domingo, 18 de julho de 2010

Acabo de voltar do Irã


Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo.

Trago hoje texto de jornalista americano que esteve no Irã recentemente e que traça um painel muito interessante da política, do povo e das relações dos iranianos com os estrangeiros. O texto foi publicado originalmente no "Huffington Post" e traduzido pelo blog "Viomundo".

Boa leitura.

“Acabo de voltar do Irã.”

12/7/2010 Stephen Kinzer, Huffington Post

Nos EUA, hoje, há um tema que faz calar todas as conversas periféricas. Os que estejam em posição de servir-se dessa vara de condão, convertem-se em objeto de fascinação geral, embora temporária, como deve ter acontecido com nossos avós, caso tivessem visitado a China ou a URSS dos anos 50s. Viajar ao Irã converte qualquer um em aventureiro amalucado ou em forasteiro em perigo, em território inimigo.

A realidade é mais prosaica. Embora poucos norte-americanos visitem o Irã, não há, de fato, nada que os impeça. No meu caso, acompanhei um grupo de turistas norte-americanos em giro de duas semanas e poucos quilômetros pelo país. Não nos reunimos nem com o governo nem com os líderes da oposição, e andamos livremente, conversando com quem nos desse na telha conversar, com iranianos comuns, e o fizemos em todas as lojas onde entramos. Dado que o governo impôs restrições a visitas de jornalistas ocidentais, que mal conseguem trabalhar no Irã, andar como turista pela cidade pode ser o melhor meio de descobrir o que pensam e sentem as pessoas.

O que mais chama a atenção de norte-americanos que visitem o Irã, é ver o quanto as pessoas são pró-EUA. Em nenhum outro lugar do Oriente Médio, em outros pontos do mundo muçulmano, e praticamente em lugar algum do planeta encontra-se gente que tanto e tão abertamente admira os EUA. Pesquisas de opinião confirmam o fenômeno, e não foi novidade para mim, que já vira exatamente o mesmo em outras visitas. Mas perturba sempre, se se pensa que ali se está no coração do eixo do mal, cercados, como eu estava, em plena praça Imam, em Isfahan, por garotas de ginásio, aos gritinhos de “Amamos os EUA!” Num jardim persa em Kashan, encontrei um solene ancião, que, de inglês, só sabia dizer “America very good”, frase que pronunciava com grave reverência.

O sentimento pró-EUA no Irã explica-se, sobretudo, pela admiração que os iranianos sentem pelos feitos dos EUA. Os EUA têm tudo a que muitos iranianos aspiram: democracia, liberdade pessoal e Estado de Direito. Os iranianos aspiram profunda e sinceramente por essas bênçãos, aspiração que não é nem abstrata nem transitória.

Essa aspiração é produto de um século de luta para construir uma democracia liberal. Desde a Revolução Constitucional de 1906, gerações de iranianos assimilaram ideais democráticos. Hoje, a sociedade iraniana é o oposto do regime iraniano: é sociedade aberta, tolerante, ansiosa por engajar-se no mundo contemporâneo. Há muito mais potencial de longo prazo para a democracia no Irã do que em qualquer outro ponto do Oriente Médio muçulmano.

O sentimento pró-EUA no Irã é ativo estratégico valiosíssimo para os EUA. Um ataque militar dos EUA contra o Irã liquidaria ou, pelo menos, feriria gravemente esse importante ativo estratégico. O mais provável é que, se os EUA atacarem militarmente o Irã, terão conseguido converter o mais pró-americano dos povos do Oriente Médio em mais um povo de antinorte-americanistas, o que enfraquecerá ainda mais a posição dos EUA, na região mais volátil do mundo.

A segunda coisa que aprendi, por ver, no Irã, é que a explosão de protestos antigoverno do ano passado acabou-se, pelo menos por hora. O governo insiste em reprimir com violência alguns fracos protestos, apenas porque repressão violenta funciona. E funcionou no Irã. Há muitos iranianos insatisfeitos – não sei estimar quantos –, mas ninguém com quem falei previu novos levantes ou agitações de rua. A vida transcorre razoavelmente boa para muitos iranianos, e uma eleição talvez roubada (e nem se sabe se foi roubada) não é suficiente para tirá-los de casa e fazê-los enfrentar espancamentos e prisões.

Isso implica que, se a alguém interessa manter negociações com o Irã em futuro próximo e nos próximos anos – o tempo necessário para que o programa nuclear iraniano amadureça –, terá de negociar com o atual regime. Adiar o início de negociações amplas com o Irã, na esperança de que o governo de Ahmadinejad caia… parece-me esperança totalmente delirante, irrealista.

Finalmente, me chamou a atenção – embora não me tenha surpreendido – a unanimidade dos iranianos, inclusive muitos dos que participaram dos protestos no ano passado, em torno de dois pontos: o apoio a uma agenda de reformas e a firme rejeição de qualquer ajuda externa de qualquer outra potência, EUA ou outra.

“Muitos não gostam de Ahmadinejad, mas muito menos queremos os EUA, aqui, mandando em nós” – disse-me o dono de uma loja no bazaar de Shiraz. “Preferem viver sob um governo do qual não gostam, do que sob qualquer governo imposto ao Irã por estrangeiros.”

Esses sentimentos são fortes e estão por toda a parte, no Irã. O motivo é histórico, da história moderna do país. Durante quase todos os séculos 19 e 20, o Irã foi devastado por potências estrangeiras que subjugaram o povo e saquearam seus recursos. Cada vez que o Irã começou a tentar modernizar-se – por exemplo, construindo uma usina de aço nos anos 1930s, ou nacionalizando seu petróleo, nos anos 1950s – alguém veio de fora e interrompeu qualquer modernização.

Os iranianos tornaram-se super sensíveis à intervenção estrangeira. São mais sensíveis que qualquer outro povo no mundo. Por isso, rejeitam quaisquer forças políticas que suspeitem ser patrocinadas, apoiadas ou estimuladas por potências estrangeiras.

Muitos norte-americanos apreciariam ver o Congresso e o presidente Obama abraçarem publica e vigorosamente o movimento democrático iraniano. Pois nem os líderes dos próprios movimentos democráticos iranianos querem vê-los por lá, ainda que para apoiá-los.Em vez de ajudar a democracia iraniana, qualquer sinal de apoio que venha de Washington só servirá para estigmatizar o apoiado e deslegitimar sua causa. Os norte-americanos tendem a supor que seu apoio a amigos que se digam democráticos sempre ajuda. Não. No Irã, só atrapalhará.

“Bush foi um desastre”, disse um professor de matemática que encontrei sentado ao pé de uma figueira na cidade de Rayen. “Obama é um pouco melhor. Mas os iranianos acreditam firmemente que, quando EUA ou Inglaterra viram os olhos para o Irã ou para países árabes, sempre querem roubar alguma coisa. Todos eles.”

Há alguns traços da realidade iraniana, bem claros: tão cedo não haverá mudança de regime, e não há o que o ocidente possa tentar para acelerar qualquer mudança. Isso não implica que os iranianos não sejam democráticos: são mais democráticos e mais democratizáveis, eles mesmos, que qualquer outra sociedade no mundo muçulmano. 70% dos iranianos têm hoje menos de 30 anos. As mudanças virão. Mas virão ao ritmo do Irã, não ao ritmo dos EUA.

Enquanto isso, as centrífugas continuaram girando nas usinas nucleares iranianas, é claro. A crise exige diplomacia criativa. E Washington parece congelada no paradigma da confrontação."

sábado, 17 de julho de 2010

Sobretudo


Mais um sábado, muita movimentação e mais uma edição da coluna Sobretudo, assinada pelo publicitário Affonso Romero.

Dylan, Adriano, Bruno e a cultura pop

“How does it feel / How does it feel / To be without a home / Like a complete unknown / Like a rolling stone?”

Em junho de 2010 foi comemorado o aniversário de 45 anos do lançamento do clássico “Like a Rolling Stone” do bardo pop norte-americano Bob Dylan.

Muitos artistas mereceram biografias, alguns álbuns ou períodos da obra desses artistas fizeram jus a resenhas e análises, mas são raras as canções que motivaram, por si só, uma atenção tão especial a ponto de valerem um livro. “Like a Rolling Stone - Bob Dylan na Encruzilhada”, do jornalista e historiador cultural Greil Marcus, lançado em maio no Brasil pela Cia. Das Letras, coloca a canção de Dylan como um fato essencial na cultura pop, especificamente como marco formador do rock moderno.

Não, eu não li o livro ainda. Mas não é sobre o livro, especificamente, que vamos conversar hoje. É sobre fama, altos e baixos, frivolidade, vazio existencial e a centrífuga de egos que é a cultura pop, que faz da apetitosa laranja de hoje o bagaço de amanhã ou, nas palavras do Dylan, transforma a reluzente senhora numa pedra rolando pela estrada.

Bob Dylan alcançou a fama e o estrelato cedo demais. Com cerca de 20 anos, já era considerado o grande poeta da música americana, o porta-voz do então  incipiente movimento de contracultura dos anos 1960. Um bardo folk ligado à herança e à tradição da música medieval ecoando na realidade industrial do século XX. Em sua sensibilidade de poeta, sentia-se prestes a ser transformado em bagaço. Era ousar ou se repetir até sua obra virar suco, daí a refresco, daí a coisa aguada e sem conteúdo novo.

Foi quando rompeu com a sonoridade folk, juntou-se a uma banda eletrificada, tornou o conteúdo de suas letras ainda mais ácido e crítico, transgrediu os formatos que o haviam ajudado a se projetar e lançou uma canção de 6 minutos em que contava, cheio de ironia, a história de uma dama da sociedade burguesa que se afunda no vazio do mundo que a cerca para se transformar em... nada!!!

“Como se sente? / Por estar sem um lar / Como uma completa desconhecida / Como uma pedra a rolar?”
(letra completa, com tradução aqui: imperdível)

Ao ler a primeira resenha sobre o livro, em maio, veio a vontade de escutar todas as versões disponíveis no meu arquivo de mp3 (há gravações dos principais artistas da época e alguns contemporâneos) e, daí, a fazer uma coluna aqui para a Sobretudo com um paralelo entre a antevisão do Dylan para o universo perverso das celebridades instantâneas e a vida-e-obra do Adriano, aquele promissor atacante que chegou a um degrau do cume da carreira de boleiro e que, dentro de alguns anos, certamente estará rolando baldio numa estrada qualquer, a se desdobrar sua história de excessos, falsos amigos, proximidade da criminalidade, mulheres perigosas, descompromisso com sua carreira, rompimentos de contrato, gangsterismo e notoriedade barata.

