segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Capitalismo: Uma História de Amor



De uma forma muito feliz, assisti a um DVD ontem que complementa e ilustra muito bem o tema do post anterior.

Estava com o filme para ver há algum tempo, mas não tinha ocorrido a oportunidade de assistir "Capitalismo: Uma História de Amor" (trailer acima), o último documentário do cineasta americano Michael Moore - dos indispensáveis "Tiros em Columbine" e "Fahreheint 9/11". Sou fã do cineasta americano, sempre com documentários que mostram o lado oculto do establishment e que mostram as mazelas do que é considerado, muitas vezes, "senso comum"

Desta vez o tema do cineasta é a crise do "sub-prime" norte americano, que arrastou a economia dos Estados Unidos a uma crise sem precedentes e a milhares de ações de despejo de famílias que perderam suas casas por falta de pagamento. Paralelamente mostra a captura do Estado americano pela corporatocracia, em especial os grandes bancos de Wall Street.

Seu ponto de partida é exatamente o mesmo do adotado por John Perkins no livro do post abaixo: a eleição de Ronald Reagan como guardião das idéias desregulamentadoras e do radical livre mercado. Livre, obviamente, para as empresas que passaram a deter diretamente o controle do Estado. Moore mostra, tal qual Perkins, que as políticas de desregulamentação tinham como objetivo maximizar os lucros a curto prazo. Para isso, os sindicatos foram esmagados, empregos dizimados, salários congelados e produtividade do trabalho crescendo a níveis altíssimos. Bem como retirada de restrições e regulamentações, em especial do trabalho e de serviços financeiros.

O filme mostra situações como famílias que foram despejadas de seus imóveis por não conseguir acompanhar a subida estratosférica dos juros e contratos leoninos. Prestações em alta, salários estagnados e empregos em queda levando a um quadro de falência pessoal. A humilhação final era o banco pagar mil dólares para que as famílias retirassem seus pretences e limpassem a casa que teriam de entregar.

Por outro lado, aparecem aqueles corretores - chamados por Moore apropriadamente de "abutres" - especializados em comprar estes tipos de casas e revendê-las com grandes lucros aproveitando-se do desespero das pessoas.

O filme também mostra como a Goldman Sachs colocou ex-diretores em postos chave da estrutura governamental americana, e os detalhes do acordo que deu US$ 700 bilhões a estas instituições para, teoricamente, "salvar" o mercado. Na prática tal "doação" foi apropriada pelos líderes destas instituições como bônus e outros tipos de benesses, restando ao contribuinte apenas a conta a pagar - e empregos perdidos, casas executadas e renda real em queda.

Todo o jogo de pressões exercido por Wall Street para aprovação deste pacote é descrito em detalhes na película. Primeiramente o acordo foi rejeitado mas após um "acordo de gabinete" ele foi simplesmente aprovado. Hilária é a cena do filme onde Moore aluga um carro forte e percorre os principais bancos a fim de "recolher" os US$ 700 bilhões emprestados - que, na prática, não serão devolvidos.

Espantou-me saber que um piloto comercial de avião ganha por ano apenas US$ 20 mil - o que daria R$ 36 mil aproximadamente. O filme mostra um deles recorrendo a vales dados pelo arremedo de Assistência Social que restou a fim de comprar comida. E toca na questão do endividamento e na escravidão por tal que a baixa dos salários trouxe - bem como dito, também, no livro de John Perkins. Outro ponto deplorável é o fato de grandes empresas norte-americanas terem feito seguros de vida em nome de seus funcionários - onde elas, as empresas, eram as beneficiárias !

Merecem destaque também as análises de padres e do bispo de Chicago dando conta de que Jesus Cristo reprovaria este tipo de capitalismo adotado e de como a Bíblia teve sua interpretação distorcida a fim de justificar os "gatos gordos" capitalistas do mercado. Provavelmente, o Papa Bento XVI não vai gostar nem um pouco de saber disso...

Após traçar um quadro de como o capitalismo atual norte americano, desregulamentado, acabou com a classe média e aumentou sobremaneira a concentração de renda, o cineasta mostra tentativas de resistência popular, como a ocupação de uma fábrica em Chicago a fim de que os empregados demitidos pelo seu fechamento recebessem seus direitos e a reocupação de casas por famílias despejadas em Miami.

Não sei se o cineasta conhece o escritor, mas a tese de Perkins de que "os métodos dos assassinos econômicos funcionaram tão bem no Terceiro Mundo que os aplicamos em nosso próprio país" é ilustrada de forma magistral pelo filme. Moore traz aqui e ali alguns elementos da teoria marxista para o debate, mas de forma tão natural que somente especialistas conseguem perceber isso. Sua conclusão final é de que o capitalismo precisa ser substituído pela democracia, onde todos possam ter seus interesses ouvidos e atendidos.

O cineasta defende uma postura tipicamente social-democrata, mas o leitor deve se lembrar de que, nos Estados Unidos, tal postura soa como se fosse um comunismo radical. O próprio diretor frisa isso ao mostrar como Obama foi tachado de "socialista" pelos republicanos por defender algumas medidas típicas de um Estado de bem estar social.

O documentário é obrigatório para se entender o quão predatórias se tornaram algumas políticas econômicas e a tomada do Estado pelas grandes empresas. Algo semelhante ao ocorrido aqui entre 1995 e 2002, onde a equipe econômica estava mais interessada em atender a seus ex - e futuros  - patrões do mercado financeiro que propriamente o bem estar da economia, do povo ou do país.

Imprescindível. Comprei o meu DVD - que tem ótimos "extras", a propósito - na Travessa, mas para venda online há apenas pronta entrega na Saraiva, a R$ 40. Presença obrigatória em qualquer estante.

P.S. - Assisti há cerca de um mês "Meu Malvado Favorito". Acabei não escrevendo aqui porque perdi o "timing", mas é um desenho que pode ser visto tanto pelo ângulo do relacionamento entre pais e filhos quanto pelo lado da crítica à vida corporativa nos dias de hoje. Muito bom.


Resenha Literária - "Enganados"

Como os leitores podem perceber, a semana passada entre Campinas e Paulínia foi proveitosa, como sempre, em termos de leituras.

Trago aos leitores a resenha deste "Enganados", novo livro do economista americano John Perkins - autor dos indispensáveis e já resenhados "Confissões de Um Assassino Econômico" e "A História Secreta do Império Americano".

Neste exemplar o autor se utiliza de conceitos desenvolvidos em seu livros - em especial "Confissões" para explicar a crise econômica americana e, por tabela, mundial.

Ele inicia mostrando a oposição entre as teorias econômicas de Keynes e as de Milton Friedman e como a vitória dos teóricos deste levou a um mundo de concentração econômica, pobreza e quebradeira de empresas e pessoas.

Grosso modo, a teoria keynesiana advoga que o Estado é necessário na tarefa de regulamentar os setores econômicos e intervir em setores onde a iniciativa privada não se interesse ou onde seja de caráter estratégico para o país. Além disso, é função do Estado estimular a demanda agregada da economia e regulamentá-la.

Milton Friedman é considerado o pai do "monetarismo", doutrina que advoga que qualquer ação do estado apenas tem como consequência o aumento da quantidade de moeda na economia e, finalmente, inflação. Também advoga a total desregulamentação de todo e qualquer mercado, com a justificativa (falaciosa) de que a interferência estatal cria zonas de ineficiência.

John Perkins mostra como a adoção de políticas monetaristas levou os Estados Unidos e o mundo à crise atual, com concentração de renda cada vez maior, ganhos cada vez maiores dos grandes "CEOs" das empresas e as mazelas das políticas empresariais de "maximizar lucros a curto prazo", a fim de aumentar os bônus corporativos. E trata da captura do Estado norte-americano por estas corporações. O autor chega a cunhar a expressão "barões ladrões" para definir a atuação destes presidentes e donos de grandes empresas.

Sem qualquer regulação, tais executivos e suas companhias adotaram práticas predatórias que levaram prejuízos a consumidores e países, bem como a uma crise financeira bastante grave.

Outro aspecto interessante da primeira parte do livro é a tese do autor de que as práticas dos "assassinos econômicos "deram tão certo" nos países do Terceiro Mundo que foram aplicadas nos Estados Unidos: aprisionar o povo pelas dívidas.

Perkins também mostra o desacerto causado pelos PAEs - Programas de Ajuda Econômica - impostos pelo Fundo Monetário Internacional aos países dependentes e dos lucros gerados para as grandes corporações multinacionais.

Também desmascara a hipocrisia de donos de empresas como a Microsoft que doam milhões a instituições de caridade mas escravizam os povos com práticas monopolistas e de concentração de recursos.


Uma revelação importante do livro é o fato de tratar o golpe de Honduras como parte integrante de defender os interesses da "corporatocracia", no caso representada por indústrias produtoras de bananas e outras frutas. Nas palavras do autor:

"Todas as pessoas com quem falei no Panamá estavam convencidas de que o golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, foi arquitetado por duas companhias norte-americanas, com apoio da CIA. No começo daquele ano, a Chiquita Brands International, Inc. (ex-United Fruit) e a Dale Food Company, Inc., tinham criticado severamente o Presidente Zelaya por defender um aumento de 60% no salário mínimo de Honduras, alegando que a medida reduziria os lucros corporativos.


