Mais uma semana, e mais uma vez a coluna Sobretudo, do publicitário e rubro negro Affonso Romero.
E discordo novamente de boa parte do texto, em que pese ser uma lavra muito interessante. Aproveito para fazer uma correção: no fatídico jogo de 82, quando o Brasil empatou Telê Santana tirou o centroavante Serginho e colocou o volante Paulo Isidoro, justamente para manter o resultado...
Vamos ao texto:
"O "Estilo Brasileiro" - Parte 2
Caro amigo leitor: prometi, na semana passada, mostrar como, Copa após Copa do Mundo, o Brasil foi se adaptando, mundando aos poucos sua forma de jogar, e tendo bons ou maus resultados.
Estou de férias, em viagem pelo Cone Sul do continente, digitando de madrugada do computador do hotel enquanto os olhos nao se fecham. Estou em Buenos Aires, e a Argentina também vai se encaixar nesta coluna, fechando o texto lá embaixo. Por hora, só tome esta casualidade geográfica para explicar por que o sinal gráfico TIL nao será digitado ao longo da coluna de hoje, ok?
Bem, como íamos dizendo na semana passada, se é que havia um "estilo" brasileiro antes de 1958, este teria sido um estilo perdedor, inclusive na Copa de 1950, realizada no Brasil, e que nos dar o desgosto do Maracanazzo. Estive até ontem no Uruguai, e aquele simpático e hospitaleio povo, entre sorrisos e gentilezas, sempre nos lembra de 1950.
Em 58 vencemos finalmente. Jogando um belo futebol, vistoso, revelando o maior jogador que o futebol já viu jogar, Pelé, acompanhado do diabólico anjo de pernas tortas, príncipe do drible, Garrincha. Pois a maior novidade daquele time, como vimos na primeira parte desta coluna, nao era a presença de craques no time brasileiro, mas o posicionamento de um certo ponta-esquerda de nome Zagallo que, ao recuar até o meio de campo auxiliando na marcaçao, inadvertidamente inventou o esquema 4-3-3, tido na época pela crítica "especializada" como uma verdadeira retranca, uma vez que os times brasileiros jogavam num 4-2-4 kamikaze. Isso mesmo: apenas dois jogadores tentavam dar conta de todo o meio-de-campo. Ou seja, o jogo se dava nas extremidades do campo, ataque contra defesa, porque a regiao central do gramado era quase totalmente desabitada.
Imaginem a revoluçao provocada pela inclusao de um novo jogador por aquelas bandas, capaz de freiar a organizaçao do adversário e alavancar as açoes ofensivas. Pois Zagallo foi este jogador. E, portanto, o Brasil só venceu quando mudou, quando transformou taticamente o futebol, quando se reforçou na defesa.
Em 1962, o esquema tendia a se repetir, novamente com Zagallo fazendo sua dupla funçao. Foi quando a casualidade nos ajudou. Garrincha, como é sabido, jogava aberto pela ponta-direita, driblando em velocidade e cruzando para a área, numa jogada potencialmnte perigosa que era reforçada pela presença de um atacante veloz e rompedor como Vavá. Este mesmo Vavá que era criticado por nao ter a habilidade de um atacante típico brasileiro, ser apenas um jogador com faro de gol, que se posicionava muito bem. Longe dele repetir com Pelé a dobradinha santista que o Rei fazia com Coutinho.
Mas se coube ao técnico tirar de Pelé seu parceiro predileto no ataque da Seleçao, coube a uma contusao tirar desta Seleçao o próprio Pelé. E foi entao que brilhou mais forte a estrela de Garrincha. O genial ponta se fez de mil e se desdobrou entre a armaçao, a volta para buscar o jogo, o trabalho pela direita e até a conclusao a gol. A falta de Pelé despertou em Garrincha a força para vir a ser um jogador completo. E, portanto, bem mais que um ponta. E foi assim, sem nenhum dos dois pontas atuando de forma tradicional, rompendo mais uma tradiçao, que o Brasil se tornou bi-campeao mundial.
Veio 1966 e o Brasil se repetiu, com menos organizaçao e mais idade média do elenco. E voltamos mais cedo para casa, eliminados na primeira fase, após nova contusao de Pelé e clara decadência de Garrincha.
