a criação de todas as condicionantes descritas acima - pois não tinha votos para derrotar Juscelino Kubitschek nas eleições marcadas para 1965. Entretanto, os militares gostaram da brincadeira e apearam pouco a pouco esta elite política do poder, a ponto de o país funcionar por um certo período praticamente sem políticos após o "golpe dentro do golpe" representado pelo AI-5.

Primeiro de Abril, muito apropriadamente o Dia da Mentira, marca o aniversário desta interrupção da ordem democrática e popular no Brasil. Não deixa de ser uma coincidência bastante adequada.

Trazendo para os dias de hoje, vejo uma conjuntura muito semelhante: políticos que sempre mandaram sem votos para retomar o poder, a grande imprensa com uma atuação abertamente golpista, um governo moderadamente reformista, a classe média conservadora horrorizada em ver os mais pobres tendo condições de consumir, o Judiciário nas mãos da oposição político-partidária e um Congresso absolutamente desmoralizado.

Há duas grandes diferenças: não há tensões significativas no meio militar e Lula tem uma habilidade política muito superior a de Jango. Entretanto, dependendo do resultado das eleições de outubro eu não me surpreenderia com outra quebra da normalidade democrática brasileira.

Para encerrar, vale lembrar a herança destes vinte e um anos de arbítrio: tortura, repressão, corrupção, o surgimento dos "esquadrões da morte", decadência da situação econômica, concentração de renda, endividamento brutal externo, uma anistia feita apenas para o lado dos vencedores e a perpetuação de práticas políticas clientelistas e atrasadas. É lembrar para que não se repita.

Como um "post scriptum", vale lembrar a figura do ex-presidente João Goulart, talvez um dos poucos perseguidos do Regime Militar que até hoje não mereceu a devida anistia nem o reconhecimento como o que foi: um ex-presidente que tentou dar seguimento à política de Getúlio em consições geopolíticas absolutamente adversas.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Linha Vermelha e Gueto de Varsóvia


Outro assunto que estava para comentar há algum tempo é a instalação de painéis à guisa de muros em toda a extensão da Linha Vermelha, no Rio de Janeiro.

Não sei a altura exata dos painéis, mas o cálculo que faço é que deve ter algo em torno de oito a dez metros de altura. A explicação oficial do governo carioca é de que irá diminuir o barulho às comunidades em volta da via expressa, permitindo assim um "sono mais tranquilo" aos moradores destas favelas.

Entretanto, a atuação tanto do governo do Estado quanto especialmente da Prefeitura vem sendo no sentido de confinar os moradores de favelas em seus espaços, a fim de "não atrapalhar" os "moradores decentes" da Zona Sul, elite das classes médias da cidade.

A instalação destas painéis significa na realidade duas posturas: primeiro "esconder" estas comunidades da visão de quem chega ao Rio de Janeiro via aeroporto do Galeão. A Linha Vermelha é caminho obrigatório para todos aqueles que chegam à cidade de outros países de avião, e tal medida permite aos turistas e locais da Zona Sul que chegam à cidade não ver a realidade em volta.

A segunda postura é a de confinar estes moradores, tal como feito nas UPPs - escrevi sobre isso antes. O prefeito Eduardo Paes está acometido de uma grave crise de "favelofobia" e vem pautando sua atuação pela defesa dos interesses dos moradores da Zona Sul. Quanto menos contato houver entre a elite civilizada e a plebe ignara melhor, de acordo com a postura adotada pela municipalidade - o que não deixa de ser fascismo.

Acirrar as desigualdades e transformar as favelas em verdadeiros "Guetos de Varsóvia" é o objetivo principal da política urbana do atual prefeito. O Rio de Janeiro se resume à Zona Sul e como tal deve ser privilegiado na alocação de verbas e de serviços. Cabe ao morador de comunidade "se esconder" e ser guardado em locais espacialmente determinados e cercados a fim de não atrapalhar os interesses e a visão dos cidadãos de primeira classe.

Com isto acirramos as diferenças e cria-se um conflito potencial entre aqueles que desfrutam da atenção da municipalidade e os que devem ser "escondidos", pois "envergonham" a Cidade Maravilhosa. A política é de exclusão, e não a inversa como deveria ser.

Lembro apenas aos leitores que todos são eleitores e que um prefeito ou governador é escolhido para governar a todos, não a poucos. Infelizmente, não é o que ocorre no Rio de Janeiro hoje em dia.

"Formaturas, Batizados & Afins" - Sobre a gripe H1N1


A partir de hoje temos uma nova coluna no Ouro de Tolo.

Revezando com a "Cacique de Ramos" às quartas feiras teremos a "Formaturas, Batizados & Afins", que terá como mote temas ligados à ciência e tecnologia.

O titular da coluna será o professor adjunto do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ Marcelo Einicker. O tema de hoje será a gripe H1N1, mais conhecida como "gripe A" - embora tal denominação seja incorreta como veremos no texto.

Quanto ao nome, vem de uma brincadeira feita com o autor, especialista em participar dos eventos citados... vamos ao primeiro texto.

"Devemos estar atentos à Gripe (H1N1)

Em diferentes períodos da história da civilização humana, grandes surtos de diferentes doenças – aqui incluídas algumas gripes – foram responsáveis pela morte de milhões de pessoas. Os vírus são os agentes causadores das gripes que acometem os seres humanos.

Cada tipo de gripe é causada por um tipo de vírus diferente, sendo todos classificados como vírus Influenza ou Influenzavírus. Destes, os vírus de subtipo A são os principais causadores de gripes em humanos e se caracterizam por uma notada capacidade de mutação; ou seja, a partir de um determinado vírus surgem outros mais ou menos infectivos e mesmo letais que aquele que os deu origem..É interessante dizer ao público leigo que venha a ler esta coluna que os vírus não são considerados seres vivos, ao contrário de outros microorganismos como as bactérias e fungos que também causam doenças. Os vírus são estruturas diminutas (>500 nm) e podem possuir diferentes formatos, a maioria em linhas bastante geométricas. A estrutura da maioria dos vírus pode ser definida como uma cápsula protéica que protege o material genético (DNA ou RNA) em seu interior. Para o sucesso da infecção viral, o vírus deve aderir a uma célula do hospedeiro e transmitir a esta célula seu material genético, estabelecendo assim a infecção. Maiores detalhes sobre as diferentes etapas da infecção viral e das etapas de montagem de novos vírus podem ser encontrados em livros de microbiologia médica e em sites específicos sobre o assunto.

