domingo, 4 de julho de 2010

Máfia, Corrupção, FIFA e COI


Domingo, ainda com o impacto da eliminação brasileira - sobre a qual, se tiver paciência, falarei durante a semana - repercuto aqui entrevista publicada no jornal O Estado de São Paulo domingo passado com o jornalista escocês Andrew Jennings, especialista em questões envolvendo casos de corrupção na Fifa e autor de vários livros sobre o assunto - infelizmente, nenhum deles lançado no Brasil. Recebi a íntegra por e-mail durante a semana.

Recomendo vivamente a leitura da entrevista, pois esta contém fatos estarrecedores sobre a organização da Copa de 2014, as Olimpíadas e mostra um pouco do "modus operandi" da Fifa. Há uma outra entrevista com o mesmo jornalista na carta Capital da semana passada, mas infelizmente embora eu seja assinante da revista estou com a leitura atrasada e ainda não li a matéria. Mas fica a dica.

Boa leitura.

"A ginga perfeita dos donos da bola

A Fifa controla o dinheiro, marca os adversários e dribla a Justiça
 

Flavia Tavares, de O Estado de S. Paulo

Enquanto o English Team sofria para passar às oitavas contra a Eslovênia, o escocês Andrew Jennings desfiava o sarcasmo adquirido ao longo da vida de repórter investigativo na Inglaterra, na BBC e em grandes jornais. Com a pontaria muito mais calibrada que a dos artilheiros desta Copa do Mundo, o jornalista vai relatando casos de corrupção que apurou para produzir seus três livros sobre o Comitê Olímpico Internacional (COI) e outro sobre a Federação Internacional de Futebol (Fifa) – mesmo sendo o único jornalista do mundo banido das coletivas da entidade desde 2003.

Um dos escândalos relatados por ele em 2006, no livro Foul! The Secret World of Fifa (não traduzido no Brasil), teve um desfecho na sexta-feira. Altos dirigentes da organização máxima do futebol receberam propina, admitiu a Justiça suíça. Mas eles não serão punidos porque a lei do país, que é sede da Fifa, permitia o “bicho” na época.

Os figurões pagarão apenas os custos legais e suas identidades não serão reveladas. “É por isso que meu segundo livro sobre o tema será uma comparação da Fifa com o crime organizado”, conta. Ele optou por publicar a obra depois das eleições na entidade, em maio de 2011, embora duvide que alguém vá enfrentar o dono da bola, Joseph Blatter. “Ninguém ousa desafiar a Fifa porque eles controlam o dinheiro. E a imprensa cala”, dispara Jennings.

Em suas investigações sobre a Fifa, o que o senhor descobriu?

A Fifa é comandada por um pequeno grupo de homens – não há mulheres em altos postos da entidade e isso fala por si – que está lá há muitos anos. São homens em quem não devemos confiar e contra quem temos provas contundentes. Eles podem continuar no poder porque controlam o dinheiro. E tornam a vida dos dirigentes das confederações nacionais muito boa e fácil. Fico envergonhado porque ninguém se manifesta contra esse poder.

Como os dirigentes se manifestariam?


Zurique, sede da Fifa, é uma Pyongyang do futebol. O líder fala e os outros agradecem. Numa democracia é esperado que haja discordância, oposição. Na Fifa, não há. Eles têm um congresso a que, ironicamente, chamam de parlamento. São cerca de 600 delegados – acho que são 2 ou 3 por país representado, e são 208 países. Se você chegasse de Marte acharia que o mundo é perfeito, porque todos concordam. É vergonhoso. Nisso, a CBF é tão culpada quanto todas as outras confederações.

Que instrumentos a Fifa usa para manter esse poder?

A Fifa dá cerca de US$ 250 mil por ano para cada país investir em futebol. Na Europa, não precisamos desse dinheiro. A indústria do futebol fatura o suficiente para se alimentar. Mas é uma forma de a Fifa se manter. Esse dinheiro nunca é auditado. Na Suíça, a propina comercial não era ilegal até pouco tempo, apenas o suborno de oficiais do governo. O caso que eu conto no meu livro é justamente sobre um esquema de propinas pagas pela International Sport and Leisure (ISL), empresa que negociava os direitos televisivos e de marketing da Fifa. A história é cheia de detalhes, mas no final a ISL só foi responsabilizada pelo fato de gerenciar mal seus negócios enquanto devia para outras empresas.

Não houve punição?

Como eu disse, o pagamento de propina não era ilegal na Suíça. Portanto, não havia crime a ser punido. As acusações contra a Fifa foram retiradas e a entidade foi multada em 5,5 milhões de francos suíços (cerca de US$ 5 milhões) para custos legais.

Por que os governos não se envolvem ou a Justiça não faz algo?

Porque a sede da Fifa é na Suíça e a lei lá é muito permissiva. Para outros países, é inaceitável que esses homens se safem tão facilmente e que os altos dirigentes riam da nossa cara desse jeito. O que me deixa enojado é que os líderes dos países – o primeiro-ministro britânico, o presidente Lula e todos os outros – façam negócio com essas pessoas. Eles deveriam lhes negar vistos, deveriam dizer que não querem se relacionar com dirigentes tão corruptos. E tenho certeza de que, se os governantes se voltassem contra a corrupção da Fifa, teriam apoio maciço dos torcedores/eleitores.

Por que todos são tão complacentes?

Suponhamos que você seja uma torcedora fanática pelo seu time. Você vai à Copa do Mundo, mas como sempre há escassez de ingressos. Você então compra suas entradas de cambistas, mesmo sabendo que parte desse ágio vai voltar para o bolso da Fifa, já que ela é suspeita de liberar esses ingressos para os ambulantes. Você não pode provar, claro, mas você sabe. As pessoas não são estúpidas. Os governos menos ainda, eles podem investigar o que quiserem. Mas não investigam a Fifa porque os políticos simplesmente ignoram os torcedores. É o que já está acontecendo com a Copa de 2014. Qualquer brasileiro com mais de 10 anos sabe que a corrupção já está instalada. Por que ninguém faz nada?

Por quê?

É difícil saber. Se um país relevante enfrentasse a Fifa ela recuaria. Ou você acha ela excluiria o Brasil de uma Copa? Eles conseguem enganar países pequenos, esquecidos pelo mundo. Mas, se o Brasil dissesse não à corrupção, provavelmente a América Latina se uniria a vocês. E você acha que esses líderes latino-americanos nunca discutiram a possibilidade de um levante, de fazer o que os europeus já deveriam ter feito há tempos? Acho que lhes falta coragem.

O Brasil tentou fazer uma investigação, por meio de uma CPI.

Tentou e foi ao mesmo tempo uma vitória para o país e uma grande decepção, porque pararam de investigar no meio. O povo vai ter de pressionar os políticos a fazer algo. É realmente uma pena que o Brasil tenha chegado tão longe na investigação e tenha desistido no caminho. Havia provas para seguir em frente, para tirar a CBF das mãos do Ricardo Teixeira e, quem sabe, colocar auditores independentes lá dentro. A Justiça também poderia ser mais ativa. Por mais que eles tenham comprado alguns juízes, não compraram todos, certamente.

Sabendo de tudo isso o senhor ainda consegue curtir o futebol, se divertir com ele?


Sim, porque a corrupção não está tão infiltrada nos jogos, embora chegue a essa ponta também. Ela fica mais nos bastidores. Há exceções, como na Copa de 2002, em que a Espanha e a Itália foram roubadas grotescamente. Era importante para a Fifa que a Coreia do Sul passasse adiante. Não foi culpa dos jogadores, mas as razões políticas e econômicas se impuseram. Na Coreia, o beisebol é mais popular do que o futebol. Se eles fossem desclassificados, os estádios se esvaziariam. Neste ano, todos ficaram de olho nos jogos de times africanos. Blatter também precisa de um time do continente nas oitavas. A questão é que, quando assistimos às partidas, assistimos aos atletas, ao esporte, então, é possível confiar. É fácil punir um árbitro corrupto e a maioria não é corrompida.

Então, a corrupção não interfere tanto no esporte?


Cada centavo que os dirigentes tiram ilicitamente da Fifa ou das organizações nacionais é dinheiro que eles tiram do esporte e de investimentos. Portanto, estão desviando de nós, torcedores, e dos atletas que jogam no chão batido em países subdesenvolvidos. Eles tiram dos pobres.

É possível para os jogadores, técnicos e dirigentes se manterem distantes da corrupção no futebol?

Bom, o dinheiro normalmente é tirado do orçamento do marketing, não afeta jogadores e técnicos dos times nacionais. Uma coisa interessante é o comitê de auditoria interna da Fifa. Um dos membros é José Carlos Salim, que foi investigado muitas vezes no Brasil. Por que você acha que ele está lá? Para fingir que não vê.

A corrupção no futebol começa nos clubes e se espalha ou vem de cima para baixo?

Sempre haverá um nível de roubalheira em todas os escalões. Para isso temos leis e, às vezes, conseguimos aplicá-las. Mas a pior corrupção está na liderança mundial. Quase todos os países assinam tratados internacionais anticorrupção, mas não fazem nada quanto aos desmandos da Fifa e do COI. E, quando algum governante tenta ir atrás de dirigentes de futebol corruptos, a Fifa ameaça suspender o país. Só que ela faz isso com os pequenos. Fizeram isso com Antígua! Suspenderam o país minúsculo que ousou processar o dirigente nacional. Ninguém falou nada. Eu escrevi sobre isso porque tenho fãs lá que me avisaram do caso.

O senhor se sente uma voz solitária na imprensa?

Não confio na cobertura esportiva das agências internacionais. Em outras áreas elas são ótimas. Não no esporte. É uma piada. Apresento documentários com denúncias graves sobre a Fifa na BBC, num programa de jornalismo investigativo chamado Panorama, e dias depois a BBC Sport faz um programa inteiro em que Joseph Blatter apresenta alegremente a nova sede da Fifa em Zurique.

O senhor acompanhou a briga do técnico Dunga com a imprensa brasileira?

Não vou comentar o episódio porque não acompanhei de perto. Posso dizer que a imprensa inglesa e a da maioria dos países é puxa-saco. E sem razão para isso. A desculpa é que os editores têm medo de perder o acesso às seleções e à Fifa. Bobagem. Ora, eu fui banido das coletivas da Fifa sete anos atrás e ainda consegui escrever um livro e fazer várias reportagens. A imprensa deve atribuir as responsabilidades às autoridades. Se não fizer isso, é relações públicas. Tenho milhares de documentos internos da Fifa que fontes me mandam e não param de chegar. Por que só eu faço isso?

