quarta-feira, 30 de junho de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: a ciência e o mistério da bola Jabulani



Mais uma quarta feira e mais uma coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor Adjunto de Biofísica da UFRJ Marcelo Einicker. Hoje o tema, em ritmo de Copa do Mundo, é uma explicação cientpífica do terror dos goleiros: a fmaosa Jabulani.

"A Ciência e o mistério da bola Jabulani

Em tempo de Copa do Mundo, vamos trazer para a coluna um pouco de Ciência para a polêmica por conta da nova bola - a famosa JABULANI - desenvolvida especialmente por uma grande marca de artigos esportivos para este evento.

Um pouco de história

Que o futebol é a paixão do brasileiro e de tantas outras nações ninguém duvida, mas como isso tudo começou ainda é uma grande controvérsia. Para alguns, o futebol teria surgido por volta de 3.000 anos antes de Cristo, na China, onde militares ou guerreiros se reuniam para treinamentos em campos onde chutavam as cabeças dos inimigos derrotados, numa espécie de jogo de futebol primitivo e mesmo bizarro. Também existem relatos no Japão de um jogo bastante próximo ao nosso futebol praticado com uma bola feita de fibra de bambu.

E, no decorrer dos anos, seguiu-se o que em biologia poderia se chamar evolução. Seria a evolução do futebol, passando por mais alguns modelos de jogos até que “futebol primitivo” chega à Inglaterra por volta do século XVII; onde ganha as regras básicas que temos hoje em dia e onde a bola começa a ganhar maior atenção, já sendo de couro, costurada e inflada com ar.

Em 1848 também na Inglaterra são estabelecidas de forma oficial as regras, em 1871 criada a figura do goleiro, que seria o único a poder tocar a bola com as mãos. Já em 1885 começa o futebol profissional e no ano seguinte, é criada a International Board, entidade responsável por manter ou alterar as regras do jogo. Finalmente em 1904, surge a Federação Internacional de Football Association (FIFA), que hoje é a maior entidade do futebol mundial, responsável pelos campeonatos inclusive, pela Copa do Mundo.

Portanto desde quando o futebol trocou as cabeças por algum tipo de bola, proporcionou o aprimoramento de técnicas para tocar esta bola, chutar, cabeceá-la, protege-la do adversário...e assim surgiram o drible, a finta, o passe, a magia que envolve o jogo, cada partida de futebol. Sempre com ela, a bola, como estrela maior.

A bola

Quem nunca jogou uma pelada na rua, na quadra do colégio com uma simples bola de meia, ou mesmo com um monte de papel embrulhado em forma de bola? Existem centenas, talvez milhares de tipos de bola, porém, para a prática do esporte, a bola deve seguir regras muito bem estabelecidas. A bola deve ser esférica, recoberta de couro ou outro material aprovado, que não represente perigo à integridade dos atletas. Para o futebol de campo, sua circunferência máxima será de 69,5 cm, e a mínima 68,5 cm; o peso dever estar entre 420 e 445 g no início da partida, e depois de cheia ela deve ter a pressão de 0,8 bar.

Ou seja, existe uma padronização para a bola o que impede que partidas oficiais sejam disputadas com bolas fora destas especificações. Isso nos faz lembrar de inúmeras reclamações por parte dos jogadores acerca da qualidade da bola. Que ela é mais leve, mais pesada, mais dura, mais ligeira. Entretanto, pela regra bola é bola, nas suas especificações regulamentares. Logo, é de se pensar que um jogador profissional que reclame da bola, não tenha lá assim tanta intimidade com seu instrumento de trabalho. Um dos maiores jogadores de todos os tempos, o argentino Di Stefanno, tem no jardim de sua casa uma estátua em bronze de uma bola onde se lê: “Obrigado gorda!”.

Alguns dos maiores jogadores do mundo em todos os tempos costumavam comentar que chamavam a bola de “você”, refletindo a intimidade que tinham com a redonda. Mas afinal, a bola que transformou Pelé em Rei, Ronaldo em Fenômeno, Maradona em Deus e tantos outros homens em ídolos pode ainda evoluir mais e chegar a uma situação de máxima perfeição?

Parece ser exatamente este o ponto que tem provocado tantas reclamações no período que antecedeu o início da Copa do Mundo e mesmo agora já durante os jogos. Jogadores da Seleção Brasileira, como o goleiro Júlio César (considerado por muitos o melhor goleiro do mundo) e de outras seleções vieram a público reclamar da bola do Mundial da África, a já famosa Jabulani - que no idioma Zulu significa “celebrar”. Segundo os jogadores, a bola Jabulani é mais leve... mais rápida... mais teimosa, dura de ser dominada. Mas se a FIFA estabelece regras para a bola, como pode a Jabulani ser mais leve ou mais rápida?

A Ciência desvenda o mistério de Jabulani

Feitas as reclamações, o fabricante da bola partiu em defesa de seu produto, dizendo terem utilizado jogadores de sabida técnica (como nosso Kaká) para testes em campo com a Jabulani [Nota do Editor: jogadores patrocinados pela Adidas, fabricante da bola]. Foi ou teria sido usada uma tecnologia digna dos projetos de desenvolvimento de carros de corrida, inclusive com testes em túneis de vento. A FIFA também se colocou contrária às reclamações, apoiando os argumentos da fornecedora de material esportivo, pois teriam desenvolvido a Jabulani com o que existe de mais moderno.

No entanto, começa a Copa, e logo nos primeiros jogos alguns goleiros sofreram “frangos” incríveis, atribuídos ao mistério da bola Jabulani. O número de gols na primeira fase foi o mais baixo da história das Copas, o número de passes errados foi considerado alto, e só depois de mais de 60 jogos houve um gol de falta. Evidências mais do que suficientes de que realmente a Jabulani é um tanto quanto mais rebelde que suas antecessoras, bolas de menos tecnologia, mas que garantiam mais deslumbramento nas jogadas.

Para acabar com a polêmica, laboratórios de Física pelo mundo afora realizaram testes com a Jabulani. A própria Agência Espacial Americana, a NASA, dedicou esforços para analisar a bola Jabulani. Aqui no Brasil, pesquisadores da USP também analisaram a Jabulani e em comum todos os testes feitos mostram as mesmas conclusões. Realmente a Jabulani é uma bola “teimosa”, difícil de ser dominada e de ser colocada no gol com categoria e mesmo na força. A bola parece estar sujeita a incríveis alterações de sua trajetória em chutes a partir de 45 Km/h (considerados fracos). Estas alterações na trajetória se devem justamente a evolução tecnológica que concebeu a Jabulani. Ao contrário das bolas anteriores, a Jabulani é formada por apenas oito painéis ou placas soldadas industrialmente, ou seja, ela não tem costuras. As bolas tradicionais de até 14 gomos tinham costuras muitas vezes feitas à mão, que formavam pequenas ranhuras entre os gomos por onde o ar circulava durante a trajetória da bola após o chute. Com a Jabulani estes caminhos para o ar circular entre as placas ou gomos é praticamente inexistente, e assim o atrito da Jabulani com o ar é maior. Isso faz com que ela fique sim mais sujeita a alterações da sua trajetória, o que explicaria a onda de reclamações dos atletas.

Outro agravante para a Jabulani seria o material sintético usado para sua fabricação, que seria outro causador de alterações do efeito do atrito com o ar e a trajetória final seguida pela bola. Em poucas palavras, por mais craque que seja o jogador ele tem muito mais dificuldade em um chute preciso com a Jabulani do que com outras bolas.

Portanto o problema da Jabulani não é que ela é mais leve, mas sim que ela é tão mais moderna tecnologicamente que não possui costuras e com isso fica sujeita a golpes de ar e ao atrito com o mesmo.

É interessante vermos que a tecnologia deve sempre estar em favor do desenvolvimento das coisas e mesmo do esporte. Assim é no automobilismo, o desenvolvimento dos motores, combustíveis, pneus; na natação a criação daquele macacão que fez despencarem os recordes, e que acabou sendo abolido, e agora o futebol nos dá um exemplo ao contrário, de que nem sempre a máxima tecnologia vai jogar a favor. No caso da Jabulani, parece mesmo ter sido um tremendo gol contra!"

terça-feira, 29 de junho de 2010

Skavurska ? Só no comercial...


Sou cliente da Net há pelo menos uns seis anos, tendo hoje o pacote com imagem em alta definição e assinatura do pay per view do futebol.

Há cerca de quinze dias, me telefonou uma vendedora da Net oferecendo a troca do meu pacote pelo chamado "Net Combo", composto de internet em alta velocidade mais linha telefônica, além do pacote tradicional de tv a cabo. Dentro do pacote me ofereceram um terceiro ponto de televisão, embora sem HD - sinal digital "normal".

Como o valor me daria uma economia mensal considerável e além disso eu andava meio insatisfeito com a demora da Oi/Velox em aumentar a minha velocidade de internet, optei por fazer a troca, me livrando da Oi.

