domingo, 15 de agosto de 2010

O suicídio da velha mídia


Domingo, dia de repercutir bons textos, como de hábito.

Um dos assuntos mais importantes da semana foi a escandalosa demonstração de parcialidade dado pela Rede Globo de Televisão no episódio das entrevistas dadas pelos principais candidatos à Presidência ao jornal Nacional.

A diferença de tratamento entre José Serra e os demais, e as perguntas feitas mostraram claro que a televisão - e, é bem verdade, a grande mídia - jogaram às favas o dever de informar e mergulharam de cabeça na campanha do presidenciável tucano.

Reproduzo aqui texto do jornalista Luis Nassif, publicado em seu blog, no qual ele analisa os fatores de tal postura e o que se pode esperar do mercado jornalístico em caso de vitória da candidata petista, Dilma Roussef.

Boa leitura.

"Em 2006 já falava aqui no suicídio da mídia, quando decidiu transformar a queda (ou derrota) de Lula em guerra santa.

O que houve ontem, no Jornal Nacional, comprova que não há limites para a insensatez.  A entrevista de Serra não mudará o panorama eleitoral. Dilma continua favorita.

Mas suponhamos que a armação desse resultados, invertesse o jogo e colocasse Serra como favorito. O que ocorreria com a opinião pública? Haveria apenas críticas, a bonomia do governo, Dilma convidando o casal para jantar? Claro que não: haveria comoção popular, uma guerra sem quartel.

Há muito a velha mídia atravessou o Rubicão da prudência.

O que está em jogo, da parte dela, é a montagem de uma barricada para impedir a invasão estrangeira do setor por empresas de telecomunicações e grupos de mídia.

No começo, recorreu à estratégia clara (e imprudente) de tentar derrubar Lula – ou fazê-lo sangrar – e apoiar um candidato que viesse comer na mão e ajudasse a barrar a invasão estrangeira.

Apostou e perdeu em 2006, apostou e perderá em 2010. Nem com todo apoio, o campeão branco, José Serra, logrará vencer.

Passadas as eleições, a velha mídia terá que encarar seus demônios. E é evidente, depois de ela ter avançado ainda mais no pântano da interferência política, que o objetivo maior do próximo governo será acabar com os privilégios, com o monopólio da informação, com o último cartório da economia.

E quem vai apoiá-la?

Essa postura arrogante, quase golpista, rompeu qualquer laço de solidariedade com setores nacionais. A velha mídia era temida por muitos setores empresariais da economia real. Hoje é desprezada.

Não haverá apoio de grandes grupos econômicos, porque a guerra não é deles. E são grupos que já aprenderam a montar grandes parcerias com empresas internacionais. Uma coisa é inventar fantasmas de Farcs, Moralez, Fidel, essas bobagens sem fim. Outra é convencer os aliados de hoje que Telefonica, grupos portugueses, Pisa e outros que estão entrando representam interesses do Foro São Paulo.

Das multi? Só faltava as multinacionais, que na Constituinte conseguiram equiparação com as nacionais no setor real da economia, ampararem qualquer tentativa de criar cartórios na mídia.

Para os políticos, há muito a velha mídia é fator de risco. Sabem que elogios ou acusações estão submetidos a jogos de interesses empresariais. Preferem o diabo a uma imprensa cartelizada e exercendo o poder de forma ilimitada, como foi nas últimas duas décadas.

Para o mercado financeiro, nem pensar. No máximo acenam com possibilidades futuras de parcerias, mas de olho em apenas um ativo da velha mídia: o poder de influenciar mercado e governos. E esse ativo está sendo gasto rapidamente com a perda de qualidade e de influência dos jornais, o envolvimento permanente com factóides e o descolamento da parcela majoritária de opinião pública.

Por acaso pensam que investidores técnicos irão investir em setores com baixa governança corporativa e baixa rentabilidade?

As manifestações de Otávio Frias Filho – citando Rupert Murdoch como exemplo -, a associação da Abril com a Napster, mostram que tentou-se aqui, tardiamente, a mesma fórmula empregada em outros países. Trata-se de utilizar o poder político da mídia, antes que acabe, para pavimentar a transição para a nova etapa tecnológica.

A questão é que, com exceção da Globo, nenhum grupo tem condições de ser dominante na nova etapa, porque nenhum grupo pensou estrategicamente na travessia, mas apenas em barrar futuros competidores.

É fácil prever o futuro desses grupos nos próximos anos.

A Folha será salva pela UOL, mas como grupo econômico. Jamais a UOL conseguirá um décimo do poder político que a Folha deteve nos anos 90 e 2000.

A Abril não tem plano de vôo. Queimou a ponte quando abriu mão da BOL e da TVA.

Sabe que seu carro-chefe – a Veja impressa – está em queda livre. O mercado estima uma tiragem real de 780 mil exemplares – contra os 1,1 milhão apregoados pela mídia. Quando os clientes de publicidade exigirem um ajuste nos valores cobrados, proporcional à queda real das vendas, a Abril entra em sinuca.

Para enfrentar os novos tempos, fez investimentos maciços no portal Veja, que é um equívoco sem tamanho. Ora, a editora sempre teve a cultura da publicação semanal, quinzenal ou mensal. Jamais trabalhou sequer com a informação diária. Sei na prática o choque cultural que é passar do padrão semanal para o diário. Agora, ela quer do nada criar um portal com notícias online, sem prática e entrando em um mercado em que já existem serviços online consolidados, como o G1, UOL, Terra, IG. Não será sequer mais um. Será menos um.

A compra do Anglo com recursos pessoais dos Civita mostra claramente que, cada vez mais, deixará a operação midiática para os sul-africanos e se salvará em novos negócios – como os da educação – onde o poder de fogo da revista permita ganhos indiretos junto ao poder público.

O Estadão tem a melhor estratégia multimídia (depois da Globo), mas é um grupo à venda e sem fôlego financeiro, definitivamente preso aos conflitos familiares. Manterá um jornalismo de nicho, bem construído, trabalhando seu público mais conservador e de bom nível. Mas sem grandes vôos e sem influência política.

Nesse quadro, restará apenas a Globo, cercada de inimigos por todos os lados e perdendo a cada dia legitimidade e alianças.

É um pessoal bom de jornalismo. Com exceção do inacreditável O Globo, tem jornalismo de primeira na CBN, na Globonews, no G1 e posição dominante na TV aberta, apesar de toda a parcialidade do grupo de Kamel.

Mas, graças à miopia dos sucessores e às loucuras de Ali Kamel, será cada vez mais alvo das invasões bárbaras, seja da Record, seja grupos de fora, seja de todos os inimigos que acumulou nesses anos de arrogância cega.

O jogo acabou. Agora começam as apostas para o novo jogo que virá pela frente."

sábado, 14 de agosto de 2010

Sem Coordenação


"Limpeza, incerteza, dia a dia
Sabia entretanto destino derradeiro
Carneiro, velório, casa eterna
Caserna aprisionada orgulhosa sensação
Coração empredernido finalmente repousa
Mariposa esvoaçante o sentimento leva
Leva de emoções finalmente libertas
Abertas comportas, fuga da solidão.

Lição emoldurada, colorida parede
Rede de volúpias represadas à frente
Tente controlar volúpia aprisionada
Nada tem poder de racionalizar
Apagar luxúria, campo do pensamento
Lamento poder fazer isto
Insisto em reprimir visão resguardada
Guardada força transformada em razão

Paixão pela frieza enfim desata
Mata a volúpia, a luxúria, o querer
Saber que é soldado do dever
Compreender que a emoção reside na escrita
Maldita rotina que a todos controla
Mola propulsora pessoal progresso
Regresso ao modelo bem viver denominado
Apaixonado dia a dia, correto sucessor
Pendor escorreito valorosa renúncia

Denúncia a coração fora da lei
Sei papel definido nesta peça
Meça com trena intestina guerra
Terra arrasada coberta está de gelo
Zêlo pela forma intrépida potência
Sequência correta é iceberg frio
Calafrio percorre fiel estrada
Calada explosão peito sufoca

Foca amestrada se torna o ser humano
Clamo a atender mundana demanda
Manda a rotina obrigatório atender
Entender que o sentir não importa
Porta fechada assim deve estar
Mata qualquer resquício de desejo
Manejo adequado é não bulir
Sair tangência despercebida lavra
Palavra solta sentido nenhum..."

P.S. - o título é um trocadilho do momento em que foi escrito, uma "Reunião de Coordenação".

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Final de Semana - "Brasileirinho"



Mais um final de semana chegando, e estamos de volta à música brasileira depois de algumas semanas voltadas a um "passeio pelo mundo" musical.

E em alto estilo: "Brasileirinho", chorinho do grande Waldir Azevedo, em versão instrumental interpretada por Toquinho e Luciana Rabello - que, para quem não sabe, é irmã do grande Raphael Rabello e esposa do compositor Paulo César Pinheiro.

A composição possui letra, mas aqui está em sua forma mais pura.

Deleitem-se.

Dia do Economista


Não tenho o hábito de republicar textos do blog.

Mas hoje abro uma exceção para republicar, com acréscimos e correções, texto que escrevi no ano passado sobre o Dia do Economista, que se comemora na data de hoje.

"Hoje sou lembrado pelo rádio de que devo comemorar em dose dupla: pelo Dia do Economista e pelo Dia dos Canhotos.

Sobre os canhotos já escrevi outro texto, que pode ser lido aqui. Queria falar um pouco sobre a profissão de economista.

Quando decidi fazer vestibular para Economia, ainda no segundo ano do Segundo Grau - e lá se vão vinte anos - minha idéia era a de ter ferramentais que me possibilitassem entender melhor a sociedade e agir para modificá-la.

