Rescaldo do feriadão em Barra do Piraí, este "Dopaz", da jornalista gaúcha Tahiane Stochero, é um retrato das dificuldades encontradas pelo Exército Brasileiro na missão de paz no Haiti.
O livro conta as dificuldades enfrentadas para pacificar "Cité Soleil", a maior favela da capital haitiana Porto Príncipe, e as estratégias utilizadas a fim de empreeender a tarefa.
A missão era fundamental para o sucesso da Minustah, pois havia a necessidade de se reduzir a sensação de insegurança provocada pela ação destas quadrilhas que se encastelavam neste local e promoviam sequestros, roubos e assassinatos.
O Exército precisou de um plano de ação bastante elaborado, comandado pelo "DoPaz" - Destacamento de Operação de Paz - uma espécie de "BOPE" do Exército. Os soldados do batalhão de elite tomaram para si a função de liderar o processo de ataque e ocupação da favela em questão, prendendo os principais líderes criminosos.
A autora entra no cotidiano dos soldados e narra as ações empreendidas a fim de pacificar a área e promover ações sociais a fim de conquistar a confiança da população. Salta aos olhos a extrema violência necessária a fim de repelir os bandidos, e as situações de risco em que os soldados se envolvem - milagrosamente, sem nenhuma morte em combate para este batalhão.
Outra faceta é a dificuldade de relacionamento com o poder constituído haitiano, que possuía relações com estes grupos de foras da lei e muitas vezes os avisava das operações da força de paz. Por outro lado, também retrata os imprevistos de se ter uma força de paz multinacional - como os barbeiros motoristas de tanques jordanianos e os latino americanos que muitas vezes não conseguiam entender as determinações dos brasileiros.
Tal e qual na segurança pública brasileira do dia a dia, os militares da força de elite também precisam conviver com ordens estapafúrdias vindas "de cima" - como destruir um banheiro público, artigo raro naquela localidade.
Ao fim e ao cabo de muitos tiros, alguns homicídios e mais algumas prisões, finalmente a grande favela foi ocupada e os brasileiros puderam oferecer as suas ações sociais, obtendo a confiança dos moradores, muito pobres.
O último capítulo é dedicado ao terremoto haitiano de 2010 e aos problemas criados pelo desmoronamento da Penitenciária Nacional, que acabou por libertar todos os líderes criminosos cuja captura havia sido bastante penosa.
Fica clara a diferença entre este livro e o que resenhei recentemente, "Haiti, depois do inferno". A repórter gaúcha (abaixo) neste "Dopaz" traça um retrato muito mais fiel e aprofundado da missão brasileira no país caribenho, embora fale do terremoto apenas no último capítulo.
Apesar de um prefácio absolutamente desnecessário com uma velha e embolorada pregação anticomunista, recomendo bastante. Na Travessa, custa R$ 31. Com ação contínua e descrição adequada dos fatos, é bem interessante.
"Soccernomics", do jornalista inglês Simon Kuper e do economista polonês Stefam Szymanski, procura explicar sob o ângulo econômico a paixão do futebol, à moda de livros como "Freaknomics", "Superfreaknomics", "Sob a Lupa do Economista", "Falsa Economia" e outros. E estes chegam a conclusões surpreendentes quando utilizam no futebol os recursos teóricos da Economia e da Matemática.
O mote do livro, que perpassa todos os capítulos, é uma única frase: "a estupidez está para o futebol assim como o petróleo está para a indústria do petróleo". Com este axioma simples os autores demonstram que na maioria das vezes os clubes são geridos com decisões que fogem aos padrões dos manuais de administração.
Um bom exemplo, descrito no Capítulo 4, é o método utilizado pelas equipes na hora de contratar um técnico. Normalmente não são levados em consideração fatores como a qualificação teórica, os cursos ou o conhecimento técnico, tático e - no caso europeu - financeiro. O que se leva em conta são a disponibilidade imediata, o poder de atração (ou de ser um bom "relações públicas") e também terem sido ex-jogadores.
Outro capítulo muito interessante é sobre o mercado de transferências, com algumas dicas valiosas. As mais importantes seriam:
1) Estar tão disposto a vender bons jogadores quanto a comprá-los;
2) Jogadores mais velhos são sobre-valorizados;
3) Compre jogadores com problemas pessoais (com desconto) e depois ajude-os a lidarem com seus problemas;
Os autores argumentam que um bom desempenho no mercado de transferências pode mitigar outra das conclusões do livro: a de que o desempenho dos clubes nas competições é consequência direta do total de salários gasto - não, leitor: os autores não conhecem o Kleber Leite...
Também é muito interessante um ponto levantado pelos autores no mercado de transferências, embora seja mais válido para os clubes europeus: os dirigentes gastam fortunas muitas vezes obscenas para contratar os craques, mas não gastam poucos milhares de euros no auxílio à adaptação dos mesmos ao novo clube. Muitas vezes, isso faz a diferença entre o sucesso e o fracasso.
Os autores chegam a relatar um "estudo de caso" sobre o tema, que foi o da adaptação dos brasileiros ao PSV Eindhoven, da Holanda. Isso se tornou um diferencial na hora de agir no mercado de transferências, pois promissores jogadores daqui passaram a utilizar o clube para se ambientar à Europa e depois irem para clubes de maior expressão.
Debate-se também o tamanho microscópico dos clubes perto das maiores corporações mundias, e por outro lado o conceito de que "clube não quebra".
Em outro trecho da obra, os autores aplicam modelos matemáticos ao desempenho das seleções nas competições mundiais, elencando premissas para a formação de boas seleções: 10 mil horas de prática de futebol enquanto jovem e renda per capita aproximada de US$ 15 mil são duas delas. Eles apontam a Turquia, os EUA e a Espanha como futuras forças do futebol - pelo menos quanto a esta última um prognóstico acertado, haja visto que o livro foi escrito antes da Copa do Mundo da África do Sul. E aponta o Brasil como perda de influência global, pois sua média de vitória já é tão alta - cerca de 70% dos pontos - que não tem muito para onde aumentar.
"Soccernomics" dedica parte de um capítulo a analisar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, chamando a atenção para o seguinte fato: sediar estas competições não traz riqueza nem grandes benefícios econômicos. O argumento é de que, no caso brasileiro, ainda há a justificativa de que o país precisa modernizar os seus estádios a fim de atrair um público de maior poder aquisitivo, bem como a infraestrutura das cidades do país - em especial o Rio de Janeiro.
Entretanto, este fenômeno não passaria de transferência de renda de outros setores da economia para o setor de entretenimento ou esportivo.
Em outra parte, analisa-se o comportamento das torcidas e desmonta-se o mito do "torcedor monolítico e monogâmico". Dividem-se os torcedores típicos em três tipos: os "fanáticos", os "eventuais comprometidos" e os "eventuais negligentes" - estes últimos mais fãs de futebol que de equipes propriamente ditas.
Outra conclusão interessante é que bons desempenhos de seleções ou clubes em grandes competições diminuem o número de suicídios naquele país ou cidade não somente durante a competição como em períodos de tempo subsequentes.
Apesar de ser focado demais no futebol inglês, é indispensável para se entender o "negócio" futebol. Não esgoto aqui os temas, mas sem dúvida é um conhecimento que agrega valor e nos faz entender, muitas vezes, a irracionalidade e o empirismo da administração dos clubes.
E olha que eles escreveram sobre o futebol inglês, criticando acidamente o modelo de gestão dos clubes. Fico me perguntando se eles usassem como base da pesquisa clubes como o Flamengo, o Fluminense ou o Corínthians, por exemplo. Ou o futebol brasileiro como um todo.
Sem dúvida alguma, o fato novo destas eleições vem sendo a tentativa por parte do candidato do PSDB de ganhar as eleições dividindo o país e dando voz a expressões das mais obscuras no cenário político nacional. Muito pela total falta de programa atraente para as massas, haja visto a sua plataforma nitidamente excludente e reacionária.
Sobre os evangélicos, já escrevi em duas ocasiões, que o leitor pode ler aqui e aqui. Não retiro uma vírgula do que disse naquele momento.
Entretanto, algumas coisas precisam serem ditas.
Antes de mais nada, é uma grande falácia esta história de que a Igreja Católica é ligada ao PT. Desde a ascensão ao papado do Bispo Karol Wojtilla - que seria conhecido como Papa João Paulo II - que a milenar instituição vem dando uma guinada bastante radical à direita. Os bispos latino americanos ligados à "Teologia da Libertação" foram progressivamente perdendo sua influência dentro da instituição até serem afastados, em muitos casos, pela força conservadora.
Bispos e cardeais progressistas foram sendo substituídos por simpatizantes da linha defendida por João Paulo II, que era anticomunista e que renegou a linha adotada em especial na América Latina de "uma igreja para os pobres". Basta lembrar o poderio do ex-cardeal do Rio de Janeiro Dom Eugênio Sales, radicalmente conservador, de extrema direita e que até hoje, ainda que aposentado, é uma espécie de "eminência parda" do Vaticano no Brasil.
