domingo, 5 de setembro de 2010

Bissexta - "Mata-Mata!"


Domingo, coluna "Bissexta". Saindo do forno, com um tema polêmico e sobre o qual também escrevi: a pena de morte.

Como sempre escrita pelo advogado Walter Monteiro, desmonta uma falácia muito repetida pelos papagaios midiáticos brasileiros: de que a pena de morte no Brasil diminuiria o custo com os presos. Boa leitura.

"MATA-MATA!

Vou falar de um temazinho leve e nada polêmico: a pena de morte.

Esse costuma ser um assunto em que não se faz pesquisas de opinião ou muito menos se comete a sandice de levá-lo a plebiscito, porque se suspeita – e com justos motivos – que se a população brasileira fosse dada a opinar, a preferência pelo castigo medieval seria esmagadora. Mas qualquer sujeito atento pode concluir que basta um crime cruel ser noticiado que logo surge alguém para soltar o brado: Bandido? Tem mais é que matar, assim é menos um!

Eu não vou falar contra, nem a favor, embora, claro, eu seja radicalmente contra a pena capital. Aliás, costumo selecionar minhas amizades a partir daí – se alguém reage a algum noticiário policial com esse nível de entendimento do problema, então já se estabelece um abismo intelectual irreconciliável entre nós dois. Nada que a pessoa fale pode ser capaz de apagar a má impressão inicial. Mas, como disse, cada um no seu quadrado, não vou mesmo fazer proselitismo em defesa da civilidade como a forma de vida possível desde que saímos da barbárie. A minha intenção, aqui, é outra. Quero convidar os leitores do blog a analisarem, em termos numéricos, a adoção da pena de morte pelo mundo e sua efetiva aplicação, nada além disso.

Bom, para começo de conversa, apenas 18 países aplicaram sentenças de morte em 2009. Tirando os Estados Unidos  e o Japão (dos quais falarei a seguir), a turma dos açougueiros é de primeira: Irã, Iraque, Sudão, Vietnam, Trinidad e Tobago, só gente fina. E, claro, a China, campeã mundial absoluta de tiro ao alvo criminoso, com cerca de 90% das execuções globais.

A esmagadora maioria dos países aboliu por inteiro a possibilidade da pena de morte. Há aqueles que ainda a mantém apenas para situações excepcionais (como em caso de crimes de guerra). Por incrível que pareça, entre eles, o Brasil, na seleta companhia de Bolívia, Israel, Casaquistão, Letônia, Chile, El Salvador, Peru e Ilhas Fiji.

De países com essência democrática, só o Japão e os EUA metem a faca na turma do crime. Mas o Japão de forma modestíssima: só 7 infelizes foram compulsoriamente passados desta para melhor, apesar de outros 34 estarem na fila macabra. E mesmo nos Estados Unidos, apesar de tanta gritaria, o número de execuções em 2009 é de exatas 52 almas. Eu acho 52 mortes coisa pra chuchu! Mas, ainda assim, é um grãozinho de areia, quando comparado aos mais de 2 milhões de encarcerados nos EUA.

O mais curioso é que aquele empolgado lá do primeiro parágrafo, que saiu pregando a execução sem dó nem piedade de todo transgressor da lei, costuma emendar na sequência o torpe argumento de que é um “absurdo” o Estado “gastar dinheiro” para manter os bandidos na prisão, sendo muito mais conveniente despachar logo o ‘coisa ruim’ para o inferno. No entanto, o número de execuções nos EUA vem caindo exatamente pelo motivo inverso: por incrível que pareça, custa caríssimo matar um condenado.

Uma única execução custa US$ 2,5 milhões, o que daria para deixar o cidadão na cadeia por mais de 120 anos e ainda sobraria troco. É claro que não se está falando do custo daquela injeçãozinha redentora. O problema é que um condenado à morte possui um leque amplo de recursos judiciais à disposição, que não raro demoram mais de 20 anos para serem julgados, a um custo elevadíssimo para o Estado. É muito mais eficaz, do ponto de vista do gerenciamento de recursos, deixar o sujeito apodrecendo na cadeia, aquilo que a toda hora ouvimos nos filmes, life in prison.

Já houve quem se deu ao trabalho de simular qual seria o custo, no Brasil, da aplicação da pena capital, a partir de uma proporção desse modelo americano, considerando a nossa estrutura recursal e os gastos do sistema prisional. Acredita-se que o preço da execução, por aqui, iria ficar em torno de uns R$ 350 mil. Ou seja, para despachar para a cidade dos pés juntos uns mil bandidões irrecuperáveis, o Brasil precisaria investir R$ 350 milhões do nosso suado dinheirinho só para satisfazer a sede de vingança dos inocentes. 

Mas o pior nem é isso... o pior é que depois dessa dinheirama toda só para dar cabo de mil condenados, ainda sobrariam uns 500 mil presos nas nossas cadeias. Esses números mostram, friamente, que a pena de morte não é nem de longe um instrumento de política criminal, pois o seu alcance é reduzidíssimo frente à avalanche de crimes que são cometidos diariamente.

Até na China, país que não tem qualquer pudor de executar criminosos aos lotes e ainda cobra a bala do fuzil da família do morto (sabe como é, matar custa caro, como acabei de dizer), o total de execuções anuais fica aí pela casa das 5.000 anuais. Um número assustadoramente triste, mas que ganha um peso relativo frente aos mais 1,35 bilhões de habitantes do país – é como se o Brasil executasse uns 700 presos/ano.

Aliás, não custa lembrar que os chineses não são seletivos na hora de apertar o gatilho, pois se aqui no Brasil os amantes da pena de morte a imaginam como um castigo exclusivo de crimes hediondos, lá na China se aperta o gatilho contra quem emite nota fiscal fria ou sonega impostos. Sabe aquele médico que te pergunta se você quer pagar a consulta com recibo? Pois é, se ele fosse chinês, era sério candidato ao corredor da morte.

Portanto, cada um pode ser a favor do que bem entender, achar que o certo é sair apagando geral mesmo, que bandido bom é bandido morto. Mas, da próxima vez que alguém vier querer dar uma de inteligente e justificar a aplicação da pena de morte com qualquer outro argumento que não seja o puro desejo de vingança, faça o favor de convidá-lo a refletir a partir desses números."

sábado, 4 de setembro de 2010

Dia de Visitante


Como os leitores devem ter percebido, eu passei a semana passada inteira, até ontem, a trabalho entre Campinas e Paulínia. Mas falarei depois sobre esta semana de trabalho.

Domingo passado antecipei meu vôo de ida pois por uma destas coincidências da vida calhou de o Flamengo estar jogando na cidade campineira exatamente nesta semana.

O curioso é que apesar de trinta anos de Maracanã seria a primeira vez em que veria o Flamengo jogando fora do Rio, como visitante.

Cheguei ao hotel por volta das treze e trinta e encontrei-me com o conselheiro do clube Sérgio Merçon, que seria a minha companhia para a partida. Fomos para o estádio Brinco de Ouro da Princesa e precisamos chegar ao vestiário para pegar nossos ingressos.

Como vêem, encontrei-me com Zico e tirei esta foto que o leitor vê acima. Ainda aproveitei para parabenizá-lo pela demissão do técnico Rogério Lourenço, o qual afirmou que, por ele, não o teria demitido. Minha opinião é de que este foi o pior técnico que já vi comandar o Mais Querido.


Nós estávamos imediatamente do lado oposto ao reservado à nossa torcida. A chance de sermos agredidos pela torcida do Guarani seria bastante razoável. Pedimos ao segurança dos vestiários que nos apoiasse e o chefe destes veio em nosso socorro, solicitando uma escolta policial.

Atravessamos o estádio por dentro, com uma escolta de cinco Policiais Militares e sob xingamentos dos torcedores adversários, que nada podiam fazer. Acho que nunca me senti tão importante na vida... Obviamente não tirei fotos pois seria escárnio demais.

Para o leitor ter uma idéia, os vestiários são entre a parte das arquibancadas que tem dois andares e a parte que na foto acima está com a cor descascada. E a foto foi tirada exatamente do outro lado. Aproveito para ressaltar o comportamento correto e agradecer à Polícia paulista.


O estádio em si é muito ruim. Mal conservado, com pichações no túnel - literalmente - de acesso às arquibancadas, paredes apenas no reboco e visão muito ruim do campo onde nos colocaram - atrás dos gols.

Duas particularidades: vendem-se churros no estádio e os refrigerantes são vendidos em garrafas PET: o vendedor abre a garrafa, enche o copo e o entrega.

Diria sem medo de errar que é o pior estádio de futebol que eu já vi na vida. O estádio da Ponte Preta, onde estive na terça feira, é bem melhor e mais conservado.


Nossa torcida representava uns 30% do total e era quase que totalmente local. Alguns estudantes da Unicamp, mas a maioria campineiro e de cidades próximas.

Como a única organizada representada era a Urubuzada - pelo menos com faixa - percebia-se um comportamente bastante diferente do verificado no Rio. Músicas que eu não ouço há muito tempo lá eram cantadas. Era algo mais espontâneo e, tirando-se a irritação com Val Baiano, mais compreensiva.


A torcida do Guarani, apesar de superior numericamente à nossa, foi abafada quase o tempo todo pelos nossos valentes guerreiros. Na prática, somente se manifestaram com força após o pênalti não marcado, o marcado e os gols da incrível virada no finalzinho.


Após um primeiro tempo equilibrado, o gol no final nos deu o domínio do jogo, quebrado apenas pelos gols perdidos por Val Baiano e pela inacreditável virada sofrida nos acréscimos. O time talvez tenha pecado pela excessiva preocupação defensiva nos minutos finais.


Obviamente, o ponto negativo foi a péssima arbitragem do juiz baiano cujo nome me escapa agora. Deixou de dar um pênalti escandaloso no primeiro tempo, depois para compensar inventou de forma bisonha outro - perdido, pênalti inexistente não entra, já dizia o ditado - e validou o primeiro gol do Bugre feito em uma cortada de vôlei digna dos melhores momentos de Giba. Uma lástima.


Final de jogo, inacreditável derrota, e retorno para o hotel surpreendentemente tranquilo. Curiosamente as duas torcidas foram autorizadas juntas a deixarem o estádio, mas havia um cordão de isolamento feito de forma eficiente pela PM do lado de fora.

