sábado, 21 de agosto de 2010

Sorteio da Ordem de Desfile - Grupos C, D e E


Na última semana foi realizado na Cidade do Samba o sorteio da ordem de desfile dos Grupos de Acesso C, D e E das escolas de samba cariocas. Estas equivalem respectivamente à quarta, quinta e sexta divisões do desfile, tendo como palco a passarela provisória montada na Avenida Intendente Magalhães, em Campinho.

São escolas pequenas, mas que representam suas comunidades e que formam valores que, posteriormente, irão abrilhantar os desfiles principais. Outrossim, estes desfiles estão mais perto do elemento cultural do carnaval, onde o sambista é ainda mais importante que a superprodução.

Não tenho maiores detalhes sobre a mecânica do sorteio, mas vamos à ordem de desfile destes grupos, com enredos e carnavalescos.

Estas escolas podem definir enredos mais tarde por serem carnavais de confecção mais simples, bem como o CD, quando há, somente sai às vésperas do carnaval.

Além disso, estas escolas muitas vezes dependem da (parca) subvenção do Estado e de doações de escolas maiores, porque não há a menor possibilidade de patrocínios legais nestas escolas devido à pouca visibilidade.

A lamentar a falta de sorte da Acadêmicos do Dendê, escola onde venci três disputas de samba enredo e sou um dos atuais campeões: pelo segundo ano seguido a escola não somente abre o desfile como irá passar na avenida quase no mesmo horário da União da Ilha, o que dificulta muito a logísitica da agremiação - em especial em termos de componentes.

Grupo C - 06 de Março (Domingo)


1ª UNIDOS DO JACAREZINHO
Encantados
Carnavalesco: Eduardo Gonçalves    

2ª ACADÊMICOS DO ENGENHO DA RAINHA
De Paulo da Portela à Nilo Figueiredo... Essa é a história da escola de samba mais brasileira, fazendo o voo com a Águia Altaneira!
Carnavalesco: Wenderson Silva    

3ª VIZINHA FALADEIRA
Vizinha Faladeira dá as cartas
Carnavalesco: Comissão de Carnaval    

4ª BOI DA ILHA DO GOVERNADOR
Uaraná cé cé! Força da vida
Carnavalesco: Guilherme Alexandre    

5ª UNIDOS DO CABUÇU
A Cabuçu mexe e remexe através dos tempos
Carnavalesco: Luiz Carlos Guimarães    

6ª ROSA DE OURO
A chave do mistério
Carnavalesco: Humberto Abrantes e Rogério Lima     

7ª UNIDOS DA VILLA RICA
Brasil sem fronteiras
Carnavalesco: Comissão de Carnaval    

8ª UNIDOS DA PONTE    

9ª ARRASTÃO DE CASCADURA    

10ª UNIDOS DA VILA SANTA TEREZA
Amazônia – Memórias da floresta de coração verde
Carnavalesco: Sandro Gomes    

11ª UNIDOS DE VILA KENNEDY
Itaguaí: a cidade do Porto
Carnavalesco: Cláudio Fontes    

12ª EM CIMA DA HORA
É Carnaval... Abram alas para a folia
Carnavalesco: Marco Antonio    

13ª FLOR DA MINA DO ANDARAÍ
Brasil coração de todos. Viva o povo brasileiro!
Carnavalesco: Comissão de Carnaval    

14ª ACADÊMICOS DA ABOLIÇÃO
Mãe Bahia, terra de encantos, crenças e magias...
Carnavalesco: Adriana Freitas e Marcos de Oliveira    

15ª CORAÇÕES UNIDOS DO AMARELINHO
A vida é um jogo. E no jogo da vida eu sou o Rei!
Carnavalesco: Renato Bandeira    

16ª FAVO DE ACARI
Alegria! Alegria! Favo conta a história da folia, para tudo terminar na Quarta-feira
Carnavalesco: Nelson Costa

Grupo D - 07 de Março (Segunda Feira)


1ª ACADÊMICOS DO DENDÊ
Carnavalesco: Severo Luzardo

2ª MOCIDADE INDEPENDENTE DE INHAÚMA
Nem só de prata, nem só de ouro. Inhaúma revela seu tesouro
Carnavalesco: Edson Siqueira    

3ª IMPÉRIO DA PRAÇA SECA
A benção minha madrinha: Império Serrano
Carnavalesco: Marco Antônio e Raphael Heide    

4ª LEÃO DE NOVA IGUAÇU    

5ª IMPERIAL DE NOVA IGUAÇU    

6ª MOCIDADE UNIDA DO SANTA MARTA
Um brinde ao bicentenário do bairro de Botafogo
Carnavalesco: Jorge Kinaler    

7ª MOCIDADE UNIDA DE JACAREPAGUÁ    

8ª GATO DE BONSUCESSO    

9ª UNIDOS DO ANIL    

10ª DELÍRIO DA ZONA OESTE
Viajando na cidade de Nilópolis, delirando com a Beija-Flor. Um tributo à família David
Carnavalesco: José Ricardo Veríssimo    

11ª UNIDOS DE COSMOS
Do Reino das Águas de Monteiro Lobato ao ouro negro do pré-sal, Cosmos desvenda a saga do petróleo
Carnavalesco: Comissão de Carnaval    

12ª ACADÊMICOS DE VIGÁRIO GERAL    

13ª UNIDOS DE MANGUINHOS

Grupo E - 08 de Março (Terça Feira)


1ª CHATUBA DE MESQUITA
Do calor do carnaval, a Chatuba traz uma delícia glacial
Carnavalesco: Lino Sales, Alexandre Costa e Marcos Durval

2ª Unidos do Uraiti 

3ª UNIÃO DE GUARATIBA
Eu conto um conto e mostro um ponto. Com pó de pirlimpimpim a fantasia chegou. Monteiro Lobato, história sem fim
Carnavalesco: Renato Reis    

4ª UNIDOS DO CABRAL    

5ª INFANTES DA PIEDADE
Que rei sou eu?
Carnavalesco: Comissão de Carnaval    

6ª BOÊMIOS DE INHAÚMA
Vem quente que estou fervendo. A Boêmios é fogo!
Carnavalesco: Comissão de Carnaval    

7ª MATRIZ DE SÃO JOÃO DE MERITI    

8ª PARAÍSO DA ALVORADA    

9ª ARAME DE RICARDO
O Arame é fogo!
Carnavalesco: Ney Júnior    

10ª UNIDOS DE LUCAS    

11ª UNIÃO DE VAZ LOBO
Yabas, senhoras do tempo, deusas da natureza, mães dos nossos destinos
Carnavalesco: Eduardo Pinho    

12ª CANÁRIOS DAS LARANJEIRAS
Lugar de mulher é na história
Carnavalesco: Agnaldo Corrêa e Carlos Cavallieri 

Fotos: OBatuque.com. Pela ordem, Independente da Praça da Bandeira, Difícil é o Nome, Em Cima da Hora, e Leão de Iguaçú, respectivamente campeã e vice do Grupo C, campeã do Grupo D e campeã do Acesso E em 2010.

Informações sobre enredos e carnavalescos: Galeria do Samba

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Final de Semana - "100 Anos de Ataulfo Alves"



Já escrevi anteriormente a resenha da biografia do grande Ataulfo Alves, que se fosse vivo teria completado 100 anos no ano passado.

Pois semana passada comprei um cd duplo somente com músicas do grande artista, interpretado por grandes nomes da música brasileira. Não foi exatamente barato, mas traça um bom panorama da obra do genial, e muitas vezes esquecido, compositor.

Para o final de semana coloco, em gravação de Ataulfo Alves Júnior, três sucessos: "Atire a Primeira Pedra", "Leva Meu Samba" e "Ai que Saudades da Amélia", cujas letras coloco abaixo.

Bom final de semana. Mas o Ouro de Tolo não para.

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA  (1944)
(Ataulfo Alves / Mário Lago)

Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor 
Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor 
Eu sei que vão censurar o meu proceder
Eu sei, mulher que você mesma vai dizer
Que eu voltei pra me humilhar
É, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir 
Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor
Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor 
Perdão foi feito pra gente pedir
Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor 
Aquele que não sofreu por amor

LEVA MEU SAMBA
(Ataulfo Alves)

Leva meu samba
Meu mensageiro
Este recado
Para o meu amor primeiro

Vai dizer que ela é
a razão dos meus "ais"
Não, não posso mais

Eu que pensava
que podia lhe esquecer
Mas qual o que
aumentou o meu sofrer

Falou mais alto
no meu peito uma saudade
Mas para o caso
não há força de vontade

Aquele samba foi pra ver
se comovia o seu coração
Onde eu dizia:
Vim buscar o meu perdão

AI QUE SAUDADES DA AMÉLIA
(Ataulfo Alves / Mário Lago)

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Cinecasulofia - "Revendo clássicos: Fellini e Bergman"


Mais uma sexta feira e mais uma coluna "Cinecasulofilia", publicada em pareceria com o blog de mesmo nome. Como de hábito, texto de autoria do cineasta, crítico e professor de cinema Marcelo Ikeda.

"Vocês devem ter observado que ando com uma certa preguiça para escrever sobre filmes aqui neste blog. É verdade que tenho visto menos filmes, mas há algumas semanas em que uma única semana vi dez filmes, e não consegui escrever sobre um sequer. Mas aos poucos vamos tentando restabelecer a rotina e o rumo das coisas, já que este blog é acima de tudo um companheiro. Aproveitei para rever um conjunto de filmes “clássicos” que não os via há um bocado de tempo. Agora, como “professor”, estou tentando rever esses filmes para que eu possa dialogar com um certo sentimento de cinefilia que despertava em mim quando tinha meus dezoito anos, quando vi esses filmes pela primeira vez. Revi, nesse espírito, filmes como A Doce Vida e Oito e Meio, ou ainda, Persona e Gritos e Sussurros.

