sexta-feira, 30 de julho de 2010

Preços Relativos e suas distorções


Eu estava precisando comprar um terno azul marinho para usar em minhas dedicações na Messiânica, e acabei adquirindo um ontem aqui mesmo no Centro.

Pois é. Comprei o terno (blazer mais calça) e ainda uma camisa social, de bom corte e boa qualidade, pagando R$ 220. Poderia ter gasto menos se fosse ao Shopping Nova América, que é o melhor lugar do Rio de Janeiro para se comprar roupa social. Entretanto, ando com o tempo curto e meio sem paciência para me deslocar pela cidade em dia de semana.

Aí me lembro que paguei R$ 209 em minha camisa da seleção argentina. Uma camisa, com talvez um décimo da quantidade de tecido utilizado no terno, custando praticamente o mesmo valor. Lógico que o leitor pode afirmar que a camisa é igual à de jogo, que há alta tecnologia envolvida, mas sinceramente é sinal de algum tipo de distorção nos preços relativos.

Obviamente, quando se adquire uma camisa de um clube ou de uma seleção também se adquire o direito de usar aquelas cores, o percentual que reverte à instituição, etc e tal. Entretanto, eu não consigo conceber que uma camisa destas custe mais do que R$ 60 em seu custo de produção. E olha que para o caso de roupas produzidas na China e no Sudeste Asiático - o que não é o caso - estas são produzidas com trabalho praticamente escravo - abordei o tema na resenha de "A História Secreta do Capitalismo Americano".

A conclusão a que chegamos é que, na prática, acabamos pagando por um "valor de marca" intangível representada pelas fabricantes de artigos esportivos. Isso pode ser verificado pelo caso de que a Nike, fornecedora oficial do Flamengo anteriormente, não fazia a menor questão de vender camisas. Para ela patrocinar o clube mais popular do Brasil era um ganho de imagem significativo, mas a receita marginal de uma camisa vendida a mais não a interessava.

Isso pode ser medido pelo fato de que a linha colocada à venda se resumia às duas camisas oficiais, uma de treino, uma de passeio e, no máximo, uma de goleiro. Outros materiais, quando vendidos, eram "sobra" do que era destinado ao clube. E fora do Rio e de mais duas ou três cidades era quase impossível achar os artigos, o que impulsionava o consumo de produtos piratas. Até aqui houve uma época em que os artigos escassearam.

Outra medida é o verdadeiro boom de vendas experimentado pela Olympikus, atual patrocinadora. Um milhão e meio de camisas vendidas em treze meses. Ao contrário da Nike vender camisas está no "core business" da empresa, que soube explorar uma demanda fortemente reprimida pelos produtos. Entretanto, uma vez mais a camisa em termos de tecido e custos físicos não vale os R$ 169 pedidos, sem personalização de nome e número. Vale pelo orgulho de ser rubro negro.

Isto demonstra uma distorção clara nos preços relativos, engendrada por valores agregados por marcas e por preferências do consumidor. A demanda por este ou aquele produto afeta a relação de preços da Economia, que denota o valor que uma sociedade confere a cada bem ou serviço ofertado. Esta relação de preços é chamada de "preço relativo".

Alterações nos preços relativos de uma Economia são sempre lentas e refletem alterações de preferências do indivíduo impactando a demanda. Outra possibilidade é a eventual escassez de um determinado produto que faça o seu preço subir - seria uma espécie de "inflação localizada". A terceira possibilidade é um processo hiperinflacionário, mas neste caso os preços relativos alteram-se bruscamente como reflexo do descontrole econômico. Em condições normais são mantodos estáveis no curto prazo e se movimentam lentamente.

Como complemento, "preço nominal" é o valor do bem ou serviço medido na moeda de troca - no nosso caso, em reais. Apesar de boa parte da sociedade considerar o dinheiro um fim em si mesmo, ele não passa de um facilitador das trocas, servindo como uma espécie de "tradutor simultâneo" das relações de preços expressas pelos preços relativos. É mais fácil escrever que uma camisa do Flamengo custa R$ 169 e um terno R$ 160 do que dizer que uma camisa do Flamengo vale 1,05625 terno - até porque a demanda e o desejo do consumidor por um determinado produto é muito difícil de ser medida sem uma unidade padronizadora. Este é o papel da moeda.

E sim, leitor, você pode me xingar por um arremedo de aula de Economia em plena sexta feira...


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Rio, azul (meio turvo) da cor do mar


Eis que, ao contrário do que anunciei aqui, a Portela, a minha Portela trocou o enredo que irá apresentar no carnaval de 2011: "Rio, Azul da Cor do Mar".

O Presidente Nilo Figueiredo, no cargo desde meados de 2004 após um processo eleitoral tumultuadíssimo - com direito a dois pleitos, carteiras falsas e "otras cositas más" - em sua administração fez com que a escola evoluísse em diversos aspectos. Hoje a bateria é a melhor da cidade (atual Estandarte de Ouro), bem diferente do caos que era em 2004, quando desfilei tocando chocalho. Temos um puxador decente e que não é compadre do presidente, como anteriormente. nosso casal de mestre sala e porta bandeira é um dos melhores do carnaval, se não o melhor. Há incentivo a novos profisisonais e a idéias e a escola, hoje, tem uma vida que transcende os 82 minutos de desfile.

Contudo, há pontos em que a direção da escola deixa muito a desejar, como já havia escrito anteriormente. Um deles é a escolha do enredo, que vem sendo baseada, sempre, em temas que permitam patrocínios milionários. Entretanto, apesar de a escola hoje vestir aproximadamente 2.500 pessoas entre alas de comunidade e outras como baianas e bateria a parte plástica, em especial as alegorias, deixam muito a desejar.

Uma escola de samba hoje recebe de verba entre subvenções estadual e municipal, direito de arena da televisão, ingressos e venda de Cds aproximadamente R$ 4 milhões. Minha estimativa é de que o desfile da escola em 2010, péssimo desfile por sinal, não tenha gasto mais que R$ 2 milhões, talvez uns 2,5 milhões levando-se em conta as despesas correntes - salários, manutenção e que tal.

Ou seja: uma tremenda incoerência, para se dizer o mínimo, com o discurso oficial da escola de que "é impossível se fazer carnaval sem patrocínio". Quem leu os artigos do jornalista especializado em carnaval Aloy Jupiara que transcrevi aqui vai entender um pouco o que ocorre.

Outro problema é que, mesmo com os patrocínios, a escola é sempre a última a iniciar seus preparativos. Eu me recordo que em 2007 a três semanas do carnaval os carros eram apenas chassis. Saiu o carnaval ? Saiu. Mas alegorias mal acabadas devido à pressa e que deixaram vários pontos na apuração. Este ano o carro que vinha á frente da ala em que desfilei foi "finalizado" com a escola já desfilando.

Mais uma problemática, solucionada este ano, é a qualidade dos carnavalescos da escola. Por pagar salários abaixo do mercado a escola acaba atraindo carnavalescos inexperientes ou que não são considerados do primeiro time de artistas. O ex-rei Momo Alex de Oliveira, "carnavalesco" de 2010, é um exemplo.

Ele tinha feito apenas a Unidos do Jacarezinho em 2009 - com alegorias e fantasias ruins e mal acabadas, a propósito - e não satisfeito em arruinar o desfile da águia em 2010 ainda rebaixou a mesma Unidos de Jacarezinho. Para completar, ainda rebaixou para o Grupo de Acesso a Tradição de Bangu no carnaval virtual. Três fracassos retumbantes no mesmo ano e que deixaram claro que o ex-soberano da folia, decididamente, não é do ramo.

Ele é reflexo da busca por pretensas revelações que sejam mais baratas e permitam à escola estabelecer uma (duvidosa) economia. O típico caso onde o barato sai caro. Outro ponto é que o ambiente de trabalho da escola é extremamente "estressante" e isto afasta os profissionais mais talentosos - já ouvi de um destes que "com esta diretoria, não trabalho na Portela".

Talvez por causa do fiasco de 2010, e em especial das eleições que se aproximavam para maio, foi contratado o carnavalesco Roberto Szaniecki (abaixo), polonês, com longa estrada no carnaval e em especial um figurinista de grande talento. Ele estava fora do mercado devido à fama de nunca terminar os carnavais que inicia, e provavelmente deve ter vindo por um salário abaixo de seu talento. Apesar deste defeito, sem dúvida alguma é um grande salto de qualidade na plástica da escola, nem que seja na beleza das fantasias - até porque ser pior que 2010 é virtualmente impossível. Entretanto acredito que será o melhor ano da escola neste quesito desde que a atual diretoria assumiu o mandato.


Por falar em mandato, eu acabei não indo votar, mas nem adiantaria: o pleito se resumiu a assinar a lista de presença, não havendo cédulas para voto em branco ou nulo. Ainda lembro que o Estatuto foi alterado para que o Presidente pudesse se candidatar a um terceiro mandato: entretanto, eu estou até hoje esperando a convocação para a Assembléia de Sócios que deliberaria sobre tal questão. Sinceramente, não sei qual foi o estratagema utilizado para tal.

Voltando ao enredo 2011, o sonhado "Portela dos Grandes Carnavais" foi descartado sob a alegação de que não tinha patrocínio e que "sem patrocínio não se faz carnaval" - que, como vimos no alto, é uma falácia. Com exceção de 2009 - não por acaso, a melhor classificação da escola desde 1995 - a escola vem mantendo uma linha de enredos politicamente corretos e de exaltação às diferentes esferas de governo.

Foi escolhido um enredo que celebra a relação do homem com o mar, enaltecendo as grandes navegações, o Centenário do Porto do Rio e o pré-sal, entre outras questões. Ainda não tem patrocínio mas foi concebido de forma a buscar posteriormente o aporte de recursos. Entretanto, será uma grande ironia se tais não aparecerem...

Transcrevo abaixo parte da sinopse, retirada do excelente site PortelaWeb - também fonte das fotos que ilustram este post e do qual, ainda que meio inativo, faço parte da equipe. Vale a pena conferir lá o áudio da explanação sobre o enredo feita pelo carnavalesco.

Minha avaliação é de que não é um enredo ruim - ainda mais se comparado a 2010 - e que vai permitir um desfile razoável à escola, ainda que com um desenvolvimento bastante batido - e se houver investimento, claro. Por outro lado existe a possibilidade de um bom samba, até porque foi pedido que se mudasse a linha dos sambas atuais da escola, "funcionais", mas frios. A Ala de Compositores portelense é a melhor do Rio de Janeiro e deve sair uma grande composição do concurso, o qual estarei proximamente dando notícias aos leitores.

Havia considerado seriamente a possibilidade de não desfilar pela escola, ainda mais depois da troca do enredo, mas sei que meu coração não vai resistir...