Além disso, sempre fui - e sou - apaixonado por política e por políticas públicas. Os leitores do Ouro de Tolo, volta e meia, são perturbados com exercícios teóricos nesta linha, de tentar entender o que se passa na vida econômica e social brasileira e extrair análises e sugestões de políticas a serem desenvolvidas.

À época, a profissão estava bastante vilipendiada devido às desastradas intervenções efetuadas na economia real pelas equipes de economistas governamentais e seus pacotes econômicos - Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão e quejandos.

Mesmo assim, optei por seguir a carreira. Depois, na UFRJ (foto acima), entenderia que a Economia era muito mais utilizada para manter o "status quo" do que para modificá-lo, entretanto fornecia parte do ferramental para isso caso estivéssemos interessados. A formação de um mercado interno de massa ocorrida nos últimos anos é um bom exemplo disto.

Inclusive vi um economista - que depois seria Ministro da Fazenda - dando uma palestra onde defendia que o equilíbrio financeiro da Economia estava acima de todas as outras coisas, inclusive do bem estar da sociedade. Ainda que, para se alcançar tal equilíbrio, tenham de haver mortes por falta de condições mínimas de sustentabilidade individual.

Formei-me com muito esforço e a minha vida profissional acabou seguindo um rumo que eu decididamente não imaginava quando fiz a minha opção, lá em 1990. Imaginava seguir carreira acadêmica ou em algum instituto de estudos como o IPEA, por exemplo. Contudo, o curso da vida acabou direcionando-me para outras opções dentro da área econômico-financeira e hoje trabalho na maior empresa brasileira, do que muito me orgulho.

Hoje trabalho mais com orçamento, gestão e controles do que com Economia, mas a empresa em que trabalho me dá opções de, tempos em tempos, mudar de área.

Entre estagiário e empregado, lá se vão dezesseis anos de vida profissional. Não tenho do que me arrepender, apesar de algumas escolhas não terem se revelado muito acertadas neste tempo. Entretanto, a melhor escolha eu fiz.

Também tive sorte de cursar uma escola que mostrava todas as correntes de pensamento econômico, e nos dava opções de discernir qual a mais adequada. Tornei-me anti-liberal e simpático à linha keynesiana, que grosso modo advoga que o Estado deve ter um papel indutor da Economia e garantidor do bem estar social da população.

Em política, me defino como social-democrata.

Hoje, quem for estudar Economia deve prestar atenção porque, sob este nome, existem duas escolas: as faculdades de Economia propriamente ditas e as escolas de Finanças, voltadas ao mercado financeiro.

Quem optar por uma escola do segundo grupo, a meu ver, perderá duas das maiores vantagens do economista, a saber: a visão ampla que permite transitar por todos os aspectos da vida empresarial e a formação básica na teoria econômica.

Em uma empresa, um economista consegue "jogar nas onze", ou seja, transitar por campos adjacentes de conhecimento. Essa formação ao mesmo tempo generalista e especialista é uma das grandes vantagens que temos. Sempre haverá mercado. Aliás, hoje um economista recém-formado tem muito mais facilidade de se colocar no mercado de trabalho do que na ocasião em que me formei - tempos de retração econômica. A disponibilidade de empregos é bastante superior hoje.

Sou um economista, e sou feliz por ter feito esta escolha de carreira. Antes que perguntem, se não tivesse seguido este caminho profissional talvez hoje fosse um professor de português e literatura brasileira, outra de minhas paixões - como os leitores podem ver nas "Resenhas Literárias"..."

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Reino dos Pneus


Era uma vez, um reino perdido no meio da Amazônia. Após uma sangrenta guerra com o Brasil, conquistou sua independência e desde então vive sossegado - em termos.

Este novo país possui algumas características diferentes em relação à maioria de seus congêneres: a maioria de casais é homossexual e os heterossexuais são minoria. Há funcionários do Estado que possuem como única função perpetuar a espécie no país. Seus principais produtos de exportação são a madeira e a exportação de profissionais para os carnavais carioca e paulista e, acessoriamente, o Festival de Parintins.

A jornada de trabalho é de apenas 24 horas semanais e o lazer é estimulado. Não há Poder Legislativo, sendo o poder exercido de forma absolutista pela Rainha Augusta Ribeiro I.

Outra característica, que dá nome ao país, é o fato de que todas as construções e utensílios são fabricados a partir de pneus velhos. O Reino importa todos os pneus usados consumidos no mundo, e a partir deles fabrica casas, utensílios domésticos, estruturas para as cidades e tudo o mais que se possa imaginar. O artesanato em pneus é bastante estimulado e outra fonte de divisas para o país.

Pois bem. A maior artesã do reino era a Princesa Consorte Júlia Schumacher, esposa da Rainha Augusta. Filha de alemãs, se apaixonou pela rainha e veio morar no Reino, estando juntas desde a independência.

Seu talento com os pneus era impressionante. Esculturas, arte pura, brotavam dos pneus velhos. Seus trabalhos eram vendidos por uma fortuna nas principais galerias de arte do mundo. Abaixo pode-se ver uma pequena amostra do talento da artista.


Eis que, um dia, a Rainha e Júlia brigaram. Entre puxões de cabelo e unhadas, a Princesa Júlia foi jogada ao calabouço e ali deixada, presa. Ainda sofreu torturas, como assistir durante sete dias seguidos o desfile da Viradouro de 2010 e ouvir durante vinte e quatro horas seguidas o "Rebolation".

A Rainha Augusta Ribeiro iniciou, então, um périplo pelo mundo. Ela dizia que era a verdadeira autora das peças e que deveria receber os recursos provenientes do aluguel e venda das mesmas. Não era nada irrisório: as peças chegavam a valer cerca de trezentos mil dólares, dependendo do tamanho e do trabalho dispendido.

Em cada galeria a Rainha era olhada com descrença. Sua história era de que atribuíra as peças à esposa a fim de lhe proporcionar algum tipo de satisfação pessoal, pois a vida de princesa consorte era muito modorrenta - eventos no Palácio Real, leituras, viagens, compras ilimitadas e sexo. Assim, em um gesto de magnanimidade ela abrira mão da autoria das peças, dando à Júlia a glória mundial.

Com a briga e o divórcio, a Rainha resolvera assumir que era a autora das peças. Entretanto...

Ela não contava com uma ferramenta simples chamada "Google". Os merchants fizeram uma consulta rápida a este site e viram fotos das esculturas e da Princesa Consorte trabalhando na elaboração das mesmas. A Rainha foi desmascarada e as contas bancárias do país no exterior foram congeladas. Com o apoio da Alemanha aprovaram-se sanções em tempo recorde nas Nações Unidas..

Como nos dias de hoje tudo é muito rápido, a notícia se espalhou pelo Facebook e pelo Twitter e rapidamente chegou ao Reino dos Pneus. Foi a senha.

Trabalhadores expatriados retornaram da Cidade do Samba com um exército de índios, egípcios e negros libertados da escravidão nos barracões da Beija Flor, da Imperatriz Leopoldinense e da Grande Rio. Os guerreiros enfim livres, comandados pelo batalhão de carnavalescos, aderecistas e pavões invadiram o país e empreenderam uma sangrenta guerra com as forças leais ao Reino, rapidamente derrotadas - suas armas pneumáticas não foram páreo para os tacapes e os mapas de notas empunhados pelas forças leais à Princesa Schumacher.

A Rainha Augusta Ribeiro I voltou rapidamente ao país, mas não havia tempo. Desceu rapidamente e foi presa por uma portentosa índia, que havia sido estrela do abre alas da escola nilopolitana anos anteriores. Foi levada para o Presídio de Goodyear e, após julgamento sumário, exilada para a Barra da Tijuca.

A Princesa Júlia foi libertada, assumiu o reino e casou-se em segundas núpcias com a índia que prendera a soberana anterior. Seus trabalhos aumentaram grandemente de valor, e seu governo levou grande progresso ao país.

Foram felizes para sempre.

P.S. - Qualquer semelhança com fatos ou personagens reais é mera coincidência.

A demolição do Maracanã e do Sambódromo


Ontem, dando aquela folheada rápida no jornal que faço toda manhã - sou assinante do Lance - vejo que a reforma do Maracanã a se iniciar proximamente custará a bagatela de R$ 705 milhões, fora os já costumeiros "estouros" de orçamento. Será a terceira grande reforma nos últimos dez anos, gerando um gasto de quase R$ 2 bilhões em reformas.

Há alguns anos atrás o ex-Presidente da CBF (antigamente, CBD, Confederação Brasileira de Desportos) e da FIFA João Havelange deu uma entrevista defendendo a implosão e posterior reconstrução do estádio, em moldes modernos. Exatamente como foi feito com o mítico estádio de Wembley, do qual só sobraram as torres da entrada. Á época o veteraníssimo dirigente foi muito criticado por esta idéia, inclusive por mim. Mas...

Já contei aqui a visita que fiz à Arena da Baixada quando estive no Paraná a trabalho. Hoje o que há de mais moderno em estádios é o conceito de arena, onde além da partida em si há toda uma gama de produtos e serviços disponíveis. Você pode jantar no estádio, fazer compras e até se exercitar em uma academia, por exemplo. O estádio paranaense possui todas estas opções, além de todos os seus lugares oferecerem visão perfeita do campo.

O Maracanã não tem nada disso. Seus bares são em formato "barriga no balcão", não há a opção de se fazer uma refeição mais substancial - aliás, fora amendoins e batatas fritas industrializadas, pouco há o que se comer - e não há uma única loja comercial. Se o espectador quiser comprar uma camisa do Flamengo, por exemplo, não pode, porque não tem onde comprar. Até a Vila Capanema, que é um estádio pequenininho e de concepção antiga tem uma lojinha de produtos oficiais do Paraná Clube.