A cobertura se concentra mais no evento esportivo em si e nas negociações de jogadores?

Exato, também porque a chefia das redações tende a se concentrar nos assuntos de política nacional, internacional e na economia e deixar o esporte em segundo plano.

O que o senhor espera da Copa no Brasil, em 2014?


Há algumas semanas, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, deu um piti público cobrando o governo brasileiro para que acelerasse as construções para a Copa. Estranhei muito, porque não imagino que o governo brasileiro se recusaria a financiar uma Copa. Vocês são loucos por futebol, estão desenvolvendo sua economia, têm recursos e podem achar dinheiro para isso. Uma fonte havia me dito que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos, estavam de bem. Então, o que está por trás dessa gritaria? É pressão para o governo brasileiro colocar mais dinheiro público nas mãos da CBF. Mundialmente, as empreiteiras têm envolvimento com corrupção. Dá para sentir o cheiro daqui.

Três de seus livros são sobre as Olimpíadas. As falcatruas acontecem em qualquer esporte ou são predominantes no futebol?

Sou cuidadoso ao falar disso. Sei que a liderança da Fifa é muito corrupta – e venho publicando isso há mais de dez anos sem que eles tenham me processado nem uma vez sequer, o que diz muito. O COI era muito pior sob o comando de Juan Antonio Samaranch (morto em abril deste ano), que presidiu a entidade de 1980 a 2001. Ele era um fascista e o fascismo é, além de tudo, uma pirâmide de corrupção. Samaranch trabalhou ao lado do generalíssimo Franco. Essa cultura franquista e fascista se transformou em uma cultura gângster.

A corrupção no COI diminuiu com a saída de Samaranch?

Vou ilustrar com uma história. No meu site publiquei uma foto de Blatter cumprimentando um mafioso russo, em 2006, em um encontro com dirigentes do país. O russo foi quem fez o esquema em Salt Lake, na Olimpíada de Inverno de 2002, para que os conterrâneos ganhassem o ouro em patinação artística. Pois bem, Blatter, Havelange e muitos outros da Fifa são parte do comitê do COI. Essa é a dica de como a Rússia está agindo para sediar a Copa de 2018.

Foi assim que o Brasil conseguiu a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016?


Na votação em Copenhague, que deu a sede olímpica para o Rio de Janeiro, o nível de investigação jornalística foi ridículo, só víamos a praia de Copacabana com o povo feliz. Há um grupo no COI que já foi denunciado por receber propina no escândalo da ISL – e quem acompanha a entidade sabe quem eles são. Os dirigentes dos países só precisam pagar umas seis ou sete pessoas para conseguir o voto. Existe, com certeza, uma sobreposição entre os métodos da Fifa e do COI. Mas a cultura das duas entidades não é tão estrita quanto à de uma máfia, é mais como se fossem máfias associadas, apoiadas umas nas outras. Coca-Cola, redes de fast-food, Adidas, você acha que essas companhias não sabem o que está acontecendo? Eles não são estúpidos. A cara de pau é tamanha que Jacques Rogue, presidente do COI, disse em Turim, em 2006, que o COI e o McDonald’s compartilham os mesmos ideais. Será que ele não sabe quanto a obesidade infantil é um problema gravíssimo em vários países? Ou faz parte do jogo ceder a esses interesses?"

sábado, 3 de julho de 2010

Sobretudo


Sábado e, como de hábito, a nossa coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero.

Confesso que discordo do texto desta semana da primeira à última linha. Irei retomar o tema durante a semana, mas é esta obsessão por zagueiros, volantes e esquemas ultra defensivos que vem matando o futebol. E depois reclamam que as partidas estão cada vez mais chatas.

O importante, hoje, é destruir. Não deixar o adversário jogar. 

Penso que se pode montar uma equipe ofensiva e que seja competitiva, diminuindo os espaços e dando espaço para a técnica, o drible. Mas este é papo longo, para outra ocasião.

Mas vamos ao, como de hábito, excelente texto:

"Futebol de Resultados

Até 1970, o futebol era um. De 1974 para cá, é outro.

Em 1970, como cansamos de comentar a cada revival na Band, filme ou dvd lançado sobre aquela Copa, o Brasil teve espaços de sobra para jogar e desfilar seu talento. Mas tem um outro lado que muita gente esquece. A Copa foi disputada na altitude, e o Brasil era o time mais bem praparado fisicamente. Teve dificuldade para jogar em TODOS os primeiros-tempos. E venceu com sobras em TODOS os segundo-tempos.

O mérito, concodamos quase todos, foi da habilidade expecpcional de Pelé e companhia. Pouquíssimos se lembraram de dar os parabéns a Admildo Chirol, C.A.Parreira e Cláudio Coutinho, que cuidaram da preparação física da equipe. Ou à inventividade de Zagallo que, para escalar os craques, encheu o meio de campo de jogadores (5, numa época em que todo mundo jogava com 2 ou 3).

Poucos brasileiros sabiam disso, ou tiveram olhos para os aspectos tático e físico daquela conquista. Achamos, mais uma vez, que foi só criatividade e habilidade.

Mas os europeus, principalmente os holandeses, perceberam claramente o caminho. Em 1974, as principais equipes já eram fechadas, enchiam o meio de campo de jogadores e estavam aptas a correr o tempo todo, por todo o campo, marcando como se fossem 22 e atacando em velocidade. A Holanda eliminou o Brasil assim. Mas perdeu a final para uma Alemanha ainda mais mortal e aplicada na marcação, ainda que ambas fossem equipes muito talentosas.

O Brasil ainda passou anos e anos tentando resolver as coisas à moda antiga, até que caiu em si  e aprendeu a marcar. Ou, como querem alguns, aprendeu a "se nivelar" aos adversários. Sim, porque os adversários estavam um andar acima do Brasil de 1970 a 1994.

De 1974 para cá, foram 9 Copas e, EM TODAS AS NOVE COPAS um time forte na defesa, compacto, com o meio-campo cheio de jogadores que sabiam marcar, com um futebol feio e eficiente venceu. Duas delas, o futebol feio e eficiente, porém vitorioso, foi o do Brasil. Em outra, o Brasil chegou à final. Nas três primeiras, de 74 a 82, com um futebol que tentou ser tipicamehte brasileitro, com muitos craques entre os convocados, o Brasil rodou antes da final.

Das outras, em duas o Brasil saiu demonstrando ser um grupo sem objetivo e foco: 90 e 2006. Ou seja, independente dos jogos, fatores extra-campo tiveram peso grande.

Em todas as outras vezes em que o Brasil perdeu, a culpa foi da escalação defensiva, do desperdício de talento, da mediocridade do técnico medroso que abriu mão da tradição ofensiva e bela da escola brasileira.

Quando venceu, a vitória teria vindo APESAR de todos os erros dos técnicos, que abriram mão da tradição ofensiva e bela etc etc etc.

Há ALGUMA evidência que, em Copas do Mundo, de 1974 para cá, os times vencedores jogam feios e fechados, sejam eles o Brasil, um outro sulamericano ou um europeu. Mas o Brasil - e só o Brasil - deveria abrir mão de toda esta pobreza e continuar a perder jogando bonito. Em nome do "bem do futebol".

O Brasil já perdeu por tentar jogar bonito, e já venceu por tentar jogar feio. Mas, se jogar bonito e perder, "deu azar". Se jogar feio e vencer, "deu sorte". Se jogar feio e perder, cai o mundo. E, mais uma vez, a imprensa e os românticos vão tentar nos provar que o erro está em jogar fechado, apesar de, no final, a Copa sempre ser vencida por outro time que jogou feio e fechado. A teoria não bate com a prática, mas quem se importa?

Não havia este ano, nem houve em ano algum de 1974 para cá, nenhuma evidência de que a "tradicional escola brasileira", que a imprensa pede, levaria o Brasil mais adiante na Copa. Mas cada derrota (que, afinal, é do jogo) "provaria indubitavelmente" que o Brasil não pode jogar feio.

É um tipo de pensamento distorcido, porque não há um confronto real entre jogar feio x jogar bonito. No dia em que uma Copa do Mundo voltar a ser vencida por um time que "joga bonito" e ofensivamente, ok, teremos novamente este confronto de ideias.

Este ano isso até pode acontecer, com a Argentina ou a Espanha. Não levo nenhuma fé, mas possível é. Ainda assim, seria UMA vitória do futebol-arte contra outras NOVE derrotas para o futebol objetivo, amarrado e burocrático.

A seleção do Dunga era tão previsível e limitada como aquele do Parreira em 94, em que o Dunga levantou a taça como capitão. A de 94 deu certo, esta deu errado. É do jogo. Esta mesma seleção, tão previsível como sempre, derrotou a Argentina na casa deles, venceu uma Copa América, venceu uma Cpa das Confederações. Se havia algo errado, as outras estavam mais erradas ainda.

Se há algo "errado" é que o futebol não é tão científico e previsível. A Holanda, com a mesma proposta de jogo do Brasil (este time deles é muito criticado lá por quebrar a "tradição ofensiva" holandesa, não é divertido isso?), e com menos talento, teve mais equilíbrio para vencer. O maior defeito do futebol é, também, sua maior qualidade: o melhor, nem sempre, vence. Alguma ciência ajuda, é certo, mas nada é garantia de resultado.

Portanto, fiquemos com o resultado em si e continuemos a tentar aprender algo dos vencedores. A Holanda não nos venceu porque jogou bonito, aberta, ofensiva. Nos venceu porque errou menos, ou seja, jogou um "futebol de resultados" mais eficiente. Portanto, com um RESULTADO melhor.

No dia em que nós perdermos para alguém que joga a "tradicional escola latino americana", ofensiva, talentosa etc e tal (se é que isso existe de 1974 para cá), então muda o paradigma de novo. Até então, futebol em Copa é esta coisa chata em que quem erra menos ganha.

Esta é a lição para ser aprendida para 2014. Errar menos ainda."

Final de Semana - "Gracias a la Vida"



Nossa música para o final de semana é um tributo à música latino americana e, concomitantemente, a uma cantora que venho ouvindo nos últimos dias: Joan Baez.