Dos quatro, o que mais me encantou foi sem sombra de dúvidas A Doce Vida. Acho esse filme um dos grandes filmes da história do cinema. Há várias coisas que me fascinam nesse filme. A primeira delas é a paixão de Fellini pelo ato de encenar, de filmar. É um filme sempre cheio de pessoas, cheio de movimento, cheio de tesão pelas circunstâncias práticas de filmagem, de decupar, de encenar, de dirigir atores, de pensar a arte, a montagem, etc. É um filme de produção nada trivial, cheio de sequências de festas exuberantes que Fellini resolve com grande maestria no que tange à encenação. Nesse filme de quase três horas de duração, claramente há várias cenas que poderiam ser cortadas, mas parece que Fellini não queria nunca parar de filmar, tamanha é sua paixão com a possibilidade de encená-las.

Acho A Doce Vida o filme mais maduro sobre “as dores e as delícias” de uma geração, e o fato de ter sido feito em 1960 mostra que Fellini é um visionário. A Doce Vida mostra a Itália recomposta do pós-guerra, num outro rumo cinematográfico em relação ao neo-realismo italiano mas ao mesmo tempo um certo desconforto com o rumo das coisas. O incrível do filme é a posição com que Fellini coloca o seu personagem, belamente composto por Marcello Mastroianni, uma posição de proximidade e distanciamento do rumo das coisas. Por um lado, Fellini vê com uma beleza as transformações sociais, culturais e sexuais de uma época, a agitação e o movimento das festas e dos encontros noturnos, uma diversão descompromissada, uma liberdade. Por outro lado, é claro como Fellini ao mesmo tempo demonstra uma consciência da futilidade, da superficialidade, da decadência dos novos-ricos e da classe média alta italiana, como esse mundo guarda em si inúmeras contradições. Para isso, Fellini escolheu observar de perto esse mundo através de um jornalista que circula por esse mundo de aparências e futilidades.

O personagem de Mastroianni não sabe bem o que quer, e nessa dúvida prefere viver o instante, o momento. Perde-se entre a bebida, as mulheres, o emprego, vê o tempo passar, e procura pelo menos se divertir com isso. O filme no entanto não tem um clima de denúncia crítica, ou um tom austero como os filmes de Visconti e Antonioni. Há um certo humor, há um charme e uma beleza nesse mundo de trivialidades. Isso faz com que o filme seja calorosamente humano, porque Fellini abraça as contradições, as dificuldades e as carências dos seus personagens. Não há vilões ou heróis. As pessoas têm dúvidas. As pessoas querem no fundo se esconder de si mesmas, não querem encarar de frente suas limitações, então preferem o mundo superficial das festas e da diversão do hoje.

Há uma enorme beleza em vários pequenos instantes de A Doce Vida. Acontece que esses momentos de beleza são sempre fugazes. O extraordinário título e a extraordinária sequência final (bela, fugaz) mostram que Fellini talvez tenha sido o cineasta que mais entendeu os desafios (e os fracassos) da sua geração, sabendo ver com generosidade e humanidade suas dificuldades. Ao mesmo tempo, o filme tem uma narrativa fragmentada, episódica, em que os eventos se sucedem de forma livre, compondo um painel ou um mosaico ricos, de forma que é possível pensar que esse filme representa para os anos sessenta em termos de narrativa o que Amantes Constantes é para o cinema contemporâneo, no sentido de observar os dilemas de uma geração através de um tempo que observa respeitosamente as dificuldades das pessoas e respira esse conviver através de uma narrativa mais relaxada e fragmentada. A diferença é que Fellini falava sobre o “hoje” enquanto Garrel fala de um evento mais de trinta anos depois (ou seja, não é profético).

Oito e Meio é um filme de enorme coerência dentro do cinema do Fellini, ratificando o autor como um dos mais importantes diretores europeus dos anos sessenta. A solidão, a futilidade de um mundo de aparências, o clima episódico, o tom de humor que tenta fazer mais palatável o indiscutível clima de melancolia, o personagem que “tem dúvidas e não sabe como agir”, o imenso tesão do diretor em encenar festas e eventos com diversas pessoas, tudo isso prossegue um projeto estético em continuidade com A Doce Vida. O que Oito e Meio se diferencia é um clima onírico, um fator pessoal (a memória), que complexifica ainda mais a narrativa fragmentada, um certo clima surrealista e fantástico, e, claro, a referência ao cinema, a dificuldade de fazer filmes pessoais respondendo a um certo modelo de produção. Oito e Meio precisa ser visto com O Desprezo, porque ambos tratam da mesma questão e feitos na mesma época: a dificuldade de um diretor fazer um filme dada uma certa estrutura de produção que o oprime.

Eu prefiro o filme do Godard, porque O Desprezo marca uma posição, uma posição do autor, através de uma posição de mise-en-scene, uma ética do mundo. A posição de Godard é uma posição moral: o fracasso do personagem no mundo do cinema reflete seu fracasso diante do mundo, seu fracasso diante da possibilidade de amar. Fellini tem mais “jogo de cintura”, é mais “relaxado” que Godard: ele “vai levando”, amaciando os confrontos e conflitos. O personagem de Fellini vai sobrevivendo, driblando a si mesmo, de mentira em mentira, por trás de seus óculos escuros. Os personagens de Fellini não são pessoas adoráveis; eles acima de tudo tentam sobreviver, e isso é não é nada trivial, embora pareça. Para tanto, é preciso humor, é preciso “não levar tão a sério as coisas para que você não enlouqueça”. Eles tentam esquecer que sofrem, tentam não se perceber disso. Há uma enorme dor por trás disso mas ao mesmo tempo há uma certa beleza do mundo. O tom com que Fellini consegue exprimir isso é muitas vezes fascinante.

Já Bergman é muito mais fechado para o que o mundo pode nos oferecer e é curioso ver como esse projeto de cinema hoje me interessa pouco, e que me interessava muito há quinze anos atrás. Por incrível que pareça, Glauber e seus asseclas do cinema novo tinham muita razão quando diziam que o cinema de Bergman era um “cinema velho”, que representava um passo atrás em relação ao que o cinema moderno representava. Hoje eu consigo entender isso muito bem. Não é que não sejam ótimos filmes. Mas são filmes bem “mais velhos” que os do Fellini, por exemplo. Por que? Porque são filmes fechados para o mundo, são “comprovações de tese”, enquanto o cinema contemporâneo é exatamente composto de filmes que se abrem de forma tamanha para o mundo que são filmes-vida, são documentários.

Vou tentar explicar melhor. Persona e Gritos e Sussurros são filmes sobre o encapsulamento. São filmes sobre pessoas que se fecham da vida em locais de retiro, e o contato com as pessoas sempre gera dor e desentendimento. As pessoas não conseguem dizer uma palavra à outra. Até aí tudo bem. Acontece que o próprio Bergman também encapsula o seu cinema de algumas possibilidades, ele se fecha diante do seu próprio processo, que ele domina e conhece à perfeição. Mas se torna um artifício forçado e pesado, com enorme esforço para se sustentar. Falta leveza e graça. Hoje, penso que o melhor filme de Bergman seja Morangos Silvestres, quando ele procura fugir de um cinema mais “complexo” e difícil.

O que me interessa no cinema do Bergman são questões de encenação, que ele resolve bem. A estranhíssima introdução de Persona e a bela introdução de Gritos e Sussurros com os planos do jardim, até chegar ao interior da casa com um direção de arte falsa, que dá um clima de claustrofobia e decadência muito caro ao filme. A famosa sobreposição da imagem das duas mulheres, a “entrevista” filmada duas vezes em Persona. A belíssima cena em Persona em que a enfremeira conta à mulher o acontecimento na praia (ela simplesmente fala, e só). A enorme cena em Gritos e Sussurros em que a mulher sangra sua vagina para não transar com o marido, e diz “tudo é um bando de mentiras”. O lindo final de Gritos e Sussurros, a serenidade dessa imensa dor que é viver. A estranha quebra em Persona quando tudo sai de foco. Etc. Embora o projeto de cinema do Bergman hoje me enfase um pouco, é sempre inspirador ver seus filmes para pensar em questões de encenação. Sem dúvida, Bergman foi um grande diretor. Bergman deve ter sido um nobre aristocrata que se lamentava sobre o mundo em sua casa da ilha de Faro, entre dois goles de vinho. Viveu com dignidade, fez um grande número de belos filmes, teve grande reconhecimento ainda em vida, mas no fundo não se arriscou muito.

A beleza dos filmes do Bergman me incomoda, porque não raramente me soa falsa.

Talvez um bom resumo dessa diferença entre Bergman e Fellini que eu estava apontando no post anterior é que o Bergman é magistral em abrir todas as portas que dão para dentro. 'Mas eu prefiro abrir as janelas pra que entrem todos os insetos'"


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os Porões da Ditadura



Esta semana o "Jornal da Record" está com uma série de matérias interessantíssimas sobre "os porões da ditadura militar". Ancorada pelo jornalista Rodrigo Vianna - dono do excelente blog "Escrevinhador" e do qual já republiquei textos um par de vezes aqui - a série especial vem mostrando uma história que os "donos do "poder" brasileiros insistem em esquecer.

Não vi infelizmente a reportagem de segunda feira, mas terça e ontem foram abordadas as relações de empresários com a repressão. Eram comerciantes, industriais e outros donos de meios de produção que apoiavam logisticamente a repressão e a tortura e se jactavam de suas amizades neste meio.