"RIO, AZUL DA COR DO MAR

Sinopse

Porto de Sapucahy , verão de 2011


Soltem as amarras e deixem as velas enfunarem ao sabor do vento. Vejam o cais se distanciar e, com ele, as lembranças que ficaram. Na bagagem, trazemos sonhos e esperança. Nossos olhos já não conseguem divisar o que é  mar, o que é céu, e tentam traçar uma linha de equilíbrio no horizonte. Singramos no azul!

Subamos à gávea para conversar com as estrelas, companheiras de saudades e solidão. Ora, direis, ouvir estrelas… Por que não?

Estrelas são quase tudo o que temos. Além delas, trazemos instrumentos que nos ajudarão a decifrá-las. Elas se espalham pelo céu formando desenhos e um deles nos chama a atenção. É uma águia! Sim, uma águia em forma de constelação. E será esta que escolheremos para nos guiar pela imensidão.

Dizem que o destino está traçado nas estrelas. Ensinam que precisaremos de muita coragem para enfrentar os perigos e, sobretudo, determinação. E, com fé em Deus, navegaremos pelos sete mares que abrirão os portais do coração.

No Reino de Poseidon, tempestade e bonança

Estamos a muitas braças do continente, nessa noite tenebrosa. A fúria do vento força a resistência dos cabos que sustentam o mastro principal. O tecido das velas parece que não conseguirá resistir. Ondas se agigantam, cobrindo o casco. Raios, relâmpagos e trovões abrem fendas no firmamento.

Começamos a enfrentar o desafio do desconhecido. E, sem que tenhamos tempo de raciocinar, nos deparamos com o medo escondido em nossos porões.

Das profundezas surgem criaturas fantásticas! São polvos, serpentes e dragões abrindo uma estrada na espuma, levando-nos por um turbilhão sem fim.

Ao abrirmos os olhos, porém, tudo se transforma. Cavalos marinhos conduzidos por guerreiros  transportam o cortejo de reis e rainhas que governavam a crença de civilizações que desapareceram no mar abissal.

O que tenta nos dizer a tempestade, afinal? 

Respeitar o que é do mar, mas nunca temer. Acima de toda maldade, o bem sempre há de vencer.

Mare Nostrum, sob a luz de Alexandria

Estas galés que cruzam o nosso caminho transportam toras de cedro, tapetes, tecidos, cerâmicas, corantes, jóias, peças de metal e outros produtos que as mãos do homem foram capazes de moldar.

Do Oriente partem gigantescas embarcações. São os chineses oferecendo novas trocas, ampliando suas rotas, construindo relações.

São mercadorias que remontam aos tempos dos primeiros navegantes, que se lançaram ao mar. Para trocá-las em outros portos, fenícios e egípcios não imaginavam que também deixariam vestígios de sua cultura milenar.

Gregos e romanos inauguraram um tempo de conquistas, ampliando as frentes de comércio e os limites de seus territórios.

Da distante Alexandria, brilha uma chama, transformando a noite em dia.

A caminho de Calicut

Debruçados sobre mapas, lendas e antigos relatos tentamos encontrar o caminho que nos levará às misteriosas terras das especiarias. É para lá que apontam nossos olhos, mergulhados em fascínio.

Para proteger este comércio, mercadores árabes semearam lendas de monstros e gigantes que devoravam quem ousasse cruzar os seus domínios.

Tudo mentira. O pesadelo agora é um sonho. As águas ganham novos matizes e como atrizes representam cada uma de nossas expectativas: cravo, canela, açafrão, flor de lótus e também porcelanas, tapetes, sedas e joias que não se cansam de brilhar.

As mais variadas fragrâncias se misturam no ar. Conseguimos, estamos em Calicut! Mas não devemos nos demorar.

Atlântico, em direção ao Pacífico

O Velho Mundo despertou para um novo século sabendo que não estava mais só. Por trás do horizonte, entre o nascente e o poente, existiam outras terras e riquezas a se alcançar.

Eram terras primitivas, que ficavam muito além da calmaria e daqui podemos vê-las. Ao dia, parece uma deslumbrante miragem, ocupada por nativos, adornadas pelas praias e a plumagem dos pássaros mais bonitos que já se viu. Eis a visão do paraiso tropical.

São tantas terras que nossos olhos se perdem ao tentar abraçá-las. Elas se escondem sob florestas, percorrem montanhas e flutuam nas nuvens, onde guardam segredos e mistérios de antigos impérios, que se curvavam diante do Sol.

Quantas riquezas brotam de suas nascentes! Ouro, prata, pedras preciosas e uma madeira estranha, que tinge de sangue o tecido mais nobre. Dizem que o futuro a perpetuará na força de um gigante chamado Brasil.

Mare Liberum, numa ilha do Caribe
Quantas estradas se abrem neste azul sem fim! O Atlântico é cortado em todas as direções. Embarcações de diversas bandeiras transportam cana-de-açúcar, café, tabaco e algodão.

Já não existem fronteiras para o comércio, nem medidas para a ambição. Outras galés rumam para a África, inaugurando a rota do tráfico negreiro. Trazem milhões de escravos, despejando-os em solo americano. Aceleram a produção, deixando uma dor que não se apaga e uma chaga que ainda marca o sentimento humano.

Negros vão, corsários vem. O mar já não pertence nem à Armada do Rei. Agora, é terra de ninguém.

Brasil, entre riquezas e belezas

Abençoada natureza, que sempre encantará os olhos de quem veleja no aconchego dessa Baía.  A mesma brisa que traz lembranças do passado, sopra na direção do futuro, ensinando que o mar foi, é e será a principal via de comunicação entre os povos mais distantes.

Salve, Porto centenário, e esse intenso vai-e-vem do comércio exterior. Foi aqui que começaram e depois se intensificaram nossas relações com o estrangeiro.

Esse marulhar fustiga a todo instante, recordando investidas e o leva-e-traz . As ondas não se cansam de contar todos os tesouros que ficaram para trás; mas ainda guardam nas profundezas a mais preciosa das riquezas, que, por muito tempo, nos impulsionará.

Rio de Janeiro, ponto de encontro de brasileiros de Norte a Sul, de Leste a Oeste; que recebe de braços abertos o jangadeiro e outros irmãos do Nordeste.  Rio das praias, das raias, cruzeiros, pescadores da noite e da vida marinha. Terra de São Sebastião, paraíso dos golfinhos.

Porto dos Amores, Fonte da Inspiração


Aqui da proa, quando olhamos para trás, não conseguimos dar conta do tempo que passou. Orientados pelas estrelas, desafiamos tempestades, enfrentamos inimigos e aprendemos que navegar é preciso – mas na mesma direção!

Foi assim que descobrimos novos continentes, inauguramos a rota do Oriente e encontramos em pleno mar a Fonte da Inspiração.

Traduzimos os sentimentos em música, transportamos a emoção para a ópera e o teatro, recriamos aventuras em romances, no cinema eternizamos sagas e amores em paginas de clássicos memoráveis. Quando pintamos uma marina, tentando retratar a fascinação que existe em tanto mar, deixamos o azul brincar na tela.

Descobrimos que o mar não é apenas um tema: ele tem início, meio e fim, é um enredo. E toda essa experiência começou quando vencemos o medo, desfraldando as velas no Carnaval.

Pois, o amor é azul.
O céu é azul.
O mar é azul.
E entre eles, navega a nossa querida Portela!"

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Uma Nova Esperança contra a Aids"


Mais uma quarta feira e mais uma coluna "Formaturas, Batizados & Afins", como sempre escrita pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas. O tema de hoje são as pesquisas envolvendo uma futura vacina para o vírus da Aids.

NOVA ESPERANÇA CONTRA A AIDS

Desde os primórdios da civilização humana, grandes ciclos de pandemias vitimaram milhões e milhões de vidas. A peste, a gripe espanhola, varíola e tantas outras doenças que surgiram e se espalharam por diferentes regiões do mundo. No final dos anos 70, mais uma vez, a civilização se vê frente a mais uma destas terríveis ameaças. Uma doença até então desconhecida, mas muito letal que tinha um nome complexo, mas que abreviado se tornaria sinônimo de medo, preconceito e por que não, esperança: a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – SIDA...ou AIDS.

Um breve histórico

Foi no ano de 1977 que começaram a ser notificados os primeiros casos de pessoas acometidas pela AIDS. E a partir daí, o número de casos só aumentou. Os primeiros relatos aconteceram no Haiti, EUA e países da África Central. Primeiramente chamada de “Doença dos 5 H” (em referência aos Homosexuais, Haitianos, Hemofílicos, Heroinômanos – usuários de heroína injetável, e Hookers – prostitutas em inglês), em 1982, foi definida a sigla AIDS para identificar esta nova doença. Foi também em 1982 que os pesquisadores descobriram que havia uma correlação entre o contágio da doença e o contacto com sangue ou fluidos de pacientes com AIDS; e ainda neste ano foi diagnosticado o primeiro paciente com AIDS no Brasil (em São Paulo).

A partir daí o que se vê é o surgimento de um preconceito enorme contra os aidéticos e a criação do termo “grupos de risco”, para tipificar graus de probabilidade de uma pessoa vir a se contaminar por esta nova doença. Assim estes grupos de risco subdividiam homossexuais, usuários de drogas, pacientes que necessitavam transfusão sanguínea ou que haviam se submetido à transfusão, e apontavam estes com maior probabilidade de contágio. Pertencer a mais de um dos grupos de risco potencializava a chance de vir a se tornar aidético.

Neste período inicial da descoberta desta nova doença, muitos grupos de pesquisa passaram a se dedicar a este tema, enquanto surgiam notícias fantasiosas sobre a origem da AIDS. Talvez a mais conhecida é a versão de que a AIDS era uma doença de macacos e que teria sido passada para seres humanos após relações sexuais inter-espécies, ou seja, em algum momento um praticante de zoofilia teria se infectado com o agente causador da AIDS e iniciado a transmissão entre os seres humanos, o que posteriormente foi desmentido e comprovado cientificamente ser falso. Também se falou de algum agente patogênico que teria vindo do espaço, uma vez que até este momento não se sabia o que provocava a AIDS.

Foi então que em 1984, no Institute Pasteur em Paris, o grupo de pesquisadores liderados pelo Dr. Luc Montagner, isolou e identificou um retrovírus que seria o agente causador da AIDS. Neste mesmo tempo, outro grupo de pesquisadores liderados pelo Dr. Robert Gallo, nos EUA, também apresentou descobertas importantes sobre a forma de contágio e até ciclo de replicação do vírus da AIDS, o que sem dúvida alavancou pesquisas em todo o mundo para buscar não apenas o tratamento, mas a prevenção desta terrível doença.