Com a morte de João Paulo II, a eleição do cardeal Joseph Ratzinger - que perseguiu sem tréguas os padres ligados à "Teologia da Libertação" - significou a ascensão ao papado de um soberano ainda mais conservador, se é que isso era possível. Não podemos nos esquecer das ligações com o nazismo e o fascismo por parte do sacerdote alemão.
Regra geral, a Igreja Católica abandonou os pobres à própria sorte, passando a defender o "status quo", a propriedade privada em sua forma mais radical e políticas excludentes e de concentração de renda. Até a histórica atuação dos padres brasileiros na defesa do acesso à terra está bastante enfraquecida nos tempos atuais, não encontrando qualquer respaldo na direção da instituição.
Em termos de costumes, a Igreja também passou a adotar uma postura mais conservadora. Defende a proibição da camisinha e de qualquer método anti-concepcional, a proibição do aborto, a criminalização dos homossexuais e até a volta ao casamento indissolúvel é defendida por alguns bispos mais radicais.
Internamente, o celibato é envolto em manto de "cláusula pétrea", muito mais por questões econômicas que por qualquer outro motivo. Entretanto, as inúmeras denúncias de pedofilia entre o clero são convenientemente abafadas, o que constitui um caso clássico de hipocrisia. Ressalto também que o índice de infecção por HIV entre os padres está acima da média nacional.
Parêntesis: tenho uma posição bastante contrária ao aborto, quase radical, mas sou a favor da democratização dos métodos contraceptivos. Voltarei ao tema brevemente.
Com isso temos uma Igreja Católica aferrada ao conservadorismo, ao ritual e à forma. Mas ainda bastante popular e bastante influente, em especial nas camadas mais pobres da população.
José Serra, vendo que através de critérios objetivos não conseguiria penetrar nas classes C, D e E, aliou-se ao que há de mais conservador a fim de dividir o país e ganhar as eleições. A campanha não está sendo conduzida na base de elementos objetivos, comparação de números e coisas afins, mas sim no apelo à irracionalidade.
Mas sim em uma intensa boataria e utilizando-se destes setores reacionários e retrógrados para divulgar calúnias e boatos, tais como "Dilma vai proibir a religião", "o aborto será liberado", "Dilma é assassina de criancinhas" e outras coisas. Some-se a isso a vergonhosa adesão da grande imprensa à campanha do candidato tucano, e temos o quadro montado.
Lembro aos leitores que a própria esposa de José Serra incitou este tipo de calúnia aqui no Rio, ao afirmar que a candidata petista era "assassina de criancinhas". Eu vi com meus próprios olhos panfletos apócrifos sendo distribuídos contra a candidata Dilma Roussef no Centro do Rio.
Bom, o fato é que os púlpitos passaram a ser utilizados abertamente a favor do candidato do PSDB e repetindo calúnias e argumentos absolutamente irracionais. O que se pode esperar é que em caso de vitória do candidato de oposição estes setores ultra-reacionários cobrem seu preço, o que pode significar o bloqueio do debate de questões pertinentes e que saltam aos olhos.
Outro corolário é que a perseguição aos movimentos sociais e de defesa das minorias tende a ser ainda maior do que o verificado durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.Também pode-se esperar uma diminuição da liberdade de culto no Brasil e a perda do caráter laico do Estado, pelo menos extra-oficialmente.
Observa-se uma aliança semelhante à que levou George W. Bush ao poder, formada por grandes corporações empresariais - a corporatocracia - a grande imprensa reacionária e estes grupos fundamentalistas religiosos. Deu no que deu: um governo voltado para os ricos, que cortou benefícios sociais, aumentou a desigualdade e que jogou o país em duas guerras desnecessárias a fim de pagar a fatura devida aos grandes grupos econômicos.
Sinceramente, não quero a repetição disso no Brasil.
Complementando, não deixa de ser curioso - e irônico - ver que o Bispo Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus está com uma posição muito mais progressista e racional sobre o assunto. Não deixa de ser um bom parâmetro para verificarmos o grau de extremismo da campanha de Serra e, em especial, de setores da Igreja Católica.
Ressalto, também, a minha preocupação em ver religiosos sendo tachados de "radicais fundamentalistas" por causa destes grupos conservadores. Com a estratégia adotada de incitar o ódio e o extremismo, os fiéis tanto cristãos quanto de outra religiões que não professam deste credo conservador acabam sendo jogados na vala comum do "obscurantismo".
O fato de se professar uma religião, seja qual for, não pode e não deve ser utlizado como forma de discriminação, tanto a favor quanto contra. Professar a Fé é importante, é necessário na formação do ser humano. O que não pode haver é o extremismo e a perda do bom senso.
Espero que nestas duas semanas até o segundo turno o debate político volte à discussão de propostas e retome a serenidade e o "caminho do meio", o "izunomê" - utilizando-me da palavra japonesa para a definição.
Lembro aos leitores que aqui fala um homem de profunda e enraizada Fé. A favor da Fé, contra o obscurantismo.
Excepcionalmente no domingo, a coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. Em belo texto, serpenteia por uma torrente de sensações que nos levam até a pensar que é um texto anti-clerical ou anti-religioso, mas que na verdade é uma ode à paixão.
Vamos ao texto.
Minha Catedral
Houve um tempo em que eu não freqüentava templos. Orei sobre elementos da natureza, grama, pedras, areias, numa festa pagã permanente. Nem tanto a festa cotidiana, mas o paganismo como hábito.
No tempo seguinte, a suposição de que, para demonstrar ao mundo o amadurecimento que eu me cobrava, eu deveria me devotar a uma só divindade. E vivi simulando fé, convencendo-me de uma crença fria e distante, ainda que por vezes reconfortante.
Tudo parecia transcorrer bem, os dias seguiam calmos e sem paixão.
Até que, um dia, o pastor de mim mesmo seria eu. Eu subiria ao púlpito, falaria para muitos. Anotei o endereço. Não mais importa, tanto tempo depois. Importou, e importa, o destino que eu encontrei naquele lugar.
Naquele dia eu vi a minha catedral pela primeira vez. Ela veio a mim, surgiu à minha frente. Bela, reluzente, fresca, exalava eternidade, prometia paraísos.
Prostrei-me de joelhos aos pés de sua torre. Não que tenha feito isso literalmente: não caí ao solo, elevei-me aos céus. Entretanto, meu espanto era evidente, o ar faltou-me, fui tomado de calafrio. Desta forma, se não havia caído realmente ao solo, estava tão fora de mim que já não importava o lado ou a altura, a direção ou a perda de senso, eu já não era meu.
Durante dias fui até metade do caminho para rever a bela edificação e dali voltei. Cheio de dúvidas, de como me portaria, se seria bem recebido ou não, se era correto me deixar arrebatar. Certeza, uma só: meu coração e minha fé haviam mudado para sempre.
Por fim, a catedral me aceitou, assim como eu me fiz convertido. Sem, contudo, dedicar exclusividade na fé. Ainda havia o compromisso em minha fé fria e distante e, por isso mesmo, aparentemente mais segura. Quanto mais os deuses se colocam presentes em sua vida, mais e mais o poder afeta aquilo que deveria parecer estável. Os benefícios da presença divina não brotam sem conflitos e tufões. O não-acontecer, muitas vezes, pode ser mais confortável. Um carro não enguiça quando fica parado na garagem.
Então, com medo que a beleza resplandecente de minha catedral cegasse meus olhos, afastei-me dela. Reneguei a mudança que se fazia em minha alma. Pensei: se a catedral parece tão bela aos meus olhos, se há tanto ouro e prata, uma fé tão vaidosa de si não pode ser eterna. E preferi a eternidade morna e certa. Ou, aparentemente certa.
Com o passar dos meses, a chama que ardeu em meu peito virou uma imensa pedra de gelo, um sentimento que me paralisou e me fez tremer, não mais de sensações, mas de frio invernal. Fui desacreditando em tudo. Primeiro, na vida, na felicidade. Depois, na possibilidade de rever qualquer catedral que não habitasse apenas meus sonhos. Por fim, na própria fé.
Quando acordei do pior pesadelo e fui à procura do sentimento que havia perdido, certo de que jamais haveria de reencontrar a minha catedral, mas que talvez pudesse encontrar a mesma beleza em outro templo, corri a corrida desesperada daqueles que não sabem que rumo tomar. Não sabia sequer se haveria algum rumo possível.
Não, não foi uma oportunidade única aquilo que eu houvera jogado fora. Era bem mais que isso. Era a oportunidade única num tempo único. Esta constatação seria a morte, se a morte fosse tão ágil e benevolente.
Mais ocioso é o destino, que em suas tramas inventa chances que somente o mais criativo dos autores teria em mente. E o destino tem todo o tempo para tecer suas malhas, quase sempre o tempo que dura uma vida inteira.