Tenho de ressaltar o preparo da vendedora, que soube dirimir as minhas dúvidas e me explicar as condições do pacote. E olha que eu não sou exatamente um cliente desinformado, ao contrário, perguntei por detalhes que normalmente as pessoas não atinam na hora da contratação do serviço.

Então começou o meu calvário: a instalação do serviço. Para completar estou com um dos "decoders" HD inoperantes e solicitei a troca do equipamento junto com o restante do serviço. Ao contrário do que se possa imaginar, o sistema de atendimento ao cliente da empresa não permite que se faça todo o serviço de uma vez só e a cada serviço se faz necessária uma ligação para solicitar o serviço - e lá se vão horas ao telefone...

Primeiro veio o instalador da internet. Grosseiro e arrogante, não fez o cabeamento corrreto e deixou tanto a internet quanto o fax sem funcionar. Liguei à noite para a central de atendimento e tive de solicitar uma visita técnica. No dia seguinte, o instalador do telefone comum refez o serviço mal feito no dia anterior e configurou tanto a internet quanto o fax; entretanto, não pôde instalar o ponto adicional nem trocar o equipamento defeituoso.

Liguei novamente para solicitar os serviçoes pendentes e após levar uns bons quinze minutos tentando fazer a despreparada atendente entender o que eu queria, agendei para ontem os serviços faltantes.

Pois qual não foi minha surpresa ontem, quando estava preso na loucura do trânsito antes do jogo do Brasil, receber uma ligação de casa. Era o instalador da Net afirmando que a ordem de serviço que ele recebera era a de tirar o aparelho com defeito e colocar este terceiro ponto. Obviamente, a atendente não entendeu que eram duas coisas diferentes. De dentro do carro telefonei para a Net e, após cinco tentativas - fiquei com a impressão de que desligavam de propósito o telefone - consegui falar com a Central.

Após uma longa conversa onde a profissional (?) não conseguia entender a minha demanda, veio o veredito: eu tinha de mandar embora o instalador e agendar outra data. Ainda ponderei que ele já estava com o equipamento em minha casa e era somente fazer a instalação. A resposta veio implacável: "o sistema não permite". Tive de agendar outra data - segunda feira que vem ! - e o mesmo decoder será instalado. Kafkiano. E isso comigo preso no trânsito, dentro do carro...

Ainda fui informado de que somente poderei agendar a troca do decoder defeituoso após a instalação deste terceiro. Inacreditável.

Sem dúvida alguma, este tipo de atendimento e a falta de vontade de resolver o problema do cliente são reflexo do virtual monopólio de que a empresa detém no Rio. Como o consumidor não tem para onde correr, fazem dele gato e sapato. Outro ponto a se lamentar é a primazia da burocracia e dos sistemas de informática sobre o ser humano, gerando situações absurdas como esta que estou vivendo.

Tenho de ressaltar também a total falta de preparo do atendimento ao consumidor da empresa, com funcionários que tem dificuldade inclusive de compreender em frases curtas a necessidade do cliente. Precisa-se explicar três, quatro vezes a mesma situação - para uma resolução inadequada do problema, o que me leva a pensar que ou não tiveram nenhum tipo de treinamento ou são verdadeiros "analfabetos funcionais". Absolutamente lamentável. Reflexo da terceirização e da busca insana por menores custos de operação.

Esta odisséia ainda não acabou. Aguardemos os próximos capítulos.

Skavurska ? Só no comercial...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Arbitragem, televisão, profissionalização e política



Bom, o assunto do dia são os inacreditáveis erros de arbitragem ocorridos ontem nos dois jogos da Copa do Mundo.

Como já escrevi aqui, tenho visto muito pouco da Copa do Mundo. Quase nada ao vivo, alguma coisa em VT, muitos "melhores momentos". Estava fazendo compras no supermercado quando começaram a pulular as mensagens no meu Twitter dando conta do erro que vitimou a Inglaterra. Depois, vi ao vivo o jogo da Argentina e na hora apontei o impedimento na jogada do primeiro gol. Inclusive Tevez olha duas vezes para o bandeirinha antes de sair para comemorar.

No final das contas os erros grotescos acabaram ofuscando as boas atuações de Alemanha e Argentina. E chamam a atenção para um debate que há muito vem sendo travado, que é o da arbitragem. Debate este que não se restringe apenas ao uso da tecnologia, mas a questões como a profissionalização destes atores do espetáculo e toda a política que envolve escalas e jogos de poder.

O primeiro ponto que temos de abordar é a adoção da tecnologia. Ontem ficou claro que os jogadores e o técnico mexicanos viram o replay do gol no telão, partindo para protestar com o bandeirinha. O bandeira parece que também viu, mas o juiz optou por consagrar a injustiça e seguir a regra.

Parece claro que algum tipo de auxílio eletrônico precisa ser adotado, em especial nas grandes competições. Nem falo daqueles erros que somente podem ser vistos com vários replays e várias câmeras - lembro aos meus 66 leitores que o árbitro não tem este recurso, tem de decidir na hora - mas de equívocos grotescos como os vistos ontem em duas oportunidades. Aproveito para colocar nesta conta o segundo gol brasileiro contra a Costa do Marfim, também absurdamente validado.

Os críticos se utilizam de dois argumentos para descartar o uso da televisão: primeiro que "a graça do esporte está na polêmica" e segundo que "nem todos os campeonatos podem adotar este tipo de recurso por questão econômica".

Ambos são falaciosos. A graça do futebol está no drible, no gol, no ataque, na bela jogada, nos vencedores e derrotados. Não em campeonatos decididos em erros de arbitragem, decisões absurdas privilegiando esta ou aquela equipe ou mesmo eventos relacionados a subornos (o famoso "está na gaveta") ou coisas do gênero. A outra questão pode ser resolvida com uma limitação de campeonatos ou jogos onde tal recurso seria utilizado.

Algo do tipo "as competições internacionais e as primeiras divisões dos países mais bem colocados no ranking da Fifa utilizarão este recurso", ou parecido. Penso que, para se evitar paralisações muito prolongadas - a televisão é um ator importante neste processo - pode-se adotar algo como o feito em esportes norte-americanos: cada equipe teria direito a um pedido de "vistas" nas imagens por tempo de jogo. Até para se evitar o uso do recurso para se "catimbar" uma partida. Já se resolveriam 95% dos problemas causados por falhas grotescas de árbitros.

Outro ponto é a profissionalização dos árbitros. Hoje, tirando a "elite da elite" os juízes precisam ter a sua profissão fora do futebol. Em um esporte onde cada vez mais o condicionamento físico se faz parte primordial do jogo, onde se corre dez, doze, catorze quilômetros em noventa minutos aqueles que tem o poder de vida e morte sobre as equipes se preparam apenas nas horas vagas.

Evidentemente, vemos um abismo físico entre jogadores e árbitros, e muitas decisões equivocadas podem ser creditadas a esta diferença de preparo: não somente por não chegar a tempo para os lances quanto à própria exaustão física. Há a necessidade de se transformar em profissão a carreira arbitral, com um programa de condicionamento físico e uma espécie de "plano de carreira" para os mesmos. Obviamente, as federações são contra pois isto implica em custos e diminui o poder dos dirigentes sobre os juízes. Entretanto, quando vemos a CBF nadando em dinheiro do jeito em que está fica difícil aceitar este argumento.

Terceiro, e não menos importante, é a questão da política. Muitas vezes vemos apitando Copas do Mundo não os melhores árbitros de cada país, mas aqueles mais bem relacionados com as federações nacionais ou que sabem jogar o jogo da política interna. Não podemos nos esquecer que pelo menos na América do Sul as Comissões de Arbitragem das federações são claramente subordinadas à direção das mesmas. Não podemos fechar os olhos para o fato de que sempre há equipes mais bem relacionadas com as entidades diretoras ou movimentos em campeonatos que sejam mais adequados aos detentores do poder discricionário. E a arbitragem é um elemento importante neste processo. Deixo claro que não me refiro a subornos, "roubos" ou coisas do gênero, apenas relações de poder. O clássico "quem pode mais chora menos".

Os leitores podem ter um exemplo disto que falo quando vemos o argentino Héctor Baldassi - de triste lembrança para torcedores de Flamengo, Fluminense e Santos, entre outros - e o brasileiro Carlos Eugênio Simon - detestado por praticamente todas as maiores torcidas brasileiras por falhas inacreditáveis - apitando a Copa do Mundo. Parece claro que não estão lá por suas qualidades no apito, porque há melhores, então a única explicação que podemos encontrar é a sua rede de relacionamentos formada dentro das federações nacionais.

Eu tenho um colega que é bandeira em competições nacionais brasileiras. Ele diz abertamente que, "se não fizer o jogo da Federação", não entra na escala de árbitros para o sorteio que define os trios de arbitragem para as partidas das competições brasileiras. Escala esta que é feita pela Comissão de Arbitragem, órgão que não é independente da Diretoria da CBF - portanto, não está imune a pressões.