Outro problema do estádio é a visão do campo. Experimente assistir a um jogo do último degrau das arquibancadas ou dos improvisados camarotes, e o leitor entenderá o que estou falando. Somente com binóculo. Após a última reforma as cadeiras possuem uma boa visão do campo, mas em outros setores do estádio pode-se ter problemas.

Aí eu faço a pergunta ao leitor: não sairia pelo mesmo valor desta próxima reforma derrubar o estádio e reconstruí-lo, mantendo-se a fachada externa ? Ainda se corrigiriam os problemas de posicionamento dos lugares e adaptaria-se a estrutura aos requisitos de uma arena moderna, com restaurantes, "mini-shopping" e um edifício garagem - corrigindo outro problema crônico do estádio. Abaixo, em montagem do Globoesporte.com., pode-se ver como ficará o Maracanã após mais uma reforma.


Os mais puristas poderiam alegar que "o estádio e sua história precisam ser preservados". Informo que nesta próxima reforma a separação entre as antigas arquibancadas e as cadeiras deixará de existir, tornando-se uma coisa só. Na prática, teremos um novo estádio por dentro, mas mantendo-se os problemas do antigo.

A um custo exorbitante e que talvez demande mais uma reforma para os Jogos Olímpicos de 2016, embora a Suderj alegue que as exigências da Fifa sejam superiores às do COI.


Outra estrutura de entretenimento que precisa ser repensada é o Sambódromo.

Projetado por Oscar Niemeyer, basta uma olhada na sua formatação para se perceber que o genial arquiteto jamais havia assistido a um desfile de escolas de samba na vida. As arquibancadas são pequenas, não permitem que o folião sambe nelas; e ao mesmo tempo são muito distantes do desfilante, tirando esta interação entre o público e o componente que é importantíssima para a festa. As frisas, próximas, são formadas por um público normalmente alienígena à festa - lembrando que originalmente aquele espaço era destinado a uma imensa "geral" para se assistir em pé ao desfile. O desfile ficou frio.

Paralelamente ele foi construído a "toque de caixa" e sem a necessária reflexão sobre o uso do espaço. Sabe-se que ele foi projetado, em especial a Praça da Apoteose, para ser um espaço de reunião política naqueles tempos pré-redemocratização. Entretanto, hoje os tempos são outros e se faz necessária a adaptação para ele ser o que realmente é: uma avenida de desfiles. Outra questão é que a capacidade dele, hoje, é ridícula e em muito superada pela demanda anual de lugares.

O Sambódromo possui outros problemas. Os banheiros são acanhadíssimos, também não há restaurantes - é o mesmo formato de bares descrito acima - e os quiosques são claramente improvisados, não funcionando fora dos dias de carnaval. O escoamento da água da chuva das arquibancadas é em frente aos bares, em área de passagem.

Na verdade, a estrutura como um todo é inexistente. O Sambódromo deve ser o único espaço de entretenimento do mundo que não possui uma única vaga de estacionamento. O entorno é formado por ruas estreitas e que possuem problemas de segurança. Aqueles que vão assistir aos desfiles e concomitantemente desfilar não tem lugar para trocar de roupa, tendo de fazer em qualquer lugar, à vista de todos.

Os carros alegóricos são obrigados a fazer uma curva de 90º para adentrarem o Setor 1 e as escolas que fazem a sua concentração do lado do edifício "Balança mas Não Cai" ainda tem um viaduto no meio do caminho, ou seja, a montagem final das alegorias obrigatoriamente é feita praticamente na entrada da Passarela.

Em minha opinião a intervenção no Sambódromo precisa ser radical, envolvendo não somente a passarela em si quanto o entorno. Fazer uma nova obra, criando uma estrutura para os desfiles dentro e fora da passarela. Jogar abaixo as arquibancadas e camarotes e reconstruí-las de maneira a atender ao seu propósito, algo que não existe hoje. Aproximar o público do desfilante e aumentar a capacidade de público. Criar estruturas de guarda de fantasias, troca de roupas, restaurantes e lojas que funcionem o ano inteiro. Estabelecer no entorno um edifício garagem de forma a permitir o uso do carro, como em qualquer espaço de entretenimento mundial.

A reforma prevista para os Jogos Olímpicos prevê apenas a derrubada do Setor 2 de camarotes e a construção de novas arquibancadas. Mas isto é muito pouco para adequar o Sambódromo às necessidades requeridas para sua utilização plena. A única solução é demolir e recomeçar do zero. Sei que a Passarela de Desfiles é tombada mas este é o único caminho que vislumbro.

Pelos motivos expostos acima que sou a favor da demolição e posterior reconstrução tanto do Maracanã quanto do Sambódromo. E espero com este post estimular o debate sobre o tema.


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Os perigos da reforma do Código Florestal"


Mais uma quarta feira, e mais uma coluna "Formaturas, Batizados e Afins", sobre ciência e tecnologia, assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas.

O tema de hoje é uma análise do projeto de lei do novo Código Florestal, que a se depreender da leitura  do artigo me parece uma tentativa de se fazer uma "grilagem legalizada" de terras. É algo muito importante e que o leitor precisa conhecer.

"OS PERIGOS DA REFORMA DO CÓDIGO FLORESTAL

É inegável o apelo de preservação do meio ambiente em todo mundo. O crescente desenvolvimento dos países aumentou muito o nível de poluição e já trouxe mudanças significativas em alguns fatores globais, como por exemplo, o clima. A cada dia novas notícias de alterações grotescas observadas como degelo nos pólos – esta semana um iceberg de proporções colossais se desprendeu de uma geleira da Groenlândia - calor intenso em regiões de frio constante, chuvas em excesso; e a nítida sensação de que o termostato do planeta Terra está visivelmente alterado.

Neste cenário o Brasil atrai e muito as atenções do mundo, não apenas pela exuberância de seus ecossistemas – com destaque para a Amazônia - como também pelo discurso preservacionista de nossas maiores autoridades. No entanto, como muita coisa aqui no País, muito se fala e pouco ou nada se faz, ou muito se fala, mas na prática se faz diferente.

Apoiado por um grupo de Deputados, Senadores e empresários do agro-negócio (a chamada bancada ruralista), tramita no Congresso uma proposta para alterar o Código Florestal Brasileiro, que data de 1965. De acordo com esta proposta seriam transferidos para os Estados importantes poderes no estabelecimento das políticas de proteção florestal, que hoje são da responsabilidade do Governo Federal. Este simples redirecionamento da política ambiental pode significar um perigo conforme alertam cientistas e ambientalistas , uma vez que se poderia dar espaço para regras mais “brandas” e de conveniência regional em relação ao avanço da atividade agropecuária sobre as áreas de floresta; cuja manutenção é vital para a manutenção do equilíbrio climático do planeta.

Dentre diversos pontos polêmicos, esta nova proposta de reforma concede anistia por multas aplicadas até 2008 para casos de violação do atual código florestal, bem como reduz drasticamente a área de floresta nativa que os fazendeiros precisam preservar em suas terras. Recomenda que os proprietários de terra agricultores ou pecuaristas dos estados amazônicos mantenham como reserva apenas 20 por cento das suas terras, e não mais os 80 por cento estabelecidos pelo código florestal vigente, que em muitos casos já não são respeitados.

Outro ponto de grande perigo é a redução da área de preservação às margens de rios ou nascentes, que poderia deixar de ser de 15 metros a partir da margem para incríveis e ineficazes 5 metros de área preservada nas vizinhanças destes corpos d´água. Diversos estudos mostram que o desmatamento desenfreado nas cabeceiras dos rios e lagos provoca em curto prazo desmoronamento das margens; com conseqüente assoreamento do rio que em pouco tempo acaba por reduzir a lâmina d´água, contribuindo para que este rio seque. Também, este desmatamento nas cabeceiras de rios e lagos ou lagoas leva à desertificação e morte de nascentes; uma vez que a vegetação parece exercer importante papel na infiltração da água da chuva no solo, alimentando lençóis freáticos e mantendo a potencialidade das nascentes.

Assim, depois de alguma discussão que vem desde o ano passado uma Comissão especial do Congresso Nacional que teve como relator o Deputado Federal Aldo Rebelo (PC do B de SP), aprovou no mês passado os termos deste projeto, de maneira que esta proposta de reforma do Código Florestal brasileiro deva ser levada a plenário para votação ainda este ano, muito provavelmente logo após as eleições.

Esta proposta pode trazer problemas políticos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou para seu sucessor, visto que o novo texto aponta para pontos bastante polêmicos como os já levantados aqui nesta coluna, numa nítida contramão da preservação ambiental tão alardeada pelo Governo Federal aqui internamente e em outros países, em encontros Internacionais importantes sobre o tema.

Por exemplo, esta nova proposta prejudica compromissos já assumidos pelo Brasil, como as metas de redução dos gases de efeito estufa, e pode ainda prejudicar as negociações brasileiras na Cúpula da Biodiversidade (COP 10), que será realizada em outubro no Japão. Fora isso, estas novas diretrizes para a “preservação” das florestas surge num momento onde o Governo anuncia a redução em 49% da progressão do desmatamento da Amazônia, tendo-se como período avaliado os dois últimos anos. Um anúncio tão importante, mas que pode ser totalmente anulado por novas iniciativas de desmatamento legalizadas no texto desta nova proposta de reforma.