Meu destino, ainda que ociosos como seus iguais, me deu a sorte de ser mais expedito que toda a vida que havia pela frente. Passaram-se muitos anos, é certo.
Tempo suficiente para que todas as minhas crenças definhassem, principalmente a minha crença em mim mesmo e na minha capacidade de pegar o bonde. Mas tempo menor que a morte de tudo.
Foi então que o acaso se fez agora. Como a montanha na Bíblia, minha catedral veio a mim. Não de uma forma invasiva, como muro postado à minha frente. Mas pelas vias tecnológicas que não aconteceriam mais de uma década antes. Da mesma forma que há pastores pela tevê, pregadores pela internet e rabinos de aeroportos, minha catedral usou de novos meios para reavivar minha fé.
Não demorou tanto para que eu reencontrasse suas belezas. Agora, o prédio já era repleto de marcas, que acusavam menos a passagem do tempo e mais a passagem da vida. A catedral sentira falta da minha fé tanto quando eu havia me feito cego à falta de sua luz.
Todo final assim merece ser feliz, tudo deveria recobrar a cor, não é mesmo? Talvez, e eu acreditava que assim seria. Mas não tão facilmente. A fé que não resistiu a ser posta à prova uma vez, teria que passar por mais de duas provas para se firmar. E foram muitas as provas que nos impusemos mutuamente, até que pudéssemos nos reconciliar em ato santo. Plenamente, integralmente. Uma fé imediata, um dia. Reencontrada, mais de uma decana depois. E reconstruída ao longo – agora sim! – de uma vida inteira.
O tempo todo que o tempo e o destino necessitarem para tecer a trama da vida e dos santos autos.
Eu vivo sob a cúpula de minha catedral. Eu me reconforto dentro de suas paredes. Só ali a minha alma pode despir o peso de meu corpo e se reconciliar com o que verdadeiramente é. Só ali, eu sou. Hoje, menos importa a beleza de seus afrescos, o estado de sua via sacra, as imagens de seus santos, a batina de seus pregadores. Minha catedral é refúgio e estímulo. Mas também é a agitação apaixonada das certezas, a instalação permanente do fogo da fé, o conturbado questionamento da vida, o estudo, a reflexão, o aprendizado. Portanto, não é só o adormecimento relaxante, é também o refasto e a digestão, o sonho e a alucinação.
Viver sob minha catedral é ter a razão superior da existência. Isso faz as outras coisas parecerem tão menores que a vida se torna mais simples, frente a coisa tão complexa.
Minha razão e minha loucura, fundidas nas entranhas da minha mente, formadoras do que eu sou, e já não mais me assustam. Meus fantasmas, que trabalham por mim e, fantasmas que são, têm superpoderes, carregam quanto peso for preciso, superam quantas paredes forem erguidas. Eu vivo minha catedral, oro, alimento corpo e alma, sou protegido e cuidado. Recupero cada minuto perdido nos anos de afastamento, renovo os votos e sigo até onde o destino for mais cioso que ocioso.
Não sei se há uma catedral em sua vida, amigo leitor. Ela pode ser erguida em devoção a um amor terreno, a um amor idealizado. Ela pode ser plantada no campo onde joga seu time. Ela pode comportar discursos políticos, profissões ou cultos de fé estritamente religiosa. Não há catedral melhor que outra. Minto, há sim: cada um tem sua melhor catedral, melhor para si mesmo, melhor para sua vida. Só há um requisito: tenha sua catedral, uma bela catedral, procure por uma, ache-a e guarde-a da melhor forma possível. Mas tenha uma.
Finalmente, divido com o amigo leitor a versão de Zélia Duncan para o sucesso de Tanita Tikaram, e “dedico esta canção” aos tijolos sólidos e permanentemente belos de minha catedral.
"O deserto que atravessei
Ninguém me viu passar
Estranha e só
Nem pude ver que o céu é maior
Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar
É deserto onde eu te encontrei
Você me viu passar
Correndo só
Nem pude ver que o tempo é maior
Olhei pra mim
Me vi assim
Tão perto de chegar
Onde você não está
No silêncio uma catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir
Eu sei, vai ter que existir
Vai resistir nosso lugar
Solidão, quem pode evitar?
Te encontro enfim
Meu coração é secular
Sonha e desagua dentro de mim
Amanhã, devagar
Me diz como voltar
É deserto onde eu te encontrei
Você me viu passar
Correndo só
Nem pude ver que o tempo é maior
Olhei pra mim
Me vi assim
Tão perto de chegar
Onde você não está
No silêncio uma Catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir
Eu sei, vai ter que existir
Vai resistir nosso lugar
Solidão, quem pode evitar ?
Te encontro enfim
Meu coração é secular
Sonha e deságua dentro de mim
Amanhã, devagar
Me diz como voltar
Se eu disser que foi por amor
Não vou mentir pra mim
Se eu disser deixa pra depois
Não foi sempre assim
Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar
(Foto: Taj Mahal, Portela 2009, enredo sobre o amor. Autor: Fabrício Gomes)
Bom, como o leitor pôde ler ontem, eu avisava que mais uma vez boatos estavam permeando a escolha de samba da Portela.
Não deu outra. Confirmando o que se falava antes mesmo da definição do enredo, o samba "escolhido" para representar a Portela no desfile das escolas de samba é o dos compositores Júnior Scafura, Wanderley Monteiro, Naldo, Gilsinho e Luis Carlos Máximo.
O vídeo acima, do site "Carnavalesco", é revelador. Mostra o anúncio do "vencedor" e a reação dos portelenses e da bateria. Apesar do plano fechado, percebe-se que somente os compositores e a torcida de aluguel da parceria comemoram. O resto da quadra, em um silêncio típico dos oprimidos, retira-se rapidamente.
A escola, que teria a possibilidade de levar um samba forte candidato ao Estandarte de Ouro de melhor composição, desfilará com mais um samba frio, insípido, com suspeita de plágio em seu refrão principal (de um samba da escola paulistana Império da Casa Verde) e que, dos escolhidos até o momento, é o pior do ano. Ainda teremos de aguardar os últimos desdobramentos referentes à bateria, como alertei ontem.
Ultimamente a gestão da diretoria da escola tem se empenhado fortemente em afastar os destinos da escola do desejo de seus sócios e torcedores. A gloriosa Águia é tratada como um feudo de poder, onde o que importa é mostrar quem manda - mesmo que isso signifique contrariar fortemente o bom senso e jogar a história da agremiação no lixo.
E Júnior Scafura, que deu uma triste demonstração de arrogância na semifinal, caminha para se tornar, em termos de números, o maior compositor da história da Portela. O frio dado estatístico, muitas vezes, mascara a realidade.
Bom, o samba é esse. O portelense está triste, está com seu coração machucado, maltratado, mas está oprimido pelos donos do poder discricionário. Resta apenas, como gado que somos, desfilar e assentir. Minha disposição, racional, hoje, seria não desfilar. Mas o coração azul e branco acaba falando mais alto.
O leitor pode ver a letra do samba no link do Carnavalesco colocado acima.
Acima de tudo, sou portelense. Mas não posso me calar ao ver este tipo de situação se repetindo na escola, ano após ano, "escolha" após "escolha", atraso de barracão atrás de atraso de barracão. Desanimador. Mesmo os que possuem poder de voto - como eu - acabam tolhidos pelo estratagema do candidato único e da assinatura em lista, sem poder sequer expressar seu protesto através do voto nulo.
Por um novo modelo de gestão profissional. Por escolhas de samba dignas do nome. Principalmente, por dirigentes que amem a escola e não os seus projetos pessoais de poder.
Comprei há alguns dias um cd que reúne dois dos maiores artistas do Século XX: Frank Sinatra e Tom Jobim. Pelo que está no encarte, é uma coletânea de gravações que os dois gênios da raça musical fizeram em conjunto.
Disponibilizo aqui "Água de Beber", cantada meio em inglês, meio em português por Sinatra. Chega a ser engraçada a pronúncia do português pelo cantor americano.
Abaixo, a letra em sua versão original.
"Água de Beber Tom Jobim
Eu quis amar, mas tive medo
E quis salvar meu coração
Mas o amor sabe um segredo
O medo pode matar o seu coração
Água de beber
Água de beber camará
Água de beber
Água de beber camará
Eu nunca fiz coisa tão certa
Entrei pra escola do perdão
A minha casa vive aberta
Abri todas as portas do coração
Água de beber
Água de beber camará
Água de beber
Água de beber camará
Eu sempre tive uma certeza
Que só me deu desilusão
É que o amor é uma tristeza
Muita mágoa demais para um coração
Água de beber
Água de beber camará
Água de beber
Água de beber camará"
No dia de hoje, sexta feira, a Portela escolhe o seu samba para o desfile do carnaval 2011. Escolha esta que vem recheada em polêmicas desde antes mesmo da escolha do enredo.