Querem um exemplo? Desde a eleição do Clube dos 13, onde o Corinthians articulou junto com a CBF a candidatura de Kleber Leite as arbitragens do clube paulista passaram a ser mais "simpáticas" - inclusive com alguns erros graves a favor da equipe paulista nesta primeira "perna" de Brasileirão.

Não é suborno, não é determinação, é simplesmente não desagradar aos poderosos - e que podem colocar o árbitro na "geladeira", sem apitar. Na dúvida, acaba marcando sempre a favor do time mais poderoso. Até porque o valor recebido por partida pelo trio não é irrisório - principalmente na Primeira Divisão e em competições internacionais - e se torna um importante complemento de renda para os juízes. Hoje a carreira de um árbitro toda depende das decisões tomadas pelos mandatários das entidades organizadoras, independente de suas qualidades ao trilar o apito.

Finalizando, o uso da tecnologia, especialmente televisiva, a profissionalização da arbitragem e a existência de Comissões de Arbitragem independentes das entidades organizadoras do esporte são medidas que certamente melhorarão o nível de arbitragem e evitarão erros grotescos como os vistos ontem.



domingo, 27 de junho de 2010

A Vulnerabilidade da Urna Eletrônica - Parte I


O Ouro de Tolo apresenta a partir de hoje uma série especial. Assinada pelo analista de sistemas com mais de quinze anos de experiência Bruno Nascimento, meu amigo há duas décadas, vai mostrar que a urna eletrônica, pilar do nosso sistema de votação eletrônica, possui vulnerabilidades que podem ser exploradas por entidades políticas desonestas.

Serão quatro artigos, a serem publicados em dois domingos e duas quintas feiras. Recomendo atenção especial, pois é assunto muito sério e que tem influência direta em nossas vidas.

"Parte I – Microprocessadores e BIOS

Sou analista de sistemas e não sou especialista de segurança. Conversando com o Pedro ele se assustou com uma informação que passei, baseado no meu conhecimento da profissão e de desenvolvimento de sistemas. Eu disse que, com o contato interno correto, um estudante de 2º período da faculdade poderia efetuar uma fraude em uma urna eletrônica.

Como assim? Nosso processo eleitoral não é 100% seguro? Eu diria entre 95 a 99%. Só que em uma eleição muito disputada, este percentual poderia alterar a decisão final. Como a explicação envolve muito de explicação sobre computadores, códigos fonte, do processo de desenvolvimento de sistemas e do próprio processo eleitoral, a idéia aqui é apresentar um pouco de conhecimento de informática e de situações passíveis de exploração, com ou sem controle do processo eleitoral. A análise do processo das urnas eletrônicas, feita pela Unicamp em 2002, é um documento público e disponível no site do TSE em http://www.tse.gov.br/internet/eleicoes/relatorio_unicamp.htm. Deixemos claro que os próximos textos referem-se a opiniões minhas e que colocarei o conhecimento necessário para embasá-las. Cada um é responsável por sua interpretação e seus questionamentos. Como disse, não sou especialista em segurança, muito menos dono da verdade.

A urna eletrônica, segundo o relatório da Unicamp, “possui uma estrutura similar à de um computador IBM-PC”. O que seria uma estrutura similar a de um IBM-PC? Seria o que chamamos de máquina Von-Neumann. As principais características de uma máquina Von-Neumann são as seguintes:

·         A existência de 3 subsistemas: a CPU (Central Process Unit, ou Unidade Central de Processamento), a Memória Principal e o Sistema de Entrada e Saída (E/S ou I/O, de Input e Output).
·         A CPU se divide em 3 blocos principais: a Unidade de Controle, a Unidade Lógico-Aritmética (ALU – Arithmetical Logical Unit)  e Registradores, incluindo aí um registrador da posição da última instrução executada (PC – Program Counter).
·         O programa é armazenado na memória principal.
·         A execução de instruções pelo computador é seqüencial, uma após a outra.
·         E há um único caminho entre a memória principal e a Unidade de Controle
·         A execução de comandos na máquina é comandada pelos ciclos de máquina, onde se busca a próxima instrução de máquina (através do que está registrado no PC – Program Counter) e a execução da mesma através da Unidade de Controle e da ALU que realiza as operações matemáticas de somar, subtrair, multiplicar e dividir, além de realizar as operações de ponto-flutuante, para os números fracionários.

Computadores, apesar de executar várias operações que não conseguiríamos executar tão rapidamente, são máquinas burras.  A CPU é o que chamamos  ao microprocessador, o coração da máquina. Então quando falamos de Pentium, Athlon, Core Duo, Core Quad, falamos do microprocessador. Os microprocessadores além do acesso à memória principal, chamada também de memória RAM (Random Acesss Memory – Memória de Acesso Aleatório) possui também uma memória denominada ROM (Read Only Memory). Porquê o computador precisa destes 2 tipos de memória? Porque a memória RAM, uma vez que o computador é desligado perde todo seu conteúdo. Então para executar as primeiras instruções e verificar todo o computador é necessário ter um conjunto de instruções básicas que serão o primeiro conjunto de instruções a serem executadas pelo computador ao ser ligado. Estas instruções armazenadas em memória ROM são no IBM-PC chamadas de BIOS (Basic Input and Output System – Sistema Básico de Entrada e Saída).

Aqui entram os primeiros pontos que poderiam ser aproveitados. E se alguém substituísse a BIOS existente nas urnas por uma outra que permitisse manipular resultados? É uma situação em que a própria verificação da urna verificaria e capturaria a fraude facilmente. A BIOS já vem de fábrica com a programação destas prontas e têm uma codificação prevista controlada. Assim alterações nesta seriam identificáveis pouco após o momento em que o computador fosse ligado. Neste ponto, a mudança seria detectada. Até aqui, dificilmente haveria fraude sem conhecimento de ninguém, pois as instruções aqui necessárias são tão básicas para o funcionamento do computador que a fraude ficaria clara em quaisquer testes de verificação e mesmo nos testes de programa. Só se esta viesse de fábrica ruim, mas normalmente tal situação seria detectada com antecedência o suficiente para que não houvesse impacto na eleição.

Seguiremos na próxima parte explicando mais componentes de programa que estariam envolvidos no funcionamento de um computador, o Sistema Operacional e os programas executáveis."

"Portela na Avenida" - por Paulo César Pinheiro



Como eu havia prometido no post anterior com a resenha do livro, transcrevo aqui o relato do autor Paulo César Pinheiro sobre a composição "Portela na Avenida", um dos seus maiores sucessos e que faz vibrar o nosso coração portelense a cada vez que é entoado.

No vídeo acima, gravado em 1997, há dois erros. Os leitores saberiam me apontar quais são ?

Vamos ao texto, que é das páginas 114 e 115 do livro:

"Um dia, Clara me fez uma encomenda. Queria gravar um samba que falasse sobre a Portela, sua escola do coração.

Era de praxe, os compositores homenagearem sua escola do coração, amiúde. Para serem aceitos na ala tinham que exaltá-la ao menos uma vez. Cantavam na quadra formalizando sua entrada. Todos já haviam feito o seu, da Velha Guarda aos mais jovens. Ela já havia solicitado a todos e nenhum samba novo se apresentava. Argumentei que depois de "Foi Um Rio Que Passou em minha Vida", de Paulinho da Viola, realmente era uma tarefa de difícil execução. A melodia era magistral e, praticamente, definitivos seus versos. ninguém se atrevia a arriscar. Fora lançado em 1970. Dez anos, portanto, sem outro nos mesmos moldes. E eu era verde e rosa, criado em São Cristóvão, com parte da infância entre o Pedregulho e o pé do morro de Mangueira e a adolescência na subida do Paraíso do Tuiuti. Ela insistiu, achando que eu não fugiria do desafio. E o Mauro [Duarte], também azul e branco, seria o parceiro ideal para a empreitada. Como a uma mulher não se nega um pedido de coração, topei a parada.

Conversei com o Bolacha e ele se empolgou. Dias depois me trouxe uma idéia musical muito boa. Somente um pedaço, mas já dava pra pensar em algo.Aí é que eu vi onde me metera. Tinha de ser à altura do anterior famoso. Sendo menor, seria apenas mais um e não valeria a pena. O nó estava dado e meu trabalho era desfazê-lo. O tempo foi passando, e nada do que vinha me agradava. Rasguei muito papel, rabisquei muita bobagem e não conseguia o estalo. Andava de um lado pro outro da casa, ia na janela, na varanda, no portão, e a luz da inspiração não acendia. Prestes a desistir, resoilvi deixar por conta dos deuses da Música o desfecho do encargo a que me atribuí. Não sendo dessa feita, tento no ano seguinte. E relaxei o espírito combalido.