O envolvimento destes empresários era tamanho que muitas vezes ganhavam "patentes" militares, passando a serem conhecidos por estas alcunhas antes do nome.

Outra marca do envolvimento de empresários com a tortura é o fato de alguns destes terem sido condecorados com a "Medalha do Pacificador", a mais importante comenda do Exército. O Decreto 4.207, de 23 de abril de 2002 e que disciplina a concessão da medalha indica que ela pode ser entregue a, entre outros:

"V - aos cidadãos nacionais que hajam prestado relevantes serviços ao Exército; e

VI - às organizações militares e instituições civis, nacionais ou estrangeiras, que se tenham tornado credoras de homenagem especial do Exército."

Obviamente, naqueles tempos de chumbo o critério para se decidir o que eram "relevantes serviços ao Exército" era bastante diferente.

A série enfoca a vida de Joaquim Fagundes Rodrigues, empresário dono de uma transportadora - que possuía como única cliente a estatal Telesp, dirigida pelos militares - e que cedera o sítio "31 de Março" para o Exército torturar e assassinar opositores do regime. Notem que o nome da propriedade faz alusão à data escolhida pelos militares para marcar o aniversário do golpe de 1964, que, em verdade, foi no dia primeiro de abril - Dia da Mentira.

As reportagens estão indo ao ar desde segunda feira última, por volta de oito e vinte da noite, no Jornal da Record. Acima coloco a matéria de ontem, que mostra a amizade do empresário em questão com notórios torturadores.

Infelizmente não poderei ver ao vivo hoje, mas há reprises na Record News mais tarde e no portal R7. É uma iniciativa bastante oportuna, tendo em vista a recente decisão sobre a tortura e anistia proferida pelo STF - alvo de post à época.

Esta é uma história que temos de lembrar eternamente, por mais sórdida que seja. Para que não se repita.

Moeda Escritural e Moeda Real


Sexta feira última, como sempre faço, chequei minha carteira para saber se precisaria sacar alguns poucos caraminguás no banco e reparei algo que está mudando bastante a vida do ser humano: o cada vez menor manuseio de dinheiro em espécie.

Obviamente não falo de transações ilegais, de lavagem ou que não possam ser feitas via sistema bancário; estas continuarão a demandar grandes quantidades de valores em notas e até moedas.

Falo do cidadão comum, eu, você leitor, que tem seu emprego, seu salário e paga suas contas religiosamente.

O advento do cartão de débito diminuiu muito a quantidade de dinheiro necessária para o dia a dia. Juntamente ao cartão de crédito, e ambos sendo aceitos em praticamente todos os estabelecimentos, diminuiu muito a quantidade de moeda "real" que o cidadão deve portar em suas carteiras.

Na prática, o dinheiro só é utilizado mais fortemente hoje para pequenas despesas, daquelas que não se faz sentido pagar com o cartão de crédito ou débito. ou então na movimentação da economia informal, embora alguns camelôs, hoje, já aceitem cartões para pagamento. Até táxis começam também a aceitar esta forma, trazendo mais comodidade ao cliente.

Com isso, a necessidade do chamado "meio circulante" diminuiu no país, e o custo de impressão das notas, também. cada vez mais vemos o predomínio da chamada "moeda" escritural, puramente eletrônica.

O seu pagamento é depositado diretamente no banco por uma empresa que também faz uma transferência de recursos. Suas contas são pagas diretamente através destes recursos sem a necessidade de saques em espécie. Compras são feitas no cartão de débito eletrônico ou no crédito, desta mesma forma.

A moeda está se transformando em algo puramente escritural e eletrônico. Na prática, os reais que você tem depositados em sua conta bancária - vá lá, o limite de seu cheque especial - são direitos escriturais, garantidos em uma conta bancária e movimentados através de recursos da tecnologia de informação.

Ainda em comunidades mais pobres o uso da moeda "física" vem decrescendo. Até o Bolsa Família ou os benefícios da Previdência hoje são pagos via cartão de saque, e pode-se utilizá-los como um cartão de débito comum.

Outro meio de pagamento que tende a ser utilizado proximamente é o telefone celular. A Oi já tem um produto no qual o celular  - na prática, o chip - funciona como uma espécie de cartão de crédito, possibilitando seu uso como meio de pagamento. É algo que ainda não tem a capilariedade das administradoras de cartões de crédito, mas que pode vir a ser uma alternativa em um futuro não muito distante.

Como corolário do cada vez maior uso da tecnologia e da transformação de moeda real em moeda escritural, cai o uso do talão de cheques. Para quê usar cheques se eu uso o cartão de débito, com inadimplência zero ? Para o lojista é mais econômico, pois reduz o calote, e para o cliente aumenta a segurança - um pouco - em caso de roubo e em especial, de furto. Eu mesmo praticamente só utilizo meu talão para fazer meu donativo na Igreja, e olhe lá.

Ainda os pré-datados - invenção brasileira em tempos de crédito caro e escasso - também vem assistindo a uma redução de seu uso devido ao aumento da oferta de crédito por vias usuais nos últimos anos.

Evidentemente a utilização cada vez maior da moeda eletrônica torna mais fácil a administração da política monetária, pois é mais fácil colocar ou retirar títulos no mercado - respectivamente enxugando ou expandindo a base monetária da economia - de forma eletrônica do que imprimindo ou recolhendo notas em papel moeda. Base monetária é, grosso modo, a quantidade de dinheiro em circulação em suas mais diferentes formas na economia de um país.

Voltarei ao tema, mas peço aos meus 73 leitores que prestem atenção neste fato: a progressiva diminuição do uso do dinheiro em papel em nossas vidas.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Mr. Beer and Miss Wine: "Sobrevivendo em Festas"


A partir de hoje temos uma nova coluna às quartas feiras, a "Mr. Beer and Miss Wine". Escrita pela historiadora e dona de empresa de eventos Thatiane Manfredi, amiga de muitos anos, trará algumas dicas sobre festas, gastronomia, etiqueta e todos aqueles assuntos que as mulheres dominam (muito) melhor que o dono deste blog.

A coluna entrará em substituição à "História & Outros Assuntos", que entra em recesso até o final do ano devido aos preparativos da dissertação de mestrado do colunista Fabrício Gomes. Aproveito para agradecer e informar que poderemos ter textos avulsos da coluna dependendo da disponibilidade.

"Mr. Beer and Miss Wine" irá revezar com a "Formaturas, Batizados e Afins", sobre Ciência e Tecnologia, às quartas feiras.

Sobrevivendo em Festas

"Todos nós, um dia, cometeremos gafes que com certeza acharemos imperdoáveis, mas a ideia é manter a calma, mudar de assunto e deixar fluir o momento até que ninguém mais esteja olhando para você. Pode levar uma eternidade, mas esse momento vai chegar.

Para tentar diminuir esse inconfortável tempo de bochechas vermelhas, vale a pena seguir algumas das sugestões que serão apresentadas nos próximos parágrafos. Ninguém é perfeito! Todos sabemos disso, um mais que os outros a bem da verdade; mas se seguirmos essas dicas podemos chegar um pouquinho mais perto do Paternon.

Imaginemos que você tenha sido convidado a uma recepção na casa de um conhecido. A primeiríssima coisa a fazer é ligar, enviar um email, sinal de fumaça ou qualquer outra coisa agradecendo ao convite. É de bom tom e super simpático. De preferência já confirme ou decline a sua presença. Só quem faz alguma recepção ou festa sabe o quanto é importante a confirmação de seus convidados. Tudo na vida é planejamento, caros leitores! Tudo!

Chegou o grande dia.

Por gentileza, não se atrase. O atraso é um costume latino, a famosa cultura do “ninguém gosta de ser abre festa”. Antes de pensar dessa forma tão egocêntrica, pense nos anfitriões que estão prontos e esperando por você há horas. Tenha por eles o mesmo respeito e educação que eles tem por você. Lembre-se, um dia todos nós poderemos ser anfitriões e passaremos pelos mesmos momentos de angústia e ansiedade esperando pelos  “atrasildos”.

É um gesto simpático levar alguma lembrança aos donos da casa em troca da gentileza em ter aberto suas portas. Flores para a senhora,  chocolates finos, uma garrafa de um bom vinho ou um pet de cerveja  são exemplos - lembre-se: o presente é para os donos da casa e eles não são obrigados a servir para os convidados. Então, se você quer beber o vinho ou comer o chocolate, faça-o em um outro momento! E se você é o anfitrião, lembre-se sempre da máxima: “cavalo dado não se olha os dentes.” Cada um dá aquilo que pode, combinado?

Normalmente os convites já vem com todas as informações necessárias sobre o evento, principalmente o motivo e o que será o evento. São inúmeras variações, aqui nos ateremos somente às mais usuais - em outras oportunidades aprofundaremos o assunto. Se você foi convidado a um coquetel saiba que coquetel possui, no máximo, 3 horas de duração. Não é para você ficar sem comer o dia inteiro e tentar acabar com a comida da festa. Aliás, isso não deve acontecer em hipótese alguma, certo! Exceto as meninas, que estão sempre de dieta e que ficaram o dia inteiro sem comer  para poder entrar no vestido...

Comporte-se com relação à bebida. Hoje em dia o rigor das autoridades é muito grande com relação a bebida e direção. Então vale sempre lembrar: se dirigir, não beba. E se você está em um ambiente de pessoas desconhecidas, não queira ficar conhecido como o cara que bebeu todas e perdeu a linha, não é? Até entre amigos essas coisas também existem regras, vamos colaborar, ninguém merece carregar amigo em estado de alto teor etílico. Informação importante: segure a taça pela haste, assim é mais elegante e não esquenta sua bebida. E abaixem seus dedinhos mindinhos...