Acabei retornando a pé para o hotel devido à escassez absoluta de táxis. Mas esta é uma outra história, que contarei aqui, bem como a ida na terça feira para ver Ponte Preta e Brasiliense.

Claro que não voltei satisfeito por causa da inacreditável derrota. Mas foi bem divertido, com algumas boas histórias e a estréia em partidas fora do Rio de Janeiro. No fim das contas, apesar de tudo, valeu.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Final de Semana - "O Guarani"



Sexta feira, semana passada entre Paulínia e Campinas, e nossa música para o final de semana não poderia deixar de homenagear o filho mais ilustre da cidade: Antônio Carlos Gomes (1836-1896). Ao lado de Villa Lobos, o maior compositor brasileiro de música clássica, e um dos primeiros artistas brasileiros a serem reconhecidos na Europa, no Século XIX.

Aqui trazemos a sua ópera mais famosa, "O Guarani" - e que batiza o principal time de futebol da cidade.

Trago aqui vídeo com a famosa introdução da ópera, interpretada pela Orquesta Petrobras e regida pelo maestro Sérgio Chnee. O curioso é que por ter sido durante muito tempo a música de abertura de "A Voz do Brasil", muita gente pensa que "O Guarani" é o hino nacional brasileiro.

Bom final de semana prolongado, para quem pode - eu trabalho na segunda feira. E o Ouro de Tolo não para.

Cinecasulofilia - "o mundo é belo (ou o céu de fortaleza)"


Mais uma sexta feira e mais uma edição de nossa coluna sobre Cinema, a "Cinecasulofilia". Escrita em parceria com o blog de mesmo nome, o texto é de autoria do crítico, cineasta e professor Marcelo Ikeda.

 o mundo é belo (ou o céu de fortaleza)

(...) Tive vontade de escrever um pouco sobre O MUNDO É BELO, do Luiz Pretti, recém selecionado para o Festival de Veneza, e ainda inédito no Brasil. Tenho a impressão, ainda que possa ser um mero delírio egocêntrico – a ser confirmado pelo autor – que esse curta é uma espécie de prolongamento de uma vídeo-carta que o Luiz mandou para mim. Essa carta, por sua vez, é uma resposta (um retorno, um diálogo) a uma série de vídeo-cartas que mandei para os amigos cearenses ao longo de quase um ano, um conjunto de seis vídeo-cartas, e que geraram essa única resposta filmada. Ainda assim, acredito, como cheguei a falar anteriormente, que as respostas a essas cartas foram múltiplas e íntimas, ainda que não tenham gerado um conjunto de outras vídeo-cartas, mas são retornos mais sutis e inconcrescíveis, que resultou também, em última instância, em minha própria presença física aqui no Ceará. De todo modo, a própria seleção de O MUNDO É BELO para o Festival de Veneza sinaliza uma resposta concreta, se for possível essa associação entre essa vídeo-carta do Luiz com o curta em questão.

A afirmação de que essa associação existe se baseia em três coisas, que na verdade são uma só, e são múltiplas: a de que ambos os curtas são cartas, feitas com uma câmera precária (uma cybershot ou uma câmera de celular, o que dá na mesma) e especialmente o singelo fato de que ambos os curtas são filmes sobre o céu de Fortaleza.

O MUNDO É BELO é uma carta, ou seja, é um curta que poderia se chamar “crônica de uma separação” ou ainda “crônica de um relacionamento”. Com isso, quero dizer que uma outra forma de ver esse curta é considerá-lo como um epílogo, ou ainda, como um prelúdio. De outra forma, posso dizer que O MUNDO É BELO é sobre não tanto a dificuldade mas essencialmente a necessidade de dizer uma palavra ao outro, e dessa forma, dizer uma palavra a nós mesmos. Para tanto, é preciso saber observar.

Assim como a vídeo-carta, O MUNDO É BELO é repleto de imagens de céus e uma voz-over confessional que expira os pensamentos do autor. Acontece que não são imagens de um céu qualquer, e sim imagens do céu de Fortaleza, e isso para o autor tem um sentimento particular, apesar de que a cidade não seja a sua cidade natal, mas talvez seja mais forte do que isso. Não existe uma nostalgia, uma melancolia, mas um desejo de ver, um desejo de estar e um desejo de ser. Um desejo de pertencimento a algo que não necessariamente se é.

As pessoas que moram ou que já passaram por Fortaleza sabem que é quase impossível caminhar pela cidade à tarde, quando o sol queima a moela dos passantes. A vídeo-carta era sobre, ainda assim, a possibilidade de ver esse céu e ver esse sol como uma potência. Uma possibilidade de conviver, de olhar para esse sol. Uma necessidade de continuar caminhando, apesar do sol, ainda com o sol.

Mas o sol é duro, e a cidade é dura, tão dura quanto o sol. Ainda assim, é preciso continuar caminhando, continuar pensando sobre o sol. As imagens, da mesma forma, são tão duras quanto o sol. A câmera de celular, o cybershot, filmam o sol (o céu) sem lentes ou filtros que envolvem esse céu-sol numa beleza plástica, na plasticidade da imagem. Há um olhar duro, pixelado, fragmentado, para esse objeto-coisa. E ainda assim existe uma enorme beleza nesse sol-cidade.

A seleção de O MUNDO É BELO para o prestigioso Festival de Veneza não faz o filme melhor ou pior. Mas aponta para uma coisa fantástica, destaca o curta num cenário da realização do audiovisual brasileiro, mostra caminhos e perspectivas concretas. E o mais importante: mostra que isso é possível sem “tapar o sol com a peneira”, olhando de frente para esse sol duro. O MUNDO É BELO é um curta praticamente todo feito por uma única pessoa, com um câmera cybershot, sem leis de incentivo. Não é um cartão-postal do sertão cearense: é um filme duro e precário. Sim, precário, cru. Mas a beleza desse curta é apontar que essa precariedade seja um sintoma da beleza do mundo. A beleza não está propriamente nos pixels que compõem a imagem (na imagem em si) mas essencialmente numa FORMA DE OLHAR para as imagens, que é em última instância UMA FORMA DE ESTAR NO MUNDO. Para ver a beleza de O MUNDO É BELO, é preciso saber observar. Resta-nos saber se estamos preparados para isso."

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre a liberdade de imprensa


Um dos debates que vem permeando a atual campanha eleitoral é o relacionado à liberdade de imprensa. Temos várias tendências e uma disputa encarniçada por privilégios sem a proverbial contrapartida.

A oposição costuma dizer que a candidata Dilma Roussef, se eleita, irá "acabar com a liberdade de imprensa". Parece esquecer que o Presidente Lula foi um dos mandatários mais vilipendiados pela chamada "grande imprensa" e em momento nenhum sequer levantou a voz para reclamar das críticas e muitas vezes das mentiras a seu respeito e do governo que eram publicadas.

Por outro lado o principal candidato de oposição tem histórico de mandar demitir jornalistas que escrevem matérias ou fazem perguntas que o desagradem. Haja visto o recente episódio ocorrido na Tv Cultura, de propriedade do Governo Paulista, onde matérias sobre os abusivos e extorsivos pedágios cobrados em São Paulo renderam a demissão de dois dos mais prestigiados jornalistas da emissora.

Raciocinando friamente e fora do clima de histeria em que esta questão está envolvida, seria muito mais razoável imaginar restrições ao trabalho da imprensa em um eventual mandato de José Serra. Este já andou reclamando de blogs que lhe fazem oposição - chamando-os de "blogs sujos" - e não seria absurdo pensar que todos estes elementos da blogosfera que o incomodam sofreriam algum tipo de retaliação em caso de vitória do candidato do PSDB.

Entretanto, este não é o tema deste post, mas sim a liberdade de imprensa desejada pelos donos da grande mídia. Hoje esta mente, manipula, distorce, toma posições políticas, assassina reputações, é parcial, utiliza-se de concessões públicas para advocacia privada (no caso das televisões) e é utilizada para defesa de interesses que nem sempre são de bom tom vir a público.

Bons exemplos desta postura são a revista Veja e a campanha feita pelo jornal O Globo há mais de ano contra a Petrobras.

A revista semanal em questão especializou-se em "assassinar reputações", que é publicar denúncias infundadas contra pessoas e instituições sem ouvir a parte em questão e sem admitir o contraditório. O intuito é colocar na lama nomes e carreiras, a serviço de interesses fiduciários nem sempre confessáveis. O jornalista Luis Nassif escreveu há dois anos atrás série bastante elucidativa sobre os métodos da revista e os interesses por trás de "matérias" que tinham compromisso com quase tudo, menos a verdade.

Também ressalto o comportamento do jornal O Globo em relação à Petrobras, maior empresa do Brasil. Há mais de um ano as páginas do jornal vem sendo utilizadas para denegrir a companhia, mas agora, com a capitalização que se aproxima, parece claro que as páginas do jornal vem sendo utilizadas por atores interessados na diminuição do preço das ações da petroleira brasileira; a fim de ganhar dinheiro quando do lançamento das novas ações.

Não posso falar muito por estar sujeito a regras determinadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e que todos os funcionários de uma empresa em período de oferta pública de ações devem seguir. Entretanto, posso afirmar que as matérias sobre a empresa publicadas nas manchetes deste jornal todo santo dia são absolutamente falaciosas.

Também tenho de me referir ao episódio recente das entrevistas publicadas no Jornal Nacional com os candidatos a Presidente. Enquanto Dilma Roussef foi inquirida pelos âncoras quase que à moda de Torquemada, o candidato da casa, José Serra, foi tratado com a gentileza de um convescote.

Tal âncora, que também é editor chefe do noticioso em questão - e afirma que 'pensa' as notícias tendo como público alvo uma legião de "Homer Simpsons" - não hesita em executar as diretrizes do Diretor Geral de jornalismo Ali Kamel e utilizar o tempo - e uma concessão pública - para fazer proselitismo político, muitas vezes distorcendo e manipulando os fatos.

Se esta é a liberdade de imprensa defendida pela grande mídia - a manipulação, o proselitismo, a advocacia pessoal e a distorção sem limites - sou a favor de algum tipo de regulamentação, em especial para a televisão. Não podemos nos esquecer que esta é uma concessão pública e, como tal, está sujeita a regras.