Feita esta pequena introdução, passo a falar sobre a “gripe do momento” que é aquela causada pelo vírus Influenza A, subtipo H1N1. Neste código de letras que dá nome aos vírus influenza, a letra H refere-se a uma proteína presente na cápsula, a hemaglutinina.

As hemaglutininas localizam-se na parte mais externa das partículas virais e possuem grande afinidade por uma molécula presente na superfície das células do hospedeiro, sendo por isso importante na etapa de reconhecimento e adesão do vírus.  Já a letra N refere-se a outra proteína, a neuraminidase que é necessária para que o vírus recém sintetizado possa brotar saindo da célula inicialmente infectada e vá invadir outras células daquele organismo. Por isso as neuraminidases também se localizam na parte mais externa do vírus. Os números que acompanham as letras H e N, neste caso H1N1, referem-se ao tipo de hemaglutinina ou de neuraminidase daquele vírus. Mais de 5 tipos de hemaglutininas e 9 tipos de neuraminidases já foram identificados, o que mostra a possibilidade de diferentes arranjos virais, levando a diferentes graus severidade na infecção.

Nos primeiros meses de 2009 foram notificados alguns episódios severos de gripe em diferentes áreas da América do Norte e América Central. Em Abril de 2009, um surto de H1N1 matou mais de 100 pessoas no México, dando início a uma campanha de esclarecimento e prevenção que se espalhou por todo o mundo dada a gravidade desta gripe. As autoridades da área de saúde dos países mais inicialmente afetados estimaram em mais de duas mil o número de pessoas infectadas em todo o mundo no primeiro mês da descoberta deste surto; o que dava ao caso ares de uma nova pandemia.

O primeiro paciente identificado foi o pequeno Edgar Hernandez, 4 anos, da localidade de La Gloria, México. A proximidade da residência do menino a fazendas de criação de porcos foi o principal motivo para a primeira denominação desta gripe como Gripe Suína. Esta denominação revoltou e preocupou os suinocultores, que temiam por grandes perdas provocadas pela queda na venda de carne de porco, bem como da necessidade de sacrificar todo o plantel suíno das áreas sabidamente infectadas pelo vírus. Análises posteriores mostraram que não havia transmissão da gripe por porcos ou pelo consumo de carne de porco e com isso iniciou-se um movimento para mudar o nome de gripe suína para gripe Mexicana (por ter sido detectada primeiro no México), ou mesmo gripe norte-americana, já que teria surgido simultaneamente no México e no Sul dos Estados Unidos.

Claro que isso levou a protestos dos governos mexicano e americano, e trouxe alguns problemas econômicos principalmente ao México; onde destinos muito procurados como as praias de Cancun ficaram vazias. Por tudo isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a referir-se à doença como influenza A (H1N1). Vale destacar que é errado designar esta gripe apenas como “gripe A”, visto que a maioria das gripes humanas sazonais são causadas pelo subtipo A do vírus influenza, daí a importância de se especificar se se trata de H1N1, H5N1 ou outro vírus.

As medidas de controle e prevenção adotadas em todos os países do mundo fizeram com que o número de casos registrados fosse muito menor do que o inicialmente previsto. O número de mortes também foi bastante inferior às piores previsões no início do surto, chegando a ser comparado ao número de mortes provocado por gripes sazonais comuns.

Apesar disso não se pode negligenciar os cuidados já adotados para que um novo surto não apareça e mate mais pessoas. Neste sentido, alguns países estão fazendo campanhas de vacinação para minimizar a possibilidade de novos surtos. O Ministério da Saúde do Brasil lançou uma grande campanha de vacinação que começou vacinando profissionais de saúde e indígenas, mas que já encontra-se em prática e que tem um calendário bastante amplo, que atende todas as faixas de nossa população e que por isso deve ser visto com muita atenção por todos os brasileiros:

CALENDÁRIO DE VACINAÇÃO
Gestantes – (22 de março a 21 de maio)
Crianças de seis meses a dois anos – (1ª dose – 22 de março a 2 de abril)
Crianças com doenças crônicas de seis meses a oito anos – (1ª dose – 22 de março a 2 de abril)
Doentes crônicos – (22 de março a 2 de abril)
População de 20 a 29 anos (5 de abril a 23 de abril)
Adultos de 30 a 39 anos (10 de maio a 21 de maio)
Acima de 60 anos ou mais com doenças crônicas (24 de abril a 7 de maio)

Desde o lançamento da campanha, muitos boatos principalmente divulgados via Internet tem trazido algumas dúvidas a população. Será que esta vacinação é segura?

Sim, a vacina é segura conforme atestam especialistas da área de saúde, que tem contribuído para esclarecer as principais dúvidas da população. Além disso, a última avaliação realizada pela OMS no final do ano passado, registrou apenas reações leves provocadas pela vacina, como dor local, febre baixa e dores musculares que desaparecem em no máximo 48 horas.
   
Muito desta polêmica quanto ao uso da vacina começou em função de algumas substâncias que estão presentes na formulação. Uma destas substâncias polêmicas é o mercúrio, ou um derivado do mercúrio (timerosal) que notadamente é um metal pesado bastante tóxico ao organismo mas é usado na formulação da vacina para conservar o produto. A quantidade deste composto na dose da vacina é inferior a menor dose que pode vir a provocar alguma intoxicação ao ser humano. No entanto o Ministério da Saúde recomenda que pessoas alérgicas ao composto, consultem seus médicos antes de se vacinarem. Pesquisas científicas mostraram também que não existe qualquer correlação entre a quantidade deste composto na dose da vacina e o surgimento de autismo em crianças, como dito em alguns e-mails que circulam como spans.
   