Durante o coquetel, sirva-se dos comes e bebes pegando-os com a mão. O guardanapo serve para limpar a ponta dos dedos. E não é bonito servir-se do último salgado que restou na bandeja, aguarde a reposição - virá mais fresquinho do que aquele que está rodando na bandeja faz tempo.

A recepção já está acabando? Se você não possui intimidade de mais de 10 anos com a pessoa, nada de tirar da bolsa ou pedir um potinho ou um saquinho para levar comida para casa. Existem certas coisas que a gente só se permite fazer na casa de parentes de primeiro grau ou quando nós éramos adolescentes e pedíamos “um pedaço de bolo para a mãe”. Não é falta de educação declinar da oferta de levar bolo para casa, a não ser quando a anfitrã insista de forma a te constranger na frente dos outros... Abra um sorriso, aceite e agradeça.

Lembre-se sempre que é super simpático agradecer no dia seguinte ao dono da festa pela agradável noite. Mesmo que você tenha detestado, que tenha ido obrigado, que tenham sido impostas sanções econômicas a você . Agradeça ao anfitrião e coloque a disposição sua residência à visita dele, mesmo que você nunca mais queira ver o sujeito na sua frente.

Enfim, educação, gentileza e amabilidade são as palavras chaves da boa convivência.

Algumas dicas de etiqueta nunca são dispensáveis em um mundo globalizado em que vivemos. As misturas de culturas estão cada vez mais presentes e as relações interpessoais cada vez mais estreitas; fazendo com que todos nós um dia possamos a passar por todas as situações com muita finesse, mesmo que venhamos a cometer gafes. Mas é parte do jogo, faz parte da vida.

Viva!"

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Barbárie Israelense


As fotos que publico aqui são da ex-soldado israelense Eden Abergil com prisioneiros palestinos, tiradas em 2008 em uma base militar israelense próxima a Gaza, colocadas em sua página em um site de relacionamentos e reproduzidas por um jornal local.

Penso que reproduzem exatamente o tratamento dispensado pelos judeus aos palestinos, sobre os quais já discorri neste texto escrito quando da invasão de navios que levavam ajuda humanitária a Gaza. Humilhação, domínio e lento extermínio.

Na verdade nem culpo a moça por seu comportamento brutal. Na prática ela é produto de um sistema que incute nos soldados e nas pessoas a idéia de que palestinos são seres inferiores. O velho e odioso racismo.

Notem que os prisioneiros estão vendados e, na foto de cima, com as mãos amarradas. A ex-militar alega que deu de comer e beber aos presos e que estes não sabiam que estavam sendo fotografados. Ainda se queixa de que "não fez nada de errado" e questiona a postura do comando do exército israelita.

Lembro aos leitores que as mulheres, em Israel, passam por dois anos no Exército obrigatoriamente.

Lamentável.


(Fotos: O Globo)

Samba de Terça: "Carnaval, Doce Ilusão. A Gente se Vê Aqui no Meio da Multidão: 20 Anos de Liga"



Nosso "Samba de Terça" de hoje não enfoca um samba inesquecível ou que tenha sido um desfile daqueles de nunca se olvidar. Entretanto, é um exemplo acabado das transformações que os desfiles sofreram e do quão prejudiciais podem ser estas transformações.

O ano é 2005. A Caprichosos de Pilares, escola conhecida pela irreverência em seus enredos e sambas, viria com um samba sobre a reciclagem. Aliás, este é um tema que volta e meia aparece em escolas de grupos menores por ter fácil execução, mas seria a primeira vez em que passaria no Grupo Especial.

Entretanto, em meados de setembro devido a uma decisão judicial a escola realiza novas eleições para a Presidência. Paulo de Almeida foi eleito com 25 votos, contra 10 de seu adversário - o então Presidente Alberto Leandro. Estes números, a propósito, mostram bem como é fechado o núcleo de decisões em uma grande escola: apenas quarenta pessoas tinham direito a voto naquela ocasião.

Ao assumir a escola, o novo presidente solicitou à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) que fosse trocado o enredo. O carnavalesco Cahê Rodrigues foi demitido e substituído por Chico Spinoza; bem como o puxador Jackson Martins, assassinado em circunstâncias até hoje mal explicadas em agosto daquele ano, por Serginho do Porto.

O enredo proposto para 2005 em substituição à reciclagem foi "Carnaval, Doce Ilusão. A Gente se Vê Aqui no Meio da Multidão: 20 Anos de Liga", que homenageava os 20 anos da Liga Independente das Escolas de Samba completados no ano anterior.

A proposta era relembrar grandes carnavais do período administrado pela Liesa, bem como bons momentos da história recente da história. Nas palavras da sinopse:

Sinopse:

"Carnaval doce ilusão / Dê-me um pouco de magia / de perfume e fantasia e também de sedução / quero sentir nas asas do infinito / minha imaginação..." A Caprichosos de Pilares pede licença ao poeta Silas de Oliveira e usa seus versos imortais como base de inspiração para o seu carnaval de 2005.

Há 21 anos, era criado um palco fixo para a realização do carnaval carioca: o Sambódromo. Um ano depois, um grupo de sambistas fundava a Liga Independente das Escolas de Samba. A intenção desses visionários era criar uma entidade que lutasse pelos direitos das Escolas de Samba.

A iniciativa deu certo e, ao longo de 20 anos, o que podemos acompanhar foi um crescimento forte do maior espetáculo audiovisual do planeta. As escolas desfilam por esse imenso palco de ilusões, disputando, quesito a quesito, o lugar mais alto do pódio. O carnaval tornou-se um verdadeiro jogo de xadrez, no qual a agremiação que for mais inteligente e que melhor movimentar suas peças leva o troféu. Não importa se ela é pequena ou grande, mas sim como se prepara para o jogo.

O povo, que nessa folia vive a magia de esconder atrás das máscaras as amarguras do dia-a-dia, muitas vezes não tem condições de brincar nesse palco, então se espalha pela concentração e tenta acompanhar os desfiles da margem do Mangue, do alto do viaduto ou espremido nas barracas, através de televisores. A televisão, com sua força e poder, tornou-se o vínculo de aproximação entre as comunidades carentes e suas agremiações.

Esse povo, que ano após ano se encontra no carnaval, que revive nas fantasias reis e rainhas, personagens históricos e imaginários, que unidos nas arquibancadas são muitas vezes responsáveis pelo verdadeiro sucesso de algumas agremiações, criou musas e mitos. Diversos anônimos entraram na passarela e tornaram-se figuras reconhecidas e populares. A Caprichosos tem a honra de ter posto pela primeira vez na passarela uma modelo que, 18 anos após, seria considerada a maior musa que já existiu na história da Passarela do Samba. Luma de Oliveira pisava na Sapucaí pela primeira vez no carnaval de 1987, fazendo top less, à frente dos ritmistas da Caprichosos de Pilares.

Um dos mais fortes mitos é o "gênio da criação", Joãozinho Trinta. O mago maranhense encanta o público e faz delirar a todos que acompanham seus trabalhos. Ele se encontrou com o povo e fez das paixões desse povo sua principal fonte de enredos. Com "O Mundo é uma Bola" propôs na avenida uma verdadeira pelada nacional. A Beija-Flor jogou debaixo de um forte temporal, e mesmo assim sobrou na avenida, dando um banho de samba em 86.

Sua aclamação veio três anos depois. Em 1989 com o desfile do Luxo e do Lixo se encontrou de vez com o povo que sempre defendeu. Num momento de humildade, vestiu-se de gari e brincou o carnaval como um simples folião.

A Caprichosos, ao longo da sua trajetória, marcou o público com seus desfiles polêmicos e criativos, recheados de irreverência. Foram personagens e histórias que para sempre ficarão na história do carnaval. Como esquecermos da Cabrocha Lilli, da luta entre o Canariquito e o Sandrácula, dos políticos corruptos que sempre criticamos ou de pivete de 1993, manchete de todos os jornais. Foram temas do povo cantados pelo povo.

Nesses 20 anos de Liga, o que se pôde perceber foi uma fusão entre escolas de samba e o seu público. A Sapucaí balançou com desfiles empolgantes como o Ita do Salgueiro em 93, a Paulicéia da Estácio em 92, o Bi da Mocidade em 90 e 91, a Kizomba de Vila Isabel em 88 e, num momento de ápice, o povo desceu as escadarias para acompanhar de perto o Braguinha da Mangueira em 84.

O público fez a sua parte e as agremiações também. O desfile ganhou ares de técnica e perfeição. Uma figura polêmica, porém muito divertida, surgiu tornando-se a maior campeã da passarela do samba - Rosa Magalhães. Com seus desfiles tecnicamente perfeitos, a carnavalesca tornou-se a pessoa mais discutida dessa festa. Quando surgiu no Salgueiro, através das mãos de Pamplona e Arlindo, a carnavalesca não previa o que a aguardava.

Rosa é como um bom vinho ou wisky, com o passar dos anos vai ficando melhor. Sua Catarina de Médicis, com os leques e luxo barroco, marcaram para sempre o palco das ilusões.

Nesta noite de esplendor, a Caprichosos debocha de tudo, resgata sua essência, sua veia crônica e traz de presente para a Liga um pouco da história desse que mistura realismo e imaginário nos últimos 20 anos. Venham conosco, vistam suas fantasias, sejam o que quiser. Vamos nos encontrar mais uma vez e juntos celebrar nesse arrastão da ilusão.