Nos últimos anos, a disputa da escola vem se notabilizando por boatos indicando previamente o resultado final que, de uma forma ou outra, foram confirmados. De 2005 para cá, o único ano onde tais "boatos" não se realizaram foi em 2007, onde a parceria liderada pelo compositor Diogo Nogueira, filho do grande João, conquistou o samba de forma brilhante desde o início da disputa.
De 2008 para cá vem se firmando a parceria liderada pelo compositor Júnior Scafura, que tem vencido todas as disputas e confirmando os prognósticos prévios. Scafura foi Presidente da Ala de Compositores, Diretor Geral de Harmonia e para 2011 voltou a ocupar o cargo de comandante dos poetas da águia. Este posicionamento lhe dá uma ascendência muito grande sobre os segmentos portelenses, o que em um pleito equilibrado como este se constitui em uma imensa vantagem.
Basta lembrar que Scafura entre 2006 e 2010 só não se sagrou vencedor em 2007. De 2008 para cá em nenhum dos anos seus sambas chegaram à final em condição de superioridade extrema - eu me arriscaria a dizer que em 2009 e 2010 o samba de sua parceria, em minha opinião, era o mais fraco da final. Ressalvo que, embora frio, o samba sobre o amor (2009) proporcionou um desfile delicioso à escola, e o deste ano, embora fraco, não comprometeu a bomba que foi nosso desfile.
Nos últimos anos, Scafura e Diogo Nogueira vinham juntos, mas a grande novidade para 2011 foi a separação da parceria. Scafura veio com Wanderley Monteiro, Luis Carlos Máximo, Naldo e, em uma novidade no mínimo polêmica, o puxador oficial da escola, Gilsinho.
Comenta-se que o próprio Presidente da escola teria solicitado a inclusão do puxador na parceria, mas tal informação foi veementemente desmentida por Gilsinho na comunidade oficial da escola em uma rede de relacionamentos. Enfim...
A boataria, este ano, dá conta de que este samba estaria escolhido antes mesmo do início da disputa. Mais uma vez reitero que é especulação, mas nos últimos anos todas estas, sem exceção, confirmaram-se exatamente como divulgadas previamente.
Tal situação tornou-se ainda mais evidente após a semifinal da última sexta feira. Segundo relato de várias testemunhas, Scafura e o presidente da escola foram até o palco da bateria reclamar com o Mestre Nilo Sérgio que esta havia "prejudicado" seu samba, além de cobrar que os integrantes cantassem o samba da referida parceria - o que, por si só, já significaria uma vantagem desequilibradora da disputa.
Sentindo-se desrespeitado, Nilo Sérgio abandonou o palco da bateria, no que foi acompanhado por seus diretores e vários ritmistas - e aí sim prejudicando a apresentação do samba seguinte. Normalmente, tal postura traria a eliminação imediata do samba, mas não foi o que ocorreu: primeiramente foi divulgado que o Mestre da Bateria Estandarte de Ouro tinha sido afastado e, após uma reunião, nota oficial da escola desmentiu tal fato.
Certo é que, em minha opinião, o compositor sai como o grande vencedor deste imbróglio.
O samba, em si, na minha opinião é o mais fraco dos quatro finalistas. Repete a fórmula de anos anteriores e aposta em uma letra descritiva do enredo. O refrão principal é belo, mas não foge muito dos chavões dos últimos anos. O leitor pode ver acima o vídeo.
O segundo (vídeo acima) é aquele que em minha opinião e da maioria dos torcedores e segmentos da escola é o melhor samba, da parceria Diogo Nogueira, Ciraninho, Rafael dos Santos, João Martins e Leandro Fregonesi.
A parceria "pegou na veia", com um samba muito superior aos dos vencedores anteriores. Melodia com variações bem legais e letra com algumas sacadas bem interessantes, como no trecho:
"E lá vai minha jangada
Enfrentando a madrugada
Pelo gigante Brasil
De natureza abençoada
Terra adorada
De encantos mil"
Gosto muito também do refrão principal saudando a "Rainha do Mar", Iemanjá. Simples e forte. É o meu favorito.
O terceiro samba é o da parceria de Serginho Procópio (acima). Finalista em 2009 com um lindíssimo samba e que foi muito prejudicado na final por estranhas falhas de som, e injustiçado ano passado, a parceria repete o bom nível de suas composições. Também possui letra e melodia bem melhores que o favoritíssimo, onde destacaria o seguinte trecho:
"Não vou temer as tempestades tenho que enfrentar Resplandecer... Velas içadas ao luar"
É o preferido de muita gente boa da escola, e seria minha segunda opção.
Finalizando, o quarto e último sobrevivente, o samba do velho e competente Noca da Portela, de volta a uma final após algumas eliminações em fases anteriores.
Vencedor em 1976/85/95/98/99/2005, e com dois Estandartes de Ouro - os dois últimos da Portela, em 1995 e 98 - seu samba foi muito criticado pela infame rima "Cantaí / Sapucaí" do refrão principal.
Em parceria com Alexandre Fernandes, Bandeira Brasil, Claudinho Oliveira e Márcio Ferraz, destaca-se pela segunda parte, que possui uma letra bastante inspirada e que retoma o velho "padrão Portela", esquecido nos últimos anos de sambas insípidos.
Considero que é inferior aos dois anteriores, mas melhor que o primeiro - boa escolha, também.
Esta final de hoje possui algumas particularidades: Noca da Portela pode igualar Candeia e Davi Correa como maior vencedor de sambas na águia - sete. Diogo Nogueira pode quebrar o recorde que detém com o mesmo Davi de vitórias consecutivas, indo a cinco. E Scafura pode igualar os dois, com quatro.
Minha avaliação é de que será uma zebra histórica se o samba da parceria de Júnior Scafura não for o vencedor, levando-se em conta os anos anteriores e os acontecimentos desta disputa. Entretanto, com a confirmação de tal fato a escola pode entrar em uma grande crise, pois os segmentos, sócios e torcedores da escola não querem este samba, defendido apenas pelos dirigentes. Ainda ressalto o problema criado com a bateria, que pode perfeitamente refletir no desfile da Portela.
Se realmente a Diretoria impor este samba como o vencedor, podemos ter algo como o ocorrido em 1974 e posteriormente em 1978, com o afastamento de figuras importantes da escola devido a escolhas de samba impostas pela Direção. Ainda mais levando-se em conta o histórico dos últimos anos.
Quem quiser conferir ao vivo, é bom chegar cedo, por volta das 22 horas, pois a quadra da Rua Clara Nunes, em Oswaldo Cruz, deve ficar superlotada. Particularmente não gosto de ir a finais: fica muito cheio, intransitável, a bebida sempre acaba muito antes do anúncio do resultado e pelo menos na Portela a chance de você voltar para casa "fulo" da vida é enorme. Não vou a uma final portelense desde 2002/03, quando assisti ao vivo a uma das maiores palhaçadas da minha vida de sambista, com um resultado claramente armado.
O ingresso custa R$ 20 para cavalheiros e R$ 10 para damas, com início às 22 horas.
A ordem de apresentação dos sambas, definida ontem, é a seguinte:
1- Diogo Nogueira, Ciraninho, Rafael dos Santos, João Martins e Leandro Fregonesi 2- Wanderley Monteiro, Gilsinho, Luiz Carlos Máximo, Jr. Scafura e Naldo 3 - Serginho Procópio, Celso Lopes, Charles André, João Carlos Filho e Marquinhos de Oswaldo Cruz 4- Noca da Portela, Bandeira Brasil, Alexandre Fernandes, Claudinho Oliveira e Márcio Ferraz
Amanhã ou depois o leitor poderá conferir a confirmação do meu prognóstico aqui mesmo. Espero, sinceramente, estar errado. Mas não creio.
No último final de semana, consegui uma folga no trabalho e passei quatro dias em um hotel fazenda em Barra do Piraí, estado do Rio. Foram dias de descanso, lazer e, na medida do possível, desconectado.
Algo que me chamou a atenção é como temos lugares bonitos no estado do Rio, a pouco tempo de viagem da capital. Pela Via Dutra e depois atravessando as cidades de Piraí e Barra do Piraí, é uma trajetória de pouco mais de 100 quilômetros. Muitos cariocas não conhecem a região, com montanhas, cachoeiras e locais para se desestressar um pouco.
Constando de uma mini-fazenda e diversas opções de lazer, o hotel ainda possui a característica de ter uma equipe de recreadores cuidando das crianças. Uma das programações é a visita à citada fazenda, onde se pode dar comida aos animais e, para muitos, ter o primeiro contato com estes bichos.
É impressionante como muitas crianças de classe média, e até alguns adultos, jamais viram um avestruz, um burro ou mesmo uma vaca como a acima. É um distanciamento da natureza que torna o ser humano até mesmo meio ignorante de muitas coisas que o cercam.
Por isso que escrevo que é uma leviandade criticar coisas como o Bolsa Família ou outras iniciativas voltadas à população mais pobre ou do interior sentado atrás de um computador em uma sala refrigerada na cidade grande. Não há conhecimento suficiente, por mais que se estude, por mais que se informe. Precisa se ver - como fiz na Bahia em março.