Opiniões contrárias ao novo texto classificam-no como “um desastre ambiental à luz dos conhecimentos científicos”. Isso não apenas pela evidente degradação de áreas ainda preservadas, e consequente perda de espécies nativas (Biodiversidade), como também do ponto de vista agrícola, pois as nascentes de água e as cabeceiras dos rios que são utilizadas para a irrigação, são protegidas pelas áreas de floresta preservadas, ou seja, a médio e longo prazo todos os lados perderão.


Apesar disso, os defensores da reforma dizem que ela proporcionará ao setor agrícola brasileiro mais competitividade por dar aos produtores mais acesso a terras “cultiváveis”, e ainda que na nova proposta existe um artigo que estabelece uma moratória de cinco anos para qualquer novo desmatamento, o que seria uma garantia de que não ocorrerá uma nova onda de desmatamento da Amazônia. Segundo dizem os agricultores, as regras vigentes para a proteção da floresta levaram muitos deles para situações de ilegalidade, e que a alteração do código florestal possibilitaria uma correção nesta distorção. Mas, sob que preço? Quais as garantias de que não vai mesmo acontecer uma corrida de devastação de áreas ainda preservadas?

Outro ponto bastante polêmico desta proposta é o que autoriza os Estados a legalizarem áreas que foram desmatadas ilegalmente, mas que estão produzindo. Assim aqueles agricultores ou pecuaristas que desmataram ilegalmente aquela área, passam a ter sua posse sem nenhum castigo ou multa. E é isso que deixa muitos cientistas e ambientalistas apreensivos, pois esta nova proposta para o Código Florestal cria a expectativa de que sempre vai haver anistias para aqueles que violaram e seguem violando a lei, uma espécie de incentivo ao descumprimento e a degradação ambiental.

Sem sombra de dúvidas o progresso do País passa por aumentar a capacidade de produzir alimentos, mas não se pode pensar só nas possibilidades de expansão do agro-negócio sem que sejam analisadas as consequências a médio e longo prazo que algumas destas novas normas trarão. Diferentes iniciativas de exploração de áreas de floresta já estão em curso, todas baseadas no manejo sustentável e na exploração consciente dos recursos.

Também a exploração da floresta em projetos de ecoturismo surgem como uma alternativa rentável, que promove o desenvolvimento, gera empregos e renda e não destrói os ecossistemas. São ainda iniciativas muito pontuais, mas que já mostram grande sucesso. Pegar estes exemplos e colocá-los em escala maior poderá significar uma guinada não apenas para o lado da preservação como para a melhoria dos processos de produção agrícola e de pecuária. Aliar o desenvolvimento sustentável com a preservação ambiental é o grande desafio destas nações em desenvolvimento, para que não venham a padecer dos mesmos problemas que outras nações com pensamentos imediatistas tiveram por conta de escolhas erradas num passado recente.

Não se pode privar o País de se desenvolver, mas não se pode por em risco a nossa biodiversidade e o nosso equilíbrio ecológico. Que os políticos ouçam as opiniões técnicas e científicas dos especialistas no assunto e não apenas coloquem na mesa os interesses de uma classe que apesar da vantagem aparente, trará sim graves consequências  para o Brasil e por tabela, para todo o planeta.

Até a próxima
Marcelo Einicker Lamas"

 1* Farei uma distinção de cientistas e ambientalistas pois considero ambientalista, aquele que abraça a causa da ecologia e da preservação mesmo sem ser um profissional ligado a esta área como um Biólogo, Engenheiro Florestal, Geólogo, etc. Vários ambientalistas sequer possuem formação superior, mas tem uma destacada atuação em defesa da Natureza."

terça-feira, 10 de agosto de 2010

É a Economia, estúpido !



Reproduzi no título deste post o que o marqueteiro da campanha presidencial de Bill Clinton disse ao mesmo quando da definição das prioridades daquela campanha presidencial de 1992. A idéia era chamar a atenção para o fato de o que realmente importava ao eleitor era se ele estava com emprego e dinheiro no bolso para consumir.

Pois bem. Sábado último estive às pressas no Ilha Plaza para comprar os presentes do meu pai e do meu sogro. Eu costumo brincar com os insulanos "de nascença" que este shopping não passa de uma galeria comercial, e que sua frequência era basicamente de jovens abaixo de dezoito anos e idosos acima de sessenta - ou seja, basicamente, aqueles que não podem ou não querem dirigir para fora da Ilha do Governador...

Faço este preâmbulo para dizer que raríssimas vezes vi este shopping - vá lá - lotado ou mesmo muito cheio. Nem em épocas de Natal se observam as multidões encontradas no NorteShopping ou no Nova América.

Qual não foi a minha surpresa ao chegar sábado último e ver o Ilha Plaza absolutamente lotado. Ainda consegui encontrar vaga para o meu carro sem grandes dramas, mas não havia aquela fartura de lugares como existe habitualmente.

As lojas, todas, muito cheias. Mesmo a Centauro, que é imensa para os padrões do Ilha Plaza, estava com muita gente - e muita fila para pagar. Os corredores e as lojas cheios, e as pessoas com sacolas de compras.

O leitor mais atento deve estar se perguntando qual a relação entre o shopping cheio verificado no último sábado e o marketing de campanha. Total.

Como mostro no gráfico acima, da Folha de São Paulo, tanto o rendimento real quanto a taxa de desemprego estão menores no último mês de junho em relação a janeiro de 2009. Hoje o rendimento médio real é de aproximadamente R$ 1.430, com uma taxa de desemprego de 7%. Lembro aos amigos que uma taxa de desemprego de 0% nunca se observará, porque há pessoas que estão trocando de emprego ou que não se sujeitam à labuta ao salário de equilíbrio para uma dada função.

Em um ano e meio o rendimento real subiu R$ 20 e a taxa de desemprego caiu 1,5%. Parece pouco, mas significa uma massa de recursos bastante expressiva na economia nacional, que movimenta o consumo, estimula as empresas a investirem e a empregarem. Um círculo virtuoso. Observem que a taxa ainda esteve menor para o mês de abril, chegando a 6,5%.

Como no Brasil há a percepção de que "os políticos são todos iguais"; ou seja, o discurso da ética e da honestidade não exerce hoje determinação expressiva sobre a definição de voto, a população tende a votar "olhando para o bolso". É exatamente o que as últimas pesquisas de intenção de voto para a Presidência apontam.

Uma ressalva: acredito que o padrão moral do governo atual ainda é superior ao anterior. Lembrem-se de que no Governo Lula a Polícia Federal pôde trabalhar e a imprensa não estava silenciada por adesismo como  nos Anos FHC. Mas é evidente que temos problemas, muito devido ao nosso modelo político - sobre o qual já escrevi aqui.


O gráfico acima, do Dieese (Departamento Inter-Sindical de Estudos Estatísticos), é ainda mais claro. Tomando-se como base o ano de 1999 para o número índice "100", hoje temos um nível de ocupação 25% maior, o rendimento médio real 10% maior e a massa salarial ainda 10% menor.

Entretanto, todos são números superiores ao final de 2002, quando Fernando Henrique Cardoso encerrou seu mandato na Presidência. O Governo Lula marca um período de recuperação tanto do emprego quanto da renda, com a formação de um mercado consumidor interno de massa e a geração de um círculo virtuoso que eu descrevi acima.

Um dado que chama a atenção é que o rendimento médio real - grosso modo, o salário médio, descontado a inflação - subiu aproximadamente 33% no período do governo atual. É um número que chega a ser espetacular levando-se em conta que neste meio tivemos a grava crise mundial de 2008/09 - e que aqui foi uma "marolinha".

Com estes números a gente entende a dificuldade do principal candidato de oposição em construir um discurso que se torne competitivo. Apesar da intensa campanha a favor da grande mídia - que jogou às favas o seu papel de informar e mergulhou de cabeça na campanha de José Serra - a coligação PSDB/DEM tem grande dificuldade de falar às massas; justamente pela comparação da economia nos dois governos e pelo momento atual, onde um exército de consumidores - e eleitores - afluem aos shoppings e aos centros de consumo nacionais.

Salvo alguma grande crise econômica até as eleições - algo no que não acredito - diria que a candidata oficial possui boas chances de liquidar a fatura, talvez até no primeiro turno. O brasileiro - e aí me incluo - vai votar com o bolso.

É a Economia, estúpido !

(Gráficos: Tijolaco.com)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobretudo


Excepcionalmente na segunda feira, a coluna "Sobretudo", de autoria do publicitário Affonso Romero. Hoje temos Buenos Aires em 30 pílulas, abrindo uma série de textos do colunista sobre o tema.

"Vuelvo al Sur
 
Na última segunda-feira, voltei de uma breve semana de férias nos países ao sul do Brasil. Meu amigo Marcelo nem sabia disso e, por coincidência, pediu por email umas novidades que eu pudesse indicar sobre Buenos Aires. A resposta que eu enviei para ele divido com o nobre leitor. Com o peso valendo metade do real, a Argentina ficou uma opção realmente barata de viagem, mas acessível do que a maioria dos bons destinos brasileiros. Além do mais, eu adoro Buenos Aires e, por incrível que pareça, o povo "hermano". Portanto, as dicas valem para todos.
 
Aí vai minha resposta para o Marcelo:
 
Novidade, novidade, eu não tenho tantas para contar. Mas vamos a algumas observações que podem ajudar.
 
1 - Malba. Vale a visita, mas é "moderninho demais" Eu ainda não havia ido. Está rolando uma exposição de fotos de um cara chamado Robert Applethorp (isso?) que é muito boa. Também vale pelo Abapuru, por uns Riveras, um Bottero muito bom e por um quadro estranhíssimo com um sujeito andando de trem de pingente. A livraria/gift shop é bem legal.
 
