domingo, 19 de setembro de 2010

Entrevista do Presidente Lula ao Ig


Em um domingo de bons textos, reproduzo aqui, na íntegra, a entrevista dada pelo Presidente Luis Inácio Lula da Silva ao Portal Ig na última sexta feira. Ele faz um balanço de seu governo e aponta perspectivas para o futuro.

A entrevista é um pouco longa, mas vale muito a pena a leitura.

"Não vou permitir que façam sacanagens com a Dilma, diz Lula

"No renovado gabinete presidencial, Lula abre a porta que dá acesso à sala de reuniões e entra falante. Cumprimenta todo mundo, acena para um assessor no fundo da sala, senta à cabeceira e cobra a lentidão na troca dos antigos microfones da grande mesa retangular.

"Oito anos de Fernando Henrique, mais oito do meu governo e o Planalto não consegue ter um microfone que tenha um botão para ligar e desligar", queixa-se. "Esse problema já foi resolvido, presidente", responde o assessor, apertando o botão de luz verde do novo aparelho.

Lula cobra então equipamentos que ele acreditava serem mais modernos, à semelhança do que viu no gabinete do governador do Rio, Sérgio Cabral. Reclama do enorme monitor discretamente escondido no vão da mesa e pede uma telinha embutida, como na mesa do governador do Rio.

Sempre que fala, o presidente mantém o contato visual com o interlocutor. Dos cinco políticos que passaram pelo cargo na redemocratização, ele é o que mais profundamente encara as pessoas. De José Sarney a Fernando Henrique Cardoso, também foi o que chegou à clássica entrevista de final de governo de forma mais brincalhona e extrovertida. É o que mais mantém assessores em volta, sinal de que a popularidade afasta a chamada solidão do poder, amplamente vivida por alguns de seus antecessores nos dias finais dos governos. Talvez por isso tenha sido explícito: “Quero ser lembrado”, disse o presidente ao iG.

José Serra e as Eleições

"O povo queria mudança e ele (Serra) significava continuidade. E ele é candidato em 2010 como continuidade e ele significa mudança. É exatamente o que aconteceu comigo. Eu lembro o que era dificuldade em fazer discurso em 1994. Sabe, o Real bombando e eu tentando me esgoelar contra o Real. Eu fiquei muito tempo com a imagem de uma propaganda de um pãozinho que aparecia caído num prato assim, que o preço era nove centavos. Era mortal aquela propaganda. É muito difícil você fazer oposição.

Nós já tínhamos cometido um erro no movimento sindical, um pouco antes até de eu ser candidato, que foi a URV, que foi o que deu a base para fazer o Real. Aquilo foi o aperfeiçoamento da fase do Plano Cruzado. Ou seja, a mesma equipe que tinha feito o Cruzado, aperfeiçoou com a URV, para poder introduzir o Real.

E, veja, o candidato da oposição tem todo o discurso da oposição, se for fazer o discurso da situação, não precisa ser candidato. E em 1998, eu fui para a campanha já sabendo qual era o discurso do Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, isso a gente discutiu muito tempo antes. Ele vai dizer: 'Quem estabilizou a economia, agora vai criar empregos'. Sabe, esse era o discurso da campanha, e era a única coisa que ele poderia falar, e eu tinha que falar contra. Bem, eu acho que o Serra está vivendo esse drama. Ou seja, nós temos de nos conformar e esperar outra oportunidade.

Eu tive paciência de esperar. Eu tinha menos idade do que o Serra tem hoje. Então, é duro. Olha, posso dizer a vocês por experiência própria, é duro, é duro quando você vai dar uma entrevista que o cara pergunta pra você: 'E as pesquisas?'. E você está lá embaixo, ganhou três pontos. E esse negócio de falar que não acredita em pesquisa, é só quando a gente está por baixo.

Em 1982, eu era candidato a governador, o Estadão publica uma pesquisa, faltando uns três ou quatro dias para as eleições: Montoro não sei quanto, Reinaldo de Barros não sei quanto, Jânio não sei quanto, Lula 10%. Eu tinha feito um comício no Pacaembu, que eu saí de lá com a convicção que ia ganhar as eleições. Sabe, é uma coisa tão engraçada, porque essa imprensa burguesa, porque essa imprensa, mas o fato é que depois das eleições eu tinha exatamente os 10%. A partir dali, eu comecei a acreditar num certo critério científico, numa certa ... muita importância pra pesquisa."

Dilma Roussef


"A Dilma, ela tem inteligência acima da média das pessoas que eu conheço. A capacidade da Dilma de captar as informações que ela recebe é extraordinária. Sabe, eu sempre disse que as pessoas iriam se surpreender, porque quando a Dilma não era política, quando eu propus o nome da Dilma, você vai conversar com político mais experiente eles falam assim: 'Ah, o Lula tá por fora. Está indicando uma mulher que ninguém conhece, uma mulher que nunca fez política, não tem nenhuma experiência, nunca participou de um debate. Ah, ela vai ser triturada". Por que as pessoas não a conheciam.

Então, ela é inteligente, tem uma capacidade de captação das coisas e de aprendizado rápido, o que é extraordinário. E tem o aprendizado. Alguém dizia: 'A Dilma não vai conseguir falar em palanque'. Vai num comício pra vocês verem a desenvoltura. Sabe, ela fala melhor do que o Lula. Eu acho que ela vai entrar numa situação mais confortável do que eu entrei.

Na verdade, ela ajudou a construir isso. Ela...Com a garantia de que eu estarei de prontidão para não permitir que não tentem fazer com ela todas as sacanagens que tentaram fazer comigo.

Eu sou um homem de rua. Eu sou um homem que o meu forte na política não é dentro de um gabinete com ar condicionado, recebendo...Sabe, o meu forte é na rua conversando com as pessoas. É dali que eu extraio a minha energia, é ali que meus adversários ficam preocupados, é dali que algumas pessoas insinuam bobagem, como o Fernando Henrique Cardoso insinuou.

Não sei se vocês..Eu já tive experiência de perda de uma esposa. A gente não sofre muito no primeiro momento, ou seja, um dia cai a ficha que alguém que não existe nunca mais. É o dia que você se dá conta, sabe, que ela não existe mais. O governo, você se não tomar cuidado você sai do governo e fica querendo dar palpite, porque você vai parar de dar autógrafo, vai parar fazer comício, e é importante que seja assim.

Eu quero ensinar para algumas pessoas como é que um ex-presidente tem que se comportar. É fechando a boca e deixando quem foi eleito governar. Quem governou teve a sua chance, fez o que tinha que fazer, dá palpites sem ser pedido. Sem for para ajudar, para atrapalhar nunca. E tem que deixar quem foi eleito governar. Até o direito de errar, que ele tem o direito de errar. Até para aprender com seus olhos.

Quem é eleito presidente da República não precisa de tutor. Só tem que navegar e aprender. No Nordeste, eu não sei se aqui no Sul, aqui em Brasília aconteceu isso. A prioridade é 'Quem casa, quer casar'. Ou seja, quem ganha quer governar. Vamos ter claro isso em primeiro lugar. Ou seja, se ex-prefeito, ex-governador, ex-presidente ao deixar o mandato quiser influência sobre quem está governando, ele passa a atrapalhar quem está governando. Ele passa a atrapalhar. Como todo mundo tem uma coisa chamada auto-afirmação, como todo mundo tem personalidade, a pessoa precisa exercer essa auto-afirmação e essa personalidade na sua totalidade.

Obviamente que se o presidente, o governador, o prefeito liga para o outro e pede uma sugestão e você souber, você não pode se negar a dar. Agora, você ficar pela imprensa, você ficar na reunião do partido, você ficar nos debates: 'Não, porque ele devia fazer assim. Não, porque ele devia fazer assim. Porque aquilo não é assim'...Sabe, você precisa ter semancol.

Eu não esqueço nunca do dia 25 de janeiro de 2003 que eu estava conversando com o Bill Clinton e perguntei se o (George W.) Bush iria ou não fazer a guerra do Iraque. Bill Clinton falou: 'Olha, presidente lá nos Estados Unidos a gente culturalmente não dá palpite em quem está governando'. Ou seja, eu acho aquilo é uma coisa importante. Todas as brigas que aconteceram no Brasil, foi porque quem saiu queria continuar mandando."

Saída do Governo

"O ritual de ser presidente é muito pesado. Ou seja, você tem um ajudante de ordem que diz o que você tem que fazer a cada hora. Você tem um chefe de cerimonial que escolhe a cadeira para você sentar. Você tem a equipe que prepara, é um negócio que você se sente sufocado. Tem vezes que tem tanta gente fazendo as coisas por você que dá vontade de gritar: 'Pelo amor de Deus gente, deixa eu respirar. Deixa eu fazer alguma coisa'."

iG - Então o senhor quer se livrar da agitação?

O que eu quero me livrar mais é da máquina burocrática que toma conta do presidente.

iG - É  incontornável?

Eu não sei, veja. Eu vou terminar o meu mandato, eu nunca fui num restaurante jantar. Eu nunca fui num aniversário, eu nunca fui numa janta, eu nunca fui num casamento. A não ser de um sobrinho meu, num bairro lá em São Bernardo do Campo, sem ninguém saber. Porque eu resolvi fazer do meu mandato um sacerdócio. Eu briguei muito para chegar aqui, eu tenho que me dedicar de corpo e alma ao que eu tenho que fazer aqui.

Noventa e nove por cento do meu tempo com a dona Marisa é eu sair daqui dez horas da noite e ir lá para casa. É passar sábado e domingo sozinho. Eu não convido nem um ministro porque se eu convidar um, o outro vai ficar com ciúmes então eu não convido ninguém.

Mas eu vou gostar de me livrar disso sim. Aqui é 'Nove horas isso, dez horas isso, onze horas isso'. Não tem um minuto que eu falo: 'Deixa esse minuto para mim, pelo amor de Deus. As pessoas não se lembram que você tem que ir no banheiro, isso elas não se lembram. Se vocês fizerem uma agenda comigo vocês vão perceber que não é fácil."

iG - Teve um Presidente que disse: 'Me esqueça'. Teve outro que disse, 'Não me deixem só'.

"Eu quero ser lembrado pelas coisas boas que eu fiz. E quero ser lembrado pelas coisas que eu não fiz. Eu quero, eu vou continuar sendo um político, vou continuar andando pelo Brasil, quero entrar num bar e tomar uma cerveja com meus companheiros. Eu quero tentar voltar e levar uma vida normal. Não sei se é possível, levar uma vida sem entourage."

Planos para Depois da Presidência

"E depois de algum tempo, a gente, então, cai a ficha. Você está fora, já não tem mais o Franklin, não tem mais o Giberto Carvalho que eu xingava, não tem mais ninguém. Não tem mais o Stuckinha para eu berrar com ele. Aí eu vou querer uma fotografia, não tem, vou ter que ir lá numa dessas, como chama? Ótica, tirar uma daquelas de trinta segundos.

Então, quando essa ficha cair aí eu estou preparado para tocar a vida. Eu não quero nem tomar decisão antes de alguns meses, porque eu não quero tomar decisão errada. Então eu tenho que maturar, calejar, para depois tomar decisão.

Quando eu deixar a Presidência da República, eu quero ser chamado de companheiro Lula. Eles que me chamaram de companheiro Lula, antes de eu ser presidente da República. Essa para mim é a maior conquista que eu vou ter na minha vida. E eu tenho a convicção que eu vou ser tratado com carinho na porta da Volkswagen como era tratado nas greves de 80. Eu tenho a convicção que eu vou ser tratado num congresso da Contag como eu era tratado quando eu era oposição. Essa coisa está no sangue. Eu sei meu lado. Sei da minha obrigação como presidente que eu tenho que governar para todos. Eu tenho que tratar o mais rico igual eu trato o outro.

Todo mundo tem direito de cidadania. Agora, eu tenho que governar tentando favorecer os mais pobres. Mas quando eu deixar a Presidência eu sei para onde eu vou. Sei quem são meus companheiros, sei quem vai lembrar de mim. Sei quem vai lembrar quando eu fizer aniversário. Eu não me iludo. Eu não me iludo. A política para mim foi uma lição de vida. Não é por orgulho não, isso aqui é um comportamento. Apenas uma linha de comportamento. Eu vou deixar o meu mandato sem nunca ter precisado almoçar ou jantar com rádio, televisão ou jornal. Coisa que era habitual nesse país.

A turma aqui dizia 'Põe o presidente para almoçar com o dono da televisão. Agora o presidente vai almoçar com os donos dos jornais'. Desse mal eu não sofrerei. Eu tenho que me preparar psicologicamente para isso. Não é fácil eu ter a vida que eu tenho e no dia 2 de janeiro do ano que vem eu levantar no meu apartamento, não ter mais os meus filhos porque todos dormem fora. Eu e Marisa. Não ter o César para eu chamar ele e xingar por causa da agenda. Não tem mais o Stuckinha para eu berrar com ele. Não ter o Gilberto Carvalho para me xingar por alguma coisa.