O quadro é parecido. Muita gente que nunca havia visto um boi ou uma vaca na vida, mas que quer posar de "ambientalista", "ecológico", "vegetariano" e coisas do gênero. Mas o fazem andando em grandes "SUVs" que fazem 3km/l de combustível e gerando uma quantidade de resíduos imensa e desnecessária. Ou seja, na teoria a prática é outra...
Outra reflexão que dias como estes nos trazem é a irracionalidade de nosso dia a dia na cidade grande. Cada vez mais tentamos "espremer" mais atividades em menos horas, conjugado a isso com uma carga de trabalho cada dia maior.
Na prática, nos tornamos "multi tarefas", fazendo duzentas e cinquenta mil coisas ao mesmo tempo e sem conseguir parar para dar aquela rearrumada nas coisas. As pendências vão se acumulando e acabamos dando atenção às pequenas coisas quando elas se tornam grandes - e inadiáveis. Vivemos muito mais pelo dever, pelo cumprimento de nossas obrigações, e acabamos nos esquecendo do que nos dá prazer.
Observamos também as pessoas que vivem nestas localidades, uma vida talvez não tão confortável mas absolutamente mais calma e mais simples. O ser humano anda com a mania de complicar as coisas com sofisticações desnecessárias.
Ainda aproveitei para "matar as saudades" do kart - uma das coisas que os mil afazeres acabaram me afastando - na pista de mini buggy do complexo. O traçado, embora estreito, é bem interessante e serviria bem a uma pista de kart - um pouco mais largo, claro.
Os buggies tem o desempenho limitado mas, com o traçado da pista ajudando, acabam se tornando bem interessantes. No primeiro dia tive de ir devagar pois minha filha mais nova, a Ana Luisa, estava de "co-piloto" (foto), mas no último dia bati o "recorde" da pista: 16 voltas em 15 minutos. Acredito que o mesmo traçado em um kart destes indoor poderia ser feito em 28, 30 segundos por volta.
Em resumo, sempre é bom tirar alguns dias para se energizar e voltar à pauleira que é o nosso dia a dia. Perto da cidade do Rio há diversos locais como este, que permitem uma parada, um descanso e o contato com a natureza, com uma boa leitura e uma cervejinha, que ninguém é de ferro...
Tentei me manter o mais que possível desconectado - até porque a internet da Vivo não pegava de jeito nenhum, a antena havia pego fogo semanas atrás - mas depois que consegui configurar o Wi Fi do meu celular não resisti e postei diversos comentários no Twitter entre segunda e terça. Além de ver se os posts que havia programado antecipadamente haviam subido. Ainda assim consegui me manter razoavelmente longe da tecnologia, e isso foi bom.
Caminhei bastante, dormi, li... valeu a pena.
Ainda encontrei como vizinho de quarto o jornalista José Ilan, do GloboEsporte.com e da Globo, conhecido como uma das lendas do Twitter. Foi com ele que bati a foto abaixo, obviamente aproveitando para dar uma provocada na penca de tricolores que estava no hotel - inclusive o próprio jornalista...
Mais uma quarta feira, bateria (meio) recarregada e mais uma edição da coluna "Mr Beer and Miss Wine", assinada pela historiadora e especialista em organização de eventos Thatiane Manfredi.
"Etiqueta, você ainda precisará dela – Parte II.
Você sabe se vestir para ir trabalhar?
Muitos dos meus leitores dirão que sim, que se vestem muito bem para trabalhar e que no final de semana se vestem de forma mais confortável, mais despojada. Dirão também que passam a semana inteira “de forma muito formal” e que quando podem, querem se sentir mais à vontade. Mas eu penso que essa mentalidade pode ser modificada.
Hoje em dia nós esbarramos com as pessoas que trabalhamos em vários lugares. O poder aquisitivo do brasileiro aumentou ao ponto de permitir que ele possa sair para jantar mais vezes, permite também frequentar lugares que ele antes não imaginava poder ir. E certos lugares não pedem roupas mais informais. Imagine que você encontre com um cliente seu no naquele restaurante favorito e você não está bem vestido? Pega mal, não é? Até nisso nós devemos ter atenção.
Mas voltando a falar sobre como se vestir para trabalhar, seguem algumas dicas importantes:
Para as mulheres.
Ambiente de trabalho é sinônimo de discrição. Lógico que a criatividade é importante. Não somos providas de um guarda roupa de um milhão de reais (por mais que eu sonhasse...) e para tal precisamos ter jogo de cintura.
O ideal são peças 'coringas': poucos e bons ternos, em bons tecidos e bem cortados, ou em saia ou em calça são bem vindos. Mix de blusas e camisas sociais com esses ternos fazem dezenas de combinações, sem precisarmos investir muito dinheiro. Atenção aos botões das camisas sociais. É recomendado usar uma camiseta por baixo caso algum botão abra, sem querer. Evite estamparia de desenho muito graúdo (grandes retângulos, grandes círculos, grandes folhas, etc.). Evite também cores chamativas (cítricas, por exemplo).
Roupa, sapatos e bolsa de cor branca devem ser evitados nos meses frios ou nos dias chuvosos. São consideradas inadequadas roupas coladas ao corpo, curtas e sem mangas, com decotes grandes ou em tecidos transparentes ou brilhantes; a blusa deve ser opaca o bastante para esconder as costuras e alças do sutiã. Se usar saia ou vestido, coloque uma meia-calça.
Quanto a joias e bijuterias, no trabalho é conveniente usar o mínimo em tamanho e quantidade. Brincos discretos e pequenos e cintos não muito largos.
Tenha sempre à mão um paletó ou casaco. Eles podem complementar o visual dando um tom mais elegante, no caso de um compromisso mais formal, além de ajudar a proteger de uma mudança de temperatura não prevista (um ambiente refrigerado em excesso, por exemplo).
Favor evitar: sapatos de plataforma alta, ou de salto muito alto. Melhor que sejam delicados e de salto médio, e estejam sempre limpos, assim como a bolsa. Em dias chuvosos, por favor, não usem sandálias com os dedos de fora. Salvo claro, as famosas chuvas de verão que nos surpreendem. Sapatos fechados específicos para chuva, tais como botas são os mais aconselháveis.
As bolsas devem ser práticas e confortáveis. Bolsas sem alças cansam após carregarmos por muito tempo. Não existe mais a antiga regra de combinarmos a bolsa com o sapato. Existe sim a necessidade de que tenham elementos que os conectem. Ex: couro. Você é livre para usar o que quiser claro, com parcimônia e bom senso.
Maquiagem é essencial. Pó, batom e rímel são básicos. Sombras e blush apenas se os tons forem discretos e sem brilho. O perfume deve ser usado com parcimônia. Nada de excessos ou fragrâncias fortes. Existem pessoas alérgicas...
Lembrete final sobre a importância de se vestir bem para o trabalho: "Se você não se vestir bem durante a semana, é improvável que esteja bem vestida no sábado à noite”. (Diana Vreeland - ícone da moda internacional, colunista e ex-editora de duas das maiores publicações editoriais do ramo, Vogue e Harper's Bazaar.).
Para os homens.
As recomendações bem parecidas. Os ternos devem ser em cores escuras, listados ou não, indefere isso. A camisa branca, preferencialmente, mas cores estão sendo agregadas ao armário masculino: azul claro, rosa claro, lilás, amarelo claro, verde claro, etc. Note que todas são em tons neutros e discretos
Em regiões de clima quente é aceitável, se o ambiente de trabalho não exige formalidade, o uso, no dia-a-dia trivial, de camisas sociais de mangas compridas ou mesmo curtas. Desde que ambas de corte clássico, cores sóbrias, sem estampas e que não "briguem" com as calças, as quais devem ser sempre sociais nas cores básicas (cinza, marinho, bege e, mesmo, preta). Para vestir-se bem, necessariamente não é preciso estar todo o tempo de terno. Sob calor forte, chega a ser deselegante.
As camisetas de barras coloridas e tênis também não são recomendáveis para o ambiente de trabalho. Os jeans nunca saem de moda, mas ficam resumidos ao “casual friday”, se o ambiente permitir. Isso vale para as “ladies” também.
Não se usam meias claras ou brancas com sapatos escuros. As meias nunca devem ser de cano curto, pois deixam parte das pernas à vista quando o homem se senta. Sapatos engraxados sempre, roupas limpas e passadas (rapazes, eu disse passada, nada de parecer que saíram "da boca da vaca"), sem manchas, rasgos ou falta de botões. Isso é um mandamento básico.
Essa foi mais uma edição sobre etiqueta profissional. Na próxima edição, continuaremos tratando do assunto, que é bem extenso. Caso tenham dúvidas, críticas ou sugestões, por favor, comentem que responderei sempre na próxima coluna. Aguardo por vocês, até lá!"
