segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sambas do Grupo Especial 2011 - Uma Primeira Análise


Os sambas para o Grupo Especial já foram escolhidos, o cd já gravado... Embora só esteja nas lojas no final deste mês, tive acesso às gravações, e divido com os leitores minhas primeiras impressões.

Em termos gerais, pode-se dizer que temos uma boa safra. Temos bons sambas e algumas boas surpresas entre as doze escolas de samba que compõem o Olimpo do samba. Na ordem de desfile, vamos a elas:

Domingo:

1 - São Clemente


É um dos únicos sambas que destoam do bom nível geral. Fruto de uma junção, está bem abaixo do samba da União de Jacarepaguá sobre o mesmo tema, de 2004 - e que já foi tema da nossa coluna "Samba de Terça".

Não é o pior samba, mas não é um trunfo para uma escola que abre o desfile.

2 - Imperatriz Leopoldinense

Um enredo difícil - sobre a Medicina - sobre o qual os compositores fizeram um verdadeiro milagre, com um samba bastante agradável. Destaque para o refrão, onde os compositores afirmam "que meu DNA é verde e branco". Boa sacada.

3 - Mocidade Independente

Não gosto do enredo - que reproduz uma visão da agricultura brasileira com a qual absolutamente não compartilho - mas o samba é bastante razoável. Dos mesmos autores de 2010, a esta composição se referem no refrão.

A escola tem um novo mecenas, que vem investindo forte e equacionou as dívidas. É boa aposta.

4 - Unidos da Tijuca


Como é tradição nas escolas do carnavalesco Paulo Barros, a atual campeã do carnaval carioca vem com um samba que não compromete, mas que está claramente subordinado à proposta de desfile do artista.

Ainda assim, é uma composição acima da média dos últimos anos da escola.

5 - Unidos de Vila Isabel


Podem me chamar de herege, mas o samba deste ano é superior ao de 2010, assinado pelo grande Martinho da Vila. André Diniz retorna em grande forma, com um resultado bastante feliz apesar de um enredo difícil e que não tem muito a cara da escola.

Com três refrões, é um dos melhores do ano - superado apenas, a meu ver, pela Mangueira.

6 - Mangueira


A meu juízo, o grande samba do ano. Nelson Cavaquinho, no céu, estará orgulhoso da música que o levará para a avenida no carnaval.

Em primeira pessoa, não era o preferido na disputa, mas tem uma poesia e um balanço que nos levam a querer desfilar para soltar a voz. Sambaço, o melhor do ano.

Segunda Feira

1 - União da Ilha



Outra escolha polêmica, outro samba contestado na origem.

Mas que apesar dos problemas que a letra possui ao contar o enredo, tem uma melodia contagiante e que tem tudo para "pegar" na avenida.

2 - Salgueiro



Aleluia ! Após um longo inverno, a escola da Tijuca finalmente tem um samba decente. Dos mesmos autores de "Candaces" (2007), o enredo sobre a relação entre o cinema e o Rio de Janeiro ganhou uma composição muito acima dos anos anteriores.

É bom ver a Academia retomando a sua tradição de bons sambas.

3 - Portela



Já escrevi sobre o samba quando da sua escolha, mas só tenho a lamentar o que foi escolhido, ainda mais quando se descartou aquele que poderia ser o melhor samba do ano.

Melodia comum e letra boba, sem grandes brilhantismos. Duro dizer isso até por ser minha escola de coração, mas é disparado o pior samba do ano. Pena.

4 - Grande Rio



Outro caso onde os compositores tiraram leite de pedra. O enredo sobre Florianópolis leva a um samba com algumas passagens interessantes e que deve proporcionar um bom desfile à agremiação de Caxias.

É melhor que a canção que embalou a escola no vice-campeonato de 2010.

5 - Porto da Pedra



Espremida entre duas escolas com bons resultados nos últimos anos e com nova diretoria, a escola de São Gonçalo traz um samba sobre Maria Clara Machado que não é ruim, mas perde na comparação coma as vezes anteriores em que a teatróloga foi homenageada - Jacarezinho 1992/08 e União da Ilha 2003.

Entretanto, é melhor que os dois últimos anos da escola.

6 - Beija Flor



O desfile sobre o "Rei" Roberto Carlos gerou um samba diferente do que nos acostumamos a ver ultimamente na escola de Nilópolis. É uma composição mais leve, menos densa e que convida o povo a cantar.

Entretanto, o refrão traz aquele que considero o "verso trash" do ano:

"Meu Beija Flor, chegou a hora
De botar pra fora a felicidade"

Parece que o pobre passarinho símbolo da escola tomou Viagra e foi exortado a colocar a "felicidade" para fora...

Em uma primeira avaliação, meu "ranking" seria o seguinte:

1 - Mangueira
2 - Vila Isabel
3 - Salgueiro
4 - Grande Rio
5 - Beija Flor
6 - Imperatriz
7 - Porto da Pedra
8 - União da Ilha
9 - Mocidade
10 - Unidos da Tijuca
11 - São Clemente
12 - Portela

Assim que estiver com os sambas dos outros grupos do carnaval, a análise também estará aqui.


domingo, 14 de novembro de 2010

Bissexta: "La la, How The Life Goes On"


Mais um domingo e mais uma coluna "Bissexta", de autoria do advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é o recente show de Paul McCartney no Brasil e as questões que envolvem o envelhecimento dos grandes astros da música.

Aliás, algo que me preocupa é o fato de que os maiores compositores brasileiros, hoje, são os mesmos da década de sessenta. Voltarei ao tema proximamente.

No final do texto o leitor pode ver um vídeo do show de Porto Alegre.

"La la, How The Life Goes On

Um dos dias mais felizes da minha vida aconteceu em abril de 1990. Eu, que sempre fui completamente enlouquecido pelos Beatles, tive a chance de ver Paul McCartney bem de pertinho. Comprei um ingresso com alguma antecedência e fui com uma turma grande de amigos para o Maracanã, umas 15 pessoas ou até mais, algumas eu nem conhecia direito. Gostei tanto que resolvi voltar no dia seguinte, acompanhado apenas por dois amigos, tão beatlemaníacos quanto eu, que assistimos ao segundo show cantando todas as músicas e chorando sem parar. Tive a sorte de estar morando em Porto Alegre quando Paul resolveu abrir a turnê sul-americana por aqui. E posso comparar os dois momentos.

Como as coisas eram mais fáceis em 1990! Para poder comprar o ingresso do show no Beira-Rio, centenas de pessoas passaram a noite na fila. Em pouquíssimas horas todas as entradas se esgotaram, antes que eu me desse conta de que deveria correr para o estádio. Na Internet, o site ficou fora do ar quase o tempo todo e quando voltou só havia opções para o ingresso mais barato, que me custou mais de R$ 250,00, com todos os penduricalhos de taxas que agora viraram moda.

Não tenho a menor idéia de quanto custou o show 20 anos atrás. Só sei que não lembro de ter ficado em fila alguma. Ou melhor, só decidi assistir o segundo show horas antes e ainda havia ingressos disponíveis. E não poderiam ser muito caros, afinal, éramos três estudantes e não pareceu nenhum sacrifício para nossos caraminguás de estagiários. Naquele tempo não tinha nada de frescuras do tipo área vip, camarotes de patrocinadores ou outros mecanismos de apartheid. Chegamos umas duas horas antes do início, fomos caminhando pela multidão e ficamos a poucos metros de Sua Santidade, Sir Paul McCartney.

Outra ótima lembrança é que gravei o show na versão editada pela Globo, no vídeo-cassete da minha mãe. As músicas eram mescladas com umas entrevistas do Paul no camarim. E nunca me esqueço (bom, eu revi a fita algumas vezes) dele dizendo que estava surpreso de ainda conseguir ser roqueiro aos 47, quase 48 anos.

Domingo passado entrei no túnel do tempo. Paul, de forma até mais generosa do que em 1990, cantou as músicas que todos aprendemos amar. É incrível como a música dos Beatles é atemporal, universal, eterna. Eu mesmo só conheci as músicas quando o conjunto já havia se desfeito fazia anos, mas fui escravizado por elas. E o mais impressionante é ver que o primeiro álbum, Please Please Me, foi gravado em 1963 e o último, Abbey Road, em 1969 (Let it Be foi lançado em 1970, mas com a banda já desfeita e aproveitando gravações de 1969). Nesse mínimo intervalo de 6 anos os Beatles lançaram 13 álbuns (sendo um deles duplo, o Álbum Branco), praticamente só com musicas inéditas e próprias. Só fizeram shows ao vivos até 1966. Foram mundialmente conhecidos em um tempo de comunicação precária, onde, claro, não existia Internet, transmissão via satélite e até mesmo a televisão era rara na casa das famílias. Haja criatividade. Haja talento.

Mas me parece que para tudo na vida há limites. Paul continua tocando divinamente bem, a banda que o acompanha é sensacional, os efeitos visuais do show são impressionantes, principalmente os telões de alta definição, mas me deprimiu ver aquele vovozinho de cabelo pintado de acaju, mãos enrugadas ao piano, procurando emular a si mesmo quando jovem.

Talvez tivesse sido melhor ter ficado apenas com o show mágico de 1990 na memória, quando Paul já não era nenhum garoto, mas ainda tinha traços mais joviais. Vê-lo assim tão distante das fotos da década de 60 que o telão atrás do palco insistia em mostrar, me deu um choque de realidade de que, não importa o quanto a pessoa se esforce, life goes on, bra, la la, how the life goes on.

And if you want some fun, take obladiblada."

sábado, 13 de novembro de 2010

O Estádio Rubro Negro - Algumas Notas


A notícia palpitante dos últimos dias nas hostes rubro-negras foi a notícia de que um estádio seria construído em parceria entre o clube e grupos de investidores - fala-se na Traffic, empresa voltada ao mundo do futebol e do esporte.