Não ter esses meninos para me dar o briefing de manhã aqui, o que a imprensa está falando o que é que você tem que falar amanhã, como é que a imprensa tá se comportando. Eu não olhar para a cara da Marisa, ela não olhar para a minha cara. Eu estou me preparando para isso."

iG - O senhor quer uma viagem?

"Mas eu quero ficar um tempo sem viajar"

iG - Do que o senhor vai sentir mais saudade? É da agitação? O Fernando Henrique tinha falado que ia sentir saudade da piscina do Alvorada.

"Ele disse que ia sentir saudade da piscina e do helicóptero. Eu não vou sentir saudade de nenhum dos dois. Eu acho que eu vou sentir saudade da agitação do cargo. Eu lembro de quando eu fui preso e voltei para o sindicato, eu tava cassado. Eu levantava de manhã e ficava igual uma barata tonta. Eu não tinha para onde ir.

Eu virei para o meu lado e disse uma coisa que é uma coisa verdadeira. Ex-presidente é que nem vaso chinês. Quando você está no Palácio, você tem muito lugar para colocar o vaso chinês. Mas quando você sai, você estar num apartamentozinho você não tem onde colocar o vaso chinês. O que você faz com o vaso chinês? Um ex-presidente é sempre um vaso chinês. O que você precisa tomar cuidado é para não atrapalhar os outros, ou seja, tem que deixar espaço para os outros.

É por isso que eu não quero tomar nenhuma decisão precipitada. Eu quero primeiro saber aonde é que vai doer. Eu quero voltar a ver jogo do Corinthians no Pacaembu, de preferência junto com a Gaviões ali, com a camisa do Corinthians. Sabe, então eu quero voltar a ser um cidadão normal."

Piores Momentos Vividos no Governo

"Eu troquei, na verdade eu arrisquei todo o meu capital político, para tentar fazer aquele ajuste fiscal para poder dar fôlego e chegar aonde nós chegamos"

iG - O senhor acha que isso aí foi mais importante, ficou como uma marca maior para o senhor do que toda a crise do mensalão?

"Não, veja. Do ponto de vista das relações das políticas do governo. Agora, do ponto de vista da política política, o período do mensalão foi o pior possível. Eu quero estar vivo para ver o desfecho de tudo isso. Porque tem coisa um pouco esquisita que eu não consigo entender. Talvez minha sabedoria não consiga entender. O acusador do mensalão, ele foi cassado por falta de prova. O texto da cassação dele da Câmara dos Deputados diz que o cidadão fundamental (para o caso) ia ser cassado, por falta de decoro parlamentar porque não provou as acusações que fez. E o processo continuou como se nada tivesse acontecido. Ou seja, se criou um clima político no Brasil, eu diria, muito temeroso e muito desconfortável.

Eu um dia comecei a meditar e eu disse o seguinte: 'Olha, o Getúlio Vargas foi muito forte entre 34 e 45, mas não aguentou quatro anos de democracia e se matou. O João Goulart, o Jânio Quadros que era representante de um setor atrasado da política brasileira, foi lá, presidente da República. Com seis meses, puxou o carro o cargo. O João Goulart foi convidado e falou: 'Olha, comigo não vão fazer isso'. Vão ter que me vencer, na rua.

Vamos ser francos, os setores mais conservadores do Congresso Nacional pensaram em chegar a impeachment. Não chegaram porque não tiveram coragem. Ou porque acharam que era o meu fim. O que ficou na verdade é que quando em julho ou agosto de 2005 eu dei sinal de que, veja, foi a primeira vez que eu disse que ia para a rua foi no lançamento do plano Safra que eu fui, não sei se no mês de julho, que eu fui em Garanhus lançar o plano Safra. A partir dali eu reuni a Dilma, o Marcio Thomaz Bastos e disse, olha, vocês vão cuidando das coisas aqui que eu vou fazer política agora aonde eu sei navegar bem.

Então eu trouxe aqui os movimentos sociais, me reuni com todos eles, mas foi um momento de muitas verdades, de muitas mentiras, de muitas insinuações, porque tudo isso termina na justiça, que é o bom da democracia. A gente só dá valor à democracia quando a gente está sendo atacado. Quando a gente está sendo atacado, como é bom ter justiça. Agora, quando é a gente que está no ataque, a gente fala: “isso tem que acabar agora”.

Humor de Presidente

"Hoje sou muito mais, muito mais bem humorado. Hoje eu acredito em coisas que eu não acreditava. Sou um homem...Eu só tenho motivo pra ter alegria. Todo santo dia, agradeço a Deus pela generosidade que Ele teve comigo. Sou uma pessoa hoje muito, muito, muito feliz. Sairei da Presidência pela porta da frente, sabe, com a consciência tranquila de que eu fiz muito, mas, ao mesmo tempo, de que esse muito que nós fizemos apenas descobrimos que ainda temos muito mais pra fazer."


Relação com o Congresso

"Nós, nesse período todo, nós só tivemos uma votação que, na minha opinião, prejudicou o Brasil que foi a da CPMF. Foi uma votação muito mais por ódio, muito mais na perspectiva de me prejudicar e quem foi prejudicado foi o povo pobre deste País, mas nós aprovamos tudo o que tivemos de aprovar, sabe, obviamente, a gente manda alguma coisa para o Congresso, manda um pônei e sai de lá um camelo e, muitas vezes, se manda um camelo e sai um pônei. Tem hora que o Congresso ajusta pra melhor as coisas nossas. Então, eu acho que foi a favor, sou agradecido. Sou agradecido.

Ulysses Guimarães, vocês conviveram um pouco com Ulysses muito jovens ainda na política, mas Ulysses dizia cada vez que o pessoal quer muita renovação no congresso que venha pior do que o que estava. Eu sempre tenho medo, porque as pessoas começam a achar que o Congresso não é sério e vem trair. É verdade que tem gente que não é séria, mas tem muita gente séria no Congresso.

Acho que uma coisa importante que vai acontecer com a Dilma se ela ganhar as eleições, é que ela vai ter um Senado mais arejado. Não tem importância se a pessoa seja de esquerda e de direita, não tem importância, o maior problema não é lidar com a esquerda ou com a direita, o nosso problema é lidar com gente qualificada, gente que faça um debate político. Entende, o que não pode é o processo de desqualificação que aconteceu no Senado, onde valia tudo. Acho que ela vai ter um Senado mais confortável. A Câmara é sempre muito difícil lidar com a Câmara, porque é muita gente.

O que não pode é hoje na medida de que os partidos não têm uma referência na sua direção, nos seus líderes, vá se criando núcleos de deputados, de senadores, então, você não tem com quem negociar. Como eu passei a minha vida inteira aprendendo a fazer negociação, ou seja, se você tiver interlocutor sério, você pactua e está resolvido o problema. Você não tem que ter medo de dizer: não, eu tive uma aliança com o partido dos companheiros do iG e eles, o partido deles, vão ter o ministério tal.

Não tem que ter vergonha de dizer que isso é uma coalizão e esse partido tem tantos deputados e tem direito a ter uma vaga. De repente se vende para a sociedade a ideia de que isso é promiscuidade. E quando você não faz isso e tenta colocar só gente tua, dizem, “ah porque é só o PT”. É humanamente impossível, seja o PT, o PFL, o PSDB, o PMDB ganhar as eleições, encher de gente deles aqui dentro."

Relação com Empresários

"Tinha muitos empresários que tinham medo, que tinham dúvidas, e era normal que tivessem dúvidas, que falavam de mim, que falavam do PT ou mesmo do sindicalista, ou mesmo da República sindical. Então, falava-se muito disso, são coisas que num País que tem liberdade, cada um fala o que quer.

E os empresários nunca ganharam tanto dinheiro como ganharam no meu governo, nunca ganharam tanto dinheiro. Ou seja, se você pegar o histórico dessas empresas todas, você vai perceber que as empresas, sobretudo a construção civil, ou seja, esse setor, que desde o final do governo Geisel estava praticamente sem obras públicas neste País. Difícil você lembrar uma grande obra pública feita no País nos últimos 25 anos. Ou seja, eles hoje estão ganhando dinheiro como nunca, porque tem obras como nunca, porque hoje está faltando pedreiro, está faltando maquinista, está faltando uma série de coisas. É uma coisa importante está faltando a gente fazer mais.

E hoje eu posso dizer para você que pode ter ainda empresário que desconfie, que não goste, por que? Aí é uma questão ideológica, às vezes pode ser uma questão de pele. Mas do ponto de vista dessas políticas feitos no meu governo, sinceramente, acho que os empresários nunca tiveram. Falo isso, sei que muita gente pode virar o nariz, mas os cientistas políticos vão ter de explicar porque que é exatamente um operário metalúrgico que chega à Presidência e que mantém uma relação com os empresários que nenhum outro presidente teve, mesmo quando era empresário. Eu ouço isso todo dia dos empresários.

Quando teve a crise econômica, não foi apenas a sabedoria do ministro Guido Mantega, a sabedoria do Meirelles, a sabedoria do presidente Lula, não. Nós tínhamos um comitê de crise e que os empresários participaram conosco para decidir as coisas que a gente ia fazer. Quando que eles participaram? Quando? Nunca, nunca, nunca, nunca. Eu hoje posso dizer para vocês que ainda tem gente que não gosta do PT, que não gosta do Lula. Jesus Cristo está na minha mesa com doze caras, foi lá um e traiu ele,. .... De qualquer forma, Tiradentes também, né? Agora, eu acho que eles sabem que nós fizemos muito, muito, muito, muito."

Revolução da Internet

"Um dia quando vocês não tiverem o que fazer ou estiverem de férias, vocês peguem muitas vezes a forma desrespeitosa com que trataram a instituição Presidência da República. Peguem algumas capas de revista, peguem algumas coisas que, sabe, você aí foge da liberdade de imprensa e anda na banalização da democracia.

E eu nunca reclamei. Nunca reclamei porque o meu objetivo não era ficar chorando. Eu não sou de chorar, não sou de reclamar. Se eu dependesse de coisas favoráveis, eu não teria sido, não teria sido eleito presidente do sindicato, não teria sido eleito presidente do PT, não teria sido eleito presidente da República, não teria sido reeleito e não estaria agora como 80% de aprovação. Todos vocês jornalistas sabem que vocês podem escrever o que vocês quiserem, publicar o que vocês quiserem, que não haverá a menor interferência do governo.

No meu governo a gente aprendeu que o juiz é o eleitor, é o telespectador e é o ouvinte. E agora o internauta. Esse é o juiz. E a grande imprensa ainda não aprendeu a lição. Ela tem que hoje, hoje, 68 milhões de brasileiros acessam a internet, onde a informação é mais rápida e ela não aparece com gosto de pão velho, que a imprensa tradicional. Ou seja, aconteceu uma coisa nove horas da manhã, você vai comprar um jornal e ler amanhã nove horas da manhã. Não. A internet é pão pão queijo queijo.

Falou, está lá no dia e na hora, todo mundo vendo, acompanhando. A maior vantagem é que eu acho que é importante, é a vantagem que é uma coisa interativa. O cidadão participa do processo. Ele participa. Quer dizer, eu ainda vou checar, mas o dado concreto é que eu acho uma revolução, que nenhum de nós tinha noção do que iria acontecer.

Se dependesse de algumas capas de jornais, eu nessas alturas do campeonato teria zero nas pesquisas. Ibope: Lula zero. Ruim e péssimo: noventa. Sabe, seria assim, mas não é. Por quê? Porque o povo tem outros instrumentos de comunicação. Eu tenho experiência, como eu sigo em casa, o que eles navegam nessa internet o dia inteiro, o que eles divergem, o que eles debatem política é algo que a gente nunca viu nesse país.

É preciso apenas os donos dos meios de comunicação compreenderem que algo está mudando nesse país e atentem para isso. Vocês já existem há dez anos, desde 2000. E vocês muitas vezes dão coisa na frente de tudo que é meio de comunicação.

Daqui a pouco a gente tem 100 milhões navegando, daqui a pouco a gente tem 120 milhões navegando. Queremos a contribuição de todo mundo no debate que nós vamos fazer sobre o marco regulatório de comunicação. Vocês sabem que não pode ficar do jeito que está porque nós estamos com um marco regulatório de 1962 quando não tinha TV digital, quando não tinha TV a cabo, quando não tinha internet, quando não tinha nada. Nós não podemos continuar com um marco regulatório de 62.

Os velhos padrões da televisão vão ficar cada vez mais cansativos. O velho padrão do jornal vai ter que se modernizar, as revistas semanais vivem um sufoco danado. Eu compreendo a dificuldade de se fazer uma revista semanal. Antigamente você tinha um jornal que superava ela todo dia, a televisão e o rádio todo dia. Mas agora você tem a internet que supera a todo minuto."