Composta pela chilena Violeta Parra em 1966, originalmente como uma canção de adeus - a autora se suicidaria no ano seguinte - a canção na década de setenta ganhou conotação política como resistência à feroz e assasssina ditadura de Augusto Pinochet no país vizinho. As gravações de Joan Baez em 1974 e Elis Regina em 1975 trouxeram à canção o tom político presente em outras obras da autora.

Entretanto, "Gracias a La Vida" tem como gravação mais conhecida a da imortal cantora argentina Mercedes Sosa.

O curioso é que não falo espanhol e até pesquisar para escrever este post não conhecia nem a letra nem a história da canção - o que é uma falha imperdoável. Como ressaltei no post sobre Paulo César Pinheiro as músicas ganham vida própria e seguem a sua trajetória e a sua história. De canção de despedida, agradecendo em especial o dom da música ofertado, tornou-se hino de resistência política e de defesa dos mais pobres.

O vídeo - na verdade, um áudio com imagens - é da gravação da cantora americana, feita ao vivo em 1989. Disponibilizo a letra original e a tradução em português. Reflitam, reflitam e reflitam.

Também disponibilizo ao final o vídeo da gravação da cantora americana junto com Mercedes Sosa. E aproveito para dedicar este post à memória da autora, Violeta Parra.

Gracias A La Vida

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida, gracias a la vida

Graças À Vida

Graças à vida que me deu tanto
Me deu dois olhos que quando os abro
Distinguo perfeitamente o preto do branco
E no alto céu seu fundo estrelado
E nas multidões o homem que eu amo

Graças à vida que me deu tanto
Me deu o ouvido que em todo seu comprimento
Grava noite e dia grilos e canários
Martírios, turbinas, latidos, aguaceiros
E a voz tão terna de meu bem amado

Graças à vida que me deu tanto
Me deu o som e o abecedário
Com ele, as palavras que penso e declaro
Mãe, amigo, irmão
E luz iluminando a rota da alma do que estou amando

Graças à vida que me deu tanto
Me deu a marcha de meus pés cansados
Com eles andei cidades e charcos
Praias e desertos, montanhas e planícies
E a casa sua, sua rua e seu pátio

Graças à vida que me deu tanto
Me deu o coração que agita seu marco
Quando olho o fruto do cérebro humano
Quando olho o bom tão longe do mal
Quando olho o fundo de seus olhos claros

Graças à vida que me deu tanto
Me deu o riso e me deu o pranto
Assim eu distinguo fortuna de quebranto
Os dois materiais que formam meu canto
E o canto de vocês que é o mesmo canto
E o canto de todos que é meu próprio canto

Graças à vida, graças à vida"


P.S. - Enquanto escrevo este post (no final da tarde de quinta), sinto meus pelos arrepiados por uma emoção bastante singular. Coisas da vida, ou da morte. Sei lá...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A miscelânea dos tamanhos de roupas


Estou para escrever sobre isso há algum tempo, mas algo que me intriga é a disparidade dos tamanhos de roupas aqui no Brasil.

Como aqueles que me conhecem mais de perto sabem, normalmente visto camisas no tamanho GG. Não que eu seja exatamente gordo - estou com 81 quilos para 1m77 - mas tenho os ombros largos e não gosto de roupas muito justas no corpo.

Também quem me conhece sabe que embora não seja exatamente um colecionador tenho algumas camisas de clubes e seleções internacionais.

Acima o leitor pode ver duas das recentes aquisições do meu portfólio, acima a camisa do Coritiba e, abaixo, a da seleção Argentina. Ambas são GG, uma da Lotto e outra da Adidas, uma fabricada no Brasil e outra no país vizinho.

Percebam a diferença de tamanhos. A verde e branca ficou bastante justa em mim, enquanto que a azul ficou normal. Não há uma padronização de tamanhos, cada fabricante, cada loja define o que são os seus tamanhos.

Chega-se ao cúmulo de se ter da mesma manufatura tamanhos diferentes para graduações iguais - basta ver a última série de camisas da Nike para o Flamengo onde o GG da camisa de jogo tinha um tamanho e a de goleiro, outra - maior.


Outra questão é a relacionada a calças compridas, em especial calças jeans. Para o meu tamanho o ideal seria um hipotético "43", mas normalmente utilizo 44. Só que há modelos onde o 42 me cai bem, e outros onde até o 44 fica apertado. Mais uma vez, não existe padronização de tamanhos.

Desconheço algum tipo de trabalho feito pela ABNT ou pelo Inmetro no sentido de se padronizar os tamanhos de roupas, mas é algo que se deve pensar. O tamanho GG pode ter vários significados diferentes e isto causa um transtorno ao consumidor bastante considerável.

Em presentes, então, a questão torna-se extremamente complicada. Se não temos tanta intimidade com o presenteado torna-se bastante difícil acertar exatamente se aquele manequim irá realmente servir na pessoa que queremos homenagear.

Não sei se as leitoras sentem a mesma dificuldade, mas esta falta de padrões em tamanhos torna estressante, muitas vezes, a compra e a utilização de roupas. Para as mulheres, em especial, sempre preocupadas com a elegância e sempre vaidosas.

Complementando, a Lotto, como se vê no alto, criou um tamanho GG que é quase um "baby look". Talvez a modelagem para as camisas à venda pudessem ser diferente das utilizadas em partidas oficiais, mais próximas do que seria o tamanho GG.

Uma padronização se faz urgente.

Em tempo: apesar das fotos darem a impressão de números dourados na (belíssima) camisa da Argentina, estes são brancos.



Cinecasulofilia - "Mostra Olhar do Ceará - Parte I"


De volta após interregno, a nossa coluna sobre cinema, "Cinecasulofilia". Em parceria com o blog de mesmo nome, hoje mostra que cinema não é somente Hollywood ou o eixo Rio-São Paulo.

Como sempre, coluna assinada pelo cineasta, professor e crítico Marcelo Ikeda.

Olhar do Ceará

A Mostra Olhar do Ceará, realizada dentro do Cine Ceará, é uma boa oportunidade para se conhecer a produção audiovisual cearense, em suas diferentes facetas. Quando se fala de uma certa produção cearense, que vem conquistando destaque no cenário nacional, fala-se na verdade de alguns filmes, que circulam nos principais festivais de cinema nacionais. No entanto, a realidade da produção cearense é mais ampla e mais diversa que esse filtro pode nos oferecer. O mesmo acontece na verdade com um conjunto de filmografias: só conhecemos o cinema argentino ou o cinema francês pelo que vemos nos grandes festivais, que filtram o nosso olhar sobre esse cinema. Por isso, a grande chave dessa mostra é a exibição de todos os filmes inscritos, independentemente de seleção. É esse caráter democrático que deve ser preservado nessa mostra, a possibilidade de que o público cearense trave contato com o bojo da produção local, sem filtros prévios, para que ele construa o seu próprio olhar. É claro que esse critério – livre, radical, aberto – chateia boa parte do público, que assiste um sem-número de filmes sem expressão, documentários didáticos, institucionais, anacrônicos, mas, independentemente disso (é só pensar uma curadoria que organizará os filmes no interior de cada sessão com Inteligência), só assim é possível examinar a “produção cearense”. Numa mesma sessão, trafegam filmes experimentais, narrativos, documentários poéticos e registros históricos, realizadores estreantes e veteranos, filmes em 35mm com o apoio de editais e outros filmados num equipamento precário, montados em casa num software free. Várias das contradições, vários dos discursos, vários dos projetos circulam entre as sessões que tem presença marcante de um público, que mesmo num dia do jogo do Brasil na Copa enche o cinema do Dragão do Mar, que resiste a tudo, até mesmo as tétricas condições de exibição dos vídeos, que prejudicou principalmente o belo As Corujas, de Fred Benevides, um curta com um trabalho sutil de luminosidade que praticamente se tornou um borrão preto na tela do cinema.

Alumbramento

Além da presença de três curtas na competição principal – Supermemórias, Cidade Desterro e A Amiga Americana –, sem contar com o longa Estrada para Ythaca, o cinema do Alumbramento marcou presença no Olhar do Ceará com outros três curtas: O Saco Azul e Flash Happy Society, ambos de Guto Parente, e As Corujas, de Fred Benevides. Esse feito comprova a amplitude do projeto do único verdadeiro coletivo de cinema do país, dada a potência do conjunto desses trabalhos, que dialogam entre si, ainda que guardando as suas nítidas diferenças.

Quando vemos em seguida os dois curtas de Guto Parente, não deixamos de nos espantar com essa diferença, que ressoa de diversas formas: de um modo de produção (o cinema em 35mm fruto de um edital e o curta em digital feito sem grana) a uma forma de estar no mundo. Ainda assim, há uma forma sempre frontal de encarar o mundo, um cinema de observação, um entrecruzamento de gêneros (um entre a ficção e o documental e outro entre o documental e o experimental), um olhar crítico sobre a cidade de Fortaleza, sobre a alienação das elites, ou ainda, a busca de um cinema sem palavras, feito apenas de imagem e som.

O Saco Azul é uma tentativa de dialogar com as contradições do modo de vida urbano da cidade de Fortaleza que possui muitas semelhanças com Quando o vento sopra, de Petrus Cariry. Guto compõe um painel da relação entre a classe média alta e a grande massa que vive na linha de pobreza – característica típica da cidade, considerada uma das mais desiguais do planeta – através de um saco azul, que armazena o lixo dos ricos que será aproveitado pelos pobres. O estranhamento desse curta é seu caráter austero: Guto não está interessado em compor propriamente um discurso crítico em tom explícito, muito menos de exaltar uma certa poesia da miséria, um elogio ao sentido de sobrevivência dos catadores. Seu tom crítico está impresso no filme no total distanciamento do filme em relação a ambas as classes: as personagens são opacas para o espectador, que tem contato com elas apenas a partir de seu corpo, ou ainda, de seus deslocamentos. Com isso, nos passa um sentimento de esvaziamento do plano, que não raramente nos desconcerta, ainda que o projeto não se realize por completo. Mas se O Saco Azul não é mera metáfora da desigualdade das relações sociais, ou mero romantismo que aponta para uma solução conciliadora, ele tampouco é o cinema de Candeias: ao se manter tão distante, Guto fecha seu discurso diante de si mesmo, quase como se fosse impossível apontar caminhos. Prova disso é o desconcertante plano final, que apresenta no som, na imagem, no movimento, no cenário, o grande protagonista de seu filme: o lixo. O saco azul, quase como um Balthazar de Bresson, torna-se uma testemunha muda da desumanização tanto de pobres quanto ricos, que aproveitam o que lhes serve e simplesmente se desfazem dos restos, convivendo com sua inexorável solidão.