Chico Spinoza

"Um samba pra brincar"
Autor: Chico Spinoza
Parceria: Grandes Compositores da Passarela do Samba

Vou vivendo o dia-dia
Embalado na folia
Do meu carnaval
Um jeito novo
De fazer meu povo delirar
Sou da vida um mendigo
Da folia eu sou Rei
Vem menininha pra dançar o cachambu

Moça bonita aqui não paga
Pisa na casca de banana e escorrega
Aqui não paga, mas também não leva

Me dê, Me dá, Me dá, Me dê
Onde você for eu vou com você
Ajoelhou tem que rezar
Quem comeu. Comeu
Quem não comeu, não come mais

Bota, bota, bota fogo nisso
A virgindade já virou sumiço"


Com o curtíssimo tempo para a disputa de samba enredo - o final de outubro é o prazo limite para a escolha das composições, devido aos prazos de produção do CD anual - a opção foi dividir os componentes da Ala de Compositores da escola em três parcerias e resumir o concurso à final, com uma única apresentação. 

Também foi decidido que todos os compositores da ala dividiriam os direitos autorais daquele ano - um valor que gira em torno de R$ 200 mil - entre si, independente do samba que fosse escolhido.

O samba escolhido retornava à tradição da escola de sambas irreverentes e críticos, que havia feito a fama da escola na década de oitenta e progressivamente abandonada nos anos seguintes, em busca de se adaptar aos "novos e empresariais tempos" do carnaval.

Pois é.

É normal um samba vencedor sofrer pequenas alterações de letra - e, mais raramente, de melodia - a fim de se adaptar às necessidades de desfile ou do canto e da dança dos componentes. É algo corriqueiro e algumas vezes necessário, ainda mais neste modelo anômalo de escolha onde muitas vezes vence a parceria mais rica ou poderosa na escola, e não a que fez a melhor composição.

Só que o samba em questão foi totalmente modificado a fim de torná-lo "politicamente correto". Mais da metade dos versos foi alterada e passagens inteiras do samba tiveram seu sentido completamente invertido. O que era uma engraçada crítica se tornou um pastiche, com uma letra igual a de milhares de sambas a atenderem exigências de patrocinadores e que são esquecidos imediatamente após o Desfile das Campeãs.

Para o leitor ter uma idéia, publico abaixo a letra original do samba e o que foi para a avenida após as modificações:

Samba Concorrente:

Autores: J.L. Froes, Danoninho, Edmar, Jorge 101, Fernando Lima, R. França e Lee Santana

"Hoje é Carnaval, vem se encontrar
Chegou a hora
Vamos recordar e ver também
Bumbum de fora
No me dê, me dá
Caprichosos brinca com você
Ajoelhou, tem que rezar
Olha aí, tem tititi
De novo na Sapucaí
Eu ouvi alguém gritar:
Bota fogo nisso
A virgindade já levou sumiço

Pisa na casca de banana e escorrega
Mulher linda não paga, mas também não leva
Olha o bumbum paticumbum prugurundum emocionou
Nessa kizomba, viu, nada mudou


Carnaval sedução, palco de ilusão
Vista sua fantasia
Povo e liga se abraçam, 20 anos se passam
Meu samba caiu na folia
A grana que a vovó guardou no colchão
Comprou a taça do ladrão
Parabéns, palmas para os sambistas
Carnavalescos, artistas
Sem vocês não tem show
Não vai dar pra terminar
Esse samba de primeira
Um pivete bateu minha carteira

É Carnaval, tudo é muita doideira
Mulata, cachaça e samba a noite inteira
Vem cá, meu bem, me dê seu coração
A sua bolsa, o relógio e o cordão"

Samba Oficial, após as alterações:

"Hoje é carnaval
Vem se encontrar, chegou a hora
Vamos recordar e ver também bumbum de fora
No 'me dê, me dá'
Caprichosos brinca com você
Ajoelhou tem que rezar, olha aí tem ti-ti-ti
De novo na Sapucaí
Eu ouvi alguém gritar: bota fogo nisso
A virgindade já levou sumiço.

Pisa na casca de banana e escorrega
Moça bonita aqui também não leva
Bumbum paticumbum prugurundum nos avisou
Nessa kizomba, viu, tudo mudou


Carnaval, sedução, palco de ilusão
Vista sua fantasia,
Povo e Liga se abraçam, 20 anos se passam
O Ita foi só alegria
A Rosa que desabrochou campeã
Numa explosão de amor ! ( Parabéns )
Parabéns, palmas para os sambistas
Carnavalescos, artistas, sem vocês não tem show
Não vai dar pra terminar, eu "tava" de bobeira
Um pivete bateu minha carteira

É carnaval, tem samba a noite inteira
Mulata, cachaça e muita zoeira
Vem cá meu bem, me dê seu coração
E não a bolsa, o relógio e o cordão"

Como percebem, os dois refrões tiveram seu sentido alterado - um alertava sobre os rumos do carnaval e o outro, a violência na cidade - e diversos versos também sofreram modificações a fim de tornar a composição "politicamente correta".

As duas partes do samba sofreram mudanças em praticamente todos os versos. Não é exagero dizer que é um outro samba, embora a melodia tenha se mantido intacta.

E somente ficou a referência ao pivete por lembrar um episódio polêmico da história da escola - no ano do enredo sobre o subúrbio, o abre alas representava um assalto na Zona Sul da cidade. A idéia era mostrar que o subúrbio era a terra da tranquilidade no Rio de Janeiro. "Coincidentemente", a escola foi rebaixada, mas vieram à tona gravações telefônicas indicando manipulação de jurados e o descenso foi anulado.

É um bom exemplo da progressiva pasteurização dos sambas, aprisionados em disputas onde quase sempre vence o mais rico ou o mais poderoso, em enredos que muitas vezes não passam de panfletos publicitários ou "jabás" e no equivocado direcionamento ao turista dado pela Liesa - que, com a omissão do poder Público e seu poder fiscalizador é a virtual dona da festa.

Aqueles que tentam fugir a este padrão - que está matando os desfiles, a meu ver - são imediatamente "podados", ou na disputa ou em um caso extremo como este. O samba foi mutilado.

A Caprichosos foi a segunda escola a desfilar na segunda feira de carnaval, 07 de fevereiro de 2005. Em que pese o prazo extremamente curto para a confecção do desfile, fantasias e alegorias, embora simples, contaram o enredo a contento.

Ressalte-se que, no final das contas, o desfile acabou se transformando em uma louvação aos donos do poder carnavalesco, a Liesa. Não é culpa da escola, mas é o modelo patrimonialista de poder que o nosso carnaval vive até hoje. Moderno em alguns aspectos, na Idade da Pedra em outros.

No fim das contas a escola obteve 386,3 pontos e, com o décimo primeiro lugar, alcançou o seu objetivo: não ser rebaixada. Nem poderia, em um ano onde a Portela fez o pior desfile de sua história - qualquer dia conto esta história aqui - e a Tradição conseguiu ser ainda pior.

No início do texto há o vídeo com um trecho do desfile, e aqui você pode baixar o samba em sua versão ao vivo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Serra, quatro milhões de reais e o Caixa Dois


Sem dúvida alguma, o assunto palpitante da política neste último final de semana foi a matéria da revista "Isto É" dando conta de que um dos chamados "caixas" da campanha presidencial de José Serra (PSDB) simplesmente sumiu com R$ 4 milhões arrecadados para a campanha do candidato.

Entretanto, segundo a matéria o sumiço do dinheiro não pode ser denunciado à Polícia por serem recursos destinados a "Caixa 2" da campanha - o que é ilegal.

O tesoureiro em questão, Paulo Vieira de Souza (foto acima) - também conhecido como "Paulo Preto" - até abril ocupou posição estratégica na administração pública paulista, como diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A), estatal paulista responsável por grandes obras viárias - como o Rodoanel. Sua posição era estratégica porque tinha contato com diretores de grandes empreiteiras, que, como sabemos, são sempre grandes doadoras de recursos para as campanhas. Já expliquei isso aqui antes.

O desvio de recursos foi descoberto quando a primeira planilha de arrecadação entregue ao Tribunal Superior Eleitoral mostrou que Serra tinha apenas um terço do valor arrecadado pela candidata do PT, Dilma Roussef. Como o PSDB tem bom trânsito junto a grandes empresários pelo seu histórico de defender seus interesses quando no poder, foi feita uma consulta a grandes empresas. E todas afirmaram que fizeram doações a "Paulo Preto".

Como é dinheiro doado sem origem declarada, o partido sequer pode denunciar o tesoureiro à Justiça - pois configuraria "Caixa Dois", o que é ilegal e pode até levar à cassação da candidatura. O discurso oficial é de que ele não estaria autorizado a recolher doações de campanha, mas próceres do partido admitem que ele tinha bom trânsito junto a empresários, segundo a matéria.

Paulo Vieira já vinha sendo acusado de achacar empreiteiras durante seu trabalho na Dersa, mas por ser homem de confiança do então Secretário da Casa Civil e hoje candidato ao Senado Aloysio Nunes Ferreira foi mantido no cargo até a saída de José Serra do governo paulista.


Sabe-se que a campanha presidencial de Serra encontra problemas financeiros, em especial para fortalecer as campanhas de aliados regionais. Há pouco tempo, o candidato ao governo do Rio de Janeiro Fernando Gabeira recorreu a Serra a fim de receber recursos destinados à campanha e recebeu uma negativa.

Este suposto desvio de recursos trará outro problema à campanha do candidato: empreiteiras, instadas a colaborar, podem alegar que entregaram recursos a Paulo Vieira - e este sumiu com os mesmos. Segundo a reportagem, o partido teria uma dívida com o arrecadador, e a retenção dos recursos seria uma forma de "pagamento".

