sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cinecasulofilia - O Mais Importante Filme da Década

Mais uma sexta feira, e mais uma "Cinecasulofilia", escrita em parceria com o blog de mesmo nome.

Como sempre, texto do cineasta, professor de cinema e crítico Marcelo Ikeda, agora também fã número 1 do Icasa de Juazeiro do Norte.

O mais importante filme da "década"

Aos poucos vem sendo publicado um conjunto de listas com os melhores filmes da primeira década do novo século. Na verdade, são listas “dos anos 00”, já que de fato a década começa em 2001 e termina em 2010. De qualquer modo, e aproveitando isso, minha lista é encabeçada com um filme finalizado em 2000. Um certo annus mirabilis, o ano da virada. É curioso pois nesse conjunto de listas publicadas em nenhuma delas vi listado esse filme que é certamente o filme mais significativo da “década”.

Ele se chama As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty, de Jonas Mekas (foto). Mekas já garantiu o seu lugar na história do cinema com um filme absolutamente genial como Walden: Diaries, Notes & Sketches, de 1969, coletando imagens realizadas nos cinco anos anteriores. A enorme grandeza de Mekas é entender que o cinema possa ser não apenas um diário, mas essencialmente um esboço. Enquanto o cinema clássico norte-americano busca os tempos fortes, as ações determinadas, e realiza inúmeros takes até encontrar o “take perfeito”, a “ação funcional”, Mekas revira pelo avesso a forma como um realizador oferece imagens para o espectador. Intitulando seu filme-diário como “notas e esboços”, Mekas aponta para o caráter de incompletude, mas não como um “processo por vir”, ou como mera etapa para alcançar afinal uma “obra acabada”. Ao contrário, a grandeza de seu cinema é apontar para a impossibilidade de se chegar ao fim, de se terminar um processo. O que aproxima o processo de realização do próprio ato de viver, permeado de imperfeições, rasuras e garranchos. Pois são exatamente essas imperfeições que garantem à vida sua beleza, mas uma beleza essencialmente transidia.

Isto está ainda mais explícito em As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty. Enquanto Walden era um grande (leve) tour de force para estabelecer um estilo (um modo de ver o mundo a partir do cinema), em GLIMPSES (como vou carinhosamente intitular o filme daqui em diante), finalizado 30 anos depois, Mekas pôde consolidar essa forma de ser, como um filme de maturidade. Digo isso porque vejo Glimpses, de uma certa forma, como uma continuação de Walden, não só por seguir e aprofundar a idéia do filme-diário e das relações entre o cinema e a vida, mas pelo próprio fato de que o material compilado nesse filme abrange o período de 1970-2000, exatamente o período pós-Walden. A ambição do filme pode ser vista na duração: enquanto Walden cobre um período de 5 anos (1964-69), Glimpses abrange trinta. Além disso, é o mais longo filme de Mekas, com 4 horas e 48 minutos de duração.

Glimpses já começa com uma voz-over do próprio Mekas que expõe sua metodologia de montagem. Que trechos selecionar? Como organizar esses trinta anos a partir da montagem? Daí que Mekas oferece uma linda resposta: diante de um armário lotado de “rolinhos”, Mekas desiste de organizá-los em ordem cronológica, ou por “assuntos agrupados”, estabelecendo relações, composições, diálogos programados, como típico exercício de montagem. Simplesmente o realizador vai pegando os rolinhos por acaso (“by chance”), e montando as imagens a partir dessa revisão de cada rolinho, escolhidos por um critério aleatório. A beleza disso é que não se trata de um “dispositivo” ou coisa do tipo, mas simplesmente aponta para uma consciência da impossibilidade de organizar esses registros de uma maneira sistêmica, totalizante. É como se Mekas tivesse cansado de encontrar “um sentido” na vida, mas simplesmente tenha se concentrado em observá-la passar por ele (não passar diante dele, mas por dentro dele), e que ocasionalmente ele tenha se surpreendido (encantado) com breves momentos de beleza. É nessa fugacidade da beleza, nessa transitoriedade que reside o encanto da vida, ou ainda, a importância do cinema, nessa tentativa quase heróica de tentar registrar o inefável, de tentar congelar um momento de beleza, mesmo sabendo que esse breve instante está prestes a se perder. Enquanto o observamos, vivemos.

Walden foi recebido à época com um certo desdém. Hoje, quarenta anos após sua primeira exibição, parece que começamos a ter a dimensão do que essa obra representa, em termos de uma reavaliação das teorias realistas de cinema, e especialmente do papel do documentário. Num espaço estranho (frágil, delicado, robusto) entre o documentário, a ficção e o ensaio experimental, Walden foi mal compreendido em sua época, rotulado como “filme experimental”, dada a participação de Mekas no cenário alternativo dos filmes vanguardistas norte-americanos nos anos sessenta. Mas por outro lado foi o próprio Mekas que valorizou (defendeu) documentários criativos como os dos Irmãos Mayles.

Walden e Glimpses são dois documentários, e é fundamental que possamos inserir o nome de Mekas nas tradicionais “histórias do documentário”. No entanto, a própria idéia de documentar, registrar, se complexifica. Mekas documenta mas não se interessa propriamente pelo fato, é como se ele não se interessasse pelos fatos em si, pelas imagens em si, mas o que se desperta a partir deles. Ao mesmo tempo os fatos e as imagens são tudo o que se tem. Ainda, não se trata mais de documentar um acontecimento, ou de ficcionalizar uma narrativa, mas ambos se confundem. Viver é narrar a própria vida. 

Vendo os filmes de Mekas, filmes geniais como os de Zhang-Ke ou até mesmo os de Pedro Costa parecem brincadeiras infantis, experimentos ingênuos na forma como articulam a ficção e o documentário, em como procuram inscrever o “real” no cinema, a partir de associações ou relações definidas, a partir de categorias prévias, ou ainda como um espaço geográfico estará inscrito no filme de ficção. Nos filmes-diário de Mekas, nenhuma dessas categorias faz mais sentido. Sua proposta de cinema é de outra natureza: as relações entre a ficção e o documentário (ou, melhor dizendo, entre a vida e o cinema) são muito mais orgânicas e intensas. É como se enquanto os outros realizadores ainda estão presos à estrutura griffithiana ou à imagem neo-realista (ainda que as revirando pelo avesso), Mekas fosse dialogar com Lumiére.

Para terminar, GLIMPSES é o melhor filme da nova década porque apenas hoje (nesta nova década) é possível enxergar onde daria aquela trilha que o autor desbravou lá no fim dos anos sessenta. Anos sessenta que por sua vez também é uma espécie de “annus mirabilis” dentro do século passado. Walden é uma ilha dentro do cinema dos anos sessenta, cujos caminhos só podem ser vistos hoje, nesta nova década, em que reina uma extrema individualização dos modos de consumo e de produção da imagem, em que proliferam no youtube miríades de auto-imagens, estimuladas pela facilidade do registro do digital. É maravilhosa a forma como Mekas se insere e se opõe a tudo isso: a radicalidade com que Mekas abraça esse projeto retomando o outro de trinta anos atrás e como, ao mesmo tempo, essa radicalidade é acompanhada com um tom idílico, levemente romântico, doce, esperançoso, vivo, dinâmico, inovador, pouco pretensioso. Acima de tudo, os filmes de Mekas são um ato diante da vida, uma posição diante do mundo. Não seria exagero afirmar que nunca antes o cinema alcançou tamanho grau de refinamento e beleza, garantindo ao filme um lugar privilegiado na história do cinema (se isso ainda fizer sentido)."

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A fábula do cachorro sem dono


Uma vez havia um cachorro. Destes de rua, vira-latas.

Comia as latas de lixo que revirava. Vagava pelas ruas, assombração terrena neste mundo cão. Sobrevivia.

Seu sonho era ganhar um afago, um carinho. Andava, latia docemente, buscava agradar e fazer agrados, abanava o rabinho. Mas sempre era tratado a paulada por aqueles a quem tentava se aproximar. Sofria.

Caminhava pelas ruas, olhar dócil e ao mesmo tempo de tristeza infinita. Tentava, se esforçava para tal, andava e olhava e sentia. 

Quando olhavam para ele, sempre buscavam a imprecação: "sai daí ! Some! Vou te dar chumbinho!" Mal sabiam que a solidão e a carência eram piores que qualquer veneno que o matasse fisicamente.

Um dia, após muito caminhar pela vida de cão, recolheu-se ao banco de praça que lhe servia de abrigo. Perto dele havia uma bela morena moça, fazendo seu exercício cotidiano.

Para nosso cão nada parecia que seria diferente.

Entretanto, a morena moça olhou para o cachorrinho. Contemplou-o. Viu que atrás de um cachorro de rua havia um coração entristecido e endurecido pelas pauladas nossas de cada dia. Contudo, naquele olhar canil percebeu um coração pronto para se conquistar e oferecer um prêmio majestoso.

A moça o chamou. Nosso cão olhou, desconfiado. Afinal de contas, quantas pauladas recebera ?

Mas ela o chamou de novo, com uma doçura na voz que derreteu o gelo do canino coração. O vira-lata se permitiu um rasgo de esperança e atendeu ao apelo.

