segunda-feira, 31 de maio de 2010

Livro Jogo das Copas Globo Esporte


Programa imperdível para esta noite de segunda: comparecer ao lançamento do novo livro do jornalista esportivo e amigo Lédio Carmona.

Reproduzo abaixo o release de lançamento, esperando ver todos os leitores lá. O Ouro de Tolo fará uma promoção envolvendo o livro ainda esta semana, aguardem.

Livro-jogo das Copas Globo Esporte
De Lédio Carmona e Marcelo Martinez (org.)
192 p.
16 x 20 cm
R$ 55,00
ISBN 978857734131450


O escrete: Alex Escobar, Arnaldo Cezar Coelho, Caio Ribeiro, Cleber Machado, Fátima Bernardes, Galvão Bueno, Glenda Kozlowski, Gustavo Poli, João Pedro Paes Leme, Junior, Luiz Carlos Jr., Luis Roberto, Marcelo Barreto, Milton Leite, Paulo Cesar Vasconcellos, Pedro Bassan, Renato Ribeiro, Sidney Garambone, Tadeu Schmidt, Tiago Leifert, Tino Marcos e Walter Casagrande. O desafio: fazer, cada um, uma leitura de todas as Copas do Mundo, de 1930 a 2006, em um livro nada convencional: o Livro-jogo das Copas Globo Esporte, que chega às livrarias pela editora Casa da Palavra.

Organizado por dois apaixonados por futebol e profundos conhecedores do tema — o jornalista Lédio Carmona e o designer gráfico Marcelo Martinez —, o Livro-jogo das Copas é uma publicação  diferente. Além de contar com textos inspirados desse time de craques do telejornalismo esportivo brasileiro, o livro apresenta uma lúdica interação: “Sabendo que todo torcedor é um especialista quando o assunto é bola, montamos um livro-jogo com diversas brincadeiras espalhadas ao longo das páginas, mais de 180 perguntas e respostas para testar conhecimentos e até uma divertida  maneira de exorcizar alguns fantasmas de Copas passadas, mudando a história com a ajuda de adesivos”, comentam os organizadores, que bolaram infográficos para recriar jogadas históricas, raspadinhas que simulam jogos, entre outros passatempos. jogos, entre outros passatempos.

Os apaixonados por futebol mais ortodoxos podem ficar tranquilos: as estatísticas, informações sobre cada torneio e detalhes das campanhas do Brasil estão presentes no livro. E cada estrela desse time escalado por Lédio e Marcelo é responsável por uma Copa. Alguns falam de sua experiência profissional em uma cobertura jornalística, outros revelam como certo torneio marcou sua vida, ou simplesmente desvendam o que tornou algumas Copas do Mundo tão inesquecíveis. Todos os textos são recheados de amor pelo futebol.

Os organizadores recomendam: “ao longo das páginas é possível conhecer os diversos elencos do Brasil representados de uma maneira especial: com figurinhas,-caixinha de fósforos e outros objetos colecionáveis, que levam o torcedor em uma viagem por sua memória futebolística”. Leia. Cole. Rabisque. Raspe. Embarque com o Livro-jogo das Copas Globo Esporte em um passeio pela história das Copas do Mundo. Um livro feito para informar e divertir toda a família.

Os organizadores

Lédio Carmona é niteroiense de coração e nascimento e petropolitano por adoção. Jornalista há 24 anos, trabalhou na TV Globo, depois de passar por veículos como Jornal do Brasil, O Globo, Lance! e Diário Popular. Atualmente é comentarista do SporTV, além de comandar um blog: www.globoesporte.com/lediocarmona. Pela Casa da Palavra, lançou o Almanaque do Futebol SporTV. Esteve nas cinco últimas Copas do Mundo, e está indo para a sexta, na África do Sul. É casado com Germana e pai de Roberto, o Pequeno Bob.

Marcelo Martinez é designer gráfico e ilustrador. Teve projetos exibidos – e algumas vezes premiados – em mostras de design, ilustração e animação em países campeões do mundo como Argentina, Brasil, França e Itália; e em outros ainda na fila, como Bélgica, China, Holanda, México e Portugal. Como designer futebolista, criou para a Casa da Palavra o projeto gráfico do Almanaque do Futebol SporTV (2009). Também pintou um Pacheco Camisa 12 bonitão na sua rua, aos 10 anos de idade, durante a Copa de 82. Mora no Rio de Janeiro com a esposa Renata, o filho João e a tartaruga Rubinho.

Lançamento

Livro-jogo das Copas Globo Esporte será lançado dia 31 de maio, segunda-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema."

 

domingo, 30 de maio de 2010

Pense nisso quando comprar Iphones - Parte II

Domingo, volto a um assunto que abordei semana passada e que é bastante desagradável.

A empresa Foxconn, que produz produtos para a Apple e que vem em um surto de suicídios entre seus empregados encontrou as soluções para conter a onda de funcionários colocando fim às suas próprias vidas: redes de proteção nos prédios e alojamentos, psicólogos e a assinatura de um termo de compromisso onde os candidatos se comprometem a não se matar.

Ora, não era mais fácil melhorar os salários e as condições de trabalho dos funcionários ?

Pior de tudo é ver políticos e empresários brasileiros defendendo este tipo de relação de trabalho, de quase escravidão. Inclusive uma das potenciais candidatas a vice presidente na chapa tucana...

"Mais um funcionário de fabricante chinês de iPhone se suicida

Plantão | Publicada em 27/05/2010 às 08h25m
BBC


Mais um trabalhador da fabricante de eletrônicos Foxconn, de Taiwan, se suicidou, apenas horas após o presidente da empresa, Terry Gou, ter anunciado a introdução de benefícios aos funcionários da empresa.

De acordo com a agência de notícias Xinhua, o mais recente suicídio foi de um jovem de 23 anos, que trabalhava na Foxconn havia cerca de um ano e se atirou do sétimo andar do prédio onde ficava seu dormitório às 23h20 desta quarta-feira.

Esta foi a 12ª tentativa de suicídio entre funcionários da fábrica da empresa na província de Shenzen neste ano - em duas ocasiões, as pessoas que se jogaram para a morte sobreviveram.

Segundo a Xinhua, este último suicídio veio poucas horas após uma rara visita de Terry Gou à fábrica acompanhado por jornalistas chineses e ocidentais.

A Foxconn - que fabrica o iPhone, da Apple - emprega mais de 700 mil pessoas. Mais de 400 mil delas trabalham na fábrica da empresa na província de Shenzhen, na China continental.

"Estou muito preocupado com isso. Eu não consigo dormir à noite", disse Gou, um dos empresários mais conhecidos de Taiwan.

"Do ponto de vista científico, eu não estou confiante que vamos conseguir impedir todos os casos. Mas como um empregador responsável, temos de assumir a responsabilidade de impedir o maior número de casos possível", disse ele.

Redes


Gou disse aos jornalistas que estavam sendo instaladas redes para evitar que mais pessoas pulem para a morte.

As redes estão sendo colocadas ao redor de praticamente todos os dormitórios e prédios do imenso complexo, que, de acordo com o correspondente da BBC em Xangai, Chris Hogg, "é uma verdadeira cidade, com lojas, postos de correio, bancos e piscinas de tamanho olímpico".

"Apesar de parecer uma medida estúpida, pelo menos pode salvar uma vida se mais alguém cair", afirmou o presidente da Foxconn.

Gou também disse que iria reajustar os salários dos funcionários nas próximas duas semanas e financiar a implementação de um hospital para fornecer terapias profissionais para os trabalhadores.

Setenta psicólogos foram contratados para dar aconselhamento aos funcionários.

"Nós também estamos treinando nossos empregados para se tornarem conselheiros voluntários. Mais de cem funcionários receberam o treinamento e nós esperamos que o número cresça para mil em um mês."

Pactos 'anti-suicídio'


Ativistas na vizinha Hong Kong vinham realizando protestos, pedindo que a população boicotasse a empresa deixando de comprar iPhones, como forma de pressionar a fábrica por melhorias nas condições de trabalho.

Eles afirmam que as jornadas de trabalho são longas, as linhas de montagem têm uma velocidade muito alta e os chefes aplicam uma disciplina militar para lidar com os trabalhadores.

De acordo com jornais chineses, a companhia agora obrigou os funcionários a assinar acordos declarando que não vão se suicidar.

A companhia ressalta que apesar da publicidade negativa, todos os dias cerca de 8 mil pessoas se candidatam para trabalhar na empresa.

A Apple, que criou e vende os iPhones, disse que vai avaliar a forma como a Foxconn está lidando com a onda de suicídios e vai continuar inspecionando as fábricas onde seus produtos estão sendo manufaturados."

sábado, 29 de maio de 2010

Resenha Literária - "Guerra sem Fim"

Estou para escrever esta resenha há algum tempo, mas sempre surgia outro assunto ou não estava com o livro em mãos para escrever. Devo ter acabado esta leitura há mais de um mês...

Este "Guerra sem Fim", do jornalista americano Dexter Filkins, é um retrato cru e frio de duas guerras: Afeganistão por volta de 1998 e no Iraque após 2003.

Sua narrativa chega a ser irritante de tão imparcial. Sem tomar partido ou estabelecer juízos de valor o correspondente estabelece um panorama bastante fiel dos combates nas duas regiões, dos motivos nem tão nobres que levam a tal, da vida diária em meio ao cenário de guerra, da democracia de araque que se implantava no Iraque e das dificuldades de se impor uma legislação ocidental neste país.

No relato sobre o Afeganistão fica claro porque o regime talibã, que parecia radical e incoerente aos nossos olhos ocidentais havia prosperado e tido apoio maciço da população.

Com todas as restrições culturais, o Talibã era um mínimo de ordem a ser estabelecido no país em guerra, e suas restrições eram toleradas por medo da vida sem a organização mínima da sociedade estabelecida pelos fundamentalistas. Sua oposição, as chamadas "Aliança do Norte" e a milícia uzbeque eram grupos de bandoleiros mais preocupados em impor o terror e em saquear tudo que pudessem.

Ou seja, por mais toscas que pudessem ser as instituições - baseadas na lei islâmica aplicada como no Século VII - e mais bárbara que fosse a aplicação da lei, a alternativa era ainda pior.