Já Flash Happy Society, do qual muito se falou por sua premiada carreira nos festivais nacionais e mesmo internacionais, nos desconcerta pela simplicidade do registro e pelo alcance de sua realização. Um filme que trafega entre a ficção, o documental e o experimental. Um curta que navega entre o cinema abstrato (um filme de Kubelka, baseado na repetição e na intervenção na superfície física do filme) e o cinema político (a alienação da sociedade do espetáculo). Uma política das imagens. Um bom uso do digital. Uma pessoa fotografando (filmando) pessoas que fotografam. Um bom uso do digital criticando um mau uso do digital; um bom uso da imagem criticando um mau uso da imagem. Primeiro cinema aliado ao cinema contemporâneo: cinema da luz e das sombras, filme expressionista. Um filme de ficção científica (2001?). Mas aqui talvez Guto consiga o que não conseguiu em O Saco azul: construir imagens afetuosas a partir do que não lhe serve, do que lhe incomoda. Por trás da banalização do uso da imagem, existe uma certa poesia, como ao final se constrói um universo de estrelas cadentes, ou um novo Big Bang. Talvez. O tom exato entre ironia, crítica e desejo torna Flash Happy Society um curta notável, rico, cuja percepção se amplia a cada nova exibição.

Dois curtas de Rodrigo Fernandez

Dois curtas de Rodrigo Fernandez também se destacaram na sessão: Alípio e Noir Sur Blanc. Em Alípio, um dos curtas premiados no edital “se essa rua fosse minha”, Rodrigo compõe um olhar particular sobre a rua Antônio Sales, uma das mais movimentadas da cidade. Filmando à noite, Rodrigo extrai um sentido de poesia, percorrendo, em tons avermelhados, seus espaços vazios, seu silêncio, o colorido dos sinais. Esvaziamento que se revela um olhar poético para esse espaço físico. De um olhar documental, o filme se desloca para uma vertente que o aproxima de um certo abstracionismo. Por fim, é curioso como a voz se conjuga ao filme, uma espécie de narração antiga que o torna um filme falsamente acadêmico. Só ao final percebemos que na verdade trata-se de versos do próprio Antônio Sales, tornando Alípio uma investigação do silêncio da memória, ou ainda, como a obra de Antônio Sales (não) ressoa pelo espaço físico que agora leva o seu nome. As relações entre as bandas de imagem e som fazem de Alípio um filme de deslocamentos, em que um sentido de abandono aponta para um olhar instigante sobre o centro urbano.

O abstracionismo também é a chave do interessante Noir Sur Blanc, trabalho radical, composto quase que exclusivamente, além dos créditos, de telas negras e brancas. Aqui, mais uma vez, Rodrigo explora uma relação dúbia entre a imagem e som, de modo que o som nunca meramente ilustra a imagem mostrada, apontando para a independência das duas camadas para a composição do sentido fílmico. Em boa parte do filme, há simplesmente uma tela negra, que remonta aos quadros do abstracionismo russo, em especial ao suprematismo de Malevich. O som, no entanto, é de um rap negro norte-americano, que aponta para um discurso político, sobre uma crítica ao modo de ver mostrado pela televisão. Desse modo, Rodrigo reflete sobre os princípios do abstracionismo como uma arte política, aliado a uma metáfora da visão. Ainda que o curta tenha soluções equivocadas (as legendas na música que quebram o tom negro da tela em contraposição à ausência de legendas nos créditos em francês, o que pode ser lido como uma certa arrogância do autor), Noir Sur Blanc comprova que, de todos os trabalhos inscritos no Olhar do Ceará, os de Rodrigo Fernandez são certamente os que mais se debruçam sobre a natureza da linguagem cinematográfica de forma coerente, tornando-o uma promessa que merece ser melhor acompanhada.

(continua...)

(Foto: Curtametragem participante da Mostra: “Incelença da Perseguida”)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Vulnerabilidade da Urna Eletrônica - Parte II


Conforme dito no último domingo, hoje temos a segunda parte da série sobre a vulnerabilidade das urnas eletrônicas, assinada pelo analista de sistemas e ainda torcedor do Império Serrano Bruno Nascimento.

Parte II – Sistemas operacionais, Código aberto e fechado

Vimos no outro post um pouco sobre o funcionamento dos microprocessadores e da BIOS. Uma das atividades da BIOS é, terminadas suas verificações passar o controle da máquina para a execução de um programa. Normalmente, este programa tem a função de controlar a execução dos outros programas, controlar o sistema de entrada e saída. Este programa chama-se Sistema Operacional e, sem ele, o computador fica impossibilitado de executar outros programas ou seria muito difícil fazê-lo.  Difícil porque uma das funções do sistema operacional  é permitir que tarefas difíceis possam ser executadas de forma simples. Nem todo computador precisa de sistema operacional, pois possui informações e tratamento tão simples que dispensa este intermediário. Em compensação, os programas teriam que lidar com todas as operações que o sistema operacional verifica quanto com sua própria execução.

Na figura acima, exibimos algumas das funções que o sistema operacional faz, desde controlar o hardware, até controlar a execução dos aplicativos, distribuindo quanto tempo cada um pode executar, quando o sistema operacional é preparado para multiprocessamento (vários programas executando simultaneamente na mesma máquina). Se podemos ver que o sistema operacional controla a máquina, alterações e bugs (erros de programa) no sistema operacional podem fazer com que a máquina efetue coisas diversas da esperada. A maioria dos bugs de segurança divulgados do sistema operacional Windows, que usamos na maioria dos computadores pessoais, se referem exatamente a situações em que o sistema operacional acaba cedendo o controle indevidamente para outros programas. A urna eletrônica é um computador de arquitetura semelhante ao IBM-PC, como divulgado pelo próprio TSE. Estaria a urna sujeita a vírus e cavalos de tróia?

Muito difícil. Para tanto estes vírus e cavalos de tróia já teriam que estar presentes na cópia original controlada pelo TSE, ou seja, já enviadas a partir da fabricante do Sistema Operacional. Na versão antiga da urna eletrônica, o sistema Operacional era o VirtuOS da MicroBase, que na época era um sistema de código fechado. Hoje utiliza-se o sistema operacional Linux, de código aberto. Mas o que o código fechado ou aberto tem a ver com a segurança do processo da urna eletrônica?

O computador entende instruções que chamamos de linguagem de máquina. Para gerar estas instruções diretamente, existe uma linguagem denominada Assembly. O Assembly varia de máquina a máquina, de acordo com o conjunto de instruções oferecido pelo hardware. Mas se os programadores tivessem que conhecer o conjunto específico de instruções de cada máquina, os programadores teriam de ser extremamente específicos com relação à máquina. Haveria programadores de Pentium, programadores de Core Duo, de Athlon e outros mais, de acordo com o microprocessador da máquina. Ao invés disso, existem linguagens que chamamos de médio ou alto nível, dependendo da proximidade da linguagem com a linguagem da máquina, denominada de baixo nível. Assim, os programadores se especializam nestas linguagens e não nas máquinas em que têm de executar, permitindo maior flexibilidade no conhecimento de programação.

Para transformar estas linguagens de alto nível em linguagem de máquina, existem 2 formas: a compilação e a interpretação. A compilação é a transformação prévia para a linguagem de máquina do código gerado na linguagem de alto nível para que este seja executado também. A interpretação é a transformação no momento da execução da linguagem de alto nível ou de uma linguagem intermediária, gerada a partir do código gerado na linguagem de alto nível, no momento em que há a execução do programa. O código que gera o programa é denominado de código fonte ou fonte. Sistemas operacionais são programas também e são gerados desta forma. Para que rodem rapidamente na máquina, os programas têm que usar o processo de compilação. Existem linguagens interpretadas rápidas, mas no processo atual, elas ainda assim geram código intermediário para acelerar o processo. Só muito antigamente (há mais de 50 anos atrás) ou que necessitam muito se aproveitar de características da máquina são gerados em linguagem de máquina diretamente. Programas que têm seus fontes divulgados em conjunto com o programa a ser executado são chamados de código aberto. Programas que enviam apenas o código a ser executado ou o intermediário a ser interpretado são chamados de código fechado.

Sistemas de código aberto têm possibilidade de auditoria neste caso mais ampla, que sistemas de código fechado, sem entrar em questões de custo de manutenção ou suporte que não cabem aqui, exatamente por terem a possibilidade de análise do código fonte que originou o programa executável. Assim, fica mais difícil perpetrar uma fraude sem ser descoberta em um sistema qualquer. Deste modo, a auditoria do código fonte se torna de suma importância para a segurança da urna eletrônica e é mais fácil de ser efetuada em sistemas de código aberto, correto? Correto. Como dito, vírus e cavalos de tróia poderiam então ser detectados no código original já vindo de fábrica. Alterações que o programa efetue seriam detectadas e estaria configurada a fraude. Para que esta suceda, teria de ser inserida no TSE e aprovada por todos os especialistas dos partidos que auditassem esse código fonte. Mas estamos falando da auditoria do código fonte. Mas vimos que o código fonte não é necessariamente o que executa. Como garantir que o executável a ser código fonte seja o programa executado nas urnas eletrônicas? Entraremos então com mais detalhe no processo da urna eletrônica e no desenvolvimento de sistemas para verificar como é feita a transformação do código fonte em código executável.

Ordem de Desfile do Grupo Especial - 2011


Na noite de ontem tivemos o pontapé inicial do Carnaval 2011, com o sorteio da ordem de desfile. É algo extremamente importante porque os horários de desfile podem diferenciar estratégias de desfile, características de samba e mesmo influência no julgamento.

As escolas são divididas em "pares" de acordo com as colocações anteriores e sua torcida. São Clemente, campeã do Grupo de Acesso e a União da Ilha, décima primeira colocada do ano anterior não participaram do sorteio e abrem os desfiles respectivamente no domingo e na segunda feira.