Realizações do Governo

"Tem muitas imagens para as pessoas lembrarem do governo Lula. Acho que cada um vai ter uma. É como se fosse uma fotografia pessoal. O resultado que vai balizar o comportamento da sociedade são os resultados finais do governo. E o resultado final do governo não termina em 2010 porque parte das coisas que nós fizemos começa a aparecer pelo IBGE em 2011 e 2012. Então, o tempo é que vai dar essa fotografia final do governo Lula. Eu te diria uma coisa, eu penso que nós mudamos a relação entre governo e sociedade.

Nesses sete anos, eu me reuni todos os anos com todos os reitores de todas as universidades federais deste País e com todos os reitores das universidades técnicas. Parece pouco e eu sei que, muitas vezes, você fala por que o Lula repete tanto isso? Mas nunca antes na história do País, nenhum presidente, nenhum ministro da Educação, mesmo os que foram reitores, se reuniram com o presidente. Talvez com medo de reivindicação, talvez com medo de um pedido de autonomia não se reuniam. Sabe, como não se reuniam com prefeitos, com movimento sindical, com sem-terra, com a Contag, com as centrais, ou seja, nós reunimos todo mundo, todo ano para extrair deles o que eles querem do governo e para dizer a eles o que a gente pode fazer. Eu acho que nós vamos ser lembrados um pouco por isso, da relação com o Estado, das conquistas da parte mais frágil da sociedade, do crescimento econômico constante, da volta da retomada da infraestrutura que tinha parado no governo Geisel e que só pôde ser retomada conosco, da aprovação de que algumas teorias econômicas estavam vencidas e as pessoas não percebiam, estava lá o carimbo vencido e as pessoas não percebiam, a história de que a gente não poderia crescer a exportação com crescimento do mercado interno, que a gente não poderia crescer as taxas de juros sem inflação. Tudo isso nós quebramos.

Maior realização que eu tenho é por ter terminado meu governo tendo vencido todos os preconceitos que foram colocados como obstáculo para que eu chegasse à Presidência da República. Nunca na vida, os empresários brasileiros ganharam tanto dinheiro, de todos os segmentos, nunca os trabalhadores tiveram tantos acordos com aumentos reais e nunca os pobres tiveram tanta ascensão como têm agora.

Em oito anos, nós fizemos uma vez e meia a quantidade de escolas técnicas que eles fizeram num século. Então, qual é o meu orgulho: é que quem vier vai ter que fazer mais. Eu trabalhei na linha de produção, e na linha de produção às vezes dois companheiros parceiros, um de noite e um dia, fazem a mesma peça. E quando você chega para trabalhar de noite, você fica doido para contar as peças do teu parceiro que trabalhou de dia, que é o adversário do dia. Você não pode produzir menos do que ele. Então a primeira coisa que você começa a fazer é ir lá contar as peças. Ele fez 18, vou ter que fazer 19. Essa é a coisa boa do capitalismo. É que ele impulsiona a competitividade entre os seres humanos, que não se dão conta que a cada dia vão produzir um pouco a mais e o salário continua o mesmo."

Popularidade e Populismo

"A primeira coisa que você tem que ter na relação com o povo, é ser muito verdadeiro com o povo. Normalmente a classe política, ela adora ir para o meio do povo quando ela está bem na pesquisa. E ela tem muito medo do povo quando ela está mal na pesquisa. Quando você é candidato, você adora andar em carro aberto dando a mão para todo mundo. Quando você se elege você é doido para andar num carro blindando sem ninguém te ver.

Sabe, eu estabeleci uma relação com o povo que era a única que eu sabia fazer e a única que é melhor. O mais certo com o povo é ser sincero. É você ter coragem de dizer não quando tem que dizer não, dizer sim quando precisa dizer sim. Fazer um esforço necessário para atender as pessoas. Estabelecer uma relação real. Uma relação de parceria que ele se sinta, a coisa que me dá mais prazer, a coisa que me dá mais prazer é que o grande legado que eu vou deixar no País é que na primeira vez, não sei se no Brasil ou se em vários países do mundo, os trabalhadores sentem que têm um igual a eles no poder.

Eles não fazem distinção. Aliás, nem me chamam de presidente. Nem me chamam de Excelência. Vou para São Bernardo e me chamam de baiano. Me chamam de Lula. Depois de tanto para ser presidente e ser chamado de Excelência, sabe? E eu acho isso maravilhoso. Eu acho, sabe, eles se sentem o próprio. Eles se sentem o cara. É isso que eu acho que é legal. Eu acho que isso é conversar com o povo. E Deus quando colocou a gente com duas orelhas é para a gente ouvir mais do que falar.

E para mim o aplauso tem a mesma importância que a vaia. O cara vaia porque não gosta, o cara aplaude porque gosta. De vez em quando eu acho uma loucura um político ficar brigando com quem está vaiando. O cara dedica o discurso dele a quem está vaiando, a vaia só aumenta. Ou seja, você tem que falar o que você tem que falar acreditando que você vai convencer as pessoas. Eu nasci assim, aprendi a fazer sindicalismo assim, construí o PT assim, exerço a Presidência assim, quero morrer assim. Sabe, sendo o mais verdadeiro possível na minha relação humana. Sabe, eu gosto de pegar no braço das pessoas, tem gente que acha que eu quebro muito protocolo. Sabe, uma vez eu já cheguei a dar tapinha na cabeça de pessoal que caiu a peruca. 'Presidente, não faça mais isso'. Paciência, vai lá pega e implementa.

Primeiro, o populista não tem uma relação como a que eu tenho com o povo. O populismo é um ato de fazer política, de propostas, de cima para baixo, sem nenhuma relação orgânica como eu tenho com a sociedade. Sinceramente, eu acho que a pessoa que fala isso não conhece nem de populismo e de popular. A pessoa saber o que é uma coisa populista, populista é uma coisa fictícia. O populismo é uma coisa fictícia, você faz uma pesquisa e fica inventando proposta de cima para baixo, eu não faço isso. A minha relação é direta"

Cuidados com Discursos

"Muitas vezes a gente pensa que um discurso nosso abafou. Sabe aquele negócio eu me amo. Você faz um discurso e você fala “a, foi”. Tem gente que fala assim: “eu arrasei”. Aí quando você coloca aquele discurso numa qualitativa, às vezes de dez pessoas que estão no grupo, nove não gostaram do discurso.

Onde você faz campanha e você acompanha. Você vai para um debate na televisão e você acompanha em tempo real os debates. Sabe? No debate em que eu fiz com o Alckmin em 2006. E ele estava muito agressivo naquele da Bandeirantes. Eu recebia a cada intervalo a informação: quanto mais agressivo o Alckmin ficava, mais ele perdia. Ele não se deu conta que ele estava diante não de um adversário. Ele não se deu conta que ele estava diante do presidente da República. E para o povo, você respeitar a instituição tem um valor importante. E ele não se deu conta disso.

Na hora do debate, nós tínhamos doze grupos reunidos em vários lugares do país. Qual foi o grande erro do Alckmin? Ele se deixou seduzir pelos aplausos de meia dúzia de pessoas dele que estavam na frente dele. E eu aprendi que quando você passa na televisão, não é a pessoa que está do seu lado que importa. É o cidadão que está sentado no sofá. Um aposentado, um adolescente, uma senhora que acabou de brigar com o marido. Ou a menina que acabou de receber o telefonema do namorado convidando ela para casar. Sabe? Você está falando para milhões, só que individualmente. Isso você vai aprendendo, eu aprendi com muitas derrotas. E com muita humildade.

Eu lembro que na campanha de 2002 tinha uma pesquisa que dizia o seguinte: o povo quer reforma agrária pacífica e tranquila. E eu tinha sido educado durante trinta anos para fazer o discurso: reforma agrária ampla e radical sobre o controle dos trabalhadores. Eu levei mais de cinco dias para minha boca conseguir dizer reforma agrária tranquila. Aí quando você faz essas coisas, você percebe que nem sempre a tua verdade é absoluta."

Duração do Mandato

"Tenho vontade de fazer com que as experiências bem-sucedidas no Brasil sejam aplicadas em outros países, como os da África, da América Central. Eu tenho um certo inconformismo com a situação de alguns países. Ou seja, às vezes, o mandato é muito pequeno, de quatro anos, de cinco anos. E hoje, no caso do Brasil, por exemplo, com mandato de quatro anos, nenhum presidente da República consegue fazer uma obra estruturante. Entre você pensar em fazer a obra, contratar um projeto básico, fazer um projeto executivo, conseguir licença prévia, conseguir licença de instalação da obra, depois fazer licitação, depois tem o problema de disputas entre as empresas que perdem licitação no Poder Judiciário, depois tem o Tribunal de Contas, depois tem o Ministério Público. Entre você vencer todas as barreiras, acabou o mandato.

A Norte-Sul (tem um dado da sua empresa, tem um trecho que seria muito importante) vocês vão ficar impressionados com o que está acontecendo lá. Vamos fazer, vamos chegar até 1500 quilômetros da Ferrovia Norte-Sul pronta. Vou lá entregar um trecho e vou dar ordem de serviço para a gente levar até Estrela D´Oeste, em São Paulo, mais 950 quilômetros.

Então, vou falar uma coisa para vocês. Tem trecho dessa obra que o Tribunal de Contas pediu para Valete segurar 10% do pagamento porque tinha suspeita de irregularidade. Essa obra ficou parada um ano até que a Justiça decidisse. Aí a Justiça decidiu favorável à empresa continuar a obra. Agora, é o seguinte: quem paga o prejuízo do País dessa obra ficar parada um ano?"


O sumiço de Serra


Domingo, dia de bons textos.

Repercuto história contada pelo sempre bem informado Marco Aurélio Mello em seu indispensável DoLadoDeLá. Obviamente parece ser uma peça de ficção, mas depois do que estamos vendo nesta campanha eleitoral nada, mas nada mesmo, pode ser considerado absurdo.

Por via das dúvidas, faço o registro aqui também. Depois não digam que nós não avisamos.

Abaixo, o texto.

"Às vésperas do último debate na televisão o candidato da oposição desaparece. Homens de preto armados invadem a casa dele, jogam-no no porta-malas de um carro de luxo e partem em alta velocidade. Começam as especulações. O repórter da TV Globo entrevista uma testemunha que diz ter visto um dos homens de terno com uma estrelinha do PT na lapela. O repórter de polícia do Estadão ouve outra testemunha que afirma: a trama foi feita no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A Folha de S. Paulo ouve a filha do candidato, mãe de três filhos, que conta estar sofrendo ameaças desde que seu pai desapareceu, e que não dorme mais à noite. A revista Veja lança uma capa toda preta com a estrela do PT no meio. Abaixo a manchete pergunta: É isso que você quer para o Brasil? 

Nesta altura, a Polícia Federal já está no caso. A Polícia Civil de São Paulo também abre uma investigação paralela. Os sequestradores fazem contato - com a polícia paulista, claro - e dizem pertencer a um grupo que defende a luta armada para transformar o país na República Socialista do Pau Brasil. São taxados de terroristas e passam a ser perseguidos. O Disque-denúncia abre uma linha especialmente para receber informações sobre o caso. Uma marcha à luz de velas é organizada pela classe média na Avenida Paulista. Cariocas consternados, liderados pelo candidato ao governo no estado, Fernando Gabeira, decidem abraçar a Lagoa Rodrigo de Freitas para pedir paz no processo eleitoral. Um pouco antes da eleição, o candidato é encontrado num cativeiro em... Minas Gerais.

Ele está magro, fraco, com barba por fazer e ao reencontrar a família chora copiosamente. A libertação é transmitida ao vivo pela televisão (só não me perguntem como foi que o veículo transmissor - o link - chegou a tempo?) Começam especulações sobre a participação do ex-governador mineiro no episódio, mas não ganham corpo, porque a imprensa não leva adiante as denúncias. No dia da eleição o candidato acena para o povo. As pesquisas de boca de urna informam que já há empate técnico. Ufa, haverá segundo turno.

A velha mídia decide então premiar seus profissionais pelo sucesso da cobertura. Agora sim teremos um presidente comprometido com os destinos da nação. Para quem precisa de 8 milhões de votos para chegar ao segundo turno eu não duvidaria de enredo tão engenhoso."

sábado, 18 de setembro de 2010

Atualização dos números e análise de 10 eleições para o Senado


Os leitores assíduos do Ouro de Tolo sabem que publiquei aqui um resumo das grandes disputas para o Senado Federal semanas atrás.

Hoje publico novamente texto do Professor Idelber Avelar, escrito originalmente em seu indispensável "O Biscoito Fino e a Massa", com uma atualização dos números e uma excelente análise das possibilidades das forças progressistas na eleição para o Senado.

É importante a eleição de uma bancada forte para o Senado a fim de possibilitar que Dilma possa governar em caso de vitória sem depender daqueles acordos políticos que todo mundo critica.

Também indico que meu segundo voto será em Marcelo Crivella. Ele foi fiel apoiador do Governo Lula no Senado e sua eleição junto a Lindberg Farias evitaria a ida para o Senado de Cesar Maia e Jorge Picciani.