Na outra manhã fui tomar uma brisa na sacada. De lá, perdido em divagações, imerso em meus pensamentos pus-me a observar o cantinho de Clara. Era uma mesa de fazenda antiga encostada na parede da sala. Sobre ela uma toalha de renda branca e um grande oratório aberto. Em torno dele as imagens dos orixás espalhados e, dentro, os santos católicos. No centro, em destaque, uma escultura em madeira de Nossa Senhora da Aparecida, a Padroeira do Brasil. Encimando a pequena igrejinha, pregada na parede, cinzelada em bronze fino, a pomba do Espírito Santo de asas abertas. Um arrepio me percorreu o corpo. Os olhos cintilaram. A mente abriu. Estava ali, na minha cara, o que eu buscava tanto. Era só misturar o sagrado e o profano como faz o povo intuitivamente, em suas manifestações folclóricas. O manto azul e branco da  santa era a massa compacta dos integrantes da Escola entrando na avenida. A procissão do samba num cântico de fé pra festa do Divino. A águia, símbolo maior, virando a pomba do Espírito Santo num andor, seguindo pela passarela do templo do carnaval. Os fiéis da missa, na mais grandiosa festa do mundo, em direção ao altar da praça da apoteose.

Confesso que, enquanto escrevia, os olhos marejavam. A emoção me pegou de jeito. Consegui atender o desejo de Clara, destrançando o nó do óbvio. O samba hoje é, para meu orgulho, o que esquenta a bateria e a garganta do puxador antes da entrada da Portela na avenida."

Obviamente, a letra, para completar o texto:

(Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)

"Portela
Eu nunca vi coisa mais bela
Quando ela pisa a passarela
E vai entrando na avenida
Parece a maravilha de aquarela que surgiu
O manto azul da padroeira do Brasil
Nossa Senhora Aparecida
Que vai se arrastando
E o povo na rua cantando
É feito uma reza, um ritual
É a procissão do samba
Abençoando
A festa do divino carnaval

Portela
É a deusa do samba,
O passado revela
E tem a Velha Guarda como sentinela
E é por isso que eu ouço essa voz que me chama
Portela
Sobre a tua bandeira, esse divino manto
Tua águia altaneira é o Espírito Santo
No templo do samba

As pastoras e os pastores
Vem chegando da cidade e da favela
Para defender as tuas cores
Como fiéis na santa missa da capela
Salve o samba, salve a santa, salve ela
Salve o manto azul e branco da Portela
Desfilando triunfal sobre o altar do carnaval"

sábado, 26 de junho de 2010

Achados e Perdidos

Tímida forma, razão dominante
Viagem ao centro da Terra
a encontrar o coração lancinante
a lamentar pois tudo erra.
Escondendo-se em tartaruga carapaça
Escondendo-se em armado concreto
Razão ao sentimento ameaça
resulta em árido deserto

Justiça é palavra distante
Pulsante músculo não se manifesta
brusco equilíbrio nota dissonante
encerrada está precoce festa.
Prazer permitido é funeral
comemora da emoção a certa morte
frieza dominante sempre igual
culpa sempre recai sobre má-sorte.

Remar contra a maré é desistência
conformismo coração se fecha em copas
golpeia a si mesmo com carência.
Ondas barreiras formam cotas
revestindo o coração malha de aço
forte e frio instrumento de defesa
mente absorta em profundo cansaço
ilusão derrotada eterna certeza.

Esperança perdida realidade cruenta
Sonhar não vale a pena engendrar
situações onde o libertar tenta
razão impõe o devido lugar.
Sonhar não vale a pena fazer
Ilusão não vale a pena sentir
Alegria inexistir é maldizer
conclusão é emoção extinguir.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Final de Semana - "Um Ser de Luz (Sabiá)"



Como a resenha literária de hoje foi musical, nada melhor que um exemplar da obra de Paulo César Pinheiro para abrirmos o nosso final de semana.

Escolhi aquela que é uma das músicas mais bonitas do compositor e, como ele próprio diz, uma das mais difíceis para ele: "Um Ser de Luz" (Sabiá), composta em homenagem à esposa Clara Nunes em parceria com João Nogueira e Mauro Duarte.

No livro Paulo César conta que achou um absurdo quando os parceiros vieram a ele com a idéia de um "samba de adeus" para Clara Nunes. Já tinham prontas, inclusive, esboços de letra e o início da melodia. Entretanto, Nogueira o convenceu com um argumento muito hábil: que se ele (Paulo) fizesse o samba, ninguém mais se atreveria a escrever outro. Além disso, se ele não fizesse iriam aparecer canções oportunistas e de baixa qualidade.

Foi exatamente o que ocorreu. Depois da parceria, jamais outro compositor se atreveu a escrever um samba em homenagem à Clara Nunes. "Um Ser de Luz" - que tem este título como referência a uma crônica de Artur da Távola escrita durante o período de agonia da cantora no hospital - se tornou a definitiva canção de adeus, como previra João Nogueira.

A música foi o "esquenta" da Portela para o carnaval seguinte - inclusive eu tenho em algum lugar esta gravação. O vídeo que disponibilizo acima é de um dos autores, João Nogueira. Paulo César Pinheiro escreve que jamais conseguiu cantar a música.

Há uns anos atrás, eu era um dos organizadores de um evento para membros pioneiros da Messiânica e convidamos um grande compositor, multicampeão em sua Vila Isabel, messiânico como eu e com quem tenho algum grau de amizade para fazer o fechamento do evento com uma "canja". Eu estava circulando pelo local do evento verificando algumas imprevisibilidades que haviam surgido quando ouço pelo sistema de som o anúncio:

" - Quero cantar uma música de que gosto muito e ao mesmo tempo fazer uma homenagem a um amigo, portelense, que ajudou na organização deste evento: Um ser de luz, ou Sabiá."

E cantou. Fiquei muito tocado com a lembrança.

Vamos à letra:


"Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar

Sua voz então a se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava espantava a dor
Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela se foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas
E a gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de vê-la, sabiá

Sabiá
Que falta faz sua alegria
Sem você, meu canto agora é só
Melancolia
Canta meu sabiá,
Voa meu sabiá,
Adeus meu sabiá...
Até um dia..."

O que o livro não conta é que há uma outra composição da dupla - sem Mauro Duarte - feita em 1975 para homenagear Clara Nunes. Chama-se "Mineira" e abaixo disponibilizo a letra e o vídeo, também na interpretação do cantor e compositor portelense. Há uma outra versão desta canção bastante interessante no cd "Casa de Samba 1", com o próprio Nogueira e Alcione, mas esta não encontrei nenhum vídeo que pudesse incorporar no post.

"Clara,
abre o pano do passado,
tira a preta do cerrado
Pôe rei congo no congá
Anda canta um samba verdadeiro,
faz o que mandou o mineiro
Ô mineira

Samba que samba no bole que bole
Oi morena do balaio mole se embala do som dos tantãs
Quebra no balacochê do cavaco e rebola no balacubaco
Se embola dos balagandãs
Mexe no meio que eu sambo do lado vem naquele bamboleado
Que eu também sou bam, bam, bam

Vai cai no samba cai e o samba vai até de manhã
Vai cai no samba cai e o samba vai até de manhã

Ô saravá mineira guerreira que é filha de Ogum com Iansã"



(Foto: Globo.com. O curioso é que um dos ritmistas que estão na foto tocaria junto comigo na bateria da Portela em 2004, o Timbira)

Resenha Literária - "Paulo César Pinheiro - Histórias das Minhas Canções"

Sexta feira, jogo da seleção brasileira daqui a pouco, e mais uma resenha literária no Ouro de Tolo.

O livro de hoje é "mezzo" curitibano, "mezzo" carioca. Explico: o livro foi comprado no aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, e me chamou tanto a atenção que parei pelo meio a leitura que eu vinha fazendo e comecei imediatamente a ler. Adiantei-o bastante no vôo de volta para o Rio e terminei de ler já na Cidade Maravilhosa.

Curioso é que eu nunca inicio uma leitura sem terminar a anterior. Mas este me prendeu e iniciei a leitura, que se revelou deliciosa.

Este livro é o segundo da série sobre histórias de canções que a editora Leya, portuguesa, está lançando no Brasil. O primeiro foi Chico Buarque de Holanda, já resenhado aqui mesmo.

Paulo César Pinheiro é um dos maiores compositores vivos da história não somente da música popular brasileira como do samba carioca. Muito precocemente iniciou-se na vida musical, sendo parceiro do grande Baden Powell aos incríveis dezesseis anos de idade. Foi parceiro de compositores como João Nogueira, Mauro Duarte - o saudoso "Bolacha" - Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros bambas da música popular brasileira.

Como se não bastasse, foi casado com Clara Nunes e, após a morte da grande cantora, com Luciana Rabello, irmã do grande violonista Rafael Rabello.