Outra substância encontrada na formulação da vacina é o esqualeno, que é um componente muito comum em formulações de vacinas e não oferece qualquer risco na dose da vacina. Outro fantasma da vacina seria o fato dela conter células de câncer animal, o que não é verdade.
   
Apesar de ter sido acelerado o processo de entrada da vacina no mercado, isso não significa que a vacina não seja segura. A medicação é semelhante à usada na prevenção da gripe comum, sendo a principal diferença que o vírus inativado (morto) usado é o H1N1.
   
Tomados todos os cuidados e seguida a tabela de vacinação devemos deixar uma mensagem positiva para aqueles que ainda tem algum tipo de dúvida: a grande maioria de pessoas que adoecem pelo H1N1 tem se recuperado muito bem. Saúde!

Um abraço e até à próxima coluna !"

(Consulta: Ministério da Saúde, infectologista Gustavo de Araújo Pinto e a doutora em microbiologia Andréa de Lima Pimenta.)

terça-feira, 30 de março de 2010

Resenha Literária - "Os Anos do Condor"

Dando seguimento às leituras ainda referentes à última viagem a trabalho, temos hoje mais uma resenha literária: "Os Anos do Condor".

Escrita pelo jornalista americano John Dinges, que viveu no Chile e foi algumas vezes interrogado pelo sanguinário regime de Augusto Pinochet, joga luzes sobre um dos episódios mais funestos da história da América Latina: a "Operação Condor".

Esta foi uma articulação de governos à época a fim de caçar e eliminar opositores dos regimes militares ditatoriais da década de setenta.

O livro, apoiado em documentos recém-liberados em especial pelo governo americano conta a articulação para a criação da Condor, liderada pelo governante chileno. Toda a articulação da Operação Condor e sua coordenação era feito pela Dina, o serviço secreto chileno.

De acordo com o livro a Operação Condor era composta de três estágios:

 - troca de informações entre os governos;
 - tortura e eliminação de opositores dos regimes;
 - assassinato de dissidentes nos EUA e Europa;

John Dinges esmiuça a maneira de agir dos governos desde a formatação da "Condor" e os centros de tortura "internacionais" existentes pelo menos no Chile, na Argentina e no Uruguai.

Em outra passagem há a descrição de movimentos revolucionários nos países citados e a forma como foram desmantelados pelos governos, com assassinatos e torturas. Deixa claro que Pinochet e a junta militar argentina não somente sabiam como ordenavam o extermínio.

Reveladoras, também, são a atuação dos governos americanos nesta época. Henry Kissinger, o todo poderoso Secretário de Estado americano manteve uma espécie de "apoio tácito" tendo em vista que eram governos anti-comunistas. Tudo o mais era relevado em nome da luta contra o comunismo.

Tal apoio somente encontrou reveses com o assassinato em Washington do ex-chanceler chileno Orlando Letelier e com a posterior eleição do Presidente Jimmy Carter que buscou pressionar as ditaduras em nome do respeito aos direitos humanos. A morte do chanceler, que segundo o autor poderia ter sido evitada pelos EUA levou a uma censura aos países, que abortaram o terceiro estágio da operação.

Outra faceta é comportamento dúbio dos embaixadores americanos nos países, em especial no Chile. Muitas vezes ignoravam ordens de Washington para não se indispor com os carniceiros instalados no poder nos componentes do chamado Cone Sul.

No último capítulo o autor mostra o processo que levou à prisão na Inglaterra do assassino, genocida e carniceiro Augusto Pinochet - que, no momento em que escrevo, acredito estar passando sufoco no fundo do fundo do inferno. A partir do desaparecimento de cidadãos espanhóis e utilizando-se da legislação de direito internacional de guerra o ditador passou dois anos em prisão domiciliar. Quando retornou ao Chile sua aura de "intocável" havia fenecido.

Somente no Submarino o livro pode ser encontrado para pronta entrega, ao preço de R$ 49. Escrito como uma reportagem, lança luzes em um dos episódios mais misteriosos e sinistros da história da América do Sul.

Boa leitura, que recomendo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Lula e o "Entreatos"



No final de semana consegui ver, aos pedaços, o documentário "Entreatos", que após longa procura nas livrarias encontrei na Saraiva quando de minha última viagem a Salvador.

O mote do documentário é acompanhar os últimos dias de campanha do então candidato Luis Inácio Lula da Silva em sua primeira eleição (2002). Em um recorte temporal que vai da última semana antes do primeiro turno até a primeira entrevista como presidente eleito temos acesso a bastidores da campanha e a uma verdadeira aula prática de política.

Mesmo aqueles que não gostam do Presidente Lula, mas gostam de política, devem ver o documentário. Estratégias políticas são debatidas, ficam claros papéis como o do marqueteiro Duda Mendonça e todo o staff que se faz necessário em uma campanha hercúlea como esta.

Outro ponto alto do documentário são as análises políticas feitas pelo então candidato. Demonstrando uma erudição até a mim surpreendente ele discorre sobre estruturas políticas, alianças e a situação das esquerdas no mundo. Demonstra uma capacidade de análise política que veríamos depois muito útil no decorrer dos anos.

Chama a atenção a análise sobre o ex-presidente da Polônia Lech Walesa. Na análise de Lula ele não conseguiu fazer um bom governo porque era "um pelegão que foi alçado ao poder pela Igreja Católica conservadora" e que não tinha base social ou orgânica para empreender transformações. Olhando retrospectivamente, faz todo o sentido.

Fica clara também a transformação sofrida pelo PT e seu caminho traçado ao centro do espectro político. Com grande habilidade Lula coloca sempre os atores em perspectiva e procura obter o maior dividendo em termos de ganhos programáticos possível.