Maior parte do livro, o relato iraquiano é um intrincado retrato das relações comerciais, de segurança, de interesses petrolíferos e da dificuldade de se impor uma democracia à moda ocidental em um país que absolutamente não possui esta cultura.

Se fazem destaques também a descrição da rotina do repórter e sua equipe em Bagdá e as operações militares as quais ele esteve presente - com narrações detalhadas de mortes e de erros em campo que levavam a tais fatalidades.

Também há a descrição de torturas e assassinatos cometidos pelas forças americanas, bem como os problemas de infra-estrutura causados pela guerra.

O livro reforça uma impressão que há muito eu tinha: de que a ação americana tanto no Iraque quanto no Afeganistão muito mais desorganizou a sociedade dos dois países que qualquer outra coisa. No caso iraquiano fica claro o interesse econômico que levou à invasão.

Apesar de uma imparcialidade e de um distanciamento que chegam a irritar, é um panorama imprescindível para quem quer entender um pouco da dinâmica no Oriente Médio e o fundamentalismo islâmico. É melhor ainda se for lido em sequência com "Procedimento Operacional Padrão", que conta as atrocidades dos soldados americanos na prisão iraquiana de Abu Ghraib - citadas de relance neste.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 46.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Final de Semana - "O Trem das Sete"



Nossa música para o final de semana é uma tremenda alegoria: "O Trem das Sete", de Raul Seixas.

A letra originalmente significa uma espécie de "Juízo Final", mas pode ser entendida - e deve - como um momento de transição na vida de todos nós.

Gostaria de colocar a excelente gravação do cantor Zé Ramalho, mas infelizmente o recurso "incorporar" não está disponível. Fiquemos, então, com a versão do autor, em uma rara gravação ao vivo.

Reflitam.

"Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon

Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem

Quem vai chorar, quem vai sorrir ?
Quem vai ficar, quem vai partir ?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão

Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar

Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons

Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral"

Oito anos e duas injustiças depois...


A Copa do Mundo vem se aproximando e é hora de falar um pouco mais sobre a mais importante competição do futebol mundial.

Nosso personagem é um jogador que foi injustiçado duas vezes nas Copas anteriores e que, salvo alguma contusão de última hora, terá a honra de envergar a Camisa 1 canarinho nesta Copa da África do Sul.

Voltemos a 2002. Em um time fraco, Júlio César era, disparado, o maior destaque de um Flamengo combalido e afogado em dívidas herdadas das desastrosas administrações dos ex-presidentes Kleber Leite e Edmundo Santos Silva. Não é exagero dizer que ele foi peça importantíssima para o clube não ser rebaixado em 2001 e 2002, bem como nos títulos cariocas de 2000 e 2001.

O goleiro era candidato a uma das vagas para a Copa de 2002, sendo sem dúvida alguma o melhor goleiro brasileiro de então. Entretanto acabou de fora da competição devido a dois fatores: ao assumido preconceito do técnico Luiz Felipe Scolari contra jogadores cariocas - quem não se lembra dele na convocação final frisando que Juninho, jogador do Flamengo, "era paulista"? - e à pressão insuportável da mídia paulista pela convocação de seu queridinho, Rogério Ceni. Aliás, este último, goleiro comum embaixo das traves, se jogasse a metade do que seu marketing apregoa era o novo Pelé.

Ele não foi ao Japão e à Coréia do Sul, o Brasil foi campeão - justiça seja feita, com boas atuações de Marcos - e esta entrou para a história como a primeira injustiça sofrida pelo goleiro.

A vida seguiu para o arqueiro rubro-negro. Ele continuou fazendo seus milagres em 2003 e 2004, até se transferir para a Internazionale de Milão no final deste ano. Esteve emprestado, voltou à equipe milanista, desbancou o preferido da torcida Toldo e se firmou como titular do time azul e preto.

Parêntese: outra tremenda injustiça é ver Bruno entrando para a história como um dos goleiros mais vitoriosos da história flamenga e Júlio César não. Mas...

Mudou o técnico da Seleção, Dida assumiu o posto de titular e Júlio César, seu reserva imediato. Brilhou intensamente na Copa América de 2004 e caminhava para ser o reserva imediato na Copa da Alemanha. Contudo...

Mais uma vez embalado por uma campanha midiática sem precedentes, e respaldado em uma boa atuação na final do Mundial Interclubes do ano anterior, Rogério Ceni aterrisou de pára-quedas na convocação final para o certame, ele que praticamente não fora convocado nos quatro anos anteriores. Mais ainda, tomou de Júlio César o lugar de reserva imediato, chegando até mesmo a entrar em uma partida. Ao goleiro carioca restou treinar sozinho, haja visto que sequer dos coletivos ele participava. Tornou-se uma espécie de "fantasma" ou "morto vivo" naquela fracassada seleção.

Não se abateu. Sem se queixar seguiu o seu caminho, conquistando títulos e a admiração de seus fãs brasileiros e europeus até se consagrar campeão europeu na última semana. Não foi o primeiro titular de Dunga, mas aos poucos assumiu a posição, empreendeu algumas atuações memoráveis e atualmente é o dono incontestável da Camisa 1 brasileira. Conseguiu a proeza, até, de diminuir bastante o lobby pelo arqueiro paulista, rei do marketing pessoal.

Boa sorte, Júlio Cesar. Oito anos e duas injustiças depois, finalmente poderá disputar uma Copa do Mundo.

Cinecasulofilia - "Viajo porque preciso..."

Sexta feira e, como sempre, a nossa coluna "Cinecasulofilia".

Assinada pelo cineasta, crítico e professor de cinema Marcelo Ikeda, é publicada em parceria com o blog de mesmo nome.

"Viajo porque preciso, volto porque te amo

O novo filme de Karim Ainouz e Marcelo Gomes dá continuidade a um certo caminho estético desenhado por ambos os diretores em seus trabalhos anteriores, mesmo que separadamente. Viajo herda um gosto por um percurso geográfico e íntimo de um Nordeste, um ponto de vista que se associa à solidão, uma idéia de viagem como fluxo necessariamente transitório e imperfeito. Acabamos por nos lembrar mais de Karim, porque Cinema, Aspirina e Urubus se passava mais no sertão árido, cuja fotografia tilintava com os tons de Mauro Pinheiro Jr. A estrada onde Viajo começa nos lembra do início (fim) de O Céu de Suely, além das prostitutas que povoam a parte final do filme. Mas é nessa idéia de um percurso por um Nordeste interior e pela problematização da idéia de viagem que os dois diretores se aproximam.

Viajo é um diário de viagem, narrado por um protagonista (Irandir Santos) que nunca vemos, apenas o ouvimos. Protagonista que compõe o hibridismo desse filme, que se equilibra entre a ficção (o geólogo que tenta esquecer as lembranças de sua amada) e o documentário (o olhar pelo interior do Nordeste, a fotografia). É muito interessante constatar que, após dois filmes de grande repercussão inclusive internacional, Marcelo Gomes e Karim Ainouz optaram por um filme conjunto, em somar forças, realizando um projeto simples e singelo, descaradamente menor. Um projeto íntimo, uma viagem interior por um Nordeste. Um filme assumidamente pequeno.

Após um começo francamente poético, em que os diretores dialogam com um certo estado de coisas do cinema contemporâneo (um olhar radical por um espaço físico, os planos longos, a solidão da estrada), o filme lá pela sua metade começa a se escorar em estratégias um pouco mais convencionais de retratar esse lugar (uma família sozinha, as prostitutas, um motel, o baile de forró). O filme tem um curioso tratamento fotográfico, dirigido por Heloísa Passos, que mistura vídeo em alta resolução e imagens não tão tratadas, inclusive com grandes variações de foco. Nessa opção em evitar uma plasticidade meramente ilustrativa, Viajo expõe sua fragilidade no próprio corpo das imagens filmadas.

Apesar de irregular, a integridade de Viajo porque preciso, volto porque te amo precisa ser defendida.

Viajo porque preciso, volto porque te amo.
Viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo."

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Tartarugas, celebridades e o conceito de famosos


Pergunto aos meus sessenta leitores: quem é mais importante na foto acima ?

Os caçadores de "notícias" e de celebridades dirão certamente que é a mocinha, atriz de televisão - bela atriz, reconheça-se.

Contudo, a foto mostra algo ainda mais importante, que é o projeto de preservação das tartarugas marinhas realizado na Bahia - o Projeto Tamar. Realizado com apoio da Petrobras, consiste em proteger a desova destas tartarugas nas praias e minorar o risco de extinção. Sem contar a ação predatória do homem, de cada mil tartaruguinhas que nascem nas praias apenas uma ou duas chegam à idade adulta.

Entretanto, o tal site de celebridades destaca mais a atriz em questão que o imprescindível projeto de preservação das tartarugas marinhas.

Este é um fenômeno, que já abordei em outro post, bastante representativo destes tempos em que vivemos, onde o efêmero é mais importante que o duradouro, onde a "celebridade" é mais importante que a cultura: a audiência de uma foto com a atriz citada é muito maior que o projeto desenvolvido há trinta anos.

Poderia cair na vala comum e escrever que este é um sintoma de inversão de valores; porém, considero a questão muito mais complexa que uma simples valoração do que é e do que não é importante ou capaz de atrair a atenção dos leitores, espectadores e ouvintes.

Um mundo onde a vida se torna a cada dia mais virtual, cada dia mais voyeur, tem como consequência clássica a demanda por se viver a vida das outras pessoas, especialmente se forem famosas ou carregarem o arquétipo de "bem sucedidas". O conceito de "bem sucedido" mudou bastante nas últimas décadas, mas não podemos atribuir à televisão ou à imprensa a mudança neste conceito. Pelo menos não totalmente, seria atribuir à "caixinha mágica" um papel que ela não tem.

Certamente este interesse no que os 'famosos' fazem ou deixam de fazer resulta da tomada destes como "exemplos" por parte da população média.

Por outro lado, o conceito de "famosos" sofreu uma significativa alteração - a meu juízo, para pior - nos últimos anos. Hoje para ser considerado um "famoso" ou uma "celebridade" basta ter participado de um destes "reality shows" da vida ou ter feito um papel de figurante "sênior" - ou seja, com duas falas - em pseudo-séries como "Malhação" ou coisa do gênero.