Não seria difícil projetar a história pessoal do Adriano no anticonto de fadas descrito por Dylan para sua dama transformada em pedra rolante.

Mas a minha lentidão em transformar ideias e temas para a coluna em textos somou-se à velocidade e ironia dos acontecimentos para termos à nossa disposição em exemplo pronto de como a cultura da celebridade leva o indivíduo do ápice ao fosso profundo em apenas uma jogada.

Este blog já postou dois textos brilhantes, do Migão e do Walter Monteiro, sobre o chamado Caso Bruno. Portanto, não vou voltar às questões jurídicas e formais do caso, nem me ater à culpabilidade do Bruno.

Independentemente do que tenha acontecido, o linchamento público do Bruno é compreensível, no mesmo mecanismo que ilustra a escalada de um menino da periferia de BH ao estrelato guindado por um atributo esportivo passageiro (poderia ser musical, pseudo-artístico, físico, qualquer coisa, menos intelectual).

O caminho de volta percorre os mesmos atalhos do caminho de ida, esta é a chave da porta mágica que leva do sucesso ao fracasso, da fama à infâmia, do estralado ao ostracismo, da idolatria ao linchamento público. Como escreveu recentemente o jornalista Gustavo Poli, traçando uma linha entre o Homem Aranha (e demais heróis dos quadrinhos) e os jogadores de futebol, “grandes poderes levam a grandes responsabilidades”. Ao não saber lidar com os poderes do estrelato e da fama, e negar-se a assumir o preço das responsabilidades de canalizar os anseios e ideais da sociedade de massas, o ídolo-celebridade abre a porta que leva do topo ao calabouço.

À parte as questões que envolvem investigação policial e Justiça, é disso que se trata este pesadelo público roteirizado e estrelado pelo Bruno. A turba quer sangue e glória. De preferência, o sangue daquele mesmo personagem que acaba de despencar da fama artificial. E por quê? Porque os mesmos símbolos de poder e sucesso financeiro que encantam e magnetizam as massas, também causam a náusea da inacessibilidade. E as brincadeiras de construir e detonar ídolos de barro são absolutamente complementares. O menino pobre de periferia que ousa jogar este jogo sem ter tido a oportunidade de aprender a refletir sobre este perigo é vítima e algoz de si mesmo, virando joguete nas mãos da opinião pública.

Poucas coisas são mais cruéis que esta equação, mas há um acordo tácito no jogo social que faz com que seu rompimento acarrete, necessariamente, numa punição cruel. Não se trata de Justiça formal, de ordem pública, de maturidade democrática, apesar de estes serem ângulos de abordagem necessários e anteriormente defendidos eficientemente aqui pelo Migão e pelo Walter (e por outros bons blogueiros e jornalistas mundo afora).

Pode-se (deve-se) refletir criticamente sobre uma sociedade erguida sobre o signo da notoriedade, mas não se deve esquecer que é nesta cultura de massas e celebridades que vivemos. Não deixa de ser sintoma de sofisticação social que o linchamento de um sujeito como o Bruno não seja feito com o uso de paus e pedras, mas de palavras e exposição pública de aspectos supostamente privados da vida do “acusado”. Antigamente, a fogueira tostava os réus de uma maneira, digamos, mais direta.

O que o Dylan nos contou há 45 anos nada mais era do que a história de uma personagem que, por qualquer que tenha sido o motivo, caiu repentinamente dos salões luxuosos para a sarjeta, impulsionada por sua arrogância e insensibilidade. E recebeu como presente a acidez e crueldade do bardo. Talvez, dentre as centenas de regravações da letra do Dylan ao longo de décadas, talvez tenha faltado uma na voz de um representante do funk-carioca ou do pseudo-pagode; para que a mensagem tivesse chegado aos ouvidos do jovem Bruno.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Final de Semana - "Sunday Bloody Sunday"



Final de semana em ritmo de política.

Nossa música é "Sunday Bloody Sunday", do U2. Ela narra um dos episódios mais trágicos e sem sentido da história da Europa, que foi o massacre de treze pessoas desarmadas que faziam passeata pacífica pelos direitos civis na Irlanda do Norte.

O episódio deu apoio popular ao IRA - Exército Republicano Irlandês - grupo de resistência ao poder central inglês que faria centenas de vítimas fatais nos anos posteriores.

Há um filme em formato de documentário muito bom chamado "Domingo Sangrento", que é muito bom. Tive chance de assisti-lo há anos atrás e vale muito a pena, se encontrar em locadoras é um filme que recomendo. Nas palavras do blog "Cinéfilos":

"Domingo Sangrento (2001)

Direção: Paul Greengrass

Elenco: James Nesbitt, Tim Pigott-Smith, Nicholas Farrell

Não bastava ouvir os dois lados. Para reconstituir o Domingo Sangrento (Bloody Sunday) – um dos episódios mais dramáticos do conflito entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte. Para conseguir esse efeito, imprimiu a seu “Domingo Sangrento”, um ritmo nervoso, manteve a câmera trêmula todo o tempo e adotou uma linguagem no limite entre o documentário e a ficção, em ritmo de documentário e de filme independente o telespectador sente na pele o fato ocorrido. Domingo Sangrento” é uma denúncia contundente de uma injustiça histórica que os ingleses, tão ciosos de sua imagem de tolerância, ainda tentam remendar. O inquérito aberto na época inocentou todos os soldados envolvidos na operação. Alguns comandantes chegaram a ser condecorados pela rainha, uma vergonha, na qual sirva de lição para todas as nações que se dizem superiores e que pensam que podem fazer o que bem querem. A direção e roteiro ficaram por conta de Paul Greengrass, especializado em documentários, que pode retratar de uma forma crua toda a verdade e expôs a verdadeira versão, além de contar com a música do U2 que foi inspirada nesse acontecimento, “Sunday, bloody, sunday”.

* Ganhou o Urso de Ouro e o Prêmio do Júri, no Festival de Berlim"

Vamos à letra e a uma tradução aproximada. Bom final de semana.

(Composição: Bono Vox / The Edge / Adam Clayton / Larry Mullen Jr)

Sunday Bloody Sunday

I can't believe the news today
I can't close my eyes and make it go away
How long, how long must we sing this song?
How long, how long?
'Cos tonight
We can be as one, tonight

Broken bottles under children's feet
Bodies strewn across the dead-end street
But I won't heed the battle call
It puts my back up, puts my back up against the wall

Sunday, bloody Sunday (4x)
Oh, let's go

And the battle's just begun
There's many lost, but tell me who has won?
The trenches dug within our hearts
And mothers, children, brothers, sisters torn apart

(2x)
Sunday, bloody Sunday

How long, how long must we sing this song?
How long, how long?
'Cause tonight
We can be as one, tonight
(2x)
Sunday, bloody Sunday

Wipe the tears from your eyes
Wipe your tears away
I'll wipe your tears away (2x)
I'll wipe your bloodshot eyes

(6x)
Sunday, bloody Sunday

And it's true we are immune
When fact is fiction and TV reality
And today the millions cry
We eat and drink while tomorrow they die

The real battle just begun
To claim the victory Jesus won
On

(2x)
Sunday, bloody Sunday

Domingo, Sangrento Domingo

Não posso acreditar nas notícias de hoje
Não posso fechar os olhos e fazê-las desaparecer
Quanto tempo, quanto tempo teremos de cantar esta canção?
Quanto tempo, Quanto tempo?
Porque esta noite...
Podemos ser como um, essa noite.

Garrafas quebradas sob os pés das crianças
Corpos espalhados num beco sem saída.
Mas eu não vou atender ao apelo da batalha
Isso coloca minhas costas, coloca minhas costas contra a parede.

Domingo, sangrento domingo (4x)
Oh, vamos lá.

E a batalha apenas começou
Há muitos que perderam, mas me diga quem ganhou?
As trincheiras cavadas em nossos corações
E mães, filhos, irmãos, irmãs dilacerados.

Domingo, sangrento domingo
Domingo, sangrento domingo

Quanto tempo, quanto tempo teremos para cantar esta canção?
Quanto tempo, quanto tempo?
Hoje à noite
Nós podemos ser como um, esta noite.
Domingo, sangrento domingo.
Domingo, sangrento domingo.

Enxugue as lágrimas de seus olhos
Limpe suas lágrimas.
Vou limpar suas lágrimas. (2x)
Vou limpar os seus olhos vermelhos.

(6x)
Domingo, sangrento domingo

E é verdade que somos imunes
Quando o fato é ficção e a realidade da TV.
E hoje milhões choram
Comemos e bebemos enquanto eles morrem amanhã.

A batalha real apenas começou
Para reivindicar a vitória de Jesus
Em...

Domingo, sangrento domingo.
Domingo, sangrento domingo."

Trânsito, Insano Trânsito


A foto acima foi tirada de dentro do meu carro - como se vê pelos pingos no pára-brisa - ontem, manhã chuvosa de quinta feira. Linha Vermelha, altura da Maré, sentido Centro da cidade.

Nos últimos dias o tráfego, pelo menos para quem mora na Ilha do Governador como eu vem se tornando cada vez mais moroso. Mais tempo se perde, mais combustível se gasta, menos qualidade de vida.

Quem mora há muito tempo na cidade já está acostumado, mas basta se afastar ainda que por poucos dias para local mais organizado percebe como é insana a situação.

Como viram aqui, passei uma semana a trabalho em Curitiba na primeira quinzena de julho. O ônibus que me levava à Refinaria Presidente Vargas, em Araucária (trinta e cinco quilômetros da capital paranaense) não demorava mais do que cinquenta minutos para empreender o seu percurso. Isso parando diversas vezes para apanhar e deixar passageiros no caminho.

Para os leitores terem uma idéia, moro a vinte quilômetros do meu trabalho e de carro - ou seja, sem paradas - nunca levo menos que uma hora de percurso. Nos últimos dias tenho levado pelo menos uma hora e vinte a uma hora e meia.

Curitiba é uma cidade onde o transporte coletivo funciona, há planejamento viário e ocupação racional do espaço urbano. Lá todo mundo anda de ônibus, que em muitas ruas possui corredores exclusivos de circulação. Além disso a oferta de transporte coletivo atende às necessidades, em horários determinados.

Com isso diminui a necessidade de utilização de carros particulares e mesmo o serviço de táxis é utilizado basicamente pelos turistas. O tempo perdido no deslocamento é civilizado, sem impacto na qualidade de vida.