Um bom jornalismo deve estar a serviço da verdade, do respeito ao contraditório e da separação clara entre notícia e opinião. Hoje o que mais se vê é opinião vendida como notícia. Isto é pessimo.

Outrossim, não podemos deixar de notar o comportamento da Justiça quando as partes prejudicadas buscam o necessário direito de resposta. Normalmente referendem esta "liberdade" distorcida e deixam os alvos das campanhas midiáticas sem muito ao que recorrer - e com a sensação de que estão acima do bem e do mal. Evidentemente o poder da grande mídia era muito maior antes do advento da internet, mas ainda possui uma capacidade considerável de influência.

Concluindo, é evidente que o conceito de "liberdade de imprensa" precisa voltar a um patamar razoável: a crítica sem a mentira, a notícia sem distorção. Hoje, liberdade de imprensa há apenas para os donos de mídia e seus aliados preferenciais.

Para terminar, faço dois adendos:

O primeiro é louvar as atitudes da revista Carta Capital e do jornalista Ricardo Noblat, que saíram da falsa parcialidade e assumiram seus apoios na eleição que se aproxima, cada um para um lado. Melhor assim.

Segundo, é uma tremenda hipocrisia a grande mídia defender a entrega do patrimônio nacional - seja estatal ou empresas privadas de capital brasileiro - a grupos estrangeiros e lutar ferozmente para que sejam impostas restrições legais à entrada dos mesmos capitais transnacionais no setor midiático.

Farinha pouca, meu pirão primeiro...

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"Mr. Beer ans Miss Wine: Fondue"


(Direto de Campinas)

Quarta feira, semana de trabalho "exilada" e temos mais uma edição da coluna "Mr. Beer and Miss. Wine", da especialista em eventos e historiadora Thatiane Manfredi. O tema de hoje é algo que assusta às pessoas mas que é bastante simples: uma boa fondue.

Rápido e rasteiro, ao texto.

Fondue

"O inverno desse ano está com os dias contados. E como fazer para aproveitarmos esses últimos momentos ? Uma dica é curtir o restinho de frio se saciando com uma gostosa fondue, um vinho super saboroso, uma boa companhia - quem sabe à luz de velas. A certeza de sucesso é garantida! 

Não sei se todos sabem, mas a Fondue é originaria da Suíça e é um substantivo feminino: por isso chamamos de uma fondue. Em terras brasilis muitos podem dizer que não combina nem com o bolso por ser considerado muito elitista e nem com o nosso clima “Rio 40° graus”.

Porém, com a mentalidade em mutação de nossos compatriotas, uma fondue com um bom vinho começa a ganhar um status diferenciado até porque não exige grande conhecimento para elaborá-lo e tampouco é caro.

Existem hoje em dia pacotes prontos para uso e de custo bastante baixo. A modernidade nos proporcionou uma praticidade incrível! Basta comprar kit para fondue no supermercado e começar a curtir. Um pacotinho desses de fondue de queijo é bem prático e gostoso, serve duas pessoas e, se quiser algo mais, complemente com um de chocolate e frutas, para o gran finale! E lógico, super romântico!

E sempre bate a mesma duvida: mas qual vinho? Para os fondues de carne, a resposta é imediata! Vinho tinto. Vinhos mais leves são sempre a melhor pedida para a fondue de carne. Tem muita informação envolvida. A carne já tem um sabor acentuado, ela é frita, existem inúmeros molhos que complementam, normalmente acompanha-se com uma batata (ou a cozida na raclete com queijo, ou rosti com bacon, ou cozida somente na água e sal, por exemplo). Por causa disso, você não vai querer beber um vinho muito carregado, né?

Já para a fondue de queijo deixe sua imaginação fluir. Mas vamos antes para algumas regrinhas que são super importantes na fondue de queijo:

1) Variar os tipos de queijo não é nada incomum, temos preferencias pessoais e isso é livre.
2) Pode ser servido com um pãozinho italiano e legumes cozidos
3) Para prorrogar um pouco o tempo, cada pedaço de pão quando for mergulhado deve alcançar o fundo da panela e mexer a fondue.
4) Se a fondue desandar, se talhar ao fogo, coloque algumas gotas de limão e bata fortemente para ligá-la de novo.

Os mais radicais acharão um sacrilégio bebermos vinho tinto com fondue de queijo, mas querem saber de uma coisa? Sintam-se livres para poderem curtir esse momento. Lógico que vinho branco “combina mais” com fondue de queijo, mas por que não inovar e quem sabe harmonizar a sua fondue de queijo com um vinho rosê e até mesmo vinhos tintos mais marcantes ? O que vale é apreciar o momento.

E a sobremesa?

Se ainda vocês, caros leitores, aguentarem, sigam para a fondue de chocolate! Frutas são as mais comuns, mas a criatividade sempre vale nessas horas: marshmallow, biscoitinhos amanteigados, pedacinhos de bolo caseiro, profterolis, frutas secas, etc. Lembre-se de acrescentar ao chocolate algumas doses de licor, quebra um pouco o sabor forte do chocolate e dá um toque mais refinado à fondue

Com pouco dinheiro você já consegue fazer a festa com fondue de queijo, chocolate e um vinho. Lógico, dá para se sofisticar e aí o custo aumenta, mas não existe desculpa para você deixar de aproveitar o friozinho e se deliciar.

Quer juntar os amigos e curtir? Então a dica é expandir esse universo e começar com fondue de queijo, depois de carne; e termine com a de chocolate. Afora se divertirem certamente a noite será muito saborosa e alegre.  

E fica a dica para uma brincadeira: quem perder a carne, ou o pãozinho ou a fruta dentro da panela de fondue paga uma prenda. Será bastante divertido, aproveitem!"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Samba de Terça: "Nem Todo Pirata Tem Perna de Pau, o Olho de Vidro e a Cara de Mau"



Bom, a coluna "Samba de Terça" de hoje retoma o assunto da última coluna, onde tivemos o caso de uma composição que foi totalmente alterada entre a disputa e o desfile. Hoje retomamos o tema, de uma forma ainda mais impressionante dado o fato de não terem havido os percalços que limitaram o tempo do concurso no caso anterior.

A Imperatriz Leopoldinense vivia uma fase onde era odiada pelo povão que gostava de carnaval. A escola fora tricampeã entre 1999 e 2001, com desfiles muito contestados; exatamente no tempo do mandato de seu patrono Luiz Pacheco Drummond como mandatário máximo da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), entidade que organiza o carnaval e controla, especialmente, o corpo de jurados.

Pois bem: a escola vinha de um título em 99 onde sequer no Desfile das Campeãs deveria figurar. Outro em 2000 onde, para se usar um termo do mundo do samba, foi no "limite do tolerável" - haviam escolas melhores mas não foi absurdo. E um tricampeonato em 2001 onde o desfile foi bastante inferior a outros do citado ano - em especial o antológico "Agotime", da Beija Flor.

Somando-se os três desfiles, a escola perderia apenas um único ponto no julgamento dos jurados. Ressalte-se que Luiz Pacheco Drummond deu uma entrevista na Quarta Feira de Cinzas do ano anterior dizendo "que seria tricampeão no ano seguinte (2001)". E foi, com nota máxima em todos os quesitos. Quem viu o desfile sabe que a escola esteve longe de ser perfeita, mas manda quem pode e obedece quem tem juízo...

Além disso, para justificar o injustificável a diretoria da escola criou a lenda do "tecnicamente perfeito": desfiles frios, visando atender aos ítens do regulamento. Em uma frase clássica, o então diretor de carnaval da escola afirmou que "desfilamos para os jurados, o povo que se dane". Repercutida, a afirmação gerou ainda mais antipatia à escola, antipatia esta que foi assumida por seus dirigentes.

Obviamente, a escola e seus componentes não tinham culpa dos títulos questionáveis e da arrogância dos seus diretores. Mas foram eles que pagaram.

Desfile de 2002.

A Imperatriz, quinta escola a desfilar na segunda feira de carnaval, aninha-se na cabeceira da pista para iniciar o seu desfile, buscando um tetracampeonato que somente a Portela lograra obter. Só que não contava com o público do Setor 1.

Os diretores da escola começaram a distribuir prospectos com a letra do samba e fardos com bandeiras da escola para as pessoas que assistiam neste setor - um dos únicos onde a presença era majoritariamente de cariocas. Em uma reação espontânea, os prospectos e as bandeiras começaram a ser jogados de volta à pista, além de latas de cerveja e refrigerantes, muitas cheias, em direção aos componentes.

A comissão de frente da escola, com medo dos objetos que voavam em direção à pista correu para se esconder atrás do carro abre-alas. Foi a senha: aumentou a quantidade de bandeiras, prospectos, latas e garrafas atiradas, bem como as vaias e os gritos se intensificaram. A arquibancada vaiava alucinadamente a escola na Armação e gritava em coro:

"Ão ão ão, escola de ladrão!" "Ão ão ão, bando de ladrão!"

As pessoas faziam com as mãos aquele gesto típico indicando roubo, do polegar girando na palma da outra mão. Precisou o filho do patrono da escola ir ao microfone e, no sistema de som, pedir calma às pessoas dizendo que "o desfile é pra vocês". Mais vaias... Aliás, naquele ano a escola foi vaiada antes mesmo do início da noite de desfiles, quando seu nome foi anunciado no sistema de som do Sambódromo.

O público só se acalmou quando o samba do ano começou a ser tocado. De minha parte posso testemunhar que estava no Setor 1 e foi absolutamente espontâneo o movimento das pessoas. Era como se dissessem: "na cara dura de novo, não".

O leitor deve estar se perguntando: "o que estes fatos tem a ver com o samba de 2003"? Tudo.

A diretoria da escola, depois dos fatos, decidiu que a Imperatriz deveria ter uma cara mais simpática ao povão. A avaliação era de que o resultado de 2002, terceiro lugar, havia sido impactado não somente pelos protestos como na ressonância na imprensa pré-carnavalesca de toda esta arrogância. Acrescentaria eu o fato de Luiz Pacheco Drummond não estar mais na Presidência da Liesa, embora tirando a campeã Mangueira o resultado dali para baixo não tenha sido nada justo.