Outra possibilidade é ser a "carinha bonita da vez" da novela ou ser xingada por um bando de manés em uma universidade de playboys com cérebros de amendoim atrofiado. Quando eu era garoto - e isso não faz tanto tempo assim - para ser considerado "famoso" haveria de se ter uma longa carreira ou, então, ser brilhante em sua área de atuação.

Os atores das novelas poderiam até ter caras bonitas, mas o que importava era o talento. Os jogadores eram conhecidos mais por seus talentos dentro de campo que por suas características fora dele - ou a conquista mais recente. Cientistas, escritores e bons músicos eram as grandes estrelas. Bons tempos.

Voltando ao Projeto Tamar, em minha última ida a Salvador comprei na loja do aeroporto duas tartaruguinhas de pelúcia para minha filhotas, além de uma bonita camiseta para mim. É o mínimo que eu posso fazer por tão expressivos animais. Se o leitor quiser conhecer um pouco mais, o site do projeto está aqui.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: a célula artificial

Quarta feira, dia de nossa coluna sobre ciência e tecnologia. Como sempre, assinada pelo professor de Biofísica da UFRJ Marcelo Einicker.

O tema de hoje é algo que até para mim é um completo mistério: a criação de uma célula artificial. Vamos ao texto:

E O HOMEM CRIOU VIDA! MAS...CRIOU MESMO?

Caros amigos,

Nesta última semana uma notícia científica esteve entre as mais lidas, apresentadas e comentadas de toda mídia. Também não poderia ser diferente pois trata-se de um grande marco na ciência mundial. Um feito que estará no hall das grandes descobertas como o domínio da energia nuclear, a descoberta da penicilina, o primeiro bebê de proveta e tantas outras descobertas que enchem de fascínio e orgulho o mais desacreditado ser vivo. Foi anunciado com toda pompa e circunstância que cientistas americanos teriam criado uma célula artificial! Mais ainda, esta célula recém criada em laboratório era viável e se reproduzia como se fosse uma célula normal. A leitura destas linhas realmente enche de impacto este feito do grupo de cientistas, mas alguns pontos devem ser melhor explicados para que sejam considerados nas discussões sobre o tema e é um pouco isso que a coluna vai abordar hoje.


Um Popstar da Ciência?

Nascido em 14 de outubro de 1946, John Craig Venter não era o que se pode qualificar de aluno exemplar na época do College (o ensino médio nos EUA). No entanto durante o período em que esteve como soldado americano na guerra do Vietnã, Venter ficou encantado com a atuação de médicos e enfermeiros no front de batalha. Como aqueles homens e mulheres lutavam contra os ferimentos dos soldados e discutiam fisiologia de uma maneira que conseguiram despertar no jovem Venter a certeza de que se tornaria médico. Por razões pessoais e do destino, Venter acabou mesmo enveredando pela Biologia e se especializou em biologia celular e bioquímica celular, vindo a se tornar pesquisador na State University of New York em Buffalo. Craig Venter iniciou uma trajetória muito venturosa não apenas na pesquisa propriamente dita, mas na parte política de captação de recursos junto ao governo americano e a empresas privadas que passaram a investir pesado nos projetos de Venter. Assim ele foi o fundador de algumas importantes intituições como o The Institute for Genomic Research, a empresa Celera – principal instituição onde foi conduzida a elucidação do genoma humano, e mais recentemente e cercado de alguma polêmica o J. Craig Venter Institute. Isso mesmo, um Instituto de pesquisa, criado por ele e com o nome dele! Venter foi apontado pela conceituada revista Time como uma das pessoas mais influentes do mundo nos anos de 2007 e 2008, muito por sua atuação no Projeto Genoma Humano. Outro lado pitoresco ou excêntrico de Craig Venter é o fato dele dedicar uma boa parte do ano a velejar um luxuoso iate pelos mares do mundo, iate este equipado com um laboratório onde Venter e seus cientistas fazem pesquisas genomicas em organismos marinhos. Mais detalhes podem ser lidos em http://www.midianews.com.br/?pg=noticias&cat=7&idnot=23807

Uma célula artificial?? E que prolifera??

Assim foi anunciada a última façanha de Craig Venter, a criação em laboratório, de uma célula biologicamente ativa e que era capaz de proliferar normalmente.

Mas, como antecipado no início desta coluna, é preciso analisar todo o protocolo experimental para entendermos que a tal célula artificial não era assim tão artificial. O que fez o grupo de Venter nesta pesquisa?

Primeiramente eles escolheram um microorganismo de onde obtiveram toda informação genética. Usaram a bactéria Mycoplasma genitalium, que é dos organismos com menor genoma conhecido; ou seja, toda informação genética que esta bactéria precisa para desempenhar suas funções biológicas está contida num cromossomo único. E a equipe de Venter decifrou neste genoma todos os genes desta bactéria. Com isso, usando técnicas de biologia molecular, fizeram outras células (E. coli), expressarem os diferentes genes do genoma da M. genitalium; ou seja, eles fizeram uma outra bactéria sintetizar cada um dos pedacinhos do genoma da bactéria inicial. Reunidos todos os pedaços do genoma da M. genitalium, novamente usando técnicas de biologia molecular, a equipe de Venter emendou os pedaços e formou uma cópia do cromossomo único da bactéria, igual o que acontece quando uma destas bactérias se divide naturalmente.

Esta molécula de DNA sintetizada foi então colocada numa bactéria que teve seu material genético totalmente removido, ou seja, o DNA gerado no laboratório foi inserido numa bactéria vazia e isso restaurou as funções vitais daquela bactéria a ponto dela poder voltar a proliferar. Desta forma podemos agora entender que os cientistas não criaram uma sequência gênica aleatoriamente e colocaram numa cápsula plástica ou coisa parecida, o que sim configuraria algo bem artificial. Os cientistas “montaram” um cromossomo idêntico a um que existe naturalmente, sendo que esta montagem ocorreu fora de uma célula. Esta é a parte “artificial”. A bactéria onde o material genético montado foi inserida também é uma bactéria como as outras daquela espécie, só que manipulada em laboratório para que ficasse sem seu material genético original. É esta leitura de o quão artificial é a célula de Venter que domina boa parte dos comentários sobre o assunto.

O impacto desta descoberta para a humanidade

Mesmo que a célula criada pela equipe de Venter não seja tão artificial, mesmo que o genoma utilizado no experimento seja um dos mais simples da Terra, o feito é grandioso e abre perspectivas muito boas para diferentes áreas, desde a saúde até o meio ambiente. Por exemplo, uma vez dominada esta tecnologia de “montagem de genomas”, poderá ser desenvolvida uma abordagem para inserir genes de interesse nas seqüências originais, criando organismos especializados em determinados processos. Por exemplo, com o acidente em curso da plataforma de petróleo no Golfo do México, já se imaginou a criação de um microorganismo que possa metabolizar (“comer”) o óleo, transformando o que polui em algo biodegradável. No campo do meio ambiente, a criação de microorganimos que destruam lixo e o transformem, por exemplo em material útil, ou microorganismos que destruam poluentes como agrotóxicos e outros que contaminam o solo e nascentes de água. Enfim, abre-se um mundo de possibilidades para o futuro, desde que todos os cuidados e toda pesquisa básica no assunto seja exaustivamente conduzida. Imaginar a liberação de bactérias ou outros organismos modificados em laboratório na Natureza, nos dá um arrepio de medo e nos remete a situações correlatas como a suposta origem do vírus da AIDS que seria um experimento que teria fugido do controle dos cientistas. A questão ética da manipulação da vida também é um item importante neste assunto e já está sendo bastante considerada não apenas por setores mais fechados como a Igreja, como também pelas comissões formadas por cientistas em todo o mundo.
   
Dominada esta tecnologia e entendido todo o impacto que possa ocasionar, estamos diante de um dos maiores feitos da Ciência em toda história.
   
Até a próxima!    

Marcelo Einicker Lamas"

terça-feira, 25 de maio de 2010

Brasil: marcha para o golpe ?


Escrevi nos primódios do blog textos sobre a situação de Honduras, à época, chamando a atenção para o que parecia ser um microcosmo do Brasil.

O que vemos hoje são sinais claros de que em caso de derrota do candidato José Serra haverá a tentativa de se dar um golpe de Estado, via Judiciário - "aparelhado" faz tempo pelos tucanos - ou, em último caso, com uma quartelada pura e simples. Parece claro que democracia para estes grupos é "apenas quando o nosso candidato vence".

As recentes declarações do Ministro do STF Marco Aurélio Mello e mais recentemente da Vice Procuradora Geral da República dando conta de que "Dilma Roussef terá problemas se ganhar as eleições" são a ponta visível de campanha que já vem empreendida - Folha de São Paulo à frente - pela imprensa conservadora e por setores da oposição. Fontes do setor militar também já emitem sinais de que estão desconfortáveis com a eventual vitória da candidata governista.

Não custa lembrar que a pré-candidata vem sendo multada seguidamente por "campanha antecipada", mas o pré-candidato tucano ocupou todo o programa eleitoral do DEM na última semana - o que é ilegal e proibido. E a representação contra tal fato foi acintosamente arquivada pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Também não acho que seja coincidência o fato destas ameaças à ordem democrática estarem vindo quando as pesquisas eleitorais mostram a ascensão fulminante de Dilma Roussef. Quanto mais ela é conhecida como a pré-candidata da continuidade mais seus índices nas pesquisas aumentam.

O quadro atual lembra-me muito o pré-1964, onde a UDN tinha o controle da grande imprensa e a preferência das chamadas "elites", mas não tinha votos para chegar ao poder. Utilizou-se de campanha midiática, "marchas pela democracia" - que a História revelaria como grande falácia - e, por último, da força bruta dos militares. Só não contavam que estes gostassem da brincadeira e, pouco a pouco, os fossem apeando do poder.

Nos dias de hoje, temos uma classe média, ou frações dela, raivosa, uma imprensa conservadora fazendo campanha aberta contra o governo e uma oposição aparentemente sem votos para impor o seu projeto excludente e elitista de país. Entretanto, basta caminhar um pouco pelo interior para se ver que há uma espécie de "maioria silenciosa", a despeito de todo o barulho midiático.