As imagens também mostram todo o aparato que há em um simples debate eleitoral. No último debate entre os candidatos Lula e Serra haviam seis "grupos de controle", formados por pessoas do povo; em tempo real os assessores de Lula eram informados de forma a alterar a tática e o comportamento do candidato no colóquio.

Também merecem destaque as imagens do dia do segundo turno das eleições daquele ano, desde o momento do voto, a espera pelo resultado da pesquisa de boca de urna e, no final, o telefonema de José Serra reconhecendo a derrota. Nós que somos simples cidadãos não imaginamos o aparato que existe por trás de uma campanha como esta.

Selecionei dois trechos do filme, disponíveis no Youtube. São momentos em que Lula faz análises políticas de grande acurácia sobre diversas facetas da prática política. Inclusive destaco a análise precisa do Movimento dos Sem Terra.

Um biscoito fino para quem gosta de política, independente de partido ou facção.

domingo, 28 de março de 2010

Infeliz Iêmen - por Tariq Ali

Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo.

Hoje trago texto do cientista político e pensador paquistanês Tariq Ali (foto), publicado originalmente na revista "London Rewiew Books" e republicada em português no excelente Viomundo.

Trata-se de um bom painel do país pertencente ao Golfo Pérsico e que começa a se tornar um novo "alvo" da insana guerra ao terrorismo norte-americana. O leitor ainda ouvirá falar muito dos personagens descritos no texto.

Boa leitura.

por Tariq Ali, em London Review Books

Parti para o Iêmen, já que Obama anda insistindo que “grandes fatias” do país ainda não estariam “sob completo controle do governo”, depois de o senador Joseph Lieberman ter alegremente anunciado que o Iêmen seria alvo adequado para mais guerra e mais ocupação.

O infeliz portador daquela cueca-bomba que tentou explodir o avião de Amsterdam no dia de Natal deflagrou nova onda de interesse pelo país e pela “al-Qaida in the Arabian Peninsula (AQAP)” – porque se disse que, embora o homem tenha sido convertido ao Islã linha-dura na Inglaterra, seu abraço felizmente fracassado com o terrorismo teria sido viabilizado pela AQAP em algum ponto do Iêmen.

O Iêmen é país sóbrio, diferente dos postos imperiais de gasolina espalhados por outras partes da península arábica, onde as elites dominantes vivem em arranha-céus construídos em prazos sempre recordes, projetados por arquitetos-celebridades, cercados por shopping-centers em que se vendem produtos com todas as griffes ocidentais, atendidos por escravos que chegam em ondas do Sul da Ásia e das Filipinas. Sana’a, capital do Iêmen, foi fundada em tempos em que o Velho Testamento ainda estava em produção, sendo escrito, editado e costurado. É verdade que o novo hotel Mövenpick, no coração do enclave diplomático que há na cidade, faz lembrar o pior de Dubai (estive lá quando todos eram obrigados a engolir um menu “Valentine’s Day Dinner Menu”), mas a elite iemenita é cuidadosa e não ostenta riqueza.

A velha cidade murada foi resgatada da extinção-por-modernização, pela Unesco (depois, também pelo Aga Khan Trust) nos anos 80s, e a antiga muralha foi reconstruída. A Grande Mesquita do século 9º está atualmente sendo restaurada por equipe de especialistas italianos associados a arqueólogos locais e têm encontrado objetos e imagens do passado pré-islâmico daquela região. Se vão ou não localizar uma pequena estrutura que se diz que teria sido construída ainda em vida do profeta Maomé, não se sabe.

A estrutura de Sana’a é deslumbrante, diferente de tudo o que se vê no mundo. As construções – arranha-céus de oito ou nove andares – foram erguidas no século 9º e restauradas 600 anos depois, conservando-se o estilo original: tijolos de argila decorados com padrões geométricos em gesso e pedra esculpida (não havia madeira em quantidade suficiente para construir). Faltam só os jardins suspensos em cada piso, que cativaram a imaginação dos viajantes medievais.[1]

Resultado líquido das preocupações ocidentais com a Al-Qaeda AQAP é que, esse ano, os EUA darão 63 milhões de dólares em ajuda ao Iêmen. Um quinto disso já está reservado para comprar armas, e o restante, praticamente todo, irá para o presidente e sua trupe, sem esquecer o que irá para os bolsos dos altos comandantes militares. O que sobrar será disputados pelos chefetes das várias regiões do país. (No total, não está incluído o que o Pentágono enviará para combater o terrorismo, e que ano passado chegou a 67 milhões.) Um empresário iemenita contou-me que ficara boquiaberto, há alguns anos, quando o primeiro-ministro, aparentemente homem moderado e respeitável, exigiu comissão de 30% em negócio que estavam planejando. Percebendo que o empresário ficara chocado, o primeiro-ministro tratou de tranquilizá-lo: 20% iriam diretamente para o presidente.

Não sei se a AQAP é ameaça séria, ou o quanto é séria, de fato. Quantos membros da organização estariam no país, quantos seriam meros visitantes vindos do outro lado da fronteira com a Arábia Saudita?

Abdul Karim al-Eryani, 75 anos, ex-primeiro-ministro e ainda conselheiro do presidente recebeu-me na grande biblioteca no subsolo de sua casa. É homem de fala interessante e falou longamente sobre a história do Iêmen, destacando as continuidades desde o período pré-islâmico até as culturas islâmicas na região. Lastimou que o dialeto árabe falado pelos beduínos de Nejd (que hoje é parte da Arábia Saudita) tenha sido a principal fonte para o moderno dicionário árabe, esquecendo-se assim a real fonte da língua, o dialeto dos Sabeans [talvez “sabinos”? Só o Arnaldo Carrilho saberá dizer!] que viveram onde hoje é o Iêmen, de cujo idioma os autores do dicionário excluíram 5.000 palavras.