Definiu-se o enredo "nem Todo Pirata Tem Perna de Pau, o Olho de Vidro e a Cara de Mau", da carnavalesca Rosa Magalhães. Nas palavras da sinopse:

Sinopse

"Diz-se que os piratas foram encantados pelo alaranjado do sol, pelo azul do mar e pela virtude das belas mulheres. Por conta disso, sempre viveram errantes, a procura de um porto seguro onde fosse possível encontrar o graal da felicidade só então alcançado através das aventuras pelos oceanos"

Nem todo pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau ...

" Nenhuma lufada de vento agita as velas do navio, completamente imobilizadas. Silenciosamente uma chalupa se aproxima, pela traseira do grande barco. O chefe faz sinal para os seus homens escalarem a gigantesca embarcação ... Em alguns minutos ele se precipita em direção da cabine do capitão... E seus homens conquistam o galeão espanhol... "

Como os grandes bandidos, a pirataria fascina. A ficção cria uma bruma sobre a realidade. No imaginário coletivo, a pirataria é indissociável das ilhas paradisíacas onde repousam tesouros escondidos. Tabernas sórdidas, pernas de pau, abordagens sanguinárias, torturas refinadas, formam todo arsenal da mitologia pirata. Escritores a partir do século XVIII ajudam a criar esta mitologia que transforma em personagens simpáticos, tipos totalmente abomináveis.

O imaginário infantil encanta-se com livros de aventuras como Peter Pan escrito por James Barrie ou ainda A Ilha do tesouro de Robert Louis Steveson, que não só cria os atributos obrigatórios para o perfeito pirata, inclusive a perna de pau e o papagaio no ombro, como também o enche de mistério, de simbolismo e de sonho.

Desde que o mundo é mundo, a pilhagem e o roubo já existiam. Mas a era mais conhecida da pirataria se inicia junto com a exploração do novo mundo, marcando o fim dos mares livres e selvagens. Piratas eram salteadores que atacavam até os navios do próprio país, os corsários tinham seus barcos financiados pelos seus soberanos e com eles dividiam o lucro da pilhagem. O termo flibusteiro tem a mesma conotação, empregado para os saqueadores dos mares das Américas.

Os portugueses e espanhóis dominavam o comércio marítimo. Outras nações com menor poderio naval, como a França, a Inglaterra e a Holanda começam a estimular a pilhagem dessas riquezas extraídas do novo mundo, sobretudo o ouro, o açúcar, o tabaco e as madeiras nobres também não eram desprezadas.

A rainha Elizabeth I, da Inglaterra, Louis XIV de França foram soberanos que apoiaram e estimularam a flibusteria.

O Brasil desde os primórdios de sua formação sofria ataques de corsários e piratas. As madeiras brasileiras, trezentos papagaios, e cinquenta macacos faziam parte de mercadoria listada e pirateada lá pelos idos de 1556 e vendida nos mercados de Londres.

Os franceses, que atacaram desde a América do Norte até a América do Sul, fizeram várias tentativas de conquistar o Rio de Janeiro. Duclere, corsário que invadiu o Rio com o intento de saqueá-lo , não teve sucesso, mas para vingá-lo, surge Duguay Trouin, um corsário apoiado por sua majestade Luis XIV.

Em 1711, 17 navios surgiram na Baia de Guanabara protegidos pela densa cerração. As fortalezas da barra não atiraram e quando deram pela invasão, a cidade já havia sido tomada. Na fortaleza de Santa Cruz, apenas 30 soldados estavam de prontidão e na de São João, nada mais , nada menos que 5 soldados tinham a incumbência de defendê-la. A cidade foi saqueada em suas riquezas. Não escaparam nem os pertences dos cidadãos comuns que tiveram suas casas invadidas e o mobiliário, trajes, utensílios domésticos, tudo levado pelos invasores. Duguay Trouin, ainda exigiu um resgate para sair da cidade O preço pago foi alto 610 mil cruzados, duzentos bois, cem caixas de açúcar , além dos bens pilhados , em torno de doze milhões de cruzados. De volta a França foi nomeado chefe de esquadra e lugar-tenente da armada naval em 1728.

Séculos mais tarde vemos que a pirataria continua a fazer seus estragos pelo mundo afora inclusive, aqui no Brasil. São pirateados cds, livros, tênis, peças do setor automotivo, transportes, remédios, ervas medicinais, componentes eletrônicos, computadores e por incrível que pareça, tal como idos de 1500, a nossa madeira ainda continua sendo extraída e pirateada.

O único personagem que não nos atemoriza é o pirata da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau, que ataca no carnaval, com sua alegria, sem trazer nenhum estrago ou prejuízo; tripulada por mulheres bonitas, sua galera que nos sete mares não tem igual...

Rosa Magalhães"

(Fonte: Galeria do Samba)

Pois é. A disputa do samba foi recheada de polêmicas e a meu ver havia a preocupação clara da escola em adotar um samba mais "alegre" a fim de melhorar a comunicação com o público. Além disso, a escola encerraria os desfiles de 2003 e temia-se que a escola passasse com o Sambódromo às moscas.

Poderia falar sobre a disputa, mas recorro a duas testemunhas oculares do processo, os amigos e torcedores da escola Luis Fernando Júnior e Marcos Paulo Freitas. Embora um pouco longos, reproduzo os depoimentos na íntegra - e o leitor terá uma idéia precisa do que houve naquela ocasião. Lembro apenas que "cair" é o termo utilizado para os sambas que são eliminados do concurso.

O relato de Luis Fernando Jr.:

"Era uma tarde fria de Agosto de 2002. Um dia de festa para muitos Gresilenses: O dia da gravação dos concorrentes é motivo de comemoração para a nação verde e branca.

O enredo? "Nem todo o pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau". Um enredo assinado mais uma vez, por Rosa Magalhães. Caiu no gosto popular (pelo menos dos Gresilenses.... risos). A gravação, como sempre com vários momentos de risos, lendo as "pérolas" criadas por nossos poetinhas de Ramos...

A expectativa era grande... tínhamos a volta de um "medalhão" à ala de compositores da Imperatriz. O nome dele? Darcy do Nascimento! Sucesso na década de 80, com as  vitórias de 1979, 1980 e 1982. O compositor também assina o "excelente" samba de 1998. Naquela tarde fria, quase noite, Darcy e seu samba foram os últimos a se apresentarem no palco de Ramos. Além da volta de um grande medalhão, ele trazia como intérprete do seu samba o consagradíssimo Dominguinhos do Estácio. Era, para muitos, um grande samba que vinha por aí.

Mas, para nossa surpresa, o samba era... digamos assim: estranho! Achamos graça de sua letra um tanto debochada, com melodia estranha. Nem o mostro sagrado do samba Dominguinhos do Estácio conseguira interpretar o samba! Fim de festa, sambas gravados: a sorte estava lançada! ... para os compositores e para a nação Leopoldinense.

Uma semana após a gravação dos sambas, começa a disputa na quadra da escola. E, logo de cara a parceria formada por Maninho do Ponto, Renatinho do Sambola e Cia desponta como uma das favoritas para vencer o concurso de samba-enredo na Imperatriz Leopoldinense para o carnaval 2003.

E assim as apresentações, como sempre, muito bem freqüentadas em Ramos foram avançando. Porém, para nosso espanto, o samba do Darcy do Nascimento seguia firme na disputa... Procurávamos sempre uma desculpa para a sua permanência no concurso. Mas, acredito que essas desculpas ocorriam por desespero mesmo (risos)... Ao longo de dois meses de disputa, o samba não se apresentou bem uma única vez. Não entendíamos o porquê desse samba na disputa. A letra era considerada ruim... a melodia não encaixava com a bateria. Enfim... uma catástrofe resumida em forma de samba-enredo. E o pior: considerado por muitos "entendidos" fora das características da Imperatriz.

Os Leopoldinenses temiam esse samba. E, além dessa "pérola", tínhamos no caminho um outro samba bem ruinzinho, assinado por outro medalhão: Zé Katimba. A "luta" era contra os medalhões e a favor do samba que se apresentava de forma magistral domingo a domingo: Maninho do Ponto e cia. Era quase unanimidade:  um grande samba, de letra envolvente, melodia primorosa.

E a disputa avançando e as "pedras no calo", Katimba e Darcy não caíam. Ao longo do mês de Setembro de 2002, o desespero era total. Os boatos corriam soltos, dizendo que o samba não era do Darcy, que vinha "importado" de Niterói... Enfim, boatos de todos os lados tentavam "derrubar" o concorrente mais frágil/forte daquela disputa. Até que o concurso em sua semifinal deixa para trás uma das pedras: Zé Katimba. A quadra comemorou!!! Para os torcedores era um alívio: com a queda de um grande medalhão e com uma grande apresentação do samba favoritíssimo, a certeza por uma vitória e um grande samba era quase certa!!

Mas onde estava a outra pedra? (risos)... Na altura do campeonato, não podíamos pensar em derrota: Passamos a considerar a ida do Darcy à final como uma forma de reconhecimento a um grande nome da ala de compositores da Imperatriz Leopoldinense. E assim, saímos da quadra Luiz Pacheco Drumond, festejando a queda do samba do Katimba e a possível vitória do samba do Maninho do Ponto.

Chegando o dia da grande final, festa! Muita festa! O nosso favorito (e o da grande maioria) se apresentou de forma brilhante. A noite parecia que foi feita para aquele samba. Deu tudo certo!!! O samba foi bem interpretado pelo Wander Pires, Mestre Beto mandou ver no comando da bateria, a torcida no tom certo e o nosso papel foi cumprido: apoio a um grande samba do início ao fim.

Para deixar a festa com gosto amargo, o último samba daquela tarde/noite fria de Agosto também foi o último a se apresentar naquela noite fria/estranha de Outubro de 2002. Foi um momento de grande frustração para todos. Ficamos ali, no canto da quadra observando a "passagem" do samba. E um filme passava em nossas cabeças. Uma única pergunta pairava sob nossas mentes: o que esse samba está fazendo aqui?!!! Tensão, medo, raiva... eram os sentimentos mais presentes naquele momento. Tínhamos uma certeza de que o "nosso" samba seria o vencedor... mas, o medo de uma decepção era maior.

Num determinado momento dos seus vinte longos minutos de apresentação, um gesto nos chamou a atenção. A carnavalesca da escola, a brilhante Rosa Magalhães, cantarolava aquele "samba"! Era o início de um desespero sem tamanho! O assunto correu a quadra! Para muitos, era aquele o samba que a carnavalesca queria para contar o seu carnaval!