Tivemos como "pares": Tijuca e Salgueiro; Beija Flor e Mangueira; Vila Isabel e Grande Rio; Portela e Imperatriz; Porto da Pedra e Mocidade.

O sistema de sorteio ocorre em três etapas: na primeira os presidentes sortearam bolinhas de um a dez e quem tivesse o maior número escolhia o dia de desfile. No segundo, as escolas sorteiam de dois a seis a posição dentro do dia determinado. Por último, as escolas podiam trocar dentro do mesmo dia.

Findo o processo, vamos à ordem de desfile para o carnaval 2011. Ao lado coloco os enredos determinados.

Domingo - 06 de Março de 2011:

1 - São Clemente - enredo sobre a cidade do Rio de Janeiro;
2 - Imperatriz Leopoldinense - a história da medicina;
3 - Mocidade Independente - enredo sobre agricultura, patrocinada pela Sen. Kátia Abreu;
4 - Unidos da Tijuca - o medo no cinema;
5 - Vila Isabel - já tem enredo, patrocinado, mas não anunciou ainda;
6 - Mangueira - 100 anos do compositor Nelson Cavaquinho;

Segunda Feira - 07 de Março de 2011:

1 - União da Ilha - enredo sobre a evolução das espécies, baseado na obra de Charles Darwin,
2 - Salgueiro - o Rio no cinema;
3 - Portela - o sonhado enredo sobre a história da escola, anunciado, deve ser trocado por um patrocinado sobre o pré-sal. Mas a escola só irá divulgar o enredo definitivo em meados de julho, embora a tendência é de que seja um destes dois;
4 - Grande Rio - Florianópolis, patrocinado;
5 - Unidos do Porto da Pedra - homenagem à teatróloga Maria Clara Machado;
6 - Beija Flor - homenagem ao cantor Roberto Carlos;

Para mim complicou bastante a logística, pois pretendo desfilar na União da Ilha e na minha Portela. Vamos ver como fica. Além disso, não gosto de ver a minha escola concentrando do lado do edifício Balança mas Não Cai. Este ano a armação do desfile foi muito complicada, como já contei aqui logo após o carnaval 2010.

De qualquer forma, Salgueiro, Portela e Grande Rio pegaram aquelas que são consideradas as posições nobres de desfile do Grupo Especial. As escolas que desfilam na segunda feira costumam ter uma idéia mais precisa do que precisam fazer para obter uma boa posição, bem como o jurado está com a lembrança mais recente. Lembro aos amigos que as notas somente são fechadas no final do desfile, terça pela manhã.

Os grupos de Acesso terão seus sorteios realizados em outras datas. Informo, porém, que o rebaixamento destes grupos para 2010 foi anulado, ou seja, o Boi da Ilha está de volta à Sapucaí, mantendo-se no Grupo B.

Estarei informando a ordem dos demais grupos aqui assim que forem definidos.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: a ciência e o mistério da bola Jabulani



Mais uma quarta feira e mais uma coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor Adjunto de Biofísica da UFRJ Marcelo Einicker. Hoje o tema, em ritmo de Copa do Mundo, é uma explicação cientpífica do terror dos goleiros: a fmaosa Jabulani.

"A Ciência e o mistério da bola Jabulani

Em tempo de Copa do Mundo, vamos trazer para a coluna um pouco de Ciência para a polêmica por conta da nova bola - a famosa JABULANI - desenvolvida especialmente por uma grande marca de artigos esportivos para este evento.

Um pouco de história

Que o futebol é a paixão do brasileiro e de tantas outras nações ninguém duvida, mas como isso tudo começou ainda é uma grande controvérsia. Para alguns, o futebol teria surgido por volta de 3.000 anos antes de Cristo, na China, onde militares ou guerreiros se reuniam para treinamentos em campos onde chutavam as cabeças dos inimigos derrotados, numa espécie de jogo de futebol primitivo e mesmo bizarro. Também existem relatos no Japão de um jogo bastante próximo ao nosso futebol praticado com uma bola feita de fibra de bambu.

E, no decorrer dos anos, seguiu-se o que em biologia poderia se chamar evolução. Seria a evolução do futebol, passando por mais alguns modelos de jogos até que “futebol primitivo” chega à Inglaterra por volta do século XVII; onde ganha as regras básicas que temos hoje em dia e onde a bola começa a ganhar maior atenção, já sendo de couro, costurada e inflada com ar.

Em 1848 também na Inglaterra são estabelecidas de forma oficial as regras, em 1871 criada a figura do goleiro, que seria o único a poder tocar a bola com as mãos. Já em 1885 começa o futebol profissional e no ano seguinte, é criada a International Board, entidade responsável por manter ou alterar as regras do jogo. Finalmente em 1904, surge a Federação Internacional de Football Association (FIFA), que hoje é a maior entidade do futebol mundial, responsável pelos campeonatos inclusive, pela Copa do Mundo.

Portanto desde quando o futebol trocou as cabeças por algum tipo de bola, proporcionou o aprimoramento de técnicas para tocar esta bola, chutar, cabeceá-la, protege-la do adversário...e assim surgiram o drible, a finta, o passe, a magia que envolve o jogo, cada partida de futebol. Sempre com ela, a bola, como estrela maior.

A bola

Quem nunca jogou uma pelada na rua, na quadra do colégio com uma simples bola de meia, ou mesmo com um monte de papel embrulhado em forma de bola? Existem centenas, talvez milhares de tipos de bola, porém, para a prática do esporte, a bola deve seguir regras muito bem estabelecidas. A bola deve ser esférica, recoberta de couro ou outro material aprovado, que não represente perigo à integridade dos atletas. Para o futebol de campo, sua circunferência máxima será de 69,5 cm, e a mínima 68,5 cm; o peso dever estar entre 420 e 445 g no início da partida, e depois de cheia ela deve ter a pressão de 0,8 bar.

Ou seja, existe uma padronização para a bola o que impede que partidas oficiais sejam disputadas com bolas fora destas especificações. Isso nos faz lembrar de inúmeras reclamações por parte dos jogadores acerca da qualidade da bola. Que ela é mais leve, mais pesada, mais dura, mais ligeira. Entretanto, pela regra bola é bola, nas suas especificações regulamentares. Logo, é de se pensar que um jogador profissional que reclame da bola, não tenha lá assim tanta intimidade com seu instrumento de trabalho. Um dos maiores jogadores de todos os tempos, o argentino Di Stefanno, tem no jardim de sua casa uma estátua em bronze de uma bola onde se lê: “Obrigado gorda!”.

Alguns dos maiores jogadores do mundo em todos os tempos costumavam comentar que chamavam a bola de “você”, refletindo a intimidade que tinham com a redonda. Mas afinal, a bola que transformou Pelé em Rei, Ronaldo em Fenômeno, Maradona em Deus e tantos outros homens em ídolos pode ainda evoluir mais e chegar a uma situação de máxima perfeição?

Parece ser exatamente este o ponto que tem provocado tantas reclamações no período que antecedeu o início da Copa do Mundo e mesmo agora já durante os jogos. Jogadores da Seleção Brasileira, como o goleiro Júlio César (considerado por muitos o melhor goleiro do mundo) e de outras seleções vieram a público reclamar da bola do Mundial da África, a já famosa Jabulani - que no idioma Zulu significa “celebrar”. Segundo os jogadores, a bola Jabulani é mais leve... mais rápida... mais teimosa, dura de ser dominada. Mas se a FIFA estabelece regras para a bola, como pode a Jabulani ser mais leve ou mais rápida?

A Ciência desvenda o mistério de Jabulani

Feitas as reclamações, o fabricante da bola partiu em defesa de seu produto, dizendo terem utilizado jogadores de sabida técnica (como nosso Kaká) para testes em campo com a Jabulani [Nota do Editor: jogadores patrocinados pela Adidas, fabricante da bola]. Foi ou teria sido usada uma tecnologia digna dos projetos de desenvolvimento de carros de corrida, inclusive com testes em túneis de vento. A FIFA também se colocou contrária às reclamações, apoiando os argumentos da fornecedora de material esportivo, pois teriam desenvolvido a Jabulani com o que existe de mais moderno.

No entanto, começa a Copa, e logo nos primeiros jogos alguns goleiros sofreram “frangos” incríveis, atribuídos ao mistério da bola Jabulani. O número de gols na primeira fase foi o mais baixo da história das Copas, o número de passes errados foi considerado alto, e só depois de mais de 60 jogos houve um gol de falta. Evidências mais do que suficientes de que realmente a Jabulani é um tanto quanto mais rebelde que suas antecessoras, bolas de menos tecnologia, mas que garantiam mais deslumbramento nas jogadas.

Para acabar com a polêmica, laboratórios de Física pelo mundo afora realizaram testes com a Jabulani. A própria Agência Espacial Americana, a NASA, dedicou esforços para analisar a bola Jabulani. Aqui no Brasil, pesquisadores da USP também analisaram a Jabulani e em comum todos os testes feitos mostram as mesmas conclusões. Realmente a Jabulani é uma bola “teimosa”, difícil de ser dominada e de ser colocada no gol com categoria e mesmo na força. A bola parece estar sujeita a incríveis alterações de sua trajetória em chutes a partir de 45 Km/h (considerados fracos). Estas alterações na trajetória se devem justamente a evolução tecnológica que concebeu a Jabulani. Ao contrário das bolas anteriores, a Jabulani é formada por apenas oito painéis ou placas soldadas industrialmente, ou seja, ela não tem costuras. As bolas tradicionais de até 14 gomos tinham costuras muitas vezes feitas à mão, que formavam pequenas ranhuras entre os gomos por onde o ar circulava durante a trajetória da bola após o chute. Com a Jabulani estes caminhos para o ar circular entre as placas ou gomos é praticamente inexistente, e assim o atrito da Jabulani com o ar é maior. Isso faz com que ela fique sim mais sujeita a alterações da sua trajetória, o que explicaria a onda de reclamações dos atletas.

Outro agravante para a Jabulani seria o material sintético usado para sua fabricação, que seria outro causador de alterações do efeito do atrito com o ar e a trajetória final seguida pela bola. Em poucas palavras, por mais craque que seja o jogador ele tem muito mais dificuldade em um chute preciso com a Jabulani do que com outras bolas.