(...) O vice-presidente de um banco panamenho, que prefere continuar anônimo, me disse: 'toda multinacional sabe que, se Honduras aumentar os salários, o resto da América Latina e do Caribe terá de acompanhar. Haiti e Honduras sempre estabeleceram o patamar para o salário mínimo. As grandes companhias estão determinadas a deter o que chamam de revolta esquerdista neste hemisfério. Derrubando Zelaya, estão enviando mensagens intimidadoras a outros presidentes que tentam elevar o padrão de vida de seus povos.


(...) A íntima relação entre os líderes do golpe militar de Honduras e a corporatocracia foi confirmada alguns dias depois da minha chegada ao Panamá. O Guardian inglês publicou uma matéria dizendo que 'dois dos principais conselheiros do governo golpista hondurenho têm relações estreitas com o Secretário de Estado dos Estados Unidos.


(pp. 215-216)

Na segunda parte o autor elenca algumas formas de sairmos desta crise rumo a um mundo sustentável. Chama a atenção especialmente para o que ocorre na China. Em suas palavras, começa a haver consciência ambiental e a questão da disciplina freia o egoísmo e o materialismo.

Ressalta adicionalmente que nós, consumidores, temos poder de mudar estas práticas corporativas perniciosas, desde que livres das dívidas. Como exemplo, escreve que temos uma série de subprodutos de cereais como o milho absolutamente dispensáveis - flocos, com açúcar, sem, entre outros - enquanto um bilhão de pessoas no mundo lutam diariamente para se alimentar, sofrendo de inanição.

Mais uma vez, é um livro indispensável e que faz pensar. Devido às referências que faz no texto, a leitura anterior de "Confissões de Um Assassino Econômico" torna mais profundo o entendimento das questões tratadas, mas não chega a ser indispensável  - para este caso - a leitura do livro.

Na Travessa, custa R$ 31.


domingo, 12 de setembro de 2010

Imprensa abre o jogo e rasga a fantasia


Completando a dupla de textos deste domingo, um texto do grande jornalista Ricardo Kotscho, publicado em seu "Balaio do Kotscho". Versa sobre o papel da imprensa nestas eleições que se aproximam e retoma, com muito maior brilhantismo, questões que abordei em texto anterior sobre a liberdade de imprensa.

"Imprensa abre jogo e rasga a fantasia

Vejam as manchetes desta quinta-feira, 9 de setembro de 2010, nos três principais jornais do país.

Folha de S. Paulo:

“Escândalo da Receita – Investigada consultou dados do genro de Serra”.

O Estado de S. Paulo:

“Genro de Serra teve sigilo fiscal violado”.

O Globo:

“Serra reage e diz que Lula serve à estratégia `caixa-preta´do PT”.

Parece uma gincana, não há outro assunto no mundo. É como se todos os jornais tivessem o mesmo pauteiro e o mesmo editor. Embora se refira a casos de violação fiscal ocorridos no ano passado, a notícia é requentada dia a dia com algum ”fato novo” que justifique a manutenção da rubrica “escândalo da receita”.

Até algumas semanas atrás, antes da disparada da candidata Dilma Roussef em todas as pesquisas, abrindo larga vantagem sobre José Serra, que chega a 33 pontos no último tracking do Vox Populi/Band/iG, a nossa velha mídia ainda procurava, de alguma forma, manter as aparências de neutralidade com aquela história de jornalismo “isento”, “apartidário”, “independente”.

Agora, que parece não ter mais jeito de virar o placar nas pesquisas com bom-mocismo, resolveram abrir o jogo e rasgar a fantasia, sem nenhum pudor. Das manchetes ao noticiário, passando pelos editoriais e colunas, a ordem é desconstruir a pessoa e a candidatura de Dilma, e bater sem piedade no governo Lula.

Aonde querem chegar? Quem eles ainda pensam que enganam? A julgar pela maioria dos comentários publicados neste Balaio, leitores e telespectadores já estão vacinados, sabem quem é quem e o que está em jogo.

Como os números das pesquisas não reagem às doses cavalares de fatos negativos, apesar de o país da mídia viver uma interminável crise do fim do mundo, só posso acreditar que se trata de uma estratégia Jim Jones. Bater em Dilma e no PT, tudo bem, estão todos de acordo. Só não descobriram ainda como alavancar a campanha da oposição. Promovem debates e sabatinas quase todo dia para dar uma fôrça, mas até agora não teve jeito.  

Um forasteiro que tenha chegado ao Brasil esta semana, e procurasse saber pelos jornais e no Jornal Nacional da TV Globo o que está acontecendo por aqui, a 24 dias da eleição presidencial, poderia imaginar que desembarcou no país errado, em algum lugar estranho e perigoso, na região mais pobre e menos democrática do continente africano.

Sob o título “O país de Lula: esgoto em baixa, consumo em alta”, o jornal O Globo, que se supera a cada dia, pinça números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2009), divulgada esta semana pelo IBGE, para concluir na chamada de capa: “O desemprego subiu na crise, mas o brasileiro comprou mais DVDs e máquinas de lavar”.

Sem explicar como um país de  desempregados investe em eletrodomésticos, o jornal esqueceu de dizer que os empregos perdidos na crise do ano passado já foram recuperados, com folga, em 2010 _ o que explica a teimosia das pesquisas em manter os índices de aprovação do governo Lula em torno de 80%.

Para publicar o título “O presidente Lula passou dos limites”, com direito a chamada na capa, o venerando Estadão, por sua vez, redescobriu o cientista político José Álvaro Moisés, tão conhecido que se viu obrigado a publicar uma nota “Quem é” para o leitor saber de quem se trata. Entre seus títulos acadêmicos e experiências em “teoria democrática e comportamento político”, porém, o jornal só omitiu o fato de que o professor e cientista Moisés foi sub-ministro da Cultura no governo Fernando Henrique Cardoso.

Já a Folha, que resolveu publicar um caderno especial de eleições a partir desta semana, entre tentativas de fazer humor político misturado com jornalismo sério, tem se dedicado a investigar o passado da ex-ministra Dilma Rousseff, desde os seus antepassados búlgaros, que ela nem conheceu. Até agora, estranhamente, não se interessou em fazer matérias sobre o passado dos outros candidatos, como se todo mundo tivesse a obrigação de já conhecer as histórias deles.

Critérios são critérios, eles dirão, ninguém tem nada com isso. A liberdade de imprensa deles, aquela que defendem com tanto fervor, está acima de tudo _ dos fatos, das leis, da isonomia e do direito da sociedade de ser informada com um mínimo de honestidade sobre o que está acontecendo.

O Troféu Órfão


Domingo, dia de lembranças. E de bons textos.

Reproduzo aqui texto do amigo Rodrigo Mattar lembrando que esta última semana completaram-se quarenta anos da morte do único campeão mundial de Fórmula 1 que não estava vivo para receber seu troféu: Jochen Rindt.

O texto foi publicado originalmente em seu excelente "A Mil Por Hora".

"40 anos sem Rindt: o único campeão “post-mortem”

Sim, eu sei. Foi no dia 5 de setembro que faz 40 anos que Jochen Rindt morreu. Mas e daí? No domingo passado, todas as atenções se voltaram para a trágica perda de Shoya Tomizawa durante a corrida da Moto2 em San Marino. Porém, não há como deixar de pagar tributo àquele que é até hoje o único campeão “post-mortem” da história da Fórmula 1 e um dos raros em qualquer competição automobilística. Que me recorde, outro que também foi campeão após falecer num acidente foi Paul Warwick, na Fórmula 3000 inglesa.

A trajetória de Rindt no automobilismo é digna de registro. A começar que, embora defendesse a Áustria, Rindt era alemão. Nasceu em Mainz, no dia 18 de setembro de 1942, quando a II Guerra Mundial já estava no auge. A primeira grande perda de Jochen foi ainda menino: seus pais morreram num bombardeio em Hamburgo e ele foi criado pelos avós em Graz, em território austríaco, livre da tirania nazista.

Em 1964, com apenas 22 anos de idade, estreou na Fórmula 1 ao mesmo tempo que despontava como um corredor de ponta na Fórmula 2. Andou em sua primeira corrida com um Brabham BT’11 de motor BRM V8, alinhado por Rob Walker, no antigo circuito de Zeltweg, abandonando em razão de problemas na direção.

No ano seguinte, assinou um contrato com a Cooper para disputar provas da categoria máxima com esta marca, enquanto na F-2 ainda mantinha a parceria com Jack Brabham a bordo dos notáveis Brabham-Honda da categoria de acesso. Com a Cooper, Rindt permaneceu por três temporadas. Na primeira, fez seus primeiros pontos na Fórmula 1 com um 4º lugar na Alemanha (Nürburgring) e um sexto na Cidade do México. Naquele mesmo ano de 1965, Rindt venceu em dupla com Masten Gregory a bordo de uma Ferrari 250 LM as tradicionalíssimas 24 horas de Le Mans.