O que temos no Rio de Janeiro ?

Antes de mais nada, uma geografia complicada e um espaço ocupado desordenadamente. Grandes distâncias a se deslocar por ruas muitas vezes estreitas. A gerência viária não racionaliza a engenharia de tráfego e os guardas de rua tem como única missão infernizar a vida do incauto motorista através da obssessão pela multa - com direito a "meta" mensal.

Outro problema é que a matriz de transporte da cidade está baseada nos ônibus, que se constituem no mais forte grupo de pressão política na esfera municipal. Temos uma frota desequilibrada localmente - muitos coletivos na Zona Sul, poucos na Zona Oeste - com horários incertos e de serviço ruim.

Quaisquer tentativas de se racionalizar o sistema são devidamente solapadas pelas empresas nas diversas esferas do Legislativo ou do Judiciário. O sistema de concessão de linhas é peça de ficção.

O sistema de metrô está limitado e absolutamente saturado, e o de trens urbanos funciona abaixo de seu potencial. Com isso se estimula a utilização do carro particular, o que torna o trânsito um caos ainda maior.

Dou o exemplo da Ilha do Governador. São pouquíssimas linhas de ônibus, com destinos limitadíssimos e horários incertos, com assaltos nos "frescões" e baratas nos coletivos de tarifa comum. Os poucos itinerários estão concentradas nas mãos de apenas duas empresas, que fazem o que querem dada a falta de outras opções viáveis de transporte. Resultado: todo mundo anda de carro.

Para agravar o problema o bairro tem uma única saída terrestre - a Estrada do Galeão - e ainda convive com "blitzes" da Polícia Militar volta e meia nesta via em pleno horário de rush. Qualquer carro enguiçado ou acidente nesta via causa o caos - e aí o tempo para se chegar ao trabalho supera facilmente duas, às vezes até mesmo três horas.

Consequentemente a qualidade de vida cai e aumentam o consumo de combustível e a poluição urbana. O sistema de barcas, que seria a alternativa, está absolutamente esvaziado. É absolutamente insano passar o tempo que passamos dentro de um carro no Rio de Janeiro. Insano.

Falo da Ilha porque é a minha realidade, mas poderia me referir a outros bairros que o quadro seria semelhante. O tráfego carioca literalmente faliu.

A solução para o problema seria uma extensa reforma urbana que envolvesse obras viárias, criação de corredores expressos, extensos investimentos em transporte de massa e diminuição do poder das empresas de ônibus.

Provavelmente optarão pela solução mais fácil: instituir o rodízio de placas na cidade. E o contribuinte sem opção de transporte que se dane. Ou vá trabalhar a pé.

Espero me mudar para Curitiba antes disso.

Cinecasulofia - "Sublimação Zen"


Mais uma sexta feira, mais uma edição da nossa coluna "Cinecasulofilia". Publicada sempre em parceria com o blog de mesmo nome e assinada pelo cineasta, crítico e professor de cinema Marcelo Ikeda.

"(...) E daí que a pergunta ressoa para mim: o que é escrever um texto sobre um filme, o que significa isso? E, novamente, como sempre, só consigo responder que só faz sentido escrever um texto sobre um filme (ou sobre alguma coisa) se aquilo o toca, e se você diz porque aquilo o toca, tentando desenvolver uma forma de diálogo com o que aquele sentimento despertou em você, na sua vida. Por isso quando estou escrevendo sobre filmes eu na verdade estou escrevendo sobre mim, ou ainda, estou escrevendo o roteiro dos meus próximos filmes, ainda que eles não necessariamente tenham um roteiro. Mas o que é importante (ético) é que eu procuro evitar ao máximo que esses textos sejam meros joguetes para falar de mim, como se eu usasse os filmes para falar de outra coisa que me interessa (uma vaidade, um egocentrismo, um autoelogio). Não é esse o caso. Os filmes não são subterfúgio de mim, mas única solução coerente, porque só é possível falar de mim, falando dos filmes. Não são fuga de mim, mas encontro de mim. Não são propriamente meios para falar de mim, mas são fins em si, pois falando dos filmes falo mais profundamente sobre mim do que se estivesse falando estritamente de mim mesmo. E assim posso estimular uma relação com o leitor que seja igual, “olho no olho”, e não “de cima para baixo”, e não professoral, didática, mas orgânica, viva, dinâmica, honesta. Ou ainda, imperfeita, parcial, suscetível. Por isso cada vez mais me incomoda um conjunto de textos sobre o cinema, porque não se procura estabelecer um diálogo honesto e verdadeiro com os filmes, mas apenas jogos de poder para consolidar um certo “cânone crítico”, mas não quero mais ficar falando porque os textos não são como eu acho que deveriam ser, porque o mundo não é como nós gostaríamos que fosse, ele é como é, da mesma forma que as pessoas não são como gostaríamos que elas fossem, elas são como são, e porque da mesma forma nós não somos como nós gostaríamos de ser mas nós somos como somos. O que quero fazer – preciso fazer, e sinto cada vez mais que quero fazer – é apenas exaltar essa possibilidade aqui, essa possibilidade “desinteresseira”, essa forma de olhar para os filmes através de palavras, palavras, palavras. Falar de mim, mas não através de confissões inúteis como as que fiz na ocasião da exibição do meu curta O POSTO, expondo minha mágoa contra um estado de coisas, mas pensando mais além dessas aparências rotineiras (imediatas) o sentido de compor um DIÁRIO, o sentido de uma CONFISSÃO, o sentido de um DESNUDAMENTO. Estou fazendo isso quando escrevo sobre O SACO AZUL, ou sobre GLIMPSES do Jonas Mekas, ou sobre o último curta do Caetano Gotardo, muito mais do que meu desabafo ingênuo sobre os festivais. Ainda que esse desabafo seja necessário, é preciso fazê-lo de uma outra forma, uma espécie de “sublimação zen”: falando de filmes em que acredito, ou fazendo filmes em que acredito."

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Casamento Gay


Sem dúvida alguma, a notícia de maior destaque em termos de sociedade nos últimos dias foi a aprovação de lei na Argentina instituindo o casamento homossexual, com os mesmos direitos e deveres do casamento heterossexual.

Para mim não deixa de ser uma surpresa a aprovação da lei no Senado do país vizinho, haja visto que a Igreja Católica possui uma influência política ainda maior que aqui em terra brasilis. A lei foi aprovada por 33 votos a 27 e torna a Argentina o primeiro país  latino americano a prever o popularmente denominado "casamento gay".

Este é um tema que provoca acalorado debate em qualquer sociedade mundial. A influência religiosa é bastante forte e há um preconceito bastante arraigado na própria sociedade laica sobre o tema.

No Brasil considero que não há a menor chance de uma lei semelhante a esta passar no Congresso devido ao número expressivo de deputados da bancada que se convencionou chamar de "evangélica". Objetivamente, a Constituição Federal proíbe a aprovação de uma lei nos moldes da aprovada na Argentina pois em seu artigo 226, parágrafo 3 expressa "entidade familiar" como a união entre um homem e uma mulher.

Além disso as Leis 8.971/94 e 9.278/96, que tratam de direitos de sucessão e de união estável respectivamente também estabelecem a união como "entre um homem e uma mulher". No Congresso está em tramitação o Projeto de Lei 1.151, de 1995 - de autoria da então Deputada Marta Suplicy - que disciplina a união estável entre pessoas do memso sexo.

Tal projeto teve um substitutivo aprovado em 1997, cusjos principais pontos resumo abaixo:

"O texto do substitutivo aprovado na Comissão Especial, publicado no Diário da Câmara dos Deputados de 21 de janeiro de 1997, prevê:

* registro no Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais (mesmo local onde são registrados os nascimentos, casamentos e óbitos) (art. 2º);
* o estado civil dos contratantes não pode ser alterado durante a vigência da parceria civil registrada (art. 2º, §3º);
* contrato deve ser lavrado num Ofício de Notas (tabelionato), devendo dispor sobre patrimônio, deveres, impedimentos e obrigações mútuas (art. 3º);
* extinção pela morte ou decretação judicial (art. 4º);
* motivos para a extinção da parceria civil registrada: infração contratual ou desinteresse na sua continuidade (art. 5º);
* o imóvel próprio e comum aos contratantes é impenhorável, nos mesmos termos do bem de família (art. 9º);
* o parceiro homossexual é considerado dependente do segurado do INSS (não há equiparação com o companheiro heterossexual) (art. 10);
* o companheiro homossexual é beneficiário vitalício da pensão por morte do servidor público federal (art. 11);
* previsão de que estados e municípios disciplinem sobre os benefícios previdenciários do companheiro homossexual (art. 12);
* os direitos sucessórios limitam-se ao usufruto de um quarto ou da metade dos bens do companheiro, se esse tiver deixado filhos ou ascendentes, respectivamente (o usufruto cessará se firmar nova parceria civil registrada); terá direito a toda a herança se o companheiro não deixar descendentes ou ascendentes e terá, em todos os casos, direito à metade do patrimônio em que tenha colaborado para a formação (art. 13);
* preferência para exercer a curatela (responsável legal) no caso de perda de capacidade do contratante (art. 14);
* redução do tempo de residência necessário para naturalização do companheiro homossexual estrangeiro (sem equiparação ao cônjuge e companheiro heterossexual, ficando omisso o tempo de redução) (art. 15);
* composição de renda para aquisição de casa própria (art. 16 - não previsto no projeto original);
* direitos relativos a planos de saúde e seguro em grupo (art. 16 - não previsto no projeto original);
* inscrição como dependente para efeitos da legislação tributária (art. 17 - não previsto no projeto original).

Vedações contidas no substitutivo aprovado

* o contrato não pode dispor sobre adoção, tutela ou guarda de crianças ou adolescentes em conjunto, mesmo que sejam filhos de um dos parceiros (art. 3º, §2º)"

Depois de treze anos esperando pela votação em plenário o projeto é considerado ultrapassado pelas entidades de defesa dos direitos dos homossexuais.

Não entrarei aqui em debates sobre o conceito de família ou se é "bom" ou "não" termos casais homossexuais. A opinião do cidadão não é o mais importante quando temos um fato consumado, que é a existência de casais com união homoafetiva. Se existe na sociedade, a lei tem de amparar, até porque o artigo 5º da Constituição Federal expressa que "todos são iguais perante a lei".


No Brasil hoje o que temos são duas "castas" de casais: os que tem os direitos previstos em lei e os que não o tem. Não é caso de ter opinião, estabelecer juízos de valor ou de moral. Simplesmente equiparar os direitos judiciais, de herança e de dependência entre os casais hetero e os homossexuais.