Como recompensa, pela primeira vez em sua "vida de cão" ganhou um afago e palavras doces. A moça o pegou no colo e, a partir dali, tudo seria diferente.

Ganhou veterinário, uma cama, um lar. Acima de tudo, pôde amar e ser correspondido pela jovem.

Esta, solitária e triste, descobriu uma razão de viver naquele cãozinho fiel, dulcíssimo e sempre com um sorriso à espera de sua menina. O amor sempre vence.

A moça e seu cão foram felizes para sempre.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Financiamento Eleitoral - alguns dados para se pensar


Recebo por e-mail do amigo Emerson Braz interessante matéria baseada em dados do Tribunal Superior Eleitoral informando sobre os principais financiadores dos partidos no ano de 2009 - onde, é bom que se ressalte, não houve eleição.

Os dois setores que mais efetivaram doações aos partidos políticos, tanto de governo quanto de oposição, foram as empreiteiras e os bancos. As primeiras foram responsáveis por 68% das doações de quatro partidos: PT, PSDB, DEM e PMDB.

Não custa lembrar que tais empresas normalmente possuem expressivos contratos com os governos, sejam estaduais, federais ou municipais. Apenas quatro construtoras - Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Carioca Christiani Nielsen e JM Terraplanagem - responderam sozinhas por 39% das doações aos quatro partidos - cerca de R$ 6,2 milhões.

Evidentemente, estas empresas - e o setor de construção civil como um todo - não ofertam estes valores por convicção ideológica ou pelos lindos olhos dos políticos. Elas esperam retorno em obras, muitas vezes com valores de realização acima dos praticados no mercado.

Por exemplo, a Andrade Gutierrez, principal financiadora de tucanos até 2008 e petistas nos últimos três anos, teve R$ 108 milhões em contratos no mesmo ano de referência. A Queroz Galvão, que em 2009 assumiu o posto de maior financiadora dos tucanos teve R$ 28 milhões em obras - especialmente nos governos paulista e de Minas.

O maior financiador do DEM, a JM Terraplanagem recebeu R$ 23 milhões de um total de R$ 60 milhões em obras, na sua totalidade em Brasília. Equivale a quase 40% do total.

Estes números, que expressam uma estreita correlação entre a hierarquia das doações e o total de recursos públicos recebidos demonstram uma séria anomalia no sistema político brasileiro. Obviamente que os recursos doados servem para exercer algum tipo de "lobby" a fim de obter vantagens e benefícios em concorrências e licitações.

Existe no Congresso Nacional há anos, como parte de um projeto de reforma política, uma proposta de lei visando instituir o financiamento público das campanhas. Este projeto separa uma verba pública para o financiamento das campanhas e proíbe doações de pessoas jurídicas.

Certamente não diminui o "Caixa Dois", mas é um importante fator inibidor do conflito entre o interesse público e a busca de obtenção de vantagens particulares - e indevidas.

À guisa de exemplo, no Japão - onde o primeiro ministro Yukio Hatoyama é filho da principal acionista da empresa de pneus Bridgestone - foi retirado da "gaveta" projeto de lei que proíbe qualquer tipo de doação a partidos ou a políticos. A proposta é substituir por uma espécie de "fundo partidário" distribuído de acordo com o tamanho da bancada - algo parecido com o que se propõe aqui.

O projeto voltou a debate no país nipônico após suspeitas de que a empresa de pneus havia feito doações irregulares para o primeiro ministro.

Voltando ao Brasil, tais números são uma prova cristalina de algo deve ser feito a fim de aumentar a governança política do país, buscando diminuir esta promiscuidade entre empresas e governos. Os dados deixam clara a estreita correlação entre doações a partidos e vitórias em concorrências e licitações públicas.

Coincidência ?

Cacique de Ramos: "Cachaça, uma bebida com várias denominações"


Quarta feira, dia de nossa coluna "Cacique de Ramos", do historiador, publicitário e sofredor fanático da Imperatriz Leopoldinense Fabrício Gomes. O tema de hoje é boa e velha "branquinha", a cachaça.

Cachaça: uma bebida com várias denominações

Abre, abre-bondade, abre-coração, abrideira, abridora, aca, ácido, aço, acuicui, a-do-ó, água, água-benta, água-bórica, água-branca, água-bruta, água-de-briga, água-de-cana, água-de-setembro, água-lisa, água-pé, água-pra-tudo, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, aguardente, aguarrás, agundu, alicate, alpista, alpiste, amarelinha, amorosa, anacuíta, angico, aninha, apaga-tristeza, a-que-incha, aquela-que-matou-o-guarda, a-que-matou-o-guarda, aquiqui, arapari, ardosa, ardose, ariranha, arrebenta-peito, assina-ponto, assovio-de-cobra, azeite, azougue, azulada, azuladinha, azulina, azulzinha, bafo-de-tigre, baga, bagaceira, baronesa, bataclã, bicarbonato-de-soda, bicha, bichinha, bicho, bico, birinaite, birinata, birita, birrada, bitruca, boa, boa-pra-tudo, bom-pra-tudo, borbulhante, boresca, braba, branca, brande, branquinha, brasa, braseira, braseiro, brasileira, brasileirinha, brava, briba, cachorro-de-engenheiro, caeba, café-branco, caiana, caianarana, caianinha, calibrina, camarada, cambraia, cambrainha, camulaia, cana, cana-capim, cândida, canguara, canha, canicilina, caninha, caninha-verde, canjebrina, canjica, capote-de-pobre, cascabulho, cascarobil, cascavel, catinguenta, catrau, catrau-campeche, catuta, cauim, caúna, caxaramba, caxiri, caxirim, caxixi, cem-virtudes, chá-de-cana, chambirra, champanha-da-terra, chatô, chica, chica-boa, chora-menina, chorinho, choro, chuchu, cidrão, cipinhinha, cipó, cobertor-de-pobre, cobreia, cobreira, coco, concentrada, congonha, conguruti, corta-bainha, cotréia, crislotique, crua, cruaca, cumbe, cumbeca, cumbica, cumulaia, cura-tudo, danada, danadinha, danadona, danguá, delas-frias, delegado-de-laranjeiras, dengosa, desmanchada, desmanchadeira, desmancha-samba, dindinha, doidinha, dona-branca, dormideira, ela, elixir, engenhoca, engasga-gato, espanta-moleque, espiridina, espridina, espírito, esquenta-aqui-dentro, esquenta-corpo, esquenta-dentro, esquenta-por-dentro, estricnina, extrato-hepático, faz-xodó, ferro, filha-de-senhor-de-engenho, filha-do-engenho, filha-do-senhor-do-engenho, fogo, fogosa, forra-peito, fragadô, friinha, fruta, garapa-doida, gás, gasolina, gaspa, gengibirra, girgolina, girumba, glostora, goró, gororoba, gororobinha, gramática, granzosa, gravanji, grogue (CAB), guampa, guarupada, homeopatia, iaiá-me-sacode, igarapé-mirim, imaculada, imbiriba, incha, insquento, isbelique, isca, já-começa, jamaica, januária, jeriba, jeribita, jinjibirra, juçara, junça, jura, jurubita, jurupinga, lágrima-de-virgem, lamparina, lanterneta, lapinga, laprinja, lebrea, lebréia, legume, levanta-velho, limpa, limpa-goela, limpa-olho, limpinha, linda, lindinha, linha-branca, lisa, lisinha, maçangana, maçaranduba, maciça, malafa, malafo, malavo, malunga, malvada, mamadeira, mamãe-de-aluana (ou aluanda ou aruana ou aruanda ou luana ou luanda), mamãe-sacode, manduraba, mandureba, mangaba, mangabinha, marafa, marafo, maria-branca, maria-meu-bem, maria-teimosa, mariquinhas, martelo, marumbis, marvada, marvadinha, mata-bicho, mata-paixão, mateus, melé, meleira, meropéia, meu-consolo, miana, mijo-de-cão, mindorra, minduba, mindubinha, miscorete, mistria, moça-branca, moça-loura, molhadura, monjopina, montuava, morrão, morretiana, muamba, mulata, mulatinha, muncadinho, mundureba, mungango, não-sei-quê, negrita, nó-cego, nordígena, número-um, óleo, óleo-de-cana, omim-fum-fum, oranganje, oroganje, orontanje, oti, otim, otim-fifum, otim-fim-fim, panete, parati, parda, parnaíba, patrícia, pau-de-urubu, pau-no-burro, pau-selado, pé-de-briga, péla-goela, pelecopá, penicilina, perigosa, petróleo, pevide, pílcia, pilóia, pilora, pindaíba, pindaíva, pindonga, pinga, pingada, pinga-mansa, pinguinha, piraçununga, piribita, pirita, pitianga, pitula, porco, porongo, preciosa, prego, presepe, pringoméia, pura, purinha, purona, quebra-goela, quebra-jejum, quebra-munheca, quindim, rama, remédio, restilo, retrós, rija, ripa, roxo-forte, salsaparrilha-de-brístol, samba, santa-branca, santamarense, santa-maria, santinha, santo-onofre-de-bodega, semente-de-arenga, semente-de-arrenga, sete-virtudes, sinhaninha, sinhazinha, sipia, siúba, sorna, sumo-da-cana, sumo-de-cana-torta, suor-de-alambique, suor-de-cana-torta, supupara, suruca, tafiá, tanguara, teimosa, teimosinha, tempero, terebintina, tiguara, tindola, tíner, tinguaciba, tiguara, tiquara, tira-calor, tira-juízo, tira-teima, tira-vergonha, titara, tiúba, tome-juízo, três-martelos, três-tombos, uca, uma-aí, unganjo, upa, urina-de-santo, vela, veneno, venenosa, virge, virgem, xarope-de-grindélia, xarope-dos-bebos, xarope-galeno, ximbica, ximbira, xinabre, xinapre e zuninga (Fonte: Dicionário Houaiss). 

“Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de 38 a 48 por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida pela destilação do mosto fermentado de cana-de-açúcar com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada de açúcares até seis gramas por litro, expressos em sacarose." 

Foi assim que, em outubro de 2003, por meio do Decreto 4.851, o governo brasileiro oficializou a cachaça como um produto tipicamente brasileiro. 

Quando os portugueses descobriram o País detectaram no solo as características ideais para a cultura da cana-de-açúcar, que no século XVI era um dos produtos mais valiosos do planeta e depois passou a ser a base da economia nacional. Ao trazerem as primeiras mudas da planta, os lusos acabaram proporcionando, também, as condições para o surgimento daquela que é a mais brasileira das bebidas: a cachaça. Já no século XVII ela era obtida nos engenhos que produziam cana. 

Em 1532, numa fazenda em São Vicente (SP), os colonizadores - que até então eram apaixonados pela bagacera (bebida destilada de uva) e pelos vinhos do Porto - descobriram o vinho de cana, uma bebida que restava nos tachos de rapadura e era dada a animais e, posteriormente, aos escravos, para ficarem mais dóceis e esquecerem a saudade da terra natal. Ela era apenas fermentada, mas logo depois os portugueses começaram a destilá-la e deram o nome de cagaça, para, depois, mudar para cachaça. 

Assim, a produção se difundiu pelos engenhos, que instalaram "casas de cozer méis" (os alambiques), e a bebida ganhou notoriedade. Ela era usada inclusive como moeda na compra de escravos e destacou-se ainda mais com a expansão da busca pelo ouro em Minas Gerais, já que era consumida para espantar o frio da região da Serra do Espinhaço. 

Como a cachaça começou a fazer sucesso - e assim foi reduzido o consumo de vinhos do Porto e da bagacera portuguesa -, a metrópole resolveu proibir, por várias vezes, sua produção, comercialização e o consumo, alegando que ela estava prejudicando o trabalho de extração do ouro. A tentativa, no entanto, não foi bem-sucedida. E felizmente, pois foi também com os recursos dos impostos da fabricação da cachaça que a Coroa Portuguesa reconstruiu Lisboa, depois que a capital lusa foi assolada por um terremoto. Além disso, por ser tipicamente brasileira, a bebida tornou-se um símbolo de resistência à Coroa, cultuada pelos inconfidentes. A produção foi se aperfeiçoando e a cachaça passou a integrar os jantares palacianos e as festas religiosas. 

A bebida continuou fazendo sucesso, mas muitas vezes foi marginalizada, associada às camadas pobres e ao alcoolismo. Essa imagem vem sendo revertida ao longo das últimas décadas, o que se comprova pelo fato de a cachaça ter espaço garantido em restaurantes e bares requintados e na adega dos brasileiros."

terça-feira, 4 de maio de 2010

Samba de Terça - "Noel, a Presença do Poeta da Vila"


Após um intervalo, a nossa coluna "Samba de Terça" está de volta. Por enquanto com frequência quinzenal, quando estivermos mais perto do carnaval de 2011 voltaremos a falar semanalmente.

Reinicio a série com uma samba que ainda está "fresquinho" na cabeça dos leitores: Unidos de Vila Isabel 2010, "Noel, a Presença do Poeta da Vila".

A escola do bairro da Zona Norte carioca foi bastante badalada antes do desfile. Seu enredo seria o centenário de Noel Rosa, sambista e compositor dos maiores da história do samba e da música popular brasileira, "cria" do bairro.

O enredo era de autoria do carnavalesco Alex de Souza, do historiador Alex Varela e do grande compositor Martinho da Vila. Reproduzo a sinopse abaixo:


"1910. Ano marcado por grandes transformações, prenunciadas com a passagem do Cometa de Halley. Entre outros fatos: a Revolta da Chibata, liderada pelo "Almirante Negro", João Cândido, cujo motim ameaçou bombardear o Rio de Janeiro, e o nascimento de Noël de Medeiros Rosa, popularmente conhecido como Noël Rosa, em 11 de dezembro. A partir desse dia, a música popular brasileira nunca mais seria a mesma.

O pai era um amante da cultura francesa. Pela proximidade das festas natalinas deu ao filho o nome de Noël, termo que equivale a Natal entre os franceses. Também era tradição no bairro de Vila Isabel, no período natalino, passar o rancho, quando todos iam ouvir o canto das "Pastorinhas". 

Desde sua infância, Noël se revelava irreverente. Ele era da rua. Na escola, gostava das piadas proibidas e das brincadeiras obscenas. Começou estudando numa escola pública, e, depois se transferiu para o tradicional São Bento, onde imperava os rigores educacionais. A rua e os seus tipos eram a sua grande paixão. "Poeta-cronista" da cidade; cidade que cabia em Vila Isabel. Bairro síntese dos personagens cariocas: os pequenos burgueses, o bicheiro, os malandros, o seresteiro, o sinuqueiro, o cartiador, o mendigo, o vigarista, o proxeneta, o valentão, entre tantos outros. 

Noël preferia a luz das estrelas à luz solar. Ele acompanhava os cantores da madrugada com o seu inseparável violão. Ficou conhecido pelo bairro. No ano de 1929, um grupo formado por jovens de classe média do conjunto musical Flor do Tempo o convidou para formar um novo grupo: o Bando dos Tangarás, grupo composto por Almirante, Braguinha, Henrique Brito e Alvinho. O conjunto se dedicou à moda da época: a música nordestina; emboladas; sambas com tempero do Nordeste; embora, seus trajes e seus sotaques mais pareciam de caipiras. A indústria e o comércio fonográfico cresciam bastante no Rio de Janeiro, quando foram convidados para gravar pela Parlophon, subsidiária da Odeon.

A inserção no Bando dos Tangarás abriu o caminho para Noël iniciar sua carreira como compositor popular. Ainda em 1929, ele escreveu a sua primeira composição, uma embolada, intitulada "Minha Viola".

Noël Rosa tinha grande admiração por Sinhô, frequentador assíduo da Casa da Tia Ciata, localizada na Praça Onze, onde os batuques do samba, influenciados pelo maxixe, ecoavam livremente. O "Poeta da Vila", contudo, se integrou a outro tipo de samba, que veio do bairro do Estácio, onde vivia Ismael Silva, e se espalhou pelos morros da cidade como o Salgueiro, Mangueira, Favela, Saúde, Macacos. Noël subiu ao morro e se integrou aos sambista que lá viviam. E compôs com algum deles, como Cartola, do Morro da Mangueira, e Canuto e Antenor Gargalhada, do Salgueiro. O "poeta" e Franscisco Alvez (que juntos fizeram parceria no grupo "Ases do Samba") foram os maiores responsáveis pela consagração de diversos compositores negros de samba. 

Este tipo de samba que veio do Estácio, mais marcheado e acompanhado por instrumentos de percussão, era aquele tocado nos blocos, como o "Deixa Falar", que deu origem a primeira "Escola de Samba". No carnaval de Vila Isabel havia dois blocos: o Cara de Vaca, organizado, com componentes selecionados e cercados por um cordão de isolamento, e o Faz Vergonha, composto por populares e com sambas improvisados, do qual fazia parte Noël Rosa. As batalhas de confete no Boulevard eram o ponto alto do desfile de blocos.

Desde a adolescência, Noël adorava a serenata e serestas. O local favorito das noitadas era o cruzamento do Ponto dos Cem Réis, em Vila Isabel, onde os bondes "mudavam de seção". Ponto de botequins e esquinas. Era ali que se reunia com os amigos e tomava sua cerveja preferida, a Cascatinha. No Café Vila Isabel, ele compôs a maior parte das suas composições. De bar em bar, em "Conversa de Botequim", e de amores em amores, como o que sentia por Fina, para quem fez os "Três Apitos", teceu suas canções. Frequentava também os prostíbulos do Mangue, e era facinado pelos malandros, homens que exploravam as mulheres, minas ou mariposas, e viviam da jogatina. Na Lapa chegou a conhecer o famoso Madame Satã, como também Ceci, a sua "Dama do Caberé".

