sábado, 2 de outubro de 2010

Sobretudo: "É Dilma na Cabeça!"


Eu ia escrever um texto com "13 Razões para Votar em Dilma Roussef", mas os afazeres da semana somados a uma gripe forte me deixaram sem condição para tal.

Entretanto, o leitor do Ouro de Tolo não ficará órfão de motivos para escolhar Dilma Roussef como sua opção à Presidência. Teremos, hoje e amanhã, dois textos com motivos para tal - o de amanhã, do professor Idelber Avelar, é bem semelhante com o que eu iria escrever.

Hoje temos um texto sensacional em nossa coluna de (quase) todos os sábados, a "Sobretudo". Assinada pelo publicitário Affonso Romero, faz um histórico e alerta ao leitor contra manobras golpistas - como eu mesmo já escrevi outras vezes aqui.

A coluna é um pouco longa, mas vale a leitura. Indispensável.

"O Voto Contra o Golpe

Brasil, 1954. Num país redemocratizado, o Presidente Getúlio Vargas sofre uma insidiosa campanha por parte da imprensa conservadora, liderada pelo jornalista Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa.

Em seu segundo período na Presidência, desta vez levado ao poder pelo voto, Getúlio usa de sua imensa popularidade para, depois de industrializar o País e imprimir uma legislação trabalhista, conduzir uma política nacionalista cujas maiores bandeiras eram a criação da Petrobrás e a regulação da atividade das empresas estrangeiras no Brasil.

Ao autorizar um aumento de 100% no salário-mínimo, Getúlio tem que se defender de um processo de impeachment e usa para isso sua maioria no Congresso. O capital norte-americano une-se aos políticos de direita da UDN, a setores do empresariado local, ao oficialato das forças armadas e à imprensa venal para manter o governo sob constante pressão.

O Governo Federal era acusado, principalmente, de grande corrupção e de atentar contra as liberdades e instituições democráticas.

Braço direito de Getúlio, o cão-de-guarda Gregório Fortunato se envolve numa tentativa de assassinato de Carlos Lacerda, que acaba por ferir de morte um major da Aeronáutica. Aumenta a pressão pela renúncia do Presidente, que é acusado de viver cercado de colaboradores corruptos. O caso, como se sabe, acaba com o suicídio de Getúlio e sua carta-testamento, em que denuncia os reais motivos de seus opositores.

Hoje, a História mostra que o tiro de Getulio abortou um golpe de Estado que já se encaminhava célere, tirando a vida do Presidente, mas dando mais um fiapo de sobrevida ao ciclo democrático brasileiro. Mostra também que realmente havia corrupção no seio do Governo, como aliás sempre houve ao longo de 500 anos de Brasil. Mostra que realmente havia episódios de abuso de poder, como fica claro no atentado elaborado por Gregório. Mas mostra que as intenções de pseudo-moralidade dos opositores de Getúlio eram pérfidas, não estavam a serviço do bem público, mas ao reboque de interesses contrários aos do povo brasileiro.

E Getúlio passou para a História como um dos maiores presidentes do Brasil.

Brasil, 1955. Pouco mais de um ano depois da morte de Vargas, um grupo de oficiais da Aeronáutica se opõe abertamente à posse do Presidente eleito Juscelino Kubitschek e de seu vice João Goulart (o ex-Ministro do Trabalho de Vargas que concedeu 100% de aumento do salário-mínimo). A UDN conservadora novamente levara uma surra nas urnas e seu porta-voz Carlos Lacerda e sua Tribuna da Imprensa eram mais uma vez utilizados para atacar a democracia.

Desta vez, foi o Marechal Henrique Lott quem evitou uma nova tentativa de golpe, garantindo a posse de Juscelino. Desde antes da posse, e até o último dia de governo, JK sofreu uma campanha permanente em que era acusado de corrupção e de atentar contra as instituições a partir de uma postura personalista.

A História hoje mostra que houve episódios de corrupção no Governo JK, principalmente durante a construção de Brasília, mas Juscelino também é reconhecido como um dos maiores Presidentes do Brasil.

Brasil, 1961. Depois de uma campanha carregada de mensagens moralistas, com a proposta de limpar o Brasil da corrupção, tendo como símbolo uma vassoura e apoiado pela UDN de Lacerda, Jânio Quadros tenta costurar seu governo recém-eleito. Sem maioria no Congresso (ainda dominado por PSD e PTB) e tendo como vice o opositor João Goulart (as eleições de Presidente e vice eram dissociadas), Jânio afasta-se da UDN. É o suficiente para ser massacrado pela pena de Lacerda, exímio articulista.

Vendo-se isolado e sob ameaça de golpe, Jânio tenta tomar o poder absoluto por aclamação popular, valendo-se para isso um auto-golpe, um ato desesperado de renúncia. Revelando menos coragem que Getúlio, Jânio cai, deixando um vácuo de poder. Lacerda e as forças conservadoras tentar impedir a posse do Vice-Presidente. É imposto um período de parlamentarismo. Mais uma vez, a ordem democrática é derrubada pela dita “imprensa livre”.

João Goulart sofre, durante todo o seu governo, um incessante ataque, acusado de corrupção, de incentivar a subversão, de atacar a democracia com a suposta intenção de transformar o Brasil numa sociedade totalitária socialista.