Hoje algumas empresas já aceitam a inclusão de companheiros do mesmo sexo como dependentes - a Petrobras é uma delas, por exemplo. Entretanto, são iniciativas isoladas, embora a meu juízo bem vindas.

Particularmente não acho justo um casal homoafetivo construir patrimônio, por exemplo, e com a morte de um dos atores do processo o outro simplesmente não ter direito aos bens construídos conjuntamente. Ou ser dependente economicamente do parceiro e não o ser de forma completa.

A propósito, algo que passei a ser totalmente favorável nos últimos tempos é a adoção de crianças por casais homoafetivos. Com certeza as crianças adotadas são muito melhor cuidadas do que se estivessem em orfanatos, abrigos ou mesmo sob o cuidado de pais sem condições econômicas ou emocionais de dar a criação adequada. Lembro aos leitores que os casaias homossexuais costumar ter um padrão de vida superior economicamente e isto facilita.

Minha mãe tem um casal de amigos que adotou duas irmãs recentemente, se não me engano uma com oito anos e a outra com seis - ambas negras. Elas estiveram na casa dos meus pais na última semana e salta aos olhos o cuidado que é dedicado a elas. Sem dúvida alguma não interfere de nenhuma forma na criação das meninas.

Resumindo, sou a favor de algum tipo de lei de união estável por entender que a lei deve amparar e não discriminar situações existentes na sociedade. Por outro lado considero que uma lei como a descrita no projeto de lei acima tem possibilidade de ser aprovada no Congresso Nacional.

Objetivamente, é isto. O restante é pré-conceito e conservadorismo.

P.S. - Ressalvo apenas que não domino a terminologia utilizada pelas entidades de defesa dos direitos dos homossexuais, portanto corrijam-me se houver alguma imprecisão.

(Fotos: G1)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "O Brasil Ganhou da Holanda"


Mais uma quarta feira e mais uma edição de nossa coluna sobre Ciéncia e Tecnologia, a "Formaturas, Batizados e Afins".

Como sempre assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas, hoje traz boas notícias sobre a produção científica brasileira. Vamos ao texto:

"O Brasil ganhou da Holanda

Ainda em tempo de Copa do Mundo, esta talvez fosse a notícia que todos queriam ter lido nos jornais depois da inexplicável atuação do time de Dunga (não consigo chamar de Seleção Brasileira, pois não refletia os anseios da maioria de nós brasileiros) nas quartas de final da Copa da África. No entanto, lá em Port Elizabeth a Holanda sorrateira virou o jogo e eliminou o Brasil da Copa 2010. Mas isso foi no futebol, e esta coluna é sobre Ciência!

Pois então falemos de um Brasil x Holanda muito importante que foi vencido pelo Brasil no campo do desenvolvimento científico em 2009.

O investimento em Ciência e Tecnologia anda de braços dados com o desenvolvimento de uma Nação, e isso já foi tema desta coluna. Apesar de não ter ainda plenamente consolidado seu parque científico quando comparado a outros países, os investimentos em Ciência e Tecnologia no Brasil tem aumentado ao longo das últimas duas décadas. Isto se reflete em números importantes que acenam para maiores chances de desenvolvimento e implementação de novas tecnologias a médio e curto prazo.

Sem falar no impulso na formação de mão de obra especializada nas diferentes áreas do conhecimento, que fazem girar a grande roda do desenvolvimento e por tabela, a economia. Devido a este aumento no aporte de recursos, o Brasil tem ocupado um espaço cada vez mais importante no ranking científico mundial. Nas duas últimas décadas, o país subiu da 27ª para a 18ª posição no ranking global de Ciência e Tecnologia.

Para que se possa ter um exemplo concreto disso, em 1981, 1887 artigos científicos foram publicados por grupos de pesquisa brasileiros em revistas científicas de circulação internacional, indexadas nas melhores bases de dados disponíveis. Isso correspondia a 0,44% da produção mundial em Ciência, lembrando que estes artigos científicos são gerados após anos de pesquisa em diferentes assuntos, onde o grupo de pesquisa parte de hipóteses que são testadas experimentalmente até que sejam confirmadas ou rejeitadas; gerando resultados que integram a “estória” contada em cada um dos artigos científicos. Esta forma de divulgação científica está disponível a todos nas bibliotecas dos centros de pesquisa e Universidades, ou ainda em páginas da Internet como por exemplo o Portal de Periódicos da CAPES (www.capes.gov.br). Já em 2001 o número de artigos científicos publicados subiu para 10.555, passando a representar 1,44% do total de artigos produzidos no mundo.

Mais recentemente, contando os anos de 2007 e 2008, a publicação de artigos científicos gerados por grupos de pesquisa do Brasil em periódicos de circulação internacional e indexados subiu mais de 50% e permitiu que o país superasse dois países de peso no cenário científico Mundial: Rússia e Holanda. Foi o maior crescimento de geração de conhecimento científico dentre todos os 183 países que constituem este ranking, onde o número de artigos pulou de pouco mais de 19 mil, para cerca de expressivos 30 mil artigos publicados!

Isso tornou o Brasil o 13º melhor produtor de conhecimento do mundo, com agora mais de 2,12% do total gerado pelos países do ranking. Este fato teve uma repercussão enorme na comunidade científica mundial; e claro trouxe muito orgulho a todos nós membros da comunidade científica brasileira e mesmo todo povo brasileiro, que em sua maior parte ajuda a manter os investimentos em Ciência e Tecnologia no país. Esta conquista foi anunciada oficialmente pelo Ministro da Educação Fernando Haddad no ano passado (05/05/2009), durante uma Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências. Foi sem sombra de dúvidas, o maior crescimento em Ciência e Tecnologia da história do País, fato realmente digno de destaque e de júbilo.

Mas, onde entra a Holanda nisso tudo?

Como todo ranking, esta geração de conhecimento não deixa de representar uma competição. Uma competição sadia, onde todo o mundo sai vencendo, pois desenvolver a Ciência ajuda a responder questões importantes e gerar novas tecnologias nas diferentes áreas do saber. A quantificação do crescimento da produção brasileira indicava a subida de uma posição neste ranking, o que nos colocaria à frente da Rússia, um país que tem seu nome quase que diretamente associado à Ciência e Tecnologia. No entanto este crescimento de nossa produção foi tão robusto que nos fez ultrapassar também a Holanda! Sim, neste campo nós já derrotamos a Holanda, que é outro gigante da Ciência mundial.

Entretanto, este resultado não pode ser encarado como um jogo vencido. Ou seja, não podemos fazer como o time do Dunga no segundo tempo daquela partida contra os holandeses quando voltaram num estado de letargia e apatia que levou à nossa eliminação da Copa da África. O País tem que seguir ampliando os investimentos para que a geração de conhecimento siga esta crescente tão significativa. De acordo com o Prof. Jorge Guimarães, Presidente da CAPES, se o ritmo de crescimento da produção for mantido é provável que ainda em 2010 o Brasil suba mais uma posição no ranking.

Para entrar no grupo dos 10 maiores produtores de conhecimento, o Brasil precisar superar Coréia do Sul (cerca de 35 mil artigos), Austrália (36,7 mil) e Índia (38,7 mil). Atualmente os 10 maiores produtores mundiais de conhecimento são: Os EUA, que lideram com 340 mil artigos publicados, seguidos da China (112,8 mil), Alemanha (87 mil), Japão (79 mil), Inglaterra (78 mil), França (64 mil), Canadá (53 mil), Itália (50 mil), Espanha (41,9 mil) e a Índia (38,7 mil).

Infelizmente estes números não chegam para a maioria da nossa população. E, mais triste ainda, a grande maioria dos brasileiros não entende porque pode ser tão importante estar entre os 10 maiores produtores mundiais de conhecimento. O fato é que um País que quer ser desenvolvido precisa sim de muito investimento em Ciência e Tecnologia, e este investimento nos dá muito orgulho pois mostra que o Brasil não é só o País do futebol (se bem que essa frase está bem fora de moda...), ou o País do Carnaval. Que passem a ver o Brasil também como um País da Ciência e da Tecnologia.

Até a próxima !

Marcelo Einicker Lamas"

terça-feira, 13 de julho de 2010

Trezentos Picaretas ? Uma reflexão sobre o Congresso Nacional



"Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou
são trezentos picaretas com anel de doutor (...)


Pesquisando pelo Youtube para a coluna "Final de Semana" da próxima sexta, me deparei com esta canção, de autoria do Paralamas do Sucesso. Composta em 1995, faz referência a uma célebre frase do hoje Presidente Luis Inácio Lula da Silva de que "no Congresso tem trezentos picaretas com anel de doutor".

A canção me leva a uma reflexão, que queria dividir com os leitores.

Não irei me ater aqui a cantilenas do tipo "todo mundo é igual", "todo mundo é picareta" ou coisas do gênero. Infelizmente a nossa população, independente de gênero social, escolaridade e informação, tende a considerar os políticos em Brasília como algo apartado da sociedade. Não são.

O mesmo povo que critica os políticos e condena a corrupção surrupia 50 centavos dos outros, sonega impostos, usa e abusa do famoso "jeitinho" brasileiro, conspira para derrubar colegas de trabalho e compra inúmeras brigas por causa de migalhas. É capaz de qualquer coisa por pequenas vantagens. Ou seja, o comportamento dos políticos em Brasília, sejam quais forem, é reflexo de nossa sociedade. É meu reflexo e é reflexo de você, leitor. Nós os colocamos lá.

Outrossim, o nosso sistema político possui uma característica que torna bastante complicado o ato de governar, seja quem for o eleito: a composição das bancadas no Congresso é bastante pulverizada entre os partidos, de forma que qualquer Presidente que assumir ao mandato terá de fazer composições políticas. Como a nossa cultura parlamentar é basicamente clientelista, o ocupante do Executivo acaba como "refém" destes interesses, pois sem o Congresso Nacional não se governa e nenhum candidato à Presidência consegue formar uma bancada coesa que lhe dê maioria absoluta dada a pulverização partidária existente.

Por outro lado, a estrutura politico-partidária brasileira ainda fortalece partidos que não detém votos para ocupar o Executivo, mas possuem papel preponderante na eleição de deputados e senadores: são os casos do PMDB e do DEM, ex-PFL - embora o fato de ser oposição está acabando com este último, dependente do poder como um ser humano de oxigênio que é.