O estádio seria construído em Caxias (foto acima, do Google Maps), em terreno doado pelo Prefeito de Caxias, José Camilo Zito, rubro negro e do mesmo partido da presidente rubro-negra Patrícia Amorim - que é vereadora no Rio de Janeiro pelo PSDB (abaixo, os dois no gabinete do prefeito). O espaço é até bem localizado, entre a Linha Vermelha e a Avenida Presidente Kennedy, uma das principais artérias viárias da cidade da Baixada Fluminense.

Não li maiores detalhes sobre o modelo de construção, mas a princípio ele seria bancado pelos investidores, que teriam direito a uma percentagem da receita gerada pelo estádio durante um determinado número de anos. Entretanto, há algumas questões que devemos observar bem.


A primeira delas é a filosofia do projeto. Hoje a modernidade é o conceito de arena, onde o torcedor não vai somente para assistir a uma partida. Nos modernos estádios, hoje um dia de jogo é um momento de entretenimento, com restaurantes, lojas oficiais e conveniências e outras diversões que permeiam a partida e elevam o gasto médio do torcedor em um dia no estádio.

Os leitores que viram o post que escrevi sobre a Arena da Baixada sabem que este é um estádio modelo em termos de arenas no Brasil. A arena do clube paranaense possui academia, restaurantes e loja oficial, que ainda não constituem o ideal em termos de uma arena rentável mas já representam uma receita adicional ao clube.

Para se construir um estádio hoje, há que se ver este conceito de arena. Deve-se agregar serviçoes e fontes de renda que permitam aumentar o potencial de receita e significar o pagamento dos custos de construção do estádio - algo que somente as rendas das partidas do time profissional nem de longe cobrem.

Imaginem um investidor que entre neste projeto. Constrói um estádio para 50 mil pessoas, no terreno em Caxias, gastando aproximadamente R$ 500 milhões. Se este parceiro receber como retorno a renda do estádio nos próximos 30 anos, por exemplo, a receita líquida - descontados os custos de administração - de ingressos necessitaria ser de R$ 17 milhões, grosso modo. E sem considerarmos os juros ou o custo de oportunidade advindo de se construir ao invés de aplicar a grana - o que, na prática, dá no mesmo.


Fazendo-se este cálculo rasteiro, sem considerarmos os juros e levando-se em conta que no máximo o clube faz 35 jogos por ano no estádio, a receita líquida por jogo necessitaria ser de aproximadamente R$ 485 mil apenas para retornar os custos de investimento e sem considerar os juros envolvidos. Tomando-se grosseiramente que com os juros o custo suba a R$ 1 bilhão e uma ocupação média do estádio de 50% (que é um número alto), teríamos uma parcela de preço de ingresso de aproximadamente R$ 40 somente para se ressarcir os gastos da construção do estádio - a receita necessária por jogo mais que dobraria, chegando a aproximadamente R$ 1 milhão.

Ou seja, somando-se os custos de manutenção do estádio, do clube e outras despesas teríamos de ter um ingresso médio na faixa de R$ 80 a R$ 90 apenas para se tornar minimamente viável o estádio. E a pergunta que devemos fazer é se há demanda no local para 25 mil torcedores de média a R$ 90 em trinta e cinco jogos ao ano. Os leitores notem também que o público rubro negro está em todas as classes de renda, o que traria uma elitização indesejável sob o aspecto esportivo e institucional.

O local anunciado é até de fácil acesso e não fica distante do Centro do Rio de Janeiro, pela Linha Vermelha. Se faria necessária a construção de uma alça ligando a via expressa ao estádio, mas aí cairia na conta do Poder Público. Entretanto, para ir e voltar ao estádio, sem outros atrativos, não acredito que haja tal demanda - e o público local, majoritariamente da Classe C, embora com o poder aquisitivo em alta não tem condição de pagar R$ 90 de ingresso quatro vezes ao mês.

Portanto, torna-se necessária a construção de todo um complexo de facilidades que atraiam, retenham o torcedor e façam não somente elevar o dispêndio por partida quanto atrair um público de maior poder aquisitivo. É imperioso que hajam restaurantes, lojas, conveniências e até mesmo um hotel - que atenderia, também, ao público do aeroporto do Galeão, que não fica longe. O conceito de arena esportiva é imperioso.

Outra opção seria a construção de prédios de apartamentos junto à arena. Podem-se encontrar cem, duzentos fanáticos que paguem mais para morar ao lado da arena rubro negra, o que geraria uma amortização no retorno do investimento. Entretanto, o local do terreno não é o mais indicado para este tipo de iniciativa por causa do valor médio dos imóveis na região, que é baixo.

Mais um óbice: a arena é ocupada por partidas durante trinta e cinco dias no ano. Restam trezentos e trinta e cinco dias sem atividades no estádio. A área indicada não exerce uma demanda capaz de se programarem shows com ticket médio mais alto, pois o público local é das Classes C e D.

Na prática, um empreendimento deste porte não tem muita possibilidade de oferecer um retorno viável a seus construtores, nem ao clube, pelas dificuldades elencadas acima. Ainda que em outro local, teria de ser bem pensado, e sempre sob o conceito de arena.

Mas...


Como se vê pela imagem acima, o prefeito da cidade da Baixada Fluminense "está fazendo cortesia com o chapéu alheio": o terreno oferecido para doação pela prefeitura da cidade pertence, na verdade, à União - mais precisamente à Marinha. Seus representantes já afirmaram que não foram consultados sobre a transação, o que significa que há um entrave bastante sério ao projeto. 

Pessoalmente, penso que é mais um factóide da presidente rubro negra e do prefeito em questão, ou seja, acredito que o projeto não deva evoluir. Aliás, a atual mandatária rubro-negra, que empreende uma gestão pífia - para ser educado - demonstrou neste primeiro ano de mandato que aprendeu direitinho com seu mentor político Cesar Maia (ex-prefeito da capital carioca) a arte de desviar a atenção de problemas maiores criando factóides.

Podem me cobrar.

Finalizando, penso que a solução para o Flamengo ter a sua casa é um arrendamento - ou um contrato em bases mais favoráveis - do Maracanã, revitalizado a partir de 2013.

A reforma em andamento não irá corrigir todos os problemas que o estádio tem - como escrevi anteriormente - mas já criará condições para uma utilização mais racional, em um local privilegiado. E sem os problemas de retorno de investimento na reforma, haja visto que é dispêndio a fundo perdido por ser obra executada com recursos públicos.

O Maracanã depende da demanda exercida pela torcida do Flamengo como um ser humano depende de água e alimentação para se viver. Basta um pouco de vontade e de conhecimento técnico para se fechar um bom acordo para o clube. Voltarei ao tema proximamente.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Final de Semana - "Mais Uma Vez"



Mais um final de semana prolongado que se inicia, e a música que escolhi é um dos últimos grandes sucessos do imortal Renato Russo, líder do Legião Urbana. Em parceria com Flávio Venturini, "Mais Uma Vez" é um dos últimos sucessos do cantor, falecido em 1996 mas cuja música somente foi lançada em 2003.

É uma canção que me é muito marcante pois me lembra uma das mais difíceis fases da minha vida, o primeiro semestre de 2003 - em especial no campo financeiro. 

Ultimamente tenho me lembrado e me inspirado muito desta música, e por isso é a sugestão para este final de semana prolongado.

"Mais Uma Vez
(Renato Russo, Flavio Venturini)

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei...

Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem...

Tem gente que está
Do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar...

Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia
A gente aprende
Se você quiser alguém
Em quem confiar
Confie em si mesmo...

Quem acredita
Sempre alcança...

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei...

Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem...

Nunca deixe que lhe digam:
Que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos
Nunca vão dar certo
Ou que você nunca
Vai ser alguém...

Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia
A gente aprende
Se você quiser alguém
Em quem confiar
Confie em si mesmo!...

Quem acredita
Sempre alcança...(7x)"


Cinecasulofilia - "A Suprema Felicidade"


Mais uma sexta feira, e mais uma coluna "Cinecasulofilia", assinada pelo cineasta, crítico e professor da matéria Marcelo Ikeda. Hoje a coluna analisa o novo filme do cineasta - e analista político dos mais toscos e reacionários - Arnaldo Jabor. São dois textos entrelaçados.

Como sempre, publicada em parceria com o blog de mesmo nome.

"A Suprema Felicidade

Pobre Jabor! A Suprema Felicidade é um filme comovente. Não que isso o faça excepcionalmente bom, não é este o caso. Por outro lado tampouco é o caso de esculhambar o filme pela participação um tanto duvidosa de Jabor como cronista de O Globo, um pseudo-sucessor de Paulo Francis. Nem uma coisa nem outra. A questão é que a melancolia do projeto de A Suprema Felicidade deve ser vista como um resquício de uma trajetória do próprio cinema brasileiro dos últimos vinte anos.

Isso fica claro quando vemos as declarações do Jabor. Na coletiva de imprensa para o lançamento do filme no Rio, Jabor falou aos jornalistas sobre o que estava em jogo com o filme. Tomo como base a interessante matéria de Pedro Martins Freire para o Diário do Nordeste (ver aqui). Pedro vai ao ponto em sua matéria sobre o filme quando diz “Jabor conversou com jornalistas sobre temas que iam além de seu mais recente longa-metragem. Solícito e sorridente, o cineasta fez questão de dar atenção a todos, mas salientava sua satisfação com as perguntas fora do "roteiro".”

O que são as tais perguntas “fora do roteiro”? Qualquer oportunidade para falar do que está em jogo com o filme: uma espécie de carta de intenções, uma espécie de muro das lamentações de não estar filmando há quase vinte anos, um certo pedido de desculpas, um certo receio de ser considerado traidor. Para Jabor, o cinema é angustiante, o cinema mata, o cinema é destruidor. Ele precisava viver, pagar as contas. Disse que o jornalismo é fascinante pelo imediatismo, de ver realizado um produto final a cada dia, a cada semana, e não de quatro em quatro anos, quando muito, no caso de um filme. Ou seja, Jabor não queria falar propriamente sobre o filme em si, mas sobre suas intenções, sobre sua própria trajetória pessoal.