Portanto o problema da Jabulani não é que ela é mais leve, mas sim que ela é tão mais moderna tecnologicamente que não possui costuras e com isso fica sujeita a golpes de ar e ao atrito com o mesmo.

É interessante vermos que a tecnologia deve sempre estar em favor do desenvolvimento das coisas e mesmo do esporte. Assim é no automobilismo, o desenvolvimento dos motores, combustíveis, pneus; na natação a criação daquele macacão que fez despencarem os recordes, e que acabou sendo abolido, e agora o futebol nos dá um exemplo ao contrário, de que nem sempre a máxima tecnologia vai jogar a favor. No caso da Jabulani, parece mesmo ter sido um tremendo gol contra!"

terça-feira, 29 de junho de 2010

Skavurska ? Só no comercial...


Sou cliente da Net há pelo menos uns seis anos, tendo hoje o pacote com imagem em alta definição e assinatura do pay per view do futebol.

Há cerca de quinze dias, me telefonou uma vendedora da Net oferecendo a troca do meu pacote pelo chamado "Net Combo", composto de internet em alta velocidade mais linha telefônica, além do pacote tradicional de tv a cabo. Dentro do pacote me ofereceram um terceiro ponto de televisão, embora sem HD - sinal digital "normal".

Como o valor me daria uma economia mensal considerável e além disso eu andava meio insatisfeito com a demora da Oi/Velox em aumentar a minha velocidade de internet, optei por fazer a troca, me livrando da Oi.

Tenho de ressaltar o preparo da vendedora, que soube dirimir as minhas dúvidas e me explicar as condições do pacote. E olha que eu não sou exatamente um cliente desinformado, ao contrário, perguntei por detalhes que normalmente as pessoas não atinam na hora da contratação do serviço.

Então começou o meu calvário: a instalação do serviço. Para completar estou com um dos "decoders" HD inoperantes e solicitei a troca do equipamento junto com o restante do serviço. Ao contrário do que se possa imaginar, o sistema de atendimento ao cliente da empresa não permite que se faça todo o serviço de uma vez só e a cada serviço se faz necessária uma ligação para solicitar o serviço - e lá se vão horas ao telefone...

Primeiro veio o instalador da internet. Grosseiro e arrogante, não fez o cabeamento corrreto e deixou tanto a internet quanto o fax sem funcionar. Liguei à noite para a central de atendimento e tive de solicitar uma visita técnica. No dia seguinte, o instalador do telefone comum refez o serviço mal feito no dia anterior e configurou tanto a internet quanto o fax; entretanto, não pôde instalar o ponto adicional nem trocar o equipamento defeituoso.

Liguei novamente para solicitar os serviçoes pendentes e após levar uns bons quinze minutos tentando fazer a despreparada atendente entender o que eu queria, agendei para ontem os serviços faltantes.

Pois qual não foi minha surpresa ontem, quando estava preso na loucura do trânsito antes do jogo do Brasil, receber uma ligação de casa. Era o instalador da Net afirmando que a ordem de serviço que ele recebera era a de tirar o aparelho com defeito e colocar este terceiro ponto. Obviamente, a atendente não entendeu que eram duas coisas diferentes. De dentro do carro telefonei para a Net e, após cinco tentativas - fiquei com a impressão de que desligavam de propósito o telefone - consegui falar com a Central.

Após uma longa conversa onde a profissional (?) não conseguia entender a minha demanda, veio o veredito: eu tinha de mandar embora o instalador e agendar outra data. Ainda ponderei que ele já estava com o equipamento em minha casa e era somente fazer a instalação. A resposta veio implacável: "o sistema não permite". Tive de agendar outra data - segunda feira que vem ! - e o mesmo decoder será instalado. Kafkiano. E isso comigo preso no trânsito, dentro do carro...

Ainda fui informado de que somente poderei agendar a troca do decoder defeituoso após a instalação deste terceiro. Inacreditável.

Sem dúvida alguma, este tipo de atendimento e a falta de vontade de resolver o problema do cliente são reflexo do virtual monopólio de que a empresa detém no Rio. Como o consumidor não tem para onde correr, fazem dele gato e sapato. Outro ponto a se lamentar é a primazia da burocracia e dos sistemas de informática sobre o ser humano, gerando situações absurdas como esta que estou vivendo.

Tenho de ressaltar também a total falta de preparo do atendimento ao consumidor da empresa, com funcionários que tem dificuldade inclusive de compreender em frases curtas a necessidade do cliente. Precisa-se explicar três, quatro vezes a mesma situação - para uma resolução inadequada do problema, o que me leva a pensar que ou não tiveram nenhum tipo de treinamento ou são verdadeiros "analfabetos funcionais". Absolutamente lamentável. Reflexo da terceirização e da busca insana por menores custos de operação.

Esta odisséia ainda não acabou. Aguardemos os próximos capítulos.

Skavurska ? Só no comercial...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Arbitragem, televisão, profissionalização e política



Bom, o assunto do dia são os inacreditáveis erros de arbitragem ocorridos ontem nos dois jogos da Copa do Mundo.

Como já escrevi aqui, tenho visto muito pouco da Copa do Mundo. Quase nada ao vivo, alguma coisa em VT, muitos "melhores momentos". Estava fazendo compras no supermercado quando começaram a pulular as mensagens no meu Twitter dando conta do erro que vitimou a Inglaterra. Depois, vi ao vivo o jogo da Argentina e na hora apontei o impedimento na jogada do primeiro gol. Inclusive Tevez olha duas vezes para o bandeirinha antes de sair para comemorar.

No final das contas os erros grotescos acabaram ofuscando as boas atuações de Alemanha e Argentina. E chamam a atenção para um debate que há muito vem sendo travado, que é o da arbitragem. Debate este que não se restringe apenas ao uso da tecnologia, mas a questões como a profissionalização destes atores do espetáculo e toda a política que envolve escalas e jogos de poder.

O primeiro ponto que temos de abordar é a adoção da tecnologia. Ontem ficou claro que os jogadores e o técnico mexicanos viram o replay do gol no telão, partindo para protestar com o bandeirinha. O bandeira parece que também viu, mas o juiz optou por consagrar a injustiça e seguir a regra.

Parece claro que algum tipo de auxílio eletrônico precisa ser adotado, em especial nas grandes competições. Nem falo daqueles erros que somente podem ser vistos com vários replays e várias câmeras - lembro aos meus 66 leitores que o árbitro não tem este recurso, tem de decidir na hora - mas de equívocos grotescos como os vistos ontem em duas oportunidades. Aproveito para colocar nesta conta o segundo gol brasileiro contra a Costa do Marfim, também absurdamente validado.

Os críticos se utilizam de dois argumentos para descartar o uso da televisão: primeiro que "a graça do esporte está na polêmica" e segundo que "nem todos os campeonatos podem adotar este tipo de recurso por questão econômica".

Ambos são falaciosos. A graça do futebol está no drible, no gol, no ataque, na bela jogada, nos vencedores e derrotados. Não em campeonatos decididos em erros de arbitragem, decisões absurdas privilegiando esta ou aquela equipe ou mesmo eventos relacionados a subornos (o famoso "está na gaveta") ou coisas do gênero. A outra questão pode ser resolvida com uma limitação de campeonatos ou jogos onde tal recurso seria utilizado.

Algo do tipo "as competições internacionais e as primeiras divisões dos países mais bem colocados no ranking da Fifa utilizarão este recurso", ou parecido. Penso que, para se evitar paralisações muito prolongadas - a televisão é um ator importante neste processo - pode-se adotar algo como o feito em esportes norte-americanos: cada equipe teria direito a um pedido de "vistas" nas imagens por tempo de jogo. Até para se evitar o uso do recurso para se "catimbar" uma partida. Já se resolveriam 95% dos problemas causados por falhas grotescas de árbitros.

Outro ponto é a profissionalização dos árbitros. Hoje, tirando a "elite da elite" os juízes precisam ter a sua profissão fora do futebol. Em um esporte onde cada vez mais o condicionamento físico se faz parte primordial do jogo, onde se corre dez, doze, catorze quilômetros em noventa minutos aqueles que tem o poder de vida e morte sobre as equipes se preparam apenas nas horas vagas.

Evidentemente, vemos um abismo físico entre jogadores e árbitros, e muitas decisões equivocadas podem ser creditadas a esta diferença de preparo: não somente por não chegar a tempo para os lances quanto à própria exaustão física. Há a necessidade de se transformar em profissão a carreira arbitral, com um programa de condicionamento físico e uma espécie de "plano de carreira" para os mesmos. Obviamente, as federações são contra pois isto implica em custos e diminui o poder dos dirigentes sobre os juízes. Entretanto, quando vemos a CBF nadando em dinheiro do jeito em que está fica difícil aceitar este argumento.

Terceiro, e não menos importante, é a questão da política. Muitas vezes vemos apitando Copas do Mundo não os melhores árbitros de cada país, mas aqueles mais bem relacionados com as federações nacionais ou que sabem jogar o jogo da política interna. Não podemos nos esquecer que pelo menos na América do Sul as Comissões de Arbitragem das federações são claramente subordinadas à direção das mesmas. Não podemos fechar os olhos para o fato de que sempre há equipes mais bem relacionadas com as entidades diretoras ou movimentos em campeonatos que sejam mais adequados aos detentores do poder discricionário. E a arbitragem é um elemento importante neste processo. Deixo claro que não me refiro a subornos, "roubos" ou coisas do gênero, apenas relações de poder. O clássico "quem pode mais chora menos".

Os leitores podem ter um exemplo disto que falo quando vemos o argentino Héctor Baldassi - de triste lembrança para torcedores de Flamengo, Fluminense e Santos, entre outros - e o brasileiro Carlos Eugênio Simon - detestado por praticamente todas as maiores torcidas brasileiras por falhas inacreditáveis - apitando a Copa do Mundo. Parece claro que não estão lá por suas qualidades no apito, porque há melhores, então a única explicação que podemos encontrar é a sua rede de relacionamentos formada dentro das federações nacionais.

Eu tenho um colega que é bandeira em competições nacionais brasileiras. Ele diz abertamente que, "se não fizer o jogo da Federação", não entra na escala de árbitros para o sorteio que define os trios de arbitragem para as partidas das competições brasileiras. Escala esta que é feita pela Comissão de Arbitragem, órgão que não é independente da Diretoria da CBF - portanto, não está imune a pressões.