Em síntese, o vírus da AIDS, o HIV, infecta células do sistema imunológico da pessoa e faz com que este sistema que é a nossa frente de batalha contra agentes infecciosos, pare de funcionar corretamente. Com isso, uma simples gripe que em situações normais duraria menos de 48 h até ser debelada pelo organismo sadio, passa a ser um perigo de vida para um paciente com AIDS. Um mero corte num dedo, poderia desencadear um processo infeccioso grave e de novo, levar a infecção generalizada e morte. Infecções respiratórias facilmente controladas em pessoas sadias, tornaram-se talvez a maior causa dos contaminados pelo HIV. Chegou a se dizer que ninguém morria de AIDS e sim em consequência das chamadas infecções oportunistas que se instalavam naquele organismo com o sistema imune debilitado.

Multiplicavam os casos de pessoas infectadas e nas listas de doentes, nomes de pessoas muito famosas, no Brasil e no exterior. Gênios de nossa música como Cazuza e Renato Russo foram vítimas da AIDS, assim como outros nomes de famosos como Henfil (cartunista), Betinho (sociólogo), Sandra Bréa e Lauro Corona (atores), Rudolf Nureiev (bailarino russo), Freddie Mercury (cantor) e etc. Vitímas de um período onde ter o diagnóstico de AIDS, ou ser soropositivo, era praticamente uma sentença de morte pela falta total de tratamento até aquele momento. Outros nomes importantes como do grande astro do Basketball Norte Americano, Magic Jonhson, não veio a morrer de AIDS, e ao contrário, se tornou um embaixador na luta contra o preconceito e contra a desinformação acerca do assunto, ajudando inclusive a conseguir recursos para pesquisas que tinham a cura da AIDS como tema central.

Em 1987, começou-se a utilizar uma droga que havia sido projetada para terapia anti-câncer, mas que em laboratório se mostrava muito promissora contra a AIDS: o AZT. Esta droga deu início a uma revolução de fármacos que começaram a mostrar grande eficiência contra a progressão da doença. Ou seja, embora não significassem uma cura, eles impediam a progressão até o estágio final, a morte. Assim, ano a ano o número de mortes por AIDS foi caindo, e hoje é praticamente zero considerando-se o paciente que é assistido pelas unidades de saúde.

Durante estes mais de 20 anos desde o primeiro relato de AIDS, além da busca por um medicamento eficaz na cura muitos esforços foram feitos para estabelecer uma cultura de prevenção da doença. Campanhas pelo uso da camisinha (sexo seguro), cuidados com compartilhamento de seringas entre usuários de drogas, além de desenvolvimento de kits de diagnóstico para exame de sangue fizeram e fazem parte do repertório de medidas das autoridades para frear a progressão dos casos de AIDS. Estes esforços têm surtido efeito em muitas regiões do mundo; porém em outras, como a África, o número de pessoas infectadas ainda é enorme - chegando a mais de 60% da população de alguns países - o que se pode considerar extremamente grave.

Mais detalhes sobre a história da descoberta da AIDS e de ações contra esta doença podem ser facilmente conseguidos em sites como este que deixo aqui para os mais interessados.


A nova esperança contra a AIDS

Mais de 25 anos depois da identificação do vírus HIV, responsável por quase 30 milhões de mortes no mundo, a busca por uma vacina contra a infecção continua infrutífera, apesar dos grandes esforços da comunidade internacional e dos recursos empregados.

Dentre tantas pesquisas em curso no mundo inteiro, incluindo aqui no Brasil, chamou a atenção da comunidade científica internacional uma publicação da revista Science no início do mês de julho. Cientistas descobriram dois poderosos anticorpos (VRCO1 e VRCO2) capazes de bloquear, em laboratório, mais de 90% dos tipos conhecidos de vírus HIV, abrindo potencialmente o caminho para o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra a AIDS. Os anticorpos são moléculas produzidas pelo nosso organismo quando este se encontra “invadido” por algum agente externo. Células do sistema imune identificam este agente externo, através de padrões de sua superfície, normalmente representados por proteínas da superfície destes agentes infecciosos, que podem ser protozoários, fungos, bactérias e no caso da AIDS, vírus.

O grupo de pesquisa identificou no sangue de pacientes diagnosticados com AIDS, grandes quantidades dos anticorpos VRCO1 e 2, e imaginaram que a presença destes anticorpos antes da chegada do HIV seria eficiente em impedir a infecção e conseqüentemente a transmissão da AIDS. Ensaios in vitro com células em cultura e vírus isolado mostraram que o tratamento das culturas de células com os anticorpos preveniu em mais de 90% os índices de infecção, o que realmente transmite muita esperança para que, o desenvolvimento deste racional de obtenção dos anticorpos e de seu mecanismo de ação possa vir a se tornar uma vacina efetiva contra a AIDS em médio prazo.

Este achado é particularmente significativo pois uma das maiores dificuldades em se conseguir um destes componentes da superfície do vírus que sirva de estímulo para o sistema imune no desenvolvimento de uma vacina é que o vírus apresenta uma alta taxa de mutação, que faz com que sua superfície seja praticamente toda modificada; o que impede a ação dos anticorpos previamente produzidos pelo organismo ou mesmo utilizados em testes de vacinas, que já não passam mais a reconhecer o vírus mutado. Assim, com a identificação destes dois antígenos de superfície do vírus que se mantém constantes mesmo após mutação dos vírus aumenta muito a esperança de que se chegue finalmente ao desenvolvimento de uma vacina eficaz.

Apesar de todo avanço na pesquisa contra o HIV e a AIDS, não se deve relaxar com o tema prevenção. Nada de sexo sem camisinha, ainda mais com parceiros casuais, nem deixar de ter cuidado com seringas e agulhas que devem ser descartáveis e mesmo materiais cirúrgicos ou de estética (alicates de unha, por exemplo) que precisam ser esterilizados antes do uso.

Com a AIDS não se brinca!
   
Até a próxima,
Marcelo Einicker Lamas"

terça-feira, 27 de julho de 2010

Football Manager


Com a troca de computador, pude voltar a jogar aquele que é o meu preferido jogo para PC: o Football Manager, antigo Championship Manager. Não sou muito de jogar no micro, embora tenha jogado muito os antigos GP2, 3 e 4, sobre Fórmula 1. Mas jogo o Championship Manager desde a versão 2, lá por 98, 99.

A mecânica do jogo é simples: você é o técnico de uma equipe - ou seleção - de futebol, tendo de administrar todos os assuntos pertinentes: táticas, contratações, finanças, escalações, o jogo propriamente dito e que tais. É a sua chance de se tornar um Felipão, um Luxemburgo ou, em caso de fracasso, um Rogério Lourenço. Na verdade o conceito do jogo está mais próximo do "manager" europeu que do técnico brasileiro, que possui funções mais restritas.

A cada edição do jogo novas funcionalidade são adicionadas. O destaque na versão atual, o "Football Manager 10", é a visualização em 3D da partida, que não é tão real quanto a jogos tipo "Fifa Soccer" mas é mais leve e divertida. Você pode escolher vários tipos de visualização da partida como se estivesse no estádio ou no controle da ilha de edição da transmissão televisiva. Também estão bem aprimorados o controle tático, de comportamento da torcida e de transferências, bem como a confiança do clube em seu trabalho foi aprimorada. Outro aspecto interessante é a possibilidade de instruções à equipe "da beira do campo", o que aumentou bastante o dinamismo.

Mas, retomando o início do texto, a versão 1 é de aproximadamente 1998/99, embora não tenha chegado a jogá-la. Mas joguei o Championship Manager 2 e a sua versão posterior, a 02/03 (foto abaixo). Não havia a visualização das partidas - os jogos eram narrados em texto - e ainda não havia a opção de jogar com times brasileiros, nem com seleções. Só que o jogo era bem mais leve, eram vinte e sete disquetes para instalá-lo. A inteligência artificial ainda era bastante rudimentar.


Depois veio o Championship Manager 3, onde já se podia jogar a liga brasileira. O curioso é que o Maracanã só era utilizado na final da Copa do Brasil, e os clubes cariocas jogavam em seus estádios - o Flamengo na Gávea e o Botafogo em Marechal Hermes, para 2.500 pessoas, por exemplo. Outra grande inovação foi a melhoria do sistema de treinos e da interação com o jogador. Sua continuação foi o 03/04, com diversos ajustes - e onde eu cheguei a levar um jogo até 2.028, conciliando o Flamengo e a Seleção Brasileira. Também participei de campeonatos online, isso em uma época onde a conexão era totalmente discada e 56k de velocidade era privilégio.

O Championship Manager 4 (abaixo) trazia como grande novidade a visualização 2D das partidas, com "bolinhas" representando os jogadores. Havia uma melhor visualização espacial do jogo e, com isso, aumentavam as possibilidades táticas. Também haviam melhorias em todas os outros aspectos, tais como táticas, treinos, interação com a imprensa, reclamar das arbitragens...


Eu participei da equipe de pesquisa brasileira do CM4, como responsável pelas características dos jogadores dos clubes cariocas, em especial, e de mais alguns estados. Tanto que eu existo no jogo como um meia esquerda razoável e um técnico promissor. Também apareço na área de créditos do CM4.

Após esta versão tivemos o divórcio entre a Sega (que era a responsável pela parte técnica) e a Eidos, que distribuía. Surgiram dois jogos: o Championship Manager 5, pela Eidos, e o Football Manager, pela Sega. Entretanto, logo o segundo suplantou o primeiro, que ainda existe mas com abrangência bem restrita. O verdadeiro sucessor do bom e velho Championship Manager é o Football Manager.

Não jogava o jogo, infelizmente, desde o FM07. Além dos compromissos habituais, esta versão tinha dois problemas: as táticas ficavam "manjadas" pela inteligência artificial com uma velocidade espantosa e era quase impossível se manter por muito tempo no comando de um equipe grande. A ponto de conquistar a Libertadores, ficar imediatamente depois três jogos sem vencer e ser sumariamente despedido pelo Presidente, que era o Kleber Leite - que havia ganho as eleições.


Com o computador novo, resolvi adquirir a versão mais recente, a Football Manager 10 (acima, com a opção habilitada de "instruções táticas à beira do campo"). Adquiri via download online, que se mostrou uma opção bastante interessante e mais barata que o jogo em DVD - paguei cerca de R$ 35. O único problema é que até agora não descobri como faço para acessar o editor que vem com o jogo. Se souberem, avise - adquiri via "Steam".

Curiosamente, depois que comprei vi que o Submarino tem o jogo à venda, custando R$ 79. Digo curiosamente porque pelo menos até 2008 o jogo não era vendido de forma oficial no Brasil devido a problemas de direitos dos jogadores e equipes - somente via importação direta e independente.

Acredito que a empresa comercializadora do jogo tenha chegado a um acordo com a CBF, mas como perdi totalmente o contato com os responsáveis pela parte brasileira do FM10 não posso afirmar isto com 100% de certeza. De qualquer forma, a compra online para quem tem conexão rápida é bem interessante.