Mais adiante, contou-me que, graças ao nigeriano da cueca-bomba, tinha sido visitado por Thomas Friedman, colunista do New York Times. Friedman fez as perguntas que quis, voltou aos EUA e contou aos leitores que “a cidade não é Cabul… ainda”; que a AQAP é um ‘vírus’ que merece urgente atenção antes que a doença se espalhe e torne-se incontrolável. Não cogitou, sequer, da causa da infecção.

Mas quando pedi que Eryani estimasse o tamanho da AQAP, ele riu. “Trezentos? Quatrocentos” – insisti. “No máximo”, disse ele. “No máximo, mesmo. Os americanos exageram enormemente. Temos nossos problemas reais e muito mais importantes.”

O mesmo ponto de vista foi reiterado por Saleh Ali Ba-Surah, ministro da Educação Superior, formado na Alemanha Oriental, como muitos nascidos na república que, até 1990, foi a República Popular Democrática do Iêmen, a porção sul do atual Estado.

As duas partes do que hoje constitui a República do Iêmen – controlada há 20 anos por Ali Abdullah Saleh, o qual, como Mubarak e Gaddafi, está criando o filho para sucedê-lo – representaram duas muito diferentes sociologias ao longo de grande parte do século passado. O norte, das terras altas – onde está a capital Sana’a –, foi dominado por tribos armadas; e no interior da região de Aden, dominavam os operários, intelectuais, sindicalistas, nacionalistas e, depois, os comunistas.

O país foi unificado séculos antes, sob a liderança dos imãs xiitas Zaidi, cujos poderes temporais dependiam da lealdade tribal e da aquiescência dos camponeses. O sul do Iêmen separou-se em 1728; o império britânico em expansão ocupou Aden e a área litorânea em 1839 (no mesmo ano em que começou a ocupar Hong Kong).

O já enfraquecido império otomano ainda abocanhou, pouco depois, uma fatia do norte do Iêmen, mas teve de cedê-la depois da I Guerra Mundial. Sob o império-do-bem dos britânicos, os imãs da família Hamid-ed-Din reassumiram o controle do norte. Em 1948, o governante, Yahya Muhammad, foi assassinado por um de seus guarda-costas, e o filho de Yahya, Ahmad, isolacionista obcecado, assumiu o poder.

Para Ahmad, a escolha foi fácil: seu país poderia ser dependente e rico, ou pobre e livre. Aos poucos, o descontentamento popular cresceu, à medida que Ahmad ia-se tornando cada vez mais excêntrico, mergulhado em morfina a maior parte do dia, ele e os amigos, num quarto iluminado com lâmpadas de neon, brincando com os brinquedos que colecionava desde criança. Não havia no país sequer uma escola moderna, uma estrada de ferro ou fábrica moderna, praticamente nenhum professor e nenhum médico.

Todos apostavam na volta de um irmão exilado do imã, que viria para expulsar Ahmad; ou, antes disso, em que os apoiadores de Nasser no exército do Iêmen perdessem a paciência. Ahmad combatera o nacionalismo árabe de Nasser em 1960, instigado pelos sauditas, fez divulgar pela rádio estatal uma denúncia contra Nassar, e havia quem esperasse por resposta do Cairo. A Rádio Cairo, sim, declarou guerra ao Iêmen. Mas antes que chegassem às vias de fato, Ahmad morreu.

Em menos de uma semana, o chefe da guarda pessoal de Ahmad, al-Sallal, reuniu oficiais nacionalistas e tomou o poder. O imanato chegara ao fim. Em Aden, milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas a favor do novo regime. Nas mesmas manifestações deixaram bem claro também que resistiriam contra a ocupação colonial do sul do país pelos britânicos.

Com medo tanto dos radicais nacionalistas quanto de seus muito prováveis apoiadores comunistas, Washington e Londres decidiram que o melhor a fazer seria devolver o poder aos imãs. Os britânicos, doidos para dar uma lição a Nasser e vingar a humilhação de Suez, foram com muito mais sede que os EUA ao pote das armas. A principal preocupação dos norte-americanos era que a infecção iemenita se espalhasse pela península e que, se a intervenção saudita fracassasse, as correntes nacionalistas engolfassem também a Arábia Saudita – o que poria em risco a monarquia. Os sauditas passaram a alimentar os apoiadores dos imãs e as tribos mais conservadoras do norte – com uma mistura barata de islamismo primitivo e muito dinheiro.

Os líderes políticos e militares do novo Estado do norte eram fracos e atrapalhados. Os intelectuais nasseristas no governo aproveitaram-se da indecisão deles e, finalmente, conseguiram convencer o exército a recorrer diretamente a Nasser. Os egípcios, então, com apoio de soviéticos e chineses, mandaram para o Iêmen uma força expedicionária de 20 mil soldados.

Gerou-se assim uma prolongada guerra civil, disputada por simulacros dos personagens oficiais da Guerra Fria – sauditas versus egípcios, para ser bem claro –, que custou a vida de 200 mil iemenitas e deixou em ruínas todo o norte do país.

Os egípcios eram homens do vale do Nilo e o terreno montanhoso lhes era completamente desconhecido. Mas, certos de que seriam invencíveis, não ouviram advertências nem conselhos e trataram os aliados locais, simultaneamente, como inferiores e irrelevantes. A guerra civil enfrentava impasse completo, e crescia a oposição aos métodos dos egípcios, que incluíam o uso de armas químicas. Foi quando aconteceu o brutal massacre dos operários e sindicalistas que faziam oposição aos egípcios em Sana’a e Taiz.

Em 1970, a guerra acabou sem vencedores e um acordo insatisfatório para todos. Os egípcios trabalharam na direção de subornar as tribos para comprar o poder; como resultado, compraram o poder – que foi entregue associado a entidades divinas e muitos pregadores e clérigos. A guerra custara ao Egito um milhão de dólares por dia e a vida de 15 mil soldados, além de quase 50 mil feridos. A subsequente desmoralização do exército pode ter contribuído para a derrota que sofreu na Guerra dos Seis Dias. Seja como for, a ‘guerra relâmpago’ de Israel, em junho de 1967, foi o túmulo do nacionalismo árabe.