2 - Estava chovendo na quinta e eu dei uma chance ao Museu de Belas Artes, próximo à Recoleta. De graça, museuzão à moda antiga, só quadro e parede. Bom pra cacete.
 
3 - B.Aires Design vale a ida. Pezzella, qual é o nome daquela loja na entrada (de cima), de onde desce a escada rolante? Pois é, esqueci o nome, mas tem umas coisas bem interessantes (algumas baratas), inovadoras, bem-humoradas etc.
 
4 - Fim de semana, a feirinha da Recoleta continua interessante. Bom no sábado.
 
5 - No domingo, Plaza Dorrego, em San Telmo. É para não deixar de ir de jeito nenhum. Antiguidades e curiosidades, além do melhor espirito argentino. Até aí, é lugar-comum. O que eu não conhecia, e valeu à pena, é o programa de descer a Calle Defensa até - acredite!!! - a Plaza de Mayo.


6 - Começe pela própria Plaza e ruelas em volta. Depois, siga a Defensa, que é uma das ruas que circunda a praça. Vá em direção ao Centro. Na primeira quadra, a coisa vai mudando de cara, com uns antiquários mais chiques, muitos deles fechados no domingo, mas vale a vista dos lustres, móveis etc. Logo logo aparecerá, à esquerda, um corredor imenso que leva até o antigo mercado de San Telmo. Lá, a coisa é mais verdadeira que na praça. Há velharias de todos os tipos, misturadas a açougue, barraca de verduras e frutas, padaria etc. Entre, circule e saia pelo mesmo corredor.
 
7 - Em frente (ou quase), na saída, uma loja de roupas para festa, ou esquisitices mesmo. Tem umas coisas doidíssimas, óculos em forma de estrela, sapato de palhaço e coisas boas de ver e impossíveis de usar. Também tem uma galeria, ali perto, em que a mania portenha por cartazes antigos e quetais é levada ao extremo.
 
8 - Há uma transversal, que eu não lembro o nome, em que estão alguns prédios antigos onde fica a faculdade de cinema. É a única rua onde as barraquinhas também ficam lado a lado. Não é por isso que você entrará lá. É pela lojinha de filmes e livros argentinos, um pequeno santuário ao cult. Mas só abre lá pelas 2 da tarde. Em frente, uma lojinha de aluguel de bikes, todas da cor laranja, bem fotografável.
 
9 - Deve estar lá há anos, mas eu não sabia que a Defensa toda virava uma feirinha. As antiguidades vão dando lugar ao artezanato e quinquilharias para turista em geral. Ao fim, se a perna estiver inteira, vale o passeio pelo quarteirão histórico de Montserrat, ou seja, Rosada, e entornos da Plaza de Mayo.
 
10 - Comi direitinho, que é impossível comer mal em Buenos Aires, mas eu nunca entro numas de gastar os tubos e comer sempre em lugares chiques. Entretanto, como eu estava hospedado na Recoleta (Etoile Hotel, eu particularmente gosto muito, excelente relação custo-benefício - para quem prefere, como eu, não ficar no Centro, mas perto dele), eu acabei me curvando ao desejo de comer no La Cabaña. Fui com fome num fim de tarde  (andei, andei e esqueci de almoçar), entrei meio cabreiro, porque parecia fechado apesar da placa na porta dizer que o horário de abertura era do almoço até tarde da noite, direto. Uma dona passava aspirador de pó no salão gigantesco, e parece que eu atrapalhei-a, porque ela recolheu o equipamento enquanto o maitre ajeitava a gravata e vinha me atender, oferecendo uma mesa no salão dos fundos. Éramos eu e Mara sozinhos no restaurante, com todos os mimos de graçons e demais profissionais disponíveis. Fomos tremendamente bem tratados, com uma babação que chegou a constranger. Comi um T-Bone quase perfeito, uma peça de 1kg de carne (com o osso), um exagero de tamanho e sabor. Além de ter pedido Coca-Cola, os caras devem ter ficado horrorizados com o (mau)-jeito para usar a faca e cortar a carne.
 
11 - Vá na Confiteria Ideal no final da tarde, para ver a velharia dançar tango. Nada de show, nada para turista, só gente do povo dançando de verdade. Não fui dessa vez, mas no ano passado, por recomendação do Pezzella. Foi umas das melhores experiências da minha vida me sentar naquela cadeira poída, beber uma cerveja e simplesmente ver o baile na happy-hour.
 
12 - Também no ano passado, fui ao passeio Museu-estádio do Boca. Vale o passeio, e é a única coisa que me levaria ao bairro da Boca, que de resto é tudo caça-turista. A gente vai por "obrigação".



13 - Vá na livraria Atheneo Splendid, na Santa Fé. Aproveite e beba um chocolate. Livraria lá é coisa séria, até os jovens vão para ler e paquerar.
 
14 - Em agosto, tem o campeonato mundial de tango. Se eu estivesse lá, eu iria.
 
15 - Atrás da Plaza San Martin, perto da entrada da Florida, não me pergunte o nome da rua (mas eu acho que é exatamemte Calle San Martin) onde tem uma igreja (sempre fechada) onde os caras contam que são os grandes casamentos dos ricaços de lá. Bem atrás do Ed. Cavenagh. Ok, subindo um pouco mais a rua, você chaga à Pizzaria Filo, com uma decoração única, umas garçonetes antipáticas com tatuagens grandes, que vale a visita. Ela fica entre um Resto-Bar cubano e um Pub irlandês, que têm cara boa, mas eu nunca fui. Em frente, uma lojinha que tem camisas de futebol em bom preço e diversidade. Vá pelo menos na Filo, a pizza é boa além de tudo.
 
16 - Na primeira quadra da Florida, próxima à Plaza San Martin (veja o Edifício Cavenagh, mas é só para ver mesmo), é o único trecho (a meu ver) em que o assédio ao turista é insuportável. Todo mundo quer te empurrar tudo, te chamam para dentro de lojas suspeitas, este tipo de coisa desagradável. Mas é neste trecho que, não por acaso, à direita de quem vai da San Martin para as Pacífico, há uma galeria boa para se comprar uma malha para a sogra, uns presentinhos do tipo "estive-por-lá-e-lembrei-de-você".
 
17 -  No final da Florida, tem umas lojas mais caras de sapato e couros que valem uma olhada. Não para comprar, mas para te inspirar a encontrar a mesma coisa (ou parecida) em lojinhas mais baratas. Mas a galeria em que fica o Piazzola Tango é bacana, tem umas coisas diferentes, charutos, boinas e gravatas.
 
18 - No meio da Florida, eu encontrei um artista napolitano que reside há uns anos na Argentina que faz uns desenhos à lápis e caneta, tamanho A4, e vende por uma bagatela inacreditável. Ele tem uns 50 e tantos anos, o nome é Antônio, se encontra-lo por lá, acredite, vale parar e escolher um quadro.
 
19 - Agora tem montes de quiosques e lojas da Havanna no Brasil (pelo menos, em SP). Vulgarizou, mesmo porque os alfajores e cafés desta marca são onipresentes em Buenos Aires. Eu sugiro experimentar os alfajores da Abuela Goye que é, antes de tudo, uma fábrica de chocolates inacreditáveis de Bariloche. Há uma loja da marca numa esquina da Florida, mas você pode comprar estas preciosidades na praça de alimentação das Galerias Pacífico. Imperdível.
 
20 - No mesmo piso, fora da praça de alimentação, você tem um quiosque de café que serve expressos feitos com pós selecionados, com menu e tudo, de quatro cantos do mundo. Bebi um colombiano muito bom, mas sugiro um jamaicano que a Mara bebeu, nem precisa adoçar.
 
21 - Lá também tem uma Freddo, e é inaceitável ir a Buenos Aires e não comer um sorvete Freddo, de preferência de doce de elite, você sabe. O que talvez você não saiba, e eu não sabia, é que o café expresso da Freddo, além de ser ótimo, vem acompanhado de uma mini-bola deste sorvete. Mas sugiro esta experiência no último piso do Pateo Bullrich, já que é a única coisa que um mortal vai poder comprar por lá mesmo. rsrsrsrsrs Ou, então, na Freddo do Abasto, também no último piso, olhando para a visão meio non-sense da mini-roda-gigante interna. Aliás, no mesmo lugar tem um McDonalds com cardápio kosher, se isso te serve para alguma coisa.
 
22 - Vá no Café Tortoni e, até aí, a dica não tem nada de nova. O que talvez seja diferente é descer direto no Metrô, bem em frente, e tomar a direção do Congresso. São só duas estações, mas vale o passeio porque é a linha mais antiga de Metrô do Hemisfério Sul, e os trens são antiquíssimos, as portas são fechadas e abertas com as mãos. Uma pequena viagem no tempo, quase de graça.
 
23 - O taxi continua também a preço de banana. Uma das minhas diversões em Buenos Aires é puxar assunto com os motoristas. É só perguntar para qual time o cara torce e ele vira seu amigo na hora. Ou perguntar, mostrando interesse genuíno, quem deve ficar no lugar do Maradona na seleção.
 
24 - Os argentinos se interessam por nós umas 200 vezes mais do que nós nos interessamos por eles. Por isso mesmo, para quebrar aquele ar de superioridade que alguns deles têm, a forma mais sincera e simpática de se aproximar e conquistar a confiança deles (sempre bom com vendedores, profissionais do hotel, guias, maitres etc.) é demostrar conhecimento, ainda que superficial, sobre as coisas deles. Eu, por exemplo, curto muito o Fito Paez. Aproveitei para comprar o último CD do cara lá, o vendedor da loja ficou realmente feliz por eu ter perguntado pelo disco, e me contou em detalhes as novidades da carreira do cantor-compositor. Mas o que eu gosto mesmo é do bandeodonista Rodolfo Medeiros. Escolha umas figuras portenhas que você possa gostar, colecione algumas informações sobre eles, e use-os como seus embaixadores por lá.
 