As grandes diferenças residem no fato de o grande empresariado estar dividido - afinal de contas, ganharam muito dinheiro com a inserção de crescentes parcelas da população no mercado consumidor de massa - e não apoiar em bloco o candidato tucano, por um lado. Por outro, apesar da insatisfação de setores militares não há uma clara "quebra de hierarquia" que possa ser utilizada como pretexto para uma quartelada ou algo do gênero.

Vale lembrar ao leitor que houve uma espécie de "ensaio" de golpe judicial após as eleições de 2006, onde o mesmo Ministro Marco Aurélio chegou a afirmar que o Presidente Lula "não assumiria o mandato, caso fosse eleito". Entretanto, a diferença acachapante no resultado somado à falta de condições políticas tornaram inviáveis tal "quartelada judicial".

De lá para cá, tivemos ensaios como a vergonha ocorrida no Maranhão e a retirada de outros governadores e prefeitos com justificativas bastante tíbias, para se dizer o menos. Sem dúvida alguma, se criou jurisprudência.

Independentemente de opções politico-partidárias, faço o apelo aos democratas no sentido de que se unam para que o resultado das próximas eleições seja respeitado. Não será nada agradável ver a supressão da ordem democrática, seja através de tramóias e velhacarias judiciárias, seja pela força militar pura e simples.
 
Seria interessante, também, que a grande mídia volte a seu papel de informar, sem se envolver em campanhas, explícitas ou não, de promoção e proselitismo políticos e de desrespeito à democracia e à ordem.

Ainda há tempo de evitar tal desatino. O aviso está dado.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A duplicação do Comperj

O jornal O Globo de hoje traz matéria dando conta de que a Petrobras decidiu duplicar o Comperj, refinaria que está em construção na cidade de Itaboraí, Rio de Janeiro.

Originalmente a refinaria seria um complexo para a produção de matérias primas para a indústria petroquímica, em especial para diversos tipos de plástico. Originalmente a capacidade de processamento seria de 150 mil barris diários de petróleo pesado.

Com a alteração de projeto serão duas refinarias, ambas com capacidade de 165 mil barris diários de petróleo pesado. A primeira produzirá matéria prima para a petroquímica, conforme o projeto original. A segunda produzirá principalmente querosene de aviação e óleo diesel, produtos com demanda ascendente no mercado brasileiro.

Com as alterações no projeto o início da produção passa de 2012 para 2013, estando o término das obras e a produção a toda capacidade previstos para o ano de 2017. O investimento estimado passa de US$ 8,5 bilhões para US$ 20 bilhões e o número de empregos previsto, ainda antes da revisão no planejamento, era de duzentos mil na construção e mais cinquenta mil na operação propriamente dita. Não custa lembrar que além das duas refinarias propriamente ditas se instalarão na região indústrias transformadoras, a fim de utilizar a nafta (foto acima) como insumo para a produção de petroquímicos, em especial plásticos. Ou seja, o efeito indutor das duas refinarias da Petrobras na economia do Estado é bastante impactante.

Um efeito adicional da construção das duas refinarias é revitalizar a economia da região de Itaboraí, entre Niterói e a Região dos Lagos. Além das empresas transformadoras, toda uma infraestrutura de atendimento aos trabalhadores das refinarias e das empresas petroquímicas terá de ser criada, o que impacta na geração de emprego, renda e na arrecadação de impostos federais, estaduais e municipais.

Outra consequência é a melhora no balanço de pagamentos, pois diminui a necessidade de importação de óleo diesel e nafta por parte do país.

Penso que seria interessante os candidatos de oposição à Presidência se posicionarem sobre os planos de investimento da Cia para os anos vindouros. Em especial o candidato José Serra, haja visto que no debate do novo marco regulatório do petróleo os parlamentares da coligação PSDB/DEM vem defendendo os interesses das empresas privadas e estrangeiras de petróleo. Consequentemente, a redução de tamanho e dos investimentos da empresa brasileira.

A Petrobras hoje é uma importante indutora de crescimento do país e uma eventual redução ou diminuição de seus planos de investimento pode trazer não somente intranquilidade ao mercado petrolífero como ao próprio crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Os planos para a empresa podem e devem ser parte fundamental das propostas de campanha dos candidatos à sucessão do Presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Finalizando, não posso deixar de saudar tal elevação de investimento, que trará grandes benefícios para a economia e a população não somente do Estado do Rio de Janeiro como do país.

domingo, 23 de maio de 2010

Pense nisso quando comprar Iphones


Fechando o domingo, retomo um tema que já abordei na resenha do livro "A História Secreta do Império Americano": as condições sub humanas dos trabalhadores na Ásia.

Tais fábricas produzem artigos para fábricas como Nike, Adidas e outras. Na matéria que reproduzo abaixo - do blog do jornalista Luis Nassif, mas a fonte primária é outra - o caso citado é o da FoxConn, que produz aparelhos como Iphones, Ipods e Ipads para a Apple.

Pense nestes suicídios descritos abaixo e nestas condições desumanas de trabalho quando comprar aparelhos da marca.

Estarrecedor. Vale a pena a leitura atenta.

"Relatos de um infiltrado no inferno: a fábrica da Foxconn
 
O jornal chinês Southern Weekly mandou o repórter Liu Zhi Yi, de 20 anos, para trabalhar infiltrado na fábrica da Foxconn em Shenzhen, China. Por 28 dias, ele vivenciou as terríveis condições a que são submetidos os mais de 400.000 empregados, montando iPods, iPads e iPhones o dia inteiro sem parar.

Não há a menor dúvida. Os suicídios da Foxconn foram causados por stress de trabalho. Em meio ano, houve nove tentativas de suicídio com sete mortes confirmadas na fábrica da Foxconn em Shenzhen. No mês passado este número subitamente subiu para 30 novas tentativas de suicídio, fazendo com que a empresa contratasse conselheiros e até monges budistas para libertar as almas dos suicidas do purgatório.

A Foxconn é uma das principais fabricantes contratadas pela Apple. Milhares de Mac Minis, iPods, iPhones e iPads são montados diariamente na fábrica de Shenzhen, que opera 24 horas por dia, sem parar. A empresa também produz para a Intel, Dell e HP, entre outras.

Depois da sexta tentativa de suicídio em abril, o Southern Weekly – descrito pelo New York Times como o mais influente jornal liberal da China – mandou um jovem repórter para se infiltrar como um empregado na fábrica. Ao mesmo tempo, mandaram um repórter sênior para conversar com os executivos da Foxconn. A missão: descobrir o que estava realmente acontecendo na fábrica e determinar as verdadeiras razões dos suicídios.

Durante os 28 dias de investigação, Liu Zhi Yi se impressionou ao descobrir como os empregados vivem uma espécie de escravidão contratada. Eles trabalham o dia todo, parando apenas para comer rapidamente ou dormir. Eles repetem a mesma rotina todos os dias, exceto nos feriados públicos. Liu concluiu que, para muitos dos empregados, a única saída possível deste ciclo é acabar com a própria vida.

Liu, um estudante de graduação, foi escolhido para a tarefa por sua idade, já que a fábrica só contrata jovens de vinte e poucos anos. Ele foi contratado sem problemas. Só assinou um documento especial: um acordo de horas extras que diz que a empresa não seria responsável pelas suas longas horas de trabalho. Segundo Liu, este acordo voluntário anula as leis estatais chinesas.

Os trabalhadores da Foxconn só sorriem no dia 10 de cada mês. Este é o dia em que ganham seus salários. Neste dia, as máquinas de caixa eletrônico dentro da fábrica ficam lotadas com as filas. Os seus salários mensais começam em 900 Yuan — cerca de R$ 235.

A maior parte dos trabalhadores não têm opinião sobre os populares produtos da Apple que eles montam. A maioria não ganha o suficiente para ter um. Os seus salários só dão para comprar alguma cópia barata. Enquanto fãs de gadgets no mundo inteiro discutem qual iPod devem comprar, os trabalhadores da Foxconn debatem os méritos das diferentes imitações.

Histórias da fábrica

Liu teve suas conversas mais interessantes com outros funcionários durante as refeições. Alguns lhe contaram que sentiam inveja dos colegas que estavam doentes. Eles ganham folga e podem descansar um pouco. Eles também discutiram acidentes na fábrica: um trabalhador teve seu dedo cortado durante a produção. Alguns trabalhadores acham que as máquinas estão amaldiçoadas. Eles consideram perigoso usar as máquinas.

Outro empregado me contou sobre uma das atividades favoritas na fábrica: deixar coisas caírem no chão. Por quê? Os empregados passam dolorosas oito horas de pé, então eles consideram que se abaixar para pegar um objeto caído é o momento de maior descanso do seu dia de trabalho.

Os carrinhos da fábrica são chamados de “BMW” pelos trabalhadores. Enquanto os puxam e empurram, sempre com altas pilhas de produtos, eles imaginam as BMWs que esperam um dia conseguir comprar.

Segundo um trabalhador, eles não conseguem viver sem estes sonhos. Eles sonham em ficar ricos um dia. Alguns gastam parte do seu salário em bilhetes de loteria e apostas em corridas de cavalos.

Há outros tipos de sonho, também. Liu diz que alguns deles reclamam de suas vidas amorosas. Eles não conseguem encontrar amantes naquele ambiente, então precisam encontrar alternativas: em alguns “internet cafes” — escondidos em restaurantes fora da fábrica – os jovens podem ter acesso a vídeos pornôs clandestinos. No entanto, os homens dizem que os filmes ficam chatos depois de um longo período de tempo.

Muitos não falam sobre os suicídios. Alguns fazem piada com eles. Um dos problemas pode ser a falta de comunicação e amizade entre os colegas de trabalho. Muitos trabalhadores nem sabem os nomes das pessoas que trabalham ao seu lado. De fato, segundo o Southern Weekly, os trabalhadores acham difícil se relacionar uns com os outros por usarem sempre os mesmos uniformes e realizarem sempre as mesmas tarefas todos os dias. Eles não têm assuntos interessantes para conversar porque só trabalham. Se um empregado fica muito estressado, ele geralmente não tem com quem dividir os seus problemas ou para quem pedir ajuda.