Feito isso, bom divertimento. Aviso: é altamente viciante.

P.S. - Site Oficial aqui

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quando o crime compensa



Meus 69 leitores sabem que sempre gostei de automoblilismo e em especial de Fórmula 1. Este ano não vinha comentando muito porque não tinha ainda visto na íntegra nenhum Grande Prêmio devido a compromissos.

Ontem acabei não indo ao casamento de uma querida amiga devido a um pequeno imprevisto e sentei-me para assistir à corrida da Alemanha. Acabei tendo a oportunidade de ver ao vivo a palhaçada que foi a decisão da equipe Ferrari de fazer jogo acintoso de equipe e manipulando o resultado da corrida a favor de Fernando Alonso.

Nem vou comentar a palhaçada a que assisti, onde todos estavam errados. Alonso por dar um 'piti' no rádio exigindo que a equipe ordenasse a Massa que o deixasse passar. A Ferrari por ter decidido quem venceria interferindo na disputa esportiva. E Massa por ter jogado sua dignidade no lixo e acatado sem reclamar as ordens.

Ressalvo que o jogo de equipe é até admissível na última ou na penúltima rodada, quando o título está em jogo. Normal. Mas na metade do campeonato e sem qualquer chance de conquista é manipulação de resultado.

Entretanto, queria chamar a atenção para duas coisas.

A primeira é o comportamento do piloto espanhol. Mais uma vez ele deixou claro que não mede esforços para vencer, mesmo que tenha de atropelar a ética, as regras ou seus semelhantes. Tal e qual Cingapura, ele não se importou de utilizar de estratagema ilegal para alcançar a vitória. Ressalto que achei patético, digno de criança mimada o ataque de pelanca que ele deu no rádio exigindo que a equipe mandasse inverter as posições. Infelizmente, foi atendido.


O segundo é a punição que a equipe recebeu, uma multa de US$ 100 mil - irrisória para os padrões da categoria. O recado é claro: pode combinar resultado a vontade, trapacear a vontade, que não haverá nenhuma punição mais dura. Ou seja, na Fórmula 1 o crime compensa.

No mínimo, mas no mínimo mesmo, Alonso e Massa deveriam ter sido desclassificados. O ideal seria isso acontecer e mais a Ferrari ser suspensa por duas ou três etapas, mas a lógica - torta - é de que a ética não pode atrapalhar os negócios. E a marca Ferrari é muito forte, né ?

E esta constatação leva a outra reflexão: o quanto o conceito de "sucesso" está desconectado de valores como ética e dignidade. Para ser bem sucedido e ganhar dinheiro vale tudo, vale atropelar a ética, jogar a dignidade no lixo, reduzir o semelhante a pó.

Mais grave ainda é perceber como estes comportamentos são replicados na sociedade, por serem arquétipo reproduzido pelos meios de comunicação e pela publicidade. Se Fernando Alonso se comporta como uma criança mimada e chorona e é atendido, a tendência é de que as pessoas tendam a se comportar assim para alcançar os seus objetivos. É necessária uma contrafação muito forte por parte de educadores e pais de forma a não tornar este comportamento um padrão.

Infelizmente, pelo o que observo, estamos perdendo a guerra. Cada vez mais a sociedade é mais individualista, menos ética e menos digna. Preocupante.

P.S. - "Momento Tostines": a Ferrari que aprendeu com o carnaval ou o carnaval que aprendeu com a Ferrari?

domingo, 25 de julho de 2010

“Provamos ser barato cuidar dos pobres. Difícil é cuidar dos ricos”


Complementando a nossa série de artigos dominicais, o jornal O Dia publicou uma entrevista muito interessante com o Presidente Lula. Saindo do trivial, a matéria faz uma análise de pormenores de Estado e de governo que muitas vezes passam despercebidos no dia a dia.

Reproduzo abaixo a íntegra da entrevista, que faz um contraponto e ao mesmo tempo complementa o post anterior. É leitura obrigatória para se entender políticas de Estado.

Entrevista com Lula: “Provamos ser barato cuidar dos pobres. Difícil é cuidar dos ricos”

Brasília - A pouco mais de cinco meses de deixar o cargo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gosta de relembrar sua própria história de vida para dar a dimensão do que considera as vitórias de seus oito anos de governo. Lula conta que, na juventude, comprava cerveja quente no supermercado porque era mais barata que a gelada. Resfriava a bebida num balde, num poço perto de casa. É a imagem que usa para falar do “salto de qualidade” das classes D e E e do crescimento do consumo na Classe C. Afinal, segundo ele, hoje é muito mais fácil ter geladeira em casa e a energia elétrica chega às áreas mais distantes da Amazônia. “Deixo ao meu sucessor um país infinitamente mais sólido, justo e democrático”, disse, em entrevista aos jornais O DIA e Brasil Econômico, em seu gabinete no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), sede provisória da Presidência.
Foto: Antonio Milena

Ao defender a política externa, o presidente afirma não concordar com prisões políticas e mostra-se decepcionado com o colega americano Barack Obama, sobretudo nas negociações de paz no Oriente Médio. Lula descartou risco de um acidente no pré-sal como o da BP nos EUA, insinuando que a petrolífera foi negligente: “O barato sai caro e deu no que deu”. Também fez críticas ao candidato José Serra (PSDB) e alfinetou seu antecessor, Fernando Henrique. Descontraído, tratou da sucessão no comando da seleção brasileira. Revelou a preferência por Felipão.

Presidente, qual é a diferença entre o país que o senhor recebeu em 2003 e o que entregará ao seu sucessor ou sucessora?
Tenho a convicção de que entregarei um Brasil infinitamente mais sólido, justo e democrático do que o de 1º de janeiro de 2003. A situação econômica é infinitamente melhor, com estabilidade e crescimento. As reservas cambiais são suficientes para enfrentar qualquer crise externa, como as ocorridas na Rússia, México ou mesmo a do subprime (Estados Unidos). O salário do trabalhador está crescendo, com 90% das categorias obtendo ganhos reais nas negociações. As classes D e E deram um salto de qualidade e a C ganhou projeção. A educação melhorou substancialmente, conforme revelam dados do ministério, embora muito da qualidade do ensino básico dependa de estados e municípios e não da União. Criei 12 universidades e espero entregar outras duas ainda este ano: a Luso-Afro-Brasileira e a da América Latina. Em oito anos, inaugurei 214 escolas técnicas contra 140 em um século. A pobreza recuou muito. E, sobretudo, o Brasil ganhou respeitabilidade no mundo e autoestima no plano interno. Deixo o País mais preparado para continuar dando um salto de qualidade. A minha tese é que, se continuarmos crescendo nesse ritmo atual ao longo dos próximos anos, estaremos entre as cinco maiores economias do mundo em 2016, ano da Olimpíada do Rio. Por mais que a Globo queira falar mal do governo, tem melhoras que o cidadão mais pobre percebe no lugar onde mora, nos cantos mais remotos do Brasil. É impossível negar isso.

Olhando para trás, o que o senhor gostaria de ter feito de diferente no governo?
Na reflexão que fizer, vou perceber o que deveria fazer e não fiz. O líder espanhol Felipe Gonzáles costuma dizer que ex-presidente é que nem vaso chinês. Enquanto está no poder, é posto no lugar mais nobre da sala. Depois, ninguém nunca sabe o que fazer com ele. Pode virar um incômodo, um chato, um cara que fica lamentando a vida, rancoroso. Para mim, o melhor ex-presidente é o que não palpita. Eu quero ser o melhor ex-presidente. E, quando aproveitar essa condição, certamente, vou refletir sobre meu governo. A reforma tributária, por exemplo, que não consegui fazer. Parece que tinha um inimigo oculto, que impedia a coisa de andar. Mandei dois projetos de lei para o Congresso. A primeira proposta eu entreguei junto com os 27 governadores, em abril de 2003. Na segunda, em fevereiro de 2008, com o apoio de sindicalistas, empresários e líderes políticos, pensei que iria ser votada em três meses. Nada até hoje. Acho que cada um tem a sua reforma na cabeça. Apesar de enviar duas propostas que também não foram votadas, outra reforma que vou me dedicar é a da política, para acabar com a corrupção eleitoral, evitar o caixa dois e fortalecer os partidos. Precisamos do financiamento público de campanha, para saber quanto custa o voto com toda a transparência. A partir de 1º de janeiro de 2011, serei um militante do meu partido, o PT, e vou batalhar junto ao Congresso Nacional pela reforma política todo dia. Não é possível um governador cassado a menos de um ano de terminar o mandato poder concorrer logo depois ao Senado e ser eleito para mais oito anos. Também é preciso criar um sistema político no qual é possível fazer acordos efetivos com os partidos e não ter de ficar negociando separadamente com terceiros. Independentemente de ter um Congresso de esquerda ou direita, queria ver coalizões envolvendo acertos partidários, como há em outros países. Além disso, seria bom que o Legislativo fosse terminativo, sem riscos de judicialização de alguns temas.

O senhor também disse que pretende, depois de sair do governo, levar sua experiência em políticas sociais para a África e a América Latina...
Brasil tem acúmulo de experiências de políticas públicas bem-sucedidas e pode contribuir com a África e a América Latina. Essas políticas precisariam ser adaptadas conforme cada realidade, respeitando a cultura local. Nunca gostei de receber receitas prontas. O primeiro grande acerto de nossas políticas sociais está num cadastro de pessoas bem feito. Desta forma, não se joga dinheiro fora. O sucesso do Bolsa Família está no fato de o governo federal não saber quem são os beneficiados. As prefeituras fazem o cadastro e não nos importamos qual é o partido político do prefeito ou o perfil do beneficiado. Por fim, a Caixa Econômica Federal paga o benefício por meio de um cartão magnético. Em segundo lugar, provamos ser barato cuidar dos pobres. Difícil é cuidar dos ricos. O Banco Nacional do Nordeste (BNB) emprestou R$ 1,3 bilhão para um milhão de pequenos produtores. Ou seja, R$ 1 bilhão gerou um milhão de postos de trabalho. Se fosse para uma grande empresa, geraria só 300 ou 400. Em 2002, o BNB emprestou R$ 262 milhões, com 37% de inadimplência. Ano passado, foram R$ 22 bilhões, com 3% de calote. Por quê? Porque pobre quer pagar. O fato é que dá status às empresas dever R$ 10 bilhões ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Mas pobre não gosta de dever. Até porque isso ameaça o seu próprio nome, o único patrimônio que tem. O retorno das políticas sociais é extraordinário, como mostram as ações dos Territórios da Cidadania. O Bolsa Família custa R$ 12 bilhões por ano, só 1% do Orçamento. O Luz para Todos custou outros R$ 14 bilhões. Não é gasto, é investimento.