Em 1970, Zagallo já como técnico, havia mais jogadores de meio de campo do que o necessário, e opçoes menos ricas para o ataque. Até poucos meses antes da Copa, com Joao Saldanha como técnico, figuras como Rogério (do Botafogo, pela direita) e Edu (do Santos, pela esquerda) despontavam como titulares, numa escalaçao bem tradicional. Isso fazia com que Jairzinho, Pelé, Rivelino, Tostao (além de Dirceu Lopes e Ademir da Guia) tivessem que disputar uma única posiçao de ponta-de-lança. Com Zagallo, todos jogaram, numa equipe em que grandes craques revezavam-se dentre várias funçoes, deslocando-se por todo o ataque, trabalhando os espaços e antecipando uma tendência posteriormente consagrada no futebol mundial, e levada aos extremos pela Holanda de 74.
Aquele time de 1970 era extremamente moderno para sua época, nao tinha paralelo algum com nenhuma outra equipe anterior da Seleçao, com nenhum clube brasileiro, nem com nenhum outro time de futebol até entao. Era o rompimento total com qualquer tradiçao tática anterior e nunca a reafirmaçao de alguma "escola" ou "estilo". Hoje, muitos afirmam o contrário, dizem que aquele time era o exemplo perfeito e acabado de um certo "estilo brasileiro", inclusive jogadores daquela geraçao. Mas deve-se perguntar: que estilo era este? Que outra equipe brasileira antes jogou daquela forma? Que estranha tradiçao era esta que rompia com o ditame e inaugurava uma nova era? Taticamente, aquele time era a anti-tradiçao do futebol brasileiro. E, diga-se de passagem, saiu desacreditado do Brasil exatamente por abrir mao de ter pontas fixos, sendo criticado por ser "fechado" demais.
Outra característica de 1970 era o afinco inédito com a preparaçao física, o que também contrariava o senso comum do que era praticado no esporte brasileiro de entao. E, nao por acaso, aquela foi uma Copa decidica sempre (em absolutamente TODOS os jogos) no segundo tempo, em que invariavelmente o time brasileiro paracia sobrar em campo (sempre em contraste com um primeiro tempo parelho) enquanto os adversários pareciam se arrastar, abatidos pela altitude mexicana.
O reflexo do "efeito Brasil de 70" foi a resposta eficiente dos europeus em 74, principalmente a Holanda de Cruiff e sobretudo a campea Alemanha, que aliaram velocidade, preparo físico, mudança constante de posiçoes e combatividade no meio de campo. O Brasil, deitado sobre a vitória anterior, parou novamente no tempo e perdeu a Copa.
De 78 a 86, o Brasil parecia procurar um caminho de retorno à sua "escola tradicional", sempre sob a pressao de uma imprensa preocupada mais com a beleza do futebol desenvolvido do que com o compromisso com a vitória. Enquanto o futebol de outras das prncipais seleçoes foi se tornando cada vez mais pragmático, o Brasil procurava ser algo que, substancialmente, nunca havia sido, mas que mitologicamente acreditava que deveria ser.
O clímax desta fase se deu em 1982, ano em que uma geraçao brilhante de jogadores jogou fora a chande de chegar ao lugar mais alto por nao saber se defender de uma Itália até entao frágil, mesmo tendo a seu favor a vantagem do empate (lembrem-se de 1950!). Ficou duas vezes atrás no placar, soube buscar por duas vezes o empate e, ainda assim, fracassou em segurar um resultado conveninte por pura displicência e ineficiência tática, levando o terceiro e definitivo gol.
Em 1990, sob um confuso Lazzaroni e um cima conturbado, o Brasil chegou ao fundo do poço, sem identidade nenhuma, sem organizaçao tática nenhuma e, para piorar, com talento escasso.
A vantagem das constantes derrotas em busca de uma identidade e um "estilo perdido" foram as liçoes que levaram um pragmático Parreira a renunciar de firulas e ir direto ao assunto: tendo em maos um ataque mortal, com Bebeto e Romário, a ordem era se defender bem e colocar a bola nos pés daqueles que resolviam. Mesmo campeoes, aqueles jogadores passaram para a História como a antítese do estilo nacional quando, na verdade, era uma equipe montada para privilegiar o talento, ainda que fosse o talento de dois jogadores apenas.
De lá para cá, o Brasil sempre procurou equilibrar talento e competitividade. A crítica especializada sempre cobra a falta daquilo que se constituiu mitologicamente como o "estilo brasileiro" ainda que ninguém consiga definir objetivamente o que viria a ser isso. Enquanto isso, os técnicos repetem os velhos chavoes, falam cada um a sua maneira em coerência, que é uma forma perdoável que argumentar racionalmente suas teimosias, escolhas pessoais e manias. Mas estao sempre tentando equilibrar e alinhar taticamente o Brasil ao que fazem as outras equipes, acreditando que, se o Brasil se equiparar taticamente aos outros, tem mais chances de sucesso que esses, uma vez que, supostamente, tem mais potencial técnico individual.