Talvez os 100 conselheiros contratados pela Foxconn ajudem. E eu acharia legal se eles pudessem ter cinemas e shopping centers dentro da fábrica para ajudá-los a relaxar. Mas, no fim, o mais importante é que a Foxconn realmente precisa ser mais humana e preocupada com a saúde física e mental dos seus empregados, em vez de tratá-los como cachorros."

Bissexta


A partir de hoje, temos uma nova coluna no Ouro de Tolo. Como o próprio nome dela diz, não terá periodicidade definida, mas sempre que tiver textos novos será publicada aos domingos.

O autor é o advogado radicado em Porto Alegre Walter Monteiro, rubro-negro e diretor da torcida organizada Fla-Manguaça.

Nosso texto de estréia é sobre a sempre tumultuada relação existente entre a Seleção Brasileira e a imprensa esportiva.

"NÓS QUE ODIÁVAMOS TANTO A SELEÇÃO!

Quando eu era criança eu queria ser João Saldanha. Futebol era tudo para quem foi criado nas redondezas do Maracanã, com o luxo de um campinho de pelada improvisado no asfalto de uma rua sem saída. Meus coleguinhas sonhavam serem Zicos, Dinamites, Rivelinos, mas eu aprendi desde logo que a minha única chance de viver de futebol era virar João Saldanha, poder falar e escrever de futebol com sabedoria, mas sem a pretensão de transformar cada crônica em um pastiche de poesia.

Cresci e João Saldanha não virei, nem de futebol eu entendo, embora o idolatre e o respire intensamente. Aliás, eu raramente presto atenção a algum jogo, me limito a torcer freneticamente, expiando os pecados da alma e injetando adrenalina pelos berros primitivos ao meu entorno. Mas o “João Sem Medo” me inspirou, anos atrás, a sonhar com um projeto de livro, relatando o permanente clima de animosidade entre a imprensa esportiva e a seleção brasileiras.

Quem tem menos de 30 anos e é consumidor habitual das pílulas opinativas de nossa inteligentsia da imprensa deve apostar que a lendária seleção de 82 era recebida com loas de reverência pela crônica da época. Há um livrinho aí pelos sebos da vida onde o Saldanha dispensa à hoje mítica equipe um tratamento que nem os mais ferrenhos críticos da atualidade teriam coragem de reproduzir nesses tempos mais sensíveis.

Poupá-los-ei da extensa pesquisa que fiz do que se dizia daquele mágico time, mas um trechinho mínimo dá a dimensão do consenso da época. Fala, Saldanha:

“Tantos crimes contra o bom senso, contra o senso comum, não poderiam passar impunemente. O fato de possuirmos jogadores extra-série como Zico, Falcão, Sócrates, Júnior e Cerezo dava a falsa impressão de que éramos superiores em tudo. Mas uma estupidez siderúrgica rondava nosso propósito de ganhar uma Copa....Inventaram uma tática no Brasil abandonando preciosos espaços de campo. Ora, somente um primarismo infantil e teimoso poderia pensar que os adversários não iriam aproveitar o erro clamoroso...”

Nossa crônica esportiva nunca gostou da Seleção e vice-versa. Assim foi, assim sempre será. Há, claro, exceções. Em 2006 o time só não saiu daqui mais incensado porque nossos craques nem se deram ao trabalho de dar uma passadinha nessa terrinha tão longe da Europa. E há quem diga que em 1966, com Pelé, Tostão, Gerson, Garrincha, os entendidos da ocasião já haviam aberto o champanhe na véspera.

É por isso que o clima atual me anima. Afinal, tanto ódio e rancor contra a Seleção só vi em 1994, título que até hoje incomoda quem torceu contra. Vai pra cima deles, Brasil."

sábado, 22 de maio de 2010

Sobretudo


Hoje é sábado, dia da nossa coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário e rubro-negro Affonso Romero. O texto de hoje é especial: além de ser um depoimento absolutamente pessoal do autor, é uma linda história de amor.

Deleitem-se e se emocionem. Vale muito a pena.

Aproveito para parabenizar o casal pela formalização do enlace na data de hoje.

É o amor !!!

“...É o Amor
Que mexe com minha cabeça e me deixa assim
Que faz eu pensar em você e esquecer de mim
Que faz eu esquecer que a vida é feita pra viver
É o Amor
Que veio como um tiro certo no meu coração
Que derrubou a base forte da minha paixão
E fez eu entender que a vida é nada sem você...”


Esses versos do Zezé di Camargo soam simplórios aos mais refinados. Uma música que fala tão diretamente de amor, que usa palavras e formas simples para descrever este sentimento, que é um declaração tão derramada, bem pouco elaborada, quase crua, talvez não tenha atributos para invadir o olimpo das clássicas canções da MPB, que abriga letristas que já trataram do mesmo tema com delicadeza, fina ironia, intensidade, riqueza, contraste e erudição.

Acontece que a música do Zezé (e do parceiro Carlos Cézar, sempre omitido, coitado) tornou-se um ícone da canção popular brasileira e, se não está em nenhum panteão, fixou-se no imaginário do País. Recebeu até um chamego da “self-called inteligentzia” nacional, ao ser regravada pela cotadíssima voz de Maria Bethânia.

Foi o irmão mais velho de Bethânia, Caetano, quem mais vezes resgatou canções do limbo brega - desde Odair José, passando por  Peninha e Marcio Greyck - e traduziu em sua voz a pureza e a simplicidade do amor cantado de forma crua e direta.

Mas foi uma composição própria de Caetano, Sampa, que ajudou a relativizar em mim os eventuais problemas das mudanças que temos que impor às nossas vidas quando queremos realmente buscar a felicidade. O meu problema é que a minha felicidade residia em São Paulo, e eu, no Rio. E hoje, mais de dois anos depois de eu ter superado estes 400Km que me distanciavam da grande metrópole bandeirante, eu devolvo ao Caetano e aos paulistanos o meu jeito de ter aceitado Sampa em forma de releitura:

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que dá quando eu cruzo a Paulista com a Consolação
É que quando eu cheguei por aqui já eram outros tempos
São Paulo ditava ao Brasil a mudança dos ventos
E eu vim com a certeza de ter os mais doces momentos
Mas foste um difícil começo, fui pra frente aos tropeços
Apostando na felicidade
E, então, aprendi a chama-la de realidade
Porque és o acerto do acerto do acerto do acerto.”


E foi assim que eu coloquei as tralhas dentro do carro e cruzei a Dutra. Tantas pessoas têm um relacionamento real e buscam um amor de sonho. Eu tinha um relacionamento de sonho e buscava um amor real.

São Paulo, como é sabido, é uma cidade, a um só tempo, mais cosmopolita e mais caipira. Daí que é possível ouvir pelo ar tanto a última tendência das pistas de Ibiza quanto o “É o Amor”. E nem precisa ser a versão da Bethânia, aqui em Sampa se ouve com o Zezé di Camargo mesmo.

Eu conheci a Mara no ano em que “É o Amor” foi lançada e explodiu em sucesso nacional a partir das rádios paulistas. Nunca foi nossa trilha sonora particular, mas era impossível não ouvi-la em todos os lugares.

Teria sido mais simples e direto ter capitulado de vez ao amor que eu senti desde a primeira troca de olhares. Sim, existe amor à primeira vista. (Até então, eu não acreditava.) Nós não nos encontramos: nos reconhecemos. E ardemos numa paixão cuja chama era tão intensa que ofuscava qualquer resto de razão. E isso assusta. Mas se eu tivesse ouvido melhor a música do Zezé... afinal, o primeiro verso é:
“Eu não vou negar que...”

Pois é, eu neguei. E me dei mal. Depois do breve idílio, foram 14 anos sem nenhum contato. Durante este tempo todo, claro que a vida seguiu, às vezes com grandes alegrias, às vezes com dificuldades, mas mesmo nos melhores momentos havia uma sensação de que faltava algo, um querer-de-poço-sem-fundo, uma insatisfação latente. Eu sabia que a vida tinha um sabor a mais para eu provar que eu já havia sentido antes.

Mas depois de ter voltado para o Rio de Janeiro, parecia impossível retomar aquela história. E a vida seguiu na base de fazer do possível o ideal, como quase sempre acontece a quase todos.

Até que eu aprendi na pele o que chamam de mudança de paradigma. A reaproximação que parecia impossível devido à distãncia e ao tempo, tornou-se novamente viável. É que no tempo do “É o Amor” não havia internet. Passou a existir, não só a internet como principalmente o Orkut.

E assim, espantados, descobrimos que o que um sentia, o outro havia sentido sincronicamente, apesar de tempo e distância. E que, mais que lembranças, ainda havia paixão nos corações de ambos. E que o ‘É o Amor” ainda fazia sucesso.

A primeira troca de e-mails já deu sinais de que havíamos seguido em caminhos paralelos, um em cada calçada, em lados opostos da mesma avenida. O reencontro seria inevitável, e aconteceu numa cena cinematográfica, no saguão do Aeroporto de Congonhas, sob o olhar espantado de uma vaquinha colorida da Cow Parade.

Depois, a dificuldade de retomar uma relação que havia sido interrompida abruptamente, costurar de novo a confiança, fazer da paixão uma coisa sólida e concebível na vida de cada um. Superar os senões e, principalmente, os tais dos 400Km de Dutra. Até que a saudade foi mais forte que o juízo, e aqui estou eu há dois anos.

A história só não teve um final feliz exatamente porque não teve um final. É uma história feliz, continuamente feliz. É A história da minha vida, e ela continua acreditando que também é A história da vida dela.

Hoje, sábado, precisamente no momento em que o leitor estiver lendo este meu texto (por favor, contribua, leia às 10 da manhã), eu estou casando com a Sra. Mara Silva. Bem, já estávamos casados faz tempo. Mas estamos agora assinando uns papéis, tornando oficial nossa vontade de viver uma vida em comum até passar a saudade destes 14 anos longe um do outro. E, pelo jeito, uma vida vai ser pouco para nós.