É autor de clássicos como "Lapinha", "Vou Deitar e Rolar (Quaraquaqua)", "Espelho", "Canto das Três Raças", "Portela na Avenida", "To Voltando" e "Um Ser de Luz", entre outros.

Ao contrário do livro sobre Chico Buarque, é o próprio Paulo César Pinheiro o autor do livro. Em uma prosa deliciosa e com estilo fluente, ele vai desfiando com sua memória prodigiosa as circunstâncias de criação destes clássicos da música brasileira. Bem como do nascimento de parcerias que se tornariam imortais na música brasileira.

Um bom exemplo é a parceria com o grande João Nogueira. Foram apresentados pela irmã de João, que era amiga da irmã de Baden Powell, em uma feijoada no Clube Mackenzie, no bairro do Méier. Foram amigos até o início de 1972, quando nasceu a primeira parceria, a imortal "Espelho" - em homenagem ao pai de João Nogueira.

São inúmeras histórias, cada uma melhor que a outra. Outro ponto que chama a atenção é a ligação do autor com a religiosidade e as várias passagens em que músicas tiveram este tipo de influência. Mesmo ele se dizendo cético.

Para os portelenses o livro também traz algumas novidades bastante interessantes. Não somente a história da composição do clássico "Portela na Avenida" - que reproduzirei na íntegra no próximo domingo - como algumas historinhas de bastidores da escola e do "racha" que gerou a Tradição. Além da revelação de que "Canto das Três Raças" foi sugerido a Carlinhos Maracanã, presidente então da azul e branco, como samba-enredo da escola. Mas...

"Propus ao Carlinhos Maracanã esse tema pra Portela. Só que escola de samba é outro papo. É problema. É guerra. Não se chega sugerindo um samba pronto. Tem todo um processo complicado que envolve ego, grana, disputa, prestígio interno. Na minha ingenuidade imaginei que magnífico desfile poderia ser pra azul e branco. Sonho, apenas. Desisti logo. Até hoje, porém, ainda visualizo este cortejo na Passarela do Samba." (pp. 112)

Outra história bastante interessante é a de "Um ser de luz", feita em homenagem a Clara Nunes. Mas esta ficará para mais tarde, pois será a música de hoje de nossa seção "Final de Semana".

Em outro capítulo, traz uma revelação que talvez pouca gente saiba: que "To Voltando", que se tornaria o hino da Anistia e da volta dos exilados políticos não foi feita com esta finalidade. Na verdade era uma canção que saudava a volta de um amigo após longa temporada de shows. Entretanto, como ele mesmo diz, "as músicas ganham vida própria".

Complementando, desfaz uma dúvida que eu sempre tive: o porquê do título "Agora é Portela 74" em uma das canções, porque a letra dela não tem nada a ver com a águia de Madureira. Segundo o livro o título foi unica e exclusivamente para driblar a Censura vigente à época - a canção já havia sido vetada anteriormente.

Resumindo, é leitura indispensável para quem gosta de música. Na Livraria da Travessa, custa R$ 36.

Para fechar, vamos ver o próprio autor entoando dois clássicos de sua lavra, "Cicatrizes" e "Poder da Criação".

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Uma análise dos dados da POF

O IBGE divulgou ontem os dados da POF - Pesquisa de Orçamento Familiar. Tal pesquisa, feita pela terceira vez, mede o dispêndio das famílias brasileiras, a evolução de sua renda e consequente concentração. 

Além disso, serve para definir os pesos a serem utlizados na aferição do IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Ampliado - principal índice de inflação do período.

Esta foi realizada entre 2008/09, enquanto que a anterior ocorreu entre 2002/03.


O primeiro dado que chama a atenção é a redução do gasto das famílias com a alimentação, como se vê no gráfico acima. Ao contrário das manchetes capciosas dos principais portais de internet ontem, isto é um sinal de progresso e eu explico porquê.

Despesas com alimentação são o que qualquer estudante do segundo período de Economia chamam de " bens inferiores": à medida em que se eleva a renda o total das despesas com este tipo de bens cai na proporção da renda total. Isto é mais ou menos lógico: como os alimentos são a despesa mais importante e suas necessidades em termos de quantidades não mudam muito em relação à renda familiar, quando a renda cresce há uma maior disponibilidade de recursos para o atendimento a outras necessidades que por exiguidade de renda são atendidas precariamente.

Obviamente, há um "efeito substituição" de produtos de menor qualidade por outros mais nobres, não somente em termos de marcas como a troca de cereais por proteínas; mas este efeito é menor que o "efeito renda" verificado. Mas pode ser observado levando-se em conta que o consumo de carnes e peixes (proteínas) subiu de 18,3% do total dispendido em alimentos para 21,9%. Por outro lado, o consumo de cereais, leguminosas e oleaginosas caiu de 10,4% para 8,0%.

Cereais e proteínas possuem uma espécie de "efeito substituição": quando a renda de um indivíduo aumenta ele muda de padrão alimentar: consome menos cereais e mais proteínas. Inclusive este foi o tema de minha monografia final de curso na faculdade de Economia, padrões alimentares. Se a renda aumenta mais ele diminui o consumo destes dois tipos de produtos e aumenta o de frutas, legumes e verduras.

Chama a atenção, especialmente, a redução da despesa total em alimentação nos habitantes do campo. Sinal de que a evolução de renda para os habitantes da zona rural foi maior vis a vis aos habitantes citadinos.


O quadro acima (clique nele para ampliar) mostra bem isso: ele compara a matriz de despesas entre as famílias com renda total abaixo de R$ 830 e as que possuem acima de R$ 10.375 de renda familiar. No primeiro caso a despesa com alimentação representa 27,8% da despesa familiar, contra apenas 8,5% no segundo grupo. O ítem "Habitação" segue a mesma tendência, com 37,2% para o primeiro grupo e 22,8% no segundo.

Outra curiosidade são as despesas com saúde: embora parecidas em termos percentuais, no grupo de menor renda o maior dispêndio é com a compra de remédios; enquanto para a outra ponta do especto a despesa maior neste ítem refere-se a planos de saúde. Pode-se a grosso modo dizer que um grupo remedia, o outro previne.

A rubrica "Transportes" possui comportamento contrário, devido à aquisição de veículos pela faixa de maior renda. Um dado preocupante é que o investimento em educação é muito maior, mesmo percentualmente, no extrato de maior disponibilidade. Isto significa, como veremos abaixo, que é um fator de análise que pode ampliar a concentração de renda.


A diferença entre a despesa média de famílias onde a pessoa de maior escolaridade possui um ano de estudo e as que possuem onze anos é de 207%. Entretanto, tal dado melhorou: em 2002/03 era de cerca de 400%. Isto reflete a política de aumento real do salário mínimo empreendida no Governo Lula, por um lado - sobre a qual escrevi artigo anteriormente - e do outro mostra a expansão do emprego em setores intensivos em mão de obra, mas de salários médios mais baixos - como a construção civil.

Também se reflete o efeito indutor de programas assistenciais como o Bolsa Família, que revitalizam a economia de cidades menores. O valor do programa gera um pequeno comércio, uma pequena indústria, que emprega aquele trabalhador que se encontra fora do mercado e o retira do programa assistencial.


Ressalte-se, também, que a diferença de renda entre as pessoas que se declararam brancas e as auto-declaradas parda e negra é de 89% e 79%. É uma bom indicador para aqueles que criticam as cotas nas universidades, pois como vimos acima existe uma correlação clara entre "anos de estudo" e "aumento de renda". Obviamente, algum tipo de cota que também contemplasse níveis de renda mais baixa seria desejável tendo em vista os números apresentados.

Ainda escreverei um segundo texto sobre a pesquisa, porque são inúmeros dados que podem ser cruzados e trazer conclusões bastante interessantes. Mas podemos concluir que entre as duas realizações da POF o país teve aumento de renda, redução da concentração e melhora no padrão de vida. Isto é altamente salutar e explica alguns fenômenos a que temos assistido nos últimos tempos - inclusive políticos.

(Gráficos: IBGE)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Resenha Literária - "Falsa Economia"

Mais uma resenha, mais um livro. Este comecei aqui no Rio, a leitura se arrastou e terminei na capital paranaense.

"Falsa Economia", do jornalista econômico Alan Beattie (Financial Times) segue a trilha de livros como a série "Freaknomics" e, no caso brasileiro, "Sob a Lupa do Economista": análises econômicas de conjunturas não tão óbvias assim.

Neste caso específico, a idéia do autor foi buscar dentro da Economia visões alternativas - e francamente liberais, eu acrescentaria - de episódios históricos.

São nove capítulos.

No primeiro o autor faz uma comparação histórica entre Argentina e Estados Unidos. Grosso modo, a tese do autor é que os EUA se tornaram uma nação de sucesso por se industrializarem, enquanto a Argentina  fracassou porque teria preferido conceder poder político a grandes proprietários de terras. Também pela quantidade de dívida - algo que o autor alerta que pode ocorrer com os americanos nos dias de hoje - e pela política de substituição de importações - tese da qual discordo veementemente para o último caso.