25 - Eu não fui. Mas dizem que o brunch de domingo no Alvear Hotel - muito caro, mas possível para mortais - é coisa para não se esquecer nunca mais. O máximo de experiência que eu tive naquele lugar foi pedir, no ano passado, uma simples informação para o porteiro, e ele quase me carregou no colo de tão solícito e educado, me fez entrar e me encaminhou ao concierge, que também foi gentil apesar de nenhum dos dois saber o que eu queria saber. Este ano, vi uma propaganda do hotel na tevê do Uruguai e é de babar. Deve valer ir no brunch.
 
27 - Também ali perto, também de encher a boca de água, confira as deliciosas e cheirosas empanadas do El Sanjuanino, consideradas as melhores do país.
 
28 - Se você não conheçe o Jardim Japonês, tire uma hora para passear lá e descansar do mundo, mas tem que ser num dia de sol.
 
29 - Depois de longa reforma, o Teatro Colón foi reaberto para espetáculos (se tiver algum, vá, porque está entre as principais casas de concerto e óperas do mundo), mas não está aberto para visitação até setembro.
 
30 - Por mais estranho que pareça, ir no Cemitério da Recoleta é um programão. A entrada da frente está em obras.
 
Mas o que eu gosto mesmo em Buenos Aires é de andar meio sem destino, curtindo o som, o cheiro, os postes meio europeus e as construções da cidade. Este é o melhor programa da cidade, a meu ver. Aproveite e boa viagem."


domingo, 8 de agosto de 2010

Bissexta - "Contrato de Jogador de Futebol, uma Abordagem Crítica"


Domingo, Dia dos Pais, e mais uma coluna "Bissexta", assinada pelo advogado e diretor da Fla Manguaça Walter Monteiro.

O tema de hoje é uma análise sobre os contratos que regem a relação trabalhista dos jogadores de futebol. Claro, a foto é de Afonsinho, o primeiro jogador a se conscientizar da explorasção vivida no meio, no início da década de setenta.

"CONTRATO DE JOGADOR DE FUTEBOL – UMA ABORDAGEM CRÍTICA

O futebol chegou ao Brasil pelas mãos de Charles Miller no final do século retrasado, mas a primeira lei a tratar especificamente dos direitos trabalhistas de atletas de futebol só foi editada em 1964, quando os jogadores passaram a ter direito de receber 15% da receita obtida pelos clubes com a sua comercialização, o popular “passe”. E só em 1976, com o país já tricampeão e estrela máxima do esporte, os atletas passaram a ter uma completa legislação específica – a Lei 6.354/76, ainda em vigor em sua essência.

O contrato de trabalho do atleta de futebol guarda remotas relações com a Consolidação das Leis do Trabalho, CLT, aplicável aos demais trabalhadores brasileiros. A regra geral das relações de trabalho pressupõe, por exemplo, o princípio da isonomia entre os trabalhadores, tanto assim que é possível reivindicar a equiparação salarial sempre que um empregado exerça a mesma função que o outro e receba mais por isso. Como compatibilizar esse princípio entre atletas? Seria possível admitir que um Manguito recebesse o mesmo que um Zico? Ou, para ficar em um exemplo mais contemporâneo, que um Obina recebesse o mesmo que um Ronaldo Fenômeno?

É obrigatório que haja um contrato escrito, com um prazo mínimo de 3 meses. Em relação ao prazo máximo, antes havia uma limitação de 2 anos, mas essa restrição atualmente só é válida para o primeiro contrato assinado pelo jogador, com o clube responsável por sua formação. Daí em diante, o atleta é livre para celebrar contratos mais longos. A idade mínima exigida para o primeiro contrato é de 16 anos.

Ao contrato de atleta profissional se aplicam os direitos trabalhistas usuais, como férias, 13º, etc. Anteriormente à Lei Pelé, até a jornada de trabalho sofria a limitação semanal de 44 horas.
 
Em paralelo ao contrato de trabalho, os atletas de elite costumam assinar um contrato chamado de “direito de imagem”. Este contrato pouco tem a ver com modernas iniciativas de gestão de marketing e licenciamento, mas muito tem a ver com as arcaicas práticas do “jeitinho brasileiro”.

Para quem ganha muito, sobre o contrato de trabalho incide Imposto de Renda na alíquota de 27,5% e o empregador fica obrigado a recolher a contribuição previdenciária sobre o total da remuneração – grosso modo, isso faz com que o clube gaste uns 25% a mais com o jogador. Então ambos se unem no louvável propósito de enganar o Fisco, o jogador funda uma pessoa jurídica de fachada e essa empresa passa a receber os tais “direitos de imagem”, que acaba sendo a parte mais substancial da remuneração.

A desvantagem – e o jogador raramente se dá conta disso – é que essa parcela da remuneração fica totalmente desprotegida dos direitos trabalhistas, o que pode ser um embaraço em caso de atrasos no pagamento, demissões por justa causa e outros dissabores.

Para quem ganha uma fortuna, isso não costuma fazer nenhuma diferença. Mas, ao contrário do que o senso comum indica, a vida dos atletas profissionais de futebol é duríssima. Dados do Departamento de Registro e Transferência da CBF revelam que mais de 80% dos atletas recebem até dois salários mínimos – aliás, mais de 40% recebem apenas o salário mínimo, menos do que ganhariam se trabalhassem como contínuos, auxiliares de limpeza ou serventes na construção civil. Ganhando mais de 20 salários mínimos, só 3% da categoria.

Isso mostra que a realidade trabalhista dos jogadores de futebol é muito semelhante à da população em geral, imperando a alta concentração de renda para uns poucos felizardos e salários bem achatados para a imensa massa. Só que, ao contrário do servente, do contínuo e do auxiliar de limpeza, o atleta profissional de futebol tem uma carreira curta e nenhuma possibilidade de ascensão, pois se o servente ainda pode virar mestre de obras, o jogador começa e se aposenta jogador – só os tops conseguem contornar a exigência da Lei 8.650, que assegura o exercício da profissão de treinador de futebol aos profissionais de educação física.

Via de regra, os clubes de futebol são péssimos empregadores. Um levantamento de 2008 apontou que 10 clubes da primeira divisão tinham quase 3.000 processos contra si – só o Botafogo respondia por 723 demandas. Nessa seleta lista, engrossada por Flamengo, Fluminense, Vasco, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos, Atlético Mineiro e Cruzeiro, trabalha a nata do segmento.  O que dizer do resto?

No Piauí, por exemplo, o Ministério Público do Trabalho precisou intervir, porque os clubes somente contratavam na época dos campeonatos, sem qualquer vínculo formal e ainda tinham o descaramento de condicionar o pagamento dos jogadores à arrecadação das partidas, que imagino ser bem modesta, dado que estamos falando de enfrentamento de potências futebolísticas como Cori-Sabbá e Oeiras.

Toda vez que falo de futebol, algo que só devo fazer menos do que escovar os dentes, sempre tem um gaiato para se lamentar ter estudado tanto para ganhar tão pouco, quando um analfabeto pode ficar milionário. Eu lembro a ele que agradeça aos céus a chance de ter podido estudar e poder ao menos ter uma remuneração digna.  Porque, para cada Kaká ou Robinho, existem milhares de exemplos como o do goleiro Azul, que demitido do Treze de Campina Grande depois de meses sem receber salários, teve que vender seu aparelho celular para conseguir comprar uma passagem para ir a audiência cobrar seus direitos."

Dia dos Pais



Feliz Dia dos Pais !

Minhas pequenas, Maria Clara e Ana Luisa, que razão do meu viver são. E a meu velho Pai, Seu Pedro, meus votos de carinho.

sábado, 7 de agosto de 2010

Ainda Mangueira 85



Aqueles que leram o último post da série "Samba de Terça" viram que o autor havia prometido o áudio do samba concorrente derrotado na final, de autoria de Leci Brandão e Rody do Jacarezinho.

Pois acima o leitor pode ouvir a composição, transformada em MP3. Obviamente a fonte era uma fita caseira e a qualidade não é espetacular, mas é um documento que deve e precisa ser preservado.

E aqui você pode baixar o samba.

Relembro aos amigos a letra, abaixo:

"Abram alas pra esta mulher
Mais uma dama que desfila na Mangueira
Vejam só que linda criatura
No olhar, uma ternura
E na mente, uma bandeira
Fez a feminina revolução
Na arte deste meu país
Com sua garra e sua força-mulher
Canto o meu samba mais feliz
(eu sou é raiz)

O tango, a valsa e a polca
Pra quê, burguesia, pra quê?
Chiquinha Gonzaga no piano
Mostrava jogo e cateretê
 


Maestrina
Pioneira dos Direitos Autorais
Tão “Divina”
“Atraente” nos momentos musicais...
Liberdade...
Seu grito pela abolição
Que batizou o carnaval
E até hoje move esta nação

Roda Baiana
Roda e ginga sem parar
“Corta” este chão de poesia
“Eu sou da lira” e não posso negar"

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Final de Semana - "Manifiesto"



Quem acompanha o Twitter sabe que estou mergulhado na leitura de um livro que conta a história do ditador chileno Augusto Pinochet e suas atrocidades desde que assumiu a liderança do golpe militar de 1973 no Chile.