O senhor fará indicações de ministros num eventual governo Dilma Rousseff?
Não posso escalar ministério para a companheira Dilma. Além do mais, falar em ministro agora é sentar na cadeira antes do resultado da eleição, igual ao Fernando Henrique Cardoso fez na eleição para prefeito de São Paulo em 1985. Ela terá total liberdade de escolha e encontrará dentro do governo e nos partidos aliados quem pode formar seu governo. Tenho certeza que formará uma equipe extraordinária. Aí, sim, poderia contribuir com ela para dizer o que houve de errado no governo para que não se repita de novo.
Foto: Antonio Milena

Como o senhor enfrentou a crise financeira internacional?
Economia não tem mágica e é muito prática. Você faz no governo as coisas conforme as necessidades, tomando as medidas duras ou não e até voltando atrás se preciso. Prova disso foram as ações anticíclicas que adotamos quando surgiu a crise dos EUA. Ao invés de fazer contenção, buscamos elevar o investimento doméstico, sobretudo por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), além de estimular o consumo de bens duráveis. Desoneramos a construção civil e vários produtos, como carros, geladeiras e máquinas de lavar. Compramos carteiras bancárias em dificuldades e tivemos a coragem de decidir comprar a Nossa Caixa (SP) e metade do Banco Votorantim. Enfrentamos a retração de crédito externo. Lançamos o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida no auge da crise e completaremos este ano um milhão de moradias contratadas. Veio a crise e a Petrobras me procurou para solucionar o problema de financiamento gerado pela quebra de grandes bancos internacionais. A empresa recorreu à Caixa Econômica Federal, mas decidi que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o Tesouro apoiariam o seu grande programa de US$ 224 bilhões em investimentos previstos até 2014, com sondas, plataformas e navios. Se não agíssemos desta forma, não seria possível colher os resultados do pré-sal em 2017. Temos na riqueza do pré-sal a oportunidade de superar um século de atraso na educação. Por isso, propus a criação de um fundo para investir no setor, além de pesquisa. Investir em ciência e tecnologia é a condição sine qua non para que o País dê um salto de qualidade. É preciso lembrar que em paralelo à macroeconomia há uma microeconomia, que responde por uma boa parte da economia em geral. Em 2003, havia R$ 380 bilhões de crédito bancário, agora chegamos a R$ 1,5 trilhão. Entrou nessa conta o crédito consignado, que tem como garantia a folha de pagamento. Não havia antes e chegamos a R$ 120 bilhões em circulação no País. A agricultura familiar, por sua vez, saiu de R$ 2,4 bilhões de financiamento para R$ 16 bilhões. Para ajudar o setor, resolvemos comprar de produtores locais pelo menos 30% da merenda escolar servida diariamente a 34 milhões de crianças. Investimos R$ 14 bilhões para levar energia a 15 milhões de pessoas. E, quando a eletricidade chega às famílias, vem geladeira, a televisão e a casa de farinha. Hoje, o cidadão da Amazônia que recebe luz elétrica, ele sai do século 19 com um aperto de botão. Sei bem o que é isso. Eu tenho 64 anos e muitos não se lembram de como as coisas eram antes. Quando eu morava com minha família na Vila Carioca, em São Paulo, a gente costumava comprar cerveja quente, que era mais barato. Então, sabe o que a gente fazia? Colocava a cerveja num balde, descia num poço lá perto e ficava lá 40 minutos para gelar.


Mais ainda falta muito por fazer no País, não é?
Sim, claro. Mas tudo será mais fácil de agora em diante. O Brasil mudou de cara e avançou em várias áreas. A classe C reúne agora mais de 30 milhões. Na crise, foram os pobres que saíram às compras quando as A e B ficaram com medo. Na véspera do Natal de 2008, ousei convocar o brasileiro em rede nacional de rádio e televisão a consumir, explicando que era a maneira de manter a roda gigante da economia girando. Se parasse de comprar, a empresa pararia de produzir e o próprio trabalhador corria risco de perder o emprego. Comprar era uma forma de gerar emprego. Por isso, mostrei que o momento permitia até se endividar, desde que não comprometesse sua renda. É preciso reconhecer a importância de investir em políticas que dessem sustentação à macroeconomia. Fiquei brigando com a indústria automotiva por um ano para que as prestações dos carros novos coubessem no salário do trabalhador. O importante não era o preço final, mas o número de prestações. A desoneração fiscal esticou o prazo do financiamento para até 80 meses. Caber no bolso é fundamental para fomentar as vendas. Tiramos lições da crise econômica. Meu sucessor encontrará uma sociedade mais consciente e exigente. O povo apreendeu a reivindicar, sempre querendo mais. O trabalhador ganha aumento de salário, já no terceiro mês pleiteia mais. Isso é algo extraordinário da democracia. Quando achei, por exemplo, que tinha concedido a maior reivindicação das universidades, a autonomia, os reitores me apresentam outra. Fui o único presidente que não tinha medo de se reunir com os reitores.

Como o senhor responde às críticas de que há descontrole dos gastos públicos?
Trato a questão do gasto público com a maior seriedade, tendo por base minha história pessoal. Sou casado há 36 anos e nunca fiz uma despesa que não pudesse pagar. Só comprei TV em cores quando podia. Assim faço com o Brasil. Não queremos deixar as coisas desarrumadas para o próximo governo. Digo que não governo o Brasil, mas cuido do Brasil, assim como cuido da família. Levo muito a sério as contas públicas. Nesse sentido, os companheiros Henrique Meirelles (presidente do Banco Central) e Guido Mantega (ministro da Fazenda) tiveram importante papel. Não vou me descuidar da inflação. Não é porque estamos em período eleitoral que não subiremos os juros se necessário for. Não queremos mais a volta da inflação. Até 5% anual é suportável. Já vivi como assalariado e inflação de 80% ao mês e sei o que sofremos com isso. Quando colocamos R$ 100 bilhões do Tesouro no BNDES é porque quero que ele seja dez vezes maior que o Bird (Banco Mundial). Não quero merrequinha, quero um BNDES internacional (Eximbank). Os empréstimos saíram de R$ 34 bilhões em 2006 para R$ 139 bilhões em 2009 e chegarão logo a R$ 200 bilhões. Por isso, acho engraçado o candidato (José Serra, PSDB) dizer que estamos privatizando dinheiro público. Vamos emprestar dinheiro para quem? Para nós mesmos? Precisamos, sim, ajudar no aproveitamento da riqueza do petróleo. Temos hoje carga tributária de 34,5%, mas é preciso comparar esse percentual com a economia. Se pegar os 20 países mais pobres, encontraremos peso médio de 11%. Mas aí não existe Estado. Defendo a reforma tributária porque quero alíquotas menores, simplificação, desonerar a produção.

Como o senhor reage às críticas à sua política externa, de que teria rompido com a tradição democrática brasileira de defesa dos direitos humanos ao apoiar ditaduras?
As pessoas que estão presas acham que podem contar com a defesa de todos que estão do lado de fora. Quando fui preso, não tive a solidariedade de todos. Mas é óbvio que gostaria que não houvesse preso político em lugar nenhum do mundo. Queria que todos os países tivessem o mesmo grau de liberdade que temos no Brasil. Quem pode dizer que há país mais livre do que o Brasil? Duvido que exista. Na conferência de comunicação ano passado, alguns veículos não participaram por achar que era coisa arbitrária do governo, que quer se meter. Quando dirigente critica jornal é censura. O cidadão da imprensa é o único que não aceita críticas. Estranhei quando o presidente da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa, Alejandro Aguirre) disse que eu ameaçava a democracia. Ele se esqueceu da homenagem que me fez meses atrás e da carta que me enviou. O Brasil está tranquilo com o seu Estado democrático, está provado que temos plena democracia. Participei de 70 conferências nacionais, como as de segurança pública, portadores de deficiência, moradores de rua, índios, negros e mulheres. Não há um só segmento da sociedade com quem não tenha falado, para ter subsídios para construir políticas públicas de modo mais democrático. Todo ano, Brasília recebe passeatas, que me entregam pauta de reivindicações. Eu as redistribuo para 20 ou 30 ministérios, recebo retorno e depois vejo o que é possível ou não atender. É uma outra forma de fazer política. Tenho me encontrado mais com sindicalistas no exterior do que os presidentes dos países deles. Nos encontros do G20, os sindicalistas entregam a pauta de reivindicações para mim, em razão de minha origem e de minha relação de Estado com os sindicatos.

Como o senhor avalia os resultados da política externa de seu governo?
O Brasil definiu que iria procurar diversificar suas relações políticas e comerciais no plano internacional. Em 25 de janeiro de 2003, no Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), disse ao Celso Amorim (chanceler) que iríamos ter nova política externa. É preciso acabar com a mesmice do século 20. Por isso, não fazia sentido olhar para a Europa sem enxergar a África, olhar para os EUA sem enxergar o Oriente Médio e o restante da América Latina. O Brasil tem 16 mil quilômetros de fronteira seca, só não fazemos fronteira na América do Sul com Chile e Equador. Tenho orgulho de ter sido o primeiro presidente brasileiro a visitar todos os países árabes. Fui a todos os da América Central e o primeiro chefe de Estado desde o imperador Pedro II a ir a países como o Líbano. Fiz oito viagens à África, com quem elevamos a balança comercial de US$ 3 bilhões para US$ 26 bilhões. Tiramos uma visão tacanha e o Brasil pôde aproveitar as oportunidades com a África. Se não fizer, a China fará. Só que temos a vantagem de mais apego, similaridades e afinidades com os africanos, sobretudo os países da região que falam português. É um continente com 800 milhões de habitantes que aprende a democracia e que tem países crescendo 8% ao ano.

O senhor se decepcionou com o presidente americano Barack Obama?