O ano de 1930 mudou a história do Brasil e a vida de Noël Rosa. Na política nacional, Getúlio Vargas assumiu a presidência do país por meio da chamada Revolução de 30. Nosso "Poeta" gravou o seu primeiro samba de história: "Com que Roupa?", que fazia alusão de forma humorada a um Brasil de tanga, ilhado em pobreza, a fome e a miséria alastrando-se como praga, consequencia imediata da crise da bolsa de Nova York que abalou o mundo inteiro. O samba conquistou a cidade. A composição de sucesso passou a integrar o programa de diversas peças do teatro de Revista, todas encenadas nos palcos da Praça Tiradentes, que vivia dias de fulgor e esplendor. No mesmo ano conseguiu ser aprovado no vestibular para a Faculdade de Medicina. Contudo, ficou insatisfeito com o curso e abandonou-o. Ainda assim, compôs "Coração", conhecido como um "samba anatômico". O "novo regime" de Vargas e suas medidas governamentais também não passariam desapercebidas pelo compositor, ganhando tons de críticas bem humoradas nas letras de alguns de seus sambas como "O Pulo da Hora" ou "Que Horas São?" sobre a criação do horário de verão; "Psilone" composto em função da nova reforma ortográfica; "Samba da Boa Vontade", sobre o pedido de Vargas aos brasileiros para manter o sorriso, mesmo num momento de crise; e, ainda "Tenentes ... do Diabo", samba jocoso quanto aos tenentes getulistas, rivais dos "Democratas".

No começo de 1934, teve o início a famosa polêmica envolvendo os compositores Noël Rosa e Wilson Batista. Este último compôs "Lenço no Pescoço". Noël rebateu com "Rapas Folgado". Em resposta, Wilson compôs "Mocinho da Vila". Ainda no mesmo ano, no período da primavera, Noël compôs "Feitiço da Vila", uma homenagem para a rainha primaveril de Vila Isabel, Lela Casatle. Samba que colocou Noël em evidência, uma vez que o Brasil inteiro cantou a composição. A polêmica deu uma trégua e reacendeu no ano seguinte. O sucesso do "Filósofo do Samba" incomodou Wilson Batista, que gravou "Conversa Fiada". Noël reagiu com "Palpite Infeliz". Wilson respondeu com dois novos sambas: "Frankstein da Vila" e "Terra de Cego".

Os anos trinta foram a chamada Era do Rádio, consagrada com a criação da Rádio Nacional. Em pouco tempo, o país inteiro ouviria suas rádio-novelas, seus programas de auditório e viria surgir muitas estrelas da nossa música, as chamadas cantoras do rádio. Marília Baptista e Araçy de Almeida foram as maiores intérpretes das canções de Noël. Este também atuou no rádio. No Programa do Casé, de Adhemar Casé, na Rádio Philips, Noel cantava e trabalhava como contra-regra. E, em 1935, Almirante conseguiu-lhe na Rádio Clube do Brasil, trabalhando como libretista no programa "Como se as óperas célebres do mundo houvessem nascido aqui no Rio". Escreveu o libreto da ópera "O Barbeiro de Niterói" uma paródia ao "Barbeiro de Sevilha". Fez também as revistas radiofônicas "Ladrão de Galinhas" e a "Noiva do Condutor". As composições de Noël também foram utilizadas no cinema. Em Alô, Alô, Carnaval (1936), compôs "Pierrot Apaixonado", em parceria com Heitor dos Prazeres. Para o filme Cidade Mulher (1936), ele compôs seis músicas, dentre as quais "Tarzan, Filho do Alfaiate", em parceria com Vadico.

No ano de 1937, os céus do Brasil foram atravessados pelo cometa de Hermes. Os cometas inspiraram durante milênios profundos temores na humanidade, que os considerava sinais divinos de maus presságios. O medo persistia. Foi assim com o cometa de Halley naquele ano de 1910 e voltou a ser vinte sete anos depois. E, de fato, realmente foi. Na noite do dia 04 de maio, no mesmo chalé onde nasceu na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, faleceu, acometido pelo "mal do século"

Da mesma forma que nasceu num ano turbulento, Noël disse "Adeus" num ano de grandes transformações, cumprindo assim um ciclo de mudanças. Ele mudou a história da música popular brasileira. As serestas e serenatas não seriam mais as mesmas sem a sua presença. Uma outra "Festa no Céu" faria ele entre anjos e arcanjos. Para sua felicidade, não viu a instalação do Estado Novo, com seu caráter repressivo e censurador, nem mesmo a chegada do "Tio Sam". Não viu também a vida boêmia da Lapa se substituída pelas boates chiques de Copacabana, onde Aracy de Almeida, o imortalizou. Também não teve o prazer de ver a fundação do GRES Unidos de Vila Isabel, Agremiação carnavalesca do bairro que tanto cantou. No firmamento do samba, assim como a estrela Dalva, a estrela de Noël, finalmente, no céu despontou e jamais se apagou. Foi o seu "Último Desejo". Por isso, cantamos: "Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila, ao abraçar o samba". Saudades de ti, Noël!!! 

Carnavalesco: Alex de Souza

Autores do Enredo: Alex de Souza, Alex Varela (historiador) e Martinho da Vila

Redação do Texto da Sinopse: Alex Varela"



A disputa para a escolha do samba foi recheada de polêmicas. Primeiro o presidente da escola anunciou que não haveria disputa e Martinho da Vila faria o samba. Depois que haveria uma parceria entre Martinho e André Diniz, os dois maiores vencedores de sambas enredo da história da escola.

No fim acabou havendo o concurso tradicional, mas com fortes suspeitas de que já haveria um resultado antes mesmo de seu início.

Ainda tem mais. O samba de Martinho, que se sagrou vencedor, é muito semelhante a uma outra composição do artista, em parceria com Gracia do Salgueiro. Disponibilizo abaixo a letra:

"Se um dia
A boemia me chamasse
Com saudade e perguntasse
Por onde anda Noel
Com o meu sorriso responderia
O autor de "Filosofia"
Anda na terra e no céu
Eu não sambei com Noel
Com ele eu não cantei
Porém um dia sonhei
Que eu era o seu menestrel
Eu não bebi com Noel
Eu não vivi com Noel
Mas sei que ele está presente
Com a gente em Vila Isabel
E na avenida
Se me vêem como espelho
Eu sou o seu aparelho
Num transe de carnaval
E a fantasia que se usa
Já tem os tons de lá do céu
Que são as cores
Da nossa Vila Isabel"

Veremos abaixo que a primeira parte do samba enredo tem, sim, uma letra muito semelhante a esta. Para completar a polêmica, existe uma lenda (jamais confirmada) que conta a "Presença de (André) Diniz" no samba após a vitória no concurso - o vitorioso e talentoso compositor teria "arrumado" a melodia do samba para torná-lo mais apropriado ao desfile.


Polêmicas à parte, era um belo samba, muito bem gravado no CD pelo puxador Tinga. Aqueles que discordam dos rumos que o samba de enredo vem tomando, entre os quais me incluo, torciam para que o samba fosse bem na avenida e mudasse o paradigma vigente atualmente, de "dez versos, refrão do meio com quatro, segunda parte também com dez versos e refrão final explosivo com mais quatro versos".

Havia uma grande expectativa para o desempenho do samba na noite de 15 de fevereiro, segunda feira de carnaval. A escola pisaria a passarela como a quinta e penúltima a desfilar.

Entretanto, preciso fazer um parêntese antes de continuar. Tal qual a Portela, o Império Serrano e a Mangueira, a Vila é uma escola que tem muita resistência a Mestres de Bateria vindos de fora da escola. E a grande atração da escola era a troca no comando da bateria, com Mestre Átila, premiadíssimo no Império Serrano. E...

A escola pisou na avenida como grande favorita. O samba, aclamado.

Mas dois fatores arrasaram o desempenho do samba e, por tabela, o da escola.

O primeiro foi uma falha no som que impedia a captação correta dos instrumentos da bateria e dos puxadores e que alterou totalmente a cadência do mesmo para os espectadores e os desfilantes.


O segundo... 

Bom, o segundo fator foi o desempenho lamentável da bateria, que desde o seu "esquenta" estava bastante estranha. Embolava, atravessava e se percebia claramente descompasso entre as peças "grandes" e as "pequenas".

A minha sensação no ponto onde eu estava (Setor 3, início da pista) era de que o surdo que faz a marcação para os microfones - o chamado "guia" - estava totalmente atravessado.

Em suma, a bateria foi uma lástima. A ponto de Mestre Átila fazer duas "paradinhas" seguidas em frente ao ponto da pista onde eu estava para ver se conseguia acertar o ritmo. Para quem não conhece, as paradinhas são recursos que visam abrilhantar o desfile de uma escola, mas também podem ser utilizadas para corrigir erros da bateria - algo como "parar para começar de novo".

Mas nem este recurso deu jeito. Lógico que estas coisas são muito difíceis de se provar, mas minha hipótese é de que tenha sido algum tipo de "inconformismo" pela vinda de um Mestre de fora da escola - em português claro, sabotagem. Entretanto, são apenas hipóteses.

O certo é que mesmo em um andamento excessivamente exagerado e que inibiu o efeito da bela melodia, o samba ainda salvou as notas máximas. A bateria foi bastante penalizada nas notas mas assim mesmo ainda a escola salvou um quarto lugar no resultado final.

Vamos à letra do samba e, abaixo, um vídeo do desfile da escola.

"Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel
Com toda minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu
Seus sambas muito curti
Com a cabeça ao léu
Sua presença senti
No ar de Vila Isabel
Com o sedutor não bebi
Nem fui com ele a bordel
Mas sei que está presente
Com a gente neste laurel

Veio ao planeta com os auspícios de um cometa
Naquele ano da Revolta da Chibata
A sua vida foi de notas musicais
Seus lindos sambas animavam carnavais
Brincava em blocos com boêmios e mulatas
Subia morros sem preconceitos sociais

Foi um grande chororô
Quando o gênio descansou
Todo o samba lamentou
Ô ô ô
Que enorme dissabor
Foi-se o nosso professor
A Lindaura soluçou
E a Dama do Cabaré não dançou
Fez a passagem pro espaço sideral
Mas está vivo neste nosso carnaval
Também presentes Cartola
Araci e os Tangarás
Lamartine, Ismael e outros mais
E a fantasia que se usa
Pra sambar com o menestrel

Tem a energia da nossa Vila Isabel"

Reparem na estrutura bem diferente do samba, com apenas um - e longo - refrão.



Na próxima coluna, outro samba de 2010 que sofreu com questões exógenas a ele: Imperatriz Leopoldinense.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Azul, amarelo e rubro negro


Finalmente o Flamengo apresentou oficialmente o seu terceiro uniforme. Nas cores azul e amarelo, homenageiam os pioneiros do clube e suas cores originais - como expliquei em tópico anterior.


A surpresa foi a belíssima camisa de goleiro, na cor dourada, que acompanhará este terceiro uniforme. A Olympikus havia mantido este em segredo e, com os detalhes em azul, ficou belíssimo. Espero que seja colocado à venda também.

As camisas possuem o escudo utilizado pelo remo rubro-negro, o primeiro do clube. Não vejo a hora de adquirir meus exemplares.


(Fotos: Vipcomm)

O STF, a anistia e a tortura

Depois de um post com fotos tão bonitas, exalando paz e tranquilidade, sou obrigado a comentar a decisão do Supremo Tribunal Federal na última semana, que na prática tornou impunes os agentes do Estado brasileiro que praticaram a tortura e assassinatos - terrorismo de Estado.

O leitor deve estar se perguntando: "mas a Anistia ampla, geral e irrestrita de 1978 não 'zerou' o jogo?"

Não, e explico os motivos. A anistia de então permitiu aos exilados que retornassem ao Brasil sem correrem risco de serem presos. Por outro lado garantiu aos agentes da lei - em especial aos ligados às Forças Armadas - que não seriam punidos pelos atos cometidos em nome de "terrorismo de Estado".

Só que há uma diferença fundamental.

Aqueles que foram perseguidos pelo aparelho repressivo estatal da época por se oporem ao regime sofreram penas, muitas vezes pesadas. Foram presos, torturados, alguns mortos e muitos exilados.

O leitor pode pensar "ah, mas houve assassinatos e assaltos a bancos". Ok. Só que aqueles que se envolveram nestas ações de luta armada foram punidos das formas descritas no parágrafo anterior.

Também não podemos nos esquecer que o Governo Militar em seu período mais duro não dava muitas opções de discordância dentro dos limites da lei a quem fosse contra o Regime. O funesto AI-5, de triste memória, não dava muitas opções além da clandestinidade àqueles que optassem por combater o poder constituído e enfeixado nas mãos dos militares.

Traduzindo: torturados, mortos e perseguidos foram punidos; torturadores, assassinos e terroristas de Estado, não.

Não custa lembrar que  nossos vizinhos latino-americanos vem se empenhando em dissecar os crimes praticados pelo terrorismo de Estado em suas respectivas ditaduras. Inclusive no Chile, onde até hoje os principais próceres da sanguinária ditadura ainda detém expressivas parcelas de poder. O livro sobre a Operação Condor que resenhei recentemente conta um pouco do processo de revisão chileno.

Portanto, não posso deixar de lamentar a vergonhosa decisão do Supremo Tribunal Federal, que varreu para debaixo do tapete uma miríade de crimes e absolveu de forma inapelável torturadores, assassinos e terroristas de Estado.

No Brasil, se você detém poder o crime compensa. Infelizmente.

domingo, 2 de maio de 2010

Solo Sagrado do Brasil - Fotos


Para aqueles que não são messiânicos, o Solo Sagrado é a sede da Igreja no Brasil. É um lugar onde a natureza é preservada e procura-se criar um ambiente de luz e paz.

Coloco aqui algumas fotos que tirei no último sábado, a fim de que aqueles que não conhecem possam entender a beleza no lugar. O local está aberto à visitação para não-messiânicos de quarta à domingo.

As flores, com o templo ao fundo.


Udon, sopa japonesa com macarrão, raízes e shoyu, meu café da manhã.



Mais flores.


Natureza.


Mais preservação da natureza.



Meishu Sama (Mokiti Okada), nosso fundador.



Ikebana, arranjos florais.



O altar de Meishu Sama, uma das três partes do Templo.



O Johrei coletivo, ministrado pelo Reverendíssimo Watanabe, Presidente Mundial da Igreja.



Eu, no templo.


A represa de Guarapiranga.

A Segunda Guerra do Paraguai


Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo.

Hoje trago depoimento bastante interessante do jornalista Luiz Carlos Azenha em seu Viomundo. Ele explicita alguns dos problemas ocorridos no país vizinho e as relações do Comando Vermelho carioca e o Primeiro Comando da Capital paulista com os produtores de droga locais.

Vamos ao texto. O vídeo abaixo, que acompanha a matéria original, é estarrecedor. Vale a pena ver.

"Fiz algumas reportagens no Paraguai. Para a CartaCapital, fui visitar a base aérea de Mariscal Estigarribia, no Chaco, cuja existência foi noticiada como sendo parte de uma expansão militar dos Estados Unidos na região. É estranho, mesmo, encontrar um aeroporto daqueles no meio de um lugar quase deserto. Mas o fato é que não há tropas americanas lá. A base, para todos os efeitos, está desativada. Pousam apenas pequenos aviões, de gente que tem propriedades de terra na região.

O Chaco já foi disputado militarmente entre a Bolívia e o Paraguai. Mariscal foi uma espécie de “Brasília” do ditador Alfredo Stroessner. Uma das formas de garantir a soberania paraguaia naquela região, mais próxima da fronteira com a Bolívia do que de Assunção. O plano era de fazer infraestrutura para um futuro polo de desenvolvimento regional. Tornou-se um imenso elefante branco.

Voltei ao Paraguai para fazer uma reportagem sobre os barões da maconha, na região fronteiriça com o Brasil. O país é um dos grandes produtores mundiais. Foi o que atraiu Fernandinho Beira-Mar à região. O traficante carioca foi o primeiro a calcular que, se controlasse as duas pontas do negócio, teria lucros maiores. Baixaria o custo de produção da maconha e, controlando a ponta das vendas especialmente no Rio de Janeiro, teria o monopólio do negócio. Isso está na origem da matança que se seguiu à disputa pelo controle da produção em Capitán Bado, onde Beira-Mar eliminou a concorrência dos irmãos Morel. Uma disputa comercial resolvida à bala.

O PCC, baseado em São Paulo, e o Comando Vermelho carioca “dividiram” a região. O PCC atua mais na área de Ponta Porã (do lado paraguaio, Pedro Juan Caballero). O CV, na região de Capitán Bado. Porém, esse é um processo bastante dinâmico, dada a “alta rotatividade” dos executivos do tráfico, e às alianças locais, inclusive com autoridades, que se fazem e desfazem. Com o avanço da soja sobre o Paraguai, no entanto, a produção está ameaçada. A soja, produzida especialmente mas não apenas por fazendeiros brasileiros, provoca devastação ambiental, deslocamento de populações locais e… a pressão sobre as terras onde se planta maconha. A produção está migrando aos poucos para o sul, onde há menos policiamento e mais terras desocupadas.

Tendo como base as cadeias paulistas, o PCC é hoje um “partido” internacional, que expande seus negócios em direção ao Paraguai e à Bolívia. Contaminou as instituições, no Brasil e fora dele.

Há quem acredite em um nexo entre o crime organizado e as atividades do Exército Popular Paraguaio, que levou o presidente Fernando Lugo a decretar estado de emergência em regiões fronteiriças com o Brasil. Ah, sim, também há quem diga que o EPP recebe apoio das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC.

Aqui eu entro no campo da opinião, pois não disponho de dados factuais sobre essas relações. Vi a expansão da soja no Paraguai. Testemunhei o ressentimento de paraguaios com a invasão brasileira. Se no Brasil a legislação ambiental não é respeitada, imaginem num país institucionalmente frágil como o Paraguai. Isso criou uma grande demanda por mudanças, da qual resultou o governo Lugo. E uma fração dos movimentos sociais, aparentemente, partiu para a luta armada, frustrada com o ritmo das mudanças. Lugo se equilibra sobre uma aliança frágil. Aparentemente, deu ao exército e à polícia liberdade para “pacificar” a região sojeira, onde o ressentimento com as condições materiais de vida é aguçado ainda mais pela presença ostensiva de brasiguaios bem sucedidos.