Sobre o livro, entretanto, falarei na resenha dele, que devo colocar aqui no início da semana que vem. Quero contar aqui uma história que é derivada deste golpe militar é que é bastante triste: a tortura e o assassinato do cantor e compositor Victor Jara (1932-1973), uma das maiores estrelas da música e da cultura chilena de então.

O cantor, que era filiado ao Partido Comunista Chileno, foi preso no dia seguinte ao golpe, levado ao "Estádio Chile", torturado, os dedos quebrados e as mãos arrancadas - para que nunca mais tocasse violão - e finalmente assassinado com cerca de trinta tiros no dia 16 de setembro, cinco dias após o mergulho chileno nas trevas.

Além de cantor e compositor Victor Jara era diretor teatral e fazia trabalho de conscientização cultural junto às comunidades mais pobres de Santiago.

Seu corpo foi jogado em uma estrada, reconhecido pela viúva e enterrado de forma discreta na presença apenas dela e das duas filhas do casal. Em 1990 com o início da redemocratização as circunstâncias de sua morte foram esclarecidas; e em dezembro do ano passado finalmente recebeu uma cerimônia digna de funeral, assistida por mais de dez mil pessoas em Santiago.

O estádio onde a barbárie foi perpetrada hoje leva o nome do cantor sacrificado.

Nossa música de hoje é uma homenagem a este artista que morreu pela democracia e pela liberdade. Sua voz foi calada de maneira cruel, sórdida e desumana, mas a obra ficou. O vídeo apresenta imagens do cantor entremeadas com registros do dia do golpe militar.

A letra está em castelhano mas o sentido dela é perfeitamente inteligível.

Manifiesto

"Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz,
canto porque la guitarra
tiene sentido y razón.

Tiene corazón de tierra
y alas de palomita,
es como el agua bendita
santigua glorias y penas.

Aquí se encajó mi canto
como dijera Violeta
guitarra trabajadora
con olor a primavera.

Que no es guitarra de ricos
ni cosa que se parezca
mi canto es de los andamios
para alcanzar las estrellas,
que el canto tiene sentido
cuando palpita en las venas
del que morirá cantando
las verdades verdaderas,
no las lisonjas fugaces
ni las famas extranjeras
sino el canto de una lonja
hasta el fondo de la tierra.

Ahí donde llega todo
y donde todo comienza
canto que ha sido valiente
siempre será canción nueva."

Cinecasulofia - "Cine Alumbramento"


Após um breve interregno, está de volta a coluna "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o blog de mesmo nome. Como sempre, texto assinado pelo cineasta, crítico e professor Marcelo Ikeda - em cuja homenagem publico a foto do estádio do Icasa, o "Verdão do Cariri".

"Pessoal,

seguem os textos que escrevi para o folheto crítico da última sessão do Cine Alumbramento... para quem não conhece, esse é um Cineclube que acontece na primeira segunda-feira de cada mês na Vila das Artes, e que exibe curtas cearenses, tendo um bate-papo com os realizadores após a exibição. E - uma coisa muito bacana - a distribuição de um folheto com críticas sobre os filmes exibidos.

Na Contramão, de Eudes Freitas

Eudes Freitas começou a se envolver com a realização audiovisual no Alpendre, mas seu trabalho acabou alcançando menor repercussão que os outros dois “meninos do Poço” – Marco Rudolf e Victor de Melo. Seu jeito tímido, de poucas palavras, o empurrou para trabalhos menores, e o posto de técnico do Núcleo de Produção Digital na Vila das Artes contribuiu por aprofundar essa situação. No entanto, seu trabalho merece ser melhor observado. Recentemente assisti a um curta que Eudes fotografou, Morpheu, de André Moura, e fiquei impressionado com a sutileza que Eudes imprimiu ao filme, especialmente nas cenas interiores, passadas no quarto do protagonista. Nessas breves oportunidades, Eudes mostra sua visão de mundo, para além das meias palavras. Na Contramão é o seu primeiro trabalho como diretor com uma maior estrutura de produção, contemplado no último edital da Secultfor, que comprova seu talento não só como fotógrafo mas também como realizador.

Podemos começar dizendo que Na Contramão é um trabalho abortado. Com isso, me refiro ao fato de que o projeto inicial do curta era realizar um documentário sobre um morador de rua no Centro da Cidade, com quem Eudes travou contato após uma tentativa de assalto. Não só Eudes não foi assaltado como acabou estabelecendo uma certa amizade com esse morador. Mas quando foi realizar seu curta, Eudes descobriu que ele havia sido assassinado. Talvez esse morador de rua fosse alguém com quem Eudes pudesse se identificar, pela sua marginalidade. A partir disso, Eudes e sua equipe vagaram pelas ruas do Centro à procura de um filme. Toda essa introdução se justifica quando percebemos que há uma presença fantasmagórica em todo o curta, uma procura incessante por algo que nunca será encontrado e uma tentativa humana de se posicionar diante disso.

Na Contramão é um filme duro com o espectador: não há um sentido de narratividade, as relações nunca se estabelecem, o Centro torna-se um espaço vazio, de portas fechadas. Para isso, são marcantes as escolhas de Eudes: filmar em preto-e-branco, à noite, estourando as luzes dos postes. Essas escolhas estéticas apontam para um projeto em continuidade com Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo, que também abandona seu projeto inicial (seu dispositivo) para se atirar ao encontro das impressões sensoriais trazidas pela Cidade. Mas ao contrário de Sábado, que buscava um esvaziamento do plano tanto na composição do quadro quanto no prolongamento da duração do plano, em Na Contramão, Eudes promove um outro esvaziamento, pela forma singular como estabelece seu distanciamento em relação às figuras sólidas que preenchem o plano. O quadro é preenchido ou por movimentos fugazes (carros, varredores, etc.) ou por grandes blocos maciços que preenchem o plano (outdoors, manequins, estátuas). Para tanto, ainda contribui o expressivo trabalho de edição de som de Marco Rudolf, que não se preocupa em simplesmente ilustrar o espaço, mas preenchê-lo de uma forma sempre inventiva, criando novas camadas de sentido.

Mas o que é notável em Na Contramão é que, se por um lado existe uma dor latente que percorre o filme, um sentido de abandono, há, por outro, todo um percurso em busca de uma beleza, ainda que frágil. Por trás de seu tom austero, é possível ver toda uma forma afetuosa de se relacionar com o espaço, o que o torna um olhar singular sobre os paradoxos do Centro da Cidade: um local abandonado mas ainda assim um ponto de encontro. Esse interstício entre um desejo de encontro e um ponto de fuga confere ao filme uma certa languidez, uma melancolia dura, uma desesperança rigorosa, como se esperasse um contracampo do olhar dos manequins que, aprisionados na vitrine de uma loja de departamentos, não podem responder, pois estão sem cabeça. São apenas um corpo, ou melhor, apenas um pedaço de plástico, abandonado no Centro de Fortaleza.

Fui à Guerra e Não Te Chamei, de Leonardo Moura Mateus, Roseane Morais e Luana Lacerda

Fui à Guerra e Não Te Chamei é fruto dos primeiros núcleos de produção do Curso de Cinema e Audiovisual da UFC, que teve seu início ainda neste ano de 2010. A cada período letivo, os alunos optam por um dos núcleos existentes – “Documentário”, “Ficção” e “Poéticas Contemporâneas” – realizando uma obra audiovisual orientados por professores do curso. Com isto, o curso da UFC já denota sua preocupação em alargar o horizonte da realização audiovisual, para além da dicotomia entre documentário e ficção. A terceira via, que geralmente é rotulada como o caminho do “experimental”, passa a ser chamada de “poéticas contemporâneas”. Leonardo Moura Mateus, Roseane Morais e Luana Lacerda foram os únicos alunos que se aventuraram pelo misterioso núcleo das “Poéticas Contemporâneas”, tendo sido orientados pelas Professoras Walmeri Ribeiro e Cristiana Parente.

Este vídeo conta com a imprescindível participação criativa dos atores-performers Andréia Pires e Daniel Pizamiglio. Recém-formados pelo Curso Técnico em Dança, o duo já havia encantado a todos na apresentação de seu trabalho de conclusão de curso – “Cavalos”, que contou com a participação de Leonardo MouraMateus. Ingressando no Curso de Cinema, Leonardo orquestrou uma proposta de vídeo extremamente integrada com o trabalho dos bailarinos. É exatamente essa comunhão entre o trabalho de direção e o de interpretação que confere ao vídeo sua brilhante organicidade.

Em Fui à Guerra e Não Te Chamei, Pires e Pizamiglio dão continuidade ao seu trabalho de criação, que se baseia em modulações entre o afeto e a violência, entre a poesia lúdica e o sarcasmo masoquista, entre o prazer e a dor. No entanto, essa tensão não é criada a partir de momentos estanques que meramente se sucedem, mas integrados no interior de cada movimento e na forma específica como um bailarino responde ao movimento do parceiro. Para tanto, baseiam-se num intenso trabalho de expressão corporal, em que a extenuação física ocupa o papel dos desafios dos limites da relação entre esse casal.

Este trabalho específico coloca todas essas questões em primeiro plano, simplificando seu mote inicial: uma briga de casal. Após separarem suas roupas (veremos mais tarde que na verdade tratam-se das armas de um duelo), o casal se enfrenta (isto é, frente a frente) atirando suas próprias roupas no parceiro. Se por um lado existe uma energia raivosa, por outro há uma certa ingenuidade, uma poesia que emana desses corpos como se estivessem fazendo amor. Trata-se de um ritual, um duelo ético, não muito distantes daqueles da época da cavalaria, em que um atira no outro partes de si, parte do que carregaram consigo dentro de suas malas, até que elas fiquem vazias, e sua fúria tenha se acalmado. Um ritual metafórico, metafísico, projeção do desejo, mas ao mesmo tempo um ritual realista, mediado pelos movimentos do corpo e pelos objetos físicos, que desferem golpes, punhaladas de amor inofensivas (às vezes nem tão inofensivas assim...).