Mas Jabor se engana em relação a um conjunto de pontos e a fragilidade do seu discurso é muito clara. Ele se engana quando diz que o tema de seu filme NÃO é o passado, e se engana que o cinema mundial hoje está em crise, pois “os cineastas não conhecem mais o mundo”. Pobre Jabor! Ele que se engana! Se engana já que, se por um lado Jabor acompanhava atentamente o mais frondoso cinema dos anos sessenta (Fellini, Antonioni, Malle, Truffaut, etc.), ele, com uma declaração como essa, mostra, mostra estar completamente desantenado do que vem acontecendo no cinema no Brasil e no mundo. Mostra desconhecer o cinema de Jia Zhang-Ke, de Hou Hsiao-Hsien, de Lisandro Alonso, de Carlos Reygadas, de tantos outros. O “cinema contemporâneo” é essencialmente um cinema que abraça o mundo de hoje, um mundo em transformação, através de um cinema que vê a crise da expressão e da narrativa clássica como um sinal de oportunidades, um cinema ético que se coloca de frente para o mundo, com todas as dificuldades dessa opção.

Com isso, quero dizer que as principais dificuldades de A Suprema Felicidade são todas de encenação, ou seja, de como encenar, de como dar forma a uma determinada ideia. De um lado, podemos pensar essa tendência como uma certa ansiedade em filmar, no arroubo um tanto desordenado de cenas que se relacionam de uma forma pouco orgânica. De outro, uma enorme dificuldade em concentrar-se no presente, na cena em si. Jornalista, o Jabor de A Suprema Felicidade avança mais no campo das intenções do que no da realização. Preso às referências do musical americano e do cinema de Fellini, Jabor se perde na névoa do filme que poderia ter feito há vinte anos e se esquece da principal matéria-prima de um cinema que se propõe a falar do presente: olhar para o mundo.

A grande chave de elucidação da posição de Jabor é o personagem de Nanini, não à toa o mais encantador de todo o filme. Uma espécie de bon vivant que vive sem culpas as alegrias do presente, ainda que sempre temporárias. “Estar alegre, nunca feliz”. A Suprema Felicidade é uma tentativa de expiação do passado recente de Jabor, de sua carreira de cineasta abortada por opção própria, ou – se quiserem assim acreditar – pelas dificuldades do próprio Brasil. Jabor diz que deixou o cinema para não enlouquecer, mas vários de seus personagens são loucos, bêbados ou variantes de um certo estado de sonambulismo.

Ao final, há a síntese de toda esta carta de intenção, uma despedida melancólica e comovente. Nanini, quase como um ritual de morte, dança à beira do mar, imaginando como se estivesse num show de gafieira. Imagina o show de gafieira como um musical de Hollywood visto pelas chanchadas brasileiras, só que agora numa produção de R$10 milhões, com apoio da Globo Filmes. No fundo, dança só, na noite escura, de costas para o presente. Imagina seu mundo passado e não tenta conhecer as casas noturnas do presente, os jovens do presente. Não tenta falar com seu neto, mas apenas que “ele também já amou”, e a lhe contar sobre seu passado. “Estar alegre, nunca feliz”. É com esse ritual de passagem para a morte, uma “chanchada fúnebre” que Jabor encerra o seu comovente filme. Pobre Jabor!


mais sobre Jabor

Eu entendo perfeitamente quanto Jabor diz que fez seu filme não interessado no passado, mas no presente. Mas é como se Jabor não estivesse interessado no “presente”, mas apenas no “presente dele”, isto é, A Suprema Felicidade não é um filme jovem, é um filme velho. Ela olha para o presente de uma perspectiva pouco alinhada com o presente, mas com o passado. Ele olha para o presente com um olhar passadista.

Isto não é uma mera questão de idade (Zhang-Ke tem trinta e poucos anos; Jabor, sessenta e tantos). Penso por exemplo no filme de Nolot: um velho (ele próprio) que olha para o presente com melancolia e se lembra do passado. Acontece que Nolot não tem um olhar passadista, pela forma como ele olha para o seu presente, ou seja, pelas suas soluções de ENCENAÇÃO. Tudo no filme de Nolot se reflete numa forma ÉTICA de encenar (de se “autoencenar”) DE FRENTE.

Em suma: enquanto Jabor encerra seu filme com seu personagem dançando numa gafieira imaginada, de costas para o presente, Nolot prefere fazer seu personagem (no caso, ele mesmo, ator-autor-personagem) entrar no Pigalle travestido de mulher, ou seja, uma “gafieira do presente”, REAL, que ele nunca teve coragem de entrar (o “bar dos negros” de Clube dos Cafajestes...). Nolot abraça esse presente, consciente de toda a dificuldade dessa opção, de toda a fragilidade, a precariedade, e de sua própria decadência física, psicológica, emocional. Abraça seu desejo (mórbido, doentio, pervertido, libertador, esperançoso, redentor) DE FORMA ÉTICA E DE FRENTE, sem se esquivar de si mesmo, mesmo que doa.

Jabor prefere que não doa. Não quer mais sentir dor voluntariamente. Prefere o imediatismo do jornalismo e viver com mais conforto. Entendo perfeitamente, e isso fala não só de si próprio mas (o que me interessa propriamente) DE UMA TRAJETÓRIA DE UM BRASIL E DE UM CINEMA BRASILEIRO.

Acontece que dói do mesmo jeito. Viver o tempo todo sob o efeito da morfina. Talvez doa até mais. Eu só sei que EU (moleque jovem) – até mesmo pelas decisões recentes que tomei em minha vida – prefiro tentar entrar no Pigalle."


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Drama Insulano


Como comentei de passagem no post anterior, vivi uma situação kafkiana na manhã de ontem e que deixou clara a ineficiência do transporte público em nossa cidade.

Eu precisei deixar meu carro para fazer a revisão obrigatória dos 15 mil quilômetros e aproveitei-me de que estaria fora do Rio segunda e terça a trabalho para fazê-la com o mínimo de transtorno possível à minha rotina. Só que precisou ser feito um serviço no ar condicionado e - voilá! - me vi sem carro para trabalhar ontem.

Bom, saí de casa mais cedo já sabendo a complicação que é depender de transporte público na Ilha do Governador. Cheguei ao ponto, em frente à confeitaria Majestosa, por volta de 06h40 e me preparei para pegar o "frescão", da empresa Ideal - acima - ou mesmo uma van. Ambos não podem carregar passageiros em pé.

Começaram a passar um, dois, três carros, sempre lotados. O único que tinha um lugar disponível eu caí na asneira de deixar uma senhora entrar primeiro e, para meu azar, era o único lugar. Ainda que tendo chegado antes, ela não me cedeu a vez novamente. Parêntese: é espantoso como o Rio de Janeiro está se tornando uma cidade mal educada e egoísta. Pano rápido.

Quatro, cinco, seis... o tempo passando e todos os ônibus ou as raras vans vinham lotadas. Por volta das oito da manhã, uma hora e vinte depois de ter chegado ao ponto, comecei a fazer sinal para táxis, também raros. Quando os motoristas descobriam o destino da corrida, desistiam - recebi umas sete ou oito negativas. Uma mocinha que tinha uma entrevista de emprego no Centro, às nove, desistiu e foi para casa. Outros resolveram ir para Bonsucesso ou alternativas equivalentes.

Somente às nove e quinze, duas horas e trinta e cinco minutos depois de chegar ao ponto é que, no décimo quarto carro, haviam lugares e pude me transportar para o trabalho - onde cheguei extremamente atrasado e não tive como evitar a tradicional bronca por causa disso, não sem razão. Obviamente, estava de péssimo humor. Ainda tive de ouvir o motorista falando que "naquele ponto onde você pegou, até no máximo seis e quinze você consegue pegar o ônibus, depois só bem mais tarde." Ou seja, o cliente que se vire.

A situação que vivi demonstra bem o quadro dos transportes públicos na Ilha do Governador e, em menor gravidade, na cidade do Rio de Janeiro. A Ilha possui apenas duas empresas, a Ideal e a Paranapuã, que dominam em situação de monopólio o transporte do bairro. Não há trem nem metrô e a precariedade do sistema é suprida, em parte, por vans e kombis. Até porque as linhas de ônibus são extremamente escassas, poucos ônibus, velhos e mal conservados - as baratas nos coletivos da Paranapuã já se tornaram históricas.

O leitor deve estar se perguntando como esta situação perdura se as linhas de ônibus do Rio de Janeiro são concessões municipais. Pois é, explico.

Há bastante tempo que se vem falando em uma nova licitação para a concessão e racionalização de linhas de ônibus na cidade. A idéia original era diminuir a oferta excessiva na Zona Sul e aumentar em áreas como a Zona Oeste e a Ilha do Governador, bem como permitir a entrada de novas empresas no mercado. E o que aconteceu ?

No último mês de agosto finalmente a "licitação" foi realizada. As empresas que já operam os ônibus se uniram em quatro consórcios - cada um para uma das áreas a serem licitadas - e arrematou todas as linhas. Ou seja, tudo continua como antes, com apenas a diferença de que aumentou o preço das passagens e a pintura dos coletivos será padronizada. Empresas como a Supervia, que administra os trens urbanos, o Metrô e grupos argentinos tentaram impugnar a licitação na Justiça, alegando que o tempo reduzido da mesma beneficiaria as atuais detentoras das concessões - o que se confirmou.

Tendo em vista as evidências, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu um inquérito a fim de verificar possíveis irregularidades não somente na licitação como em eventuais artifícios utilizados por empresas com problemas fiscais para poder participar dos consórcios - como a utilização de "laranjas" e assmelhados.