De vez em quando, fico desapontado por achar que as pessoas evoluíram. Muitos ainda não entendem que o mundo criado pelo pós-guerra mudou. Acabou a guerra fria e a bipolaridade, dando lugar à multipolaridade. O Muro de Berlim caiu, mas se ergueram os muros de Gaza e do México. Quem disse que o processo de paz no Oriente Médio tem de ser conduzido apenas pelos EUA? Onde está escrito que só os americanos devem ser mediadores? Está na Bíblia, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, nas resoluções da ONU? Queremos construir um grupo de países com neutralidade e que atuem na solução do conflito, além do líder da Autoridade Palestina e do primeiro ministro de Israel. Quem vai conversar com o Hamas e o Hezbollah? Precisa envolver mais gente no processo, conversar com os radicais, o presidente do Irã (Mahmoud Ahmadinejad), o emir do Catar (Hamad bin Khalifa Al-Thani), que tem base militar dos EUA no seu território, mas também apoia o Hamas. Os líderes dos EUA e dos países envolvidos no conflito não resolvem nem formam um clube de amigos. É preciso que Palestina e Israel estejam unidos na negociação. A conferência de paz de Annapolis (EUA, 2007) tinha marcado uma segunda reunião que até hoje não se realizou. Surge então uma dúvida em minha cabeça: será que as pessoas querem mesmo a paz? No encontro de cúpula do G20 em Pittsburgh (EUA), ano passado, conversei por duas horas com Ahmadinejad sobre a sua negação do Holocausto e da ameaça de destruir Israel. Saí convencido de que era possível construir uma mesa de negociação. Perguntei na mesma reunião ao Obama, ao Sarkozy (França) e à Angela Merkel (Alemanha) se tinham conversado com Ahmadinejad. Nenhum falou. Só tinha conversado o Dmitri Medvedev (Rússia). Como resolver um conflito político sem conversar com as pessoas, terceirizando a tarefa para outras. Ora, somos políticos e fomos eleitos para isso. Obama é o presidente do país mais importante do mundo e poderia chamar o presidente do Irã para uma conversa. As pessoas não conversam. Eu me convenci de que poderia levar o Ahmadinejad à reunião de Viena. A Turquia acreditou e nos apoiou na busca de um entendimento. Fizemos exatamente a intermediação que o Obama nos pediu em carta. Não sei se foi ciúme ou rancor pelo Brasil estar se metendo em coisa deles. O que me preocupa agora são as sanções contra o Irã. São de dois tipos: as multilaterais, do Conselho de Segurança da ONU; e as unilaterais, dos EUA. Vamos ficar atentos para que não haja dois pesos e duas medidas. Não podemos permitir que acabem retaliando lá uma empresa brasileira ou argentina e não uma russa ou chinesa.

Como o senhor avalia a guerra federativa em que se transformou a discussão no Congresso sobre os royalties do petróleo?
Em primeiro lugar, entendo que esse problema só ocorre por conta da democracia. Numa reunião na Presidência, em agosto de 2009, que terminou às duas da manhã, eu, o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), a ministra Dilma, os governadores de São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro e outros parlamentares fizemos um acordo enviado ao Congresso Nacional para evitar que a questão do royalties fosse discutida em ano eleitoral. Somente depois da eleição, com a cabeça fria, o tema poderia ser tratado de forma adequada. Mas a coisa chegou ao ponto que chegou por interesses eminentemente eleitorais. Cada um preferiu fazer seu proselitismo e os estados produtores perderam na futura divisão generalizada e até o que já tinham. Reconheço que o petróleo é da União e que deve haver uma divisão, mas os estados produtores têm direito a algo mais. O Brasil todo tem de se beneficiar, garantindo um pouco mais para os estados produtores. Não é a melhor coisa jogar a riqueza do pré-sal no ralo do custeio dos estados e municípios. Por isso, defendemos que os recursos se destinem ao meio ambiente, cultura, saúde, educação, e ciência e tecnologia, o que permitiria ao Brasil se consagrar como grande nação em 20 ou 30 anos. Agora vou esperar o que vai sair da Câmara. Não sei se vão votar este ano, embora a questão da partilha seja importante para nós.

O acidente da BP no Golfo do México (EUA) ameaça os projetos do pré-sal?
Não estamos falando de um acidente comum. O que houve lá é que quiseram fazer o mais barato. E como diz o ditado, o barato pode sair caro. A BP apenas abriu o poço com tampão para medição, sem se cercar dos devidos cuidados. Deu no que deu.

Como o senhor viu a evolução da atual crise econômica da Europa?
O Brasil foi o primeiro a colocar US$ 14 bilhões no FMI (Fundo Monetário Internacional). Nenhum dos grandes sócios colocou. Na verdade, só os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) colocaram. A Europa não aceitou que déssemos palpites na crise deles, embora sempre tenham dado nas nossas. Mas fizeram agora uma articulação séria, que garante uma aferição real nos bancos sobre os títulos podres, com a mediação da Alemanha, que está mais forte. O fato é que demoraram muito para ajudar a Grécia, um país pequeno que não poderia ter causado o impacto que causou.

Qual será a marca de sua presidência no Mercosul a partir de agosto?
Na presidência do Mercosul vou buscar a consolidação do acordo comercial com a União Europeia. O grande obstáculo é a Franca, com a velha questão do protecionismo à agricultura. Mais do que meu compromisso é minha prioridade à frente da presidência do bloco avançar nessa negociação. Vou conversar com o companheiro Nicolas Sarkozy (presidente da França) para convencê-lo e chegar a um consenso.

Presidente, o candidato José Serra (PSDB) propõe a criação de um Ministério da Segurança para combater a crescente onda de violência. O que o senhor acha disso?
Se tudo fosse resolvido com a criação de ministério, não haveria problema algum. Os tucanos têm experiência à frente de governos de grande estados. Suas ações poderiam servir de exemplo. Agora, propor ministério é algo muito pobre. No Ministério da Justiça, criamos nos últimos três anos uma política para conter a crise da segurança pública. Nunca houve um governo federal que tenha repassado tanto dinheiro aos estados para apoiar o combate da violência como o nosso. Por meio do Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), tivemos bons resultados em parcerias com os governos de Pernambuco, Rio de Janeiro e Ceará. A segurança deve ser construída mais com inteligência do que com a força. Estou preocupado com o crack, que é uma nova questão, ainda por ser estudada. É uma droga devastadora, a pior que já vi, com efeitos de cinco a 15 minutos, obrigando o viciado a voltar a consumir rápido. E o pior de tudo é que ela chegou à periferia de cidades do interior.

As medidas que o senhor anunciou esta semana retiram as dúvidas sobre a preparação para a Copa 2014?

Acredito que, sobre a questão da Copa do Mundo de 2014, os principais problemas já estão equacionados. Reservamos R$ 400 milhões para cada estado com cidades-sede. Outros R$ 5,6 bilhões estão garantidos para a reforma dos aeroportos, sem falar dos recursos para a mobilidade urbana previstos no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Vamos fazer uma bela Copa do Mundo, mas não no modelo Berlim. Vamos fazer no padrão Brasil, com a preocupação também de sermos campeões. A escolha do novo técnico é um desafio para a confederação de futebol (CBF). Concordo com os nomes cotados - Felipão, Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo e Mano Menezes. Desses, a melhor lembrança que nós temos é a do Felipão. O técnico da Seleção não pode ser como técnico de clube. O time não é de tenentes, mas de generais. Precisa de alguém com autoridade moral e respeitabilidade. É bom ressaltar que liderança não pode ser baseada no medo, mas sim no respeito. O Brasil não pode esperar até 2012 para escolher o técnico da Copa de 2014, porque temos de formar uma equipe. Não teremos mais vários craques da atualidade no próximo mundial. Muitos deles estarão com mais de 30, caso do Robinho e do Kaká. Por isso, a fase de preparação será de garimpo, observar os jogadores com 20 e 21, que terão 25 e 26 na época. Uma boa oportunidade é observar alguns no campeonato sub-20. Gostaria de sugerir ainda para a CBF uma turnê de jogadores jovens pelo Brasil depois do campeonato brasileiro, antes que partam para jogar na Europa. Eles querem jogar fora e, ainda, ganhar uma vaga na Seleção. O problema é que estamos vivendo um grave período de entressafra de craques, que exige maior atenção nossa. Veja só o caso do Neymar, uma grande esperança nossa na Copa 2014. Ele atravessa uma fase ruim, anda nervoso. Falta aí uma figura paterna para orientá-lo. Para mim, jogador de Seleção não precisa apenas jogar bem a bola, tem de ter alma, amor pela camisa. Pelo menos nessa última Copa gostei de ver que todos os jogadores cantaram o hino nacional. Foi uma loucura não ter levado o Hernanes do São Paulo.

Entrevista concedida a Alexandre Freeland, Ricardo Galuppo e Silvio Ribas

'Lula é fenômeno a ser analisado no futuro', diz Aécio


Não sou exatamente um fã do ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves. Discordo de seu posicionamento político e de suas idéias, em especial na economia e no que concerne ao tamanho ideal do Estado.

Entretanto, não posso fechar os olhos à capacidade herdada do avô de ser um conservador, mas também um conciliador, sem fechar os olhos para avanços sociais e econômicos ainda que engendrados por adversários políticos.

Reproduzo abaixo entrevista dada pelo político ao portal Ig, da qual discordo em vários pontos mas não posso deixar de reconhecer a habilidade política e sua capacidade de avaliação da conjuntura. É uma esperança de termos uma oposição decente, sem apelar para baixarias como as descritas no post abaixo.

'Lula é fenômeno a ser analisado no futuro', diz Aécio
Em entrevista ao iG, ex-governador de Minas afaga presidente e defende uma 'agenda mínima' capaz de unir petistas e tucanos

Adriano Ceolin, enviado a Belo Horizonte | 21/07/2010 20:21

Em entrevista concedida ao iG na última terça-feira, o tucano descreve o presidente é um "fenômeno" a ser analisado no futuro. Embora reserve algumas críticas ao PT, Aécio defende a criação de uma "agenda mínima" que reúna a sigla adversaria e o PSDB após a ida às urnas em outubro. Ao falar sobre os planos para o caso de vencer a eleição, Aécio diz prever uma boa interlocução com a oposição, mesmo que a petista Dilma Rousseff leve a melhor na eleição presidencial.