Isso força os ocupantes do Palácio do Planalto a fazer concessões a fim de manter um mínimo de estabilidade política e conseguir aprovar os projetos necessários para o ato de governar. Esta é a razão de existirem "emendas parlamentares", "acordos de bancada" e, sendo bastante cínico, "mensalões", "compras de votos" e mecanismos assemelhados.

Ressalto que Fernando Henrique Cardoso obteve muito mais sucesso neste "toma lá, dá cá", a ponto de rasgar a Constituição em um "golpe branco" para se manter no poder - à moda de Hugo Chávez. Dizem que à custa da "compra" de deputados a fim de aprovar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) da reeleição. Infelizmente, jamais se investigou tal denúncia.

Como o conceito de "imunidade parlamentar" foi ampliado no Brasil, o Congresso também se tornou refúgio de investigados pela Justiça que buscam no mandato parlamentar uma forma de paralisar os processos judiciais em andamento contra si. Lembro aos leitores que o conceito de imunidade parlamentar é restrito aos crimes de opinião, para que o parlamentar possa se utilizar da tribuna do Congresso da forma que melhor o convier. Infelizmente, aqui no Brasil este conceito foi "alargado" e se tornou, praticamente, "Impunidade parlamentar".

Na prática, a "Lei Ficha Limpa" só tem o intuito de tentar corrigir o erro inicial, que foi o de ampliar o conceito de imunidade parlamentar. Mas sem dúvida há muitos deputados e alguns senadores muito mais preocupados em garantir a sua liberdade pessoal que em questões pertinentes ao país...

Outra problemática é a existência de "bancadas temáticas" no Congresso, em especial a bancada ruralista e a evangélica. Os deputados pertencentes a estas bancadas votam em bloco nas questões, independente do partido a que pertencem ou da orientação do líder da bancada. Na prática, utilizam as legendas partidárias unica e exclusivamente para se elegerem, atuando de acordo com afinidades como as descritas acima - até porque não há uma lei de fidelidade partidária que obrigue os deputados a votar ordineiramente de acordo com a orientação do líder da bancada.

Ou seja, o mandado é do partido no que se refere à troca de legenda durante o mandato, mas é do deputado para a expressão do voto. Particularmente, acho uma incoerência.

Somente uma Reforma Política digna do nome - que hoje não passa no Congresso pelos motivos descritos acima - corrigiria as distorções descritas acima e tornaria mais propício à ética e ao debate de idéias o dia a dia do Congresso. Mas você leitor possui uma forma muito simples de minorar estes efeitos: seu voto.

É simples: se você é eleitor de Dilma como eu, procure votar em candidatos à Câmara e ao Senado dos partidos da coligação - PT, PMDB e PDT, entre outros. Se vota em Serra, faça o mesmo votando em candidatos do PSDB, do DEM ou do PPS. Se sufraga Marina Silva, nos candidatos do PV.

Para governador o raciocínio é igual, procure correlacionar seu voto no deputado estadual ao voto para governador.

Agindo desta forma seu voto permite que o eleito tenha uma bancada maior e, consequentemente, dependa menos destes acordos espúrios para manter a governabilidade do país ou do estado em um nível aceitável. Lembro aos amigos que, a despeito das denúncias de corrupção, o que derrubou o ex-Presidente Fernando Collor foi justamente o seu péssimo relacionamento com o Poder Legislativo.

Outro fator fundamental é fiscalizar o seu candidato a deputado ou a senador. Se o leitor acompanha a sua atuação durante o mandato torna-se mais fácil decidir o seu voto na hora das eleições.

Mais perto das eleições voltarei ao tema, mas é hora de refletir e perceber que Brasília e os políticos que lá residem são consequência direta da sociedade. Pense nisso.

P.S. - abaixo disponibilizo a composição da bancada atual da Câmara dos Deputados, para o leitor ter uma idéia da pulverização existente hoje. Clique na imagem para ampliá-la.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Resenha Literária - "Economia Bandida"

Mais uma segunda feira, mais uma semana. E mais uma "Resenha Literária".

O livro de hoje começou a ser lido em Curitiba, teve a leitura parada para que eu pudesse ler o livro sobre as canções de Paulo César Pinheiro - já resenhado - e foi retomado aos poucos até ter sua leitura encerrada.

"Economia Bandida", da economista, consultora e jornalista italiana Loretta Napoleoni, é um apanhado das forças atuais que movem a economia chamada "fora da lei" nos dias de hoje, sua influência sobre a vida cotidiana e os riscos sobre a nossa existência.

Os capítulos tratam de temas tão díspares como a prostituição no Leste Europeu, a pesca clandestina de peixes pelos mares do mundo, a relação entre a cultura política e a abertura econômica chinesa e o super endividamento das famílias americanas. Sem deixar de alertar para os riscos dos produtos pretensamente com menores índices de gorduras, remédios falsificados e o tribalismo que move o mundo.

Em cada capítulo a autora desfia números e histórias absolutamente contundentes sobre as diferentes faces do que é denominado "economia bandida" - atividades nem sempre fora da lei, mas que possuem poder desestabilizador sobre a humanidade.

Além disso a autora mostra que Hugo Chávez e seu projeto "bolivariano" são muito mais retórica que prática - a Venezuela, hoje, é grande vendedora de petróleo para os EUA e houve poucas mudanças na estrutura da economia do país.

Por outro lado, em um capítulo bastante interessante mostra-se a formação de uma espécie de mercado financeiro islâmico, capitaneado pela Malásia e que opera de forma diferente dos serviços bancários tradicionais. É baseado na "Sharia", a lei islâmica, com princípios éticos muito mais rígidos e sob o espírito de cooperação entre as partes. Bastante promissor.

Chama a atenção também a falácia dos alimentos "light" - que acabam engordando mais que os comuns por conterem mais carboidratos. Outro ponto surpreendente é que seria mais benéfico à África permitir acessos privilegiados aos mercados dos países desenvolvidos que simplesmente perdoar as suas dívidas ou enviar ajuda humanitária - que, no final das contas, acabam deixando os países ricos mais ricos - o dinheiro acaba sendo gasto em bens e serviços destes países.

Outro ponto que fica evidente é o contraste com "Falsa Economia", que li e resenhei há pouco tempo. Embora com assuntos diferentes, as questões abordadas muitas vezes se encontram  e as soluções propostas são diametralmente opostas para problemas similares.

Apesar de um capítulo particularmente chocante sobre o negócio da prostituição e do fato de muitas vezes inserir o leitor na dinâmica da "economia bandida" como consumidor final - muitas  vezes sem o saber - é leitura fundamental. Até por isso.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 38.

domingo, 11 de julho de 2010

Bissexta - Alguns aspectos jurídicos do Caso Bruno


Mais um domingo, e mais uma edição da coluna "Bissexta", assinada pelo advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é algo que venho observando desde o "Caso Nardoni", mas sem o necessário conhecimento técnico: o clima de "linchamento" e pré-julgamento dos acusados no "Caso Bruno".

Texto indispensável.

"BRUNO NA COVA DOS LEÕES

Por milhares de anos a civilização tem se esforçado para dar aos cidadãos algumas garantias mínimas que assegurem que, em sendo a liberdade uma regra, ela só deve ser retirada de um homem através de um devido processo judicial, garantindo um amplo direito de defesa, erguido sobre o pilar do princípio da inocência, do qual emergem alguns conceitos simples, como (a) o direito de ser tratado como inocente até ser declarado culpado por alguma sentença, (b) que em caso de dúvida, a incerteza se inclina em favor do acusado e (c) o direito do acusado de ser defendido dos fatos que a ele se imputam.

Faço essas reflexões nesse tom levemente erudito para contrastar um pouco com o circo em torno do goleiro Bruno. Só em 2009 e apenas no Rio de Janeiro foram julgados quase mil casos de homícidios dolosos. Em geral, a polícia e a promotoria 'cortam um dobrado' para conseguirem comprovar a culpa dos acusados. Porque se essa prova não vem demonstrada de um modo irrefutável, já era!

Como todos, eu estou surpreso e revoltado com esse caso da ex-amante do antipático goleiro (aquele que disse que estava “se lixando”para a torcida do Flamengo). Por mim, jogavam o bruto numa cela fétida, aos cuidados dos habitantes mais veteranos da hospedaria banguense, só para ver quanto tempo aquela marra de bandido ia durar. Mas eu digo isso porque analiso o caso sob a ótica do espectador, porque se fosse chamado a ponderar o caso com olhos profissionais, a coisa muda de figura.

Para começar, é ridículo esse clima de linchamento estimulado pela visível aliança das autoridades com as manchetes de ocasião. Como eu disse, a vida de quem busca encarcerar os acusados é duríssima quando no Tribunal do Júri só se tem pela frente um corpo de jurados sonolentos e uma platéia que só não está deserta porque às vezes comparecem parentes (das vítimas e/ou dos réus) ou alguns poucos estudantes de direito em tarefas universitárias. Por isso, nada melhor do que contar com um réu já previamente condenado pelo clamor público, o mesmo que ouvirá a sentença maldizendo a falta de prisão perpétua, de pena de morte, de trabalhos forçados, de mutilações e de que todo castigo é pouco para punir o demônio redivivo.

O Bruno pode merecer tudo e mais um pouco do que a ele se deseja. Mas também não custa lembrar que, ao menos até agora, (i) não temos um corpo, logo, ainda não há a certeza do homicídio [Nota do Editor: este texto foi escrito na quinta feira à noite]; (ii) o Bruno NÃO foi acusado de matar a ex-amante; (iii) nenhum depoimento o acusa claramente de ter mandado matar a moça; (iv) o depoimento do menor, até agora o principal indício, afirma que o Bruno não estava lá no momento da execução; (v) nem a ocultação de cadáver estaria configurada. Se ao invés da Denominação de Origem Controlada de fiel escudeiro do Bruno esse tal Macarrão fosse um “zé ninguém”, de duas, uma: ou algum envolvido rompia a omertá e confessava tudo ou a promotoria iria comer o pão que o diabo amassou para condená-lo. Mas como o patrão é famoso, é mais fácil deixar para lá essas formalidades chatas da rotina forense e brincar de 'Law & Order' no Jornal Nacional.