Não custa lembrar que as empresas de ônibus cariocas são talvez o grupo mais forte de lobby na municipalidade carioca. São grandes contribuintes nas eleições e possuem um grupo de vereadores bastante articulado em defesa de seus interesses.Não me parece coincidência a estagnação do serviço de trens urbanos e o alcance extremamente restrito do Metrô. E se começa a entender o excesso de carros nas cidade, causando engarrafamentos cada vez maiores: o sistema de transportes não funciona.

Dá até raiva ir a uma cidade como Curitiba, onde estive em junho, e ver que o trânsito não tem retenções porque o sistema de transporte coletivo funciona. Mesmo parando diversas vezes para pegar funcionários, o ônibus que me levava do hotel no Batel até a refinaria, em Araucária - uns trinta e cinco quilômetros - não levava mais que 45 minutos. Eu levo isso, de carro, entre a Ilha e o Centro, em um dia sem grandes retenções - um percurso que com o trânsito livre levaria uns 25 minutos, no máximo.

Aí se entende porque tem tanto carro com apenas um ocupante nas ruas cariocas. Para quem mora na Ilha do Governador, é necessidade, não luxo - como aprendi da pior forma possível ontem.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Mr. Beer and Miss Wine: "Nós temos uma nova presidente!"


Quarta feira, início de dia kafkiano - será o tema do blog amanhã - e temos mais uma edição da coluna "Mr. Beer and Miss. Wine", assinada pela empresária e historiadora Thatiane Manfredi.

Saindo um pouco do tema da coluna, o texto hoje trata dos desafios que precisam ser enfrentados pela presidente eleita Dilma Roussef, olhados pela ótica de uma pequena empresária. Como a própria autora ressalta, particularmente discordo de alguns pontos, mas é importante para termos o contraditório e o debate.

"Nós temos uma nova presidente!

Eu hoje gostaria de mudar bastante o rumo dessa coluna. Sempre escrevo assuntos do cotidiano, sobre como fazer para que a nossa vida possa ser mais agradável e menos complexa e complicada, mas devido aos últimos acontecimentos na política brasileira, decidi que esse post de hoje deveria ser um desabafo. Perdoem os meus leitores não prosseguirmos com a série dedica a etiquetas pessoal e profissional, mas retornaremos à programação normal daqui a 15 dias.

Por mais que eu tenha formação em história, analisar políticas e suas conjunturas nunca foi o meu forte. Sou especializada em literatura inglesa do século XVI, nada a ver com o tema que irei discorrer a seguir.

Para inicio de conversa, a nova presidente não me agrada. Como pessoa, acho a figura dela um tanto quanto estranha, mas isso é um problema exclusivamente meu. Não será a figura dela que irá governar, mas sim o cérebro. Precisamos de um cérebro no mais alto cargo do executivo e não mais de figuras simpáticas e carismáticas. Espero que essa proposta já tenha passado. Conto com a expertise administrativa da nova presidente para que ela possa ser bem sucedida na sua árdua empreitada.

Sempre ouvi que as mulheres são melhores administradoras que os homens. Mas será isso verdade? Que os homens agem por impulso, por testosterona demais acumulado, e as mulheres agem com mais esmero e carinho isso sim acredito, mas o fato de termos uma mulher como presidente do Brasil é um feito extraordinário para a jovem democracia em que vivemos. Imaginem em tempos como o de Getúlio Vargas ou da troglodita ditadura militar, uma mulher no poder. Inimaginável, não é?  E sim, a chamo de presidente, eu acho presidenta uma palavra muito feia e sempre me soa com um tom pejorativo, por mais que esteja correto.

Mas voltando a falar sobre a administradora presidente eleita Dilma Rousseff, ela terá uma batalha e tanto pela frente. Em seu discurso de eleita, Dilma disse que será a presidente de todos. Tenho minhas dúvidas quanto a isso. O governo Lula está de parabéns quanto a proposta de erradicar a miséria no país. Nunca algo tão grandioso foi feito pelos brasileiros mais pobres dessa grande nação. E concordo com a proposta da presidente eleita em continuar com o feito, mas a quem preço? Altos impostos, criação de novos impostos, retorno de antigos impostos, por aí...

Já discuti muito com o editor desse blog, meu querido amigo Pedro Migão, sobre a questão do bolsa-família. Conheço casos como de pessoas que tiveram mais três filhos após terem começado a receber o bolsa-família e simplesmente pararam de trabalhar para poder viver às custas do tal benefício. Fora os casos que estão por aí que não tomamos conhecimento. Lembro-me muito bem do “slogan”: dar o peixe, mas ensinaremos a pescar. Após oito anos são raros os casos de pessoas que aprenderam a pescar. A maioria ainda continua só recebendo o peixe. [N. do E.: uma outra visão do Bolsa Família, que inclusive exerce o contraditório com o texto, pode ser lida aqui.]

Nessa última semana uma onda de incitação ao ódio correu às redes sociais, principalmente Twitter e Facebook. Uma pobre moça (digo pobre no sentido de pobre de espírito) deu declarações ofensivas e xenofóbicas contra os nordestinos. Vergonhoso! Mas é assim que pensam muitas pessoas (inclusive pessoas do meu convivo), essas só são mais espertas que essa moça. Não falam por aí o que pensam, tem medo, se calam em seus condomínios, seus country clubes, seus grupinhos de balada, entre outros. Espero que a punição seja à altura da repercussão em que tomou essa declaração descabida, preconceituosa, xenofóbica e medonha. Como diz muito bem a Carta Capital dessa semana, que guerra é essa?

Acredito que a presidente eleita chegou à encruzilhada de sua vida, torço pelo governo dela dar certo, torço muito, aliás, minha empresa depende desses próximos anos. Espero que a presidente saiba que caminho a seguir nessa encruzilhada. O caminho certo e justo para todos é sempre o mais difícil a seguir. Espero que ela siga esse. Precisamos confiar. Darei mais essa chance. Eu confio, presidente, confio. Por favor, não decepcione seu país.

E, se possível, olhe um pouco pela micro, pequena e média empresa..."


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Apreciação do Câmbio e Taxa de Juros


O gráfico acima é uma média mensal da taxa de câmbio desde dezembro do ano passado, disponibilizado por uma corretora. Por ela percebe-se aquele que é o principal problema da economia brasileira, a apreciação excessiva do câmbio.

Em texto escrito ano passado quando do aumento do IOF (Imposto Sobre Operações Financeiras) sobre a entrada de capitais externos, eu mencionei algumas das consequências do fato de se manter o real excessivamente forte. Vamos retomar o tema.

Eleitoralmente esta apreciação se refletiu na expressiva votação do candidato de oposição em estados onde o agronegócio é importante na economia regional. Com a nossa moeda valorizada os monocultores destas regiões obtém menos reais por produto vendido no exterior em dólares, o que diminui a rentabilidade e a competitividade. Com uma moeda mais forte o preço em dólares sobe, em última instãncia, e mercados que normalmente seriam clientes acabam não o sendo devido à questão do preço.

Vale lembrar que em monoculturas de exportação não há valor agregado, ou seja, o produto vendido tem como diferenciação entre os concorrentes tão somente o preço em moeda internacional. Com a moeda valorizada, diminui-se a competitividade e consequentemente as vendas.

Embora em menor grau, tal fenômeno também se verifica na indústria brasileira. Entretanto as queixas do setor industrial são bem menores, pois junto à apreciação do real houve um movimento de formação de mercado interno de massa - o que era exportado passou a ser vendido no mercado interno.

Entretanto, é um problema da economia brasileira e que precisa ser combatido. Em última instância, pode causar desindustrialização e desequilíbrio do balanço de pagamentos devido à queda das exportações e aumento das importações.

Sem dúvida alguma o governo vem adiando o ajuste desta variável, e explico o porquê. São dois fatores.

O primeiro fator é o controle inflacionário. Com o câmbio mais forte os produtos importados se tornam mais baratos, e se tornam instrumentos de controle para impedir a subida especulativa de preços e conter pressões inflacionárias de demanda. Por outro lado a equipe econômica do governo vem se utilizando de alíquotas de importação a fim de não tornar a concorrência desleal às empresas brasileiras.

Este primeiro fator é razoavelmente trivial de contornar, bastando-se utilizar de instrumentos de política industrial - como as já citadas alíquotas e incentivos fiscais.


O segundo fator é mais complexo. Chama-se taxa de juros real.

Como já escrevi em algumas oportunidades, o Banco Central brasileiro age quase que com total independência, e muitas vezes atendendo mais a interesses do mercado financeiro - que será o patrão dos diretores da autoridade monetária quando deixarem a instituição - que às necessidades de política monetária e fiscal.

Como o Brasil, hoje, tem a taxa de juros real mais alta do mundo, há o afluxo de capitais externos a fim de aproveitar a diferença entre a remuneração brasileira e a externa dos papéis do Tesouro. Com isso há a entrada de dólares e, pela Lei da Oferta e da Demanda, seu preço cai - valorizando a moeda brasileira.

O IOF foi novamente dobrado recentemente, para 4%, mas somente uma redução consistente desta taxa de juros irá diminuir a atratividade dos papéis de curto prazo brasileiros e, então, diminuir a entrada de dólares.

Obviamente, isto tem algumas implicações, sendo a mais importante afetar a taxa que remunera as cadernetas de poupança - fonte de fundos para o crédito imobiliário. Talvez a mudança do cálculo possa minorar a perda e permitir a queda das taxas reais - é uma possibilidade.

De qualquer forma, a atual taxa é insustentável e não encontra razões objetivas para sua manutenção, a não ser remunerar os agentes do mercado financeiro. A questão política é fazer com que o Bacen volte a atuar como um elemento de política econômica e monetária integrado ao restante da macroeconomia nacional. É um caso clássico onde interesses privados estão se sobrepondo ao interesse público.