"Por mais que isso não possa ser bem compreendido por alguns companheiros, eu tenho muito afinidade com alguns setores do PT. Mais até que com alguns aliados que circunstancialmente possam estar ao nosso lado", diz Aécio. Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Aécio ao iG.

iG - Qual campanha está mais agradável de fazer, esta ou a de 2006?
Aécio Neves – Nesta campanha estou vivendo algo que nunca imaginei na vida que poderia viver. Que é você andar por Minas Gerais e, antes de dizer o que vai fazer e pedir o voto, você receber o agradecimento, o reconhecimento das pessoas. Então, isso para mim é algo único.

iG – E o que é mais difícil? Convencer o eleitor votar no Antonio Anastasia (candidato ao governo) ou no Serra?
Aécio – São duas coisas distintas. O Anastasia significa a continuidade de um projeto que deu certo em Minas Gerais. Serra é um outro tipo de convencimento. Porque também no plano nacional as pessoas vivem hoje - e é uma bobagem não reconhecer - e têm um sentimento de bem-estar. Têm um sentimento de que o Brasil está avançando. No caso do Serra, nós temos é que demonstrar que esse momento de crescimento, expansão da nossa economia, da melhoria dos indicadores sociais, não é fruto de uma administração apenas. É um processo que se inicia lá trás.

iG – Mas como o Serra pode fazer isso?
Aécio – Existem diferenças muito claras entre um e outro. O PT não avançou muito na qualificação da gestão do Estado. Ao contrário. O governo federal optou por construir a sua base muito em função do aumento do Estado. Cria-se um ministério aqui. Criam-se alguns milhares de cargos ali.

iG – Mas como desvincular a imagem que o presidente Lula tem do governo dele nessas críticas que o senhor faz?
Aécio - O presidente Lula é algo diferente. É um fenômeno para ser analisado no futuro. Porque ele independe do êxito do seu governo para ter uma grande avaliação por parte da população. Outro dia me perguntaram se eu faço alguma comparação por ter índices parecidos aqui em Minas. Eu dizia que é muito diferente. Porque o Lula por si só já é este fenômeno. Ele é a representação, no imaginário das pessoas, da ascensão social que qualquer cidadão gostaria de ter.

iG – O senhor sente afinidade com o Lula no sentido de fazer política? Não na forma de governar...
Aécio – Acho que em parte sim. Eu sou amigo do Lula. Tenho uma relação com o Lula que começa muito antes de ele imaginar ser presidente. Talvez ele próprio já imaginava, mas eu não imaginava que ele seria presidente. E eu tão pouco pensava em ser governador. Conheço ele deste a Constituinte. Lula era um reserva de luxo do meu time. Ele era um lateral esquerdo que só deixava entrar no segundo tempo. Tenho com ele uma relação de amizade. Lula é um sujeito que gosta da vida. Eu tenho essa afinidade com ele. É sujeito de bem. Acho que seu governo é falho em muitas coisas. Mais um governo do PT não faria bem ao País.

iG – O fato de, em 2008, o senhor ter costurado uma aliança com o PT e o PSB (para disputar a Prefeitura de Belo Horizonte), ter na sua chapa um segundo suplente do PSB, não dificulta para o eleitor ver quem é oposição?
Aécio – É uma questão que a legislação eleitoral tem de corrigir. No momento em que ela quebra a verticalização, ela permite que as alianças se construam diante da realidade regional. O PSB e o PDT estão conosco não porque eu os cooptei. Eles participam do nosso governo há oito anos. A incoerência maior seria agora, por uma imposição nacional, contrariarem as lideranças desses partidos.

iG – O PT nacional não fez isso com o PT de Minas, ao impor a aliança com o PMDB?
Aécio – No caso do PT, foi algo muito grave. Muito diferente do que ocorreu conosco. No nosso campo, as direções estaduais do partido livremente optaram por estar conosco. As direções nacionais respeitaram. No caso do PT, o partido tinha posição diferente, que era lançar uma candidatura, que era até legítimo. O que fizeram com o PT (de Minas) foi uma grande maldade. O que fizeram com o PT terá danos não apenas nesta eleição. Porque um partido político que representa um ideário, uma proposta. Então para aqueles que fizeram a intervenção no PT o objetivo foi alcançado. Foi o do tempo da televisão. Da mesma forma que foi dado para a Dilma.

iG – Se eleito, como o senhor pretende atuar no Senado para olhar 2014?

Aécio – Não faço política pensando em ganhar uma eleição agora como degrau futuro. Se eu tivesse essa obsessão pela Presidência, eu teria enfrentado essa disputa dentro do partido por muito mais tempo. Quem sabe até ganhando a disputa interna. Eu fui até o momento que deveria ir. No momento em que segmentos importantes do partido caminhavam numa outra direção. Optei por não ser um instrumento da discórdia, da divisão. Acho até que tive um gesto de generosidade. Estou muito confortável. Acho que o Congresso fraco só interessa ao poder Executivo. Temos de fazer uma profunda reforma política na largada do próximo governo.

iG – Seria acabar com a reeleição?
Aécio – Acho que não. A reeleição já está enraizada. Isso (a ideia de acabar com a reeleição) surgiu num determinado momento como moeda de troca. Eu sempre rejeitei muito isso. Você não acaba mais com a reeleição no Brasil.

iG – O presidente Lula e o PT focaram na estratégia de fazer uma bancada forte no Senado. O senhor não teme fazer parte de uma oposição menor do que ela já é, num eventual governo Dilma Rousseff?
Aécio – Digo para você com muita franqueza, por mais que isso não possa ser bem compreendido por alguns companheiros, eu tenho muito afinidade com alguns setores do PT. Mais até que com alguns aliados que circunstancialmente possam estar ao nosso lado. E acho que, até na reforma política, eu vou encontrar em setores importantes do PT uma interlocução que compreenda que é preciso que nós avancemos.

iG – É possível, no futuro, o PT e o PSDB juntos?
Aécio – Acho que nos vamos que viver algumas etapas para chegar até lá. Mas eu acho possível sim. A começar pela defesa de uma agenda comum. Se fosse candidato à Presidência da República estaria propondo uma agenda mínima em torno da qual nós teríamos compromisso de aprovação independentemente de quem vencesse. O PT e o PSDB sabem quais são os nossos gargalos.

iG – O senhor que a campanha se polarizou demais logo no inicio?

Aécio – O que separa o PT e o PSDB é o projeto de poder. Não é mais a visão do Estado brasileiro. Pode ser até que na campanha um puxe para cá e outro para lá. Mas na essência, enquanto governo, a diferença não é profunda. E cada vez vai ficando mais caro manter esse rol de alianças. Caro no que se refere aos espaços no governo, na forma destes grupos agirem. Acho que uma interlocução com o PT em torno de temas centrais, em torno de uma agenda mínima, seria muito saudável a vida brasileira. Se isso lá adiante vai se transformar numa aliança eleitoral é outra questão.

Sobre Fábulas e o Menosprezo


Domingo, dia de bons e instigantes textos.

Reproduzo um texto do jornalista Rodrigo Vianna que explica muito das inconsequentes e desonestas declarações do candidato a vice presidente na chapa tucana Índio da Costa.

Nos últimos dias este deu declarações maliciosas e inexatas dando conta de que o Presidente Lula, o PT e a candidata Dilma Roussef seriam ligados institucionalmente a um grupo revolucionário colombiano, ao narcotráfico e ao Comando Vermelho, facção criminosa carioca.

Distendendo-se ao extremo a sandice dita pelo candidato, seria como se Fernandinho Beira Mar fosse levado de helicóptero a Brasília para se reunir com o Presidente e decidir os caminhos da Nação. Obviamente, ele responderá na Justiça por estes desatinos.

Mas vamos ao texto, publicado originalmente no blog Escrevinhador. Na foto acima, vemos o candidato tucano com João Roberto Marinho, das Organizações Globo, assinando convênios ligados à Fundação que leva o nome do lendário e falecido "manda-chuva" do conglomerado de imprensa.

"As fábulas sobre Dilma, e o erro de menosprezar Serra e a velha mídia

por Rodrigo Vianna

Os políticos tucanos e parte de seu eleitorado - especialmente os leitores mais desavisados de “Veja”, “O Globo” e outros que tais – aparentemente acreditaram em algumas fábulas sobre Dilma, espalhadas por “colunistas” e “analistas” durante a primeira fase de campanha (que se encerrou pouco antes da Copa do Mundo):

- ela não tem brilho próprio;

- ela não saberá se portar durante uma campanha, longe das asas de Lula.

- ela não conseguirá colar no prestígio de Lula e terá enorme dificuldade para passar de 15% nas pesquisas.

Tudo isso se mostrou falso. Os tucanos menosprezaram Dilma. E agora engrossam  o discurso terrorista de campanha, para tentar recuperar o terreno perdido.

Entre os petistas, de outro lado, há quem ameace embarcar na mesma trilha. Espalham-se em alguns setores, digamos, mais “militantes”,  fábulas sobre a candidatura Serra e seus aliados:

- Serra é um néscio, que não sabe o que faz;

- a campanha terrorista de Serra e seus aliados midiáticos não terá nenhum efeito;

- a mídia tradicional deixou de ter importância, e não terá força para impedir a vitória inexorável de Dilma.

Trata-se de um erro grave menosprezar os adversários. Ainda mais, adversários que não tem alternativa. Serra, derrotado, encerra a carreira (mesmo que o PSDB ganhe em São Paulo, o serrismo será varrido do mapa num possível governo estadual de Alckmin). Portanto, para o candidato tucano, trata-se de ganhar ou ganhar.

Alguns enxergam na tática serrista do terrorismo (FARC, narcotráfico etc) um puro sinal de desespero. É bem mais do que isso. Nos últimos meses, todos nós fomos bombardeados por emails lembrando o “passado terrorista de Dilma”. Foi algo disseminado de forma profissional, deliberada. Antes disso, a “Folha” já se havia prestado ao serviço de estampar a ficha falsa da candidata, em primeira página. Portanto, a atual fase de campanha (associar PT e Dilma às FARC) é apenas o desdobramento lógico das fases anteriores. Não é algo improvisado…

Isso basta pra ganhar eleição? Não. Ainda mais num cenário em que o PT conta com um presidente aprovado por quase 80% do eleitorado. Mas o terrorismo eleitoral pode ser importante para consolidar o voto anti-petista. Com isso, Serra pode garantir de 25% a 30% do eleitorado. O risco é que esses ataques façam aumentar a rejeição a Serra. Boa parte do eleitorado brasileiro não gosta disso.

No horário gratuito na TV, provavelmente, Serra vai evitar a tática de partir pra cima de Dilma com essa ferocidade. A experiência recente mostra que ataques diretos a um adversário acabam gerando rejeição – ainda mais na TV. Mas há o rádio, a internet e a imprensa amiga pra seguir fazendo serviço…

Serra precisa manter-se competitivo, com alguma chance, até a reta final da eleição. E aí chego ao terceiro dos três pontos que ressaltei acima: engana-se quem acha que a mídia anti-Lula não terá papel a exercer na campanha contra Dilma. A mídia perdeu, sim, parte de sua força. Mas não toda a força. Em 2006, foi a campanha mdiática que levou a eleição para segundo turno – Marcos Coimbra, do Vox Populi, já mostrou isso de forma límpida.

Nessa eleição, a mídia impressa seguirá o roteiro de ataques implacáveis contra Dilma. Assim como Serra, essa gente não tem escolha: enveredou por um caminho sem volta. 

Essa mídia, talvez, não consiga garantir a vitória de Serra. Ainda mais porque a TV Globo (ao contrário do jornal, que é explícito) tende a manter-se na moita. A Globo não pode se dar ao luxo de voltar a ser carimbada como “anti-povo”, “golpista”…  Seria um risco enorme jogar a imagem da Globo numa campanha anti-lulista. Mas, se na reta final, a Globo sentir que há espaço para empurrar Serra ao segundo turno, não tenham dúvidas: vão repetir 2006! O método Ratzinger [Nota do Editor: 'Ratzinger' é como é conhecido no meio jornalístico Ali Kamel, chefão do jornalismo global] vai se revelar de novo implacável.