O segundo ano de contrato entre Rindt e a Cooper foi muito positivo, apesar do conjunto meio pesadão formado pelo chassis T81 do construtor britãnico no qual foi acoplado o velho motor Maserati V12 dos anos 50, potente e beberrão. Apesar das dificuldades, o austríaco brilhou: fez 24 pontos (22 válidos) e três pódios, com dois segundos lugares na Bélgica e nos Estados Unidos, além de um 3º posto na Alemanha.

Em 67,  já com Bernie Ecclestone como empresário, Jochen não foi além de seis pontos e um 13º lugar no campeonato de Fórmula 1, numa temporada muito irregular. O relacionamento com a equipe já dava evidentes sinais de desgaste e Rindt, motivado pela parceria com Jack Brabham na Fórmula 2, assinou para a temporada seguinte também na F-1.

A decisão parecia perfeita porque, afinal de contas, a Brabham foi a equipe mais bem-sucedida no início da era dos motores de 3 litros de capacidade cúbica, com títulos do próprio Jack em 1966 e do neozelandês Denny Hulme, em 1967, que saíra para se juntar a Bruce McLaren em sua recém-criada escuderia. Mas os motores Repco V8 na nova versão revelaram-se um malogro, com constantes falhas mecânicas. Rindt fez apenas dois pódios, com dois terceiros lugares na África do Sul e na Alemanha e fechou o campeonato num distante 12º lugar.
 
O austríaco gostava de desafios e para 1969 ele aceitou um daqueles bem encarniçados: suceder Jim Clark como piloto da Lotus 49, o revolucionário projeto de Colin Chapman que integrava o chassi de sua criação ao motor Ford Cosworth V8 desenvolvido por Kevin Duckworth e Mike Costin. A temporada não começou bem: Jochen demoliu seu carro contra uma barreira de proteção quando o aerofólio traseiro de seu carro quebrou a mais de 220 km/h, provocando fratura de crânio no piloto, que não correu em Mônaco e voltou na prova seguinte em Zandvoort, na Holanda.

Na segunda metade do campeonato, Rindt e a Lotus melhoraram positivamente seu desempenho. Após um injusto 4º lugar na Inglaterra, quando brigou de igual pra igual com Jackie Stewart, foi segundo em Monza, a centésimos do escocês voador. Chegou ainda em 3º no Canadá e no GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, veio a consagração. Depois de uma corrida impecável, o piloto austríaco, então com 27 anos, venceu pela primeira vez na Fórmula 1.

Em 1970, a Lotus estava pronta para retomar a hegemonia perdida com a morte de Clark e com o acidente de Graham Hill, sofrido um ano antes, onde o veterano bicampeão mundial quebrou as pernas numa batida. E Rindt, como piloto número 1 da equipe na Fórmula 1 e também na Fórmula 2, era a esperança de Colin Chapman para recolocar o Gold Leaf Team Lotus no caminho natural das vitórias.

A primeira do ano veio ainda com o velho modelo 49C, graças à falta de combustível no carro de Jack Brabham na última volta do GP de Mônaco. E quando o modelo 72C finalmente ficou pronto, a sinergia entre ele e Rindt foi perfeita: quatro vitórias de forma consecutiva (Holanda, França, Inglaterra e Alemanha), somadas com o triunfo de Mônaco, o deixaram com 45 pontos e líder isolado do campeonato. Nem a quebra acontecida no GP da Áustria, logo na 22ª volta, abalou a moral de Rindt diante dos seus compatriotas.


O GP da Itália, décimo do campeonato, seria decisivo para as pretensões de Rindt e ele estava preparado para uma dura batalha contra Jacky Ickx, Clay Regazzoni e Ignazio Giunti, a trinca da Ferrari que tanto lhe dera trabalho em Österreichring na corrida anterior. Mas o fim de semana não começou bem para a Lotus: seu novo companheiro de equipe naquela época, o brasileiro Emerson Fittpaldi, tentava participar de sua 4ª corrida na Fórmula 1 e na ânsia de mostrar serviço, distraiu-se numa freada, bateu na traseira da Ferrari de Giunti e decolou com seu carro em direção às árvores da curva Parabólica. Detalhe: com o carro que seria de Rindt naquele fim de semana.

Colin Chapman determinou a troca de carro e Emerson assim cedeu seu chassi ao companheiro de equipe, que estava inscrito para aquela prova com o número #22. O brasileiro tinha o número #26 e foi para a pista com o chassi que seria do austríaco para a prova de classificação, no dia 5 de setembro.

Mas a tragédia, presente na vida de Rindt desde a infância, se fez presente naquela tarde. O piloto freou forte para tomar a Parabólica saindo da reta oposta em direção à reta dos boxes e tribunas, quando alguma coisa quebrou na Lotus e o líder do campeonato bateu violentamente na barreira de proteção. Seu carro saiu rodando pela areia, com o piloto inerte, a suspensão dianteira demolida e as pernas de Rindt para fora do cockpit.

Ele foi levado às pressas para um hospital, mas os ferimentos extensos tornaram impossível qualquer tentativa de recuperação. Aos 28 anos, Jochen Rindt, líder absoluto do Mundial de Fórmula 1 de 1970, estava morto. A Lotus não disputou a corrida, vencida por Clay Regazzoni com a Ferrari e também não foi ao Canadá, onde a vitória foi de Jacky Ickx.

Subitamente sem seu principal piloto, Colin Chapman tomou uma arriscada decisão. Levou para o GP dos EUA em Watkins Glen o brasileiro Emerson Fittipaldi, guindado à condição de piloto número um e o sueco Reine Wisell, sem nenhuma experiência prévia na categoria, que brilhara na Fórmula 3 europeia, para assumir o volante do segundo carro. E para surpresa geral, Emerson não só venceu a corrida, como ofertou a Rindt o inédito título “post-mortem”, até hoje um feito jamais alcançado na história da Fórmula 1.

Rindt morreu sem conhecer a maior glória de sua carreira. Mas os fãs austríacos e o mundo do automobilismo não esquecem de sua passagem pelo esporte, com demonstrações de garra, muita velocidade e um controle fantástico dos carros que guiava. Por isso, deixou muita saudade."

(Fotos: Blog do Ico)


sábado, 11 de setembro de 2010

Camisas Raras Rubro Negras

Sábado, mais um final de semana...

Mostro aqui algumas camisas raras do Flamengo que eu tive a sorte de adquirir nos últimos três anos. Abaixo, algumas fotos e uma pequena história de cada uma delas.

O Ouro de Tolo irá sortear proximamente duas camisas de jogo autografadas rubro negras. Aguarde, que na próxima semana divulgarei aqui as instruções.


Esta acima nem é tão rara, comprei em loja, mas é uma das que mais gosto. Utilizada entre 2004 e 2006, é a camisa do título da Copa do Brasil de 2006. Como engordei de 2004 para cá, está bem justa.


Esta que coloco acima e abaixo, é bastante rara pois não foi vendida em loja. Qualquer dia conto aqui como ela chegou às minhas mãos. É de 2007 e embora esteja com a configuração da Taça Libertadores daquele ano, foi utilizada na derrota de quatro a um para o Madureira.


O curioso é que os decalques da marca e do número são bem frágeis, o que me faz pouco a utilizar.


Esta acima e abaixo é outra que não foi vendida pela Nike e foi preparada para jogo, não sendo utilizada. Comprei-a no Mercado Livre de um vendedor com contatos, à época, no clube.


Também é uma camisa rara pois Bruno, o titular à época, não a utilizou pois alegava que "dava azar". Ela apareceu apenas no goleiro reserva em algumas ocasiões.


Esta que disponibilizo acima e abaixo é rara por três motivos: por não ter patrocínio, ser de mangas longas e ter uma configuração diferente da vendida em lojas.


A camisa foi utilizada pelo hoje titular Marcelo Lomba no Campeonato Estadual deste ano.


Acima e abaixo, outra camisa muito rara e que faz parte do período entre a rescisão com o patrocinador anterior e a assinatura com a Batavo, patrocinadora atual. Utilizada por Adriano também no Estadual deste ano.


Abaixo, uma camisa comum, mas que tem um detalhe que a torna única: o número 12, aposentado pelo clube mas que é utilizado na Taça Libertadores por exigência do regulamento. Foi utilizada na primeira fase da competição.


Abaixo, outra camisa do titular atual do gol do Flamengo, utilizada no Campeonato Brasileiro:


Agora, um exemplar azul e amarelo, com um número diferente do vendido em lojas (apenas o 10). Foi preparada para ser utilizada contra o Corínthians, mas como o jogador não foi relacionado acabou em meu armário.


Outra camisa de goleiro, esta raríssima pois não foi vendida em lojas e ainda está autografada pelo atual titular de nossa baliza. É o exemplar correspondente ao terceiro uniforme.