O que testemunhamos aqui é a expansão de grandes grupos econômicos, voltados para a exploração de recursos naturais e a exportação de água e comida, especialmente para atender ao mercado da China. E a fricção dos interesses deles com os interesses das populações locais, que tentam arrancar uma fatia desse bolo. Jogar o PCC e as FARC nessa mistura é politicamente conveniente para aqueles que acham que a questão social é um caso de polícia.



PS: O produtor Gustavo Costa, com o qual viajei para fazer a série que foi ao ar no Jornal da Record, entrevistou o senador paraguaio Roberto Acevedo no curso de uma investigação sobre as conexões do tráfico de cocaína na rota Bolívia-Paraguai-Brasil. Dias depois, o senador sofreu um atentado. Gustavo viu o esquema de segurança de Acevedo e esteve com os dois funcionários dele que foram assassinados. O material vai ao ar no próximo Domingo Espetacular."

sábado, 1 de maio de 2010

Velhas Companheiras



Monarco tem um samba (acima, no vídeo) onde ele canta a amizade dos sambistas da Portela e da Mangueira nos tempos idos. A letra também ressalta o pioneirismo das duas escolas na tradição das escolas de samba cariocas.

Faço esta introdução para afirmar que as escolhas de enredos para 2011 das duas escolas podem resgatar este pioneirismo e este peso das tradicionalíssimas instituições no espetáculo escolas de samba, cada vez mais desvirtuado de sua porção cultural para um produto mais pasteurizado e artístico no sentido "business" do termo.


A azul e branca de Oswaldo Cruz trará para a avenida em 2011 um enredo sobre sua história e suas tradições. Intitulado provisoriamente "Portela dos Grandes Carnavais", a escola, guiada por Paulo da Portela, irá contar a sua história e homenagear seus baluartes. Um bonito resgate e o enredo que eu, como portelense apaixonado, sempre sonhei.

A sinopse deverá ser divulgada durante as eleições, no próximo dia dezesseis de maio. Após vários anos com enredos politicamente corretos a águia se reencontra com a sua característica de enredos. Eu já sei que quando pisar na passarela vestindo a minha fantasia estarei profundamente emocionado por poder cantar a minha paixão em verso e samba.

A Estação Primeira não ficou atrás. Em 2011 a escola se redime de ter esnobado o centenário de Cartola e prestará homenagem ao centenário de nascimento do grande compositor e baluarte da escola Nelson Cavaquinho. Com o título de "O filho fiel, sempre Mangueira", a verde e rosa irá revisitar a vida e a obra do brilhante artista.

Para quem não conhece, Nelson Cavaquinho é um dos autores de "A flor e o espinho", música que traz um dos versos mais bonitos que já vi na língua portuguesa: "tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor."

No vídeo abaixo podemos ver o homenageado mangueirense ao lado da grande (e portelense) Elizeth Cardoso, interpretando a música citada. Cavaquinho faleceu em 1986.



A importância das duas grandes e tradicionais escolas resgatarem suas raízes neste próximo carnaval pode sinalizar um retorno do desfile das escolas de samba ao seu cerne, o canto e a dança. Os temas devem permitir belos sambas e revalorizar a importância dos fundamentos nesta grande paixão chamada escolas de samba.

Desde já torço para que as velhas companheiras possam ter absoluto sucesso em seus desfiles e assim empreender uma nova tendência de enredos e sambas para os carnavais seguintes.

No plano das possibilidades, fala-se em mais um enredo autoral de Renato Lage no Salgueiro e ventila-se a reedição de "Só Dá Lalá" na Imperatriz Leopoldinese, seu inesquecível samba de 1981. Outra possibilidade seria um velho e batido tema: a Amazônia.

A União da Ilha trará um enredo calcado na teoria de Darwin - inclusive com sinopse já divulgada - e especula-se que a Acadêmicos do Grande Rio negocia com as cidades de Dallas (EUA) e Dubai (EAU) para que uma destas seja seu tema. Por seu turno, a Beija Flor faz mais um leilão entre possíveis patrocinadores e provavelmente aquele que oferecer o maior valor monetário será o enredo da escola.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Final de Semana - "Eu Sei Que Vou Te Amar"



Certas músicas são clássicas e não dependem de ocasiões especiais para serem recomendadas. É o caso de "Eu Sei Que Vou Te Amar", aqui em versão ao vivo de João Gilberto. Tom Jobim e Vinícius de Moraes deveriam ser sempre reverenciados.

Rapidinho, o recado está dado. Bom final de semana e um rápido "bate e volta" em Sampa me espera - é dia de Solo Sagrado amanhã. Mas o blog não para, ainda mais começando campanha regressiva para seu primeiro aniversário.

Eu Sei Que Vou Te Amar
(Tom Jobim / Vinícius de Moraes)

"Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida"

Cinecasulofilia - Benning & Lumière


Mais uma sexta feira, e mais uma coluna "Cinecasulofilia", em parceria com o blog de mesmo nome. Como sempre, assinada pelo crítico de cinema e cineasta Marcelo Ikeda.

"A chegada e a saída de um conjunto de trens do enquadramento cinematográfico: Benning e Lumière

Eu me lembro que em 1995, nas comemorações dos cem anos do cinema, começaram a ser publicadas listas dos melhores filmes da história do cinema. Uma das listas era composta por listas individuais de críticos brasileiros. Um dos críticos – não me recordo o nome – colocou A Chegada do Trem na Estação, dos Irmãos Lumière, encabeçando sua lista. Apenas anos mais tarde fui perceber que sua lista era por ordem cronológica, de modo que, naquele instante, pensei que o crítico colocava o que é considerado o marco inicial da história do cinema como seu filme mais importante. Na época, fiquei absolutamente indignado com essa colocação, como se fosse uma provocação, pois senti que era como se o cinema não tivesse se consolidado, já que se o filme mais importante era o primeiro, então era porque todos os seguintes não estavam à sua altura? Curiosamente esta constatação poderia ser vista como tipicamente “lumieriana”, já que supostamente os Lumière disseram uma frase bastante famosa e ainda pouco compreendida: “o cinema é uma invenção sem futuro”.

Hoje, 110 anos após a primeira exibição desse filmete dos Lumière, de cerca de um minuto, não seria exagero se o considerássemos como um dos filmes mais importantes da história do cinema. Hoje, esse filmete ganha novas e novas significações. A suposta ingenuidade dos Lumière, registrando com câmera fixa acontecimentos simples (um trem chegando a uma estação, operários saindo de uma usina), com títulos (magistrais) que simplesmente descreviam o que víamos (era isso, nada além disso), hoje pode ser visto como uma síntese das possibilidades expressivas de um certo tipo de cinema contemporâneo, em suas relações com o espaço físico, a duração e a câmera fixa. Ao contrário de Griffith (bem depois), que encenava dramas morais, ou de Meliès, que fazia trucagens espetaculares, os Lumière, em seus filmes mais significativos, “apenas” colocavam uma câmera e deixavam-na ali registrando o escorrer do tempo e da vida ao longo da película cinematográfica. Paradoxalmente essa suposta ingenuidade pode ser vista hoje como a “ponta de linha” das investigações sobre o cinema contemporâneo.

“O cinema é uma invenção sem futuro”. Mais de cem anos depois é sobre este contexto que é possível assistir a uma experiência extremamente radical e extremamente simples (intuitiva) como os filmes de James Benning, especialmente um filme como RR. É importante frisar que RR não é o primeiro filme de Benning, que, por sua vez, não é um jovem de vinte anos de idade. RR é mais um filme que comprova todo um caminho de experimentação artística desse realizador canadense que agora começa a ter seus trabalhos mais difundidos, especialmente devido a internet. Isso é extremamente curioso, já que a radical opção de Benning pela película cinematográfica, pelos filmes de longa duração com planos fixos, pode parecer “anacrônica”, “antiquada”, ou ainda, absolutamente oposta ao espírito inquieto, perscrutador, incisivo, geralmente associado às novas tecnologias. Nesse sentido, RR ainda tem uma participação especial, pois talvez seja a última experiência em película de Benning, já que seu filme seguinte, Ruhr, foi o primeiro em que o autor utilizou uma câmera digital, em HD.

O que é RR? Num certo sentido, o filme é uma coleção, um conjunto de quinze, vinte planos (não sei ao certo quantos) com câmera fixa, de trens passando pela superfície norte-americana, entrando e saindo de quadro, sem nenhum efeito em imagem e som (na verdade há alguns, e em Ruhr o autor vai radicalizar isso, mas não vou aprofundar isso aqui). Para além disso, podemos fazer inúmeras relações: o trem como símbolo da modernidade, o trem como ícone de uma origem cinematográfica, o realismo da imagem cinematográfica, o rigor do cinema estruturalista, a importância econômica e social do trem (são trens de todos os tipos, de passageiros, de carga, passando por desertos, pontes, cidades, etc.), o trem como desestabilizador de uma harmonia geográfica e sonora [lembremos o Thoreau de Walden], o movimento (deslocamento) da imagem e do som como trajetória no interior da imagem fixa, o jogo entre previsibilidade e o acaso (cada trem passando é uma experiência única, impossível de ser repetida), etc, etc, etc.