A guerra civil forçou muitos comunistas e nacionalistas de esquerda do Iêmen do Norte a fugir para Aden. Ali, soldados britânicos, veteranos franceses da Argélia e mercenários belgas foram recrutados para a empresa do coronel David Stirling, Watchguard International Ltd., para operar por trás das linhas inimigas. Também no sul os nacionalistas estavam divididos: o Egito apoiava a Frente para a Libertação do Iêmen do Sul [ing. Front for the Liberation of South Yemen (FLOSY)] e grupos mais radicais reunidos sob a bandeira da Frente Nacional de Libertação [ing. National Liberation Front (NF)]. Os dois lados lutavam para expulsar os britânicos, e os britânicos, determinados a continuar onde estavam, agarrados a uma base estrategicamente importante e recorrendo cada vez mais a prisões sem julgamento e à tortur a.

Em 1964 Harold Wilson declarou que os britânicos permaneceriam na região, mas que passariam o poder, em 1968, à chamada Federação Sul-arábica [ing. Federation of South Arabia], sob a qual Wilson esperava que a população de Aden fosse mantida sob o controle de sultões do interior.

O plano deu gravemente errado, depois de todas as vilas terem sido bombardeadas, até serem varridas do mapa, pela Força Aérea britânica [ing. Royal Air Force (RAF)]. Em palavras de Bernard Reilly, oficial britânico que viveu praticamente toda a vida em Aden: “Só se pode pacificar país não habituado a governo ordeiro, mediante atos de punição coletiva, assalto e pilhagem.” Os líderes daquelas tribos não desejavam ser pacificados. Começou luta feroz nas ruas do Crater, uma das áreas mais antigas de Aden.

Em 1967, a Frente Nacional de Libertação usava bazucas e morteiros em Aden e atacava diretamente as bases militares britânicas. O governo trabalhista decidiu pôr fim às perdas e ordenou a retirada. “Lamentavelmente” – lê-se em carta do Colonial Office aos seus colaboradores nativos – “não podemos continuar a protegê-los”.

A vitória dos israelenses em junho de 1967 não ajudou os britânicos, porque a Frente Nacional de Libertação não era peão que os Egípcios jogassem como bem entendessem e bem diferente, nisso, da Frente para a Libertação do Iêmen do Sul [ing. FLOSY] a qual, então, estava gravemente enfraquecida. Uma greve geral comandada pela Frente Nacional de Libertação paralisou Aden e ataques de guerrilheiros forçaram a administração colonial a cancelar as celebrações do aniversário da rainha. Seis meses mais tarde, dia 29/11/1967, quando o fechamento do canal de Suez acabou com qualquer importância que Aden tivesse para os britânicos, os britânicos afinal partiram, depois de 128 anos.

Ao mesmo tempo em que Humphrey Trevelyan, último comissário, acenava uma rápida despedida dos degraus do avião que o devolveria a Londres, a Banda da Real Marinha Britânica do HMS Eagle tocava ‘Fings Ain’t Wot They Used To Be’ [as coisas não serão mais como foram, escrito ‘com sotaque’].

A Frente Nacional de Libertação venceu, mas ainda faltava planejar a reconstrução do país. A Frente reunia membros de várias correntes da esquerda: pró-Moscou, maoístas, guerrilheiros à Che Guevara, alguns poucos trotskyistas e nacionalistas ortodoxos. Todos concordaram imediatamente com restabelecer relações diplomáticas com a URSS, o que foi feito dia 3/12/1967. Mas as disputas começaram imediatamente.

O Congresso da Frente Nacional de Libertação aprovou deliberação apresentada pelos radicais, em que se exigiam reformas no campo, o fim do analfabetismo, a formação de uma milícia popular, expurgo nos aparelhos civil e militar, apoio à resistência palestina e cooperação intensa e próxima com a China.

A esquerda dominava no corpo dirigente então eleito. Uma tentativa de putsch liderada pelo exército por pouco não levou à guerra civil; mas comandos guerrilheiros armados cercaram as bases militares e desarmaram os oficiais. Em maio de 1968 já se via que a ala direita da Frente Nacional de Libertação não tinha qualquer intenção de implementar as resoluções do Congresso.

Foi criado um Movimento 14 de Maio, para mobilizar os que apoiavam as reformas. Houve confrontos com os militares, seguidos por um estranho período de calmaria que fazia recordar os Dias de Julho de 1917 em Petrogrado. A direita supôs que havia vencido e declarou que “os organizadores do Movimento 14 de Maio, de tanto ler os escritos de Régis Debray, supuseram que estivessem fazendo “uma revolução dentro da revolução”. Um ano depois, todos entenderam que a esquerda vencera.

A constituição de 1970 declarou o país uma república socialista – a República Popular Democrática do Iêmen – contra os conselhos de China e da URSS. (Em outubro de 1968, o ministro das Relações Exteriores da China, Chen Yi, o qual, ele mesmo, estava então sitiado pelos Guardas Vermelhos, declarou a uma delegação do Iêmen do Sul que visitava a China que “a ideia de vocês, de construir o socialismo, alimentada com slogans irrealizáveis e promessas que não poderão cumprir, pela própria natureza da ideia, afia as espadas de seus adversários.”) O que aconteceu foi tragicamente previsível.

Um Estado economicamente muito atrasado partiu para criar estruturas que institucionalizaram a austeridade e universalizaram a miséria. Promover a industrialização mediante empresas estatais poderia ter ajudado, não fosse pela proibição total de qualquer tipo de produção doméstica, sequer para o consumo das próprias famílias. A isso somou-se o monopólio estatal de todas as modalidades de comunicação, controle estrito sobre tudo que se podia dizer ou publicar, e extinção de todos os partidos do país, exceto o Partido Socialista Iemenita [ing. Yemeni Socialist Party]. Zombaram, ao mesmo tempo, do socialismo e das promessas feitas durante a luta anticolonial. O que é inegável é que o novo sistema de educação e atendimento médico universal, e a aparição da mulher na cena pública marcaram extraordinário passo adiante para toda a região. O que não agradou à Arábia Saudita.