Após a apresentação (muito ruim, diga-se de passagem) do samba, mais tensão. Como é tradição na escola, Luiz Pacheco Drumond, Wagner de Araújo e Rosa Magalhães se reúnem na sala "do corte" (uma sala da diretoria, onde são decididos os sambas eliminados durante a disputa). Foram talvez os dez, quinze minutos mais longos daquele ano!

Wagner Araújo presidente da agremiação à época, sai da sala com uma cara desanimada... Estava decidido o futuro da escola! Todos se olhavam com aquela sensação de medo... Era quase impossível acreditar no que os nossos olhos mostravam! Como de costume, o diretor de carnaval chama todos os finalistas para o palco para anunciar o resultado da disputa de samba na Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 2003. Pela cara descontente do Wagner, percebia-se que algo muito ruim estava para ser anunciado!

E assim foi: Ele pediu desculpas, pediu também que a direção de harmonia entendesse a escolha da escola, pediu a união dos componentes e anunciou: O samba que a Imperatriz levará para avenida no carnaval de 2003 é de autoria de: Darcy do Nascimento, Brandãozinho, Rubens Napoleão e Jorge Rita!

A quadra, que antes tomada pela festa, ficou paralisada! Parecia um funeral! Os únicos a comemorar foram de fato, os compositores campeões! Um deles, o Brandãozinho, jogou-se no palco, onde o barulho foi perceptível (tamanho silêncio na quadra)... Todos com aquelas caras de: "Não acredito no que está acontecendo"... A bateria não tocou... O portão principal da quadra foi aberto... a festa acabou! Não houve comemoração! Componentes, compositores perdedores, torcidas... andando em direção a rua... parecia uma procissão fúnebre!

Um triste final para uma novela tão boa... E assim foi escolhido o famoso: "Vem meu amor, vem me beijar... hoje eu tô que tô e você tá que tá".

Tamanha frustração com a escolha, houve uma baixa na escola na semana seguinte: Sérgio Professor, que na época era diretor geral de Harmonia pediu dispensa da escola, alegrando que seria impossível fazer Harmonia com um samba daquele..."

Nas palavras de Marcos Paulo Freitas:

"Dia de gravação dos sambas. Primeiro samba a se apresentar, de compositores desconhecidos na escola, surpreende a todos por sua qualidade e beleza. O samba defendido pelo Wander Pires despertou o interesse e a atenção de muitos naquele primeiro dia. Será que vai longe? Alguns se perguntaram.

Época de eliminatória de samba sabe que rola muito tititi, naquele primeiro dia já rolavam vários. Os compositores tri-campeões, Tuninho Professor e Marquinho Lessa, haviam se separado, como ficaria a disputa então com os sempre favoritos agora separados? Diziam também que Darcy do Nascimento estaria de volta e seu samba seria defendido pelo Dominguinhos do Estácio.

As gravações rolavam, e nada do samba se apresentar. No meio do dia, mais tititi. Surgia o boato (nunca se confirmou boato algum em disputa de samba em Ramos, mas o povo não desiste) que já tinha vencedor, que não sabia porque os outros sambas se inscreveriam: Zé Katimba estava de volta e o samba seria dele, como ocorreu em 97.

O samba foi gravado, causando um sentimento estranho, pois não parecia ser muito bom, e várias pessoas ficaram com medo de 97 se repetir. O samba passou a ser o maior temor de muitos naquele ano. Mais sambas sendo gravado e nada do Darcy. Já no finalzinho, sobe ao palco Dominguinhos, as poucas pessoas que resitiram a maratona de gravação desde as 10:00h daquele domingo estavam curiosas para o ouvir o samba da volta do compositor de grandes sambas. Não sei se as pessoas ficaram tristes, surpresas, decepcionadas, só sei que o samba não era nada do que se esperava. A letra era confusa, uma mistureba do enredo e a melodia bem estranha. Todos acharam que não seria ano dele. Mínima chance de vencer.

Com o decorrer da disputa, o samba dos compositores desconhecidos foi crescendo, ganhando adeptos em todos os segmentos da escola. Suas apresentações eram verdadeiras explosões. O tri-campeão Lessa não passou do primeiro corte. Partes mais agressivas de sua lera incomodaram diversas pessoas, e no momento "politicamente correto" que vivemos não dava para ele. (eu curtia muito o samba.... defendido pelo Anderson Paz, tá explicado o corte prematuro - N do E: o puxador em questão tem fama de 'pé-frio' pelos vários rebaixamentos de escolas que já defendeu na avenida).

O outro tri-campeão continuava na briga e assustava muitos. O samba não tinha muitos torcedores espontâneos. Dizia-se que levaria. Até que chegou o dia que o samba caiu, a vibração foi grande. A tensão tinha passado. Não seria ele.

Mas o samba do Cubiça de Ouro continuava na briga, ninguém sabia porque. Várias versões para sua permanência, mas ninguém apostava um centavo que seria o vencedor. Todos, menos os compositores, achavam que o samba estava apenas fazendo número.

Chegou o dia da final, e lá estavam o samba de Niltinho Tristeza e cia, apreciado por poucos (eu um deles), o samba de Jeferson Lima e cia, tb com poucos adeptos, o samba Maninho do Ponto e cia - o tal samba que surpreendeu no dia da gravação - que era o preferido de 8 ou 9 em cada 10 pessoas na quadra e o samba de Darcy do Nascimento e cia, fazendo número. A apresentação do primeiro samba citado (não lembro a ordem de apresentação) foi boa, mas sem contagiar. O segundo samba teve problemas de entrosamento com a bateria, passou muito mal. O samba preferido destruiu tudo, foi uma apoteose. Ninguém deu a menor bola para a apresentação do último samba.

Todas as fichas eram apostadas no samba de Maninho do Ponto e cia. Wagner pega o microfone para anunciar o vencedor. Sua cara não era das melhores. Como costume, ele anuncia falavam "A Imperatriz irá para a avenida cantando o samba dos compositores...."

Nessa hora todos esperavam que ele falasse Maninho do Ponto..... Porém para surpresa de todos ele anuncia um nome iniciado com a letra J, Jorge Rita.... Alguns segundos para processar a informação. Que samba era esse?

SILÊNCIO ensurdecedor na quadra. Apenas os compositores comemoravam. Brandãozinho se jogou no palco, com seus muitos quilos, causando um grande estrondo. As pessoas se olhavam sem acreditar no que tinha cabado de acontecer. A bateria rateou para começar a tocar, e tocou apenas meia boca. Todos na quadra se voltaram para o portão de saída e seguiram como se estivessem acompanhando um cortejo fúnebre. A final mais deprimente que presenciei. Muito triste. O que se ouviu depois foram depoimentos de revolta, irritação com a decisão da escola.

O samba foi gravado e no dia da festa dos protótpos, foi apresentado oficialmente para todos, isso menos de uma semana após a escolha. O samba cantado naquele dia não era o mesmo que havia vencido. A letra foi modificada. Trechos do samba foram mudado de posição na letra para que ficasse correta dentro do enredo. Refrão deixou de ser refrão. O que não era refrão virou refrão. Uma beleza!!!"

Meu palpite é que o samba foi escolhido por ter uma melodia "para cima" e com uma alegria que não estava presente nos sambas anteriores da agremiação. Coloco abaixo - com áudio - a letra original e depois a letra que foi para a avenida com as muitas modificações, bem como o samba que era o preferido da quadra - com áudio:



Autores
Darcy do Nascimento, Brandãozinho, Rubens Napoleão e Jorge Rita

Letra Original:

"Cobiça de Ouro
Madeira, Pedra e animais
São faces do primórdio da história
Que a Imperatriz refaz

Nem todo pirata tem a perna de pau
O olho de vidro e a cara de mau

Foi-se o tempo longe está
Pirataria de além-mar
Vejam só a covardia
Parte dessa tirania
Era destinada aos reis (aos reis)
Por corsários portugueses
Holandeses, Franceses, Ingleses
Tudo que era saqueado
Protegido era levado
Ao domínio da nação

(Mas hoje...)

Hoje a coisa ficou preta
Muito preta e com razão
Pirara se queixando de pirata
De terno e gravata na televisão
Pirateando cd até a fé
O comércio e a nação

Mas hoje eu quero ser
Pirata do prazer
Dançando um baile com você
Vem meu amor, vem me beijar
Hoje eu to que que to e você ta que ta
Vem meu amor, vem meu beijar
Beijo escondido pra ninguém clonar"

Versão Oficial:

"Cobiça de ouro
Madeira, pedra e animais
São fases do primórdio da história
Que a Imperatriz refaz
Foi-se o tempo, longe está
Pirataria de além-mar
Vejam só a covardia
Parte dessa tirania
Era destinada aos reis (aos reis)
Franceses, ingleses e holandeses
Tudo era saqueado
Protegido era levado
Ao domínio da nação

Nem todo pirata tem perna de pau,
O olho de vidro e a cara de mau

Hoje a coisa ficou preta
Muito preta e com razão
Pirata se queixando de pirata
De terno e gravata na televisão
Pirateando CD, até a fé
O comércio e a nação

Mas hoje quero ser
Pirata do prazer
Dançando um baile com você

Vem meu amor, vem me beijar
Hoje eu tô que tô , você tá que tá
Vem meu amor, vem me beijar
Beijo escondido pra ninguém clonar"

O samba favorito na disputa e que acabou derrotado:


"Névoa sobre o mar...
Um infinito para navegar
Nos livros temidos, tesouros perdidos...
No mastro a caveira, estampa a negra bandeira
Ilhas abordam sonhos, papagaio nos ombros
Olho de vidro, perna de pau
Imperatriz nessa festa, reafirma e contesta:
Nem todo o pirata tem essa cara de mau

Fogo nos canhões, ouro, tentações
Era preciso navegar... atacar!
Espanha e Portugal, riqueza tropical
Fez a cobiça despertar... tem combate no mar!