Como em tudo no futebol, é um princípio discutível. Mas é fato comprovado que, todas as vezes em que o Brasil foi campeao, de alguma forma, desconstruiu seu modo anterior de jogar, antecipou-se ou igualou-se nas inovaçoes táticas e, a partir de uma igualdade ou superioridade tática, deu vazao ao ferramental técnico de seus jogadores.
Claro que nem sempre isso dará certo, principalmente porque faz parte da mitologia o fato de sermos os únicos do mundo a jogar bem, ter jogadores técnicos e talentosos e que, portanto, apenas o talento resolverá tudo. Ora, isso é apenas mais um mito: houve, há e haverá muitos craques que, "casualmente", nasceram fora das fronteiras do Brasil. E que tentam resolver a parada a favor de suas seleçoes, muitas vezes com imenso sucesso.
Por exemplo, outro povo que pensa como nós, que criou uma mitologia sobre seu futebol, é o povo argentino. Como nós, eles se acham os melhores, os mais abençoados com talento, ginga e habilidade e, portanto, como nós, basta jogar para a frente, usando os melhores e mais hábeis, com coragem, sem muita preocupaçao tática e serao sempre campeoes. Ora, como qualquer outra mitologia, este conjunto de crenças cai por terra quando confrontado com os fatos.
Pois eu estou aqui em Buenos Aires e só ouço falar sobre a demissao do Maradona. Ou melhor, a nao renovaçao do contrato dele. Ora, a AFA, que nao é boba nem nada (o Grondona é peixe graudíssimo no universo do futebol mundial) sabe que é preciso mais que boa vontade e beijinhos no rosto para voltar a vencer. Pois sabem o que acha o povao aqui? Que "El Pibe" Maradona está certo, que se deve sempre jogar no "estilo portenho". Ainda que isto custe o risco de levar pancadas de 3 para o Brasil e de 4 para a Alemanha. Eu concordo, no caso deles, eu concordo do fundo do meu coraçao: deveriam jogar bonito, sem preocupaçao em se defender, sempre para a frente, e continuar perdendo.
Como eu sou brasileiro, no caso do Brasil, eu prefiro que vença. Ainda que, para isso, tenha sempre que mudar e evoluir com o resto do mundo."
Caro amigo leitor: prometi, na semana passada, mostrar como, Copa após Copa do Mundo, o Brasil foi se adaptando, mundando aos poucos sua forma de jogar, e tendo bons ou maus resultados.
Estou de férias, em viagem pelo Cone Sul do continente, digitando de madrugada do computador do hotel enquanto os olhos nao se fecham. Estou em Buenos Aires, e a Argentina também vai se encaixar nesta coluna, fechando o texto lá embaixo. Por hora, só tome esta casualidade geográfica para explicar por que o sinal gráfico TIL nao será digitado ao longo da coluna de hoje, ok?
Bem, como íamos dizendo na semana passada, se é que havia um "estilo" brasileiro antes de 1958, este teria sido um estilo perdedor, inclusive na Copa de 1950, realizada no Brasil, e que nos dar o desgosto do Maracanazzo. Estive até ontem no Uruguai, e aquele simpático e hospitaleio povo, entre sorrisos e gentilezas, sempre nos lembra de 1950.
Em 58 vencemos finalmente. Jogando um belo futebol, vistoso, revelando o maior jogador que o futebol já viu jogar, Pelé, acompanhado do diabólico anjo de pernas tortas, príncipe do drible, Garrincha. Pois a maior novidade daquele time, como vimos na primeira parte desta coluna, nao era a presença de craques no time brasileiro, mas o posicionamento de um certo ponta-esquerda de nome Zagallo que, ao recuar até o meio de campo auxiliando na marcaçao, inadvertidamente inventou o esquema 4-3-3, tido na época pela crítica "especializada" como uma verdadeira retranca, uma vez que os times brasileiros jogavam num 4-2-4 kamikaze. Isso mesmo: apenas dois jogadores tentavam dar conta de todo o meio-de-campo. Ou seja, o jogo se dava nas extremidades do campo, ataque contra defesa, porque a regiao central do gramado era quase totalmente desabitada.