Como desenvolvimento esperável, as potências vizinhas – o Iêmen do Norte, os Estados do Golfo, a Arábia Saudita – puseram-se a trabalhar, estimulados pelo governo Reagan, numa contrarrevolução de dentro para fora, do tipo que estava então sendo tentada na Noruega com os Contras. Em Ali Nasser, apparatchik cru, semianalfabeto, obcecado pelo poder absoluto, que se tornou presidente da República Popular Democrática do Iêmen em 1980, aquele grupo encontrou o instrumento de que precisava.

Por mais de um ano o presidente trabalhou contra o carismático Abdul Fateh Ismail, que o precedera na presidência e liderara a luta contra os britânicos, até conseguir que renunciasse por “motivos de saúde” e partisse para longa estadia na Europa Oriental. Havia vários apoiadores de Ismail na liderança local, quando ele retornou de Moscou em 1985; foi rapidamente reeleito para o Politburo da República Popular Democrática do Iêmen, como líder da maioria.

Dia 13/1/1986, o carro de Ali Nasser foi visto na calçada do prédio do Comitê Central (réplica de outras horrendas estruturas que se viam na Europa Oriental), onde deveria acontecer uma reunião do Politburo. Mas Ali Nasser não compareceu à reunião. Em vez dele, apareceu seu guarda-costas, drogado e armado com uma metralhadora Scorpion; entrou na sala e assassinou à bala o vice-presidente Ali Ahmed Antar, para começar; em seguida matou todos quantos estavam na sala. Foram mortos quatro membros-chave do Politburo, inclusive Ismail, além de outro membros do Comitê Central. Em outros pontos da cidade, homens de Ali Nasser destruíram, a tiros de morteiros, a casa de Ismail; e houve pesado tiroteio em vários pontos. Às 12h30, rádios e televisões de Aden noticiaram que o presidente derrotara uma tentativa de golpe dos direitistas e que Ismail e seus colaboradores haviam sido executados. Três horas de pois, o serviço árabe da BBC anunciava que o “moderado e pragmático” presidente do Iêmen conseguira abortar uma tentativa de golpe pelos comunistas extremistas. E a mesma linha foi acompanhada por quase toda a mídia ocidental, que repetiu a versão da derrota de uma tentativa de golpe apoiada por Moscou para radicalizar ainda mais o Iêmen… e, isso, apesar de Gorbachev já estar no poder na URSS.

À medida que se espalhavam em Aden as notícias dos assassinatos, multidões começaram a reunir-se nas ruas, e soldados conseguiram desalojar os novos donos do prédio do ministério da Defesa e da sala de operações, de onde os homens de Ali Nasser foram expulsos. Os confrontos atravessaram a noite. Morreram muitos membros desarmados do Partido, sindicalistas, líderes camponeses, assassinados pelos soldados de Nasser – que tinham listas de nomes antecipadamente preparadas. Seja como for, depois de cinco dias de luta sangrenta, os “moderados e pragmáticos” foram derrotados. Ali Nasser fugiu para o Iêmen do Norte e de lá, depois, para Dubai. Atualmente, é diretor de um “centro cultural” em Damasco, onde dirige também suas várias empresas.

A matança na reunião do Comitê Central foi o começo do fim da República Popular Democrática do Iêmen. Os prepostos do Ocidente na região, que haviam organizado toda a ação, puseram-se a falar contra “os gângsteres socialistas que ocuparam o governo do país”. Enquanto a URSS começava a desmoronar, começaram negociações entre o Iêmen do Sul e do Norte, e o país foi rapidamente unificado em maio de 1990, comandado por um conselho presidencial de cinco membros que representava as duas ‘metades’. Em 1991, uma nova Constituição levantou todas as limitações à liberdade de expressão e da imprensa e à liberdade de reunião e associação.


Mas a unificação também não deu certo. Os iemenitas do sul sentiam que seus interesses haviam sido traídos, e os repetidos confrontos e discussões não auguravam bom futuro para o governo de coalizão criado depois das eleições. Os socialistas do sul acusavam as gangues apoiadas por Ali Saleh, ex-presidente do Iêmen do Norte, e então presidente do país unificado, de atacar sulistas em Sana’a e em outras cidades. As relações deterioram-se rapidamente e houve escaramuças no Sul entre remanescentes do exército da República Popular e soldados que haviam lutado pelo Norte. Chegou a irromper guerra generalizada em 1994, da qual participaram grupos jihadistas e Osama bin Laden – que apoiavam Ali Saleh. Os sulistas foram esmagados, não apenas militarmente, mas também cultural e economicamente. Houve expropriação, roubo de terra, de propriedades urban as, as mulheres voltaram a ter de cobrir-se dos pés à cabeça (“Se não nos cobríssemos, chamavam-nos de prostitutas. Houve muitos estupros. A brutalidade foi imensa. Nos obrigaram a fazer o que queriam” – contou-me uma mulher sem véu, em Aden).

Quando cheguei a Aden, percebi que a Al-Qaeda da Península Árabe (AQAP, em inglês) é o menor dos problemas do país.

A maioria dos sul-iemenitas anseiam desesperadamente por separar-se do Iêmen do Norte. “Aqui não se trata de unificação. Trata-se de ocupação” – ouvi inúmeras vezes.

A população está sem liderança política e há fortes rumores em Sana’a de que o assassino Ali Nasser estaria sendo preparado pelo atual presidente Ali Saleh para fazer uma reestreia política; Ali Saleh o vê como “o homem da unificação”. Enquanto isso, há manifestações nas vilas e cidades menores, nas quais se queimam a bandeira do Iêmen e fotos do presidente Ali Saleh, e vê-se subir o velho estandarte da República Popular Democrática. A repressão é sempre violenta e a amargura só faz crescer, essa sim, de todos.