Aliás, por isso que sou contra a independência do Bacen, e esta é uma das questões que a Presidente eleita terá de enfrentar.

Finalizando, a possibilidade de um choque cambial tal e qual o ocorrido após as eleições de 1998 não existe, pois o modelo utilizado hoje é o de taxas flutuantes - o que permite um ajuste gradual. Mas a chegada a uma taxa de equilíbrio - algo em torno de R$ 2,10 por US$ - depende, fundamentalmente, da redução das taxas de juros reais a fim de diminuir a vantagem oferecida a investidores externos - até porque as taxas internacionais andam bem mais baixas.

Voltarei ao tema.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O legado do Presidente Lula


Agora que passaram as eleições, já temos decorrida mais de uma semana do pleito, as paixões exacerbadas começam a se dissipar e a vida política voltando ao normal - para vencedores e vencidos - começa-se a se fazer uma panorama do que será o Brasil pós-Presidente Lula. Qual será seu papel na história ?

Ainda não temos claro o que o atual presidente irá fazer depois de transmitir a faixa presidencial a Dilma Roussef. Suas mais recentes declarações indicam que irá se refugiar em São Bernardo do Campo após passar o cargo, sem ter papel ativo no novo governo - apenas se consultado for.

Também deixou claro que não pretende ficar vagando como um espectro pela vida política nacional, nem pelas redações de imprensa - ao contrário de seu antecessor, que se julga injustiçado pelo país. Aliás, este realmente foi injustiçado, por benevolência - infelizmente não posso escrever aqui o que penso deste sujeito, sob pena de sofrer um processo. Nem Calabar teve um papel tão definido na História.

Na entrevista que deu meses atrás ao "Canal Livre" - que resumi aqui mesmo neste blog - Lula também descartou a hipótese de asusmir qualquer tipo de cargo internacional, seja na ONU ou em outro órgão. Sua explicação é simples: nenhum governante de Estado nacional irá querer a sombra de políticos nestes organismos que tenham sido poderosos em seus países.

O que se sabe, apenas, é que o presidente passará a assinar uma coluna na revista Carta Capital a partir de janeiro. Não está descartada uma candidatura sua em 2014, mas, particularmente, acho improvável - apenas na hipótese de um governo desastroso de Dilma Roussef, no que não acredito.

Contudo, minha idéia neste post é tentar fazer uma exercício de futurologia: qual será o legado deixado por Lula após sua passagem pela Presidência ? Como a figura dele estará sendo lembrada daqui a trinta, quarenta anos - onde eu serei um vetusto senhor na terceira idade ?

Em termos econômicos, o Brasil que emerge de 2010 é bem diferente do que havia em 2002. A economia não somente cresceu como assistimos a um movimento inédito de formação de um mercado interno consumidor de massa - que era o sonho dos economistas da minha geração.

Socialmente, assistimos a um trabalho consistente de diminuição da desigualdade e da concentração de renda nunca vistos antes, bem como o resgate de milhões de brasileiros da fome e da miséria absolutas. Este movimento significou um verdadeiro "choque de cidadania" no país, com uma trajetória de ascensão social em massa nunca antes observada.

No que tange à política, Lula exerceu até o limite a idéia de consenso, buscando conciliar, negociar, ceder a fim de alcançar seus objetivos. Ressalte-se que ele governou os dois mandatos sem maioria no Congresso, mas sem jamais recorrer a medidas autoritárias ou rasgar a Lei Magna brasileira - ao contrário de seu antecessor, que rasgou a Constituição para se perpetuar no poder.

Lembro também que Lula sofreu uma oposição encarniçada de parte da grande imprensa brasileira, que decidiu comportar-se como um partido político de oposição - e golpista, acrescento eu. Ainda que criticado, caluniado, ofendido sem trégua jamais se viram medidas de restrição à liberdade de imprensa ou ligações às redações pedindo demissão de jornalistas.

Embora não seja este o objetivo deste post, tenho de ressalvar que a saúde e a educação ainda precisam de melhorias substanciais, apesar da visível melhora nas universidades públicas brasileiras.

Ressalva feita, voltamos ao tema: qual será o legado de Lula ? Como a História se lembrará dele ?

Certamente, como um presidente que simultaneamente olhou para os mais pobres - como Vargas - e proporcionou crescimento econômico e empresarial ao país - como Juscelino. Como um político que enfrentou uma campanha midiática golpista sem tréguas e ainda assim saiu vitorioso três vezes - sim, amigos: a eleição de Dilma Roussef foi uma vitória política expressiva dele, que transformou uma eficiente gerente do governo em política de 55 milhões de votos.

Lula também será lembrado por sua vitoriosa história de vida pessoal, saindo de retirante nordestino para Presidente da República. Isso é façanha para poucos, pouquíssimos. Pela capacidade de absorver derrotas, aprender com estas e se fortalecer para combater o bom combate.

Eu me arriscaria a dizer que daqui a trinta, quarenta anos, Lula será lembrado não somente como um dos três maiores presidentes da história do Brasil - ao lado de Vargas e Juscelino - como talvez o maior político, no sentido estrito do termo, já visto por estas bandas em todos os tempos. Com lugar de honra na história.

Se tudo correr bem, estarei vivo para ver este reconhecimento e contar aos meus netos a história que vi e vivi.

(Foto: Estadão)


domingo, 7 de novembro de 2010

Sobretudo - "Desafios"


Neste domingo de GP Brasil, a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero. Como o leitor verá durante o texto, ele está envolvido indiretamente na organização do evento.

O tema da coluna são os desafios que a Presidente eleita Dilma Roussef tem em seu caminho nos próximos quatro anos, comparados aos enfrentados pelo próprio autor neste final de semana em curso. A propósito, informo que a questão do câmbio será tema de texto ainda esta semana.

"Desafios

Passa um pouco de meia-noite de sexta para sábado. Supostamente, a coluna “subirá” daqui a pouco. Eu não deveria estar aqui, na frente do computador. Em primeiro lugar, Mestre Migão não merece estes prazos malucos de entrega do texto. Em segundo lugar, eu não tenho o mínimo juízo de ainda estar acordado. Explico.

Estou envolvido na organização do grupo de voluntários bilíngües que vai ajudar aos turistas estrangeiros a chegar ao autódromo de Interlagos neste final de semana de GP Brasil de F1. Tenho que chegar à estação Autódromo da CPTM, distante uns 500 metros da reta oposta, às 7 da manhã. Trabalho das 7 às 7 sábado e domingo. Isso, depois de uma semana duríssima. Meu corpo merecia mais cuidado da minha parte.

A semana, se foi puxada, por outro lado também me deu muitas alegrias. Para começo de conversa, sábado passado nós fomos assistir ao concerto da Orquestra JazzSinfônica em homenagem ao Gershwin, tocando a versão em formato de concerto da ópera Porgy & Bess. Depois, elegemos a primeira Presidenta e, na quinta à noite, assistimos a 'Os 39 Degraus', a adaptação para o teatro do filme de Hitchcock, que vira uma impagável comédia nos palcos. Pretendo voltar em breve a estes temas culturais e tentar dividir estas experiências com o caro leitor.

Abre parágrafo-parêntese – A telecoluna de Nelsinho Motta no Jornal da Globo de hoje (sexta) é sobre o McCartney. Um dos músicos que eu mais admiro na música pop internacional. E a coluna do Motta está melhor a cada semana, o texto dele é tão genial quanto os artistas dos quais ele fala. Sempre às sextas. – Fecha parágrafo-parêntese.

Depois de tanta diversão, a obrigação. Esta operação de recepção aos turistas dará resultados muito gratificantes, espero. Mas também está dando bastante trabalho.  Inclusive porque devo somar umas 24 horas de jornada extra no final de semana. Hoje (sexta) eu já estive por lá. Como tinha que levar umas camisetas para a equipe, fui de carro. Pegamos calor e trânsito na ida. Na volta, mais calor, um mega engarrafamento e, por fim, um temporal no encontro das Marginais Pinheiros e Tietê.

Em meio ao trânsito carregado, recebi no celular umas sete ou oito ligações, cada uma com uma situação diferente para ser resolvida. A última delas virou pendência que eu preciso resolver até as primeiras horas da manhã: o presidente da empresa quer saber onde fica o portão 5. Eu consultei todos os guias e sites na internet, não há portão 5. Mas há portões 7 e 8, de modo que é de se supor que haja (ou tenha havido algum dia) um certo portão 5. Eu garanti que não será um portão que vai me derrubar, o presidente pode me perguntar diretamente assim que chegar: onde é, afinal, o portão 5? Pelo amor de Deus: algum de vocês saberia informar onde fica o portão 5? [N. do E. - acho que, no horário em que a coluna for ao ar, não será mais necessário...]

Antes de eu ser apresentado a este desafio prático e imediato, eu havia pensado em uma coluna menos pessoal, mas também sobre desafios. Não desafios meus, pessoais. De certa forma, desafios nossos, no papel de cidadãos, de parte da sociedade. Mas, de uma forma mais específica, os desafios de Dona Dilma I, a Irascível.

Pela manhã, indo para o trabalho de trem, tive a sorte de ver levantar do assento o passageiro à minha frente, de modo a vir sentado metade da viagem. Pensei em cochilar um pouco, mas lembrei da coluna. Anotei freneticamente num pedaço de papel as prioridades do próximo Governo, já a partir de agora, em sua gestação. Como a lista não ficou nada pequena, serei sintético. Fica valendo como um pontapé inicial para discutirmos aqui a pauta da República, como se a nossa opinião fosse realmente importar (blogueiros, em geral, se dão uma importância desmedida, não é verdade?). Bem, vamos à listinha do dever de casa da Tia Dilma. 

Mais importante e vindo em primeiro lugar: domar seu temperamento. Dilma tem fama de estouradinha. Isso pode funcionar no palanque. Só no palanque.