Mais uma terça feira, feriado da Padroeira do Brasil, e a nossa coluna "Samba de Terça", unindo o sagrado e o profano, tem mais uma edição.
Hoje falaremos de um clássico, considerado por muitos o maior samba enredo de todos os tempos - embora, em minha modesta opinião, este título se aplique melhor a "Os Sertões" - e com certeza um dos maiores sambas da safra brilhante do império Serrano: "Heróis da Liberdade", 1969.
O clima político, à época, era irrespirável. O AI-5, ato ditatorial do governo militar que restringia barbaramente as liberdades individuais, fechava o Congresso Nacional, institucionalizava a Censura e prendia e torturava todos àqueles que se opunham ao governo havia acabado de ser editado. O Regime Militar se fechava e calava, no grito ou na pancada, as vozes dissidentes.
Na prática o AI-5 foi um "golpe dentro do golpe", como resposta às pressões de setores mais radicais das Forças Armadas por um endurecimento do regime. Como pretextos - mas não causas - foram utilizados o crescente pedido por liberdade, vocalizado pelo Movimento Estudantil, a relativa liberdade cultural e de imprensa e um discurso do jornalista e deputado Márcio Moreira Alves na Tribuna da Câmara por ocasião do 7 de Setembro, conclamando às moças não namorarem cadetes do Exército.
Os militares pediram a cassação do deputado por "crime de opinião", que é um claro acinte ao conceito político de liberdade de opinião - um parlamentar não pode ser punido pelo que diz em exercício de seu mandato. Obviamente, a Câmara dos Deputados, em rara demonstração de independência negou o pedido, e no dia seguinte veio o AI-5 - que, na prática, significou a tomada do poder pelos grupos mais radicais e mergulhou o país em uma era de trevas, autoritarismo, torturas, mortes e repressão.
Pois bem. É neste cenário que o Império Serrano apresenta como seu enredo um título sugestivo: "Heróis da Liberdade". A proposta era a de mostrar ilustres brasileiros que lutaram pela liberdade no transcurso de nossa história - desde o Movimento Nativista da Batalha de Guararapes contra os holandeses até os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na II Grande Guerra. Apresento abaixo um raro documento, transcrito pelo site referência "Galeria do Samba", que continha a súmula do desfile distribuída na avenida - uma espécie de sinopse.
Súmula do Desfile distribuída na avenida
O presidente Sebastião de Oliveira tinha idéia de montar " Vinte e um anos de glória do Império Serrano ". O Vice Presidente Acir Pimentel achou, entretanto, que não era tema forte. O Império precisava ganhar o carnaval. Outros três temas foram apresentados, mas eram fracos. Acir Pimentel , que faz carnaval há 33 anos, estando há onze na diretoria, chamou a atenção para o fato de que o Império sempre fez carnaval com a figura de um herói. Juntando os heróis todos e usando a palavra " liberdade ", formulou a montagem do carnaval, que num certo sentido atendia o desejo do presidente de assinalar os " Vinte e um anos de glória do Império Serrano ". Do livro de história de Rocha Pombo o momento em que o " clamor de liberdade se iniciou ". Aí se inicia o enredo :
O " Abre-Alas " é uma abóbada de 9 metros de comprimento com um azul do infinito ao seu interior, com uma pássaro voando a caminho do infinito, em sinal de liberdade. Atrás da abóbada vem escrito: Heróis da Liberdade. A abóbada vem girando.
A Comissão de Frente vem vestido em super-pitex, mas a modo convencional.
O enredo se desenvolve em dez atos:
1º.ato - Movimento Nativista do Brasil
"Com a invasão holandesa e a Batalha de Guararapes se inicia o movimento nativista do Brasil. Em razão dessa batalha se viu que o índio não servia para escravo, sendo então procurado o negro. O negro era muito mais resistente e lutador, o índio não se sujeitava, fugia." São destaques as figuras de André Vidal de Negreiros, Felipe Camarão, Henrique Dias, Índia Paraguaçu e Maurício de Nassau. As alas vêm com saldados e civis da época.
2º.ato - Palmares
"Mas o negro cansado de tanta exploração, vai procurar onde possa ter um pouco de liberdade: Palmares, que depois é arrasada". As alas mostram escravos, reis e rainhas nativos: seis reis e seis rainhas. Destaques: seis reis nativos, entre eles Ganga Zumba, encarnado por Joãosinho da Comédia; e Zumbi, por Geraldo.
3º.ato - Filipe dos Santos
"Filipe foi herói mártir.Era revoltado contra a coroa que cobrava absurdos de impostos" . Filipe dos Santos é o grande destaque; para melhor representar os traços finos do herói. Seguem alas civis, escravos do ouro e militares da época.
4º.ato - Inconfidência Mineira e Baiana
Nesta parte aparece a primeira alegoria: uma mesa onde estão sentados Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto; Tiradentes em pé ( com seis metros de altura ) no momento em que ia ser conduzido à forca. Ao fundo um mapa do Brasil com um condor simbolizando a luta pela liberdade. Segue Tiradentes como destaque.
5º.ato - Revolução Liberal
"Uma homenagem ao movimento que assim denominou: Dom João VI aceita governar constitucionalmente ". O destaque é D. João VI, vivido por Jorge. As alas têm ministros, damas e saldados da época.
6º.ato - Independência
Logo à frente vem D.Pedro I, em destaque, encenado por Paulinho. Seguem alas da corte, com damas e cavalheiros. Aparece a segunda alegoria: D.Pedro I a cavalo em tamanho normal, tudo feito de pasta. E o estandarte da Maçonaria.
7º.ato - Confederação do Equador
O destaque seria Frei Caneca, acompanhado do Padre Miguelino e outros, mas a Escola decidiu não colocar os destaques porque teriam de usar hábitos religiosos, o que poderia não ter aceitação do público e ferir a sensibilidade do clero. Mas em homenagens aos heróis as alas carregam a bandeira com que o movimento foi sustentado. Outras alas mostram saldados e civis.
8º.ato - Abolição
3a.alegoria: Castro Alves ( seis metros de altura ), tendo ao lado um escravo de joelhos com os grilhões quebrados, em atitude de agradecimento. Mãe segura em tocha, simbolizando a liberdade. Tudo isso girando. E uma frase histórica: " Assim como a praça é do povo, o céu é do condor " . Alas com escravos, senhores, sinhás-donas, cortejos, procissões, todos os figurantes em Debret. A ala dos intocáveis com pombos vivos nas mãos e escravos carregando cada qual uma letra da palavra Liberdade. Destaque: Castro Alves.
9º.ato - Proclamação da República
Vem a mulher vestida de "República" Ala com ministros e soldados. Destaques de Deodoro e Benjamin Constant. O mestre-sala Canelinha vai dançar o balé da liberdade. Canelinha abre a bandeira em sinal de liberdade. Foge da " república " ( e porta-estandarte ) se liberta dançando de braços abertos .
10º.ato - Homenagem ao Samba aos heróis
Uma carreta empurrada por dois homens mostra: uma bota nazista pisando no mundo; um pracinha da guerra de 42 ferido, lembrando os soldados em defesa das Nações. Duas crianças de colégio, um pretinho e uma branca. E um sol no poente simbolizando: O Sol Nasceu para todos. Alas com malandros e baianas prestam sambando sua homenagem aos 21 anos de glórias do Império Serrano".
Como vêem, era um tema extremamente audacioso para aqueles tempos de tortura, autoritarismo e total supressão da liberdade.
Como seria de se esperar, a escola teve problemas com o Estado. De acordo com o depoimento de Sérgio Cabral em seu livro sobre as escolas de samba cariocas - infelizmente, esgotado - Silas de Oliveira, um dos autores do samba, foi convocado para dar explicações ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), temido órgão de repressão à época. Ele saiu-se do embaraço alegando que o samba falava apenas de heróis e da liberdade do passado, mas, ainda assim, teve de trocar uma palavra no samba - "revolução" virou "evolução".
Entretanto, bastava ver a letra do samba para se perceber o potencial "subversivo" - na visão das autoridades - que ele continha. Naturalmente, o Império Serrano naquele ano se tornou a escola preferida de todos aqueles que faziam oposição ao regime e ainda não estavam presos. Criou-se ua expectativa imensa sobre o desfile.
A verde e branca da Serrinha foi a sétima escola a desfilar, já no início da manhã de 17 de fevereiro de 1969. Coincidentemente, no momento em que a escola iniciava seu desfile aviões da Força Aérea começaram a sobrevoar a Candelária, dando rasantes e fazendo muito barulho a fim de atrapalhar o cortejo da escola. O clima era muito hostil. No vídeo acima podem-se ver alguns parcos registros do desfile da escola, em material que encontrei no Youtube.
Na apuração a escola obteve o quarto lugar entre dez escolas, com 113 pontos - dezesseis atrás da campeã Salgueiro, com belo samba de exaltação à Bahia. Entretanto, ficou o recado e o lamento do povo brasileiro, sufocado e oprimido, vocalizado por talvez o maior compositor de sambas enredo de todos os tempos, Silas de Oliveira - em parceria com Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira:
"Ô ô ô
Liberdade Senhor!"