O segundo trata das cidades, de seu poder político e da conveniência ou não de dar poder político a capitais de Estados nacionais. No terceiro, um conceito curioso: a "importação de água" através da importação de alimentos. O conceito é de que ao importar alimentos importamos a água, bem escasso, usada na produção dos mesmos, deixando os recursos internos para outras utilizações.

O capítulo quatro defende uma tese polêmica: a de que possuir recursos como o petróleo ou os diamantes é ruim para uma economia nacional. O argumento central é de que não há diversificação econômica nem desenvolvimento social. Mais uma vez, divirjo frontalmente desta tese, de um reducionismo atroz.

No cinco, faz-se uma análise da religião aplicada á economia, buscando entender porque o islamismo não poderia tornar ricas as nações. Felizmente, a conclusão é de que não há relação entre um fator e outro, pelo menos não direta. Entretanto, achei a análise histórica desta parte bastante superficial, para dizer o menos.

Sexto: analisa políticas de desenvolvimento e a influência do combate ao tráfico ou à pobreza nas relações de comércio entre os países. No seguinte analisa a importância de uma boa rede de infra-estrutura e logística para o desenvolvimento de um país - explicando a partir daí boa parte da pobreza africana.

O penúltimo capítulo traz mais uma tese pra lá de polêmica: que para um país é melhor ter uma corrupção moderada no governo, desde que se saiba a quem se paga a propina e que as coisas funcionem, do que um governo honesto onde o ambiente econômico tenha morosidade nas decisões. Cita os casos da cleptocrata Indonésia de Suharto e o governo russo atual.

A tese é de que se há um controle único da corrupção o dono de tal poder vai se interessar em manter as coisas em ordem - o que não ocorreria se a corrupção fosse descentralizada, baseada no saque da maior quantidade de recursos no menor tempo possível. Particularmente, acho imoral, mas...

Encerrando o livro, a tese de que os ursos pandas deveriam se deixar extinguir por serem uma espécie "fadada ao fracasso" e um estudo de China, Índia e Rússia.

Auxiliado por uma tradução para o dizer o menos confusa, é leitura difícil e que não recomendaria a não-iniciados. Também me incomodou um pouco o viés excessivamente liberal do autor. Para economistas como eu pode valer a pena, mas há leituras melhores sobre o tema.

História & Outros Assuntos: "Ser diferente não é apenas normal. É saudável."

Mais uma quarta feira, mais uma edição da coluna "História & Outros Assuntos", do historiador e publicitário Fabrício Gomes. O tema de hoje são as diferenças.

Confesso que discordo pontualmente de alguns elementos do texto, mas é um bom panorama sobre o assunto.

Aproveito para esclarecer uma dúvida: "Não se vive sem bandeira" foi enredo da Acadêmicos de Santa Cruz em 1997, no Grupo Especial.

Vamos ao texto:

"Aproxima-se mais uma eleição no Brasil. Em outubro estaremos escolhendo nossos “representantes” que ocuparão cargos públicos e que “teoricamente” irão querer melhorar a vida da população, sob pontos-de-vistas pessoais e muitas vezes arraigados a ideologias específicas. Em meio a isso, acirram-se debates e disputas nas novas ferramentas tecnológicas, como o Twitter, por exemplo, onde, desde que ocorra uma saudável troca de idéias, sem cair para o lado pessoal, o debate é muito bem-vindo.

Não se vive sem bandeira. Se não me engano, isso já foi até enredo de escola de samba. Talvez estejamos diante de um quadro bastante pessimista nesse sentido. Atualmente, ideologia não existe mais, exceto em nichos políticos bastante restritos – e que justamente por permanecerem fiéis às bandeiras que escolheram, não obtêm sucesso nas urnas.

“Ideologia, eu quero uma pra viver”. Em fins da década de 1980, Cazuza já cantava o rock e nos passava a mensagem que seria a tônica do despertar da Era de Aquarius. No Brasil, praticamente nas duas décadas seguintes começamos a assistir um deplorável recrudescimento do casamento entre política e ideologia.

Não estou aqui defendendo essa ou aquela bandeira. Como historiador e leitor atento não somente de livros de História, mas também publicações de Ciências Políticas e Sociais, acredito que o Socialismo, que surgiu como teoria de organização econômica e posteriormente transcendeu para o campo da cultura, sociedade e política, foi uma excelente idéia, mas que infelizmente não soube lidar com a realidade do mundo contemporâneo. Por isso mesmo, dentro dessa própria teoria, distintos pensadores – entre os quais, intelectuais como Antonio Gramsci (do lado italiano) e até mesmo polêmicos (e revolucionários) historiadores como Eric Hobsbawm e Edward Palmer Thompson (fundadores da New Left britânica) – surpreendidos e incomodados com o socialismo aplicado por Joseph Stalin e reformistas do marxismo stricto sensu – não que Thompson e Hobsbawm, por exemplo, divergissem do marxismo primário, mas sim, idealizadores de novos conceitos aplicados à idéia original. E mesmo assim, aplicado ao novo cenário da pós-modernidade, o socialismo mostrou ser magnífico somente no âmbito das páginas literárias.

O que não quer dizer que, por outro lado, o capitalismo também seja interpretado como puramente perspicaz no cenário contemporâneo também. Se a idéia original foi boa, certamente precisaria de novas adequações. Infelizmente também não foi bem aplicado e o capitalismo selvagem predominou nas décadas de 1980/1990, trazendo de volta o liberalismo tão criticado em fins da década de 1920. Exemplos de explorações trabalhistas e dependência econômica de países (praticamente falidos) a companhias multinacionais (United Fruit, por exemplo, na America Central), são exemplos da luta selvagem e predatória, nada saudável para o crescimento e desenvolvimento de países terceiro-mundistas.

O surgimento do Estado de terceira via, personificado na ascensão de Tony Blair, em meados da década de 1990 – com o novo trabalhismo britânico, apresentando o modelo para o século XXI, segundo o princípio "trabalho para os que podem trabalhar" e "assistência para os que não podem trabalhar" – e também no novo socialismo francês, em contraposição a viciadas fórmulas conservadoras e ultra-direitistas (ex. Jean-Marie Le Pen, na própria França, e Silvio Berlusconi, na Itália) renovou ares não somente franceses, mas também trouxe um sentimento de resgate do Estado como condutor da sociedade. Um Estado, ao mesmo tempo, “árbitro” e “incentivador” de uma nova práxis para a sociedade, o Estado traduzido num neo-bismarckismo, em alusão ao modelo de Estado pensado por Otto Von Bismarck, na Alemanha (ver IANNI, Octávio. . “Neobismarckismo (Iseb)”. O ciclo da revolução burguesa no Brasil. Rio de. Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.).

Certamente que o debate sobre o modelo de posicionamento do Brasil, ante a esses paradigmas é condição sine qua non para a entrada do país no rol dos países mais desenvolvidos no mundo. Entretanto, vislumbro com certo pessimismo o atual cenário de práticas populistas aliadas a um assistencialismo de Estado, com vistas eleitoreiras. Muitos confundem esse modelo ao modelo britânico da terceira via, já citado nesse texto. Por sua vez, também discordo de interesses conservadores aliados a estrategemas visando o enriquecimento estrangeiro em detrimento do sucesso de nossa economia nacional.

O que me assusta é que atualmente no Brasil, não exista esse tipo de debate, principalmente nos meios acadêmicos e midiáticos. No Brasil, discute-se mais “Política” do que “economia”, “cultura” e “sociedade”. Plataformas, acordos, negociatas... partidos que se antes de ascenderem ao olimpo político atacavam o pragmatismo governamental, agora, situados no topo da cadeia governamental, defendem perversas práticas, com a explicação fajuta da “governabilidade”. E isso vem ao encontro do desaparecimento (ou desvalorização?) da ideologia. Se por um lado se ataca a continuidade do “carlismo”, nos rincões baianos, por outro, afaga-se o coronelismo renovado do clã que governa o Maranhão desde 1966.

O que certamente não exime de culpa as práticas políticas exercidas nos governos anteriores. Se há culpados, comprovadamente, que sejam punidos e trazidos à tona, emergindo para que a população aprenda a não repetir velhos erros do passado.

A população, que é em sua grande maioria alienada, passa ao largo de todo esse debate. À população interessa barriga cheia e televisão no quarto. Interessa a possibilidade do país sediar uma Copa do Mundo e Jogos Olímpicos num futuro não muito distante. Interessa pular carnaval todos os anos, ver mulher pelada e suada. Interessa esquecer da realidade, abdicada mesmo que momentaneamente, num sonho de carnaval. A existência desse traço característico, do brasileiro visto como homem cordial é inerente a este ou a alguns governos anteriores. Não, eles não são culpados pelo aparecimento deste brasileiro. São culpados sim, pela predominância deste modelo ultrapassado, que é vazio de cidadania e de consciência – política, econômica e social.