Aliás, é uma camisa belíssima.


O curioso é que as camisas preparadas para jogo são ligeiramente maiores que as disponibilizadas para venda ao torcedor. Eu, que uso GG, consigo usar estas G de goleiro, embora fiquem mais justas no meu corpo. Só não posso engordar mais...


Finalizando, o exemplar "retrô" vendido pela Olympikus da camisa do goleiro Zé Carlos, utilizada na conquista do Campeonato Brasileiro de 1987.


Ela foi colocada à venda, mas em tiragem limitada. Pode ser encontrada em algumas das boas lojas do ramo e tem como destaque a fidelidade à original. Na prática, a única diferença é o símbolo da atual patrocinadora de uniformes do Flamengo.

O leitor deve estar se perguntando como consegui estas camisas mais recentes. Quando fizer a promoção da camisa autografada darei o "caminho das pedras" para que se possa adquirir uma destas.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Final de Semana - "Porta Aberta, Saudades da República et alli"




Sexta feira, mais um final de semana.

Semana retrasada comprei um cd do cantor e compositor Luiz Ayrão, grande portelense e que anda meio sumido nos últimos tempos.

Reproduzo aqui o vídeo onde, na companhia de Dorina e Almir Guineto, o grande portelense canta "Porta Aberta", feita em homenagem à Portela e um de seus grandes sucessos, bem como outras músicas.

Abaixo a letra:

"Pela porta aberta
De um coração descuidado
Entrou um amor em hora incerta
Que nunca deveria ter entrado
Chegou, tomou conta da casa
Fez o que bem quis e saiu
Bateu a porta do meu coração
Que nunca mais se abriu / E por isso

Por isso a nostalgia tomou conta de mim
Mas um amigo percebeu e disse assim :
Para que tanta tristeza... Rapaz
Acabe com ela e vem comigo conhecer
A Portela, Portela / Fenômeno que não
Se pode explicar / Portela, Portela
Uma corrente faz a gente sem querer sambar
É ela, é ela / O novo amor a quem eu quero
Agora me entregar / O samba fez milagre
Reabriu meu coração para a Portela entrar

O samba fez milagre e reabriu meu coração
Para a Portela entrar..."





Também disponibilizo acima o áudio de "Saudades da República", bem humorada crônica e que retrata com perfeição a vida atual da turma dos trinta e poucos anos, na qual me incluo. Abaixo, a letra:


"República, república
Ai que saudades dos meus tempos de república

Chegava de porre no quarto 
Cantando chorinho e sambão 
Acordava no meio da noite 
Fazendo a maior confusão 
A camisa que eu mais gostava 
Enxugava o chão do corredor 
E uma meia da mulher amada 
Era lá na cozinha o melhor coador

Livro emprestado não vinha
E o que vinha não ia também 
Tomava o dinheiro emprestado 
Depois não pagava ninguém 
Nota baixa tirava de letra 
Na roda de samba e batida 
E brigava sem ser carnaval 
Se falasse mal da Portela querida

Requeijão que mamãe me mandava 
Sumia sem nêgo saber
A pelada era de madrugada
Com bola de não sei o quê 
Esse tempo agora é passado 
Foi um doce de felicidade 
Pois agora a barriga burguesa 
Atrás de uma mesa chora de saudade"

Bom final de semana...

Cinecasulofilia - "Gerry"



Mais uma sexta feira e mais uma coluna "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o blog de mesmo nome. Uma vez mais, texto do crítico teatral e cineasta Marcelo Ikeda.

Gerry

"Gerry, de Gus Van Sant, é um belo filme, que tive a oportunidade de revê-lo no curso de Linguagem e Crítica, que tenho o privilégio de dividir com a Beatriz Furtado, nas quartas de manhã no cinema da Casa Amarela. Depois de alguns filmes duvidosos, como um remake de Psicose, Gênio Indomável e Encontrando Forrester, Gus Van Sant resolveu dar uma guinada radical na sua carreira como cineasta. Deixou os blockbusters de Hollywood para embarcar num projeto autoral bastante radical, bancado por ele próprio e por mais dois “amigos” (Casey Affleck e Matt Damon, que também aceitaram rever seus papeis de “belos rostos” e embarcar nessa aventura). Lembramos a frase de Nicholas Ray que se um cineasta em Hollywood fizer um filme com um orçamento menor que o anterior, ele está arruinado. Gus Van Sant fez isso. Logo, seu filme é um caminho sem volta. Gerry começa com um longo plano de um carro numa estrada, e uma música – de ninguém menos que Arvo Part – como se fosse um canto lúgubre. Vemos um plano ponto de vista de uma estrada. Ali estão os três artífices desse filme, num olhar integrado: os personagens, o autor (o próprio van sant) e o espectador. Caminho esse que é dessa forma o próprio caminho de Van Sant em sua cinematografia, no interior de um cinema americano.

Ao (re)ver Gerry, não pude deixar de pensar nos descaminhos da própria civilização norte-americana, o da conquista do Oeste. O próprio cinema participou da construção de um ideário sobre esse caminho, através do western, o “cinema americano por execelência”. Lembramos os filmes do John Ford; lembramos um filme como Rio Vermelho, de Howard Hawks, em que um grupo tenta conduzir um rebanho de gado pelo interior americano, passando por uma travessia – épica e ética – física e espiritual. Essa conquista do espaço físico da civilização americana sempre foi baseada na domesticação de uma natureza selvagem, subjugada pelo Homem determinado. Lembramos um filme como Náufrago, em que Tom Hanks sozinho vence a força da natureza, assim como o fizera o heroico Robinson Cruzoé.

Em Gerry, essa apologia da vitória do Homem sobre a Natureza, ápice do processo civilizatório, é virada pelo acesso por Gus Van Sant, o que nos leva a pensar que o filme basicamente coloca a questão: quais foram os legados da “civilização” para os jovens americanos de hoje? Em Gerry, dois jovens amigos se perdem num deserto. Um passeio turístico acaba assumindo proporções cada vez mais desesperadoras para esses dois amigos indefesos, diante do vigor da natureza. Vêem-se pequenos diante da imensidão do mundo, e precisam assumir seus limites e sua incapacidade de lidar com as tarefas básicas da sobrevivência: a busca por comida e água. São meros patetas indefesos, sem a redoma de defesa dos processos civilizatórios. Começam a perder-se cada vez mais. Quanto mais se perdem, mais adquirem a consciência de sua pequenez e da fragilidade de sua condição humana. É impressionante uma cena em que um dos personagens tenta pular de uma pedra: um plano-sequência, sem cortes, desvela o absurdo praticamente cômico dessa situação. A beleza dessa sequência existe exatamente por ela acontecer sem corte e em plano geral, quando percebemos o abismo entre os dois amigos, ou ainda, entre eles e o mundo. O que só nos lembra a famosa frase de Bazin sobre o cinema de Chaplin, de como o efeito cômico de Chaplin na jaula do leão só faz sentido pelo fato de sê-lo num plano sem cortes.

No entanto, para Gus Van Sant, os personagens não existem essencialmente como uma psicologia, mas principalmente por suas ações físicas, por seu deslocamento em relação à geografia física local. Por isso, em todo o filme, os personagens simplesmente caminham, movimentam-se através de longos planos de caminhadas, até que o corpo se transforme, fatigado pelo andar sem fim. Ao final, arrastam-se como múmias, quase como se fossem personagens do expressionismo alemão, numa nuvem de inércia e pesar.

À medida que os personagens vão se perdendo, a própria narrativa de Gus Van Sant vai se esgarçando, os personagens vão perdendo o foco de sua caminhada, até que o espaço físico assume o posto de protagonista do filme, e o filme desconstrua de vez seu fio de narrativa para transformar-se, cada vez mais, em planos que primam por despertar no espectador um sentido sensorial plástico, que o insiram num outro registro de sensibilidade em relação ao espaço e ao tempo, como se oferecessem uma espécie de névoa de suspensão, com um novo trabalho sobre as cores, sobre o foco, sobre a relação entre o primeiro plano e o fundo, borrando ou indefinindo as distâncias temporais ou espaciais entre os próprios planos. Esse recurso se intensifica a partir de dois planos extremamente significativos, em que a câmera realiza um movimento de 360◦ : o primeiro, em torno de um dos personagens,e o outro, perscrutando a própria natureza física do local, que assume uma presença onipresente, quase assustadora. A partir de então, Gerry vai progessivamente se aproximando de um delírio visual, rompendo de vez seu esboço de narratividade.

Ainda assim, em Gerry tudo é planejado antecipadamente, com uma rígida decupagem. Ou seja, Gus Van Sant não arrisca se perder com os personagens, como por exemplo Miguel Gomes irá fazer em Aquele Querido Mês de Agosto. Há um certo formalismo que privilegia as composições geométricas, os jogos de luz, a decupagem rigorosa. Um diálogo com um cinema de Bela Tarr (a quem van Sant inclusive agradece nos créditos finais) e com os primeiros filmes de Phillipe Garrel, em especial A Cicatriz Interior. Tudo é do domínio da ficção: não há um olhar do documentário, de improviso, de limite tênue entre cinema e vida: os personagens irão se perder e a narrativa irá se desconstruir exatamente da forma, quando e onde o diretor previamente já havia pré-programado, sem surpresas. Ou ainda, o filme não se deixa perder durante seu próprio processo de confecção: nesse sentido ele se desenvolve num método mais próximo ao cinema clássico. É o passo que van Sant pôde realizar!