Querem um exemplo? Desde a eleição do Clube dos 13, onde o Corinthians articulou junto com a CBF a candidatura de Kleber Leite as arbitragens do clube paulista passaram a ser mais "simpáticas" - inclusive com alguns erros graves a favor da equipe paulista nesta primeira "perna" de Brasileirão.

Não é suborno, não é determinação, é simplesmente não desagradar aos poderosos - e que podem colocar o árbitro na "geladeira", sem apitar. Na dúvida, acaba marcando sempre a favor do time mais poderoso. Até porque o valor recebido por partida pelo trio não é irrisório - principalmente na Primeira Divisão e em competições internacionais - e se torna um importante complemento de renda para os juízes. Hoje a carreira de um árbitro toda depende das decisões tomadas pelos mandatários das entidades organizadoras, independente de suas qualidades ao trilar o apito.

Finalizando, o uso da tecnologia, especialmente televisiva, a profissionalização da arbitragem e a existência de Comissões de Arbitragem independentes das entidades organizadoras do esporte são medidas que certamente melhorarão o nível de arbitragem e evitarão erros grotescos como os vistos ontem.



domingo, 27 de junho de 2010

A Vulnerabilidade da Urna Eletrônica - Parte I


O Ouro de Tolo apresenta a partir de hoje uma série especial. Assinada pelo analista de sistemas com mais de quinze anos de experiência Bruno Nascimento, meu amigo há duas décadas, vai mostrar que a urna eletrônica, pilar do nosso sistema de votação eletrônica, possui vulnerabilidades que podem ser exploradas por entidades políticas desonestas.

Serão quatro artigos, a serem publicados em dois domingos e duas quintas feiras. Recomendo atenção especial, pois é assunto muito sério e que tem influência direta em nossas vidas.

"Parte I – Microprocessadores e BIOS

Sou analista de sistemas e não sou especialista de segurança. Conversando com o Pedro ele se assustou com uma informação que passei, baseado no meu conhecimento da profissão e de desenvolvimento de sistemas. Eu disse que, com o contato interno correto, um estudante de 2º período da faculdade poderia efetuar uma fraude em uma urna eletrônica.

Como assim? Nosso processo eleitoral não é 100% seguro? Eu diria entre 95 a 99%. Só que em uma eleição muito disputada, este percentual poderia alterar a decisão final. Como a explicação envolve muito de explicação sobre computadores, códigos fonte, do processo de desenvolvimento de sistemas e do próprio processo eleitoral, a idéia aqui é apresentar um pouco de conhecimento de informática e de situações passíveis de exploração, com ou sem controle do processo eleitoral. A análise do processo das urnas eletrônicas, feita pela Unicamp em 2002, é um documento público e disponível no site do TSE em http://www.tse.gov.br/internet/eleicoes/relatorio_unicamp.htm. Deixemos claro que os próximos textos referem-se a opiniões minhas e que colocarei o conhecimento necessário para embasá-las. Cada um é responsável por sua interpretação e seus questionamentos. Como disse, não sou especialista em segurança, muito menos dono da verdade.

A urna eletrônica, segundo o relatório da Unicamp, “possui uma estrutura similar à de um computador IBM-PC”. O que seria uma estrutura similar a de um IBM-PC? Seria o que chamamos de máquina Von-Neumann. As principais características de uma máquina Von-Neumann são as seguintes:

·         A existência de 3 subsistemas: a CPU (Central Process Unit, ou Unidade Central de Processamento), a Memória Principal e o Sistema de Entrada e Saída (E/S ou I/O, de Input e Output).
·         A CPU se divide em 3 blocos principais: a Unidade de Controle, a Unidade Lógico-Aritmética (ALU – Arithmetical Logical Unit)  e Registradores, incluindo aí um registrador da posição da última instrução executada (PC – Program Counter).
·         O programa é armazenado na memória principal.
·         A execução de instruções pelo computador é seqüencial, uma após a outra.
·         E há um único caminho entre a memória principal e a Unidade de Controle
·         A execução de comandos na máquina é comandada pelos ciclos de máquina, onde se busca a próxima instrução de máquina (através do que está registrado no PC – Program Counter) e a execução da mesma através da Unidade de Controle e da ALU que realiza as operações matemáticas de somar, subtrair, multiplicar e dividir, além de realizar as operações de ponto-flutuante, para os números fracionários.

Computadores, apesar de executar várias operações que não conseguiríamos executar tão rapidamente, são máquinas burras.  A CPU é o que chamamos  ao microprocessador, o coração da máquina. Então quando falamos de Pentium, Athlon, Core Duo, Core Quad, falamos do microprocessador. Os microprocessadores além do acesso à memória principal, chamada também de memória RAM (Random Acesss Memory – Memória de Acesso Aleatório) possui também uma memória denominada ROM (Read Only Memory). Porquê o computador precisa destes 2 tipos de memória? Porque a memória RAM, uma vez que o computador é desligado perde todo seu conteúdo. Então para executar as primeiras instruções e verificar todo o computador é necessário ter um conjunto de instruções básicas que serão o primeiro conjunto de instruções a serem executadas pelo computador ao ser ligado. Estas instruções armazenadas em memória ROM são no IBM-PC chamadas de BIOS (Basic Input and Output System – Sistema Básico de Entrada e Saída).

Aqui entram os primeiros pontos que poderiam ser aproveitados. E se alguém substituísse a BIOS existente nas urnas por uma outra que permitisse manipular resultados? É uma situação em que a própria verificação da urna verificaria e capturaria a fraude facilmente. A BIOS já vem de fábrica com a programação destas prontas e têm uma codificação prevista controlada. Assim alterações nesta seriam identificáveis pouco após o momento em que o computador fosse ligado. Neste ponto, a mudança seria detectada. Até aqui, dificilmente haveria fraude sem conhecimento de ninguém, pois as instruções aqui necessárias são tão básicas para o funcionamento do computador que a fraude ficaria clara em quaisquer testes de verificação e mesmo nos testes de programa. Só se esta viesse de fábrica ruim, mas normalmente tal situação seria detectada com antecedência o suficiente para que não houvesse impacto na eleição.

Seguiremos na próxima parte explicando mais componentes de programa que estariam envolvidos no funcionamento de um computador, o Sistema Operacional e os programas executáveis."

"Portela na Avenida" - por Paulo César Pinheiro



Como eu havia prometido no post anterior com a resenha do livro, transcrevo aqui o relato do autor Paulo César Pinheiro sobre a composição "Portela na Avenida", um dos seus maiores sucessos e que faz vibrar o nosso coração portelense a cada vez que é entoado.

No vídeo acima, gravado em 1997, há dois erros. Os leitores saberiam me apontar quais são ?

Vamos ao texto, que é das páginas 114 e 115 do livro:

"Um dia, Clara me fez uma encomenda. Queria gravar um samba que falasse sobre a Portela, sua escola do coração.

Era de praxe, os compositores homenagearem sua escola do coração, amiúde. Para serem aceitos na ala tinham que exaltá-la ao menos uma vez. Cantavam na quadra formalizando sua entrada. Todos já haviam feito o seu, da Velha Guarda aos mais jovens. Ela já havia solicitado a todos e nenhum samba novo se apresentava. Argumentei que depois de "Foi Um Rio Que Passou em minha Vida", de Paulinho da Viola, realmente era uma tarefa de difícil execução. A melodia era magistral e, praticamente, definitivos seus versos. ninguém se atrevia a arriscar. Fora lançado em 1970. Dez anos, portanto, sem outro nos mesmos moldes. E eu era verde e rosa, criado em São Cristóvão, com parte da infância entre o Pedregulho e o pé do morro de Mangueira e a adolescência na subida do Paraíso do Tuiuti. Ela insistiu, achando que eu não fugiria do desafio. E o Mauro [Duarte], também azul e branco, seria o parceiro ideal para a empreitada. Como a uma mulher não se nega um pedido de coração, topei a parada.

Conversei com o Bolacha e ele se empolgou. Dias depois me trouxe uma idéia musical muito boa. Somente um pedaço, mas já dava pra pensar em algo.Aí é que eu vi onde me metera. Tinha de ser à altura do anterior famoso. Sendo menor, seria apenas mais um e não valeria a pena. O nó estava dado e meu trabalho era desfazê-lo. O tempo foi passando, e nada do que vinha me agradava. Rasguei muito papel, rabisquei muita bobagem e não conseguia o estalo. Andava de um lado pro outro da casa, ia na janela, na varanda, no portão, e a luz da inspiração não acendia. Prestes a desistir, resoilvi deixar por conta dos deuses da Música o desfecho do encargo a que me atribuí. Não sendo dessa feita, tento no ano seguinte. E relaxei o espírito combalido.

Na outra manhã fui tomar uma brisa na sacada. De lá, perdido em divagações, imerso em meus pensamentos pus-me a observar o cantinho de Clara. Era uma mesa de fazenda antiga encostada na parede da sala. Sobre ela uma toalha de renda branca e um grande oratório aberto. Em torno dele as imagens dos orixás espalhados e, dentro, os santos católicos. No centro, em destaque, uma escultura em madeira de Nossa Senhora da Aparecida, a Padroeira do Brasil. Encimando a pequena igrejinha, pregada na parede, cinzelada em bronze fino, a pomba do Espírito Santo de asas abertas. Um arrepio me percorreu o corpo. Os olhos cintilaram. A mente abriu. Estava ali, na minha cara, o que eu buscava tanto. Era só misturar o sagrado e o profano como faz o povo intuitivamente, em suas manifestações folclóricas. O manto azul e branco da  santa era a massa compacta dos integrantes da Escola entrando na avenida. A procissão do samba num cântico de fé pra festa do Divino. A águia, símbolo maior, virando a pomba do Espírito Santo num andor, seguindo pela passarela do templo do carnaval. Os fiéis da missa, na mais grandiosa festa do mundo, em direção ao altar da praça da apoteose.

Confesso que, enquanto escrevia, os olhos marejavam. A emoção me pegou de jeito. Consegui atender o desejo de Clara, destrançando o nó do óbvio. O samba hoje é, para meu orgulho, o que esquenta a bateria e a garganta do puxador antes da entrada da Portela na avenida."