Mas além disso, o que está em jogo, é uma possibilidade de olhar e ouvir o mundo, de se inserir num certo espaço e tentar reproduzir essas sensações visuais e acústicas para o espectador, a partir das possibilidades e especialmente das impossibilidades do cinema. Quando saímos do fim de um filme de Benning (aqueles que o conseguem), passamos a rever nossas relações de percepção com o mundo. Mas não é só isso, passamos a RESIGNIFICAR o sentido dessas próprias relações e, ao resignificar, estamos fazendo cinema! O cinema de Benning se insere numa dualidade que ele resume com muita solidez, de forma robusta, e daí a singeleza de seu projeto cinematográfico: de um lado passamos a observar de forma mais atenta o mundo, de outro (como se o anterior ainda fosse pouco), passamos a resignificar a possibilidade dessa própria observação (o rigor do estilo, a autoconsciência do estilo, a ênfase na repetição – o que me lembra Cezanne “ver, ver, ver, para que possamos desver”). O “impressionismo” do cinema de Benning (cada trem é um trem) com o rigor de um estilo, um “estruturalismo” (um “equilíbrio”, uma “harmonia”). É como se Benning quisesse fazer uma síntese entre Cezanne e Rafael. E isso com apenas meio naco de tinta."

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A paulada dos juros


Eis que após grande pressão do mercado financeiro o Banco Central anunciou o aumento das taxas básicas de juros em 0,75 ponto percentual, passando para 9,5% ao ano. Isto corresponde a uma taxa real - descontada a inflação - de aproximadamente 4,5%, uma das mais altas no mundo.

Minha avaliação é que não haveria ocasião mais inoportuna para tal medida. Mais que diminuir o ritmo dos investimentos, é um sinalizador ao mercado real de que as expectativas dos agentes devem ser trabalhadas para uma diminuição do crescimento econômico.

É o que eu chamaria de "profecia auto-realizável": estimulados por outros interesses, o Banco Central aumenta os juros e diz que quer controlar "supostas" pressões inflacionárias. Os agentes da economia real tomam como um sinal e desaceleram suas decisões de investimento, o que leva a uma diminuição do crescimento econômico e à transferência de renda do setor produtivo para o setor financeiro da economia.

Lembro a meus 56 leitores que não há chance de descontrole da inflação. Os motivos são simples: não há risco de sobreutilização da capacidade instalada por causa dos novos investimentos na capacidade produtiva da economia, os salários estão aumentando em uma taxa abaixo do crescimento da produtividade da economia - embora acima da inflação - e não há a curto prazo risco de choques cambiais.

A única explicação que eu consigo encontrar para tal elevação da taxa básica é a necessidade de elevar os ganhos das tesourarias dos bancos, locais que normalmente empregam os diretores que passam pelo Banco Central. Apesar de ser o guardião da moeda, a história do Bacen mostra que este esteve sempre muito mais sensível às vozes do mercado financeiro que do restante da economia do país.

E exatamente por não refletir e atender às necessidades da economia como um todo que sou radicalmente contrário a idéia de um "Banco Central independente", que não precisa prestar contas ao governo ou à sociedade.

Outro ponto que necessitamos alertar é que os bancos continuam ganhando muito dinheiro atualmente, mas exercendo a função para a qual foram originalmente criados: fornecer crédito à economia. Esta é uma diferença fundamental, pois quanto maiores forem os lucros das carteiras de crédito é sinal de que a economia está crescendo em uma proporção semelhante. Excrescência era o que ocorria anteriormente, quando o crédito representava uma fração ínfima de nosso Produto interno Bruto (PIB) e os ganhos dos bancos vinham à custa da carteira de títulos públicos e suas altas taxas de juros.

Na prática, o que ocorria anteriormente era uma brutal transferência de renda do setor produtivo para o financeiro, porque a arrecadação de impostos era em boa parte drenada a fim de rolar as carteiras de títulos. 

Não é exagero dizer que a equipe econômica que esteve ocupando o Ministério da Fazenda e o Banco Central entre 1994 e 2002 estabeleceu políticas que visavam beneficiar aqueles que lá os colocaram, ignorando todas as demais necessidades do país. Bem como impor um ideário econômico totalmente inadequado às especificidades brasileiras.

Concluindo, queria repercutir uma notícia que também saiu esta semana e que não teve o devido destaque, que foi a criação de uma delegacia especial da Receita Federal com a tarefa de fiscalizar as dez mil maiores empresas brasileiras, que concentram 75% da arrecadação de tributos e impostos federais.

Esta delegacia terá auditores especializados em detectar sofisticados procedimentos de sonegação e elisão fiscais por parte destas empresas, bem como lavagem de dinheiro. Sem dúvida alguma é uma notícia que trará desdobramentos posteriores.


(Foto: G1)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: na conta da natureza ?


Mais uma quarta feira e mais uma coluna sobre ciência e tecnologia, assinada pelo Professor Marcelo Einicker. A coluna de hoje é sobre a relação entre o homem e a natureza.

"Caros amigos,

Esta semana vamos abordar um tema bastante atual, mas que ainda leva a interpretações errôneas e também tem servido de “bengala” para pouca ou nenhuma política pública realizada em nossas cidades. Falaremos das catástrofes naturais.

Era o final dos anos 90, e muita gente mundo afora tinha plena convicção de que o Mundo...o Planeta Terra...ia se acabar. Previsões apocalípticas, interpretações da Bíblia, de textos antigos, previsões de Nostradamus...tudo apontava para o fim do mundo em 2000. Virada do ano de 99 para 2000 e o que aconteceu?? Nada! Nem o alardeado bug do milênio! Frustração de muitos...desespero de outros...infortúnio de alguns menos coerentes que se suicidaram antes do final do mundo...o fato é que seguiu a vida na Terra.

Um Planeta de fases

Nossa amada Terra é o terceiro planeta do Sistema Solar. Para muitos, o único microponto do Cosmos onde existe vida, seja de qual forma ela possa ser. Muito pouco provável que isso seja verdade. Mas voltemos para algo que parece cair no esquecimento das pessoas. A Terra já foi um planeta totalmente inviável no que diz respeito à capacidade de abrigar qualquer forma conhecida de vida. Era quente demais, assolada por ventos muito mais fortes que os piores furacões de hoje em dia; bombardeada por fortes descargas elétricas, radiação ultravioleta, raios-X e outros tipos de radiações vindas do espaço, enfim...um cenário estéril. Estas condições adversas foram determinantes para que o Planeta Terra sofresse uma drástica transformação que levou bilhões de anos para ser percebida. 

Erupções vulcânicas de proporções gigantescas por todo planeta, emissão de gases e nuvens de poeira que cobriram boa parte da Terra por anos... o aparecimento e acúmulo do vapor d´água, que deu origem às primeiras chuvas...que encheram depressões no terreno primitivo, formaram grandes reservatórios...oceanos e ajudaram a resfriar o planeta. Aí nestes oceanos primitivos há cerca de 4,5 bilhões de anos, teria surgido a primeira estrutura orgânica, pedra fundamental do estabelecimento da vida na Terra (maiores detalhes em http://www.portalbrasil.net/educacao_seresvivos_origem.htm , e a partir daí a especialização, a evolução e a seleção natural, promoveram a conquista dos ambientes aquático e terrestre, numa explosão de diferentes formas de vida.

Mas por que lembrar disso tudo? Pelo simples fato de não esquecermos que o Planeta passou e passará por fases muito claramente distintas. Como dito acima, nosso Planeta já foi inóspito por ser quente demais, mas também já foi inóspito por ser frio demais, o que teria inclusive levado a extinção dos Dinosauros. As chamadas Eras Glaciais apresentam-se como ciclos na história geológica da Terra...e ao que se sabe, estamos num momento geológico entre a última Era Glacial e uma nova glaciação...começando mais um ciclo, mais uma fase de nosso Planeta. Assim podemos dizer que a Terra está em constante transformação. É aí que entra a parte que não estava prevista pela Mãe Natureza ou por algum ser supremo responsável por toda criação: a ação do Homem!

Somos seres evoluídos?

A resposta desta pergunta é SIM, somos seres evoluídos. Mais evoluídos bioquimicamente e intelectualmente que tantas outras formas de vida que já surgiram ou ainda existem no Planeta. No entanto, algo que nos atribui a qualidade de “seres evoluídos” é também algo que vai contra o Planeta e contra nós mesmos. O Homem, ser evoluído, empreende uma corrida tecnológica e industrial que demanda recursos naturais, extrativismo, agressões ao meio ambiente que aceleram em muito ou mesmo criam novos fatores que contribuem para mudanças perigosas nos destinos do Planeta. O badalado termo “Aquecimento Global” é assunto nas pesquisas de nossas crianças no ensino fundamental. O Efeito Estufa reaparece nos noticiários associado à poluição em grandes cidades como São Paulo. Desmatamento das florestas, desertificação, morte de rios e nascentes...DEGRADAÇÃO.