Em seguida, Gus Van Sant irá prosseguir em seu “caminho sem volta”, realizando uma série de trabalhos notáveis como reflexões dos rumos de uma juventude norte-americana: Elefante, Últimos Dias, Paranoid Park. Gerry, antecipando esses novos rumos, não deixa de ser um filme preocupado com uma juventude: não apenas por ser um filme com jovens, sobre jovens, mas essencialmente em se indagar sobre as possibilidades de mostrar a solidão e o despreparo do jovem contemporâneo norte-americano por meio de uma linguagem muito peculiar, que valoriza os momentos, os fragmentos e as impressões, ao invés dos percursos psicológicos ou dos filmes-painel. Gerry, acima de tudo, representa uma guinada radical, um caminho sem volta, que ao mesmo tempo é simplesmente o começo de um caminho, em direção de uma nova filmografia, de um dos mais coerentes cineastas do cinema norte-americano do novo século."


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Um Passeio pela Segunda Divisão - Parte II



O leitor deste blog sabe que, além de ser rubro negro carioca, eu gosto de futebol.

Nesta última semana passada a trabalho em Campinas, além de ter visto o meu time jogar contra o Guarani, fui na terça feira (31/08) assistir a Ponte Preta e Brasiliense, pela Segunda Divisão. Repetindo o que já havia feito quando estive em Curitiba, onde assisti a Paraná Clube e Portuguesa - conto aqui a história deste jogo.

Cheguei em frente ao estádio cerca de quarenta e cinco minutos antes do início da partida e, ao me dirigir à bilheteria, soube que as cadeiras para o setor das sociais não estavam à venda - somente pela internet. O próprio bilheteiro me orientou a comprar com cambistas, mas nem estes tinham ingressos de cadeiras. 


Acabei adquirindo ingresso de arquibancada, mas não tenho como achar razoável uma política de vendas desta. Como se vê na foto acima, as sociais estavam absolutamente vazias, o que demonstra o desacerto da política do clube.

Outro equívoco é o fato da loja oficial do clube fechar em dias de jogos. Fica-se à mercê das camisas falsificadas, que não compõem o meu portfólio. Até porque queria uma camisa de treino ou de goleiro, que fogem da semelhança da camisa do clube com a do Vasco, rival do meu Flamengo.

Bebo uma cerveja nas cercanias do estádio antes de entrar no mesmo. O curioso é que foi a primeira vez em que vi um ambulante vendendo Bohemia na porta de um estádio.


O Estádio Moisés Lucarelli, embora simples, é bem mais cuidado que a pocilga onde estive no domingo anterior. Posicionei-me no centro do campo, mas tive de subir alguns degraus porque a organizada do clube fica ali e, além disso, o cheiro de maconha era bem nítido. Ressalto que era algo não restrito à organizada, e que não se vê consumo de drogas em estádios como o Maracanã.

Aliás, chega a ser engraçado ver o comportamento da torcida do time. Além de copiar boa parte das músicas da torcida rubro negra, é uma tremenda incoerência falar em "fibra de campeão" de um time que em 110 anos de história jamais conquistou um título, unzinho que seja.

Também ri muito em uma das múisicas da torcida, onde eles cantam com aquele sotaque característico: "rrrrrrrruligans do interiorrrrrrrrrrrr"... Caí na gargalhada.


O time da casa é bastante arrumadinho, sem grandes destaques mas muito bem montado taticamente. Levou um susto no início, depois fez um gol e o primeiro tempo ficou nisso.

Curioso é que o trem passa atrás do estádio, e durante a partida seu apito era bastante audível.


No segundo tempo o time da casa perdeu uma chance atrás da outra, tocando a bola rapidamente e buscando chegar com rapidez ao ataque, até chegar ao segundo gol em bela jogada já nos acréscimos.

Curioso é que o atacante Aloísio Chulapa, do time candango, seria substituído mas se negou a deixar as quatro linhas. O treinador Roberval Davino preferiu não criar confusão e substituiu outro jogador.


Fim de jogo, Ponte 2 x 0 Brasiliense. Muito bem arrumado, este time campineiro é sério candidato a uma das vagas à Primeira Divisão em 2011.

Retirei-me do estádio e rapidamente consegui um táxi que me devolvesse ao hotel, que é próximo ao estádio.  Assisti a uma partida melhor e mais agradável que muita "pelada" da Série A.

E dou sorte às equipes da casa: Paraná e Ponte venceram com a minha presença. E, antes que o leitor se lembre, ao Guarani também...


P.S - A camisa que uso na ocasião é da Seleção da Sérvia.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Centenário de Carlos Chagas Filho"


Mais uma quarta feira e mais uma coluna "Formaturas, Batizados & Afins", do Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas. Hoje a coluna trata, com um depoimento absolutamente pessoal, do centenário de nascimento do pesquisador Carlos Chagas Filho, que se dará no próximo dia 12.

"Centenário de Carlos Chagas Filho

Caros amigos,

Em um país onde temos como ídolos além dos jogadores de futebol, artistas, cantores e pessoas que muitas vezes não contribuíram com nada para nosso desenvolvimento, esta coluna presta uma homenagem a um dos maiores homens que o Brasil já teve. Se vivo fosse o Professor Carlos Chagas Filho estaria completando em 12 de setembro exatos 100 anos! Claro por esta data tão marcante, diversas homenagens tem sido feitas a ele; e por mais homenagens que se façam, ainda será pouco tal foi o legado deixado por este grande pesquisador brasileiro.

Um breve resumo da vida de Carlos Chagas Filho

Foi no Rio de Janeiro, em 12 de setembro de 1910 que nasceu Carlos Chagas Filho, como indica o nome, filho de Carlos Ribeiro Justiniano Chagas ou simplesmente Carlos Chagas – grande médico e cientista que até hoje é o único pesquisador na história a ter descoberto uma doença (Doença de Chagas), o inseto transmissor (“barbeiro”), seus sintomas, seu agente causador (o protozoário Trypanosoma cruzi) e ciclo de vida. Por este feito, Carlos Chagas (o pai) teria sido indicado ao Prêmio Nobel de 1934 mas...sabe-se lá por que motivos, não houve premiação naquele ano. Mas isso é uma outra estória.

Carlos Chagas Filho tinha não apenas o pai como grande exemplo, mas também seu irmão mais velho, Evandro Chagas - que morreu precocemente vítima de um acidente aéreo. É muito comum nos depararmos com Hospitais, Ruas, Escolas, Praças, enfim, vários logradouros e instalações que levam o nome de Carlos Chagas e de Evandro Chagas. Mas hoje falamos de Carlos Chagas Filho e por isso darei foco em sua figura.

Em 1926 ingressou na Faculdade de Medicina da UFRJ, na época Universidade do Brasil na Praia Vermelha e já no ano seguinte começou sua formação científica no Instituto Oswaldo Cruz - FIOCRUZ, onde já trabalhavam o pai e o irmão. Em 1931 conclui o curso de Medicina e ganha um prêmio por ter alcançado as melhores notas nos anos de graduação.

Seguem-se anos bem intensos e importantes para a vida de Carlos Chagas Filho. Ele começa a trabalhar e dirigir hospitais não só no Rio de Janeiro, mas também em Minas, onde o pai descobrira a Doença de Chagas. Em 1934, com a morte do pai, Carlos Chagas Filho intensifica sua atuação nas unidades de saúde. Já no ano seguinte se casa com Anna Leopoldina Alvim de Mello Franco, com quem viveu até o fim da vida e teve quatro filhas, que ele dizia serem “minhas quatro filhas únicas!”. Com o casamento, Carlos Chagas Filho passou a frequentar ambientes com pessoas da alta sociedade carioca, além de começar a conhecer Ministros de Estado, Diplomatas e pessoas de grande influência. Carlos Chagas Filho teve a sabedoria de poder e saber utilizar estes conhecimentos para alavancar o desenvolvimento científico no Rio de Janeiro e iniciar uma trajetória singular na história de nosso País. Com Guilherme Guinle ele conseguiu recursos que em muitas épocas o ajudaram a comprar equipamentos e pagar bolsas para estudantes, por exemplo.

No mesmo ano de seu casamento, Chagas Filho é aprovado num concurso de Livre-Docência em Física Biológica na Faculdade de Medicina, ou seja, em 10 anos ele se formou Médico e se tornou professor da Universidade. E aí, nesta época, Chagas Filho inicia um processo que teve uma repercussão gigantesca para a estória da pesquisa científica no Brasil. Ele percebeu que precisava aliar pesquisa e ensino, pois até então o que se tinha era a Universidade como local de ensino e as Institutições de Pesquisa, como o Instituto Oswaldo Cruz, obviamente como locais de pesquisa.