Outra coisa inacreditável é o papel do advogado que o abandonou na hora da prisão, movido por um surto ético tardio. Desde que o Bruno dera uns tabefes na desaparecida para inspirá-la a abortar, ficou claro que os interesses dele já não eram os mesmos do clube. E que se ele fosse condenado por qualquer coisa que o impedisse de atuar dignamente, o clube deveria dar tratos à bola até encontrar um meio de rescindir o vínculo. Quer dizer que só na hora que o calo aperta, a maré vira e o tsunami da raiva coletiva aparece o doutor se lembra que não dava para servir a dois senhores? Problema nenhum, basta renunciar ao cargo de Diretor Jurídico do clube e seguir apoiando o preso. Porque, ao deixar o Bruno sozinho na cova dos leões, o Dr. Assef Filho apenas reforçou a suspeita de culpabilidade do seu cliente e jogou mais gasolina na fogueira da inquisição.

O mais triste é que o advogado de defesa é, por excelência, o sujeito treinado para não se deixar contaminar pelas pressões externas, muito menos para julgar o comportamento de quem defende. O advogado existe para assegurar que cada cidadão que se veja processado possa ter uma defesa efetiva, isto é, dotada da técnica necessária ao correto enquadramento do caso.

Bruno, se é que já não disse isso antes, não merece um pingo da minha solidariedade ou confiança. Merece, aliás, vender seus carros de luxo e seus imóveis exuberantes para devolver o dinheiro que cada ex-fã empenhou comprando camisas com sua assinatura infantilóide digitalizada. Mas não é do Bruno que falo....falo da justiça, da democracia, da liberdade, dessas coisas que devem valer para todos e que às vezes a gente se esquece."

sábado, 10 de julho de 2010

História & Outros Assuntos: "Estórias do Arco da Velha, ou melhor, do Telles"


Sábado de manhã, lua minguante passando para nova e, em dia especial, a coluna "História & Outros Assuntos", do publicitário e historiador Fabrício Gomes.

O texto de hoje é sobre estórias fantásticas e sobrenaturais envolvendo o Arco do Telles, no Centro do Rio. E como o polvo Paul é o sobrenatural em destaque da semana, ele está aqui nos fazendo companhia. Boa leitura.

"ESTÓRIAS DO ARCO DA VELHA...

Uns vão fazer um Happy Hour após o trabalho. Outros vão tomar chopp/cerveja nos "botecos" espalhados por ali. E há também quem vá nas boates ali existentes. Mas talvez poucos conheçam a história do lugar... Hoje em dia abriga bares, ateliês e galerias de arte. Exclusivo para pedestres, manteve o charme e a delicadeza de outros tempos.

Com a construção da Casa do Governo pelo governador Gomes Freire no Largo do Paço (atual Praça VX), as redondezas se valorizaram e passaram a ser freqüentadas pela sociedade. Vendo isso, o português Antônio Telles Barreto de Menezes (juiz e proprietário de terras em Jacarepaguá e Baixada Fluminense) mandou construir uma carreira de casas de aluguel naquele logradouro, em 1743.

Quando a obra chegou à travessa do Mercado do Peixe, o engenheiro Alpoim (responsável pelo projeto) teve que traçar um amplo arco sobre ela, para que a via dos mercadores não ficasse obstruída pela nova construção. Vem daí o apelido de "Arco do Telles". Antigo endereço residencial da cantora Carmem Miranda e atualmente reduto da boemia carioca que trabalha no centro da cidade.

Os prédios foram todos alugados, ficando os térreos principalmente para os lojistas de secos e molhados; a casa maior, justamente a que ostentava o arco, foi ocupada pelo Senado da Câmara (equivalente hoje à Câmara dos Vereadores).

Mas o famoso Arco é capaz de abrir estórias tenebrosas e do “ARCO DA VELHA”...

O que pouca gente sabe (e quem sabe não comenta) é que o beco debaixo do arco esconde muitos dramas e alguns mistérios. Há quem o considere um lugar maldito e garanta que é mal assombrado. Dentre os diversos episódios estranhos que envolvem o lugar, existe um dos mais terríveis: a história de uma das primeiras feiticeiras do Rio de Janeiro, certamente a mais cruel. Todos os fatos aqui citados ocorreram e estão registrados em documentos antigos da polícia carioca.

Com a construção da Casa do Governo pelo governador Gomes Freire no Largo do Paço (atual Praça XV), as redondezas se valorizaram e passaram a ser freqüentadas pela alta sociedade. Vendo isso, o português Antônio Telles Barreto de Menezes (juiz e proprietário de terras em Jacarepaguá e Baixada Fluminense) mandou construir uma carreira de casas de aluguel naquele logradouro, em 1743.

Quando a obra chegou à travessa do Mercado do Peixe, o engenheiro Alpoim (responsável pelo projeto) teve que traçar um amplo arco sobre ela, para que a via dos mercadores não ficasse obstruída pela nova construção. Vem daí o apelido de "Arco do Telles". Os prédios foram todos alugados, ficando os térreos principalmente para os lojistas de secos e molhados; a casa maior, justamente a que ostentava o arco, foi ocupada pelo Senado da Câmara (equivalente hoje à Câmara dos Vereadores).

A má sina daquele local iria se revelar nessa época, mais exatamente em 20 de julho de 1790, na loja térrea próxima à rua Direita, onde existia uma loja de objetos usados denominada curiosamente de "O Caga Negócios". Um violento incêndio criminoso destruiu o prédio e deixou dezenas de feridos e dois mortos. O fogo atingiu o andar superior e consumiu o arquivo do Senado da Câmara, perdendo-se assim toda a documentação referente aos primórdios da cidade, inclusive os recibos e cobranças de foros (espécie de IPTU) e os registros gerais de imóveis.

A partir desta tragédia, aquela área perdeu o viço e caiu em decadência, transformando-se em abrigo da malandragem e ponto de baixo meretrício. Apesar de haver ali um oratório de Nossa Senhora dos Prazeres, a baixaria era tão grande que moradores das proximidades removeram a santa para a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, onde permanece ate hoje.

Foi nesse ambiente nefasto, em meio à escória da cidade, que Bárbara dos Prazeres certa noite apareceu, rompendo a penumbra do beco do Arco dos Telles. Começava ali uma história de pavor.
Após o incêndio do casario da Travessa do Mercado, em 1790, o lugar decaiu e tornou-se reduto de marginais e antro de prostituição do mais baixo nível. Dentre as mais famigeradas figuras do Arco do Telles nessa época, sobressaiu-se a prostituta e depois feiticeira Bárbara dos Prazeres. A maior parte dessas informações foram registradas pela Intendência Geral de Polícia, criada pelo Príncipe  Regente D.João, em 1809.

Nascida em Portugal no ano de 1770, tinha 18 anos de idade quando veio com o marido para o Brasil. No Rio de Janeiro, apaixonou-se por um mulato e assassinou o esposo para viver livremente com o amante. Consta que o homem, porém, passou a viver às custas da jovem e chegou a consumir a maior parte dos seus bens. Durante uma briga do casal, Bárbara o matou também.

Marcada pelos assassinatos e sem meios de subsistência, restou à bela jovem de 20 anos ganhar a vida se prostituindo. Fez seu ponto exatamente ali, debaixo do Arco do Telles, onde angariou vasta clientela. Por quase 20 anos, ela considerou ter encontrado a sua vocação e o seu lugar na sociedade.

Porém, o tempo e a vida desregrada cobraram o seu tributo. Começou a ficar velha e já não atraía tantos homens. Também as dores nos ossos a cada dia ficavam mais insuportáveis (provavelmente havia contraído sífilis). Temendo cair na miséria e na solidão, desesperada, ela procurou um remédio nas muitas casas de feitiçaria e magia negra do Rio de Janeiro, uma poção que aliviasse suas dores e a tornasse bonita e jovem outra vez.

Uns dizem que custou todo o dinheiro que ela tinha juntado, outros, que o preço foi sua alma; de concreto, o que se sabe é que alguém lhe passou uma fórmula que teria o efeito desejado. Os principais componentes eram certas ervas e sangue humano morno, mais precisamente, de crianças ainda vivas.

Foi quando começou a raptar meninos pobres, filhos de escravos e de mendigos, e também a ficar de tocaia na Roda dos Expostos da Santa Casa, onde eram abandonados os bebês para adoção. Não há números exatos, mas foram dezenas as vítimas que ela sacrificou no lúgubre ritual de rejuvenescimento. O pavor tomou conta da população do Rio de Janeiro, cujas crianças passaram a ser trancadas em casa e só saírem na companhia de adultos.

Essa personagem misteriosa, aparece nos registros do Intendente Geral de Polícia, desembargador Paulo Fernandes Vianna, como Bárbara dos Prazeres (por causa do oratório no Arco do Telles) e também como Bárbara "Onça" (referência à sua ferocidade). Parecem vir desse período as expressões: "cuidado que a bruxa está solta!" e "olha que a Onça está solta!".

Bárbara levava suas pequenas vítimas para a tapera em que morava, na Cidade Nova. Pendurava as crianças pelos pés com uma corda, as esfaqueava e postava-se embaixo delas para banhar-se no sangue que jorrava ainda quente dos corpos já sem vida.

Bárbara dos Prazeres talvez foi a criminosa mais procurada na cidade em todos os tempos. Consta que viveu até 1830, quando simplesmente desapareceu. Nesse ano, surgiu um cadáver de mulher boiando próximo ao Largo do Paço, mas suas feições estavam irreconhecíveis. Alguns afirmaram que era Bárbara, mas outros não a identificaram.

Há quem suspeite que ela continua viva até hoje, graças ao segredo da fórmula de rejuvenescimento. E mais: teria assumido a condição de feiticeira e aplicado a receita em alguns milionários, em troca de parte de suas fortunas.

Diz-se que ainda hoje, em certas madrugadas sem lua, quando já partiram os últimos garçons dos bares da Travessa do Comércio e cessou o movimento da boemia, escuta-se no beco a gargalhada de Bárbara Onça, a feiticeira, ecoando assustadoramente pelos vazios escuros do Arco do Telles."

Final de Semana - "Cocorocó"



Final de semana chegando, 2010 que não chega ao fim...

Nossa música para o final de semana é uma homenagem a três grandes nomes do samba, da música e da cultura popular brasileira: Paulo da Portela (1901-1949), Clementina de Jesus (1901-1987) e Roberto Ribeiro (1940-1996).

Sobre Paulo da Portela, autor da canção, escrevi um pouco no post sobre o aniversário portelense, em abril. Ele foi um dos principais responsáveis pela aceitação do samba pela sociedade carioca, trazendo da marginalização - que é totalmente diferente de marginalidade, é bom que fique claro - para a sua posição merecida de destaque no cenário cultural brasileiro.

Clementina de Jesus, uma das intérpretes da canção, foi descoberta aos 63 anos por Hermínio Bello de Carvalho, sendo nome indispensável àqueles que querem conhecer mais profundamente a cultura sambista carioca.