Imaginem a revoluçao provocada pela inclusao de um novo jogador por aquelas bandas, capaz de freiar a organizaçao do adversário e alavancar as açoes ofensivas. Pois Zagallo foi este jogador. E, portanto, o Brasil só venceu quando mudou, quando transformou taticamente o futebol, quando se reforçou na defesa.
Em 1962, o esquema tendia a se repetir, novamente com Zagallo fazendo sua dupla funçao. Foi quando a casualidade nos ajudou. Garrincha, como é sabido, jogava aberto pela ponta-direita, driblando em velocidade e cruzando para a área, numa jogada potencialmnte perigosa que era reforçada pela presença de um atacante veloz e rompedor como Vavá. Este mesmo Vavá que era criticado por nao ter a habilidade de um atacante típico brasileiro, ser apenas um jogador com faro de gol, que se posicionava muito bem. Longe dele repetir com Pelé a dobradinha santista que o Rei fazia com Coutinho.
Mas se coube ao técnico tirar de Pelé seu parceiro predileto no ataque da Seleçao, coube a uma contusao tirar desta Seleçao o próprio Pelé. E foi entao que brilhou mais forte a estrela de Garrincha. O genial ponta se fez de mil e se desdobrou entre a armaçao, a volta para buscar o jogo, o trabalho pela direita e até a conclusao a gol. A falta de Pelé despertou em Garrincha a força para vir a ser um jogador completo. E, portanto, bem mais que um ponta. E foi assim, sem nenhum dos dois pontas atuando de forma tradicional, rompendo mais uma tradiçao, que o Brasil se tornou bi-campeao mundial.
Veio 1966 e o Brasil se repetiu, com menos organizaçao e mais idade média do elenco. E voltamos mais cedo para casa, eliminados na primeira fase, após nova contusao de Pelé e clara decadência de Garrincha.
Em 1970, Zagallo já como técnico, havia mais jogadores de meio de campo do que o necessário, e opçoes menos ricas para o ataque. Até poucos meses antes da Copa, com Joao Saldanha como técnico, figuras como Rogério (do Botafogo, pela direita) e Edu (do Santos, pela esquerda) despontavam como titulares, numa escalaçao bem tradicional. Isso fazia com que Jairzinho, Pelé, Rivelino, Tostao (além de Dirceu Lopes e Ademir da Guia) tivessem que disputar uma única posiçao de ponta-de-lança. Com Zagallo, todos jogaram, numa equipe em que grandes craques revezavam-se dentre várias funçoes, deslocando-se por todo o ataque, trabalhando os espaços e antecipando uma tendência posteriormente consagrada no futebol mundial, e levada aos extremos pela Holanda de 74.
Aquele time de 1970 era extremamente moderno para sua época, nao tinha paralelo algum com nenhuma outra equipe anterior da Seleçao, com nenhum clube brasileiro, nem com nenhum outro time de futebol até entao. Era o rompimento total com qualquer tradiçao tática anterior e nunca a reafirmaçao de alguma "escola" ou "estilo". Hoje, muitos afirmam o contrário, dizem que aquele time era o exemplo perfeito e acabado de um certo "estilo brasileiro", inclusive jogadores daquela geraçao. Mas deve-se perguntar: que estilo era este? Que outra equipe brasileira antes jogou daquela forma? Que estranha tradiçao era esta que rompia com o ditame e inaugurava uma nova era? Taticamente, aquele time era a anti-tradiçao do futebol brasileiro. E, diga-se de passagem, saiu desacreditado do Brasil exatamente por abrir mao de ter pontas fixos, sendo criticado por ser "fechado" demais.
Outra característica de 1970 era o afinco inédito com a preparaçao física, o que também contrariava o senso comum do que era praticado no esporte brasileiro de entao. E, nao por acaso, aquela foi uma Copa decidica sempre (em absolutamente TODOS os jogos) no segundo tempo, em que invariavelmente o time brasileiro paracia sobrar em campo (sempre em contraste com um primeiro tempo parelho) enquanto os adversários pareciam se arrastar, abatidos pela altitude mexicana.
O reflexo do "efeito Brasil de 70" foi a resposta eficiente dos europeus em 74, principalmente a Holanda de Cruiff e sobretudo a campea Alemanha, que aliaram velocidade, preparo físico, mudança constante de posiçoes e combatividade no meio de campo. O Brasil, deitado sobre a vitória anterior, parou novamente no tempo e perdeu a Copa.