Para Chagas Filho tanto a pesquisa quanto o ensino iriam melhorar muito se caminhassem juntos; e pensando nisso ele cria o Laboratório de Biofísica na Universidade do Brasil, começando então a aliar pesquisa e ensino. Chagas Filho percorre a Europa em viagens onde busca aprimorar seus conhecimentos e contactar pesquisadores importantes da época para convidá-los a vir ministrar cursos no Brasil. Fazendo isso, Chagas foi formando pesquisadores em diferentes áreas de conhecimento. Com isso, ele cria a Cátedra de Biofísica, que já é formada por vários Laboratórios de diferentes especialidades. Muitas vezes perguntaram ao Prof. Carlos Chagas Filho o que era Biofísica, e ele costumava responder: “Biofísica é tudo que nós gostamos de estudar e pesquisar”, o que fez com que ele não se prendesse a uma única especialidade.

Neste período, Chagas Filho sofria muita pressão de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, incluindo seu irmão, que queriam que ele se fixasse naquela Instituição de pesquisa e deixasse de lado esta “aventura” de aliar pesquisa e ensino na Universidade. Em 1940, Chagas Filho perde seu irmão Evandro num acidente de avião e guarda este sentimento de perda por toda vida. Ele costumava dizer que Evandro era mais brilhante que ele e que o próprio pai, e que era uma pena grande que ele tivesse partido ainda tão jovem, com tanto a contribuir. Mas Chagas Filho seguiu firme seus propósitos e em 1941 se tornou membro da Academia Brasileira de Ciências da qual foi presidente entre 1961-1966.

Em 1945, a Cátedra de Biofísica já tinha em seus laboratórios um grupo sólido de pesquisadores brasileiros e até estrangeiros e a Universidade do Brasil já não era apenas um local de ensino, mas de pesquisa de grande qualidade. Tão conceituada que em 17 de dezembro de 1945, por decreto, é criado o INSTITUTO DE BIOFÍSICA DA UNIVERSIDADE DO BRASIL, que depois em 1985 passou a se chamar INSTITUTO DE BIOFÍSICA CARLOS CHAGAS FILHO e hoje é um dos Centros de Excelência da Pesquisa Científica no Brasil. O Instituto de Biofísica está dividido em 7 Programas Temáticos: Parasitologia, Fisiologia e Biofísica Celular, Neurobiologia, Imunologia, Bioengenharia Tecidual, Biologia Molecular e Biofísica Ambiental e Radioisótopos.

Chagas Filho participou da criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e sem dúvida mudou os destinos do País na área da Ciência e Tecnologia. Foi ainda, diretor da Faculdade de Medicina, Decano do Centro de Ciências Médicas da UFRJ, Presidente da Academia Pontifícia de Ciências do Vaticano - onde foi o mediador da histórica reabilitação de Galileu Galilei, assim como da datação do Santo Sudário. Era grande amigo do Papa João Paulo II e considerado pelo próprio Papa o grande responsável pela aproximação da Fé e da Ciência. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, premiado no Brasil e no exterior. Em 1999 como reconhecimento, a Fundação de Amparo a Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ), passou a ter o nome de Carlos Chagas Filho.

Por mais breve que se tente traçar uma biografia deste brasileiro de valor, fica muito difícil e arriscado, pois se pode esquecer de algum fato muito importante. Por isso, deixo estes links onde poderão complementar este texto de forma bem rigorosa:

http://gina.abc.org.br/org/aca.asp?codigo=ccf#biog
http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/resumo.php?id=11
http://www.biof.ufrj.br/content/memoria-carlos-chagas-filho

O privilégio de tê-lo conhecido

Entrei para o Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho em outubro de 1989, como estagiário de iniciação científica do Laboratório de Biomembranas. Por uma feliz coincidência, o “meu” Laboratório ficava ao lado do Laboratório do Prof. Carlos Chagas Filho, e de 1989 até 2000, ano de sua morte, tive várias oportunidades de conversar e de estar com ele em diferentes eventos.

A primeira coisa que chamava a atenção no Doutor Chagas (como o chamávamos), era sua simplicidade e o olhar sempre meigo e carinhoso com que se dirigia a todas as pessoas, do Diretor ao faxineiro. Ele sempre queria saber dos alunos a quantas ia o trabalho, o que estávamos pesquisando e não se esquecia destas conversas mesmo meses depois. Era uma pessoa incrível. Já no mestrado, me inscrevi no curso que o Doutor Chagas ministrava para a Pós-Graduação – Metodologia Científica, que era sempre o curso mais procurado de toda a pós-graduação.

Vale ressaltar que Doutor Chagas deu o curso até o ano anterior de sua morte, ou seja, já com mais de 80 anos, com todo o curriculum que tinha, todos os prêmios que tinha, sem precisar provar ou mostrar mais nada, ele ainda mantinha firme o hábito de vir ao Fundão dar sua aula; o que fazia com a intensidade de um principiante, mas com a experiência de quem viveu os momentos históricos da evolução da Ciência no Brasil. 

Nos seus últimos anos de vida, o Prof. Chagas Filho precisava de uma cadeira de rodas para se locomover, mas nem por isso deixava de vir ao Instituto. No fim da tarde, a secretária dele telefonava lá para o nosso Laboratório e docemente dizia: “Marcelo, o Prof. Já está indo. Você poderia ajudar a descer a cadeira de rodas?” Eu parava o que estivesse fazendo e junto com outro amigo do Instituto conduzíamos o grande Mestre até o estacionamento onde o ajudávamos a entrar no carro que o levava de volta para casa. Um trajeto de poucos metros pelo corredor do Instituto de Biofísica que por anos me deu este privilégio de conversar diariamente com este que foi um dos principais cientistas de nosso País. Tenho grande orgulho de ter em meu curriculum vitae dois artigos científicos publicados em co-autoria com o Prof. Carlos Chagas Filho.

Na semana passada o Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho fez um Simpósio comemorativo ao Centenário de Carlos Chagas Filho onde estiveram presentes diversas autoridades e em vários momentos ele foi muito lembrado não apenas como o Mestre e Pesquisador que foi, mas como ser humano. Imagens do Prof. Carlos Chagas Filho em comemorações do Instituto e nas festas juninas e de final de ano emocionaram todos os presentes. Ele achava importantíssimo este encontro de toda comunidade do Instituto, um momento de troca de experiências e de surgimento de colaborações; além  é claro de todo o simbolismo de união e amizade que estes eventos celebram. Ainda em 2010 estão previstas mais homenagens, que certamente merecerão destaque na mídia.

O Prof. Carlos Chagas Filho faleceu em 16 de fevereiro de 2000 aos 89 anos de idade, mas com certeza para nós que trabalhamos no Instituto que ele criou ele é eterno! Até porque sempre que chegamos para mais um dia de trabalho vemos estampado na portaria de vidro da entrada um grande retrato dele e a sua frase mais famosa: “na Universidade se ensina porque se pesquisa”.
 
Nos seus 100 anos, receba os parabéns de todos nós pesquisadores querido Doutor Chagas! Obrigado por tudo!

Até a próxima
Marcelo Einicker Lamas"

Assassinos Econômicos - Modo de Agir


Preparando a resenha de "Enganados", último livro do economista John Perkins - que estará aqui nos próximos dias - encontrei estes dois vídeos que são um resumo da filosofia dos "assassinos econômicos" e das implicações na geopolítica mundial.

São duas partes de uma entrevista em que o economista descreve o trabalho de um assassino econômico e lista algumas derrubadas de governo executadas - em vários casos, literalmente - pelo sistema.

No segundo vídeo há uma extremamente didática explicação do que é "corporatocracia" e de seus efeitos nefastos sobre a economia mundial e seu padrão de vida.

Indispensável.

P.S. - A resenha de "Confissões de Um Assassino Econômico" está aqui.


Conhecimento é poder.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Resenha Literária: "Onde a corrupção veste toga"

Bom, o leitor antigo do Ouro de Tolo sabe que o Espírito Santo é um estado onde o Poder Judiciário é, digamos, "mais complicado" que em outras partes do Brasil.

Sabe porque resenhei aqui "Espírito Santo", que conta a história do envolvimento da Polícia e de juízes na morte do juiz Alexandre Martins, que investigava o envolvimento destes em diversos atos criminosos. Inclusive, a resenha foi recomendada por Luiz Eduardo Soares, um dos autores, em seu blog pessoal.

Este "Onde a Corrupção Veste Toga", de certa forma, é uma continuação de "Espírito Santo". Compilado pelos jornalistas Rogério Medeiros e Stenka do Amaral Calado a partir de matérias veiculadas pelo site "Século Diário", é uma investigação elaborada a partir da "Operação Naufrágio", que investigava venda de sentenças, nepotismo e outras irregularidades de um Judiciário que se achava acima do bem e do mal, sem ter de prestar contas à sociedade.