Diz a piada popular que o segundo casamento é a vitória da esperança sobre a experiência. No nosso caso, é a vitória do amor sobre as circunstâncias. E a vitória do simples sobre todas as profundas considerações e ponderações que poderiam ser feitas, e que certamente nós fizemos. Até que um dia, eu coloquei tudo no carro e dei um salto no escuro. E o medo virou vontade, e as dúvidas viraram certeza. E hoje, amigo leitor, é o dia de celebrar esta história. Hoje é o dia de comemorar, porque é o dia mais feliz da minha vida.

E já que começamos a coluna com uma música romântica, permita-me concluir com uma mensagem bastante pessoal. Se você quiser, bravo leitor, tome emprestado também a letra abaixo e dedique-a a alguém especial. Se for alguém que realmente mereça, acredite, vale à pena até cantar no ouvido.

É só fazer, como nas melhores canções de amor, da maneira simples e direta. Diga bem baixinho no ouvido da pessoa amada:

Mara, esta é pra você (por favor, use outro nome, caro leitor). E cante desafinado mesmo:

“Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços o que eu nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado e o mais simples pra mim.
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras que a minha saudade
Faz lembrar de tudo outra vez.
Você foi a mentira sincera
Brincadeira mais séria que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo
O amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.
Esqueci de tentar te esquecer
Resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade
Sem nada perder.
Você foi toda a felicidade
Você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos
E o pior dos enganos que eu pude fazer
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.”

sexta-feira, 21 de maio de 2010

30 Anos de Pac Man, marco de uma revolução


O Google hoje - imagem acima - presta uma singela homenagem a um jogo que pode ser considerado o estopim de uma nova era tecnológica: o Pac Man, completando 30 anos.

Eu me recordo que ele era um dos cartuchos do Atari, que foi a segunda geração de videogames lançada no Brasil. A quem não se recorda, o pioneiro videogame no Brasil foi o "Telejogo" (abaixo), lançado pela então Philco-Ford em 1977.

O Atari foi lançado pela finada Gradiente em 1983, e foi um frisson nas casas de crianças da classe média brasileira. Eu, que não era tão classe média assim, tive de esperar três anos, até o Natal de 1986, para ganhar o meu - e assim mesmo dividido com os meus dois irmãos, comprado que foi com grande esforço pelos meus pais. Concorrendo com o Atari havia o Odyssey, fabricado pela Philips e que trazia um teclado à moda de um computador.

Pac Man era o jogo símbolo daqueles tempos. Ao lado do Enduro e do River Raid galvanizavam a preferência das crianças brasileiras naqueles tempos históricos. O controle era duro e muitas vezes quebrava devido ao esforço, mas era legal ver os fantasminhas aparecendo no Pac Man ou a mudança de climas no Enduro.

De certa forma, estes videogames - que você pode baixar para jogar em sites da internet hoje - seriam chamados de toscos pelas crianças de hoje, por exemplo. Entretanto, foram o ponto de partida para a criação de uma demanda que, posteriormente, receberia as novidades tecnológicas que se sucederam - o computador pessoal, o celular, a internet, GPS, as novas tecnologias de áudio e vídeo e todos estes gadgets que hoje facilitam bastante a vida cotidiana.

Trinta anos depois, o que resta é o pioneirismo deste "Come Come", que entreteu milhares de famílias e abriu caminho para uma nova era tecnológica mundial. Uma verdadeira revolução nas vidas, na maneira de se relacionar em sociedade e na produtividade não somente do trabalho como do ser humano em si.

Por outro lado, tais avanços levaram a uma perda de privacidade que já havia sido preconizada pelo clássico "1984", de George Orwell. Hoje com a dupla "GPS + celular" se tem controle quase total do que os cidadãos fazem em termos particulares. Em termos de Estado a anunciada instalação obrigatória de chips nos carros nacionais, que controlarão todo o percurso feito pelos carros, embora originalmente seja utilizada apenas para multas - sempre a arrecadação - perfeitamente em mãos de déspotas pode se tornar um elemento de controle do cidadão.

Contudo, isto é um tema para depois. Saudemos o trintão Pac Man !

Cinecasulofilia - "Yasujiro Ozu"


Após um breve interregno, a volta da coluna "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o blog de mesmo nome. Como sempre, texto do crítico, cineasta e agora professor universitário Marcelo Ikeda.

"Se ainda existir algo sagrado no nosso século, se houver algo como um tesouro sagrado do cinema, então para mim seria a obra do diretor japonês Yasujiro Ozu. Ele fez 54 filmes, filmes mudos nos anos 20, filmes em preto e branco nos anos 30 e 40, e finalmente filmes coloridos, até sua morte em 12 de dezembro de 1963, no seu aniversário de 60 anos. Com uma extrema economia de recursos, e reduzido apenas ao mais essencial, os filmes de Ozu contam sempre a mesma simples história, sempre das mesmas pessoas e na mesma cidade: Tóquio. Essa crônica, que atravessa 40 anos, mostra a transformação da vida no Japão. Os filmes de Ozu falam da lenta deterioração da família japonesa e, assim, da deterioração da identidade nacional. Mas eles não falam com angústia sobre o que é novo, ocidental ou americano, mas lamentam, com um profundo senso de nostalgia, a perda que ocorre ao mesmo tempo. Mesmo sendo profundamente japoneses, esses filmes também são universais. Neles, eu pude reconhecer todas as famílias, em todos os países do mundo, assim como os meus pais, meu irmão e a mim mesmo. Para mim, nunca antes e nunca depois o cinema chegou tão perto de sua essência e de seu propósito, de mostrar a imagem do homem de nosso século. Uma imagem útil, verdadeira e valiosa, na qual ele não apenas se reconhece, mas sobretudo com a qual ele pode aprender sobre si mesmo."

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O que é bom a gente aplaude


Quinta feira corrida, muito, muito trabalho, mas estamos aqui.

Meus 58 leitores sabem que este blog é bastante crítico quanto aos governantes tanto do Estado quanto da Prefeitura do Rio. Entretanto, a justiça é um dos valores deste Ouro de Tolo, e temos de elogiar quando se é passível de tal ação.

Faço esta introdução para falar das obras que vem sendo feitas na Linha Vermelha a fim de trocar o asfalto. Para aqueles que não são aqui do Rio, a via expressa é a principal ligação entre o Aeroporto Internacional do Galeão e o Centro da Cidade do Rio por um lado. Por outro, é acesso aos municípios da Baixada Fluminense.

Escrevi alguns posts atrás sobre o transtorno que vinha sendo causado pelas obras na via, feitas muitas vezes no horário do rush. Tais obras consistem em novo recapeamento total da via e a instalação de sinalização, até então bastante deficiente - à exceção, claro, das placas indicando os pardais...

Contudo, sou obrigado a reconhecer que o trabalho, pelo menos desta vez, está sendo bem feito. Toda a massa asfáltica de vários consertos foi retirada, colocou-se uma espécie de "tela" trançada de aço como sustentação e aí sim lançou-se novo recapeamento asfáltico. Por fim, refez-se a sinalização.

Pelo menos no trecho em que o serviço está pronto - entre São Cristóvão e a entrada da Ilha do Governador - tenho de reconhecer que ficou muito bem feito o serviço. O piso está um tapete, sem buracos, calombos ou imperfeições. Até a lombada clássica que havia na descida do viaduto, no Caju - e que seria capaz de causar um acidente se o carro viesse em alta velocidade - foi corrigida e não existe mais.

Além disso, foram colocados "olhos de gato" nas faixas divisórias das pistas e sinalizadores nas muretas do lado esquerdo. Neste último caso alguns dos filetes reflexivos parece que se soltaram, mas não tira o mérito do trabalho realizado. Não sei se soltaram realmente ou foram "retirados" por amigos do alheio.

Não sei exatamente o valor gasto, mas apesar dos percalços e do transtorno causado aos motoristas não posso deixar de registrar o excelente trabalho feito pela Secretaria de Obras da Prefeitura.

As pessoas possuem o hábito de rotular as coisas: "político não presta", "fulano é isso", "beltrano é um injustiçado". Como em tudo na vida há acertos e há erros.

Este é um dos acertos. Independente de onde vierem, podem e devem ser aplaudidos. não tira a independência de nossas opiniões e posicionamentos, pelo contrário.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

"História & Outros Assuntos" - Entendendo o Peronismo


Agora com novo nome, a coluna "História & Outros Assuntos" - ex "Cacique de Ramos" - do historiador e publicitário Fabrício Gomes, traz um assunto muito evocado e pouco conhecido: o peronismo argentino.

Boa leitura.

"Entendendo o Peronismo... Fenômeno social ou movimento político? 1943-1946.

I. O peronismo é uma forma de autoritarismo baseado no poder das massas [...]; II. Ideologicamente, o peronismo é inimigo do liberalismo; III. Seus dois braços ao a justiça social (Perón) e a assistência social (Eva) e com eles pretende unir o povo num abraço de justiça e amor; IV. O peronismo não teria existido sem o apoio do Exército, da Igreja e da classe operária, e tampouco sem o desamparo das massas populares argentinas; V. Assemelha-se ao fascismo e mostra semelhanças com o bonapartismo; VI. o proletariado adscrito ao peronismo não é anti-democrático, mas se mantém numa atitude de profunda passividade, feita de nostalgia e espera, acostumado a receber tudo do poder, sem esforço e sem futuro (p. 155-158).1

Poucas palavras permitem referências a uma expressão tão ampla de sentidos quanto o peronismo. Durante certo tempo, explicar o peronismo foi sinônimo de explicar a Argentina.

Uma forma simplista pode afirmar que se tratou de um movimento político nascido em meados da década de 1940, personificado na figura do coronel Juan Domingo Perón, iniciado em 1945 e que culminou em 1955, com a queda do grande líder: os dez anos de seus dois primeiros governos.

Identidade política daqueles que, desde aquela época, invocaram sua figura e a recordação de seus governos para legitimar diferentes posições no campo da política, o adjetivo peronista serviu – e serve, até hoje – para descrever um tipo de governo, uma doutrina política... uma forma de discurso.