De 78 a 86, o Brasil parecia procurar um caminho de retorno à sua "escola tradicional", sempre sob a pressao de uma imprensa preocupada mais com a beleza do futebol desenvolvido do que com o compromisso com a vitória. Enquanto o futebol de outras das prncipais seleçoes foi se tornando cada vez mais pragmático, o Brasil procurava ser algo que, substancialmente, nunca havia sido, mas que mitologicamente acreditava que deveria ser.
O clímax desta fase se deu em 1982, ano em que uma geraçao brilhante de jogadores jogou fora a chande de chegar ao lugar mais alto por nao saber se defender de uma Itália até entao frágil, mesmo tendo a seu favor a vantagem do empate (lembrem-se de 1950!). Ficou duas vezes atrás no placar, soube buscar por duas vezes o empate e, ainda assim, fracassou em segurar um resultado conveninte por pura displicência e ineficiência tática, levando o terceiro e definitivo gol.
Em 1990, sob um confuso Lazzaroni e um cima conturbado, o Brasil chegou ao fundo do poço, sem identidade nenhuma, sem organizaçao tática nenhuma e, para piorar, com talento escasso.
A vantagem das constantes derrotas em busca de uma identidade e um "estilo perdido" foram as liçoes que levaram um pragmático Parreira a renunciar de firulas e ir direto ao assunto: tendo em maos um ataque mortal, com Bebeto e Romário, a ordem era se defender bem e colocar a bola nos pés daqueles que resolviam. Mesmo campeoes, aqueles jogadores passaram para a História como a antítese do estilo nacional quando, na verdade, era uma equipe montada para privilegiar o talento, ainda que fosse o talento de dois jogadores apenas.
De lá para cá, o Brasil sempre procurou equilibrar talento e competitividade. A crítica especializada sempre cobra a falta daquilo que se constituiu mitologicamente como o "estilo brasileiro" ainda que ninguém consiga definir objetivamente o que viria a ser isso. Enquanto isso, os técnicos repetem os velhos chavoes, falam cada um a sua maneira em coerência, que é uma forma perdoável que argumentar racionalmente suas teimosias, escolhas pessoais e manias. Mas estao sempre tentando equilibrar e alinhar taticamente o Brasil ao que fazem as outras equipes, acreditando que, se o Brasil se equiparar taticamente aos outros, tem mais chances de sucesso que esses, uma vez que, supostamente, tem mais potencial técnico individual.
Como em tudo no futebol, é um princípio discutível. Mas é fato comprovado que, todas as vezes em que o Brasil foi campeao, de alguma forma, desconstruiu seu modo anterior de jogar, antecipou-se ou igualou-se nas inovaçoes táticas e, a partir de uma igualdade ou superioridade tática, deu vazao ao ferramental técnico de seus jogadores.
Claro que nem sempre isso dará certo, principalmente porque faz parte da mitologia o fato de sermos os únicos do mundo a jogar bem, ter jogadores técnicos e talentosos e que, portanto, apenas o talento resolverá tudo. Ora, isso é apenas mais um mito: houve, há e haverá muitos craques que, "casualmente", nasceram fora das fronteiras do Brasil. E que tentam resolver a parada a favor de suas seleçoes, muitas vezes com imenso sucesso.
Por exemplo, outro povo que pensa como nós, que criou uma mitologia sobre seu futebol, é o povo argentino. Como nós, eles se acham os melhores, os mais abençoados com talento, ginga e habilidade e, portanto, como nós, basta jogar para a frente, usando os melhores e mais hábeis, com coragem, sem muita preocupaçao tática e serao sempre campeoes. Ora, como qualquer outra mitologia, este conjunto de crenças cai por terra quando confrontado com os fatos.
Pois eu estou aqui em Buenos Aires e só ouço falar sobre a demissao do Maradona. Ou melhor, a nao renovaçao do contrato dele. Ora, a AFA, que nao é boba nem nada (o Grondona é peixe graudíssimo no universo do futebol mundial) sabe que é preciso mais que boa vontade e beijinhos no rosto para voltar a vencer. Pois sabem o que acha o povao aqui? Que "El Pibe" Maradona está certo, que se deve sempre jogar no "estilo portenho". Ainda que isto custe o risco de levar pancadas de 3 para o Brasil e de 4 para a Alemanha. Eu concordo, no caso deles, eu concordo do fundo do meu coraçao: deveriam jogar bonito, sem preocupaçao em se defender, sempre para a frente, e continuar perdendo.
Como eu sou brasileiro, no caso do Brasil, eu prefiro que vença. Ainda que, para isso, tenha sempre que mudar e evoluir com o resto do mundo."
