Esta palavra dura reflete a aceleração de transformações malignas que nosso Planeta vem sofrendo, muito em função do progresso trazido pelo ser mais evoluído: o Homem. Mas seria possível não termos todo o progresso em nossas Cidades, ou termos tudo que temos hoje sem agredir o Meio Ambiente? De novo a resposta é SIM. E aí é que vem o “resgate” do ser evoluído (o Homem), pois é ele que já está discutindo e desenvolvendo novas tecnologias, dominando as Ciências para cessar ou diminuir as agressões que foram sendo feitas ao longo dos anos, principalmente desde a Revolução Industrial. Para ilustrar isso, temos a exploração de fontes alternativas de energia, a preocupação com a degradação do meio ambiente e a noção de desenvolvimento sustentável, que já mudam práticas que levaram a degradação de diferentes áreas em todo mundo.

Devemos colocar todos os problemas causados após grandes catástrofes na conta da Natureza?

Tsunamis, terremotos, furacões, vulcões, grandes tempestades. Cataclismas que em tempos modernos, de cidades superpovoadas ocasionam grande número de danos materiais e vidas perdidas. Toda tecnologia disponível permite com alguma antecedência prever alguns destes desastres naturais, mas ainda não todos e nem a sua real intensidade.

Recentemente nosso Planeta tem sofrido com grandes catástrofes naturais, muitas destas associadas em uma produção cinematográfica recente (o filme 2012) baseada em escritos dos Maias, que prevê o ano de 2012 como provável fim dos tempos devido a explosões solares que aumentariam a temperatura no centro da Terra fazendo com que os continentes sofressem intensos terremotos e que fossem observadas colossais erupções vulcânicas. Coincidência ou não, o Planeta vem registrando grandes catástrofes naturais já há algum tempo.

Tivemos um terremoto muito forte (9,0 pontos na Escala Richter) em 2004 no Oceano Índico, que fez surgir uma onda gigante devastadora (Tsunami) que destruiu cidades e matou milhares de pessoas na costa asiática. Em 2008 um forte terremoto trouxe destruição e morte a uma província da China. Já neste ano de 2010, os terremotos no Haiti, Chile e de novo na China marcam 2010 como o ano com maior número de mortes provocadas por terremoto. O planeta também tem sido assolado por furacões, como o Katrina que devastou a cidade de Nova Orleans nos Estados Unidos e por tempestades. No Brasil, as chuvas destruíram cidades em Santa Catarina, Bahia, Sergipe e Rio de Janeiro. As chuvas em Angra dos Reis no início de 2010 e agora no mês de março na Cidade do Rio de Janeiro, Niterói e Região Serrana trouxeram desabamentos e perda de centenas de vidas como no lamentável caso do Morro do Bumba.

Por fim, na semana passada a Europa entrou em colapso com a erupção do vulcão Eyjafjallajokull, que ao entrar em atividade lançou lava e uma densa fumaça negra rica em partículas de silício que cobriu parte da Europa levando ao fechamento do espaço aéreo de diversos países.

Mas todas estas tragédias, todas as mortes assinaladas, foram culpa da Natureza?

Os terremotos não têm qualquer relação a agressões do Homem ao meio ambiente. São resultado de movimentos das placas tectônicas onde repousam os diferentes continentes e mesmo a superfície do fundo dos mares e oceanos. Este movimento de placas tectônicas levou a distribuição dos continentes como conhecemos hoje, tendo sido todos eles originados a partir de um mesmo bloco continental ancestral chamado de Pangea.


No caso dos grandes furacões e das grandes tempestades, sim, até podemos atribuir correlações com diferentes fatores que refletem a degradação do ambiente pelo Homem. O aquecimento global pode causar alterações climáticas que culminam em grandes temporais como os observados no Estado do Rio de Janeiro. Mas estes temporais também podem ser resultado de fenômenos como “El Niño” e “La Niña”, que são alterações na temperatura da água e nas correntes marinhas dos oceanos que pode ser resultado de alterações climáticas naturais do ciclo geológico normal do Planeta, como podem também ser resultado das alterações ambientais provocadas pelo homem, de forma que neste caso – dos temporais e furacões – fica difícil estabelecer o que aconteceu porque teria de acontecer e o que aconteceu por agressões ao ambiente ao longo dos anos.

O problema maior que vemos é que o poder público em muitos casos se omite de culpa em casos de mortes nestas tragédias climáticas. É fácil entender isso no caso de um terremoto ou de um vulcão. No entanto, apenas como exemplo, saber que muitas vidas foram perdidas após um forte temporal porque um bairro ou uma favela se ergueu sobre uma encosta onde funcionava um “lixão”, ou saber que centenas de famílias perderam suas casas e seus bens em alagamentos provocados pela falta de investimentos em obras de drenagem, dragagem de rios ou canalização eficiente de águas pluviais, nos deixa a certeza de que a omissão das autoridades, em alguns casos, aumenta significativamente os danos da catástrofe, principalmente no que diz respeito ao número de mortes.

Desta forma, as catástrofes naturais estão presentes no dia a dia do nosso Planeta bem antes da chegada do Homem a face da Terra. Devemos preservar nosso Planeta para não alterar sua harmonia e provocar episódios mais drásticos, além de termos de estar atentos a estes episódios para que não se coloque toda culpa apenas na Mãe Natureza.

Até a próxima!"

terça-feira, 27 de abril de 2010

Turma da Mônica na tv aberta


Critico bastante a nossa televisão mas elogio quando é para elogiar: a Rede Globo fechou com o cartunista Mauricio de Sousa a exibição dos desenhos da Turma da Mônica em rede aberta a partir da primeira semana de julho.

Serão três anos de contrato e os desenhos serão exibidos sempre aos sábados, por volta das dez da manhã. Na pauta para serem exibidos, episódios da Turma da Mônica, da Turma da Mônica Jovem e especiais como o Astronauta e a Turma do Penadinho - a minha preferida (foto).

Boa parte do material acredito que já tenha sido exibida no Cartoon Network ou mesmo nos DVDs à venda, mas sempre é salutar ver cultura de qualidade abrangendo um maior número de pessoas. Parabéns a Maurício de Sousa e à Rede Globo.

Ainda mais quando vemos desenhos de qualidade duvidosa na grade, trazendo culturas alienígenas à nossa e repassando valores solapantes da nossa cultura. Fora a questão da violência e da moral duvidosa muitas vezes envolvida nestes produtos importados, sem a mesma qualidade e o respeito ao consumidor trazidos por Maurício de Sousa.

Aliás, a matéria que trazia o anúncio da parceria enfatiza o fato de Mauricio de Sousa estar buscando novas tecnologias como o 3D. Acredito que a qualidade dos desenhos somada ao cuidado de manter os produtos sempre antenados com as novidades tecnológicas é um fator que explica os cinquenta anos de sucesso dos personagens do cartunista e empresário brasileiro.

Política e bom senso


Quinta feira, dia 22, aproximadamente oito da manhã: Linha Vermelha sentido Centro com duas faixas fechadas para obras em plena hora do rush.

Domingo, 25, por volta de dez da manhã: quatro quilômetros de engarrafamento na volta do feriadão devido a obras na BR-101, altura de Itaboraí. A retenção chegou a vinte e um quilômetros na parte da tarde, momento de maior fluxo de pessoas voltando do feriadão na Região dos Lagos (foto).

Faço esta introdução com estes dois fatos para abordar algo que está faltando bastante tanto nos políticos quanto nos administradores públicos: bom senso. Chico Buarque dizia que todo governo deveria ter um "Ministro do Vai dar Merda". Sua função seria a de avaliar cada medida governamental com esta singela pergunta: "vai dar merda?" Garanto que evitaria muitos dos percalços pelos quais os cidadãos passam hoje em dia.

Às vezes eu me pergunto se aqueles investidos do poder de interferir na vida cotidiana dos cidadãos param para pensar nas consequências de suas determinações. Qualquer criança com a idade das minhas filhas saberia que fechar a Linha Vermelha ou a BR-101 da maneira como foi feito iria atravancar sobremaneira o cidadão que gostaria de seguir ao seu local de trabalho ou retornar de um merecido descanso nas praias do litoral.

Outro bom exemplo da total falta de bom senso é a localização de grande parte dos "pardais" da cidade. Eles estão não em locais onde realmente coibem práticas inadequadas ao volante, mas sim com o intuito de forçar o motorista a cometer a infração - basicamente por estarem em locais de risco.

Também reflexo da total ausência de bom senso são as esfarrapadas desculpas dadas pelos políticos a cada novo crime ou chacina empreendida pelas forças públicas. Ou o IPVA somente em um único banco, ou a burocracia cartorial do nosso dia a dia. Momentos não faltam.

O exercício da política reflete total comprometimento com o povo, que os colocou lá. O sentido de tal prática deveria ser sempre com o objetivo de simplificar a vida do cidadão, buscando atender às suas demandas e empreendendo decisões de administração ativas e simples. Entretanto, não é decididamente o que ocorre.

Eu me lembro que quando era criança chegou-se a criar o "Ministério da Desburocratização" a fim de simplificar a relação dos cidadãos com o Poder Público. Entretanto, apesar da internet vejo que pouca coisa mudou. Realço o bom exemplo da Receita Federal em permitir não somente a declaração de renda como eventuais correções de forma online.

Concluindo, urge que os políticos e administradores pensem um pouco nas consequências que seus atos trazem à vida dos cidadãos.