Câmbio. Esta, nem precisa explicar. Do jeito que o real está valorizado, só para eu passear novamente em Buenos Aires no próximo verão é que isso é bom. Já passou da hora de fazer um ajuste.

Melhorar o gerenciamento dos projetos sociais. Bom outdoor do Governo, os programas sociais precisam ser tocados com mão de ferro para continuarem a fazer bonito.

Manter um bom relacionamento, senão um relacionamento ao menos possível, com a imprensa. Controlar as alas radicais da base aliada e neutralizar os cães ferozes da oposição. Enfim, mostrar uma habilidade política até aqui insuspeita.

Contentar a base de maioria no Congresso, e isso exige cargos e benesses, principalmente para o PMDB, que é mais difícil de ter como aliado do que como oposição. Manter um político malandro como Michael Temer na posição de Vice-Presidente. Nem mais, nem menos.

Acelerar o PAC. Para valer. Manter a distância correta de Lula. Nem mais, nem menos. Manter o ambiente empresarial competitivo, incentivar o empreendedorismo e resolver os nós do trinômio educação, segurança e saúde.

Cuidar da própria saúde e deixar de lado qualquer tipo de amargor pessoal.

Conciliar o boom de desenvolvimento regional, principalmente nas cidades médias e emergentes, com as necessidades das grandes metrópoles como Rio e São Paulo.

Promover um expurgo na máquina pública, melhorar a governança, o que possivelmente inclui um corte na própria carne do partido. Isso implica em reformular as formas de militância e renovar as bases. Ajudar a reforçar  a idéia de Lulismo.

Não renegar a história do PT, mas manter um afastamento cauteloso de movimentos sociais radicais, sindicalismo e movimento estudantil. E aproximar-se do emergente empresariado progressista. Dar sinais á nova classe média que o mesmo pessoal que inspirou a ascensão social de 30 milhões de brasileiros é capaz de mantê-los durante mais 4 anos no novo patamar. Esta classe média tende a se tornar cada vez mais conservadora.

Lidar com as reformas de base: fiscal, política, jurídica etc.

Enfim, a guerra está apenas começando. E será muito difícil. Ou não, como diria Caetano."

sábado, 6 de novembro de 2010

Algumas fotos em final de semana de GP Brasil


Neste domingo de Grande Prêmio do Brasil, vamos a algumas fotos que marcam a história dos quase quarenta anos da presença da maior categoria do automobilismo em terras brasileiras.

Vendo as fotos de Piquet, Emerson e Senna fico me perguntando o que levou Barrichello - hoje humilhado por seu novato companheiro de equipe na classificação - e Massa a adotarem papéis tão subservientes. Sinceramente, não entendo - apesar de saber da conta bancária recheada dos dois... Mas será que isto é tudo ?

Foto acima, a dobradinha Piquet e Senna em 1986.


Piquet em 1986;


Emerson Fittipaldi, com a Equipe Copersucar, em 1979;


Emerson novamente, em 1974;


Senna em sua estreia na Fórmula 1, 1984;


José Carlos Pace e sua Brabham em 1975, sua única vitória na Fórmula 1;


Keke Rosberg guiando o Fittipaldi-Ford em 1981;


Prost em 1985;

Finalizando, duas fotos de Spa Francorchamps, que não tem muito a ver com o post mas tem a ver com Fórmula 1:


Jacky Icky em 1970;


A curva Eau Rouge - que já foi tema de post aqui - em 1966;


Bissexta - "Pensões Alimentícias - Falta Pão, Todo Mundo Grita, Ninguém Tem Razão"


Novamente com o dia invertido com a coluna "Sobretudo", temos hoje a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro.

O tema de hoje é algo que envolve as reclamações de muitos homens divorciados: o que se chama de "indústria da pensão alimentícia." O texto é um verdadeiro "guia prático da pensão".

"Pensões Alimentícias - Falta Pão, Todo Mundo Grita, Ninguém Tem Razão"

O querido Editor-Chefe outro dia sugeriu que eu comentasse algo sobre a “indústria” da pensão alimentícia. Eu achei o tema meio démodé, até que vi um leitor pedir exatamente a mesma coisa na seção de cartas de uma revista badalada. Por último, fofoquei a conversa de uma mesa ao lado em um restaurante onde almocei e pesquei um sujeito se queixando da tal indústria. Dei o braço a torcer: o tema é palpitante.

Eu começo discordando do tema “indústria”. Efetivamente, não há, no Brasil, nenhuma “indústria” de processos, nem de danos morais, nem trabalhistas, muito menos de pensões. Esse termo é reservado para um esquema de ajuizamento de processos que pressuponha organização, centralização e objetivos bem definidos. Aqui no Brasil, salvo uma única exceção que vi em toda a minha vida de advogado, ainda não vi nada parecido com isso.

Quanto às pensões alimentícias, há muita incompreensão com as obrigações impostas pelo fim do casamento. Para começo de conversa, em casais com menos de 50 anos de idade a regra é que tanto o marido quanto a esposa trabalhem. Assim, é cada vez mais rara a fixação de pensão em favor da esposa (e claro, muito mais rara em favor do marido).

As pensões, via de regra, são instituídas para os filhos menores, embora sejam pagas a quem detém a guarda das crianças, quase sempre a mulher. Como é ela quem fica com a incumbência de receber os valores, o ex-marido fica com a falsa impressão de que a está sustentando.

A pensão não deve ser fixada como uma quantia exata dos gastos da criança em sentido estrito, até porque, convenhamos, isso é muito difícil de determinar para quem não tem o hábito de registrar milimetricamente cada gasto em uma planilha. A pensão deve ser um equilíbrio entre a necessidade efetiva da criança e a capacidade de pagamento do pai.

Assim, se o pai é uma pessoa bem situada na vida, desses que trocam de carro com frequência, viajam ao exterior todo ano e comem em restaurantes finos, não faz nenhum sentido que a pensão seja a soma da mensalidade escolar com as compras básicas do supermercado. Não tem nada mais cretino do que esses pais que insistem em pagar o mínimo à título de pensão e aproveitam para presentear os filhos com tudo do bom e do mais caro nos finais de semana que lhes compete, dando o péssimo exemplo de que estar com ele é mais vantajoso do que estar com a mãe, obrigada a negar até pirulito para economizar.

Deve até existir, mas eu, pessoalmente, nunca vi ou soube de pensão alimentícia muito alta imposta pela Justiça. Quando o “alimentante” (quer dizer, o pai) tem um emprego estável, a pensão é um percentual descontado diretamente na folha de pagamento. E fica em torno de 10% a 20% dos rendimentos (no máximo 30%), a menos que haja uma filharada numerosa. Quando não tem renda certa, se faz uma conta baseada nas variáveis que citei (necessidade e capacidade) e se fixa um valor reajustável anualmente.

E porque tem tanta gente pagando mais do que devia? Se você conhece um caso assim, pode investigar: a pensão foi fixada por acordo entre os ex-cônjuges. E a chance de fazer um mau acordo é bem grande. Por três razões principais, que vou listar:

· A PRESSA: as pessoas levam meses ou anos para se casarem, mas quando decidem se separar querem resolver tudo com a máxima urgência, com uma reflexão mínima. E embora jurem no altar, o casamento não é para sempre, mas a separação é quase, pois pode produzir efeitos até que os filhos atinjam 24 anos de idade (caso sejam universitários). Portanto, se os pais se separam quando o filho mais novo tem 4 anos, a decisão que tomarem ali vai ter impacto por 20 anos. Por que decidir em semanas ou mesmo dias algo que vai repercutir em décadas?

· A SOBERBA: o pânico maior do ex-marido é ver a ex-mulher torrar o dinheiro da pensão em viagens, namorados futuros e compras caras. Por isso o sujeito se esforça para colocar o mínimo de dinheiro na mão da ex e assume um monte de compromissos a serem pagos diretamente: a escola, o clube, o inglês, a natação, a babá, as aulas particulares, etc. Só que o tempo passa e às vezes a vida anda para trás. Não é fácil convencer a ex e o filho que a escola bilíngue deve ser trocada por outra mais em conta. Afinal, eles sempre viveram apertados por conta da pensão mixuruca e nunca acreditam que o pai já não está mais com essa bola toda.

· A GANÂNCIA: muito comum em empresários que tem algo a esconder, dinheiro de caixa 2, dólar no colchão, conta no exterior e afins. Como normalmente o acúmulo se deu durante o casamento e assim a ex tem direito a alguma fatia, ela exige a parte dela no acordo de separação para ficar calada. Ao invés do cabra dar logo a parte da mulher no butim e transformá-la em cúmplice do crime, ele fica horrorizado só de pensar em dividir a fortuna ou morre de medo da ex contar tudo para a Receita ou para a polícia. Então ele concorda em pagar uma pensão astronômica, só para deixar intacto o produto do ilícito. O qual, muitas vezes, nem vale o esforço, não dá nem para comprar um carro de luxo ou um apartamentinho no Méier.

Por isso, eu sempre insisto: quem paga muito de pensão provavelmente fez um acordo que pareceu o melhor dos mundos na hora em que foi assinado, mas cujo lado nocivo só veio à tona pela irresistível ação do tempo, esse cruel senhor da razão.

E fica aqui o meu conselho, obviamente em causa quase própria (há 5 anos decidi parar de atuar em casos de direito de família). Tem gente que acha normal pagar R$ 20 mil ou até mais em uma festa de casamento, que dura umas 5 horas e rende um DVD que só é visto muito raramente. Por que economizar na hora de escolher o advogado que vai te ajudar a decidir os rumos da sua vida por muitos e muitos anos?"


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Final de Semana - "Quantas Lágrimas"



Não comentei aqui por não achar necessário, mas ontem completei 36 anos de vida. Em ritmo de aniversário,  a música para nosso final de semana tem a ver com a data: "Quantas Lágrimas", do inesquecível compositor portelense Manacéa, falecido em 1995.