Nas palavras do desembargador Josenider Varejão, um dos principais envolvidos no escândalo: "Abaixo de Deus, nós é que botamos pra quebrar."

O repertório de irregularidades descritas pelo livro é farto: nepotismo, venda de sentenças, manipulação de concursos, compra de imóveis a preços subfaturados, loteamento e "saque" de cartórios, corporativismo, desvio de verbas, advocacia pessoal, corrupção, padrões de vida incompatíveis com a renda e muitos outros.

Além disso, as matérias mostram como o Tribunal de Justiça do Estado era utilizado pelo Governador Paulo Hartung para manter um arranjo institucional onde seus inimigos fossem enviados ao ostracismo e aliados políticos com problemas na Justiça mantivessem seus mandatos sem problemas.

O curioso é que, de herói em "Espírito Santo", o Governador passa a vilão neste exemplar - e a hipocrisia de sempre utilizar a bandeira da "limpeza institucional" para justificar seus atos.

O material é pródigo na descrição de atos criminosos. Bons exemplos são a manipulação de concursos para que os aprovados fossem parentes dos desembargadores e o "loteamento" dos cartórios do estado. Inclusive um destes foi alvo de briga dentro da família do desembargador Frederico Pimentel (foto abaixo), ex-presidente do Tribunal de Justiça do Estado, por causa da divisão dos recursos do mesmo.


Outra história escabrosa do livro é a compra por parte de desembargadores de imóveis a preços (bem) abaixo do mercado da Construtora Galwan, especialmente. Estes imóveis, de alto luxo e metragens imensas, eram vendidos de forma facilitada e a preços baixos para os desembargadores e demais membros influentes do Poder Judiciário local, inclusive a membros do Ministério Público.

Em troca, a Construtora em questão obteve uma série de decisões favoráveis na mais alta esfera dos tribunais capixabas. Esta relação promíscua entre a empresa e os desembargadores é bem explorada em um dos capítulos.

Os capítulos finais mostram a tentativa de fazer de Frederico Pimentel "boi de piranha" da investigação e a entrevista por este dada a fim de tentar se livrar de tal papel. E a monumental pizza ao final do processo, onde as punições atingiram apenas a família do citado juiz.

Também é tema do livro o silêncio da imprensa tradicional, comprado através de anúncios oficiais por parte do governador.

As histórias contadas deixam claro que o Judiciário é muito pior que o Executivo ou o Legislativo. Reclamamos dos políticos mas, mal ou bem, eles podem ser trocados de quatro em quatro anos. E os juízes?

Outra pergunta: quem controla o Judiciário ?

Bom, na Travessa o livro custa R$ 30. Apesar de ser uma colagem de matérias e ser, por isso, carente de um ritmo mais encadeado, é leitura obrigatória.

Até para percebemos quão injusto é o sistema que deveria ser o guardião da justiça, mas, ao que parece, está preocupado mesmo é com questões mundanas, por um lado, e em defender os interesses dos mais ricos e mais poderosos, do outro.

Estarrecedor.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aeroportos, aeroportos e aeroportos



Algo que vem me chamando a atenção nos últimos tempos, nestas andanças petroleiras pelo Brasil, é a situação dos aeroportos.

Semana passada tive a oportunidade de conhecer o aeroporto de Viracopos, em minha semana campineira. Tido como um dos "três melhores do Brasil", demonstrou deficiências acachapantes.

Ele já é diferente de outros que conheço porque, quando descemos do avião, descemos na própria pista (foto). Os setores de embarque e desembarque são no nível da pista, de forma que andamos alguns metros na mesma até alcançar o salão de retirada de bagagens e posterior saída. Assim, não se usam os fingers e reproduz-se aquela velha cena dos filmes de subir e descer a escada do avião.

Na ida foi tranquila, até porque desci em um horário de pouco movimento, domingo no horário de almoço. Mas a volta...

Sexta feira, véspera de feriado. Chego a Viracopos aproximadamente três horas antes do vôo, já alertado de  que estaria lotado - eu ainda precisaria fazer o check-in. O balcão da Gol - que melhor seria chamar de "Gol Atrasado", mas sobre isso eu falo depois - estava até razoável, embora houvesse pouca disponibilidade de lugares aquele momento. O curioso é que o atendente que fez a minha confirmação de vôo e despachou minha bagagem não sabia o nome do colega que trabalhava ao lado.

Entretanto, com o balcão da Azul lotado, o aeroporto em si estava muito cheio. Claramente havia mais gente que o saguão comportaria. O centro comercial é bastante limitado.

Na hora indicada, segui para a sala de embarque. Já sabia que o vôo anterior da mesma companhia para o Galeão estava atrasado, de forma que não tinha esperanças. Não deu outra.

Mas o quadro era assustador. A sala de embarque parecia o Maracanã em dia de final de campeonato com o Flamengo envolvido. Havia uns 40% a mais de pessoas que a sala comportaria. A única lanchonete teve a cara de pau de me cobrar R$ 5 em uma Bohemia. Quente.

Minha sorte é que minha tarifa era a "cheia" e portanto havia uma espécie de "reservado" onde pude me sentar. Mas as pessoas estavam amontoadas pelos cantos aguardando suas chamadas de embarque - todas atrasadas.

A Gol, na ânsia de diminuir o atraso, "embolou" uma partida para Brasília com a nossa. O embarque foi autorizado mas ainda ficamos na beira da pista algum tempo esperando.

Chegando ao Rio, não haviam fingers para realizarmos o desembarque e aguardamos dentro do avião, lotado, algum tempo. Ao final embarcamos em ônibus que nos levaram à sala de desembarque.

Ficou claro para mim que nossos aeroportos não possuem condições de suportar a maior demanda gerada por eventos como as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Está claro que é o nosso maior problema a ser atacado pelas autoridades neste período pré-eventos, maior até que estádios, trânsito ou segurança pública.

Não acho que privatizar seja a solução para esta questão, mas se faz necessária uma alteração no modelo de gestão a fim de alcançar maior eficiência e atender à elevação do número de linhas que se vem verificando nos últimos tempos. Fiquei preocupado com o que eu vi nesta última semana.

Finalizando, uma nota sobre a companhia aérea.

Eu só viajo de Gol em último caso, pois acho as aeronaves apertadas, o serviço de bordo ruim e o atendimento péssimo. Desta vez tive de voltar por ela pois era o único vôo disponível para o Galeão - e em uma véspera de feriado isso faz diferença para mim, que moro próximo ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.

Pois bem. Avião superlotado, mosquitos dentro dele, serviço de bordo ainda pior - me deram um guaraná bastante aguado, para dizer o menos - ar condicionado desligado, tripulação claramente de má vontade e espaço mínimo para se colocar as pernas.

A companhia onde trabalho pagou cinco vezes mais que a ida, pela Tam - em um avião bem mais confortável, com serviço de bordo muito superior e melhor em todos os sentidos. Agora, com a venda desta à Lan Chile, a Gol torna-se a maior companhia brasileira, e sem dúvida alguma o conceito de "ônibus voador"  precisa ser repensado.

Aeroportos, aeroportos, aeroportos. Prioridade máxima para os próximos anos.

domingo, 5 de setembro de 2010

A Patagônia e "A Grande Guerra das Águas"


Mais um domingo, feriado prolongado para muita gente - para mim, não - e repercuto como de hábito um texto impressionante sobre um lugar pertinho de nós e que sofre com a especulação imobiliária e "otras cositas más" :a Patagônia.

O texto foi publicado em português pelo "Viomundo".

Pepe Escobar, a Patagônia e a Grande Guerra das Águas


Patagônia: vende-se o fim do mundo [1]

Pepe Escobar, Asia Times Online, reproduzido em Huffington Post

No glaciar Perito Moreno. A “deserta e estéril” Patagônia (na avaliação inicial de Charles Darwin), são nada menos que 230 mil quilômetros quadrados de bacias de rios que deságuam no Atlântico. São 4.000 quilômetros quadrados de gelo continental e glaciares – além de uma das maiores reservas de água doce do planeta.

Vivemos hoje os estágios avançados de uma guerra global sem fim à caça de petróleo e gás (há dos dois, aliás, na Patagônia). Relatório crucial da Unesco, em 2000, já avisava que, nos 50 anos seguintes, praticamente todos os seres que habitam o planeta enfrentariam problemas relacionados à falta de água ou à contaminação de grandes massas de água. Quando eclodir a Grande Guerra das Águas – esperada para 2020 – essa Patagônia de lagos azuis translúcidos e glaciares milenares será posta a prêmio; ter água implicará riqueza infinitamente maior do que, hoje, ter petróleo ou gás.

Mentes analítico-bélicas no Pentágono e na Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA não conseguirão deter os sonhos molhados de uma Patagônia secessionista, que será uma espécie de última Arábia Saudita líquida da Terra; população rarefeita (menos de 2 milhões de habitantes), com toda aquela água, abundantíssima energia hidrelétrica e 80% das reservas de petróleo e gás natural da Argentina. O grau de descaso e negligência de que se ressentem os habitantes da Patagônia, em relação a Buenos Aires, pode ser comparado ao que se sente no Baluquistão, no Paquistão, em relação a Islamabad. Pesquisas recentes mostraram que o desejo de viver numa Patagônia independente sempre está acima de 50% (e chega a 78% entre os mais jovens e os desempregados).