Vamos ao texto. As fotos são dos candidatos Gleisi Hoffmann (PT-PR) e o citado Lindberg.

"Em primeiro lugar, se você não leu ainda, leia o post inicial sobre as corridas ao Senado, e você entenderá melhor o quadro que apresento aqui. Consciente de que Dilma precisará de apoio parlamentar mais sólido que aquele do qual ele desfrutou, o Presidente Lula tem jogado tudo nas eleições legislativas, impondo, inclusive, algumas concessões amargas ao PT nas corridas para os governos estaduais (Minas Gerais talvez seja a mais amarga dessas pílulas). Os resultados já se fazem notar.

Os números que chegam são muito bons para nós; na verdade, bem melhores do que eu esperava. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar fez seus cálculos e, segundo eles, o PT deve se transformar no maior partido da Câmara e aumentar significativamente sua bancada de senadores. Desenha-se um quadro em que Dilma terá maioria tranquila para governar, talvez até mesmo a super-maioria de 3/5 necessária para a aprovação de emendas constitucionais. A esquerda aliada (PSB, PcdoB, PDT) deve crescer também. Tucanos e pefelês já sabem que vão encolher. A dúvida é o tamanho do encolhimento.

Tentei usar os números mais recentes possíveis. Aqui vão eles, com o nome do instituto sempre indicado.

São Paulo, DataFalha: Marta Suplicy (PT) 35%, Netinho de Paula (PcdoB) 34%, Romeu Tuma (PTB) 22%, Aloysio Nunes (PSDB) 22%, Ciro Moura (PTC) 11%, Moacyr Franco 7%. Confesso aqui duas coisas: em primeiro lugar, não imaginava a possibilidade de que a esquerda abiscoitasse as duas vagas no ninho do tucanato por excelência . Mas é exatamente este o quadro que se desenha. Claro que nada está definido e Renato Rovai, outro dia, alertou que a própria Marta não está garantida. Aloysio pode crescer, impulsionado pela liderança de Alckmin na corrida para o Palácio dos Bandeirantes. O mais provável, no entanto, é que a esquerda fique com as duas vagas. É um quadro histórico: os dois senadores eleitos por São Paulo seriam um negro comunista (o primeiro negro senador por São Paulo) e uma feminista que foi a primeira mulher a dissertar sobre o orgasmo na TV brasileira. A segunda confissão é que eu tinha tremenda resistência à candidatura do Netinho mas, recentemente, em conversa com Cynara Menezes, mudei de opinião. É evidente que o endosso enfático do blog vai para as duas candidaturas de esquerda.



Rio de Janeiro, Ibope: Lindberg Farias (PT) 36% Marcelo Crivella (PRB) 33% César Maia (DEM) 23% Jorge Picciani (PMDB) 20%. No DataFalha os números são outros: Crivella 40%, Lindberg 36%, César Maia 29%, Picciani 21%. Há alguns meses, parecia inconcebível que César Maia não conquistasse uma das duas vagas em disputa. Mas a onda vermelha levantou o garoto petista oriundo da UNE e ex-prefeito de Nova Iguaçu, e hoje ele é o grande favorito. A segunda vaga pode pender para qualquer um dos três que continuam no páreo. As alternativas para o eleitor de esquerda aqui são: dar seu voto ao (eleitoralmente) nanico Milton Temer, do PSOL, que certamente não será eleito, ou votar no Bispo Crivella, o que ajudaria a enterrar um cacique pefelê e daria à base de sustentação de Dilma mais um senador. Como ando pouquíssimo afeito a purismos, desejo um Congresso o mais tranquilo possível para Dilma e sei que esta é a grande chance de desferir o golpe decisivo nos pefelês, eu não teria dúvidas se morasse no Rio: iria de Lindberg e Crivella.

Minas Gerais, DataFalha: Aécio Neves (PSDB) 71%, Itamar Franco (PPS) 42%, Fernando Pimentel (PT) 32%. Aqui sim, a oposição a Dilma tem um senador garantido, Aécio Neves. Ele certamente será a voz mais forte da oposição no Senado. Há um mês, a diferença entre Itamar e Pimentel era de 18 pontos: 47 x 29. Caiu para 10. Dilma terá grande vitória em Minas Gerais e é bem possível que ela leve Pimentel na cola. O mais importante para o eleitor de esquerda aqui é não acompanhar seu voto em Pimentel com um voto em Itamar (acredite, há eleitores progressistas em Minas pensando nisso, com base na vaga memória do nacionalismo de Itamar). Um voto em Itamar e Pimentel é, basicamente, um voto anulado, posto que Aécio está eleito. Além de Pimentel, o blog endossa Zito Vieira, do PcdoB, que não será eleito, mas poderá se cacifar para voos mais altos caso tenha uma votação minimamente expressiva. Há dois meses parecia impossível, mas hoje está claro que Pimentel tem chances de chegar. O comício de Lula, Dilma e Pimentel ontem em Juiz de Fora foi estratégico: trata-se da principal base de Itamar Franco. O dilmismo pode, então, sair do Triângulo das Bermudas com cinco das seis vagas em disputa para o Senado. O blog aposta que terá pelo menos quatro.

Rio Grande do Sul, DataFalha: Inacreditavelmente, Ana Amélia Lemos (PP) 47%, Germano Rigotto (PMDB) 41%, Paulo Paim (PT) 41%. Aqui não há muito o que analisar. A esquerda está numa briga de foice para ter uma cadeira no Senado. Tarso lidera a corrida ao Piratini e tem boas chances de liquidar a fatura no primeiro turno. O blog aposta que com o impulso dado por Tarso e com a força da militância petista gaúcha, Paim segura sua cadeira. É importante, claro, fazer campanha para que o eleitor de Paim não dê o seu segundo voto a Ana Amélia ou Rigotto. A candidata do PC do B, Abigail Pereira, tem 8% das intenções de voto no DataFalha. Luiz Carlos Lucas, do PSOL, tem 2%.

Bahia, DataFalha: César Borges (PR) 29% Lídice da Mata (PSB) 28% Walter Pinheiro (PT) 27%. Até bem pouco tempo, César Borges, herdeiro do carlismo e único candidato da direita com chances, liderava tranquilo. Agora, embolou tudo e ele corre risco de ficar fora. O governador petista Jaques Wagner deve se reeleger no primeiro turno, o que aumenta as chances dos dois candidatos de esquerda. De toda a longa história de discrepâncias entre o voto de esquerda nas últimas pesquisas antes da eleição e o total de votos efetivamente encontrado nas urnas, a Bahia é o caso mais clássico: em 2006, as pesquisas indicavam vitória de Paulo Souto no primeiro turno. Foi Wagner quem acabou levando de primeira. A esquerda pode sair da Boa Terra com as duas vagas ao Senado. É a aposta do blog.

Pernambuco, DataFalha: Também ali o lulismo quer mostrar com quantos votos se elegem dois senadores. A vitória implicaria o enterro de um lendário cacique pefelê, ex-vice-presidente da República, inclusive. Os números do DataFalha são:Humberto Costa (PT) 47%, Marco Maciel (DEM) 34%, Armando Monteiro (PTB) 32%. Na corrida ao Palácio do Campo das Princesas, Eduardo Campos (PSB), lulista de quatro costados, está impondo a Jarbas Vasconcelos uma das derrotas mais humilhantes da história de Pernambuco, com diferença que pode chegar a 50 pontos. Tanto Lula como Eduardo Campos estão jogando pesado para alavancar Costa e Monteiro. Seria um amargo fim de linha para Marco Maciel: não conseguir renovar sua cadeira no Senado num ano em que há duas vagas em jogo. No estado de Pernambuco, a popularidade de Lula alcança soviéticos 96%.

Paraná, DataFalha: Também aqui o objetivo lulista é abiscoitar ambas cadeiras. A aliança pela qual eu desesperadamente clamava no meu Google Reader, ainda na época de hibernação do blog, acabou se formando. A chapa lulista é fortíssima e lidera com certa tranquilidade. Os números são: Gleisi Hoffman (PT) 44%, Roberto Requião(PMDB) 44%, Gustavo Fruet (PSDB) 21%, Ricardo Barros (PP) 18%. O candidato tucano ao Palácio das Araucárias, Beto Richa, tem liderado as pesquisas por margem cada vez menor. Pouco a pouco, vai se configurando a virada de Osmar Dias (PDT), candidato único do bloco lulista. Nem com o apoio de Richa o candidato tucano ao Senado, Fruet, conseguiu decolar. Fruet foi um dos parlamentares de mais visibilidade em toda a bancada tucana ao longo destes últimos anos. Era o líder nacional do bloco de oposição na Câmara quando anunciou sua candidatura ao Senado. Mesmo assim, patina há meses no patamar dos 20%. O lulismo deve levar as duas cadeiras.

Amazonas, Ibope: Sem dúvida é a eleição que o Biscoito acompanha com mais atenção e entusiasmo. Eduardo Braga (PMDB) está eleito para a primeira vaga. Tem, no momento, 80% das intenções de voto. Brigam pela segunda cadeira Arthur Virgílio, ou “Artur Neto” (PSDB), e Vanessa Grazziotin (PCdoB). Artur Neto liderou a briga por essa vaga até recentemente, mas a coisa virou na última pesquisa. O Ibope dá 39% para Vanessa e 34% para o valentão que queria dar uma surra em Lula. O Amazonas talvez seja o estado brasileiro onde os tucanos são mais detestados. Na eleição para presidente, a vitória de Dilma será esmagadora e Serra corre sério risco de ficar atrás de Marina. A campanha de Vanessa vem crescendo —ela foi recebida recentemente por multidão inédita em Manicoré, município que fica a mais de 300 km de Manaus — e os números do Ibope são anteriores à gravação do depoimento de Lula em apoio a Vanessa. O Biscoito promete festa com rojões, fogos, vídeos, pirotecnia e distribuição de brindes caso a valente militante comunista consiga derrubar o senador mais babaca da república.

Piauí, Ibope: o PT já garantiu uma das vagas. Wellington Dias tem 67% das intenções de voto e não deve ter problemas para se eleger. Também aqui a torcida do blog é forte, na corrente pra trás contra Heráclito Fortes (DEM), figura das mais repugnantes da nossa política. Os números do Ibope na disputa pela segunda vaga são: Mão Santa (PSC) 31,8%, Heráclito Fortes (DEM) 21,7%, Ciro Nogueira (PP) 15,4%, Antônio José Medeiros (PT) 8,8%. Mão Santa não é exatamente um modelo de compromisso com ares publica, mas mesmo que a segunda vaga fique com esse folclórico piauiense, haverá motivos para comemoração. Heráclito terá sido enviado à lata de lixo da história, relegado a uma provavelmente fracassada campanha à prefeitura de Teresina em 2012.

Acre, Ibope: A primeira vaga parece garantida para o PT. O ex-governador do Acre e ex-prefeito de Rio Branco, Jorge Viana, tem 63%. Seu irmão, Tião Viana, deve se eleger governador no primeiro turno. A briga pela segunda vaga mostra: SérgioPetecão (PMN) 38%, Edvaldo Magalhães (PCdoB) 31%, João Correia (PMDB) 11%. O favorito Jorge Viana tem feito o possível para alavancar Edvaldo junto com ele, e a trajetória do comunista é ascendente. Trata-se de mais um estado em que a esquerda lulista pode levar ambas vagas.

Por hoje é isso, mas prometo voltar com números e análises dos outros estados."

Sobretudo


Após um longo intervalo, temos de volta a coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. O tema de hoje é um aspecto bastante interessante da arena política brasileira, que são os ex-petistas que mudam de posicionamento político para posições conservadoras e de direita. Lembro aos leitores que o colunista não é filiado ao Partido dos Trabalhadores.

O curioso é que eu segui o caminho inverso. Era conservador durante a adolescência e juventude, mas fui adotando posições progressistas paulatinamente a medida em que os anos passavam e eu ascendia socialmente. Talvez os anos na faculdade de Economia, as leituras empreendidas e a minha própria trajetória - à época, muito mais uma exceção do que regra, ao contrário do que hoje começa timidamente a ocorrer - tenham contribuído para tal fenômeno.

Vamos ao texto, bastante didático e que nos faz pensar:

"Ex-PTistas, Conservadorismo et alli: algumas questões importantes

Há 3 tipos de ex-PTistas.

1) Aquele que realmente acreditou um dia que existia um partido ungido pelas mãos divinas com a propriedade da honestidade à toda prova, e que o PT era este partido. Na visão deste tipo, o PT já estaria fazendo muito ao se aliar à elite política nacional, mas este era um sacrifício justificável para alcançar o poder e mostrar como é que se governa uma nação. Este era o limite do tolerável. Ficaram sinceramente surpresos e decepcionados com a conduta do PT, principalmente da banda do Dirceu. E por isso fazem oposição cega, por ressentimento. Todos os ex-Ptstas se fazem passar por um deles, mas é um tipo minoritário.