Este caso, independente de seus desdobramentos, deixa claro que o financiamento público de campanhas tem de ser adotado no Brasil. É preferível se separar uma verba transparente, que sabe-se como será utilizada, para uma prestação de contas correta, do que o modelo atual onde grandes empresas contribuem e esperam algum tipo de "retorno' se o candidato for eleito. Este retorno vem em forma de obras ou serviços estatais, muitas vezes a preços bastante acima do mercado.

Uma ressalva importante: é normal que a administração pública pague um valor um pouco superior por bens e serviços, porque há um prazo considerável entre a realização do serviço e seu pagamento. Na prática paga-se uma "taxa de juros" devido a esta dilatação do prazo. O problema é quando este diferencial é elevado demais, sinal de que há problemas na contratação.

Da forma que está agora, facilita-se a troca de favores entre empresas e políticos e chega-se a situações como esta que descrevo neste post.

Finalizando, convido os leitores a uma reflexão: você votaria em um candidato em que o próprio tesoureiro desvia R$ 4 milhões da campanha ? O que faria este partido tendo acesso aos recursos financeiros do Estado?

É para se pensar.

domingo, 15 de agosto de 2010

José Serra, os sotaques e as falácias


A grande notícia na esfera blogueira brasileira na última semana foi a volta à ativa de "O Biscoito Fino e a Massa", mantido pelo Professor de Literatura Idelber Avelar.

Sempre com textos bem escritos e que fomentam o debate, é visita indispensável àqueles que querem formar opinião sobre os fatos e tendências brasileiras.

Reproduzo aqui, fechando o domingo, texto publicado sobre a alegação do candidato presidencial José Serra de não responder a perguntas de repórteres por "não entender o que eles falavam devido ao sotaque". Originalmente de "O Biscoito Fino e a Massa", reproduzo aqui. Entretanto, o blog merece e muito uma visita detalhada.

"José Serra mente até sobre sotaque

Evidentemente, a última coisa que um professor de línguas/literatura, não importa de que posição política, deve fazer com as recentes declarações de José Serra — de que “não entende” sotaques em Minas Gerais, Goiás e Pernambuco — é acreditar nelas. Sim, porque a afirmativa de que é possível que um brasileiro alfabetizado como Serra viaje pelo Brasil e tenha problemas de comunicação oral, por culpa de variações dialetais do português brasileiro, é uma afirmativa comparável a “Serra criou os genéricos”, ou seja, trata-se pura e simplesmente de uma mentira, encapada, como outras, com uma camada de típico preconceito classista da República Morumbi-Leblon.

Isso não existe no Brasil. Serra estava mentindo. Vamos à sociolinguística elementar que nos permite mostrar por que ele estava mentindo.

Claro que estão certos os colegas acadêmicos mineiros entrevistados na matéria de Juliana Cipriani para o Estado de Minas: variações dialetais existem e um ato de comunicação aqui ou acolá pode tropeçar nessas variações, em combinação com o ruído do ambiente e outros fatores. Mas a afirmativa de que possa existir uma dificuldade sistemática, genuínos problemas de compreensão oral de um brasileiro viajando pelo país é um disparate. O brasileiro comum sabe disso intuitivamente, não é necessário ser da área de Letras. Quando Serra alega incompreensão de sotaque, ele está combinando uma mentira com um preconceito, uma desculpa esfarrapada para não ouvir o outro acoplada à real crença — real, ainda que amparada numa mentira — de que o outro não tem nada de importante a dizer.

Por mais que um alemão possa testemunhar que a variação dialetal da Bavária lhe causa problemas de compreensão, ou por mais correto que seja supor que um cidadão dos cafundós do Alabama e alguém do norte da Escócia, falando a “mesma” língua inglesa, poderiam não se entender, no Brasil isso não existe. Se há uma coisa que distingue o Brasil de outros países de extensão comparável é a sua assombrosa unidade linguística (com “unidade” aqui, claro, o único que se quer dizer é que todos falam, com incontáveis variações sócio- e idioletais, reconhecidamente a mesmíssima língua). Se você é falante nativo de português nascido no Brasil, a afirmativa de que “não entenderá” o sotaque de tal ou qual lugar é uma patacoada. É como aquele brasileiro que sai “para a América” e um ano depois diz que “esqueceu o português”.

Por isso, a segunda coisa que um professor de línguas/literatura não deve fazer com a afirmativa de Serra é ceder à tentação de dar-lhe lições de sociolinguística do português brasileiro e passar-lhe um atestado de ignorância. É verdade que a República Morumbi-Leblon continua não sabendo nada de Linguística, mas aqui não se tratava de ignorância. Era má fé mesmo, no seco."

O suicídio da velha mídia


Domingo, dia de repercutir bons textos, como de hábito.

Um dos assuntos mais importantes da semana foi a escandalosa demonstração de parcialidade dado pela Rede Globo de Televisão no episódio das entrevistas dadas pelos principais candidatos à Presidência ao jornal Nacional.

A diferença de tratamento entre José Serra e os demais, e as perguntas feitas mostraram claro que a televisão - e, é bem verdade, a grande mídia - jogaram às favas o dever de informar e mergulharam de cabeça na campanha do presidenciável tucano.

Reproduzo aqui texto do jornalista Luis Nassif, publicado em seu blog, no qual ele analisa os fatores de tal postura e o que se pode esperar do mercado jornalístico em caso de vitória da candidata petista, Dilma Roussef.

Boa leitura.

"Em 2006 já falava aqui no suicídio da mídia, quando decidiu transformar a queda (ou derrota) de Lula em guerra santa.

O que houve ontem, no Jornal Nacional, comprova que não há limites para a insensatez.  A entrevista de Serra não mudará o panorama eleitoral. Dilma continua favorita.

Mas suponhamos que a armação desse resultados, invertesse o jogo e colocasse Serra como favorito. O que ocorreria com a opinião pública? Haveria apenas críticas, a bonomia do governo, Dilma convidando o casal para jantar? Claro que não: haveria comoção popular, uma guerra sem quartel.

Há muito a velha mídia atravessou o Rubicão da prudência.

O que está em jogo, da parte dela, é a montagem de uma barricada para impedir a invasão estrangeira do setor por empresas de telecomunicações e grupos de mídia.

No começo, recorreu à estratégia clara (e imprudente) de tentar derrubar Lula – ou fazê-lo sangrar – e apoiar um candidato que viesse comer na mão e ajudasse a barrar a invasão estrangeira.

Apostou e perdeu em 2006, apostou e perderá em 2010. Nem com todo apoio, o campeão branco, José Serra, logrará vencer.

Passadas as eleições, a velha mídia terá que encarar seus demônios. E é evidente, depois de ela ter avançado ainda mais no pântano da interferência política, que o objetivo maior do próximo governo será acabar com os privilégios, com o monopólio da informação, com o último cartório da economia.

E quem vai apoiá-la?

Essa postura arrogante, quase golpista, rompeu qualquer laço de solidariedade com setores nacionais. A velha mídia era temida por muitos setores empresariais da economia real. Hoje é desprezada.

Não haverá apoio de grandes grupos econômicos, porque a guerra não é deles. E são grupos que já aprenderam a montar grandes parcerias com empresas internacionais. Uma coisa é inventar fantasmas de Farcs, Moralez, Fidel, essas bobagens sem fim. Outra é convencer os aliados de hoje que Telefonica, grupos portugueses, Pisa e outros que estão entrando representam interesses do Foro São Paulo.

Das multi? Só faltava as multinacionais, que na Constituinte conseguiram equiparação com as nacionais no setor real da economia, ampararem qualquer tentativa de criar cartórios na mídia.

Para os políticos, há muito a velha mídia é fator de risco. Sabem que elogios ou acusações estão submetidos a jogos de interesses empresariais. Preferem o diabo a uma imprensa cartelizada e exercendo o poder de forma ilimitada, como foi nas últimas duas décadas.

Para o mercado financeiro, nem pensar. No máximo acenam com possibilidades futuras de parcerias, mas de olho em apenas um ativo da velha mídia: o poder de influenciar mercado e governos. E esse ativo está sendo gasto rapidamente com a perda de qualidade e de influência dos jornais, o envolvimento permanente com factóides e o descolamento da parcela majoritária de opinião pública.

Por acaso pensam que investidores técnicos irão investir em setores com baixa governança corporativa e baixa rentabilidade?

As manifestações de Otávio Frias Filho – citando Rupert Murdoch como exemplo -, a associação da Abril com a Napster, mostram que tentou-se aqui, tardiamente, a mesma fórmula empregada em outros países. Trata-se de utilizar o poder político da mídia, antes que acabe, para pavimentar a transição para a nova etapa tecnológica.

A questão é que, com exceção da Globo, nenhum grupo tem condições de ser dominante na nova etapa, porque nenhum grupo pensou estrategicamente na travessia, mas apenas em barrar futuros competidores.

É fácil prever o futuro desses grupos nos próximos anos.

A Folha será salva pela UOL, mas como grupo econômico. Jamais a UOL conseguirá um décimo do poder político que a Folha deteve nos anos 90 e 2000.

A Abril não tem plano de vôo. Queimou a ponte quando abriu mão da BOL e da TVA.

Sabe que seu carro-chefe – a Veja impressa – está em queda livre. O mercado estima uma tiragem real de 780 mil exemplares – contra os 1,1 milhão apregoados pela mídia. Quando os clientes de publicidade exigirem um ajuste nos valores cobrados, proporcional à queda real das vendas, a Abril entra em sinuca.