Em 18 de junho deste ano, morreu José Saramago, escritor português e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Infelizmente foi conhecido por grande parte da população brasileira no momento de sua morte. Muitos livros seus devem ter sido vendidos no momento de seu enterro. Outros serão vendidos ao longo da semana, até o obituário das revistas semanais lembrarem sua morte. Depois disso, será relegado novamente ao jazigo perpétuo do esquecimento brasileiro. Enquanto isso, será mais precioso ter uma TV de ultima geração em casa, o Playstation da moda, ao invés da consciência do investimento educacional a médio-longo prazo, visando formar futuros cidadãos. A promessa do voto subverte qualquer planejamento visando o desenvolvimento de capital intelectual.

Em meio a isso, infelizmente observamos uma certa irracionalidade daqueles que, na falta de argumentos e de respeito às opiniões alheias, preferem incorrer no caminho inverso da radicalidade: “se não concorda comigo, não presta”. “Se é contra meu pensamento, é errado”. Se falta ideologia, sobra intolerância.  E o resultado disso é a constatação pessimista de que, se hoje alguns ainda questionam e estão inconformados com o quadro de alienação em que vive o brasileiro, em algumas gerações será inexistente esse tipo de debate.

Afinal, “ser diferente” não é apenas normal. É saudável."

terça-feira, 22 de junho de 2010

Resenha Literária - "As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos"

Continuando a série de resenhas ainda curitibanas e em ritmo de Copa do Mundo, temos hoje o "irmão gêmeo" do livro analisado ontem.

"As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos", de autoria do jornalista esportivo Mauro Beting, elenca dentro de um critério todo particular as sete maiores seleções estrangeiras em copas do mundo.

Sua escolha foi por seleções que pudessem ter sido vistas pela televisão, tenham disputado Copas do Mundo, possuíssem craques - embora pelo menos em um dos casos isso é meio duvidoso - e times que ou foram campeões ou revolucionaram seu tempo.

Feito isso, chegam-se a sete seleções, uma representante de cada grande escola de futebol mundial: Hungria de 1954, Inglaterra de 1966, Holanda e Alemanha de 1974, Itália de 1982, Argentina de 1986 e a França de 1998.

Seus craques, com pequenos perfis no livro: Puskas, Bobby Charlton, Cruyff, Beckenbauer, Paolo Rossi (é...), Maradona e Zidane.

Cada uma das seleções é contextualizada historicamente, com a sua formação anterior à Copa, estrutura tática, variações e o destino após a Copa em que disputou. Além disso, um completo "jogo a jogo" para cada partida disputada pelas equipes, com narração dos principais lances e algumas histórias. Um trabalho de pesquisa sensacional.

Outro destaque do livro são as finas ironias que permeiam o livro, em especial as divertidíssimas descrições das pancadarias em alguns dos jogos citados. Cheguei a rolar de rir com algumas passagens, como estas que transcrevo abaixo - referentes ao Brasil e Holanda de 1974:

"Apesar do jogo histórico, o que se viu foram divididas histéricas, um festival de pancadas, tesouras, carrinhos e botinadas de corar qualquer um - menos o horroroso e experiente árbgitro alemão Kurt Tsechencher" (pp. 94)

"O Brasil começava batendo mais que uruguaios e argentinos. Juntos." (pp. 95)

"A Holanda aproveitou que o árbitro estava embananado e sem pulso e cartão para controlar os briguentos, e também baixou o nível e o pau. Para resumir a pancadaria: em 90 minutos, com a boa vontade que faltou aos litigantes, Van Hanegem merecia quatro vermelhos por jogo brusco, condenável pela Convenção de Genebra; Rivellino, duas expulsões; Suurbier, Cruyff, Rep, Valdomiro, Zé Maria e Marinho Chagas não poderiam reclamar se fossem ao chuveiro mais cedo." (pp. 96)

No fim das contas, o único expulso foi o zagueiro brasileiro Luis Pereira. Alguns dos lances descritos acima estão no vídeo abaixo, que também mostra toda a inteligência do time holandês. O curioso é que a dez dias da estréia não havia um time definido, e o lendário Rinuus Michels somente assumiu a seleção a poucos meses do início da competição.


Outro destaque do livro é a narração do célebre gol de mão de Maradona sobre a Inglaterra em 1986, onde todos que estavam naquela tarde do estádio Azteca viram - menos o árbitro. Também conta o quão importante foi à nação platina vencer aquele jogo - a Guerra das Malvinas ainda estava entalada na garganta.

Chama a atenção a Itália de 1982, que em três anos venceu apenas quatro jogos: os dois das quartas, a semifinal e a final daquela Copa...

Sem dúvida alguma, um livro completo. Ainda descortina e desvela segredos de duas revoluções táticas, a Hungria de 1954 - que inventou o aquecimento antes das partidas e, por isso, sempre marcava no início dos jogos - e a já citada seleção holandesa.

Também faz justiça às seleções alemã de 1974 e a inglesa de 1966, times não tão incensados por fatores exógenos - a Holanda em um caso e a arbitragem em outro.

Na Travessa, custa R$ 28. Excelente opção nestes dias de Copa do Mundo.

Samba de Terça - "Dom Quixote de La Mancha - O Cavaleiro dos Sonhos Impossíveis"



Nosso "Samba de Terça" de hoje volta a 2010 e a um samba que será lembrado aqui muito mais pela façanha que empreendeu e o simbolismo de sua vitória que propriamente pela qualidade do samba ou sua perenidade.

Falo da União da Ilha do Governador, escola do bairro onde moro e pela qual adquiri um carinho todo especial.

A escola havia retornado ao Grupo Especial, o Olimpo do Samba, após um longo e imerecido exílio na Segunda Divisão do samba carioca. Foram oito longos carnavais, onde em pelo menos quatro ocasiões a escola poderia perfeitamente ter vencido o desfile e retornado: 2003, 2005, 2006 e 2008. Somente em 2009 a escola havia alcançado o seu objetivo e voltado ao seu lugar.


Para o carnaval de 2010, a escola insulana se conscientizou de que somente com nomes de peso poderia lutar contra uma incômoda maldição: desde 1998 que uma escola abrindo o desfile de domingo não conseguia se manter no grupo.

Mais: de 2003 para cá a escola que vinha do Grupo de Acesso era mandada inapelavelmente de volta para o segundo grupo, inclusive com algumas injustiças gritantes - Santa Cruz em 2003 e o Império Serrano em 2009 são dois bons exemplos. Era uma missão quase impossível.

A escola contratou a campeoníssima carnavalesca Rosa Magalhães, que havia sido demitida da Imperatriz Leopoldinense após dezenove anos de serviços prestados à escola da Leopoldina. Esta propôs um enredo sobre a história de Dom Quixote de La Mancha, traçando um paralelo entre a inglória luta do personagem de  Cervantes com o desafio da tricolor insulana para se manter entre as grandes. Nas palavras da sinopse:



"Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia um fidalgo. Tinha em casa uma ama e uma sobrinha. Orçava em idade, o nosso fidalgo, pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, madrugador e amigo da caça... 

É pois de saber, que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio, que eram muitos, se dava a ler livros de cavalaria com tanto empenho e prazer, e era tanta paixão por essas histórias, que chegou a vender parte de suas terras para comprar livros de Cavalaria. O que mais admirava era os "Os quatro de Amadis de Gaula", primeiro livro de cavalaria que se imprimiu na Espanha. 

E o pobre cavaleiro foi perdendo o juízo. Sua imaginação foi tomada por tudo o que lia nos livros - feitiçarias, contendas, batalhas, desafios, amores e disparates inacreditáveis. Foi assim que acudiu-lhe a mais estranha idéia , que jamais ocorrera a outro louco nesse mundo. Pareceu-lhe conveniente fazer-se cavaleiro andante, em busca de aventuras e viver tudo o que havia lido sobre o assunto". 

Assim começa a saga de um cavaleiro que se tornou imortal. Escrito por Miguel de Cervantes, a princípio era uma crítica aos romances de cavalaria. Porém sua importância foi além dos limites que imaginara. É considerado o primeiro romance da era moderna e escolhido como o melhor livro já escrito até os dias de hoje. 

Voltando ao nosso herói, ele escolheu um nome, Quixote de la Mancha, batizou seu magro cavalo de Rocinante, tomou um vizinho, lavrador pobre e bastante simplório, como seu fiel escudeiro. E para cavaleiro andante nada mais lhe faltava a não ser uma dama. Foi então que se lembrou de uma aldeã por quem já fora enamorado, embora ela nunca tenha sabido, chamada Aldonza Lorenzo. Pôs-lhe então o nome de Dulcinéia del Toboso. 