2) O segundo tipo é o cara que aos poucos se viu perdendo espaço dentro do PT para a corrente do Lula, que por sinal também é a do Dirceu, da Dilma, do Olívio, do Genoino e de todo mundo que teve destaque (positivo ou negativo) nos anos Lula. Estes caras fundaram ou entraram em um partido de esquerda e se viram dentro de um partido burguês que, se não é conservador, pouco tem de revolucionário (na ótica esquerdista clássica do que é ser revolucionário). Melhor seria dizer social-democrata, à moda européia.

Eu vi isso de perto, porque morei no ABC paulista há 20 anos e voltei a morar agora. O berço do PT é um conjunto de cidades que se aburguesou de uma maneira tremenda, tanto é que o PT dificilmente ganha alguma coisa por lá hoje em dia. O PT se aburguesou, seus dirigente amadureceram, aprenderam que para governar se tem que parar de tacar pedra em tudo e em todos.

Ora, o jeitinho brasileiro de governar, que também foi usado pelo PT, foi a desculpa pronta e perfeitinha para esta gente se dizer indignada e ir fundar - agora sim! - um partido puro. E tome PSOL, PSTU, 'ptistas' do PV e por aí vai. Ou seja, é a esquerda humilhada pelo pragmatismo do Lula, gente que viu naufragar o sonho de uma revolução vermelha no Brasil, porque o Lula é tudo menos um esquerdista típico, de formação teórica dada como tal - é, antes de mais nada, um prático. Estes são muitos, para padrões de filiação partidária, mas não têm representação na sociedade.

3) O grupo mais numeroso é de gente que se dizia PT por modismo, porque é politicamente correto numa certa idade e em certos meios se dizer de esquerda, porque era fácil fingir que acreditava em partido puro e inocente, pelo mesmo motivo que tem gente que sai com umas menininhas na faculdade usando boina do Chê. É bom ser do contra, é bom ser oposição "a tudo que está aí". Qualquer que fosse o governo do PT, eles se diriam decepcionados.

Acontece que esta turma também envelhece, têm filhos, emprego, aumentam o salário, passam a pagar imposto. E neste momento o cara não só dá uma 'aburguesada' básica como começa a se transformar em um sujeito conservador. A idade ainda não é tanta que permita ao cidadão recém-convertido em burguês a bater na barriga e dizer que está 'cagando' para os pobres, que pobre fede e o imposto dele deveria ser investido em armas para a polícia, em remoção de favela e em financiamento público de dívida de banco. Mas o cara quer muito uma desculpa para votar no DEM ou no PSDB, ele precisa urgentemente disso.

Aí, o PT governa e ele passa a ver no PT os mesmos defeitos que era modismo criticar nos outros. E ele esquece que os outros mereceram críticas piores, e fica fácil demonizar o Lula e o PT porque é interessante fazer isso, para votar de uma maneira conservadora, porque se está "votando contra estes ladrões que me decepcionaram".

Pois eu tenho mais respeito ao reacionário do filhinho-de-papai-milico do Bolsonaro Jr., que pelo menos tem a hombridade de se dizer um troglodita assumido, mas não inventa desculpa para a sua insensibilidade social. E, claro, no segredo das urnas tem muita gente que se vê representada por isso.

Tenho mais respeito pelo palhaço-padrão do Tiririca que representa muitíssimo bem o Brasil que ainda não aprendeu que tem hora para a graça e tem hora para falar sério.

Tenho mais respeito pelo desespero eleitoral dos tucanos, perdidos em meio às malandragens que inventaram quando foram governo e que não entenderam que o PT aprendeu a usar melhor estas armas num ambiente político construído por eles próprios na fase de redemocratização do País.

Isso tudo vale mais e contribui mais para o debate nacional do que gente que se diz "decepcionada" com o PT. Ora, ora, vá posar de ingênuo em outro quintal. O PT errou e acertou, mas fundamentalmente o PT governou dentro das regras constituídas para a vida política do Brasil, sejam estas regras tácitas (e ilegais) ou institucionalizadas na forma da lei.

E ao final de oito anos, convidado a apresentar as contas, mostra para o eleitor, na forma possível de percepção do eleitor médio - que pouco lê e muito sente - um Brasil mil vezes melhor em tudo que possa ser objetivamente comparado.

O resto é chorumela de quem se tornou conservador e usa desculpas esfarrapadas para defender um voto igualmente conservador."


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Final de Semana - "Tragédia no Fundo do Mar"



Mais uma sexta feira de uma semana corrida.

Nossa música de hoje é de um grupo que é precursor de grupos de pagode de hoje, o "Os Originais do Samba". No grupo fazia parte o saudoso humorista Mussum, que depois faria parte de "Os Trapalhões".

A canção é mais conhecida como o "Assassinato do Camarão", mas seu título correto é o que está acima.

Tragédia No Fundo do Mar
(Os Originais do Samba)

"Assassinaram o camarão
Assim começou a tragédia no fundo do mar
O carangueijo levou preso o tubarão
Siri sequestrou a sardinha
Tentando fazer confessar
O guaiamu que não se apavora
Disse: eu que vou investigar
Vou dar um pau nas piranhas lá fora
Voces vão ver, elas vão ter que entregar
Vou dar um pau nas piranhas lá fora
Voces vão ver, elas vão ter que entregar
Logo ao saber da notícia a tainha tratou de se mandar

Até o peixe espada também foi se entocar
Malandro foi o peixe galo
Bateu asas e voou
Até hoje eu não sei como a briga terminou
Malandro foi o peixe galo
Bateu asas e voou
Até hoje eu não sei como a briga terminou"

Cinecasulofilia: "A crítica ( o crítico) como um barco à deriva"


Mais uma sexta feira e mais uma coluna "Cinecasulofilia", assinada pelo cineasta, crítico e professor de cinema Marcelo Ikeda - dono do blog de mesmo nome e em parceria com o qual esta coluna é publicada. O texto de hoje é sobre a própria essência da crítica.

"A crítica ( o crítico) como um barco à deriva

Como escrever uma crítica? Me incomoda o fato de que alguns críticos, quando analisam obras cinematográficas vanguardistas, o façam a partir de um texto acadêmico, rançoso. Isso por mim já é uma contradição por si, ainda mais quando se investiga um cinema contemporâneo, um cinema grávido do hoje. Uma escrita acadêmica para se defender um cinema do futuro, um cinema que desafia as possibilidades? Quero uma crítica que vá além do filme, e para ir além do filme, ela precisa naturalmente ir além das palavras. As pessoas – e nisso incluo os próprios estudos de comunicação – ainda não conseguem perceber que para o texto ser rigoroso ele não precisa ser necessariamente acadêmico. Há uma defesa por uma “militarização da escrita”, por um “bom gosto” da escrita, que na verdade é o mesmo bom gosto academicista que recusou os quadros dos impressionistas e dos modernistas, por exemplo. É tão absurdo como se se dissesse que o cinema de Wiseman não é rigoroso porque sua câmera é trôpega. Há pessoas que escrevem sobre o cinema de James Benning como se estivessem escrevendo sobre o sétimo filme de Elia Kazan (e nem mesmo o sétimo filme de Kazan merece que se escreva desse jeito). O rigor do texto parte do olhar de quem o escreve, e não pela “militarização da escrita”. Como se pode defender um cinema antibelicista se se utiliza uma escrita militar? Como pensar o papel do crítico?

Não me interessa o crítico que vomite verdades para o leitor, me interessa a crítica que “tira o chão” do espectador, que o faz repensar o que é o filme, e não o que “o ensina o que ele deveria ter visto”. Não me interessa a crítica que “oriente”, “informe” o leitor, mas sim aquela que o “desoriente”, “desnorteie”, aquela que faça o espectador não mais saber o que é o filme que ele pensou ter visto. Uma crítica que espalhe incertezas, dúvidas. E acredito que isso só é possível de uma forma: a de que o leitor seja um cúmplice do escritor. A crítica como um barco à deriva, “totalmente” ao léu (“totalmente” em termos). Escrever passa a ser lançar-se a uma aventura na folha de papel em branco, guiada pelos sentimentos que o filme trouxe mas como ponto de partida, e não como destino de chegada. Não me interessa a crítica como um porto seguro, e sim como um barco à deriva. O crítico escreve sobre o filme, que ele no fundo não sabe bem como é. Ele escreve para tentar decifrar. Ele então divide com o leitor as suas dúvidas, as suas angústias. Ele no fundo escreve sobre si. Ele no fundo escreve para si. Ele escreve para tentar entender, mas não consegue, fracassa. “Decifra-me ou te devoro”, e o crítico é sempre devorado pela esfinge fílmica. A boa crítica é aquela preenchida pelo fracasso, consumida pelo sentimento do crítico de não conseguir dar conta do que é o filme. Como isso é possível? Através de uma escrita trôpega, e não cartesiana, retilínea, apolínea, academicista, militar. Toda a crítica é subjetiva, não existe um caráter científico, não existe método. Ou melhor, o único método válido para a crítica é a sinceridade, a honestidade, a franqueza. Espero que esteja claro que o que proponho para a crítica tem um sentido positivo, e não meramente niilista. Ou seja, o que venho falando evidentemente não significa que se pode escrever qualquer coisa, que se atire pelo papel em branco as palavras soltas, sem encadeamento.

Evidentemente não é isso o que quero defender. Mas sim a possibilidade da crítica ser algo menos rançoso, que ela não deixa de ser rigorosa só porque fugiu do “vovô viu a uva”. O crítico deve descer do seu pedestal de “especialista” e se embrenhar na mata fechada que é o universo do filme. Deve ver o filme sentado na mesma poltrona dos espectadores, e não no camarote, convidado pelos príncipes palacianos. A crítica não deve ser usada como palanque de interesses além do filme, isto é, discursos politiqueiros (vejam bem, “politiqueiros”, e não políticos), brigas eleitoreiras, picuinhas acadêmicas, conchavos interesseiros, floreios parnasianos, etc. A crítica deve ser “desinteresseira”, e não “desinteressada”.

Ou seja, a crítica não pode ser instrumento de exercício de poder (como “quem tem a razão?”, “quem tem o discurso dominante sobre tal filme?, ou sobre “as tendências do momento”). Da mesma forma que quando digo que o crítico no fundo fala de si – ou ainda, que escreve para si – com isso de modo algum quero dizer que se faz crítica por autoanálise, por mero exercício narcisista. Entender dessa forma é tão absurdo quanto alguém dizer que os filmes-diários de Jonas Mekas são meros exercícios exibicionistas, que não interessam a ninguém a não ser o seu círculo de amigos. Ao contrário, o crítico escreve para ser lido, mas que essa leitura torne o leitor mais ativo, e não meramente passivo, ou meramente apre(e)ndendo os “ensinamentos do crítico-especialista”. Essa sim é que é uma forma narcisista e egoísta de escrita. A que proponho, ao contrário, é uma forma livre, cuja leitura seja um ponto de partida para o leitor, que, a partir dela, formule o seu próprio filme. A crítica deve ser vista como um exercício impossível. Jornais, revistas, livros, sites, blogs, etc.: o meio de circulação da crítica é cada vez mais variado mas, se atentarmos bem, sua forma continua rigidamente cristalina: de um lado, a crítica como “entretenimento” ou “informação”; de outro, a crítica como “ciência da comunicação” (a crítica acadêmico-escolar, de caráter apostolar e episcopal, formando “seitas” e “súditos” que devem se digladiar defendendo ou denegrindo o próximo filme do diretor beltrano, mesmo que ele ainda sequer tenha sido filmado).

Já imagino que, a partir deste texto, as pessoas do meio já digam que estou acusando “beltrano, ciclano e fulano”, mas aqui não se trata de dar “nomes aos bois”. Não quero denegrir o trabalho de ninguém, mas apenas expressar minha insatisfação com o que leio sobre cinema. E não só no Brasil mas no mundo, já que muito do que se escreve no Brasil é copiado de um estilo de crítica que vem de fora, seja qual for o lado da moeda (é como os realizadores brasileiros que ou copiam hollywood ou copiam apichatpong). Se eu rotular, classificar, categorizar os veículos e os críticos em “A, “B” ou “C”, estarei fazendo exatamente aquilo que eu tento combater nesse texto. Não quero ensinar ninguém a escrever (esse texto não pretende inaugurar um curso de “métodos como fazer uma escrita trôpega”, etc). Mas, ao contrário, esse texto pretende espalhar dúvidas, incertezas, dividi-las com o leitor. E não afirmar verdades sobre a crítica, ensinar às pessoas como se deve escrever. O máximo que esse texto pode ser é um ponto de partida, que leve a um questionamento de qual é o papel da crítica e do crítico. Se ele fizer isso, terá cumprido o seu papel."

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Resenha Literária - "Diplomacia Suja"


O bom de se viajar a trabalho é que se consegue ler bastante. Até porque como não dirijo para chegar ao trabalho nestas ocasiões, consegue-se ler bastante no transporte que nos leva à refinaria.