Obviamente, a letra, para completar o texto:

(Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)

"Portela
Eu nunca vi coisa mais bela
Quando ela pisa a passarela
E vai entrando na avenida
Parece a maravilha de aquarela que surgiu
O manto azul da padroeira do Brasil
Nossa Senhora Aparecida
Que vai se arrastando
E o povo na rua cantando
É feito uma reza, um ritual
É a procissão do samba
Abençoando
A festa do divino carnaval

Portela
É a deusa do samba,
O passado revela
E tem a Velha Guarda como sentinela
E é por isso que eu ouço essa voz que me chama
Portela
Sobre a tua bandeira, esse divino manto
Tua águia altaneira é o Espírito Santo
No templo do samba

As pastoras e os pastores
Vem chegando da cidade e da favela
Para defender as tuas cores
Como fiéis na santa missa da capela
Salve o samba, salve a santa, salve ela
Salve o manto azul e branco da Portela
Desfilando triunfal sobre o altar do carnaval"

sábado, 26 de junho de 2010

Achados e Perdidos

Tímida forma, razão dominante
Viagem ao centro da Terra
a encontrar o coração lancinante
a lamentar pois tudo erra.
Escondendo-se em tartaruga carapaça
Escondendo-se em armado concreto
Razão ao sentimento ameaça
resulta em árido deserto

Justiça é palavra distante
Pulsante músculo não se manifesta
brusco equilíbrio nota dissonante
encerrada está precoce festa.
Prazer permitido é funeral
comemora da emoção a certa morte
frieza dominante sempre igual
culpa sempre recai sobre má-sorte.

Remar contra a maré é desistência
conformismo coração se fecha em copas
golpeia a si mesmo com carência.
Ondas barreiras formam cotas
revestindo o coração malha de aço
forte e frio instrumento de defesa
mente absorta em profundo cansaço
ilusão derrotada eterna certeza.

Esperança perdida realidade cruenta
Sonhar não vale a pena engendrar
situações onde o libertar tenta
razão impõe o devido lugar.
Sonhar não vale a pena fazer
Ilusão não vale a pena sentir
Alegria inexistir é maldizer
conclusão é emoção extinguir.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Final de Semana - "Um Ser de Luz (Sabiá)"



Como a resenha literária de hoje foi musical, nada melhor que um exemplar da obra de Paulo César Pinheiro para abrirmos o nosso final de semana.

Escolhi aquela que é uma das músicas mais bonitas do compositor e, como ele próprio diz, uma das mais difíceis para ele: "Um Ser de Luz" (Sabiá), composta em homenagem à esposa Clara Nunes em parceria com João Nogueira e Mauro Duarte.

No livro Paulo César conta que achou um absurdo quando os parceiros vieram a ele com a idéia de um "samba de adeus" para Clara Nunes. Já tinham prontas, inclusive, esboços de letra e o início da melodia. Entretanto, Nogueira o convenceu com um argumento muito hábil: que se ele (Paulo) fizesse o samba, ninguém mais se atreveria a escrever outro. Além disso, se ele não fizesse iriam aparecer canções oportunistas e de baixa qualidade.

Foi exatamente o que ocorreu. Depois da parceria, jamais outro compositor se atreveu a escrever um samba em homenagem à Clara Nunes. "Um Ser de Luz" - que tem este título como referência a uma crônica de Artur da Távola escrita durante o período de agonia da cantora no hospital - se tornou a definitiva canção de adeus, como previra João Nogueira.

A música foi o "esquenta" da Portela para o carnaval seguinte - inclusive eu tenho em algum lugar esta gravação. O vídeo que disponibilizo acima é de um dos autores, João Nogueira. Paulo César Pinheiro escreve que jamais conseguiu cantar a música.

Há uns anos atrás, eu era um dos organizadores de um evento para membros pioneiros da Messiânica e convidamos um grande compositor, multicampeão em sua Vila Isabel, messiânico como eu e com quem tenho algum grau de amizade para fazer o fechamento do evento com uma "canja". Eu estava circulando pelo local do evento verificando algumas imprevisibilidades que haviam surgido quando ouço pelo sistema de som o anúncio:

" - Quero cantar uma música de que gosto muito e ao mesmo tempo fazer uma homenagem a um amigo, portelense, que ajudou na organização deste evento: Um ser de luz, ou Sabiá."

E cantou. Fiquei muito tocado com a lembrança.

Vamos à letra:


"Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar

Sua voz então a se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava espantava a dor
Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela se foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas
E a gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de vê-la, sabiá

Sabiá
Que falta faz sua alegria
Sem você, meu canto agora é só
Melancolia
Canta meu sabiá,
Voa meu sabiá,
Adeus meu sabiá...
Até um dia..."

O que o livro não conta é que há uma outra composição da dupla - sem Mauro Duarte - feita em 1975 para homenagear Clara Nunes. Chama-se "Mineira" e abaixo disponibilizo a letra e o vídeo, também na interpretação do cantor e compositor portelense. Há uma outra versão desta canção bastante interessante no cd "Casa de Samba 1", com o próprio Nogueira e Alcione, mas esta não encontrei nenhum vídeo que pudesse incorporar no post.

"Clara,
abre o pano do passado,
tira a preta do cerrado
Pôe rei congo no congá
Anda canta um samba verdadeiro,
faz o que mandou o mineiro
Ô mineira

Samba que samba no bole que bole
Oi morena do balaio mole se embala do som dos tantãs
Quebra no balacochê do cavaco e rebola no balacubaco
Se embola dos balagandãs
Mexe no meio que eu sambo do lado vem naquele bamboleado
Que eu também sou bam, bam, bam

Vai cai no samba cai e o samba vai até de manhã
Vai cai no samba cai e o samba vai até de manhã

Ô saravá mineira guerreira que é filha de Ogum com Iansã"



(Foto: Globo.com. O curioso é que um dos ritmistas que estão na foto tocaria junto comigo na bateria da Portela em 2004, o Timbira)

Resenha Literária - "Paulo César Pinheiro - Histórias das Minhas Canções"

Sexta feira, jogo da seleção brasileira daqui a pouco, e mais uma resenha literária no Ouro de Tolo.

O livro de hoje é "mezzo" curitibano, "mezzo" carioca. Explico: o livro foi comprado no aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, e me chamou tanto a atenção que parei pelo meio a leitura que eu vinha fazendo e comecei imediatamente a ler. Adiantei-o bastante no vôo de volta para o Rio e terminei de ler já na Cidade Maravilhosa.

Curioso é que eu nunca inicio uma leitura sem terminar a anterior. Mas este me prendeu e iniciei a leitura, que se revelou deliciosa.

Este livro é o segundo da série sobre histórias de canções que a editora Leya, portuguesa, está lançando no Brasil. O primeiro foi Chico Buarque de Holanda, já resenhado aqui mesmo.

Paulo César Pinheiro é um dos maiores compositores vivos da história não somente da música popular brasileira como do samba carioca. Muito precocemente iniciou-se na vida musical, sendo parceiro do grande Baden Powell aos incríveis dezesseis anos de idade. Foi parceiro de compositores como João Nogueira, Mauro Duarte - o saudoso "Bolacha" - Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros bambas da música popular brasileira.

Como se não bastasse, foi casado com Clara Nunes e, após a morte da grande cantora, com Luciana Rabello, irmã do grande violonista Rafael Rabello.

É autor de clássicos como "Lapinha", "Vou Deitar e Rolar (Quaraquaqua)", "Espelho", "Canto das Três Raças", "Portela na Avenida", "To Voltando" e "Um Ser de Luz", entre outros.

Ao contrário do livro sobre Chico Buarque, é o próprio Paulo César Pinheiro o autor do livro. Em uma prosa deliciosa e com estilo fluente, ele vai desfiando com sua memória prodigiosa as circunstâncias de criação destes clássicos da música brasileira. Bem como do nascimento de parcerias que se tornariam imortais na música brasileira.

Um bom exemplo é a parceria com o grande João Nogueira. Foram apresentados pela irmã de João, que era amiga da irmã de Baden Powell, em uma feijoada no Clube Mackenzie, no bairro do Méier. Foram amigos até o início de 1972, quando nasceu a primeira parceria, a imortal "Espelho" - em homenagem ao pai de João Nogueira.

São inúmeras histórias, cada uma melhor que a outra. Outro ponto que chama a atenção é a ligação do autor com a religiosidade e as várias passagens em que músicas tiveram este tipo de influência. Mesmo ele se dizendo cético.

Para os portelenses o livro também traz algumas novidades bastante interessantes. Não somente a história da composição do clássico "Portela na Avenida" - que reproduzirei na íntegra no próximo domingo - como algumas historinhas de bastidores da escola e do "racha" que gerou a Tradição. Além da revelação de que "Canto das Três Raças" foi sugerido a Carlinhos Maracanã, presidente então da azul e branco, como samba-enredo da escola. Mas...

"Propus ao Carlinhos Maracanã esse tema pra Portela. Só que escola de samba é outro papo. É problema. É guerra. Não se chega sugerindo um samba pronto. Tem todo um processo complicado que envolve ego, grana, disputa, prestígio interno. Na minha ingenuidade imaginei que magnífico desfile poderia ser pra azul e branco. Sonho, apenas. Desisti logo. Até hoje, porém, ainda visualizo este cortejo na Passarela do Samba." (pp. 112)

Outra história bastante interessante é a de "Um ser de luz", feita em homenagem a Clara Nunes. Mas esta ficará para mais tarde, pois será a música de hoje de nossa seção "Final de Semana".

Em outro capítulo, traz uma revelação que talvez pouca gente saiba: que "To Voltando", que se tornaria o hino da Anistia e da volta dos exilados políticos não foi feita com esta finalidade. Na verdade era uma canção que saudava a volta de um amigo após longa temporada de shows. Entretanto, como ele mesmo diz, "as músicas ganham vida própria".

Complementando, desfaz uma dúvida que eu sempre tive: o porquê do título "Agora é Portela 74" em uma das canções, porque a letra dela não tem nada a ver com a águia de Madureira. Segundo o livro o título foi unica e exclusivamente para driblar a Censura vigente à época - a canção já havia sido vetada anteriormente.

Resumindo, é leitura indispensável para quem gosta de música. Na Livraria da Travessa, custa R$ 36.

Para fechar, vamos ver o próprio autor entoando dois clássicos de sua lavra, "Cicatrizes" e "Poder da Criação".