Dia 1/3/2010, as forças de segurança cercaram e destruíram a casa de Ali Yafie o qual, na véspera, queimara em público uma fotografia do presidente Ali Saleh. Yafie e oito membros de sua família, inclusive a neta de sete anos, foram mortos. A propaganda governamental acusou-o de ser membro da Al-Qaeda da Península Árabe.

Na noite de 4/1/2010, as forças de segurança em Aden cercaram a casa de Hasham Bashraheel, editor-chefe do jornal Al-Ayyam – fundado em 1958 e jornal que sempre noticiou, com abundância de fotos, as atrocidades do Estado. Por exemplo, publicou fotos dos mortos depois que as forças de segurança abriram fogo contra ex-soldados que reclamavam pagamentos atrasados; o jornal foi fechado em maio de 2009, embora a sala da redação tenha continuado a servir como local de reunião de jornalistas, intelectuais e ativistas de direitos civis. Quando as forças de segurança cercaram o prédio, logo surgiram também defensores do jornal que se reuniram na área. Os policiais dispararam para o ar, para dispersá-los. Depois, atiraram granadas na direção do prédio, onde o jornalista e sua família, inclusive duas netas pequenas, ainda estavam. Todos sobreviveram, miracu losamente, porque conseguiram esconder-se no porão do prédio.

Na manhã seguinte, Bashraheel e seus dois filhos renderam-se publicamente, para, pelo menos, tentar dificultar algum tipo de atentado contra eles e a família. Um ativista local disse-me que “amigos que tenho na polícia” disseram-lhe que havia dois cadáveres não identificados no porta-malas de um automóvel sem placa, em frente ao jornal.

Se Bashraheel e sua família tivessem sido assassinados, os dois cadáveres teriam sido plantados no prédio e identificados como membros da Al-Qaeda da Península Arábica, que estariam recebendo abrigo no prédio do jornal e teriam sido mortos por resistir à prisão. Um guarda pago pela família para cuidar da segurança foi morto, ao tentar render-se. O seu pai foi preso no enterro, dia seguinte. O jornalista foi pessoalmente acusado de “formação de quadrilha armada”. Há boatos de que o embaixador britânico, Tim Torlot, teria escrito ao governo, sugerindo que a mídia independente seria o principal problema no Iêmen. Meu informante em Sana’a garante que viu a carta. Torlot é famoso no Iêmen por ter trocado a esposa por uma ofuscante norte-americana que trabalha para o jornal Yemen Observer, jornal cujo proprietário é o secretário de imprensa do p residente Ali Saleh.

Viajei pelo sul, de Aden a Mukallah. Mas quando vi Shibam, esqueci completamente a política, pelo menos por uns instantes. Essa cidade murada, feita de edificações com paredes de argila, muito altos, alguns com 30 metros de altura, é um museu vivo[2]. Não surpreende que tenha sido escolhida por Pasolini para cenário de boa parte de suas “Mil e Uma Noites”. Pasolini fez mais. De volta a Roma, tanto falou sobre a cidade que conseguiu que a Unesco a declarasse patrimônio universal da humanidade (“World Heritage”). Em 2009, ao fotografarem a cidade de cima de uma colina, quatro turistas sul-coreanos foram mortos por um suicida-bomba do Norte.

Perguntei por todos os lados sobre a Al-Qaeda da Península Árabe. Um habitante de Shiban aproximou-se e perguntou-me num sussurro: “Quer mesmo saber onde Al-Qaeda se esconde?” Fiz que sim, com a cabeça e ele respondeu: “Na sala ao lado do gabinete do presidente”.

O mesmo aconteceu, em versão quase idêntica, também em Sana’a e Aden. Na véspera do Natal, o governo bombardeou (com jatos e aviões-robôs coordenados pelos EUA) duas vilas do sul onde, diziam eles, estaria escondido Anwar al-Awlaki, o clérigo iemenita-norte-americano acusado de ser o mentor do nigeriano da cueca-bomba. Não o encontraram, mas mataram mais de uma dúzia de civis.

O governo de Ali Saleh também enfrentou rebelião na província de Sa’ada, no norte, que faz fronteira com a Arábia Saudita. A população das terras altas anda irritada com os grupamentos de Wahhabitas e, sem ajuda do governo de Sana’a, decidiu se autodefender. Milícias tribais capturaram alguns soldados sauditas.

Resultado disso foi que, dia 5/11/2009, o mundo viu pela primeira vez em ação a Força Aérea Saudita (dita a mais poderosa força aérea na Região, depois de EUA e Israel; mas os aviões enferrujam até desmanchar, em hangares no deserto). Ali Saleh, o presidente, descreve a revolta como uma rebelião de xiitas apoiados por Teerã, e que tem de ser contida à força. Já praticamente ninguém acredita nisso.

O exército iemenita promoveu em agosto passado a Operação “Terra Arrasada” [ing. Scorched Land], que destruiu vilas e desalojou de suas casas 150 mil pessoas. Dada a total ausência de notícias e de organizações humanitárias, não se conhece exatamente a extensão das atrocidades cometidas pelo governo de Ali Saleh.

Muhammad al-Maqaleh, líder do Partido Socialista Iemenita e editor do jornal do partido, o Socialist, obteve depoimentos de algumas testemunhas oculares e publicou-os na Internet em setembro passado. Descreveu um ataque aéreo que matou 87 refugiados em Sa’ada, e incluiu fotografias. Foi preso por quatro meses, torturado e ameaçado de execução, por quatro meses. Finalmente foi apresentado a uma corte de justiça, à qual revelou o que sofrera.

Sana’a ainda não é Cabul, sim. Mas se o regime de Ali Saleh continuar a usar a força contra a população na escala em que está acontecendo hoje, novas guerras civis são hoje muito prováveis.

[1] Ver Salma Samar Damluji (2007), The Architecture of Iêmen: From Yafi to Hadramut.

[2] Há boas imagens em http://whc.unesco.org/en/list/192/.