Aqui a apresento em gravação de 1980, interpretada pelo autor e pela Velha Guarda da Portela - com o luxuoso auxílio de Paulinho da Viola tocando cavaquinho. A gravação é de um especial do grande cantor e compositor para a Rede Globo, recentemente disponibilizada em DVD.

Bom final de semana.

"Quantas Lágrimas"
(Manacéa)

"Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado
Só em saber que não posso mais
Reviver o meu passado
Eu vivia cheio de esperança
E de alegria, eu cantava, eu sorria
Mas hoje em dia eu não tenho mais
A alegria dos tempos atrás

Só melancolia os meus olhos trazem
Ai, quanta saudade a lembrança traz
Se houvesse retrocesso na idade
Eu não teria saudade 
Da minha mocidade"


Cinecasulofilia - "Ainda sobre Tropa de Elite 2"


Mais uma sexta feira, e mais uma coluna "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o blog de mesmo nome. Hoje um texto curtinho mas muito instigante, ainda referindo-se ao grande sucesso de bilheteria "Tropa de Elite 2".

Como sempre, assinado pelo cineasta, crítico e professor de cinema Marcelo Ikeda.

"Palavra-chave dos dias de hoje: NEGOCIAÇÃO. O código de ética do treinado André Mathias não dá mais conta das necessidades do mundo atual. O Capitão Nascimento rompe com Matias, embora sinta muito por romper com algo que ele próprio construiu. Agora, o Capitão Nascimento precisa deixar de ser o “policial técnico” e agir como um “policial político”: o rígido código de ética de Mathias não levou a nada, além de sua própria morte. Pior: ingênuo, acabou sendo usado pelo sistema, por sua competência técnica, mas quando não mais lhe serviu, cuspiu-o fora. Esse “recuo estratégico” do Capitão Nascimento no entanto não é agradável, dói fazê-lo. Seu semblante diz tudo. Há um momento no filme em que isso é problematizado: Mathias diz ao Capitão Nascimento que ele não vai mudar o sistema, e sim o sistema é que vai mudá-lo, se é que já não o mudou. Essa talvez seja a frase mais dura de todo o filme. 

Mas esqueçamo-la, pois Tropa de Elite 2 é um filme romântico: o Capitão arrisca abrir mão de sua coerência, de sua família, de sua própria vida para tentar combater “os verdadeiros inimigos”, para tentar “construir um mundo melhor”. Capitão Nascimento é um idealista. Só que é um idealista que aprendeu a “dançar conforme a música”, a “se sujar com a realidade”, ou ainda, vê-la de uma perspectiva mais complexa, multifacetada. Para tentar mudar as coisas de verdade, é preciso se sujar. Se sujar mesmo, de verdade, não tem jeito. Esse novo “pragmatismo da esquerda” vem ecoando dos governos para as empresas, para as instituições, para as relações entre vizinhos, para as famílias, para as relações amorosas, para os indivíduos. É o romantismo do século XXI, a palavra de ordem dos nossos tempos.

André Mathias, c´est moi!"


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Democracia, xenofobia e eleições


Um dos efeitos mais detestáveis do resultado das eleições foi o aparecimento de algo que estava encoberto e que floresceu de maneira incontestável após a proclamação do resultado final: um ódio de classe beirando a xenofobia.

A imagem acima é um exemplo claro do que digo: eleitores de Serra, revoltados no Twitter, colocando a "culpa" pela derrota do candidato tucano nesta "gentalha" que vive no Nordeste, "bando de vagabundos que só recebem Bolsa Família".

O clima de intolerância a que assistiu de forma gratuita tem a ver com o sentimento de exclusividade de classe - como escrevi antes mesmo das eleições - e com outra questão que é clássica na elite brasileira: democracia é bom, desde que meu candidato sempre ganhe.

Com a vitória de Dilma Roussef, explodiu a revolta pela derrota - que não deveria ocorrer, afinal de contas este povo é o "escolhido" - e logo se achou um bode expiatório para o resultado: a brava gente do Nordeste. Sentimentos difusos, com origem especialmente em São Paulo, revelaram-se com toda força.

No pensamento desta elite clássica, em especial a paulista, eles trabalham para sustentar vagabundos nordestinos que são parasitas e merecem a morte - afogados, como o internauta denunciado acima sugere. Esta classe se acha explorada, pensa que estando bem o restante pode estar perfeitamente morto e que estas pessoas são "ignorantes" - ou seja, não podem votar.

É um outro lado da história que escrevi aqui, que muitos moradores dos bairros de classe média alta reclamavam que "tinham de pagar um salário maior para suas empregadas pois senão elas arrumavam outro emprego". É uma característica mesquinha, egoísta e perversa que sempre houve, mas que se encontra explicitada de uma forma nunca antes vista.

Cabe lembrar também o papel de setores da grande imprensa, que ao invés de aceitar a derrota de seu candidato procuraram desqualificar a grande vitória da candidata petista e iniciar, desde já, uma campanha se possível de impeachment ou, caso não seja possível, do candidato oposicionista em 2014.

Com esta postura de setores da imprensa, manifestações xenófobas, separatistas, fascistas e excludentes se sentiram respaldadas e descontaram nos nordestinos - e, em menor escala, nos nortistas - a frustração pela derrota de seu candidato - que devolveria o Brasil aos "áureos tempos da senzala".

Lembro aos leitores que, ainda que apartássemos o Nordeste da votação presidencial, Dilma Roussef venceria o pleito com pouco mais de um milhão e trezentos mil votos de diferença. No somatório do Sudeste a candidata petista foi a vencedora, devido à expressiva votação no Rio de Janeiro e em Minas Gerais - e mesmo a vitória de Serra em São Paulo foi bem aquém da que era prevista por seus analistas. Os recalcados elitistas deveriam reclamar de Aécio Neves pela derrota de seu candidato, não dos brasileiros do norte...

Também discordo daqueles que acusam o Presidente Lula de ter "dividido o país". Quem apelou para o ódio de classe, para o repúdio às diferenças, para o "nós contra eles" foi a campanha serrista. Quem se utilizou do extremismo religioso e da desqualificação dos que pensavam diferente foi Serra.

E, de mais a mais, Serra venceu nos estados da agroindústria monocultora e em São Paulo, onde foi governador.

Entretanto, penso que este episódio das eleições apenas explicitou algo que venho observando há tempos e que escrevi aqui anteriormente: existe um sentimento por parte da velha elite de que "os bárbaros estão chegando perto da gente" através da ascensão social possibilitada pelo crescimento da economia, do emprego e da renda.

Este fenômeno atinge no âmago do que é mais precioso para esta classe, o sentimento de "exclusividade", de "escolhido". Então apela-se para a irracionalidade, com teorias fascistas e até racistas. No fundo, a velha busca e manutenção de privilégios, nem sempre justos.

Na verdade, nossa sociedade cada vez mais tem ódio à diferença, à diversidade, a opiniões divergentes. Vive-se um "bovinismo" e um sentimento de egoísmo a cada dia maior. A sociedade brasileira que emergiu das urnas é conservadora e, muitas vezes, perversa.

Concluo aproveitando para dar um viva à brava gente nordestina, que com seu trabalho de sol a sol engrandece o país e ajuda a construir este Brasil que cada vez mais se afirma no cenário mundial. E repudiar profundamente estas lamentáveis demonstrações de xenofobia e ódio de classe.

Espero que o Judiciário brasileiro, tão injusto, possa infligir a punição necessária a estes indivíduos que manifestaram publicamente este tipo de opinião. Entretanto, não acredito. Abaixo temos várias provas que devem e precisam ser levadas à Justiça.




quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Formaturas, Batizados & Afins - "Cuidados com o Nosso Meio Ambiente"


Mais uma quarta feira e mais uma coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas.

Sem delongas, leiamos o texto, com alguns alertas importantes.

Cuidados com o nosso Meio Ambiente

"Caros amigos, nesta semana histórica quando o País escolheu democraticamente pela primeira vez uma mulher para comandar nosso destino – Dilma Vana Rousseff – esta coluna vem tratando de um tema que infelizmente não foi tão apropriadamente discutido durante toda campanha eleitoral. 

Nem mesmo a candidata do Partido Verde, Marina Silva, conseguiu chamar a atenção para este ponto, visto que por razões históricas de sua trajetória política queria fazer ver aos eleitores que ela tinha algo além de uma ligação forte com a preservação do meio ambiente. O fato é que nossa Presidente Dilma terá nestes quatro anos alguns desafios nesta área, desafios estes que devem ser encarados por toda sociedade; para que possamos minimizar as agressões ao meio ambiente e assim as catástrofes que tendem a acontecer pelas alterações impostas ao nosso Planeta, o que, aliás, também já foi discutido aqui nesta coluna.

Trago também este tema à tona, pois na semana passada, tive a oportunidade de participar em Arraial do Cabo (foto) de um encontro científico voltado à discussão dos problemas ambientais e que foi extremamente rico. A Primeira Escola Internacional em Ecologia e Ecotoxicologia Marinha não era simplesmente um fórum de discussão técnica sobre meio ambiente, mas também era um curso de treinamento em ciência. Uma disciplina compacta usando os problemas ambientais do ambiente marinho como ponto de partida e de chegada para o debate de diferentes aspectos da atividade científica, fundamentais para a formação do cientista moderno. Fui convidado pelo Prof. Mauro de Freitas Rebelo (UFRJ), coordenador do evento, para coordenar duas sessões muito diversificadas sobre diferentes causas de poluição ambiental e de que maneira diferentes grupos de pesquisa estão monitorando estas agressões ao ambiente. Estas apresentações foram feitas por estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós doutorado e professores recém contratados em diferentes instituições. 