A Virgem Inglesa, o Sol Francês
As companhias de comércio do Holandês
Incentivavam corsários e invasões
E recompensavam os tais ladrões
Até minha Guanabara foi invadida e a cidade saqueada
A pirataria não cessou naqueles dias
Chega aos atuais...
CDs, livros, tênis, madeira
Mas sem tapa olho e bandeira...
Dos livros e tempos coloniais

Hoje o ataque é no meu carnaval
Nos sete mares não há nada igual
O meu pirata inocente e feliz
E rouba a cena com a Imperatriz"

A escola foi a última a se apresentar, já na manhã de terça feira de carnaval, quatro de março. Apesar do que se temia, o Sambódromo ainda estava razoavelmente cheio, mais ou menos com a mesma lotação que esperou a Portela no dia anterior. No grito de guerra a diretoria da escola (não me lembro exatamente quem foi) deu a ordem: "vamos brincar carnaval!"

A Imperatriz fez um desfile bem mais solto que nos anos anteriores, preocupada em agradar ao público e apagar a péssima imagem do ano anterior. O samba funcionou bem e foi bastante adequado ao cenário bolado pela carnavalesca, com alegorias e fantasias voltadas a aproveitar a luz do dia. Particularmente, gosto do samba, até porque ele me traz boas lembranças do pré-carnaval daquele ano.

Saí da Sapucaí achando que a escola seria vice-campeã, atrás somente da Mangueira - que fez uma apresentação muito acima a de qualquer outra escola. Entretanto, na abertura dos envelopes dos jurados a escola ficou com o quarto lugar, com 395,8 pontos.

Em um resultado tão esquisito quanto o de 1999 a Beija Flor sagrou-se campeã com um desfile que na opinião de todos aqueles que acompanham carnaval não conseguiria sequer retornar para o Sábado das Campeãs. Pois é... ainda mais quando se sabe que o patrono da escola nilopolitana tornara-se vice presidente da Liesa.

Aliás, o período de 1998 a 2006 é muito complicado para a história dos desfiles, com resultados finais sempre bastante questionados e que não refletiam o que se via na avenida. Mas esta é outra história...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Resenha Literária: "À Sombra do Ditador"


De volta após algum interregno temos a nossa já tradicional "Resenha Literária".

O livro de hoje é indispensável para se entender um dos personagens mais sórdidos, sanguinários e cruéis da história recente da América Latina: Augusto Pinochet, ex-ditador do Chile - que, sinceramente, espero que neste momento esteja no fundo do inferno.

Já abordei tal personagem na resenha de "Os Anos do Condor", mas este "À Sombra do Ditador", do ex-embaixador chileno no Brasil e ex-Vice Ministro das Relações Exteriores Chileno Heraldo Muñoz, trata o ditador como a figura central do livro.

Baseado nas memórias do autor - que viveu na oposição ao regime, em documentos do governo chileno e em entrevistas, traça um bom panorama da história do país desde os tempos pré-golpe até o fim do ditador, quando teve de conviver com a pecha de ladrão por terem sido encontradas contas no exterior com nomes falsos, frutos de comissões recebidas em diversos negócios - em especial envolvendo armas.

Uma das revelações do livro é de que Pinochet somente se incorporou aos conspiradores golpistas no último instante. Sua trajetória anterior no Exército trazia a marca de sempre estar a favor dos donos do poder e por uma habilidade de sempre perceber antes para onde os ventos sopravam.

Conta também como ele assumiu o comando do golpe em detrimento dos demais conspiradores e consolidou o seu poder. O livro revela, baseado em documentos e entrevistas, que se o Presidente deposto Salvador Allende não se matasse no Palácio de La Moneda acabaria morrendo na queda do avião disponibilizado para levá-lo ao exílio: a ordem era colocar pouco combustível na aeronave para que esta caísse.

Outra revelação é de que além de ter mandado exterminar com requintes de crueldade correligionários de Allende e opositores do regime, os conspiradores que se opuseram em algum momento à sua liderança também foram assassinados, ou mortos em acidentes e infecções "estranhas".

O exemplar é sórdido na descrição dos assassinatos cometidos pelo regime e nas torturas realizadas em verdadeiros "campos de concentração" abertos pelo regime para a tortura e o desaparecimento de presos políticos. Outro lado é o atentado sofrido pelo ditador em 1986 por integrantes de um grupo pára-militar, no qual por muito pouco não obtiveram o intento de assassinar Pinochet.

Também se descobre que a opção econômica pelo liberalismo irrestrito não era uma convicção pessoal de Pinochet. Pragmático, optou por esta linha a fim de tirar a economia do Chile da crise, o que conseguiu apesar de um brutal custo social. Assim mesmo a inflação em nenhum momento foi totalmente controlada durante a ditadura, bem como o desemprego sempre se manteve alto no período.

Como integrante da frente das oposições que liderou o "Não" ao plebiscito de outubro de 1988 - que significou o fim da ditadura chilena - Heraldo Muñoz descreve a formação da coalizão democrática, com lances de suspense, marchas e contra marchas. É uma bonita história de vitória da democracia ainda que jogando sob as regras determinadas pelo ditador.

A partir daí descreve-se a progressiva perda de poder do caudilho assassino e o processo sofrido na Espanha que resultou em sua prisão na Inglaterra e quase extradição - episódio também alvo de narrativa em "Os Anos do Condor". E seu crepúsculo, abandonado pelos fiéis aliados e enfrentando denúncias comprovadas de corrupção.

Ressalte-se, também, a sorte do autor em momentos cruciais da história, quando decisões erradas poderiam tê-lo transformado em mais uma vítima da repressão. Seu papel como articulador das oposições e na refundação do Partido Socialista Chileno, bem como a descrição das articulações entre as diversas correntes  é bem interessante para quem gosta de política.

Lembre-se, adicionalmente, do apoio dado pelo governo americano a Pinochet através do Secretário de Estado Henry Kissinger, e como os EUA foram afastando-se aos poucos do carniceiro, especialmente após o assassinato do ex-Chanceler de Allende Orlando Letelier, a poucas quadras da sede do governo americano em Washington. A ação, perpetrada a ordem do ditador, foi considerada audaciosa demais e marcou um ponto de inflexão na política americana em relação ao Chile.

Faço o registro do apoio incondicional da "Dama de Ferro" inglesa Margaret Thatcher a Pinochet, com respaldo total no episódio da prisão do ditador e declarações de apoio às atrocidades cometidas pelo governo chileno durante o regime de exceção.

Nesta resenha não esgoto todos os assuntos tratados, mas é leitura indispensável não somente para se conhecer um período da história que não deve se repetir quanto para aqueles que gostam de política. Certas passagens chegam a ser revoltantes, tamanha a crueldade dos órgãos governamentais.

Em resumo, livro obrigatório. Na Travessa, custa R$ 47.

Disponibilizo abaixo vídeo descoberto no site da Editora Zahar com uma palestra do autor sobre o livro. Apesar de ser em inglês, não é de difícil compreensão. Também reproduzo abaixo entrevista do autor ao Estadão, concedida na última semana.


Pinochet: o horror revisitado
Em livro, chileno Heraldo Muñoz, diplomata e ex-assessor de Allende, reabre feridas da ditadura


João Paulo Charleaux - O Estado de S.Paulo

Poucos ditadores foram tão minuciosamente escrutinados pela literatura latino-americana quanto o chileno Augusto Pinochet (1915-2006). O general que comandou durante 17 anos um dos regimes mais brutais do mundo - responsável por mais de 3 mil mortes e desaparecimentos, além de 28 mil casos de tortura - teve seu duro rosto marcial e seus medonhos óculos escuros transformados na própria personificação do terror dos regimes militares.

Uma figura assim, tão caricata de suas próprias brutalidades, dificilmente teria uma nova faceta a revelar. Mas o chileno Heraldo Muñoz, membro ativo do governo socialista de Salvador Allende durante o golpe de 11 de setembro de 1973, conseguiu transformar o que já seria um excelente relato emocional numa análise acurada do contexto político que selou o destino não apenas do Chile, mas de vários países do mundo que serviram de tabuleiro para o tenso jogo de interesses entre EUA e URSS nos anos 60 e 70.

Muñoz - que foi embaixador do Chile nas Nações Unidas até o início do ano, quando assumiu o cargo de diretor do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) - conta no livro A Sombra do Ditador - Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Zahar, 394 páginas, R$ 59) sua aventura como militante combativo (e combatente) nos anos de chumbo. Mas, mais do que isso, revela documentos pouco conhecidos sobre o envolvimento dos EUA no golpe e sobre o tenso bastidor do governo Allende, que tornou insustentavelmente aguda a divisão política do país a ponto de sofrer o que seria o primeiro golpe contra um líder marxista eleito democraticamente. A seguir, os principais trechos da entrevista que Muñoz concedeu ao Estado, de Nova York, por e-mail:

O sr. descreve um Pinochet astuto e oportunista, mas não muito inteligente. Não é demais supor que um homem assim tenha sido capaz de ficar no poder por 17 anos, resistindo não apenas às pressões dos democratas, mas passando para trás seus rivais militares também?

Pinochet se manteve no poder por uma combinação de fatores. Primeiro, ele tinha uma capacidade política inata e uma certa sagacidade, embora carecesse de bagagem cultural ou inteligência. Além disso, ele foi hábil em concentrar na polícia secreta da ditadura, a Dina, não apenas seu poder de repressão contra a dissidência, mas também contra qualquer sinal de desafio à sua autoridade proveniente de seus colaboradores mais próximos, fossem eles civis ou militares. Por outro lado, é importante lembrar que uma grande parte dos chilenos queriam, principalmente no início da ditadura, o restabelecimento da ordem e o fim da polarização política que caracterizou o último ano do governo Allende. Além disso, a Guerra Fria também ajudou, pois os EUA viram em Pinochet um aliado contra o comunismo.

Como o sr. compara as ditaduras do Chile e do Brasil?

O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a ditadura Pinochet, o que não é surpreendente se você considerar que alguns dos idealizadores do golpe no Chile reuniam-se regularmente na embaixada brasileira em Santiago. A ditadura brasileira também assessorou o regime Pinochet em técnicas de tortura e deu enorme apoio financeiro de emergência. No Brasil, entretanto, a ditadura foi mais institucional, menos personalista. Além disso, foi uma ditadura que teve a capacidade de fazer sua própria transição. E apesar de ter sido mais curta que a ditadura chilena, foi igualmente dura em termos de perdas humanas e torturas.