Liderança revolucionária, experiência nacional popular, ditadura bonapartista, populismo autoritário ou mera necessidade histórica? Versão argentina do fascismo italiano? Mais do que expressões utilizadas para descrever o que era julgado como uma proposta positiva ou negativa de constituir uma nação, o peronismo foi, ao mesmo tempo, um conceito perverso e progressista de incorporação de novos atores sociais numa Argentina até então segmentada e elitizada, sem espaço para as massas. O peronismo foi também o partido político criado por Perón logo após sua vitória nas eleições de 1946 e que sobrevive até hoje com outras denominações.

Para a esquerda liberal, os peronistas eram nazistas totalitários. Já a esquerda anti-liberal e marxista, associada a grupos trotskistas, reprovava no peronismo a figura de seu líder, vendo nele uma forma bastante rudimentar - embora eficaz - de luta contra o imperialismo; cujo maior defeito era justamente ter sido pouco radical. Para os setores socialmente conservadores, havia ainda duas definições, uma simplista e outra mais complexa. A primeira não enxergava no peronismo senão um pesadelo, um fenômeno de psicologia patológica, diagnosticável como doença. Uma variação complexa da versão conservadora reconhecia, por outro lado, que o peronismo tinha alcançado profunda repercussão na opinião popular; mas fizera-o, por venalidade ou pelo apelo exclusivo aos mais baixos instintos do povo. Por conseguinte, o peronismo não seria nada de bom ou ruim, nada de positivo ou negativo, mas sim o fruto da ignorância, equivalente à superstição.(2)

Não cabe aqui polemizar sobre a natureza deste fenômeno cultural e social, que resultou de ações de agentes sociais distintos – contribuintes para a construção do fenômeno.

Interpretação da realidade ou a própria realidade interpretada, o peronismo nasceu após um golpe de Estado, em 4 de junho de 1943. À medida que o então coronel Juan Perón era naturalmente identificado como o homem forte do regime militar, sua figura tornava-se alvo de uma oposição que agrupava em torno de si a maior parte dos partidos políticos e das elites sócio-econômicas que o combatiam; tanto na esfera da política social e trabalhista quanto na política exterior.

Perón tinha o apoio de grupos de trabalhadores que reconheciam o caráter social de seu plano de reformas, de dirigentes sindicais que procuravam ganhar espaço dentro do campo sindical e também de grupos de intelectuais e políticos nacionalistas, que desejavam reforçar a posição de neutralidade argentina na Segunda Guerra Mundial contra a atitude favorável aos aliados de seus inimigos liberais.

Vitorioso nas eleições de 1946, promoveu a fusão dos agrupamentos políticos que o haviam apoiado num novo partido, posteriormente denominado Partido Peronista. A criação desse partido sintetizou o momento em que o peronismo se ressignificava, ganhando novos contornos. O que antes era apenas debatido através de mobilizações nas ruas, virou uma referência partidária, sucedida por uma política promovida pelo Estado – a doutrina peronista.

“O peronismo procurou apresentar-se como um movimento político baseado numa radical descontinuidade com relação às tradições políticas anteriores. Não era liderado por um político, mas por um militar e reivindicava como principal fonte de legitimação uma força externa ao sistema de partidos: a mobilização das ruas, a relação direta do líder com as massas. O peronismo empenhava-se em transformar o “novo” em seu principal capital político, e o sucesso na consagração dessa representação sobre sua própria constituição foi, sem duvida, uma das mais profundas e duradouras vitorias.”(3)

No âmbito das massas, os agentes sociais não eram apenas os grupos de militantes empenhados em ganhar reconhecimento social ou espaços no âmbito estatal. Eram também novas figuras que vinham ocupar a estrutura burocrática do regime. Classes de trabalhadores, primeiramente sindicalizados e posteriormente não – ajudados pela Fundação Eva Perón -, que se por um lado eram beneficiados com uma legislação social coerente com suas reivindicações, por outro eram conscientes que transformações aconteciam para a base da pirâmide social – jogando por terra a idéia de que eram simplesmente manipulados por um grande líder. Em setembro de 1955 um golpe militar, promovido por forças contrárias ao regime, pôs fim ao segundo governo Perón. A “Revolução Libertadora” inaugurou um período em que a categoria peronismo adquiriu novas tonalidades, cuja elaboração contou com a participação de outros agentes sociais, com outros interesses. Virou discurso de oposição, clandestino e censurado por certo período. O governo revolucionário dissolveu o Partido Peronista, proibindo o uso de todos os seus distintivos, lemas e canções, assim como uma série de termos, relacionados direta ou indiretamente ao peronismo. Apesar do efeito restritivo dessas disposições e de terem sido, na prática, abandonadas antes das eleições de 1958, os membros do Partido Peronista, além do próprio Perón, foram proibidos de se candidatar em eleições até 1973.

Transformou a vida das massas argentinas, fazendo-as emergir no âmbito de uma sociedade onde não havia espaço para representações políticas de classes operárias.

Depois da tentativa de enumerar tantos significados, ao longo desta introdução, tornamos a perguntar:

“O que foi, de fato, o peronismo?”

Referências Bibliográficas:
1FAYT, Carlos S. La natureza del Peronismo. Buenos Aires: Viracocha, 1967.
2AMADEO, Mario. Ayer, Hoy y Mañana. Buenos Aires: Gure, 1956.
3NEIBURG, Federico. Os intelectuais e a invenção do peronismo: estudos de antropologia social e cultural. São Paulo: Edusp, 1997.

Samba de Terça - "Brasil de Todos os Deuses"


Hoje é quarta feira, mas por conta da divulgação do resultado da promoção ontem temos a nossa coluna "Samba de Terça" hoje, quarta.

Nos mantemos em 2010. Outro samba bastante incensado na pré-temporada carnavalesca e que também foi bastante afetado no dia do desfile por questões extra-samba.

A escola da Leopoldina vinha de um desfile bastante morno no ano anterior. Apesar do sétimo lugar, o desempenho do samba não agradou à escola, bem como o trabalho da carnavalesca Rosa Magalhães.

Para 2010 a diretoria da escola resolveu dar uma sacudida. A carnavalesca, desde 1993, foi dispensada. Trocou-se também todo o carro de som, a começar pelo puxador.


Foram contratados o carnavalesco Max Lopes e o puxador Dominguinhos do Estácio, ambos vindos de experiências não muito bem sucedidas em suas escolas anteriores - respectivamente Porto da Pedra e Inocentes de Belford Roxo.

Max Lopes propôs à escola o enredo "Brasil de Todos os Deuses", um passeio pela religiosidade do povo brasileiro. Era um enredo muito semelhante aos levados pela Mocidade Independente em 1995 e especialmente pelo Império Serrano em 2006.

Nas palavras da sinopse:

"Uma terra abençoada! É um Brasil que nasce de homens bem-aventurados, de uma história de dores e de alegrias, que gera um povo miscigenado, criativo e crente no que se tem de mais valor: o poder dos deuses. Seres iluminados, supremos, espirituais ou materiais, sagrados ou profanos, divinos de um Brasil de todos os Deuses.

Brilha! A Coroa da Imperatriz Leopoldinense às coroas das divindades... Despertamos da imensidão do nosso Brasil, do "realismo mágico" do Reino de Tupã à nossa criação.

Povoado pelo consciente imaginário dos índios brasileiros - os donos da terra; ressoam das matas cantos, louvores, ritos, rancores, paixão e fé. No enredo do meu samba, Tupã é um Deus, genuinamente, "brasileiro". Ele é a força divina, como no mito guarani da criação, que desce à terra personificado em um manto de luz e cor e cultuado como Deus do Carnaval. É Tupã que une e apresenta os elementos constitutivos das religiões brasileiras e o fenômeno religioso universal do Homem, que crê em Deus, em Olorum, em El, em Alá, em Maomé, em Jeová, em Buda, em Brahma, ou seja, em um Ser Superior.

Tupã, de seu trono, tudo vê. No século XVI, treze caravelas de origem portuguesa aportam em terras brasileiras. À primeira vista, tais navegadores, cumprindo um contrato religioso, acreditam tratar-se de um grande monte e chamam-no de Monte Pascoal. Realizam, em 26 de abril de 1500, a primeira missa no Brasil. Desde então, as atitudes e imposições dos homens brancos aos filhos de Tupã, e até mesmo aos negros africanos que, posteriormente, viriam para além-mar na condição de escravos, cultuou-se o cristianismo. A cruz marca o testemunho de fé desses navegadores portugueses, que reconhecem Cristo como "Deus Homem" ou como a encarnação de Deus.

Assim, a fé cristã é difundida, chegam as catequeses e a lavoura e, com elas, a exploração do Novo Mundo, desvendado por Seu Cabral.

O sopro forte de Tupã vai nos mostrando a nossa formação. Criam-se doutrinas, estórias, mitos e lendas. Sob a inviolável fé cristã, vindos da África Ocidental, os negros africanos trazem, além da dor da escravidão, suas crenças, suas divindades, suas lembranças... de um ritual chamado N?Golo, praticado nas aldeias do sul de Angola, à época do rito da puberdade - que representava a passagem de moça para a condição de mulher. Também aporta, com os negros africanos, o culto aos Orixás - que atuam como intermediários entre o mundo terrestre e o Deus Negro - chamado Olorum ou Olodumaré, o Princípio Criador.

O Brasil transcende a um princípio de unidade geral: negros, índios e europeus ganham um só corpo, viram uma só gente, abençoada pelos "deuses brasileiros". É o despertar poético de uma ardente nação, uma nação, que perante os olhos de Tupã, vê navegar sobre seus mares, navios a vapor trazendo homens, mulheres, velhos e crianças (1870-1930) à nova terra.

A viagem marca para sempre a vida dos imigrantes europeus, asiáticos, indianos, americanos, entre outros. Partir assinala o encerramento da origem da sua existência, sublinhado pelo traço genérico comum de ansiedade, estranheza, expectativa da chegada e a reconstrução de uma nova vida em outro país. Até que o processo de imigração viesse a se concretizar, fatos como a visão etnocêntrica (dos nacionais) e a autopercepção do imigrante como estrangeiro contribuíram para reforçar os laços de grupo, os laços familiares e, sobretudo, os laços religiosos.

As tradições religiosas dos imigrantes no Brasil fundiram-se a nossa brasilidade. Dos bairros étnicos, judeus, árabes, ortodoxos, japoneses budistas ou xintoístas, alemães protestantes, e até indianos hare krishnas, com suas formas de linguagens, expressões diretas e atuantes, preservam seus mistérios e cultuam seus deuses...