Assim, armado e montado em Rocinante, acompanhado pelo escudeiro Sancho Pança montando seu burrico russo, Dom Quixote resolve sair em busca de aventuras, que devo dizer não foram poucas. 

Investiu contra os moinhos de ventos, achando que eram gigantes, obra do grande feiticeiro Fristão, tomou rebanho de ovelhas por exércitos inimigos, e fez o mesmo com uma manada de touros. De um barbeiro, levou-lhe a bacia dourada, pois achava que era o elmo de Mambrino, colocou-a na cabeça e esta bacia passou a fazer parte de sua indumentária enferrujada e antiga, pertencente a seu bisavô. 

Enquanto Dom Quixote se aventura pelo mundo, sua sobrinha, ajudada por amigos, resolve destruir todos os livros de cavalaria dele e bloqueia a porta do seu escritório, para parecer que esta sumira como que por encantamento. No afã de leva-lo de volta para casa, o noivo da moça se disfarça de cavaleiro da Branca Lua e desafia Quixote para um torneio. Caso ele perdesse, teria que se refugiar em casa por um período de um ano, esquecendo-se das aventuras de cavaleiro andante. 

Quixote é vencido por seu oponente e, como era fidalgo de palavra, volta para casa, para júbilo de todos, e aos poucos vai recobrando a sensatez e esquecendo-se das aventuras do grande D. Quixote de la Mancha. 

"Quixote encanta pela loucura da luta por ideais dos quais a razão desistiu. Os humanistas domesticados pela razão cínica viraram técnicos em acomodação". 

Quixote, como Cervantes, foi-se em agitação criativa e penúria material. Quatro séculos após a sua vinda, restam o quixotesco de anedota, frases divertidas, fugaz admiração. Do ideal, apenas a glória do derrotado. Venceu o pragmatismo de Sancho. 

Mas vale a pena ler, quimeras são sempre divertidas, a infância ou a loucura ainda mora na essência das nossas almas quixotescas... 

"Sonhar,
Mais um sonho impossível 
Lutar
Quando é fácil ceder
Negar quando a regra é vender...
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão".

Rosa Magalhães
Carnavalesca

Bibliografia consultada: 

- Dom Quixote de la Mancha - de Miguel de Cervantes - Ilustrações de Gustave Doré - Tradução - Viscondes de Castilho e de Azevedo - Lello e irmão editores - Porto - 2 volumes - s/data

- Dom Quixote de la Mancha - de Miguel de Cervantes, tradução de Ferreira Gullar - editora Revan - 2002

- Artigo - Quatro séculos do maluco beleza - Alcione Araújo - Revista Argumento número 8 pág 117

- Sonho impossível - Musical Mano of la Mancha - de Dale Wasserman, Joe Darion, Mitch Leigh - tradução Chico Buarque de Hollanda.



O samba escolhido é fruto de uma junção entre duas composições. Quem acompanhou a disputa desde o início garante que a soma das composições teve motivos políticos, a fim de acomodar correntes que auxiliavam a agremiação. 'Mumunhas' de disputas...

A escola foi a primeira a desfilar domingo de carnaval deste ano, 14 de fevereiro. Depois de dois anos desfilando pela escola houve um problema e tive de me contentar em assistir do Setor 3.

A União da Ilha fez um desfile com extremo bom gosto em fantasias e alegorias, embora estas últimas não tivessem tamanho muito ampliado. A bateria sustentou bem o ritmo e permitiu à escola um bom desfile, apesar dos problemas para a entrada de dois carros.


Na apuração da Quarta Feira de Cinzas, a surpresa: referendando o bom desfile da escola, e contando com o péssimo desfile da Unidos do Viradouro - e seus problemas políticos - a União da Ilha obteve o décimo primeiro lugar, com 293,8 pontos. O Branca Lua, inatingível, estava vencido.

Sem dúvida alguma é uma lição para todos nós - eu inclusive: nada é impossível. Nossos "Brancas Lua" podem ser invencíveis agora, mas com perseverança temos totais condições de superar nossas barreiras e alcançar nossos objetivos.

Por outro lado, muitas vezes desistimos de nossos sonhos em favor de conveniências outras...

Vamos ao samba e, abaixo, o "esquenta" da escola neste ano.


Autores
Grassano, Gabriel, Márcio André, João Bosco, Arlindo Neto, Gugu das Candongas, Marquinho do Banjo, Barbosão, Ito e Léo

Puxador
Ito Melodia

Voltou a Ilha
Delira o povo de alegria
Nessa folia sou fidalgo, sou leitor
Cavaleiro sonhador
Num mundo é de magia
Vou cavalgar no Rocinante
Meu escudeiro é Sancho Pança
Se Dulcinéia é meu amor
Quem eu sou?
Sou Dom Quixote de la Mancha


O gigante moinho me viu deu no pé
O povo grita olé
Nesse feitiço tem castanhola
A bateria hoje deita e rola


Vesti a fantasia, fui à luta
Venci manadas, rebanhos
Fiz de uma bacia, meu elmo de glórias
Meus livros se perderam pela história
Enfim, fui vencido pelo Branca Lua
Voltei, pra casa esquecendo as aventuras
No tempo ficou, os meus ideais
Quimeras são imortais

A Ilha vem cantar
Mais um sonho impossível... sonhar
Quem é que não tem, uma louca ilusão
E um Quixote no seu coração"

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Resenha Literária - "As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos"

Época de Copa do Mundo, hora de começar a colocar as resenhas dos livros lidos durante a viagem ao Paraná.

Inicio por este "As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos", do jornalista e narrador do SporTv Milton Leite.

São seis seleções as escolhidas pelo autor em seu passeio pela história de nosso vitorioso futebol: as cinco campeãs do mundo e uma seleção que não foi campeã, mas que a meu juízo foi a melhor que vi jogar: o inesquecível time de 1982.

Particularmente, embora não fosse vivo na época - dos times elencados só vi de 1982 para cá - trocaria o tosco campeão de 2002 pelo time vice campeão de 1950. Entretanto, o argumento do autor para não inclusão da seleção de 1950 é bastante razoável: embora tenha dominado tecnicamente aquele Mundial, não faria  muito sentido abrir o livro com a maior derrota da história do futebol canarinho.

Faço aqui pequeno resumo dos seis capítulos. Ao contrário do livro do jornalista Mauro Betting sobre as melhores seleções estrangeiras - "irmã gêmea" deste e alvo da próxima resenha - Milton Leite optou por não fazer o "jogo a jogo" de cada seleção em sua respectiva Copa, optando por um plano mais geral. Destaco também a ficha técnica de cada jogador participante nas campanhas, ao final de cada capítulo.

1958 - o autor conta os detalhes da primeira preparação profissional do Brasil para uma Copa do Mundo, desde a organização da Comissão Técnica, passando por dentes e amígdalas extraídas antes do início da competição e os "espiões" que acompanhavam os adversários. Relaciona as diversas mudanças que a equipe sofreu durante a competição e um fato curioso: as camisas azuis utilizadas na finalíssima foram compradas no comércio de Estocolmo às vésperas do jogo. Bem diferente dos dias atuais...

1962 - com a base da equipe anterior, envelhecida - sete dos onze titulares da estréia tinham mais de trinta anos. Ao contrário de 58, houve apenas uma alteração na equipe do início até o final da competição, a entrada de Amarildo no lugar de Pelé, machucado. Como não se permitiam substituições durante os jogos na época, apenas doze jogadores foram utilizados na campanha.

1970 - bastante renovada após o fiasco de 1966, o livro conta algumas passagens de bastidores referentes à saída de João Saldanha e a ascensão de Zagallo. Jairzinho concedeu uma entrevista para o livro onde deixa claro que na opinião dele Dario somente foi convocado para agradar o ditador Garrastazu Médici: "todos nós sabíamos disso. O Dario era boa pessoa, artilheiro, mas muito ruim para estar na seleção de 1970. Ele ficava até constrangido." (pp.89).

1982 - o autor faz justiça à figura do técnico Cláudio Coutinho (em minha opinião, injustamente esquecido no livro sobre os onze maiores técnicos brasileiros) como formador daquela equipe. Telê assumiu em 1980 e alterou o time, mantendo a base anterior. O autor também desmistifica uma tese até hoje corrente, de que na fatídica partida contra a Itália - uma das maiores tristezas de minha vida futebolística - o time havia se lançado à frente quando o empate bastava. Em minha opinião, o melhor e mais revelador capítulo.

1994 - mais uma vez faz justiça à renovação empreendida por Falcão entre 1990/91 e esclarece de uma vez por todas o afastamento e o retorno de Romário. Muito interessante é a descrição tática feita por Parreira daquela equipe.

2002 - o subtítulo do capítulo diz tudo: "quando o caos levanta a taça". Esclarece a história da não-convocação de Romário, como ponto alto do capítulo.

Um bom painel das maiores seleções brasileiras, bom texto, boa leitura. Recomendo.