Roberto Ribeiro, intérprete de alto valor e puxador por muitos anos do Império Serrano, hoje infelizmente meio esquecido, é outro sambista de valor que temos de exaltar e lembrar.

A música, de autoria de Paulo da Portela e interpretada pelos cantores, é "Cocorocó", cuja letra coloco abaixo. Bom final de semana.

"Cocorocó, o galo já cantou
Levanta nêgo tá na hora de tu ir pro batedor
Ô nêga me deixa durmir mais um bocado
Não pode ser,
é visto que o senhorio tá danado com você
Ainda não pagaste a casa esse mês
Levanta nêgo que só faltam 10 prás 6

Íh nêga me deixa dormir, eu hoje me sinto cansado
O relógio da parede talvez esteja enganado
Nêga me deixa durmir, eu hoje me sinto doente
Deixa de fita malandro você não vem pro batente
E por isso que vocês morrem cedo
Mete os peitos na orgia, sem ter medo
Até em cima de uma cama pra morrer
Não aparece companheiro pra socorrer"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

30 Anos sem Vinícius de Moraes


Hoje, 09 de julho, completam-se exatos trinta anos de falecimento do grande diplomata, poeta e compositor Vinícius de Moraes, aos 67 anos.

Como uma pequena homenagem a um dos gênios de nossa cultura divido com os leitores três poemas, retirados de seu excelente site pessoal. Boa leitura.

Em nossa série "Final de Semana" há alguns exemplares do cancioneiro do poeta, como "Tarde em Itapoã", "Samba de Orly", "Eu Sei que Vou Te Amar" e "Samba da Bênção" - que o leitor pode ouvir clicando nos links.

Vida e poesia

A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.

Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.

(Rio de Janeiro, 1938)

Sacrifício

Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.
– Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.

Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.

Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.

No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.


(Rio de Janeiro, 1933)

Poema dos olhos da amada

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

(Rio de Janeiro, 1950)

Cinecasulofilia - "Mostra Olhar do Ceará - Parte II"


Mais uma sexta feira, e com esta mais uma edição de nossa coluna (quase) semanal sobre cinema, a Cinecasulofilia.

Como sempre publicada em parceria com o blog de mesmo nome, de autoria do professor de cinema, cineasta e crítico Marcelo Ikeda.

"Rochedo de Mim, de Bárbara Villaverde, também trabalha com bandas independentes de imagem e de som. O som, praticamente todo composto musicalmente, se estrutura a partir de pontuações ambíguas em relação à imagem, causando um desconforto ao espectador que espera por um som naturalista, fidedigno às fontes sonoras. No entanto, seu maior estranhamento ainda está por vir. Ele se dá no derradeiro plano do filme, um grande plano geral com câmera estática, que dura pouco mais de quatro minutos. Nele, Bárbara propõe um conjunto de significados. Em princípio, vemos uma velha fazenda, em que crianças brincam numa roda e servos e senhores percorrem a extensão do plano, subindo ou descendo escadas, andando pela grama que se estende frente à casa. De um lado, existe uma nostalgia, um recurso à memória, na poesia lúdica desse dia-a-dia da antiga fazenda. Mas, apesar de ser uma típica fazenda, são nítidas as marcas do tempo que nos distancia desse remoto tempo ao qual as coisas pertencem. Ou seja, vemos o ontem a partir de hoje, sempre. À distância, vemos escorrer pelo tempo do plano as marcas do abandono, as marcas da saudade de um tempo que não se viveu. Ou ainda, não se trata de um documentário: Bárbara reencena a poesia simples da fazenda com uma mise-en-scène nada trivial: é nítida a marcação de uma coreografia dos deslocamentos no interior do quadro, marcação que no fundo é uma doce, bela tentativa de fazer viver algo que já não mais existe, que se perdeu no tempo. Memória que por um lado é marcada por uma memória do próprio cinema brasileiro, especialmente o clima bucólico do cinema de Humberto Mauro. Rochedo de Mim é como o primeiro cinema, como se fosse um filme dos irmãos Lumière, como se chamasse “um dia na fazenda da família Villaverde”. Acontece que não se trata de mero registro, mas reencenação, tentativa de reviver, filme afetivo, filme de memória, filme-diário. Por isso, é como se, a partir de tudo isso, Bárbara dialogasse com o cinema contemporâneo, como se fizesse Tombée de nuit sur Shanghai, de Chantal Akerman. A diferença é que enquanto Chantal se surpreende com o fascínio e o excesso do mundo chinês, que ela não conhece, Bárbara suspirasse de saudade por um tempo que ela não viveu. Essa doce melancolia, essa ternura inesperada é que resumem a beleza desse enorme tour de force que é o plano final desse misterioso curta.

Já Morpheu, de André Moura, não está preocupado com o passado, mas, ao contrário, em viver o presente. Esse curta, ainda que irregular, surpreende por sua urgência, por sua necessidade de falar sem meios tons, sem sutilezas, sobre os desafios da vida e do mundo. O filme fala sobre um jovem que quer viver de forma intensa, livre e independente (em outros termos, que quer fazer a revolução) mas que ao mesmo tempo não consegue sair da casa de sua mãe (ou ainda, que nem tem a chave de casa). A forma como o diretor expõe os problemas desse jovem é muito frontal e direta. Ou ainda, desconcertantemente honesta. Todo esse impacto se multiplica pela intensa atuação de Jonnata Doll, músico, performer, ator, artista, que dá uma enorme vida a esse personagem. Uma verborragia que, por meio do seu excesso, sinaliza a vontade desse curta de se expressar, de dizer, mas sua incapacidade de de fato agir. Uma crítica ao mundo capitalista guiado pela mediocridade do trabalho como fim último da existência, mas uma dificuldade de encontrar saídas, de viver desse projeto de vida. É nesse limite entre a aventura do pensamento e o abismo da ação que Morpheu insere uma formidável autocrítica, num formato narrativo raro às produções locais. De outro lado, existem momentos de beleza, de espera, como os planos iniciais do filme, em que o protagonista se levanta, já depois do meio-dia, e vai se servir do almoço, sob os comentários irônicos de sua mãe. Morpheu foge de algumas armadilhas, e entre as cenas mais bonitas do curta, são as que o protagonista se relaciona com sua mãe. Em poucas palavras, em meios olhares, toda a dificuldade do contato, a reprovação e o afeto, se manifestam de forma simples mas intensa, numa estratégia de delicadeza um tanto atípica à energia radiante do curta. Mas que revelam que a busca do curta de André Moura vai além do mero tratamento de choque e das frases de efeito.

* * *

As sessões dos filmes locais, como a Mostra Olhar do Ceará, possui momentos como a exibição do curta As Coisas São Bonitas Nos Olhos De Quem Acha, de Juliana Chagas. Trata-se de um documentário sobre Dona Dica, que faz bonecas de pano, costuradas à mão, em Guaramiranga. O curta registra de maneira singela essa humilde e simpática senhora, que faz bonecas aparentemente feias mas que seduzem as pessoas pela simplicidade de sua beleza. O curta é singelo, embora muito precário, seja tecnicamente seja em sua proposta estética, baseada quase que exclusivamente em entrevistas que meramente valorizam a simpatia da entrevistada mas que não avança em nada além disso. Mas a questão aqui não é essa: a exibição de As Coisas São Bonitas foi sem dúvida o maior momento do Olhar do Ceará, por algo que vai além do curta, além de suas possíveis qualidades estéticas: a presença física de Dona Dica, que ao final da sessão recebeu aplausos e abraços carinhosos, e, visivelmente emocionada, retribuiu as gentilezas com um sorriso. Momento lúdico, de rara beleza, em que aqui a análise se curva à possibilidade de que um filme promova um abraço carinhoso, uma pequena homenagem a uma mulher simples que cultiva a vida e a fabricação de suas bonecas. Nenhum outro momento de cinema nessa mostra teve tamanha força e vitalidade. Ainda que esse momento escape diretamente à força do filme em si, mas é claro que surge em decorrência dele, a partir dele. Esse simples curta possibilitou um encontro, que despontou ali, naquele cinema, naquela sessão, num contato com o público. É belo por isso. Acredito que é pela possibilidade desses encontros que essa mostra precisa ser defendida."

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Caso Bruno - Uma reflexão mais profunda


Os meus 67 leitores já devem ter se acostumado a ver aqui no Ouro de Tolo sempre a tentativa de um ângulo diferente dos fatos. Às vezes com sucesso, outras muitas vezes, nem tanto. Mas o meu objetivo neste espaço é sempre a de buscar o que está por trás do que a apuração trivial nos aponta.

Não falarei aqui do aspecto criminal do "Caso Bruno". Ressalvo, apenas, que ele somente pode ser demitido pelo clube após a condenação definitiva, sob pena de um processo trabalhista extremamente dispendioso após uma eventual declaração de inocência ao término do processo. Minha convicção pessoal é de que ele não somente é responsável pelo sumiço da moça como premeditou tal ato.  Entretanto tecnicamente sem o corpo sequer podemos falar em assassinato, somente em sequestro.

Entretanto, quero chamar a atenção para algo que é uma das raízes do problema, com duas faces, e que não vem sendo observada: a falta de formação destes jovens que, de uma hora para outra, se tornam não somente homens ricos - ou com boa condição financeira - como celebridades instantâneas, acima do bem e do mal.

O meu amigo Affonso Romero, colunista deste espaço, costuma dar uma definição que parece meio preconceituosa, mas não é: "jogador de futebol é um 'peão' com dinheiro". Ou seja, são pessoas de formação intelectual - que é diferente de inteligência - parca, gostos popularescos, quase vulgares e pouca visão do mundo fora de seus limites estreitos.

Ressalto que a meu ver este tipo de comportamento vale tanto para aqueles garotos oriundos de classes sociais mais baixas quanto para os "filhos de escolinha", teoricamente de classe média ou média-baixa. Estes últimos largam os estudos bem cedo para dedicarem-se ao futebol e também, acabam se adequando ao arquétipo típico de um "boleiro". A própria família, em média, estimula que o adolescente largue os estudos para se dedicar ao futebol, porque a perspectiva de ganhos futuros se torna alta.

Ou seja, ainda mais nos dias de hoje onde os jovens são guindados aos times principais dos clubes com dezessete anos, às vezes menos, o fato de se começar a ganhar dinheiro ainda muito jovem e com uma formação deficiente tende a tornar os jovens bastante vulneráveis a "tentações". Ainda mais se o candidato a boleiro vier de uma família desestruturada, sem o pai ou sem a mãe, com conflitos familiares e sem formação religiosa.