Do Judaísmo: "um velho pastor, cansado da fome e da seca, certa vez ouviu uma voz a dizer: Parte da tua terra. Era o Senhor, que propôs guiar aquele homem até um lugar abençoado, onde água e comida nunca faltariam. Em troca, ele deveria adorá-Lo como o único Deus e espalhar pelo mundo uma mensagem de justiça. A proposta era arriscada numa época em que reis exploravam o trabalho de camponeses, invasores ameaçavam cidades-estado e os povos, em busca de proteção, veneravam várias divindades. Mesmo assim, o pastor aceitou o acordo. E foi recompensado por isso. Seu nome era Abraão. Ele sobreviveu a guerras, catástrofes naturais, perseguições. E seus descendentes foram guiados numa longa jornada rumo a Canaã - a Terra Prometida" (Revista Superinteressante, março 2009).

A narrativa da aliança entre Deus e Abraão é uma das mais conhecidas da tradição judaico-cristã e, embora nunca tenha sido confirmada historicamente, pode explicar como surgiu a primeira grande religião monoteísta, o Judaísmo.



Do Budismo: a essência do pensamento budista focado nas Quatro Nobres Verdades:

1º dor (a vida é cheia de dor);
2º a origem da dor (a dor provém do desejo de experiências sensoriais);
3º sobre a superação da dor (atingir o estágio de nirvana); e
4º o caminho que leva à superação do desejo (o desejo apaga-se quando se segue o "Meio-Caminho", o sagrado caminho das regras da vida): a pureza da fé; da vontade; da ação; dos meios de existência; da atenção; da memória; e da meditação.

Uma filosofia espiritualista de vida baseada integralmente nos profundos ensinamentos do Buda para todos os seres, que revela a verdadeira face da vida e do universo.

Do Islamismo: a religião que mais cresce no mundo contemporâneo nasceu na Península Arábica a partir da reflexão de Maomé em torno da multiplicidade de deuses existentes nas tribos da própria península, assim como das religiões petrificadas e presas no formalismo ritualístico, sem a vivificação espiritual desejada e desejável, como o cristianismo ortodoxo grego, o cristianismo romano e o judaísmo.

Nos treze séculos que se passaram de sua gênese, a religião congrega hoje mais de 800 milhões de adeptos, unidos pelo sentimento profundo de pertencimento a uma só comunidade. E essa expansão, que continua, é, principalmente, em virtude de um espírito de universalidade que transcende qualquer distinção de raça e permite a cada povo se integrar no Islã, mas, ao mesmo tempo, conservar sua cultura própria.

Do Hinduísmo: uma intersecção de valores, filosofias e crenças, derivadas de diferentes povos e culturas.

Tem sua origem pelo ano de 1500 a.C. Nasceu a partir dos elementos religiosos dos vencedores (arianos) e vencidos (os autóctones). Provém da experiência humana. Consiste na investigação das profundezas da alma, na reflexão sobre si mesmo, da preocupação em não deixar escapar nada de experiência.

O credo fundamental do Hinduísmo é o da existência de um espírito Universal chamado Brahma (alma do mundo). Essa alma do mundo, também chamada de Trimurti, o Deus Trino e Uno, tem esse nome porque acreditavam que ela era: 1. Brahma, o Criador; 2. Vishnu (Krishna), o Conservador; 3. Shiva, o Destruidor.

A religião hindu acredita ainda em muitos deuses. Existem cerca de 33 milhões de deuses. Os sacerdotes hindus afirmam que são apenas representações de diferentes atributos de Brahma ou nomes do mesmo Deus.

No destino imaginário da humanidade celebram a vida e percorrem o caminho da verdade. Todos de braços dados e peito aberto em um convívio fraterno, sem ódio nem rancor, da passarela do samba mostram pro mundo que a união entre as crenças é um ato de amor...

Entre o sagrado e o profano, Brasil de todos os Deuses é a devoção de cada religião, é a celebração das festas religiosas. Da Festa do Divino, que tem origem nas comemorações portuguesas a partir do século XIV e que no Brasil é marcada pela esperança de uma nova era para o mundo dos homens, com igualdade, prosperidade e boa colheita. Do Reisado, da festa do negro que se faz no Congado, da Cavalhada - a histórica batalha entre cristãos e mouros, das romarias e dos beatos e sua peregrinação pelos caminhos da fé.

De um Brasil que vive em harmonia, onde deus paga, onde deus cria e convive com o povo brasileiro no seu dia-a-dia:

Deus lhe pague!
Deus lhe abençoe!
Deus é o vosso Pai,
Deus é o vosso guia...

Vai com Deus!
Deus é amor.
Graças a Deus!
Deus é meu pastor.

O encanto toma conta do espírito de Tupã que abençoa o Brasil como o templo da união de todas as crenças. Das matas indígenas ao cristianismo, dos cultos afros às manifestações religiosas, dos imigrantes, da festa da fé ao povo brasileiro. A Imperatriz Leopoldinense é o templo do Brasil, é o Brasil de todos os Deuses - um poema épico, erguido ao longo da nossa história, que pede passagem para contar em "canto e oração" a ação sociocultural de todas as religiões nesse encontro mágico e poético chamado Carnaval.

Ideia Original e Carnavalesco: Max Lopes

Pesquisa e texto: Marcos Roza

ESTRUTURA DE APRESENTAÇÃO DO ENREDO

"BRASIL DE TODOS OS DEUSES"

ABERTURA - A COROA DAS DIVINDADES
2º SETOR - A TERRA DE TUPÃ
3º SETOR - A VINDA DA FÉ CRISTÃ
4º SETOR - O CULTO NEGRO
TRIPÉS - JUDAÍSMO
5º SETOR - BUDISMO
6º SETOR - ISLAMISMO
7º SETOR - HINDUÍSMO
8º SETOR - BRASIL: TEMPLO DE UNIÃO"


(Fonte: Galeria do Samba)


A disputa de samba foi acompanhada com entusiasmo pelos gresilenses das listas de discussão das quais participo, que "abraçaram" o samba da parceria de Jefferson lima, Guga, Flavinho, Gil Branco e Me Leva. Os comentários eram de que este era o grande samba da escola em muitos anos, e também o grande samba do carnaval caso fosse escolhido.

A diretoria atendeu ao clamor de sua comunidade e resolveu levar este samba para a avenida. Ele se sagrou vencedor e tinha um andamento mais lento que o observado nos recentes desfiles, a fim de valorizar a bela melodia.

Em minha opinião particular, sem dúvida alguma era um bom samba, mas inferior ao do Império Serrano sobre o mesmo tema - e a outro que chegou à finalíssima da escola da Serrinha no referido ano. Também achava inferior aos sambas da Vila Isabel - que tratei aqui na coluna anterior - e ao da Mangueira.


Outra questão que preocupava quem gostava de carnaval era o carro de som da escola. Quem acompanha o desfile sabe que, a despeito de sua bela história, o puxador Dominguinhos do Estácio há tempos que se resume a fazer "cacos" durante o desfile, sem propriamente cantar o samba..

Completando o quadro, os intérpretes de apoio da escola eram questionados até mesmo por seus próprios torcedores e componentes da comunidade gresilense. O quadro se agravou com a saída próxima do carnaval do segundo intérprete, devido a declarações dadas em um dos espaços mais lidos de samba na internet.


A Imperatriz Leopoldinense era a segunda escola a pisar na Marquês de Sapucaí na noite de domingo de carnaval, 14 de fevereiro.

Talvez desacostumada com o posicionamento de desfile - onde a armação é feita diretamente na concentração - a escola teve problemas em sua preparação para o desfile. Os carros alegóricos foram amontoados no início e houve muita dificuldade para as alas se prepararem adequadamente.

Os tripés do abre-alas, com uma concepção errada - o maior peso estava todo na frente - andavam de forma lenta e com dificuldade para se mater em linha reta. Quando o samba começou a ser cantado a escola ainda estava na Presidente Vargas, longe do Setor 1.

Para completar o quadro, as fantasias estavam bem maiores que o padrão habitual da escola e isto prejudicou bastante a evolução da Imperatriz. A escola, que tinha feito bons ensaios técnicos, passou apática.

Finalizando os problemas que a escola enfrentou, o carro de som simplesmente não conseguiu dar ao samba o desempenho que dele se esperava, com uma performance sofrível. A bateria no início do desfile também rateou, embora tenha acertado o passo na sequência.


Com a lentidão provocada pelo atraso do abre alas e sua lenta evolução dos tripés, a escola teve problemas de evolução e precisou correr desesperadamente ao final para cumprir o tempo máximo de 82 minutos de desfile.

Com todos estes problemas, a escola alcançou a oitava colocação na abertura das notas, um resultado bem aquém do esperado. Entretanto, o samba ainda conquistou o Estandarte de Ouro, a despeito de seu desempenho apenas mediano na avenida. Em minha opinião a Mangueira seria um vencedor mais justo deste prêmio, mas não dá para se dizer que foi um equívoco do júri.

Vamos ao samba e, ao final, um vídeo do início do desfile - que mostra a exata posição onde eu estava.

"Terra abençoada!
Morada divinal
Brilha a coroa sagrada
Reina Tupã, no carnaval...
Viu nascer a devoção em cada amanhecer
Viu brilhar a imensidão de cada olhar
Num país da cor da miscigenação
De tanto deus, tanta religião
Pro povo, feliz, cultuar

O índio dançou, em adoração
O branco rezou na cruz do cristão
O negro louvou os seus orixás
A luz de deus é a chama da paz

E sob as bênçãos do céu
E o véu do luar
Navegaram imigrantes
De tão distante, pra semear
Traços de tradições, laços das religiões
Oh, deus pai! Iluminai o novo dia
Guiai ao divino destino
Seus peregrinos em harmonia
A fé enche a vida de esperança
Na infinita aliança
Traz confiança ao caminhar
E a gente romeira, valente e festeira
Segue a acreditar...

A Imperatriz é um mar de fiéis
No altar do samba, em oração
É o Brasil de todos os deuses!
De paz, amor e união..."
 


(Fotos e vídeo: Fabrício Gomes)