Nossa resenha de hoje é de um livro que mostra como a hipocrisia permeia as relações políticas internacionais; bem como explicitar o quão pouco vale a vida humana quando se contrariam interesses dos donos do poder.

Craig Murray chegou ao Uzbequistão em 2002 para ser um dos mais jovens embaixadores da história do Reino Unido. Com 43 anos, era uma carreira brilhante que chegava a um ponto bastante alto.

Eram tempos pós onze de setembro e esperava-se que o novo representante inglês no país trabalhasse no sentido de manter como aliado o país da Ásia Central, ex-república soviética rica em petróleo e gás e que possuía em seu território uma base militar norte-americana e era ponto estratégico na passagem ao Afeganistão. Além disso corroborar a política americana na região - eram tempos de "relações carnais" entre os Estados Unidos e a ilha européia.

Entretanto, assim que chega ao país o novo embaixador assiste a um nada justo julgamento de dissidentes políticos e recebe fotos de um opositor do regime literalmente fervido e cozinhado em água quente igual a um frango ou  um pedaço de carne.

A partir daí Craig Murray passa a usar seu prestígio de representante britânico e sua imunidade diplomática no sentido de defender os direitos humanos e a dissensão ao regime ditatorial do presidente Karimov. Outrossim, passa a representar os interesses de empresas britânicas de uma forma de "capitalismo" bastante peculiar empregada no país, onde os parentes do mandatário controlavam com mão de ferro todas as principais empresas do Uzbequistão.

Só que a oposição do embaixador começa a criar embaraços a Londres e, especialmente, aos EUA. A mensagem era clara: Karimov é um aliado na então "Guerra contra o Terror" e, portanto, é um promotor dos direitos humanos, do capitalismo - não deve ser importunado.

Além disso, as mensagens de Craig Murray abjurando provas obtidas sob tortura de eventuais "terroristas" começaram a afetar as relações bilaterais EUA-Reino Unido: depois se saberia que os americanos enviavam ao país prisioneiros para serem torturados na base militar.

Permeando estes fatores há a luta para se fazer respeitar o corpo diplomático em uma república despótica e, ao mesmo tempo, estruturar a representação da Grã Bretanha no país.

Longe de se fazer parecer um paladino da luta contra a tortura e a favor dos direitos humanos, Murray mostra as suas aventuras pela noite da cidade, sua fama de "bom copo" e suas aventuras amorosas por Tashkent, capital do país asiático.

Sua atuação como paladino dos direitos humanos começa a incomodar o Ministério das Relações Exteriores britânico, e começam a forjar-se provas para removê-lo do cargo. Em um primeiro momento, apoiado pelas empresas que possuíam representação no país e outras entidades, mantém-se no cargo, mas acaba sendo destituído em meados de 2004.

Neste meio tempo ele sofre um problema de saúde que no livro insinua ter sido provocado - ou seja, uma tentativa de assassinato. E ainda conhece uma "stripper" uzbeque pela qual se apaixona, causando o fim de seu casamento.

Removido da embaixada devido aos interesses anglo-saxões, acaba por passar um período de miséria até um acordo de rescisão onde sai da carreira diplomática. Logo depois o governo de Tashkent entrega aos russos a exploração de petróleo e gás, e o governo aliado se torna uma ditadura implacável, inimiga dos direitos humanos, anti-capitalista e que deve ser perseguida...

Com isso Murray é meio que "reabilitado", e embora o livro termine neste momento, examinando-se sua trajetória posterior percebe-se que ele retornou a um patamar de vida confortável - hoje é reitor da Universidade de Dundee, na Escócia.

As memórias do embaixador mostram a hipocrisia que comanda o relacionamento entre os países, também deixando claro que a máxima de Maquiavel de que "os fins justificam os meios" é o motor das relações. O livro também é muito interessante ao mostrar a burocracia interna da diplomacia e o que move estas engrenagens.

Quanto ao Uzbequistão, continua hoje o que sempre foi depois de se separar da extinta União Soviética: uma cleptocracia onde a oposição é esmagada, cozinhada em água fervente e, depois do alinhamento recente com os russos, "inimiga" das potências ocidentais. Merece destaque o "Massacre de Andijon", em 2005, onde número inestimável de pessoas foi morta em protestos pela democracia - muitas por falta de socorro após o Exército abrir fogo contra os manifestantes.

Eu me pergunto como próceres esportivos como Zico, Felipão e Rivaldo foram utilizados na propaganda do país ao trabalhar no Bunyodkor, hoje principal time de futebol do país e que tem no governo seu patrono. Emprestaram sua imagem a uma ditadura que tortura, mata e rouba.

Murray também mostra como um atentado a bomba na capital Tashkent, feito pelo próprio governo a fim de culpar opositores, foi utilizado pela CIA para estimular a opinião pública contra a Al Qaeda e os muçulmanos. Além disso descreve a rota do ópio afegão e do envolvimento direto dos líderes uzbeques (e dos políticos protegidos dos americanos no Afeganistão) na exploração do tráfico desta droga.

Hoje o ex-embaixador vive na Escócia com a esposa, Nadira (foto abaixo), a ex-stripper que conheceu no país. O casal tem um filho.


A edição brasileira é tradução da versão americana, muito mais completa que a inglesa - extensamente censurada pelo governo local. Custa R$ 46 na Livraria da Travessa.

Penso que é indispensável para aqueles que gostam de geopolítica, de política e para mostrar como pessoas em posição de poder podem ser sórdidas ao extremo - tanto no governo de um país, quanto em posições de chefia em um departamento ou autarquia governamental.

Enquanto pesquisava para escrever esta resenha, caiu-me em minha tela as fotos a que me refiro no início - a do oposicionista fervido e cozinhado vivo pelo regime. São imagens fortes.

Impossível não se revoltar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mr. Beer and Miss Wine: "Tem Cheiro de Doce no Ar"


Mais uma quarta feira, afogado em trabalho, e mais uma edição da coluna "Mr. Beer and Miss Wine", assinada pela historiadora e dona de empresa de eventos Thatiane Manfredi. Sem delongas, vamos ao texto:

"Tem cheiro de doce no ar

Esse post será para os leitores amantes de doces!!!

Já falamos de vinhos, de fondue, de happy hour com os amigos e agora falaremos sobre o que poderemos oferecer aos nossos convidados no tangente àquelas gostosuras chamadas “doces”.  Ao término de cada festa, sempre temos o clássico doce, é uma excelente opção para diminuir o teor alcóolico de seu convidados. Mas não pensem que eu quero que vocês sirvam os tradicionais docinhos de festa nas chatas forminhas compradas no supermercado. Releituras dessas tradições são a ordem do dia.

E quais seriam essas novas releituras?

Para quem achava que brigadeiro só deveria ter naquela festinha infantil do filho da sua prima, sinto informar que está redondamente enganado. A originalidade tomou conta na hora de servir: tem brigadeiro no copinho, no potinho, no palito, na forminha com confeitos; e sabores diferentes, tais como: branco, branco com coco, com avelãs, com amêndoas, com crispies, com gergelim, com nozes,  com ovomaltine, etc.

Nos mini bolos, em uma pequena  “marmita” super elegante para levar para casa sem vergonha nenhuma, na caçarola e até em tubos de pasta de dente, para ser entregue como lembrancinha. E se você ainda aguentar mais, existem empresas que fazem o brigadeiro na sua frente com a festa acontecendo. Ficam dois profissionais enrolando os brigadeiros quentinhos, recém saidos da panela; e você pode escolher diversas coberturas para esse brigadeiro e comer na hora. Tentador, não é?

Uma outra proposta bastante diferente também: ao invés de um bolo no aniversário, podemos oferecer aos convidados o bolo no palito. A criativa ideia fez sucesso por ser um bolo que pode ser comido a qualquer hora, sem fazer sujeira, sem precisar se sentar, sem garfo e prato e, se for o caso, comer até mesmo andando... Nos dias de hoje, praticidade é tudo. Só não pode se esquecer da hora do parabéns, que é um ‘classicão’ jamais deixado de lado. Acho um luxo apagar as velinhas, momento mágico.

Cupcakes: a febre do momento. Um pequeno muffin, que pode ser de chocolate, de baunilha, de coco, de limão, de morango, de nozes, com cobertura  de um merengue cremoso gigante em formato espiral com alguns toppers por cima; que podem ser confeitos coloridos, chocolates granulados coloridos, coco, amêndoas, avelãs, nozes... Chega porque está me dando água na boca. Os cupcakes se tornaram algo tão viral que existem quiosques em shopppings especializados só neles. Vale a pena se render e oferecer aos seus amigos. É garantia de sucesso.

Bem casados. Esses já são velhos de guerra nas festas em que frequentamos, mas alguns novos sabores de bem casados vêm fazendo sucesso entre as pessoas. Uma massa de pão de ló bem macia e fininha e com diversos recheios, tais como:  limão, nozes,  morango,  frutas vermelhas com leite condensado, brigadeiro (olha ele aqui de novo!) , ameixa com coco, baunilha com nozes, baba de moça e o clássico doce de leite. Normalmente servido em um papel crepom e amarrado com uma fita de cetim, a ideia agora é inovar em sua apresentação: em pequenas caixinhas de vidro ou caixinhas espelhadas, com brilhos ou pérolas para harmonizarem com a decoração do casório. Bem casado continua o carro chefe em celebrações como essas, mas a proposta agora é com um toque mais moderno.

Uma ideia bastante interessante são os brownies. Mas não os de chocolate meio amargo que nós conhecemos, servidos com uma bola de sorvete de creme. Estou falando de outro tipo de brownie. Algo mais inusitado, diferente e criativo: brownie com triplo chocolate - branco, ao leite e amargo e sorvete de caramelo crocante, brownie de queijo com sorvete de goiabada cascão, brownie de nozes com sorvete de chocolate com pimenta, brownie de milho com sorvete de coco queimado, brownie de chocolate com recheio cremoso de frutas vermelhas e sorvete de macadâmia. Esse último é divino.
 
Bom, meus amigos, o que vale nesse momento é colocar a criatividade à prova e deixar se levar por essas tentações... e não se preocupar com balança, senão a gente não aproveita a vida, mas é claro, tudo com parcimônia. Duvido que após lerem esse post, meus caros leitores, vocês não irão atrás de algo doce para comer. Eu fui!

Divirtam-se! Viva!"

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Impressões Campineiras


Estou para escrever sobre a cidade de Campinas há alguns dias, mas havia faltado sempre oportunidade.

Ao contrário de Salvador e Curitiba, cidades que já descrevi minhas impressões aqui, Campinas é uma cidade bastante diferente. As pessoas são mais frias, não há exatamente muito para se ver na cidade e não parece haver muita preocupação em atender bem quem vem de fora.

Começo pela hotelaria. O hotel onde fiquei (foto abaixo), embora não seja ruim, apesar de estar na mesma faixa de preço tinha uma qualidade visivelmente inferior a outros em que já estive em outras cidades. Faço a ressalva de que estão previstas obras na estrutura dos quartos, mas mesmo o serviço de hotelaria deixa a desejar. E o café da manhã para hóspedes comuns (não corporativos) é à parte.

Aliás, o restaurante do hotel é um capítulo à parte. Em uma das noites - no dia em que fui ao Moisés Lucarelli, história que já contei aqui - caí na asneira de jantar no restaurante do hotel. Tiveram a cara de pau de me cobrar R$ 35 em um prato de massa onde a quantidade vinha menos que um miojo, com três ou quatro camarões. Era tão pouco que após acabar de jantar continuei beliscando o amendoim apimentado que me serviram à guisa de entrada...


Outro ponto que tenho de destacar foi a visita que fiz ao Shopping Iguatemi na segunda feira, segundo dia na cidade. As pessoas são meio afetadas e mesmo nas lojas tratam você com aquele ar de superioridade típico - ainda mais quando percebem que você é de fora da cidade. Ressalvo o bom atendimento do Outback do shopping, onde o gerente, quando soube que era turista, toda hora vinha perguntar se estava tudo bem.

Aliás, segunda feira fora do shopping é quase impossível achar um restaurante aberto para se jantar. Costume bem típico de cidades mais interioranas. Por outro lado, destaco as filiais das Livrarias Saraiva e Cultura, que são muito melhores que 90% das livrarias cariocas.

Por outro lado, era meio difícil achar táxi fora dos pontos ou sem solicitá-los antecipadamente no hotel, mas não posso reclamar do serviço e especialmente do preço.


Obviamente, conheci um dos famosos pedágios do estado de São Paulo, atração turística comentada por dez entre dez visitantes - e moradores também. Na saída da refinaria, antes de se fazer o retorno, lá estava ele. A estrada para a refinaria de Paulínia era apenas razoável, nada muito diferente de rodovias livres de tarifas que encontro aqui no estado do Rio.

Entretanto, a quantidade e o preço dos pedágios eram reclamação de praticamente todas as pessoas com quem conversei, seja na cidade, seja na refinaria.