Seu livro torna clara a participação dos EUA no golpe no Chile, transcrevendo diálogos entre Pinochet e Henry Kissinger, secretário de Estado do então presidente americano Richard Nixon. A política americana para a América do Sul mudou quanto de 1973 para cá?

A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet uma vez me contou uma piada que era assim: Sabe por que não há golpe de Estado nos EUA? É porque lá não existe uma embaixada americana. Mas as coisas têm mudado. Primeiro, pelas prioridades que os EUA têm hoje em outras partes do mundo, especialmente depois do 11 de setembro de 2001. Depois, porque o presidente Barack Obama quer inaugurar uma nova página de relações com a região, embora os frutos sejam escassos.

O que há em comum entre a direita que venceu as eleições do Chile em janeiro e a que governou o país nos 17 anos de ditadura Pinochet?

A direita chilena não fez ainda sua mea-culpa por ter dado apoio ativo à ditadura de Pinochet. Há setores importantes da direita que rechaçam as violações de direitos humanos, é verdade. E o próprio presidente Sebastian Piñera (que assumiu em março rompendo uma hegemonia democrática da esquerda que durou de 1990 a 2010) votou contra a continuidade do regime Pinochet no plebiscito de 1988. Na verdade, a direita sabe que, para ganhar eleições, precisa hoje afastar-se da herança de Pinochet. Mas ainda há uns poucos dentro do governo que relutam em fazer isso, mesmo pagando um alto custo político.

O sr. conta que, um dia antes do golpe de 1973, Allende se preparava para propor a realização de um plebiscito sobre sua permanência no poder. A prática tem sido muito repetida nos últimos anos por presidentes sul-americanos de esquerda. É possível estabelecer alguma comparação entre estas duas formas de fomentar uma suposta democracia participativa direta?

Mas aquela foi uma consulta diferente. O que Allende buscava era uma saída política para a crise. Ele não planejava mudar a Constituição ou outras normas vigentes no país. O plebiscito de 1973 teria evitado um banho de sangue que a ditadura provocou. Provavelmente, Allende teria sido derrotado, ainda que ele tivesse esperanças de convencer o povo chileno usando seus melhores argumentos.

A SOMBRA DO DITADOR
De Heraldo Muñoz. Editora Zahar (tradução Renato Aguiar, 396 págs., R$ 59).

domingo, 29 de agosto de 2010

Dez Batalhas Chave da Esquerda nas Eleições ao Senado


Mais uma vez repercuto nesta tarde de domingo texto do Professor Idelber Avelar, publicado no excelente "O Biscoito Fino e a Massa". O tema de hoje são as eleições para o Senado Federal e as perspectivas dos candidatos lulistas e/ou de esquerda em alguns estados.

Quanto ao Rio de Janeiro, de acordo com a pesquisa Datafolha publicada ontem - infelizmente, a mais recente disponível dado o histórico recente deste instituto de pesquisas e seus números "marretados" - teria Marcello Crivella com 37%, Cesar Maia com 32%, Lindbergh Farias com 24% e Jorge Picciani com 16%.

Seria muito importante para os setores progressistas cariocas elegerem Lindberg, representando as forças progressistas cariocas alijadas desde 1992 dos cargos majoritários - como analisei em uma série de artigos durante o mês de março último. Mas os números, embora devendo ser encarados com reservas, mostram o quão difícil é a tarefa.

Vamos ao texto.

Dez Batalhas Chave da Esquerda nas Eleições ao Senado

"1.Senado Piauí: Uma das mais auspiciosas possibilidades das Eleições 2010 é chutar Heráclito Fortes para fora do Senado. Qualquer um que saiba qualquer coisa sobre a figura entenderá a torcida entusiasmada deste blog. Típico representante da mais escrota oligarquia nordestina—que vem tendo seu domínio político solapado pelo crescimento do PT, do PSB e do lulismo na região--, Heráclito corre sério risco de ter que se candidatar a vereador ou prefeito de Teresina em 2012. Sempre lembrando que cada estado elege dois senadores este ano, os números atuais do Ibope são: Wellington Dias (PT) lidera com 42%, Mão Santa (PSC) tem 22%, Ciro Nogueira (PP) e Heráclito (DEM) pontuam nos 14% cada um e Antonio José Medeiros (PT) tem 5%. Independente das discussões acerca do “voto útil”, ou sobre se Medeiros pode crescer e brigar pela segunda vaga (o segundo candidato do PT ao Senado chegou a marcar 14% em outra pesquisa, a 180 Graus/Jales), o Biscoito endossa a corrente pra trás contra Heráclito.

2.Senado Amazonas: O números atuais do Ibope para o Senado no Amazonas são: ex-governador Eduardo Braga (PMDB) 86%, atual senador "Artur Neto” (PSDB) 43% e deputada federal Vanessa Grazziotin (PC do B) 33%. Vanessa é antiga militante dos movimentos populares no Amazonas, sua campanha vem crescendo, e há 18% de eleitores que só citaram um candidato ao Senado na pesquisa Ibope (além dos 7% de indecisos). Arthur Virgílio foi humilhado na última eleição majoritária no Amazonas (ficou na casa dos 5%) e o blog aposta que ele vai perder a vaguinha no Senado. Além do fato óbvio de que Vanessa está comprometida com o projeto popular de crescimento com distribuição de renda do governo Lula, aqui há o dado adicional de que os tucanos ficam muito mal colocados na discussão sobre a Zona Franca. Sem dúvida, seria bem emblemático eleger uma mulher feminista e comunista para tirar a vaga do senador que gosta de ameaçar bater em presidente da república (ameaça tão típica do machismo nosso de cada dia). Arthur Virgílio é a personificação do atraso e este blog coloca qualquer modesto recurso que possa ter à disposição da campanha de Vanessa Grazziotin (PC do B). Eu conheço a trajetória da candidata e endosso com entusiasmo.

3.Senado Pernambuco: Na terra em que nem Jesus nem o Pe. Cícero é mais popular que Lula, o lulismo de resultados (apud Diário Gauche) quer mostrar com quantos votos se elegem dois senadores. Eduardo Campos (PSB) está disparado para governador, humilhando o neoudenista “autêntico” Jarbas Vasconcellos numa surra de 60% a 24%. Campos deve se reeleger no primeiro turno. Os números do Ibope para o Senado são: Humberto Costa (PT) 44%, Marco Maciel (DEM) 43%, Armando Monteiro (PTB) 27%, Raul Jungmann 12%. Além do grande júbilo de de ver Jungmann derrotado, o lulismo pode emplacar dois senadores e tirar Maciel do Senado. O blog enfaticamente endossa Humberto Costa e Armando Monteiro, dobradinha que vem subindo. Cabe uma palavra sobre o candidato do PTB: ao contrário do que a filiação partidária poderia sugerir, trata-se de alguém que me sinto à vontade endossando. É advogado, não é da oligarquia atrasada, vem do empreendedorismo industrial e tem boa história parlamentar (é oriundo, inclusive, do PSDB, passou pelo PMDB e não lá ficou porque o PMDB-PE é meio inóspito para um lulista). Monteiro tem muito mais a dar aos pernambucanos no Senado que um Maciel já semi-aposentado e do lado errado da História. Sobre Humberto Costa creio que não é necessário dizer muito. Os pernambucanos o conhecem. O blog endossa a dobradinha lulista.

4.Senado Rio Grande do Sul: Tarso Genro lidera a corrida para governador, não com folga, mas lidera. Na corrida para as duas vagas do Senado, briga de foice entre três: Paulo Paim (PT) e Germano Rigotto (PMDB) têm 39% cada um e Ana Amélia Lemos (PP) tem 38%. Ainda recompondo-se da surpresa de que uma papagaia da RBS pontue nesses níveis, o blog lembra que há 44% de indecisos (trata-se de uma “eleição de 200%”, pois há duas vagas) e que a onda dilmista com certeza está impactando o estado adotivo da candidata petista à Presidência. Conhecedor da trajetória de Paulo Paim como sindicalista, militante pela igualdade racial, Constituinte de 1988 e ativo Senador da República nos últimos anos, o blog se coloca à disposição dos amigos gaúchos para ajudar no que for possível para que ele dispare logo e assegure a primeira vaga ao Senado.

5.Senado Paraná: O tucano Beto Richa lidera as pesquisas para governador, mas há espaço para o crescimento de Osmar Dias (PDT) que, depois de inacreditáveis idas e vindas, dignas de uma novela mexicana, finalmente assumiu a condição de candidato unificado do lulismo ao Palácio das Araucárias. Para o Senado, o lulismo mantém as duas primeiras posições nas pesquisas: Roberto Requião (PMDB) tem 48%, Geisi Hoffmann (PT) tem 32%, Ricardo Barros (PP) tem 15% e Gustavo Fruet, esperança "ética" do tucanato, pontua nos 11%. O blog repudia os que afirmam que a “privatização do Banestado aconteceu há 10 anos e não há por que discutir isso agora”. Os paranaenses mais jovens têm o direito de ouvir toda a discussão: quem foi e quem não foi responsável pelo negócio que custou bilhões de reais aos cofres do Paraná. Emplacando essa discussão e mostrando a diferença de projetos entre o governo Lula e o governo FHC, a base aliada tem tudo para eleger os dois senadores. O blog está à disposição no que puder ajudar.

6.Senado Goiás: O tucanato e o peemedebismo neolulista brigam pelo governo estadual, e os números para o Senado são: Demóstenes Torres (DEM) 43%, Lúcia Vânia (PSDB) 26% e Pedro Wilson (PT) 16%. Com 47% de indecisos e 26% que só citaram um candidato para as duas vagas, tudo pode acontecer aqui. Pedro Wilson tem história e conta com o apoio deste blog. Uma sugestão enfática que fazemos é que o deputado Pedro Wilson desabilite o jingle de campanha que toca automaticamente quando abrimos o site. Quem navega na internets odeia essas coisas, Deputado. É melhor ter o jingle como uma opção que o internauta pode escolher ouvir ou não.