Descrição de uma rota de colisão e desastre, de quatro séculos de “desenvolvimento” patagônico, teria aproximadamente o seguinte feitio. No começar foram os povos nativos. Depois vieram os navegadores ibéricos, os piratas ingleses, todos os tipos de aplicados cientistas europeus, os missionários religiosos, os exilados que sonhavam fazer da Patagônia uma versão austral da América. Então chegaram os latifundiários – do Chile ou da Holanda, de Gales ou da Polônia, de Escócia ou Dinamarca. Livrar-se das populações nativas foi colonialismo nu e cru; os patagônios do norte foram exterminados da infame, eufemística, Campanha do Deserto, de 1879; os do sul foram convertidos, à força, em força de trabalho para o agro-business. E então, nos anos 1990s, chegaram os bilionários do Primeiro Mundo.

Como bem o sabem todos os bilionários encantados com a vida selvagem e seus executivos corporativos enfarpelados, a venda da Patagônia começou em 1996, no governo do ultra-neoliberal Carlos Menem. Em suas próprias palavras, Menem desejava vender “o excesso de terra” do país que presidia. Não há legislação federal, na Argentina, que regule a venda de terras a estrangeiros. Só no final da década dos 1990s, venderam-se mais de 8 milhões de hectares de terra. Segundo o exército argentino, mais de 10% do território nacional argentino pertence hoje a estrangeiros – e as vendas prosseguem. O problema não é a venda; o problema é o controle, virtualmente nenhum, sobre os projetos propostos para investimento.

Se você for abonado, ainda comprará o que quiser, onde quiser – inclusive as áreas dos espetaculares parques nacionais. Cada província fixa regras próprias. Se você encontrar o funcionário certo e levar com você a mala certa carregada com os dólares certos, o mundo – à moda de Tony Montana [2] – é seu. Não surpreende que praticamente todos os moradores das províncias de Rio Negro ou Santa Cruz digam que o gabinete do prefeito é a principal agência de venda de terras da cidade. Os mesmos moradores inevitavelmente lamentam que a Patagônia esteja sendo comprada por estrangeiros – de Ted Turner à família Benetton. E duas das maiores empresas de petróleo da Patagônia pertencem a estrangeiros; uma delas, estatal, foi vendida à Espanha; a outra, privada, à Petrobrás brasileira.

Andando sobre as águas

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse – versão local, no fim do mundo – são Tompkins, Turner, Lewis e Benetton. São a safra do século 21 dos conquistadores, aventureiros e piratas da Patagônia – de Francis Drake e George Newbery a Butch Cassidy e Sundance Kid (o rancho deles continua lá, em Cholilla, resto de pueblo que combinaria perfeitamente no cenário das áreas mais miseráveis do Novo México). Os estrangeiros sempre sonharam com esse fim do mundo. A beleza violenta desse lugar – como adiante se verá – leva às lágrimas muito homem feito.

Doug Tompkins é guru ‘verde’ californiano, fundador de duas organizações, The North Face e Esprit. Na Patagônia é conhecido como “o dono da água”. É o maior proprietário privado de recursos naturais da Patagônia chilena, e da região de Corrientes, na Argentina; e é dono de várias estâncias, todas estrategicamente distribuídas pelo mapa. Quando Tompkins bateu os olhos pela primeira vez no sul da Patagônia, do lado chileno, e depois no noroeste da Patagônia, do lado argentino, em 1961, chorou feito bebê. Depois voltou – e pôs-se a comprar.

Ted Turner, fundador da CNN e fanático por pesca de trutas, é dono de uma villa espetacular, em área de 5 mil hectares, no sul da província de Neuquen, de onde controla completamente o acesso a um dos rios mais virgens da Patagônia. Tem outra propriedade de 35 mil hectares na mesma província, mais outra, de 5 mil hectares, na Terra do Fogo. Ted só comprou terra nos EUA e na Patagônia.

Villa Traful é um vale verde, privado, que cerca o espetacular lago de mesmo nome – e faz pensar que dessa matéria são feitos todos os Xangrilás, antes do advento do Facebook. Comprar terras em Traful, nos anos 1990s, era sopa. Quem sabia jogar o jogo rapidamente virou proprietário da terra pública em torno do lago. Agora, a festa acabou. Só Jorge Sobisch, de família de emigrados croatas e ex-governador da província de Neuquen que quer ser presidente, já praticamente vende tudo, todos os dias, para gigantescas massas de turistas.

Mas, acima de tudo e todos, toda essa terra pertence a Ted Turner. Turner é proprietário de La Primavera, estância cinematográfica, de 5 mil hectares na boca do rio Traful. Ali pesca, como abençoado, a melhor truta e o melhor salmão que a natureza consegue gerar. Jane Fonda era doida por La Primavera. Tompkins era hóspede frequente, além de George Bush pai e Henry Kissinger. A área é policiada por satélite. Estive lá no inverno, tudo vazio e gelado. Assim, não tive o prazer de navegar em águas que pertencem a Ted Turner. Claro. Ted jamais se deixa ver na Vila Traful – mas sabe-se que visita a estância La Primavera algumas vezes por ano.


La Primavera foi fundada, de fato, por um dentista norte-americano e ex-vice cônsul dos EUA em Buenos Aires, George Newbery, em 1894. George e Ralph Newbery (pai do famoso aviador Jorge, cujo nome hoje decora o portal de entrada de um dos aeroportos de Buenos Aires) convenceram-se de que, para povoar a Patagônia, o melhor seria importar cowboys do Texas.

Assim, já desde o início do século 20, temia-se, em todo o norte da Patagônia, uma onda de colonização yankee. Mas a fonte de cowboys exilados do Texas logo secou. La Primavera foi vendida para um inglês, depois para um francês, depois para um argentino, até que, finalmente, pousou no colo de Ted Turner, que andava profundamente envolvido num projeto conservacionista de 2 milhões de hectares – ou expansão territorial – em Montana, Novo México e Nebraska. Mas, sobre a Patagônia, ele jamais negociou nem cedeu um palmo. Coisas de pescador de trutas.

Um, dois, mil Xangrilás

Brit Joseph Lewis, dono da 6ª maior fortuna do Reino Unido, conhecido na Patagônia como “Tio Joe”, por causa de incontrolável mania de fazer filantropia, controla todos os 14 mil hectares de terra em volta do sublime, indescritível Lago Escondido, a 92 km de Bariloche, junto à fronteira com o Chile, e controla também toda a bacia do premiado rio Azur. O ultradiscreto Lewis, que vive entre Londres, Orlando, as Bahamas e a Patagônia é alto tubarão da especulação financeira, além de acionista da pesquisa genética, e as garras de seu Tavistock Group estão pousadas sobre tudo, do petróleo e gás da Sibéria, aos sapatos e roupas marcas Puma e Gottex.

A Xangrilá andino-patagônica de Lewis não fica longe de El Bolson, a meca dos hippies argentinos nos anos 1970s, convertida, por transmigração dos espíritos, na primeira prefeitura ecológica do início dos anos 1990s. Nas florestas, ao estilo Tolkien, há árvores multimilenares, os alerces, de madeira lahuan – os organismos vivos mais antigos que há na Argentina, os terceiros entre os mais antigos do planeta. Assim como se veem alerces por todos os lados e até onde a vista alcança, também se veem até onde a vista alcança sinais de que, hoje, Lewis só pensa, mesmo, em fazer o trabalho que caberia às autoridades provinciais e nacionais – quer dizer: em construir um estado de fato, dentro do estado.

Em apenas alguns poucos anos, Lewis comprou terras em metragem equivalente a três quartos da cidade de Buenos Aires – mas sob a forma de florestas milenares, glaciares, lagos e rios intocados. Por pouco, Lewis não comprou o próprio lago, o que a lei não permitiu. Mas, sim, comprou toda a terra à volta do lago, o que significa que, se você quiser chegar até o lago, tem de viajar por 18 km, em estrada dentro de sua propriedade. Conhecer essa Xangrilá só é possível com ajuda do alto, i.e., dos guardas de Lewis. Há suspeitas de que Lewis tenha tentado comprar as nascentes de vários rios da região. E, considerando que o Grupo Tavistock está pesadamente envolvido em pesquisa genética e biotecnologia, há suspeitas, também, de que já esteja extraindo e exportando as espécies mais raras que vivem (viviam) na Cordillera.

[1] Esse artigo é a segunda parte de trabalho maior. A primeira parte, “In Tierra del Fuego, Darwin still rocks”, pode ser lida aqui.

[2] Antonio Montana, conhecido como “Tony Montana”, é o personagem interpretado por Al Pacino no filme Scarface (1983). Sobre o filme, ver aqui.