Sobre a Replan, Refinaria de Paulínia, é impressionante a complexidade dos processos envolvidos e os procedimentos de segurança e meio ambiente observados. Tive a oportunidade de acompanhar uma inspeção gerencial de segurança e o nível de atenção aos detalhes é algo absolutamente notável. Mas tem de ser assim para reduzir o risco inerente à atividade.

Aliás, recomendo àqueles que tiverem oportunidade realizarem uma visita a uma refinaria.

No último dia houve uma paralisação (abaixo) comandada pelo sindicato paulista, ressonância de movimento nacional, e ao contrário do que ocorre em sedes administrativas, ninguém entra mesmo. A produção é mantida pelo turno que "dobra", mas quem está fora não entra. É época de dissídio, mas não me pareceu muito inteligente uma paralisação de oito horas em plena campanha eleitoral e com a imprensa em cima da empresa.


Acabamos retornando no próprio ônibus e eu trabalhei no "business center" disponibilizado pelo hotel. Ainda tentei visitar o Museu Carlos Gomes mas se encontrava fechado.

Vale destacar o Bar Brejas, a duas quadras do hotel, com uma carta de cervejas de mais de duzentos tipos diferentes. Falarei dele em um post específico, mas é sem dúvida o melhor bar especializado que conheci. Para os amantes de cerveja vale a pena uma passada na cidade.

Ao contrário de Salvador e Curitiba, em momento nenhum me senti "integrado" à cidade. É uma localidade grande, de economia pujante, mas que fora bons bares não tem muitos atrativos. Ressalvo que não estive no shopping D. Pedro, que segundo a propaganda da população local é o maior da América Latina.

Devo estar de volta a Campinas em meados de novembro, e espero ter possibilidade de conhecer o parque Hopi Hari, que fica em uma cidade próxima.


P.S. - Excepcionalmente, a coluna "Samba de Terça" será publicada na semana que vem.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Capitalismo: Uma História de Amor



De uma forma muito feliz, assisti a um DVD ontem que complementa e ilustra muito bem o tema do post anterior.

Estava com o filme para ver há algum tempo, mas não tinha ocorrido a oportunidade de assistir "Capitalismo: Uma História de Amor" (trailer acima), o último documentário do cineasta americano Michael Moore - dos indispensáveis "Tiros em Columbine" e "Fahreheint 9/11". Sou fã do cineasta americano, sempre com documentários que mostram o lado oculto do establishment e que mostram as mazelas do que é considerado, muitas vezes, "senso comum"

Desta vez o tema do cineasta é a crise do "sub-prime" norte americano, que arrastou a economia dos Estados Unidos a uma crise sem precedentes e a milhares de ações de despejo de famílias que perderam suas casas por falta de pagamento. Paralelamente mostra a captura do Estado americano pela corporatocracia, em especial os grandes bancos de Wall Street.

Seu ponto de partida é exatamente o mesmo do adotado por John Perkins no livro do post abaixo: a eleição de Ronald Reagan como guardião das idéias desregulamentadoras e do radical livre mercado. Livre, obviamente, para as empresas que passaram a deter diretamente o controle do Estado. Moore mostra, tal qual Perkins, que as políticas de desregulamentação tinham como objetivo maximizar os lucros a curto prazo. Para isso, os sindicatos foram esmagados, empregos dizimados, salários congelados e produtividade do trabalho crescendo a níveis altíssimos. Bem como retirada de restrições e regulamentações, em especial do trabalho e de serviços financeiros.

O filme mostra situações como famílias que foram despejadas de seus imóveis por não conseguir acompanhar a subida estratosférica dos juros e contratos leoninos. Prestações em alta, salários estagnados e empregos em queda levando a um quadro de falência pessoal. A humilhação final era o banco pagar mil dólares para que as famílias retirassem seus pretences e limpassem a casa que teriam de entregar.

Por outro lado, aparecem aqueles corretores - chamados por Moore apropriadamente de "abutres" - especializados em comprar estes tipos de casas e revendê-las com grandes lucros aproveitando-se do desespero das pessoas.

O filme também mostra como a Goldman Sachs colocou ex-diretores em postos chave da estrutura governamental americana, e os detalhes do acordo que deu US$ 700 bilhões a estas instituições para, teoricamente, "salvar" o mercado. Na prática tal "doação" foi apropriada pelos líderes destas instituições como bônus e outros tipos de benesses, restando ao contribuinte apenas a conta a pagar - e empregos perdidos, casas executadas e renda real em queda.

Todo o jogo de pressões exercido por Wall Street para aprovação deste pacote é descrito em detalhes na película. Primeiramente o acordo foi rejeitado mas após um "acordo de gabinete" ele foi simplesmente aprovado. Hilária é a cena do filme onde Moore aluga um carro forte e percorre os principais bancos a fim de "recolher" os US$ 700 bilhões emprestados - que, na prática, não serão devolvidos.

Espantou-me saber que um piloto comercial de avião ganha por ano apenas US$ 20 mil - o que daria R$ 36 mil aproximadamente. O filme mostra um deles recorrendo a vales dados pelo arremedo de Assistência Social que restou a fim de comprar comida. E toca na questão do endividamento e na escravidão por tal que a baixa dos salários trouxe - bem como dito, também, no livro de John Perkins. Outro ponto deplorável é o fato de grandes empresas norte-americanas terem feito seguros de vida em nome de seus funcionários - onde elas, as empresas, eram as beneficiárias !

Merecem destaque também as análises de padres e do bispo de Chicago dando conta de que Jesus Cristo reprovaria este tipo de capitalismo adotado e de como a Bíblia teve sua interpretação distorcida a fim de justificar os "gatos gordos" capitalistas do mercado. Provavelmente, o Papa Bento XVI não vai gostar nem um pouco de saber disso...

Após traçar um quadro de como o capitalismo atual norte americano, desregulamentado, acabou com a classe média e aumentou sobremaneira a concentração de renda, o cineasta mostra tentativas de resistência popular, como a ocupação de uma fábrica em Chicago a fim de que os empregados demitidos pelo seu fechamento recebessem seus direitos e a reocupação de casas por famílias despejadas em Miami.

Não sei se o cineasta conhece o escritor, mas a tese de Perkins de que "os métodos dos assassinos econômicos funcionaram tão bem no Terceiro Mundo que os aplicamos em nosso próprio país" é ilustrada de forma magistral pelo filme. Moore traz aqui e ali alguns elementos da teoria marxista para o debate, mas de forma tão natural que somente especialistas conseguem perceber isso. Sua conclusão final é de que o capitalismo precisa ser substituído pela democracia, onde todos possam ter seus interesses ouvidos e atendidos.

O cineasta defende uma postura tipicamente social-democrata, mas o leitor deve se lembrar de que, nos Estados Unidos, tal postura soa como se fosse um comunismo radical. O próprio diretor frisa isso ao mostrar como Obama foi tachado de "socialista" pelos republicanos por defender algumas medidas típicas de um Estado de bem estar social.

O documentário é obrigatório para se entender o quão predatórias se tornaram algumas políticas econômicas e a tomada do Estado pelas grandes empresas. Algo semelhante ao ocorrido aqui entre 1995 e 2002, onde a equipe econômica estava mais interessada em atender a seus ex - e futuros  - patrões do mercado financeiro que propriamente o bem estar da economia, do povo ou do país.

Imprescindível. Comprei o meu DVD - que tem ótimos "extras", a propósito - na Travessa, mas para venda online há apenas pronta entrega na Saraiva, a R$ 40. Presença obrigatória em qualquer estante.

P.S. - Assisti há cerca de um mês "Meu Malvado Favorito". Acabei não escrevendo aqui porque perdi o "timing", mas é um desenho que pode ser visto tanto pelo ângulo do relacionamento entre pais e filhos quanto pelo lado da crítica à vida corporativa nos dias de hoje. Muito bom.


Resenha Literária - "Enganados"

Como os leitores podem perceber, a semana passada entre Campinas e Paulínia foi proveitosa, como sempre, em termos de leituras.

Trago aos leitores a resenha deste "Enganados", novo livro do economista americano John Perkins - autor dos indispensáveis e já resenhados "Confissões de Um Assassino Econômico" e "A História Secreta do Império Americano".

Neste exemplar o autor se utiliza de conceitos desenvolvidos em seu livros - em especial "Confissões" para explicar a crise econômica americana e, por tabela, mundial.

Ele inicia mostrando a oposição entre as teorias econômicas de Keynes e as de Milton Friedman e como a vitória dos teóricos deste levou a um mundo de concentração econômica, pobreza e quebradeira de empresas e pessoas.

Grosso modo, a teoria keynesiana advoga que o Estado é necessário na tarefa de regulamentar os setores econômicos e intervir em setores onde a iniciativa privada não se interesse ou onde seja de caráter estratégico para o país. Além disso, é função do Estado estimular a demanda agregada da economia e regulamentá-la.

Milton Friedman é considerado o pai do "monetarismo", doutrina que advoga que qualquer ação do estado apenas tem como consequência o aumento da quantidade de moeda na economia e, finalmente, inflação. Também advoga a total desregulamentação de todo e qualquer mercado, com a justificativa (falaciosa) de que a interferência estatal cria zonas de ineficiência.

John Perkins mostra como a adoção de políticas monetaristas levou os Estados Unidos e o mundo à crise atual, com concentração de renda cada vez maior, ganhos cada vez maiores dos grandes "CEOs" das empresas e as mazelas das políticas empresariais de "maximizar lucros a curto prazo", a fim de aumentar os bônus corporativos. E trata da captura do Estado norte-americano por estas corporações. O autor chega a cunhar a expressão "barões ladrões" para definir a atuação destes presidentes e donos de grandes empresas.

Sem qualquer regulação, tais executivos e suas companhias adotaram práticas predatórias que levaram prejuízos a consumidores e países, bem como a uma crise financeira bastante grave.

Outro aspecto interessante da primeira parte do livro é a tese do autor de que as práticas dos "assassinos econômicos "deram tão certo" nos países do Terceiro Mundo que foram aplicadas nos Estados Unidos: aprisionar o povo pelas dívidas.

Perkins também mostra o desacerto causado pelos PAEs - Programas de Ajuda Econômica - impostos pelo Fundo Monetário Internacional aos países dependentes e dos lucros gerados para as grandes corporações multinacionais.

Também desmascara a hipocrisia de donos de empresas como a Microsoft que doam milhões a instituições de caridade mas escravizam os povos com práticas monopolistas e de concentração de recursos.


Uma revelação importante do livro é o fato de tratar o golpe de Honduras como parte integrante de defender os interesses da "corporatocracia", no caso representada por indústrias produtoras de bananas e outras frutas. Nas palavras do autor:

"Todas as pessoas com quem falei no Panamá estavam convencidas de que o golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, foi arquitetado por duas companhias norte-americanas, com apoio da CIA. No começo daquele ano, a Chiquita Brands International, Inc. (ex-United Fruit) e a Dale Food Company, Inc., tinham criticado severamente o Presidente Zelaya por defender um aumento de 60% no salário mínimo de Honduras, alegando que a medida reduziria os lucros corporativos.


(...) O vice-presidente de um banco panamenho, que prefere continuar anônimo, me disse: 'toda multinacional sabe que, se Honduras aumentar os salários, o resto da América Latina e do Caribe terá de acompanhar. Haiti e Honduras sempre estabeleceram o patamar para o salário mínimo. As grandes companhias estão determinadas a deter o que chamam de revolta esquerdista neste hemisfério. Derrubando Zelaya, estão enviando mensagens intimidadoras a outros presidentes que tentam elevar o padrão de vida de seus povos.


(...) A íntima relação entre os líderes do golpe militar de Honduras e a corporatocracia foi confirmada alguns dias depois da minha chegada ao Panamá. O Guardian inglês publicou uma matéria dizendo que 'dois dos principais conselheiros do governo golpista hondurenho têm relações estreitas com o Secretário de Estado dos Estados Unidos.


(pp. 215-216)

Na segunda parte o autor elenca algumas formas de sairmos desta crise rumo a um mundo sustentável. Chama a atenção especialmente para o que ocorre na China. Em suas palavras, começa a haver consciência ambiental e a questão da disciplina freia o egoísmo e o materialismo.

Ressalta adicionalmente que nós, consumidores, temos poder de mudar estas práticas corporativas perniciosas, desde que livres das dívidas. Como exemplo, escreve que temos uma série de subprodutos de cereais como o milho absolutamente dispensáveis - flocos, com açúcar, sem, entre outros - enquanto um bilhão de pessoas no mundo lutam diariamente para se alimentar, sofrendo de inanição.

Mais uma vez, é um livro indispensável e que faz pensar. Devido às referências que faz no texto, a leitura anterior de "Confissões de Um Assassino Econômico" torna mais profundo o entendimento das questões tratadas, mas não chega a ser indispensável  - para este caso - a leitura do livro.

Na Travessa, custa R$ 31.


domingo, 12 de setembro de 2010

Imprensa abre o jogo e rasga a fantasia


Completando a dupla de textos deste domingo, um texto do grande jornalista Ricardo Kotscho, publicado em seu "Balaio do Kotscho". Versa sobre o papel da imprensa nestas eleições que se aproximam e retoma, com muito maior brilhantismo, questões que abordei em texto anterior sobre a liberdade de imprensa.