Por isso, os lulistas devem evitar o erro de menosprezar adversários que lutam pela sobrevivência - política, ou econômica – e que vão usar todas as armas numa guerra suja.

Essa não será uma eleição para quem tem estômago frágil."

sábado, 24 de julho de 2010

Sobretudo


Mais um sábado e mais uma coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário e rubro negro Affonso Romero. O tema de hoje é a primeira parte de uma análise tática do futebol brasileiro, da qual mais uma vez discordo bastante.

Minha tese é justamente a oposta, que o Brasil somente foi Campeão do Mundo quando respeitou as suas características de jogo.

Em tempo: Mano Menezes somente será técnico da Seleção por causa da maldita mania que ocorre aqui no Brasil de se colocar "os amigos do Rei" à frente da competência. Em minha opinião ele não tem o menor estofo para ser o selecionador nacional, mas como o Corínthians, hoje, é "unha e carne" com a CBF...

Mas vamos ao, como de hábito, excelente texto:

"O Mito sobre a tal “Escola Brasileira” de Futebol e outras tolices - Parte 1

Passou a Copa do Mundo, o Campeonato Brasileiro voltou ao seu lenga-lenga e sobe-e-desce costumeiros em sua primeira metade, as notícias mais insistentes sobre futebol vêm das páginas policiais. Portanto, deixaremos este assunto um pouco de lado e voltaremos a fazer jus à proposta desta coluna, qual seja falar um pouco sobre tudo, certo? Errado.

Mal acabou uma Copa, já estamos preocupados com o caminho a ser trilhado até a próxima, iniciando pela escolha do técnico. Eu comecei a escrever esta coluna e o técnico escolhido para guiar a Seleção Brasileira em seu processo de renovação era o Muricy Ramalho. O atual técnico do Fluminense tomou café da manhã com o Presidente da CBF, deixou-se filmar ao lado de seu contratante, esticou a mão para cumprimentá-lo ao final do encontro (e, constrangedoramente, ficou com a mão no ar), e, logo depois, Ricardo Teixeira dava entrevista tendo como certa a sua contratação. Inclusive, afirmando que o Muricy fora, desde sempre, sua primeira opção para substituir o Dunga. A afirmação era, talvez, para evitar comparações e insinuações quanto ao nome de Mano Menezes, insistentemente apontado pela imprensa paulista nos últimos dias como o nome preferido da CBF.

Veja como a vida é engraçada: depois de tudo aparentemente acertado, foi Muricy quem “deu para trás”, e o próximo nome da lista de opções de Ricardo Teixeira era exatamente o de Mano Menezes, pelo menos isso era o anunciado até o fechamento deste texto.

Então, fica combinado, pelo menos por enquanto e até que as reviravoltas do acaso nos desmintam, que Mano Menezes será o alvo dos impropérios de público e crítica “especializada” pelos próximos quatro anos.

Escrevo a palavra “especializada” assim mesmo, entre aspas, porque não há nada mais improvisado no Brasil que a crítica esportiva. Alguns jornalistas, donos de belos textos, parecem jamais ter experimentado a sensação de calçar chuteiras, pisar um bom gramado, disputar uma dividida; tratam o futebol como balé, a partir do ponto de vista da estética, como se na origem deste esporte não estivesse o treinamento bélico, a violência transmutada pelo lúdico e, por fim, os esforços em disciplinar de alguma forma o adolescente e natural instinto selvagem dos cavalheiros vitorianos em plena formação escolar.

Outra boa parte dos analistas do futebol é composta de ex-jogadores que, em seus tempos de atleta, deram mais ou menos carinho à bola e à expressão plástica ao jogo. Dos ex-craques, ouvimos mais e diversificadas bobagens, principalmente nas referências aos “bons e velhos tempos em que o futebol era arte”, enquanto os ex-esforçados perpetuam-se em defender a aplicação e as vantagens da preparação física. Antes o mundo fosse dividido entre estetas e pragmáticos, porque a discussão se tornaria simples, ficando o primeiro grupo com o coração dos sonhadores e apreciadores do espetáculo, e o segundo grupo, por definição, com os melhores resultados. Não por acaso, raros são os bons técnicos que tenham sido antes craques da bola; e abundantes os ex-botinudos que tornam-se grandes vencedores como “professores”.

Aos grupos já apresentados unem-se, ainda, os picaretas e palpiteiros de todos os demais modelos e origens, perfazendo uma fauna tipicamente heterogênea que, entretanto, têm três características comuns.

1 – Todos falam com “autoridade” de especialista, tendo ou não adquirido esta autoridade através de experiência, diploma ou resultados (ao menos palpites) vencedores.O futebol é o reino do “achismo”.

2 – Nenhum tem a mínima idéia do que possa vir a ser administração esportiva, e dominam pobremente todo e qualquer assunto que se acomode fora das quatro linhas de jogo.

3 – Todos acreditam em um mito genérico e abstrato, mas muitíssimo bem enraizado na cultura do futebol, chamado “a escola brasileira”.

Esta “escola” é evocada, sobretudo, pelas grandes estrelas do passado, numa auto-apreciação narcísica de seus feitos, e ecoada pela velha guarda da imprensa, ciosos de suas posições de únicas testemunhas vivas destes tempos de glórias.

Repetem, de maneira quase gobbelsiana, que o Brasil desenvolveu um estilo próprio e único de jogar futebol e, principalmente, que este estilo estaria ligado a uma forma mais criativa, lúdica, aventureira, bela e ofensiva. Complementam que o Brasil não pode “trair” este seu estilo e diferencial, que este estilo teria nos dado nossas maiores glórias em campo, e que o custo de renegar este estilo é inevitavelmente perder competições importantes que, de outra forma, teríamos conquistado baseados quase que exclusivamente em nosso talento natural.

Esta mitologia realmente tem respaldo na maneira brasileira de ser. Não necessariamente na dita habilidade natural e malemolência do povo brasileiro, mas na fanfarronice que mal esconde um brutal complexo de inferioridade, de modo que precisamos auto-reafirmar que tudo em nós é mais belo, malandro, bem-resolvido, criativo, inventivo e superior.

Como se qualquer adversário fosse um bando de cinturas-duras ou, para citar o Garrincha, uma série de “joões”. Como se não tivessem sido os branquelos ingleses a inventar o drible, praticamente junto com as regras do jogo. Como se, mesmo sendo o país com mais títulos em Copas, não as tivéssemos perdido muito mais do que ganhado-as.

É uma mitologia que encontra paralelo em nossa historiografia oficial, que esconde traidores e trapalhadas e exalta heróis de folhetim e patacoadas. Mas não encontra fundamentos na história do futebol, nos acontecimentos reais, principalmente quando levamos em conta as Copas do Mundo, desde a primeira em 1930 até esta mais recente, que acabamos de perder.

Até 1950, tivemos um futebol, sobretudo, perdedor. Mesmo entre nossos vizinhos sul-americanos, em disputas regionais, perdíamos de maneira vexatória. Fundou-se, naquela época, o antimito de inferioridade, a síndrome de vira-latas eternizada nas crônicas do Nelson Rodrigues. Havia lapsos de originalidade e habilidade natural, elogios esparsos pela criatividade e leveza de algumas de nossas formações e jogadores, e só.

Há algumas teorias que explicam muito bem esta diferenciação entre os atletas europeus e os praticantes do novo-mundo, notadamente nos locais em que populações pobres e mestiças tiveram acesso ao esporte. Misturando-se os fatores biológicos, étnicos, econômicos, culturais, sociológicos e históricos, podemos chegar a algumas conclusões bastante válidas acerca da incidência de jogadores habilidosos e criativos nos gramados sul-americanos, tanto quanto da falta de competitividade desses jogadores.

A partir da década de 1940, Flávio Costa e outros técnicos brasileiros (e alguns estrangeiros em atividade por aqui) implantaram no Brasil um padrão de jogo europeizado chamado WM (nome dado pela disposição dos atletas em campo),e foi com este esquema que a Seleção disputou com brilho a Copa de 1950. Pela primeira vez, o Brasil mostrava um padrão tático definido e, pelo primeira vez, chegava a uma final de Copa.

Note-se que este era um padrão importado. Portanto, se é que já houvesse a tal “escola brasileira”, a Seleção de 50 renegava-a. Por outro lado, ao Brasil bastava empatar o último jogo contra o Uruguai para sagrar-se campeão, e foi o Brasil quem abriu o placar. E que, mesmo assim, insistiu em um jogo exageradamente ofensivo, dando oportunidade e espaços ao adversário, e o final todos conhecem.

O Brasil passou a jogar de uma maneira própria, com jogadores dispostos em 4-2-4 com dois pontas abertos e, depois de um novo fiasco em 1954, em 1958 pela primeira vez preparou-se para uma competição levando em conta os aspectos físico e psicológico, com profissionais e técnicas de treinamento importadas da Europa.

O titular da ponta-esquerda era então o rápido e habilidoso santista Pepe. O posto de reserva imediato estava guardado para o são-paulino Canhoteiro. Foi quando ganhou força o nome de um jovem alagoano que jogava no Flamengo chamado Mario Jorge Lobo Zagallo. Muito menos habilidoso que seus concorrentes (e, ainda assim, um jogador de bons recursos) Zagallo diferenciava-se pela disposição em recuperar a posse de bola, ajudar a fechar os espaços do meio de campo ao adversário, e dar opções de jogadas armadas a partir da meia-esquerda do ataque. Tornou-se titular.

O Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez justamente quando rompeu de forma mais clara com seu passado e focou na preparação física e na organização tática, a partir da involuntária criação do sistema 4-3-3 com o recuo do Zagallo. O curioso é que aquela seleção saíra do Brasil desacreditada por crítica e público exatamente por quebrar a tradição da “escola brasileira” e escalar o “limitado” Zagallo no lugar que caberia aos habilidosos Pepe e Canhoteiro.

É certo que aquela equipe contava com uma geração de jogadores extraordinariamente criativos e fadados ao sucesso, a começar pelo genial Garrincha e o jovem futuro Rei do Futebol: Pelé. Mas também é certo que jamais uma seleção, brasileira ou não, chegou a ser campeã mundial sem ter em campo (pelo menos alguns) craques, bem como nunca um time conquistou uma Copa sem um plano tático bem estruturado e executado. Se há alguma coisa que o Brasil de 58 provava, era que qualquer das duas coisas isoladamente já não bastavam. E que o Brasil, ao colocar-se em campo de forma responsável e competitiva, tornara-se um dos grandes do futebol mundial, pois igualava-se aos adversários em organização para destacar-se na execução de um plano tático com melhor material humano.

Na próxima coluna, trataremos de mostrar, Copa após Copa posterior a 1958, como foi através da mudança e da adaptação que o Brasil conquistou outras quatro Copas do Mundo, nunca através de perpetuação de um suposto estilo engessado e modelar de jogar futebol."