7. Senado Rio Grande do Norte: Rosalba Ciarlini (DEM) lidera a corrida para governador com 46% contra os 26% de Iberê (PSB). Todas as minhas fontes potiguares sugerem, no entanto, que Iberê sobe e que a eleição para governador vai para o segundo turno. Para o Senado, os números são: Garibaldi Alves Filho, do neolulismo peemedebista, tem 60%. José Agripino (DEM) tem 51% e Vilma de Faria (PSB) pontua nos 43%, Vilma é ex-prefeita, ex-governadora, é parte do efeito arrasa-quarteirão anti-demo que os socialistas têm emplacado no Nordeste, e conta com total apoio deste blog. Vilma tem um Flickr e um Twitter meio abandonados. Talvez eles pudessem ser úteis na arrancada para chutar Agripino para fora do Senado.

8. Senado São Paulo: Não há muito o que dizer aqui. A eleição de Marta Suplicy para o Senado da República seria um momento histórico para o projeto que se aglutinou em torno de Lula, para o PT, para os movimentos populares de São Paulo, para sua população mais pobre e para as mulheres. Os números do Ibope no momento apontam: Marta com 31%, Quércia (PMDB) com 20%, Romeu Tuma (DEM) com 19%, Ciro (PTC) e Netinho (PC do B) com 18%. O Ciro do PTC deve cair um pouco (ele se beneficia da bizarra confusão de uma parte do eleitorado, que o confunde com Ciro Gomes) e há espaço para que Netinho cresça. Mas todas as fontes paulistas do blog coincidem em que seria sonhar demais imaginar que a esquerda possa levar as duas vagas, especialmente porque Netinho e Marta brigam por votos mais ou menos entre a mesma faixa da população. A prioridade total é a eleição de Marta.

9. Senado Acre: No estado em que um petismo bem próximo a Marina Silva deve eleger Tião Viana governador com folga, os números para o Senado são: Jorge Viana (PT) tem 64% e está eleito. Brigam pela segunda vaga Petecão (PMN) com 35% e Edvaldo Magalhães (PC do B), com 27%. Considerando que 29% só citaram um candidato e 25% ainda estão indecisos, o comunista, que tem tido bela atuação, possui todas as chances de abiscoitar a segunda vaga, surfando no tsunami do sapo barbudo. Edvaldo precisa, no entanto, fazer uma página na internet um pouco melhor que esta.

10. Senado Bahia: Jaques Wagner (PT) deve se reeleger governador no primeiro turno e, para o Senado, o lulismo já garantiu pelo menos uma das duas vagas. Mas pode muito bem ficar com as duas. Os números de hoje são: César Borges (PR), o resquício do carlismo, tem 38%, Lídice da Mata (PSB) tem 25% e Walter Pinheiro (PT) tem 23%. Lídice vem do PSDB, mas há que lembrar que o PSDB da Bahia não é o PSDB de Higienópolis: o tucanato baiano foi aliado do lulismo em momentos chave da peleja anti-carlista na Boa Terra. Lídice depois solidificou essa opção migrando para o PSB. Há uma histórica tradição dos institutos de pesquisas eleitorais subestimarem o voto de esquerda na Bahia, para depois serem surpreendidos por "ondas vermelhas" no dia da eleição. A vitória de Jaques Wagner é o mais recente exemplo. O blog torce por e endossa Lídice e Walter, que vêm trabalhando em dobradinha.

PS: Como se viu, em todos os casos trabalhamos com números do Ibope. Os números do Sensus e do Vox Populi têm tendido a ser mais favoráveis às forças políticas endossadas por este blog e, em muitos casos, são depois confirmados pelo Ibope. Este blog não considera o DataFolha um instituto que satisfaça os mínimos requisitos de credibilidade hoje.

PS 2: Estes prognósticos do DIAP para o Senado sugerem o quadro que todos esperam, encolhimento do DEM e crescimento da esquerda. Falta precisar quais serão as dimensões desses movimentos
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Bissexta - "A Dois Passos do Paraíso"


Mais um domingo, viagem a trabalho - onde aproveitarei para ver meu time jogar ao vivo hoje à tarde - e mais uma coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é a administração de clubes de futebol e um interessante livro - que levo em minha bagagem - que analisa a questão.

"A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

Durante uns 45 dias a diretoria do Flamengo foi alvo da ira de sua imensa torcida, indignada com a ausência de reforços de qualidade para o restante do Brasileirão. E, de repente, com a materialização da dupla D2 (foto acima) como o novo ataque titular, tudo mudou da água para o vinho: o que era inércia e acomodação virou façanha, com direito à analogia com o agente Jack Bauer, aquele que resolve tudo em 24 horas. Torcedor é assim mesmo, bipolar, vai do céu ao inferno em segundos. Mas não a ponto de mascarar a realidade de que, mais do que Abu Dhabi ou a Premier League, o paraíso dos astros do futebol agora é tupiniquim.

Faz só pouco mais de um ano que a revista Placar publicou a relação dos maiores salários do futebol brasileiro. Na pole position, o Ronaldo Fenônemo, um ponto fora da curva, porque ele não é mais jogador, é só um popstar à caça de patrocínios. Em segundo lugar, o Imperador Adriano, ganhando R$ 362 mil, seguido de perto por Nilmar (R$ 360 mil) e Fred (R$ 350 mil). Bom, o Deivid, recém chegado ao ninho dos urubus, já emplacou R$ 500 mil mensais, mesmo sem ter um décimo da fama e prestígio dos antes citados.

Que ninguém ache que quero repercutir alguma crítica particular às opções rubro-negras. Afinal, o Flamengo fez o que todos estão fazendo. O atacante Emerson, que até ano passado era literalmente um Zé-Ninguém (tanto que foi alvo de chacotas quando chegou ao Flamengo para ganhar R$ 110 mil/mês), foi contratado pelo Fluminense por R$ 350 mil mensais.

O meu ponto é outro: que mercado é esse, capaz de permitir aumentos de 40% ou mesmo 200% em apenas um ano? Nem negócios de absurda rentabilidade, como bancos ou mineração de diamantes aceitariam saltos tão generosos. Infelizmente, esse é o mundo de futebol.

Há na praça um ótimo livro, que tenta explicar o fenômeno. Chama-se Soccernomics e às vezes enjoa um pouco, já que é muito centrado no futebol inglês, terra dos seus dois autores, um economista e um jornalista. Há muitas lições a serem retiradas do livro. A minha favorita é a conclusão de que a estupidez é tão ligada à indústria do futebol quanto o petróleo à indústria petroleira. Para eles, isso se torna óbvio quando executivos de futebol são seguidamente ludibriados por executivos de outras indústrias, simplesmente porque estes últimos entendem muito mais de negócios.

Ao contrário do que pensa o senso comum, futebol é um negócio minúsculo (quando comparado à economia real), de péssima lucratividade e repelente às boas práticas de gestão. O clube com maior receita em 2009 - o Real Madrid – não faturou nem a metade da menor empresa entre as 500 que formam o índice S&P.

Além de pequeno, futebol é um mau negócio, gerido aos sustos, a começar pela decisão mais importante, a nomeação do treinador. Os treinadores são escolhidos sem qualquer planejamento, geralmente sob a pressão dos maus resultados do antecessor e em questão de dias. Em uma empresa séria, a escolha do líder dura de 4 a 5 meses, nos quais o candidato apresenta o seu plano de negócios e enfrenta uma sequência longa de entrevistas. Num clube de futebol, alguém liga para o empresário do treinador e oferece o emprego, cujas qualificações mínimas de um gestor (habilidade para lidar com pessoas, caráter ilibado, etc.) nunca são sequer investigadas – aliás, as únicas coisas levadas em conta são os resultados pretéritos e, sobretudo, a disponibilidade para começar a trabalhar imediatamente.

Se a figura mais importante é escolhida desse modo tão irresponsável, o que dizer do resto do staff? Apesar de todos os clubes terem imensa oferta de mão-de-obra altamente qualificada disposta a trabalhar por salários modestos (torcedores apaixonados que dariam tudo para passarem um tempo se dedicando ao clube), a mediocridade impera – o padrão é contratar mulheres bonitas e homens com um passado ligado ao futebol ou que sejam amigos de algum dirigente. Isso sem contar a alta rotatividade, pois cada vez que a diretoria se renova, é hora de trocar todo mundo.

Mas o pior é que, mesmo que quisessem, os dirigentes de futebol não conseguiriam gerir o clube de forma decente. Isto porque a imprensa e os torcedores sempre exigem resultados para anteontem. Basta uma sequência de três derrotas para começar a pressão para demitir o treinador e contratar reforços. E as limitações orçamentárias nunca são levadas em conta, pois, enquanto em uma empresa comum aumentar os gastos de pessoal em, digamos, US$ 100 mil anuais, é precedida de uma longa batalha, em uma equipe de futebol se aumenta US$ 10 milhões da noite para o dia.


E quem resolve inverter essa lógica perversa se dá mal. Um milionário altamente preparado dirigiu o Tottenham por 10 anos e encasquetou de tocar a gestão a partir de um princípio singelo, o de não gastar mais do que arrecada. Quebrou a cara duas vezes: primeiro, os torcedores o odiaram, porque, como era de se esperar, os resultados em campo foram pífios; segundo, porque mesmo diante de um rigor orçamentário para manter uma saúde financeira, os lucros foram ridiculamente baixos e, por incrível que pareça, bem menores do que os de alguns times onde a farra dos gastos imperava.

Isso mostra que é impossível administrar um clube de futebol como uma empresa, porque, mesmo que alguém resolva levar a gestão a sério, sempre haverá uma penca de concorrentes dispostos a torrar fortunas para contratar estrelas, até porque, por maior que seja o rombo, um time nunca vai à falência.

Todas as conclusões, não custa lembrar, são baseadas em clubes ingleses, aqueles que, na teoria, são os melhores geridos do mundo, na liga mais rica do mundo. Imagine se alguém escrevesse um capítulo especial sobre o Brasil.

Por isso, dá para compreender que nossos clubes nem liguem de aumentar suas folhas de pagamento em 50% ou até mais do que isso de um ano para o outro. Ou que resolvam pagar a jogadores apenas medianos fortunas compatíveis com o que astros de primeira grandeza ganhavam há apenas quatro ou cinco anos. E, o que é melhor para a boleirada, essa dinheirama paga aqui mesmo na terra mater, de clima ameno e ensolarado, impostos suaves, treinos leves e idolatria sem fim. Estão, todos, a dois passos do paraíso!"

(Foto acima: City of Manchester, do Manchester City, o mais recente "novo rico" do futebol inglês)