"Imprensa abre jogo e rasga a fantasia

Vejam as manchetes desta quinta-feira, 9 de setembro de 2010, nos três principais jornais do país.

Folha de S. Paulo:

“Escândalo da Receita – Investigada consultou dados do genro de Serra”.

O Estado de S. Paulo:

“Genro de Serra teve sigilo fiscal violado”.

O Globo:

“Serra reage e diz que Lula serve à estratégia `caixa-preta´do PT”.

Parece uma gincana, não há outro assunto no mundo. É como se todos os jornais tivessem o mesmo pauteiro e o mesmo editor. Embora se refira a casos de violação fiscal ocorridos no ano passado, a notícia é requentada dia a dia com algum ”fato novo” que justifique a manutenção da rubrica “escândalo da receita”.

Até algumas semanas atrás, antes da disparada da candidata Dilma Roussef em todas as pesquisas, abrindo larga vantagem sobre José Serra, que chega a 33 pontos no último tracking do Vox Populi/Band/iG, a nossa velha mídia ainda procurava, de alguma forma, manter as aparências de neutralidade com aquela história de jornalismo “isento”, “apartidário”, “independente”.

Agora, que parece não ter mais jeito de virar o placar nas pesquisas com bom-mocismo, resolveram abrir o jogo e rasgar a fantasia, sem nenhum pudor. Das manchetes ao noticiário, passando pelos editoriais e colunas, a ordem é desconstruir a pessoa e a candidatura de Dilma, e bater sem piedade no governo Lula.

Aonde querem chegar? Quem eles ainda pensam que enganam? A julgar pela maioria dos comentários publicados neste Balaio, leitores e telespectadores já estão vacinados, sabem quem é quem e o que está em jogo.

Como os números das pesquisas não reagem às doses cavalares de fatos negativos, apesar de o país da mídia viver uma interminável crise do fim do mundo, só posso acreditar que se trata de uma estratégia Jim Jones. Bater em Dilma e no PT, tudo bem, estão todos de acordo. Só não descobriram ainda como alavancar a campanha da oposição. Promovem debates e sabatinas quase todo dia para dar uma fôrça, mas até agora não teve jeito.  

Um forasteiro que tenha chegado ao Brasil esta semana, e procurasse saber pelos jornais e no Jornal Nacional da TV Globo o que está acontecendo por aqui, a 24 dias da eleição presidencial, poderia imaginar que desembarcou no país errado, em algum lugar estranho e perigoso, na região mais pobre e menos democrática do continente africano.

Sob o título “O país de Lula: esgoto em baixa, consumo em alta”, o jornal O Globo, que se supera a cada dia, pinça números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2009), divulgada esta semana pelo IBGE, para concluir na chamada de capa: “O desemprego subiu na crise, mas o brasileiro comprou mais DVDs e máquinas de lavar”.

Sem explicar como um país de  desempregados investe em eletrodomésticos, o jornal esqueceu de dizer que os empregos perdidos na crise do ano passado já foram recuperados, com folga, em 2010 _ o que explica a teimosia das pesquisas em manter os índices de aprovação do governo Lula em torno de 80%.

Para publicar o título “O presidente Lula passou dos limites”, com direito a chamada na capa, o venerando Estadão, por sua vez, redescobriu o cientista político José Álvaro Moisés, tão conhecido que se viu obrigado a publicar uma nota “Quem é” para o leitor saber de quem se trata. Entre seus títulos acadêmicos e experiências em “teoria democrática e comportamento político”, porém, o jornal só omitiu o fato de que o professor e cientista Moisés foi sub-ministro da Cultura no governo Fernando Henrique Cardoso.

Já a Folha, que resolveu publicar um caderno especial de eleições a partir desta semana, entre tentativas de fazer humor político misturado com jornalismo sério, tem se dedicado a investigar o passado da ex-ministra Dilma Rousseff, desde os seus antepassados búlgaros, que ela nem conheceu. Até agora, estranhamente, não se interessou em fazer matérias sobre o passado dos outros candidatos, como se todo mundo tivesse a obrigação de já conhecer as histórias deles.

Critérios são critérios, eles dirão, ninguém tem nada com isso. A liberdade de imprensa deles, aquela que defendem com tanto fervor, está acima de tudo _ dos fatos, das leis, da isonomia e do direito da sociedade de ser informada com um mínimo de honestidade sobre o que está acontecendo.

O Troféu Órfão


Domingo, dia de lembranças. E de bons textos.

Reproduzo aqui texto do amigo Rodrigo Mattar lembrando que esta última semana completaram-se quarenta anos da morte do único campeão mundial de Fórmula 1 que não estava vivo para receber seu troféu: Jochen Rindt.

O texto foi publicado originalmente em seu excelente "A Mil Por Hora".

"40 anos sem Rindt: o único campeão “post-mortem”

Sim, eu sei. Foi no dia 5 de setembro que faz 40 anos que Jochen Rindt morreu. Mas e daí? No domingo passado, todas as atenções se voltaram para a trágica perda de Shoya Tomizawa durante a corrida da Moto2 em San Marino. Porém, não há como deixar de pagar tributo àquele que é até hoje o único campeão “post-mortem” da história da Fórmula 1 e um dos raros em qualquer competição automobilística. Que me recorde, outro que também foi campeão após falecer num acidente foi Paul Warwick, na Fórmula 3000 inglesa.

A trajetória de Rindt no automobilismo é digna de registro. A começar que, embora defendesse a Áustria, Rindt era alemão. Nasceu em Mainz, no dia 18 de setembro de 1942, quando a II Guerra Mundial já estava no auge. A primeira grande perda de Jochen foi ainda menino: seus pais morreram num bombardeio em Hamburgo e ele foi criado pelos avós em Graz, em território austríaco, livre da tirania nazista.

Em 1964, com apenas 22 anos de idade, estreou na Fórmula 1 ao mesmo tempo que despontava como um corredor de ponta na Fórmula 2. Andou em sua primeira corrida com um Brabham BT’11 de motor BRM V8, alinhado por Rob Walker, no antigo circuito de Zeltweg, abandonando em razão de problemas na direção.

No ano seguinte, assinou um contrato com a Cooper para disputar provas da categoria máxima com esta marca, enquanto na F-2 ainda mantinha a parceria com Jack Brabham a bordo dos notáveis Brabham-Honda da categoria de acesso. Com a Cooper, Rindt permaneceu por três temporadas. Na primeira, fez seus primeiros pontos na Fórmula 1 com um 4º lugar na Alemanha (Nürburgring) e um sexto na Cidade do México. Naquele mesmo ano de 1965, Rindt venceu em dupla com Masten Gregory a bordo de uma Ferrari 250 LM as tradicionalíssimas 24 horas de Le Mans.


O segundo ano de contrato entre Rindt e a Cooper foi muito positivo, apesar do conjunto meio pesadão formado pelo chassis T81 do construtor britãnico no qual foi acoplado o velho motor Maserati V12 dos anos 50, potente e beberrão. Apesar das dificuldades, o austríaco brilhou: fez 24 pontos (22 válidos) e três pódios, com dois segundos lugares na Bélgica e nos Estados Unidos, além de um 3º posto na Alemanha.

Em 67,  já com Bernie Ecclestone como empresário, Jochen não foi além de seis pontos e um 13º lugar no campeonato de Fórmula 1, numa temporada muito irregular. O relacionamento com a equipe já dava evidentes sinais de desgaste e Rindt, motivado pela parceria com Jack Brabham na Fórmula 2, assinou para a temporada seguinte também na F-1.

A decisão parecia perfeita porque, afinal de contas, a Brabham foi a equipe mais bem-sucedida no início da era dos motores de 3 litros de capacidade cúbica, com títulos do próprio Jack em 1966 e do neozelandês Denny Hulme, em 1967, que saíra para se juntar a Bruce McLaren em sua recém-criada escuderia. Mas os motores Repco V8 na nova versão revelaram-se um malogro, com constantes falhas mecânicas. Rindt fez apenas dois pódios, com dois terceiros lugares na África do Sul e na Alemanha e fechou o campeonato num distante 12º lugar.
 
O austríaco gostava de desafios e para 1969 ele aceitou um daqueles bem encarniçados: suceder Jim Clark como piloto da Lotus 49, o revolucionário projeto de Colin Chapman que integrava o chassi de sua criação ao motor Ford Cosworth V8 desenvolvido por Kevin Duckworth e Mike Costin. A temporada não começou bem: Jochen demoliu seu carro contra uma barreira de proteção quando o aerofólio traseiro de seu carro quebrou a mais de 220 km/h, provocando fratura de crânio no piloto, que não correu em Mônaco e voltou na prova seguinte em Zandvoort, na Holanda.

Na segunda metade do campeonato, Rindt e a Lotus melhoraram positivamente seu desempenho. Após um injusto 4º lugar na Inglaterra, quando brigou de igual pra igual com Jackie Stewart, foi segundo em Monza, a centésimos do escocês voador. Chegou ainda em 3º no Canadá e no GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, veio a consagração. Depois de uma corrida impecável, o piloto austríaco, então com 27 anos, venceu pela primeira vez na Fórmula 1.

Em 1970, a Lotus estava pronta para retomar a hegemonia perdida com a morte de Clark e com o acidente de Graham Hill, sofrido um ano antes, onde o veterano bicampeão mundial quebrou as pernas numa batida. E Rindt, como piloto número 1 da equipe na Fórmula 1 e também na Fórmula 2, era a esperança de Colin Chapman para recolocar o Gold Leaf Team Lotus no caminho natural das vitórias.

A primeira do ano veio ainda com o velho modelo 49C, graças à falta de combustível no carro de Jack Brabham na última volta do GP de Mônaco. E quando o modelo 72C finalmente ficou pronto, a sinergia entre ele e Rindt foi perfeita: quatro vitórias de forma consecutiva (Holanda, França, Inglaterra e Alemanha), somadas com o triunfo de Mônaco, o deixaram com 45 pontos e líder isolado do campeonato. Nem a quebra acontecida no GP da Áustria, logo na 22ª volta, abalou a moral de Rindt diante dos seus compatriotas.


O GP da Itália, décimo do campeonato, seria decisivo para as pretensões de Rindt e ele estava preparado para uma dura batalha contra Jacky Ickx, Clay Regazzoni e Ignazio Giunti, a trinca da Ferrari que tanto lhe dera trabalho em Österreichring na corrida anterior. Mas o fim de semana não começou bem para a Lotus: seu novo companheiro de equipe naquela época, o brasileiro Emerson Fittpaldi, tentava participar de sua 4ª corrida na Fórmula 1 e na ânsia de mostrar serviço, distraiu-se numa freada, bateu na traseira da Ferrari de Giunti e decolou com seu carro em direção às árvores da curva Parabólica. Detalhe: com o carro que seria de Rindt naquele fim de semana.

Colin Chapman determinou a troca de carro e Emerson assim cedeu seu chassi ao companheiro de equipe, que estava inscrito para aquela prova com o número #22. O brasileiro tinha o número #26 e foi para a pista com o chassi que seria do austríaco para a prova de classificação, no dia 5 de setembro.

Mas a tragédia, presente na vida de Rindt desde a infância, se fez presente naquela tarde. O piloto freou forte para tomar a Parabólica saindo da reta oposta em direção à reta dos boxes e tribunas, quando alguma coisa quebrou na Lotus e o líder do campeonato bateu violentamente na barreira de proteção. Seu carro saiu rodando pela areia, com o piloto inerte, a suspensão dianteira demolida e as pernas de Rindt para fora do cockpit.

Ele foi levado às pressas para um hospital, mas os ferimentos extensos tornaram impossível qualquer tentativa de recuperação. Aos 28 anos, Jochen Rindt, líder absoluto do Mundial de Fórmula 1 de 1970, estava morto. A Lotus não disputou a corrida, vencida por Clay Regazzoni com a Ferrari e também não foi ao Canadá, onde a vitória foi de Jacky Ickx.

Subitamente sem seu principal piloto, Colin Chapman tomou uma arriscada decisão. Levou para o GP dos EUA em Watkins Glen o brasileiro Emerson Fittipaldi, guindado à condição de piloto número um e o sueco Reine Wisell, sem nenhuma experiência prévia na categoria, que brilhara na Fórmula 3 europeia, para assumir o volante do segundo carro. E para surpresa geral, Emerson não só venceu a corrida, como ofertou a Rindt o inédito título “post-mortem”, até hoje um feito jamais alcançado na história da Fórmula 1.

Rindt morreu sem conhecer a maior glória de sua carreira. Mas os fãs austríacos e o mundo do automobilismo não esquecem de sua passagem pelo esporte, com demonstrações de garra, muita velocidade e um controle fantástico dos carros que guiava. Por isso, deixou muita saudade."

(Fotos: Blog do Ico)