Mas se de um lado há todo o trabalho corporal e de expressão pessoal dos bailarinos, por outro, há um desafio adicional: o de pensar essa “performance” para uma câmera, o de retratar esse universo através dos recursos da mise-en-scêne cinematográfica. E é aqui que as opções do vídeo se destacam pela sua inventividade. Após um início em que o processo de arrumar as malas é filmado em jump cuts necessariamente fragmentados, com momentos em que os atores falam e olham para a câmera, quebrando o ilusionismo clássico, o filme então vai para sua derradeira cena, em que o casal finalmente se enfrenta. Esse casal é filmado como se estivesse num palco do teatro, num grande plano geral que cobre o corpo inteiro dos dois atores, posicionados lateralmente à câmera. E mais: num único plano-sequência, sem movimento da câmera. Dessa forma, a princípio poderíamos ter a impressão de que se trata de um mero registro de uma performance. Mas existe uma diferença crucial: a cena se passa na área verde do Parque do Cocó. Essa simples escolha adiciona uma série de questões que se integram à proposta dos bailarinos: uma briga íntima que se passa num espaço público, o sol que ilumina e castiga o corpo dos atores, o espaço lúdico do verde do parque que insere camadas entre a ingenuidade, a poesia e a ironia (seria uma brincadeira de crianças?), e que, em última instância, provoca esse cruzamento de olhares entre a dança, a performance, o teatro e o cinema. Cruzamento maravilhoso, ambíguo, misterioso. Cruzamento simples. Vivo, porque vem da vida (quem não teve uma briga de casal? quem nunca se atirou na grama de um parque?). Como se não bastasse, nesse simples recurso, o vídeo dialoga com um certo cinema contemporâneo: o tom de humor naive e a floresta como espaço de libertação e de entrega aos sentidos do corpo caros ao cinema de Apichatpong, ou mesmo o diálogo ambíguo com o teatral na composição do cinematográfico, próprio de Manoel de Oliveira. Com isso, Fui à Guerra e Não Te Chamei consegue um equilíbrio muito raro, muito singular: sem deixar de ser extremamente respeitoso e integrado ao trabalho prévio dos bailarinos, transpõe esse conceito para o campo do cinematográfico."

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O lucro dos bancos e sua função: o balanço do Itaú Unibanco


Conversando ontem pelo Twitter com o candidato a senador Milton Temer (PSOL), ele havia difundido algo que faz parte do imaginário popular: que o lucro dos bancos é excessivo e que provém da rentabilidade dos títulos públicos federais elevada pela alta dos juros básicos - a Taxa Selic, sobre a qual falei recentemente.

Explicando ao leitor: o governo central possui uma carteira de títulos públicos na qual não somente gira as suas necessidades diárias de caixa como faz a sua política monetária aumentando ou diminuindo a quantidade de papel moeda em circulação.

Além disso, tal carteira serve para diminuir o efeito da entrada de capitais externos no país: a moeda forte trocada por reais poderia aumentar a quantidade de moeda em circulação, então emitem-se títulos de forma a manter o valor monetário em circulação em um patamar razoavelmente constante.

Irei mostrar ao leitor que este conceito era válido até 2002, mas que hoje em dia o lucro bancário advém em sua maioria das operações de crédito, não somente ao consumidor quanto a empresas. O crédito possui a função de fazer a economia "girar", possibilitando a ampliação não somente do consumo das famílias como do investimento das empresas na ampliação de sua capacidade produtiva.

Para isso, farei uma pequena análise do balanço de 30 de junho de 2010 do "Banco Itaú Unibanco", cujo valor recorde de lucro semestral foi utilizado pelo próprio candidato - em quem votarei, que fique claro - no exemplo.

Embora hoje eu trabalhe com petróleo, de 1995 a 2001 trabalhei na Atlantic Rating, a pioneira neste trabalho para bancos aqui no Brasil. Rating é uma análise de balanço que leva em consideração tanto os números de balanço quanto informações qualitativas obtidas em entrevistas denominadas "due dilligences". A empresa foi vendida em 2003 para a Fitch Rating, uma das maiores empresas mundiais do ramo. Aqui o leitor pode conhecer um pouco mais sobre o trabalho de análise.

Lá aprendi a 'ler' um balanço e a interpretar dados que ali estão, e é isso que farei de forma reduzida aqui neste post.


O ativo consolidado do grupo financeiro - que inclui o Unibanco, a empresa de cartões de crédito, a seguradora e outras atividades financeiras do grupo - alcançou aproximadamente R$ 651 bilhões no primeiro semestre de 2010. A demonstração consolidada é mais adequada por refletir o desempenho de todas as empresas do grupo.

Deste total, podemos dizer grosso modo que os direitos a serem recebidos até 360 dias - oprerações de curto e médio prazo - somam aproximadamente R$ 495 bilhões. Deste valor aproximadamente R$ 115 bilhões são em títulos públicos, R$ 57 bilhões em depósitos - o "compulsório" do Bacen - e R$ 145 bilhões de operações de crédito.

A provisão de créditos de liquidação duvidosa - parcela reservada para a cobertura de empréstimos não pagos - é de 8,3% do total no circulante, o que é razoável - até porque o Itaú tem histórico de conservador neste ítem.

O ativo realizável a longo prazo (mais de 360 dias) é formado em sua maioria por empréstimos, com uma carteira de crédito de R$ 94 bilhões - sobre um total de R$ 148 bi. A provisão para devedores duvidosos é de 9,3%.

Há um grupo expressivo de "Outros Créditos" formado basicamente de créditos tributários - R$ 27 bi.


O passivo do grupo financeiro, ou seja, o que ele tem "a pagar", tem em seu circulante R$ 337 bi - bem abaixo do ativo a curto prazo, o que indica uma boa posição - 1,46 de índice, ou seja, para cada R$1 que o conglomerado tem a pagar ele tem, grossso modo, R$ 1,46 para receber no mesmo prazo.

As principais captações são os depósitos de clientes ( R$ 124 bi) e as captações de títulos no mercado (R$ 92 bi). Levando-se em conta que estes depósitos são remunerados em média por Selic mais um fator dependendo do tipo de captação, temos o chamado spread.

Spread é a diferença entre o que ele paga para captar os recursos e a taxa que ele cobra para emprestá-los, seja ao governo (títulos públicos) seja aos tomadores de crédito. As operações mais lucrativas são as de cheque especial e cartões, que permitem que a concessão seja feita a 12, 13% ao mês até - para um custo de captação de 1,2%, no máximo.

Já para o empréstimo pessoal, com taxas de 3% em média o spread é menor, mas ainda compensador. Chama a atenção também o valor de R$ 25 bi referentes a faturas de cartões de crédito a serem pagas às lojas vendedoras.

No Exigível a Longo Prazo o quadro é semelhante, chamando a atenção apenas um valor significativo de provisões técnicas de seguros - 18,6% do total.

Seu Patrimônio Líquido é de R$ 55 bi, o que constitui em um Índice de Basiléia - que mede a solvência dos bancos - confortável de 15,7%. Groso modo, pode-se dizer que a alavancagem do grupo financeiro é de 4,73 vezes o patrimônio líquido para as operações de crédito e de 11,64 vezes para o ativo total. São índices que demonstram que o grupo ainda tem margem para ampliar sua carteira de crédito sem necessitar recorrer a aumentos de capital.


Agora vamos ao que interessa: o demonstrativo do resultado de exercício.

Vemos que a receita das operações de crédito foi de R$ 25 bi, contra uma receita com títulos de R$ 8 bi. Isto significa que, ao contrário do que ocorria nos tempos de juros básicos altíssimos, até 2001, 2002, hoje a maior parcela da receita dos bancos vem das operações de empréstimo.

Ou seja, é uma receita que advém de dinheiro utilizado para ampliar o consumo e o investimento do país, e não girando títulos públicos. Note-se que existem R$ 6 bi de prejuízo referentes a empréstimos não pagos e que o banco não espera mais receber, impactando negativamente o resultado global da instituição.

Também nota-se que a receita de serviços diversos - cartões, garantias e etc - garante a folha de pagamento do banco - os valores são praticamente os mesmos, cerca de R$ 6 bi. A recita de tarifas ficou em R$ 1,54 bi.

No final, pagaram-se R$ 2 bi de imposto de renda e contribuição social e chega-se a um lucro líquido consolidado de R$ 6,4 bilhões, com uma rentabilidade sobre o patrimônio de 11,64%.

Fica claro que hoje o Itaú Unibanco obtém seu lucro, basicamente, do spread nas operações de crédito, desfazendo-se a distorção que havia até 2002 de o resultado advir do giro dos títulos públicos. Banco que empresta e recebe de volta o valor emprestado é economia forte.

Obviamente que é uma análise bem grosseira, tanto que não comparei com os dados de 2009 disponíveis nem olhei a qualidade desta carteira de crédito. A princípio o conglomerado parece ter uma boa saúde, mas seriam necessárias análises mais aprofundadas, em especial dos empréstimos e da captação, para um vaticínio exato.

Entretanto, meu objetivo se alcança: mostrar ao leitor que banco pode sim ganhar dinheiro, desde que seja através de operações que lubrifiquem a máquina da economia e a permitam crescer e se desenvolver. Sendo assim é muito justo, embora este spread, a meu juízo, ainda seja alto demais.

Clique nas imagens para ver os números. E os demonstrativos completos, em pdf, podem ser baixados aqui.