O samba se tornaria um daqueles que ultrapassam as fronteiras do samba de enredo e se tornam clássicos da música brasileira. Foi gravado entre outros por Roberto Ribeiro, Martinho da Vila, João Bosco, Chico Buarque de Holanda e Maria Rita, a gravação mais recente. Apresento aqui, ao longo do texto, a gravação original de 1969, a de Roberto Ribeiro e a de Maria Rita, pela ordem.
Por ironia do destino, esta seria a última vez em que Silas de Oliveira, em vida, veria um samba de sua autoria passar pelas avenidas de desfile do carnaval. Ele seria derrotado nos concursos imperianos dos anos seguintes, vindo a falecer de um enfarte fulminante em uma roda de samba, em 20 de maio de 1972. "Heróis da Liberdade" encerrava uma era na história do samba enredo. O Império Serrano voltaria a apresentar um samba do grande compositor em 2004, quando reeditou "Aquarela Brasileira".
Ironia do destino, parte II: hoje, 12 de outubro, Silas de Oliveira completaria 94 caso fosse vivo.
Vamos à letra do samba, que foi puxado na avenida por Joel Teixeira e por Júlia:
"Ô ô ô
Liberdade Senhor
Passava noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia
O fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao Largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria
Com sabedoria
Deu sua decisão
Com flores e alegria veio a abolição
A independência laureando seu brasão
Ao longe, soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim :
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Essa brisa que a juventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga
Pelo universo é a (r)evolução
Em sua legítima razão
Samba, oh samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade"
P.S. - Texto dedicado ao jornalista Ivan Bello, que lutou pela liberdade no Brasil do AI-5 e que faleceu na última quarta feira, aos 75 anos. Que descanse em paz este "Herói da Liberdade".
Mais uma segunda feira, desta vez feriadão para mim, e uma resenha que já era para estar aqui há bastante tempo, pois a leitura ainda é "rescaldo" dos dias entre Campinas e Paulínia.
Na verdade este "Haiti, depois do inferno" deveria ter estado aqui antes de "Diplomacia Suja", porque foi lido antes, mas optei por trocar a ordem devido à oportunidade do momento de então.
O livro, de autoria do correspondente da Tv Globo nos Estados Unidos Rodrigo Alvarez, é um relato da cobertura jornalística do terremoto que assolou o país caribenho, o mais pobre da América Latina.
Mas não somente isso: Alvarez traça um panorama do povo, do trabalho da Missão de Paz encabeçada pelo Brasil e explicita a arrogância imperialista do exército americano, mais preocupado em mandar e em ações pirotécnicas do que propriamente ajudar.
O relato começa com a odisséia que foi chegar ao país via República Dominicana. A equipe - formada também pela repórter Lília Teles e os cinegrafistas - alugou um helicóptero para ir de um país a outro, sem saber como seria a estadia no Haiti.
Entretanto, o Exército Brasileiro deu todo apoio aos jornalistas brasileiros: teto para dormir, alimentação, água potável e, o mais importante para os repórteres: uma conexão rapidíssima de internet para o envio das matérias ao Rio de Janeiro. Ou a São Paulo, dependendo da sede da emissora - haviam concorrentes ocupando o mesmo espaço, mas solidariedade não faltou.
Rodrigo Alvarez descreve, em um texto jornalístico mas caloroso, suas andanças pela capital Porto Príncipe sempre acompanhando as patrulhas dos militares brasileiros. Descreve a miséria e a total falta de infraestrutura do país, ainda mais agora depois do terremoto.
Também descreve a ação pirotécnica dos americanos, que desembarcaram com grande estardalhaço em Porto Príncipe apenas para mandar e fazer marketing para a televisão. O autor registra algumas pequenas escaramuças entre os militares brasileiros - que já estavam lá - e os americanos em sua exibição prepotente de força.
Outro ponto que me chamou a atenção foi o "código de ética" do povo local. Trabalhador que roubasse trabalhador, mesmo que fosse por comida e mesmo todos famintos, era linchado até a morte. O repórter também descreve com certo espanto a cena onde oito meninos dividem uma garrafa de água de meio litro que ele havia dado a eles.
Por outro lado, ele descreve a visita que fez a um resort para turistas americanos no norte do país, chamado Labadee. Duas empresas de cruzeiros marítimos mantém hotéis no local, onde as praias são mantidas isoladas do resto do país. Algo como um condomínio de luxo, com arame farpado, no meio de uma favela.
Finalizando, ele descreve a odisséia para deixar o país e os dias seguintes, onde ele sofreu de "estresse pós-traumático". Passou alguns dias de folga no Brasil e ao retornar para New York passou a se questionar sobre os sentido das coisas que ele vivia ali com a tragédia instalada a apenas três horas de vôo - algo como daqui do Rio ao Recife.
Livro curto, intenso, com linguagem acessível e que se lê rapidamente. O autor encontrou o tom certo para descrever a tragédia, objetivo sem ser frio, caloroso sem ser dramático. Salta aos olhos o esforço do Exército brasileiro no país devastado não somente para manter a ordem como para prover algum tipo de infraestrutura ao Haiti.
Também recomendo para aqueles que possuem curiosidade de saber os bastidores de uma cobertura jornalística como essa, com os altos perrengues passados para enviar as matérias para exibição posterior.
Acabei comprando semana passada livro que saiu recentemente sobre o trabalho dos militares brasileiros no país latino americano: "Dopaz", da jornalista Tathiane Stochero. Resenha próxima aqui - com a necessária comparação.
Na última sexta feira foram lançados o segundo filme da saga "Tropa de Elite" (ainda baseado no primeiro livro da série) e o segundo livro da série, "Elite da Tropa - II" - sobre o qual escrevi domingo passado.
Disponibilizo para este final de domingo mais um capítulo do livro e o trailer do filme - que é baseado na segunda parte do livro original. Originalmente o capítulo foi publicano no jornal "O Dia". Os morros citados no texto parecem ser Formiga e Casa Branca (ou Borel, pode ser também), na Tijuca.
Livro já à venda e filme já em cartaz. Esta semana pretendo colocar aqui a resenha do livro.
P.S. - Não é nada, não é nada mesmo, mas este é o post de número 1.000 do Ouro de Tolo.
‘A MORTE DE TOMATE’
O morro da Aroeira, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, faz fronteira com São Tomé, outra favela importante na economia do tráfico e do fluxo de armas. O Bope fez dezenas de operações na área ao longo daquele ano. Em praticamente todas eu estava presente. Muitas vezes comandando a tropa. Vivi ali duas situações extremas, de sentidos muito diferentes e consequências opostas. Uma fez de mim um capitão vitorioso; a outra, um vilão. Para falar a verdade, talvez tenha acontecido o contrário. Pelo menos de um certo do ponto de vista — a paisagem vista da laje? —, a primeira história poderia ser lembrada com orgulho, mas um orgulho cheio de sangue. Na segunda, em que fiz o papel de vilão — segundo a perspectiva dos senhores do bem e do mal, deuses dos carimbos, donos da verdade —, na realidade eu era o herói. Houve também uma terceira aventura que não sei se devo contar. Vou pensar a respeito. Quando terminar de descrever as duas primeiras eu decido. Foi um caso delicado. Não gostaria de criar problema depois de tanto tempo, desfazendo o que me custou tanto fazer. De fato, se na primeira situação senti o gosto amargo do triunfo e, na segunda, o doce sabor da derrota, na terceira não sei até hoje de que lado estava o certo, de que lado estava o errado.
Subi devagarinho o plano inclinado na lateral de um largo platô para atingir a plataforma, de onde eu teria um amplo controle visual da favela. A posição me daria uma visão de 360 graus. Sargento Tenório veio comigo, carregando o fuzil G3-SG1, com a excelente luneta Leopoldi que aproximava seis vezes a imagem natural. O G3-SG1 acertava um alvo a 60 metros com precisão e se fixava em um bipé suficientemente firme. Tenório não era o sniper do grupo, mas era fiel, corajoso e disciplinado. Pau para toda obra.
Pisei nas pedras e nos galhos caídos com muito cuidado para não fazer barulho. Não tinha a menor ideia sobre onde estariam os traficantes. Éramos 16 homens. Os oito da segunda equipe mandei entrarem pelo morro de São Tomé. Eu e os sete da primeira equipe viemos diretamente para a Aroeira, margeando a via principal. Escolhi a frente de um beco e algumas lajes como pontos estratégicos. Distribuí meu grupo pelos pontos. Os movimentos foram conduzidos com muita atenção e cautela. Os traficantes da Tijuca já conheciam bastante bem as técnicas do Bope. Tinham aprendido que não vale a pena nos enfrentar. A única saída para eles era reconhecer sua inferioridade, evitar o confronto e reagir só na covardia, armando alguma cilada contra nós. Por isso eu sabia que não era inteligente confiar no silêncio e na calma aparente. Pelo contrário. A mansidão era sinal preocupante de que nossos inimigos estavam nos observando, à espera de algum tropeço. Qualquer erro podia ser fatal. Não há nada pior para um soldado em guerra do que a autoconfiança. Quer dizer, autoconfiança excessiva. Aquela que beira a soberba. Como garante a sabedoria popular: só morre afogado quem sabe nadar.