Foi realmente um momento muito especial para mim, que comecei minha vida científica em 1989 justamente estudando o problema da contaminação dos reservatórios de água da Cidade do Rio de Janeiro por cádmio, um metal pesado muito usado em diferentes indústrias como as de tintas e de baterias e pilhas. Durante todo o meu Mestrado (1992-1994), era este o tema central de minha vida científica: a poluição ambiental e suas conseqüências para as células, tema que talvez tenha tido naquela época uma enorme difusão devido a reunião histórica realizada no Rio de Janeiro em 1992, a Rio Eco 92. Assim, já se passavam mais de 5 anos desde que estive num evento inteiramente dedicado ao meio ambiente, o que de certa forma foi muito agradável (por eu gostar muito do assunto), mas ao mesmo tempo muito assustador, por ver que aqueles problemas que estavam na moda durante o período do meu mestrado seguem persistentes e em alguns casos até pioraram.

Um problema de todo o mundo

O meio ambiente não deve ser apenas cuidado aqui no nosso Brasil, mas sim em todo o mundo. Sabemos que alguns países que hoje cobram de países em desenvolvimento como China e Brasil ações enérgicas na preservação de ecossistemas, destruíram tudo ou quase tudo que havia de biodiversidade em seus países à custa do desenvolvimento. Assim, cobram ações quando eles próprios devastaram seus territórios. 

Neste evento que estive em Arraial do Cabo a grande maioria de participantes era de outros países. Estavam lá presentes pesquisadores do México, Uruguai, Colômbia, Chile, Portugal, Finlândia, Suécia, Sérvia, Estados Unidos, Itália e China. Do Brasil, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que foram os organizadores do evento, além de pesquisadores da PUC-RJ, Federal de Santa Catarina (UFSC), do Ceará (UFCE), de São Paulo (USP, USP-Ribeirão Preto, UNESP), do Rio Grande do Sul (UFRG) e de Pernambuco (UFRPE). Dentre os conferencistas as presenças destacadas do Dr. John Stegeman de Whoodshole-EUA, com grande atuação na área ambiental tanto por suas pesquisas como por suas ações junto a entidades de preservação mundo afora; a sueca Malin Celander, uma especialista em vida marinha e problemas ambientais que atingem esta biota; e o Dr. Francesco Dondero de Piemonte, Itália com seus estudos em biologia molecular de organismos marinhos, na busca de marcadores moleculares para agressões ambientais. 

Pelo Brasil, além de mim, o Prof. Mauro Freitas Rebelo (UFRJ) que foi o organizador e grande nome do evento por além de sua parte científica, ter dedicado parte da programação a aulas que sem sombra de dúvida enriqueceram os participantes. Aulas estas voltadas para esclarecer o que é uma boa pergunta científica, como abordar e investigar esta pergunta e também algumas aulas dedicadas a como escrever um texto científico ou de divulgação de forma clara e que permita a transmissão do conhecimento para pessoas leigas, por exemplo, sempre tendo o meio ambiente e a ecologia como pano de fundo. 

Pela audiência fica claro que o tema é importante em todas as partes do mundo, não apenas em países em desenvolvimento como os da América Latina, mas também nos países desenvolvidos e com excelente qualidade de vida como Suécia e Finlândia.

Os destaques

No evento, ficou clara a necessidade de se buscar indicadores precoces de poluição ambiental, os chamados bioindicadores. Normalmente tratam-se de proteínas ou peptídeos que são expressos por organismos submetidos a algum agente tóxico, seja um composto químico como um agrotóxico, ou um metal pesado como o cádmio já falado mais acima. 

As células do organismo produzem estas proteínas para tentar se livrar da ação tóxica dos poluentes e assim seguir vivendo mesmo na presença daquele agente externo. Entender os mecanismos que induzem a formação destas proteínas e também identificá-las de forma precoce podem ser boas ferramentas para identificar problemas ambientais e cessá-los a tempo de um estrago maior. Foram apresentados resultados deste tema praticamente por todos os participantes, o que mostra a relevância do assunto.

Outro destaque foi a conferência do Prof. João Paulo Machado Torres (UFRJ), que mostrou algumas falhas na forma que a política de cuidados com o meio ambiente vem sendo conduzida no Brasil, principalmente na regulamentação de uso e depósitos de rejeitos químicos. O Prof. João Paulo mostrou áreas onde funcionaram fábricas de agrotóxicos ou onde existiam depósitos de rejeitos destas indústrias e que estavam isolados apenas por cercas pouco restritivas ou mesmo simplesmente sinalizados por placas de perigo.

Algumas imagens mostradas pelo Prof. João Paulo, traziam tambores metálicos amontoados em áreas a céu aberto onde estão já a mais de uma década! É fácil imaginar a condição estrutural destes tambores. Muitos estão completamente deteriorados e enferrujados, deixando claramente vazar os seus conteúdos tóxicos que podem ser carreados por ventos e pela água da chuva atingindo áreas vizinhas onde irão contaminar a fauna e a flora, além é claro de provocarem doenças na população que mora nestas cercanias. Isso sem falar na contaminação dos corpos d’água à medida que estes compostos tóxicos são carreados pela água das chuvas para nascentes e lençóis freáticos e mesmo para rios e lagoas, poluindo e devastando estes ecosistemas. Ainda é muito frágil a legislação ambiental no Brasil e ainda é muito incipiente a fiscalização por parte das autoridades competentes. 

Um destes compostos tóxicos é o conhecido óleo ascarel, que foi muito utilizado como combustível em transformadores de energia, destes que encontramos presos aos postes de cidades por todo o Brasil. O uso do ascarel foi proibido por este ser considerado tóxico e cancerígeno; no entanto não existe muito cuidado com os depósitos para onde foram levadas toneladas desta substância, e mesmo não se tem notícia de onde podem estar outras tantas toneladas que muito provavelmente foram descartadas de forma inapropriada por aí. 

O mesmo vale para produtos químicos que eram usados como agrotóxicos e que foram proibidos pelas autoridades sanitárias, mas que da mesma forma, não tiveram regulamentada a forma de descarte e mesmo de estocagem o que constitui um enorme perigo ao meio ambiente.

Outra apresentação bastante interessante foi feita pelo Dr Marlon Fonseca (UFRJ e UNIR). O Dr. Marlon é um médico que se dedica ao estudo das comunidades ribeirinhas na Amazônia, com destaque para aquelas na região do lago Puruzinho. É sabido que toda região amazônica sofreu com a corrida do ouro nos anos 80, e que por conta disso muitos rios e terrenos foram contaminados com mercúrio, um metal pesado utilizado pelos garimpeiros para separar as partículas de ouro dos sedimentos de rios e barrancos. 

O mercúrio é extremamente tóxico e no ambiente pode ser convertido ou organificado em metil-mercúrio que é ainda mais tóxico que o mercúrio metálico. Assim organismos como peixes e algas incorporam e acumulam mercúrio e metil-mercúrio, que acabam chegando ao homem através da ingestão deste peixe contaminado. Uma das ações tóxicas mais conhecidas do mercúrio é sobre as células do sistema nervoso, o que pode acarretar em problemas neurológicos graves. Estes são o objeto de estudo do Dr. Marlon. 

Curiosamente, na amostra de indivíduos pesquisada, o Dr Marlon não observou qualquer sequela naquela população que pudesse ser associada a exposição ao mercúrio. É fácil ver homens e jovens se equilibrando em canoas primitivas para a pesca, que é realizada por uma espécie de arpão lançado por estes pescadores. Ou seja, uma pessoa com problemas neurológicos jamais conseguiria se equilibrar naquelas canoas e mesmo arpoar o peixe com uso da força dos braços isso sem considerar a acuidade visual de enxergar a presa naquela água escura. 

Um dos motivos para esta falta de correlação entre a alta incidência de mercúrio na região e as poucas sequelas encontradas pode se dever a alimentação dos ribeirinhos, que não apenas tem o peixe como elemento principal, mas também conta com muitas frutas e raízes da região. Já foi comprovado em estudos que estas frutas e raízes apresentam grandes quantidades de substâncias antioxidantes, que estariam atuando na proteção destes organismos à exposição ao mercúrio e a outros metais. 

Um destes antioxidantes é o selênio, que normalmente é encontrado em baixíssimas concentrações nos alimentos em geral, mas que se encontra enriquecido em determinados frutos amazônicos. Desta forma, a própria natureza degradada e agredida estaria de alguma forma, contrabalançando esta agressão e permitindo que os ribeirinhos tenham uma vida normal.

As iniciativas contra a destruição do meio ambiente

O desenvolvimento sustentável é o modelo que permitirá desenvolver regiões como a Amazônia, sem que isso signifique destruição de ecosistemas. É preciso, no entanto que a  população esteja sempre alerta para as ações que podem vir a destruir o meio ambiente e por em risco toda uma região. Não nos faltam exemplos para isso. 

Barragens de indústrias para conter rejeitos tóxicos que podem romper como o que aconteceu aqui no Brasil em Minas Gerais e mais recentemente na Hungria - onde cidades inteiras foram alagadas com produtos tóxicos causando problemas inestimáveis. 

A prospecção de petróleo nos mares pode ser um ponto de altíssimo risco como visto este ano no golfo do México, onde milhões de litros de petróleo vazaram contaminando uma extensa área. O próprio transporte do petróleo e de seus derivados por navios petroleiros e mesmo por oleodutos pode por em risco ecosistemas por onde passam à medida que acidentes podem acontecer. 

No caso dos petroleiros, o caso clássico do Exxon Valdez, que afundou e despejou milhões de litros de petróleo no Alasca - no que é considerado o maior acidente ambiental de todos os tempos na América. Além disso, o desmatamento, a transposição de rios e a falta de regulamentação de uso e descarte de substâncias tóxicas constituem problemas muito sérios que devem estar na prioridade de todos os governos mundo afora para que nosso Planeta tenha minimizados os episódios de agressão e para que assim, nossos netos tenham um mundo menos poluído para viver.

Até a próxima!"