Não é incomum ouvirmos que "a promessa se perdeu". Caiu na noite. Caiu na bebida ou em más companhias. Tornou-se perdulário. Como não tem a necessária formação familiar ou educacional acaba se deslumbrando. Cai de rendimento, perde o lugar no time muitas vezes e começa a perambular por times pequenos. Isso quando não comete outros erros.

Complicando o quadro temos outro tipo de problema: como já escrevi anteriormente, as ditas "celebridades" não somente adquiriram status de semi-deuses quanto passaram a personificar a idealização da vida comum das pessoas. Muitas vezes o cidadão comum vive a vida destas pessoas, especialmente consome a vida destas pessoas - que "gira" todo um mercado altamente lucrativo de entretenimento - e as tem como um espelho.

Do outro lado o espelho é a celebridade se sentir acima do bem e do mal. E embora não desculpe explica um pouco do "Caso Bruno". Certamente ele se inebriou de tal forma pela fama e pela idolatria que, confrontado a uma possível chantagem, julgou que poderia fazer o que fez sem ser responsabilizado. Isso além de ter características de psicopata, mas nem me aventurarei por esta seara por me faltar conhecimento.

Traduzindo, este lamentável e torpe episódio é reflexo de três fatores: às deficiências de formação dos meninos que se tornam jogadores, à transformação da vida das pessoas de destaque na sociedade em uma "mercado de consumo" e às próprias tendências psicopatas demonstradas pelo jogador.

Sem dúvida alguma os clubes brasileiros, em especial os maiores, precisam olhar com mais atenção a formação dos jovens em suas categorias de base. Não somente a formação esportiva quanto a formação para a vida.

O próprio Bruno é um retrato disso, pois foi abandonado pelos pais com dias de vida, criado pela avó em um município de alta criminalidade na Grande Belo Horizonte - uma espécie de "Complexo do Alemão" mineiro - e com formação tanto educacional quanto familiar claramente deficiente. Se mesmo para aqueles que se preparam para tal guinada em suas vidas - pois é - já é complicado, imagina um histórico destes ?

Aproveitando, queria ressaltar algo que como rubro-negro muito tem me incomodado: este velho preconceito manifestado por muitos dando conta que "flamengo é tudo bandido", que "a Gávea é uma fábrica de marginais", que "todo torcedor do Flamengo deveria ser preso" e coisas do gênero. É o tipo de generalização mentirosa que não leva a nada produtivo. Até porque um caso como estes poderia ter acontecido com um jogador de qualquer clube do Brasil, pelos fatores que elenco acima. Mas é muito chato ser chamado de "bandido" e "marginal" quando a gente luta para pagar as nossas contas e viver uma vida digna e honesta. Deixo registrado aqui o meu protesto.

Outrossim, não poderia deixar de registrar a excessiva permissividade da diretoria rubro-negra com condutas no mínimo inadequadas de seus atletas. É algo que ocorreu e neste intervalo para a Copa do Mundo Zico, nosso Diretor Executivo, empreendeu uma série de medidas a fim de colocar as coisas em seus devidos lugares. Teremos um time mais fraco em um primeiro momento, mas nos poupará o dissabor de ver a imagem do clube desgastada pela presença nas páginas policiais dos jornais e da televisão. Sem contar as mudanças que vem sendo executadas nas divisões de base rubro negras, que irão gerar frutos mais tarde.

Complementando, espero que a Olympikus faça algum tipo de "recall" nas camisas vendidas com o nome dele. Até porque nós consumidores não tínhamos a opção de comprar as camisas de goleiro sem nome ou com o seu próprio, somente com o do jogador em questão. Tanto que minhas camisas da Olk que não de goleiro possuem todas o meu nome nas costas da camisa, como se pode ver abaixo em um dos exemplares de 2009 que possuo. Aliás, minto: tenho uma Olk sem patrocínio utilizada em jogo no início deste ano com o nome do Adriano nas costas, mas esta não foi vendida em loja.


Como coleciono camisas de goleiro, tenho nada menos que sete camisas - nas quais, provisoriamente, coloquei esparadrapos sobre nome e assinatura para poder utilizá-las. Espero que mantendo a tradição de bom relacionamento com o consumidor a fornecedora rubro-negra possa engendrar algum tipo de solução.

No mais, só me resta lamentar os fatos e deixar para reflexão o excelente texto do jornalista Marco Aurélio Mello - publicado em seu excelente "DoLadoDeLá" - sobre os excessos da imprensa na cobertura do caso e dos próprios policiais encarregados:

"A cena era patética. O goleiro do Flamengo Bruno se entregava à polícia e era recebido na porta de uma delegacia por uma horda de jornalistas famintos por sangue. Foi insultado e por pouco não foi linchado pelo caminho. Só não foi porque estava escoltado por agentes da polícia. Oras, por que o goleiro foi recebido na porta e não de maneira mais discreta e civilizadamente? Porque, assim como nós jornalistas, os policiais também anseiam pelo espetáculo de exibicionismo cruel. Já sei, todos vão dizer que foi um crime bárbaro e que ele tem que pagar caro. E por essa razão, é preciso que o mandante seja tratado barbaramente também? Por que somos incapazes de respeitar a presunção de inocência, durante as investigações? E por que somos incapazes de cumprir a lei, que dá ao réu o direito de ampla defesa? Mas o que é pior, na minha opinião, é a nossa reação de admiração e espanto, mesmo sabendo que somos nós os responsáveis pelo circo da notícia, que eleva a temperatura social quase à ebulição. São amplas e infindáveis coberturas, repletas de detalhes macabros e circunstâncias horrendas. Ok, damos ao telespectador o que ele quer. Basta ver os índices de audiência. Será? Vou além. Este tipo de comoção revela o estágio de evolução da nossa sociedade. Somos todos um corpo só, que sofremos as dores, ora nos outros que estão na tela, ora em nós mesmos, em nosso silêncio e omissão."

A Vulnerabilidade da Urna Eletrônica - Parte IV


Encerrando a nossa série sobre a vulnerabilidade das urnas eletrônicas, o quarto texto. Como sempre, assinado pelo leitor, amigo e analista de sistemas Bruno Nascimento.

Os artigos anteriores podem ser lidos aqui.

Passemos ao texto:

Parte IV – Até onde a criatividade pode ir?

"No post anterior explicamos o básico do processo de desenvolvimento e teste de sistemas para colocar que, tendo acesso ao código-fonte, é possível perpetrar uma fraude desde que o processo não o identifique. Uma vez identificado o problema, ele seria corrigido e retestado. Mas testes podem não encontrar os erros. Mas a criatividade humana não tem limites...

Podemos considerar uma infinidade de outros pontos para imaginar formas de se fraudar. Mas o processo eleitoral deve detectar a maioria das situações. Mas não existe sistema 100% seguro, exatamente pelo que colocamos anteriormente de que os testes provam de que não foram encontrados erros, mas não que não há erros. Uma possibilidade seria mudar o código do banco de dados utilizado na totalização dos votos. Mas, da mesma forma que o Sistema Operacional, seria algo facilmente identificável. Com o agravante de que o banco de dados registra todas as alterações efetuadas internamente.

Para ver outras maneiras necessárias para melhorar o processo eleitoral foi gerado um documento por gente com muito mais conhecimento que eu no assunto. O Relatório sobre o Sistema de Votação Eletrônica do Comitê Multidisciplinar Independente pode ser lido em http://www.brunazo.eng.br/voto-e/textos/RelatorioCMind.pdf. Recomendo. É leitura extensa, mas extremamente esclarecedora sobre as necessidades de melhoria de nosso processo de votação.

A criatividade pode imaginar diversas idéias de falhas a se aproveitar. Uma delas seria a ressurreição do “voto de cabresto”. Para isto, basta verificar a listagem dos votantes determinando o horário em que estes efetuaram a votação com os votos registrados. Mas o voto não é secreto? É. O processo não garante que o voto seja secreto? Garante. Mas como dito antes, o banco de dados registra todas as operações efetuadas neste. Com data e hora precisas de modo a se reconstruir as operações que o banco tenha feito em caso de problemas,  alguém que tenha conhecimento profundo de banco de dados pode determinar a ordem das operações de autorização de voto na urna e a ordem de votos e cruzando estas informações descobrir quem votou em quem. Pode não ser fraude, mas é quebra de sigilo que permite a manipulação de votos.

Outra maneira é que, como ainda não temos a biometria (programas que transformam características corporais como as digitais, a íris dos olhos em códigos numéricos) instalada em todas as urnas, é possível que uma pessoa vote por outra. Por isto, nesta eleição está se exigindo além do título de eleitor um documento com foto. Ainda assim, se tivermos todos os mesários coniventes de uma seção, estes podem inseminar a urna com votos de pessoas que, sabidamente, não estariam presentes... Mas concordamos que este tipo de fraude exige preparação maior, um esquema previamente planejado. Só não podemos dizer que é impossível.

O TSE para demonstrar a segurança de seu processo de identificação de fraudes, abriu para algumas equipes a possibilidade de testar a segurança do processo de detecção de fraudes da urna eletrônica. Dentre estes, houve um que ganhou prêmio do TSE por mostrar que ao utilizar um rádio muito próximo da urna eletrônica, as teclas provocam uma interferência, passível de identificação individual, detectando, portanto, em quem a pessoa votou. Para ver o resultado do teste veja o texto http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2009/11/20/perito-quebra-sigilo-eleitoral-e-descobre-voto-de-eleitores-na-urna-eletronica/.  

O autor do teste praticado no TSE, em resposta, divulgou carta para o site que publicou a reportagem indicando “que a quebra do sigilo do voto seria impraticável nestas condições porque a proximidade tornaria o receptor de rádio visível ao eleitor e aos mesários”. E se alguém quiser que uma fraude seja detectada, com o objetivo de anular os votos de determinada seção onde um candidato seria o vencedor para que este tenha menos votos? Pois é, nada é impossível.

A única coisa que devemos evitar é a postura do HAL do filme de Stanley Kubrick, 2001 – uma Odisséia no Espaço. Uma vez descoberto que havia cometido um erro, ele “confundiu” seu propósito original (proteger a missão) com o secundário (não cometer erros) e decidiu eliminar aqueles que poderiam provar que o erro ocorreu. Erros existem, mas é importante que possamos saber onde possam ocorrer para melhorar o processo e evitá-los. A evolução é necessária e auditoria para a segurança do processo de votação também."