Para enfrentar os novos tempos, fez investimentos maciços no portal Veja, que é um equívoco sem tamanho. Ora, a editora sempre teve a cultura da publicação semanal, quinzenal ou mensal. Jamais trabalhou sequer com a informação diária. Sei na prática o choque cultural que é passar do padrão semanal para o diário. Agora, ela quer do nada criar um portal com notícias online, sem prática e entrando em um mercado em que já existem serviços online consolidados, como o G1, UOL, Terra, IG. Não será sequer mais um. Será menos um.

A compra do Anglo com recursos pessoais dos Civita mostra claramente que, cada vez mais, deixará a operação midiática para os sul-africanos e se salvará em novos negócios – como os da educação – onde o poder de fogo da revista permita ganhos indiretos junto ao poder público.

O Estadão tem a melhor estratégia multimídia (depois da Globo), mas é um grupo à venda e sem fôlego financeiro, definitivamente preso aos conflitos familiares. Manterá um jornalismo de nicho, bem construído, trabalhando seu público mais conservador e de bom nível. Mas sem grandes vôos e sem influência política.

Nesse quadro, restará apenas a Globo, cercada de inimigos por todos os lados e perdendo a cada dia legitimidade e alianças.

É um pessoal bom de jornalismo. Com exceção do inacreditável O Globo, tem jornalismo de primeira na CBN, na Globonews, no G1 e posição dominante na TV aberta, apesar de toda a parcialidade do grupo de Kamel.

Mas, graças à miopia dos sucessores e às loucuras de Ali Kamel, será cada vez mais alvo das invasões bárbaras, seja da Record, seja grupos de fora, seja de todos os inimigos que acumulou nesses anos de arrogância cega.

O jogo acabou. Agora começam as apostas para o novo jogo que virá pela frente."

sábado, 14 de agosto de 2010

Sem Coordenação


"Limpeza, incerteza, dia a dia
Sabia entretanto destino derradeiro
Carneiro, velório, casa eterna
Caserna aprisionada orgulhosa sensação
Coração empredernido finalmente repousa
Mariposa esvoaçante o sentimento leva
Leva de emoções finalmente libertas
Abertas comportas, fuga da solidão.

Lição emoldurada, colorida parede
Rede de volúpias represadas à frente
Tente controlar volúpia aprisionada
Nada tem poder de racionalizar
Apagar luxúria, campo do pensamento
Lamento poder fazer isto
Insisto em reprimir visão resguardada
Guardada força transformada em razão

Paixão pela frieza enfim desata
Mata a volúpia, a luxúria, o querer
Saber que é soldado do dever
Compreender que a emoção reside na escrita
Maldita rotina que a todos controla
Mola propulsora pessoal progresso
Regresso ao modelo bem viver denominado
Apaixonado dia a dia, correto sucessor
Pendor escorreito valorosa renúncia

Denúncia a coração fora da lei
Sei papel definido nesta peça
Meça com trena intestina guerra
Terra arrasada coberta está de gelo
Zêlo pela forma intrépida potência
Sequência correta é iceberg frio
Calafrio percorre fiel estrada
Calada explosão peito sufoca

Foca amestrada se torna o ser humano
Clamo a atender mundana demanda
Manda a rotina obrigatório atender
Entender que o sentir não importa
Porta fechada assim deve estar
Mata qualquer resquício de desejo
Manejo adequado é não bulir
Sair tangência despercebida lavra
Palavra solta sentido nenhum..."

P.S. - o título é um trocadilho do momento em que foi escrito, uma "Reunião de Coordenação".

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Final de Semana - "Brasileirinho"



Mais um final de semana chegando, e estamos de volta à música brasileira depois de algumas semanas voltadas a um "passeio pelo mundo" musical.

E em alto estilo: "Brasileirinho", chorinho do grande Waldir Azevedo, em versão instrumental interpretada por Toquinho e Luciana Rabello - que, para quem não sabe, é irmã do grande Raphael Rabello e esposa do compositor Paulo César Pinheiro.

A composição possui letra, mas aqui está em sua forma mais pura.

Deleitem-se.

Dia do Economista


Não tenho o hábito de republicar textos do blog.

Mas hoje abro uma exceção para republicar, com acréscimos e correções, texto que escrevi no ano passado sobre o Dia do Economista, que se comemora na data de hoje.

"Hoje sou lembrado pelo rádio de que devo comemorar em dose dupla: pelo Dia do Economista e pelo Dia dos Canhotos.

Sobre os canhotos já escrevi outro texto, que pode ser lido aqui. Queria falar um pouco sobre a profissão de economista.

Quando decidi fazer vestibular para Economia, ainda no segundo ano do Segundo Grau - e lá se vão vinte anos - minha idéia era a de ter ferramentais que me possibilitassem entender melhor a sociedade e agir para modificá-la.

Além disso, sempre fui - e sou - apaixonado por política e por políticas públicas. Os leitores do Ouro de Tolo, volta e meia, são perturbados com exercícios teóricos nesta linha, de tentar entender o que se passa na vida econômica e social brasileira e extrair análises e sugestões de políticas a serem desenvolvidas.

À época, a profissão estava bastante vilipendiada devido às desastradas intervenções efetuadas na economia real pelas equipes de economistas governamentais e seus pacotes econômicos - Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão e quejandos.

Mesmo assim, optei por seguir a carreira. Depois, na UFRJ (foto acima), entenderia que a Economia era muito mais utilizada para manter o "status quo" do que para modificá-lo, entretanto fornecia parte do ferramental para isso caso estivéssemos interessados. A formação de um mercado interno de massa ocorrida nos últimos anos é um bom exemplo disto.

Inclusive vi um economista - que depois seria Ministro da Fazenda - dando uma palestra onde defendia que o equilíbrio financeiro da Economia estava acima de todas as outras coisas, inclusive do bem estar da sociedade. Ainda que, para se alcançar tal equilíbrio, tenham de haver mortes por falta de condições mínimas de sustentabilidade individual.

Formei-me com muito esforço e a minha vida profissional acabou seguindo um rumo que eu decididamente não imaginava quando fiz a minha opção, lá em 1990. Imaginava seguir carreira acadêmica ou em algum instituto de estudos como o IPEA, por exemplo. Contudo, o curso da vida acabou direcionando-me para outras opções dentro da área econômico-financeira e hoje trabalho na maior empresa brasileira, do que muito me orgulho.

Hoje trabalho mais com orçamento, gestão e controles do que com Economia, mas a empresa em que trabalho me dá opções de, tempos em tempos, mudar de área.

Entre estagiário e empregado, lá se vão dezesseis anos de vida profissional. Não tenho do que me arrepender, apesar de algumas escolhas não terem se revelado muito acertadas neste tempo. Entretanto, a melhor escolha eu fiz.

Também tive sorte de cursar uma escola que mostrava todas as correntes de pensamento econômico, e nos dava opções de discernir qual a mais adequada. Tornei-me anti-liberal e simpático à linha keynesiana, que grosso modo advoga que o Estado deve ter um papel indutor da Economia e garantidor do bem estar social da população.

Em política, me defino como social-democrata.

Hoje, quem for estudar Economia deve prestar atenção porque, sob este nome, existem duas escolas: as faculdades de Economia propriamente ditas e as escolas de Finanças, voltadas ao mercado financeiro.

Quem optar por uma escola do segundo grupo, a meu ver, perderá duas das maiores vantagens do economista, a saber: a visão ampla que permite transitar por todos os aspectos da vida empresarial e a formação básica na teoria econômica.

Em uma empresa, um economista consegue "jogar nas onze", ou seja, transitar por campos adjacentes de conhecimento. Essa formação ao mesmo tempo generalista e especialista é uma das grandes vantagens que temos. Sempre haverá mercado. Aliás, hoje um economista recém-formado tem muito mais facilidade de se colocar no mercado de trabalho do que na ocasião em que me formei - tempos de retração econômica. A disponibilidade de empregos é bastante superior hoje.

Sou um economista, e sou feliz por ter feito esta escolha de carreira. Antes que perguntem, se não tivesse seguido este caminho profissional talvez hoje fosse um professor de português e literatura brasileira, outra de minhas paixões - como os leitores podem ver nas "Resenhas Literárias"..."

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Reino dos Pneus


Era uma vez, um reino perdido no meio da Amazônia. Após uma sangrenta guerra com o Brasil, conquistou sua independência e desde então vive sossegado - em termos.

Este novo país possui algumas características diferentes em relação à maioria de seus congêneres: a maioria de casais é homossexual e os heterossexuais são minoria. Há funcionários do Estado que possuem como única função perpetuar a espécie no país. Seus principais produtos de exportação são a madeira e a exportação de profissionais para os carnavais carioca e paulista e, acessoriamente, o Festival de Parintins.

A jornada de trabalho é de apenas 24 horas semanais e o lazer é estimulado. Não há Poder Legislativo, sendo o poder exercido de forma absolutista pela Rainha Augusta Ribeiro I.

Outra característica, que dá nome ao país, é o fato de que todas as construções e utensílios são fabricados a partir de pneus velhos. O Reino importa todos os pneus usados consumidos no mundo, e a partir deles fabrica casas, utensílios domésticos, estruturas para as cidades e tudo o mais que se possa imaginar. O artesanato em pneus é bastante estimulado e outra fonte de divisas para o país.

Pois bem. A maior artesã do reino era a Princesa Consorte Júlia Schumacher, esposa da Rainha Augusta. Filha de alemãs, se apaixonou pela rainha e veio morar no Reino, estando juntas desde a independência.