Cheguei ao plateau e me ajoelhei. Explorei o lugar, lentamente, caminhando abaixado, enquanto Tenório montava os pés do fuzil. O capim-limão crescido subia pela encosta e produzia uma espécie de barricada verde na margem dianteira da plataforma. Não era preciso ficar de joelhos, mas tampouco seria prudente adotar a postura normal. A vegetação não era tão alta assim. De todo modo, a noite estava escura. Seu manto negro nos protegia. Tenório, além de religioso, era metido a poeta. Dizia coisas desse tipo. Eu não me incomodava, desde que ele mantivesse os pés na terra e os olhos bem abertos.
Não precisei nem de um minuto para matar a charada. Fantástico. Isso sim era um presente dos céus. Bem debaixo do meu nariz, a uns cinquenta metros, sob uma amendoeira frondosa, quatro traficantes conversavam. Olhei pelo binóculo, mas não tive certeza se o Tomate estava entre eles. Tomate era o dono do morro. O chefe do tráfico. Meu alvo naquela incursão e em tantas anteriores, frustradas. Sem pensar duas vezes, deixei meu corpo deslizar de costas pelo declive que me separava dos vagabundos e sobre o qual se erguia o plateau.
Estanquei um metro e meio abaixo de Tenório, encarando o céu, deitado, o binóculo no peito. Em silêncio, elevei o binóculo à altura dos olhos e, movimentando uns trinta centímetros a cabeça para cima, estudei a cena. Lá estava Tomate. Não havia mais nenhuma dúvida. Conhecia aquela cara das fotos que o Bope recebia da P2 e da polícia civil. Não tinha erro. Abaixei a cabeça, voltei a apoiar o binóculo no peito e sussurrei, no meio da relva alta, para Tenório.
— O cara de short vermelho é o Tomate.
Dei um tempo ao sargento e inalei o cheiro do mato à minha volta. O capim cobria parcialmente meu corpo. Levantei de novo a cabeça apenas o suficiente para observar os movimentos do grupo.
Deitei a cabeça e tentei relaxar — como se fosse possível relaxar a cinquenta metros do inimigo, protegido só pela noite e pelo leve cobertor vegetal. Não sei exatamente quantos minutos se passaram. O que eu sei é que nunca vou esquecer o que senti quando me dei conta de que o dia amanhecia. Amanhecia numa velocidade irreal. Era quase como se a natureza tivesse acendido a luz, subitamente, apertando o interruptor cósmico. Meu corpo soube antes de minha consciência. Talvez um segundo. Mas garanto que soube antes. Sei disso porque recebi uma carga extra de adrenalina, bombeada direto no estômago, e o conceito claridade, luz, dia, sei lá, o conceito que dava sentido ao fenômeno veio em seguida. Não seria exagero dizer que o conceito foi transportado até a consciência pelos jatos sucessivos de adrenalina que o metabolismo bombeava em ritmo frenético. Não estou fazendo diagnóstico médico. Descrevo impressões e sentimentos.
Com a luz vieram o perigo e a lucidez. O medo também — por que mentir?
— E aí, Tenório? Porra.
— O cara de short vermelho foi para o outro lado da amendoeira. Estou esperando ele voltar para o lado de cá.
Eu disse baixinho mais algum palavrão, mas duvido que meu subordinado tenha ouvido. Fui obrigado a redobrar os cuidados. Parei de me mexer e de alçar a cabeça. A claridade trouxe os bandidos para perto. Uma coisa são cinquenta metros no meio da madrugada escura. Outra, ao amanhecer.
Suspendi um pouco o pescoço e vi que o grupo olhava em nossa direção. Olhava fixamente. Em alerta. Teriam visto o fuzil, mesmo camuflado? Temi que meu corpo pudesse ser percebido na forma de mancha na relva.
Um instante depois os vagabundos começaram a atirar. O coração socava mais forte. Logo deduzi que não éramos nós os alvos. Ou eles nos teriam acertado. Atiravam para a área à nossa esquerda, de onde viemos. Felizmente, meus homens eram disciplinados e cumpriam ordens. E eram preparados tecnicamente. Sabiam que quem atira a esmo é traficante e polícia convencional. Só os despreparados atiram aleatoriamente. As consequências a gente conhece: vítimas inocentes, balas perdidas e baixa eficiência. Se minha tropa respondesse aos tiros, revelaria sua posição, que permanecia ignorada pelos criminosos. Era esse nosso trunfo. Se o grupo do Tomate não tinha identificado nossa presença, por que atirava? Muito simples: àquela hora, cinco da manhã, o movimento da favela em um dia normal já teria começado. A partir das cinco os trabalhadores descem para o trabalho. Acontece que, naquele dia, ninguém descia. Por quê? Por que a imobilidade? Claro que era artificial. Evidente que estava sendo provocada por algum fator externo à vida da comunidade. A conclusão era óbvia. Alguma coisa estranha estava ocorrendo no morro. Nós éramos essa coisa estranha.
A explicação para o ataque sem alvo dos traficantes me acalmou por alguns segundos, mas não era motivo para tranquilizar quem estava deitado de costas na terra na iminência de virar foco da mira de armas inimigas. Eles continuavam estranhando o silêncio, a imobilidade. Percebi com um leve alçar do pescoço que davam alguns passos cautelosos em nossa direção, os fuzis já nas mãos.
Eu não queria transmitir insegurança ao Tenório. Ele não era experiente. Não era um sniper. Tinha tudo para tremer.
Usei a voz mais calma disponível no meu repertório:
— Consegue ver?
Tenório apertava o olho direito na luneta.
— Achou?
Ele finalmente respondeu:
— Está no retículo.
Retículo é aquela cruzinha que focaliza o alvo e calcula para o sniper a trajetória do tiro. Se eu mandasse ele atirar e ele errasse, eu estaria liquidado. Não foi bem essa a palavra que me veio à mente.
Na hora falei fodido. Ou melhor, pensei. O jeito era dividir com Tenório a decisão. Eu só daria a ordem se ele estivesse se sentindo seguro.
Perguntei se ele achava que poderia fazer o tiro.
— Positivo, capitão.
— De short vermelho?
— De short vermelho.
— Dá pra fazer?
— Positivo. Está bem no retículo.
— Então faz.
O bando dispersou no instante em que Tomate foi atingido. Cada um correu em uma direção. A surpresa e o choque, o eco do estampido no relevo sinuoso do morro, tudo isso misturado confundiu a bússola dos traficantes: fugindo, buscando abrigo, atiravam sem norte. A quantidade de sangue ao redor de Tomate formava um círculo cujo diâmetro não cessava de crescer. Não sei o que fiz para ficar de pé tão rápido. Quando dei por mim estava acelerado, descendo, a pistola apontada para o dono do morro, que ameaçava atirar mas não conseguia manter o equilíbrio nem fixar a mira. Desorientado, prestes a tombar, ferido de morte, sangrando feito um porco, Tomate movia o braço direito com o fuzil em todas as direções, os joelhos dobrados. Parecia uma dança bizarra. Antes que ele me acertasse ou atingisse alguém, disparei minha pistola e ele tombou. Entretanto, não morreu logo. A agonia se prolongou. Vivi anos em guerra e não me lembro de ter visto sangue jorrando feito petróleo daquele jeito. Ele era gordo e os jatos faziam barulho. Um chiado sinistro. Um balão desinflando. Não digo isso para fazer graça. Não é engraçado. Na verdade, é triste, repugnante, ruim relembrar. E foi horrível a cena quando eu estava lá, debaixo da amendoeira, ordenando a meus homens que avançassem.
Tomate era meu troféu. A missão era matá-lo. Dezenas de vezes muitos de nós tentamos em vão. O homem era o diabo. Mesmo assim, vitorioso, acompanhando sua passagem borbulhante e penosa para o inferno, eu não me sentia feliz nem gratificado. Os soldados comemoraram, meu superior me fez um elogio público, o Bope foi celebrado em prosa e verso por mais aquela conquista, mas eu me sentia oco. Vazio como a carcaça ressecada do dono do morro.
Um fato envenenou minha vaidade e o sentimento de realização. Quando parei diante de Tomate agonizante - enquanto contemplava a vida em fuga, o sangue revirando o corpo pelo avesso -, uma criança de cima de uma laje próxima gritou. Não gosto de recordar o grito e a voz da criança, mas a memória tem autonomia e goza do direito de ir e vir. O que fazer? Ela gritava "meu pai" e me chamava de assassino."