Seu talento com os pneus era impressionante. Esculturas, arte pura, brotavam dos pneus velhos. Seus trabalhos eram vendidos por uma fortuna nas principais galerias de arte do mundo. Abaixo pode-se ver uma pequena amostra do talento da artista.


Eis que, um dia, a Rainha e Júlia brigaram. Entre puxões de cabelo e unhadas, a Princesa Júlia foi jogada ao calabouço e ali deixada, presa. Ainda sofreu torturas, como assistir durante sete dias seguidos o desfile da Viradouro de 2010 e ouvir durante vinte e quatro horas seguidas o "Rebolation".

A Rainha Augusta Ribeiro iniciou, então, um périplo pelo mundo. Ela dizia que era a verdadeira autora das peças e que deveria receber os recursos provenientes do aluguel e venda das mesmas. Não era nada irrisório: as peças chegavam a valer cerca de trezentos mil dólares, dependendo do tamanho e do trabalho dispendido.

Em cada galeria a Rainha era olhada com descrença. Sua história era de que atribuíra as peças à esposa a fim de lhe proporcionar algum tipo de satisfação pessoal, pois a vida de princesa consorte era muito modorrenta - eventos no Palácio Real, leituras, viagens, compras ilimitadas e sexo. Assim, em um gesto de magnanimidade ela abrira mão da autoria das peças, dando à Júlia a glória mundial.

Com a briga e o divórcio, a Rainha resolvera assumir que era a autora das peças. Entretanto...

Ela não contava com uma ferramenta simples chamada "Google". Os merchants fizeram uma consulta rápida a este site e viram fotos das esculturas e da Princesa Consorte trabalhando na elaboração das mesmas. A Rainha foi desmascarada e as contas bancárias do país no exterior foram congeladas. Com o apoio da Alemanha aprovaram-se sanções em tempo recorde nas Nações Unidas..

Como nos dias de hoje tudo é muito rápido, a notícia se espalhou pelo Facebook e pelo Twitter e rapidamente chegou ao Reino dos Pneus. Foi a senha.

Trabalhadores expatriados retornaram da Cidade do Samba com um exército de índios, egípcios e negros libertados da escravidão nos barracões da Beija Flor, da Imperatriz Leopoldinense e da Grande Rio. Os guerreiros enfim livres, comandados pelo batalhão de carnavalescos, aderecistas e pavões invadiram o país e empreenderam uma sangrenta guerra com as forças leais ao Reino, rapidamente derrotadas - suas armas pneumáticas não foram páreo para os tacapes e os mapas de notas empunhados pelas forças leais à Princesa Schumacher.

A Rainha Augusta Ribeiro I voltou rapidamente ao país, mas não havia tempo. Desceu rapidamente e foi presa por uma portentosa índia, que havia sido estrela do abre alas da escola nilopolitana anos anteriores. Foi levada para o Presídio de Goodyear e, após julgamento sumário, exilada para a Barra da Tijuca.

A Princesa Júlia foi libertada, assumiu o reino e casou-se em segundas núpcias com a índia que prendera a soberana anterior. Seus trabalhos aumentaram grandemente de valor, e seu governo levou grande progresso ao país.

Foram felizes para sempre.

P.S. - Qualquer semelhança com fatos ou personagens reais é mera coincidência.

A demolição do Maracanã e do Sambódromo


Ontem, dando aquela folheada rápida no jornal que faço toda manhã - sou assinante do Lance - vejo que a reforma do Maracanã a se iniciar proximamente custará a bagatela de R$ 705 milhões, fora os já costumeiros "estouros" de orçamento. Será a terceira grande reforma nos últimos dez anos, gerando um gasto de quase R$ 2 bilhões em reformas.

Há alguns anos atrás o ex-Presidente da CBF (antigamente, CBD, Confederação Brasileira de Desportos) e da FIFA João Havelange deu uma entrevista defendendo a implosão e posterior reconstrução do estádio, em moldes modernos. Exatamente como foi feito com o mítico estádio de Wembley, do qual só sobraram as torres da entrada. Á época o veteraníssimo dirigente foi muito criticado por esta idéia, inclusive por mim. Mas...

Já contei aqui a visita que fiz à Arena da Baixada quando estive no Paraná a trabalho. Hoje o que há de mais moderno em estádios é o conceito de arena, onde além da partida em si há toda uma gama de produtos e serviços disponíveis. Você pode jantar no estádio, fazer compras e até se exercitar em uma academia, por exemplo. O estádio paranaense possui todas estas opções, além de todos os seus lugares oferecerem visão perfeita do campo.

O Maracanã não tem nada disso. Seus bares são em formato "barriga no balcão", não há a opção de se fazer uma refeição mais substancial - aliás, fora amendoins e batatas fritas industrializadas, pouco há o que se comer - e não há uma única loja comercial. Se o espectador quiser comprar uma camisa do Flamengo, por exemplo, não pode, porque não tem onde comprar. Até a Vila Capanema, que é um estádio pequenininho e de concepção antiga tem uma lojinha de produtos oficiais do Paraná Clube.


Outro problema do estádio é a visão do campo. Experimente assistir a um jogo do último degrau das arquibancadas ou dos improvisados camarotes, e o leitor entenderá o que estou falando. Somente com binóculo. Após a última reforma as cadeiras possuem uma boa visão do campo, mas em outros setores do estádio pode-se ter problemas.

Aí eu faço a pergunta ao leitor: não sairia pelo mesmo valor desta próxima reforma derrubar o estádio e reconstruí-lo, mantendo-se a fachada externa ? Ainda se corrigiriam os problemas de posicionamento dos lugares e adaptaria-se a estrutura aos requisitos de uma arena moderna, com restaurantes, "mini-shopping" e um edifício garagem - corrigindo outro problema crônico do estádio. Abaixo, em montagem do Globoesporte.com., pode-se ver como ficará o Maracanã após mais uma reforma.


Os mais puristas poderiam alegar que "o estádio e sua história precisam ser preservados". Informo que nesta próxima reforma a separação entre as antigas arquibancadas e as cadeiras deixará de existir, tornando-se uma coisa só. Na prática, teremos um novo estádio por dentro, mas mantendo-se os problemas do antigo.

A um custo exorbitante e que talvez demande mais uma reforma para os Jogos Olímpicos de 2016, embora a Suderj alegue que as exigências da Fifa sejam superiores às do COI.


Outra estrutura de entretenimento que precisa ser repensada é o Sambódromo.

Projetado por Oscar Niemeyer, basta uma olhada na sua formatação para se perceber que o genial arquiteto jamais havia assistido a um desfile de escolas de samba na vida. As arquibancadas são pequenas, não permitem que o folião sambe nelas; e ao mesmo tempo são muito distantes do desfilante, tirando esta interação entre o público e o componente que é importantíssima para a festa. As frisas, próximas, são formadas por um público normalmente alienígena à festa - lembrando que originalmente aquele espaço era destinado a uma imensa "geral" para se assistir em pé ao desfile. O desfile ficou frio.

Paralelamente ele foi construído a "toque de caixa" e sem a necessária reflexão sobre o uso do espaço. Sabe-se que ele foi projetado, em especial a Praça da Apoteose, para ser um espaço de reunião política naqueles tempos pré-redemocratização. Entretanto, hoje os tempos são outros e se faz necessária a adaptação para ele ser o que realmente é: uma avenida de desfiles. Outra questão é que a capacidade dele, hoje, é ridícula e em muito superada pela demanda anual de lugares.

O Sambódromo possui outros problemas. Os banheiros são acanhadíssimos, também não há restaurantes - é o mesmo formato de bares descrito acima - e os quiosques são claramente improvisados, não funcionando fora dos dias de carnaval. O escoamento da água da chuva das arquibancadas é em frente aos bares, em área de passagem.

Na verdade, a estrutura como um todo é inexistente. O Sambódromo deve ser o único espaço de entretenimento do mundo que não possui uma única vaga de estacionamento. O entorno é formado por ruas estreitas e que possuem problemas de segurança. Aqueles que vão assistir aos desfiles e concomitantemente desfilar não tem lugar para trocar de roupa, tendo de fazer em qualquer lugar, à vista de todos.

Os carros alegóricos são obrigados a fazer uma curva de 90º para adentrarem o Setor 1 e as escolas que fazem a sua concentração do lado do edifício "Balança mas Não Cai" ainda tem um viaduto no meio do caminho, ou seja, a montagem final das alegorias obrigatoriamente é feita praticamente na entrada da Passarela.

Em minha opinião a intervenção no Sambódromo precisa ser radical, envolvendo não somente a passarela em si quanto o entorno. Fazer uma nova obra, criando uma estrutura para os desfiles dentro e fora da passarela. Jogar abaixo as arquibancadas e camarotes e reconstruí-las de maneira a atender ao seu propósito, algo que não existe hoje. Aproximar o público do desfilante e aumentar a capacidade de público. Criar estruturas de guarda de fantasias, troca de roupas, restaurantes e lojas que funcionem o ano inteiro. Estabelecer no entorno um edifício garagem de forma a permitir o uso do carro, como em qualquer espaço de entretenimento mundial.

A reforma prevista para os Jogos Olímpicos prevê apenas a derrubada do Setor 2 de camarotes e a construção de novas arquibancadas. Mas isto é muito pouco para adequar o Sambódromo às necessidades requeridas para sua utilização plena. A única solução é demolir e recomeçar do zero. Sei que a Passarela de Desfiles é tombada mas este é o único caminho que vislumbro.

Pelos motivos expostos acima que sou a favor da demolição e posterior reconstrução tanto do Maracanã quanto do Sambódromo. E espero com este post estimular o debate sobre o tema.