Brasil, 1964. Com o apoio das mesmas forças que tentaram o golpe contra Getúlio, contra JK e contra Jânio, em 1° de abril um golpe militar finalmente consegue o intento de derrubar a democracia. Baseado nos mesmos argumentos de falsa moralidade pública, com o apoio irrestrito de toda a grande imprensa nacional, com conivência das classes dominantes e da alta classe média, com logística norte-americana, conforme pode hoje ser contado pela História oficial e extra-oficial.

Um longe período de trevas se abate sobre o Brasil a partir de então. A corrupção cresce ainda mais, as instituições civis são, uma a uma, destruídas. A ponto de até mesmo alguns dos articuladores do golpe de 64, entre eles setores da imprensa conservadora e o próprio Carlos Lacerda, arrependerem-se do apoio aos militares.

Brasil, 1992. Primeiro Presidente eleito pelo voto direto desde o golpe de 64, Fernando Collor faz um governo cheio de erros, mas com um acerto fundamental: abrir alguns setores cartoriais da economia à concorrência internacional. Esta iniciativa contrariaria muitos elos da corrente conservadora que o ajudou a se eleger, dentre as quais a grande imprensa e a classe empresarial nacional. Aos poucos, cai a máscara moralista de falso “Caçador de Marajás” e Collor passa, ele mesmo, a ser a caça. Em meio a um processo de impeachment, Collor deixa o Governo.

Ressalte-se que ele não dispunha de base orgânica ou parlamentar, pois seu partido, o PRN, tinha uma bancada mínima no Congresso Nacional. Isso foi importante para a sua derrubada, pois o seu relacionamento com o Congresso era péssimo.

Hoje, a História começa a mostrar que, para além dos motivos reais que tornaram seu governo um escândalo, os fatores que mais contribuíram nos bastidores de sua queda diriam mais da falta de honra de seus opositores do que de seu próprio séquito de marginais encastelados no Governo Federal.

Brasil, 2003. Lula assume finalmente o Governo brasileiro, alcançando a vitória eleitoral depois de sofrer sucessivas derrotas. Em algumas dessas derrotas, foi vítima de armações urdidas por seus adversários com a conivência ou participação direta da grande imprensa.

Como na eleição de Collor, em que uma vídeo-edição do debate entre os candidatos veiculada pela Rede Globo em seu Jornal Nacional pode ter mudado os rumos das urnas. (a mesma Globo que, anos antes, havia participado de uma armação contra Leonel Brizola na eleição para o Governo do Estado do Rio). Ainda em 89, o Jornal do Brasil lançou para Collor uma das maiores baixarias eleitorais até então, a divulgação-relâmpago de Lurian Cordeiro, na época menor de idade, filha ilegítima de Lula. 

Em 1995, a imprensa participou da mitificação de FHC, um não-economista que teria sido o pai da política anti-inflacionária de Itamar Franco. Em 1998, ignorou quando o mesmo FHC subornou o Congresso para conseguir a emenda da reeleição. E, na eleição de 2002, fez coro ao clima de terror imposto ao eleitor, repercutindo que Lula levaria o Brasil de volta ao ciclo inflacionário, afugentaria capitais, faria um governo socialista, perseguiria religiões e outras barbaridades não confirmadas nos anos seguintes, campanha fascista cujo símbolo perfeito foi a fala da falsamente apavorada atriz Regina Duarte no horário eleitoral do PSDB.

Durante todo o seu governo, Lula viu-se acusado das mesmas coisas de que já foram acusados, com maior ou menor intensidade, com maior ou menor fundo de verdade, Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, Jânio Quadros, João Goulart, Fernando Collor e tantos outros que se colocaram, total ou parcialmente, contra os interesses econômicos de uma elite colonizada que deseja a perpetuação de um Brasil pobre, cartorial, dependente, subdesenvolvido, sectário, americanófilo, analfabeto, inculto, acorrentado.

Lula resistiu ao golpismo permanente e alcançou seu segundo mandato pela via democrática. Entre erros graves e acertos constantes, navegando pelo mar de lama instalado na política e administração pública brasileiras desde que a primeira nau de Cabral aportou na Bahia (pelo menos), Lula e seu partido conduziram o Brasil a um novo patamar econômico e social.

É bem verdade que, como alegam os experts de plantão, o atual Governo herdou sementes plantadas por seu antecessor. Bem como é verdade que herdou males e vícios. O propinoduto, Marcus Valério e o mensalão, que contaminaram os primeiros anos de Governo, foram originados no Governo FHC, segundo as investigações exigidas pela própria oposição tucana. Outro exemplo é a bomba-relógio inflacionária deixada na cadeira de Lula por FHC, que os economistas do PT souberam desarmar.

Quanto às bases econômicas e aos proto-projetos de programas sociais e demais virtudes atribuídas ao período FHC, se verdadeiras, também não constam do repertório tucano qualquer agradecimento ou reconhecimento do que tivessem conseguido graças aos seus antecessores Itamar Franco e, principalmente, Fernando Collor. Se Lula tem o mau hábito de se achar início e fim de todo avanço brasileiro, FHC e sua vaidade não ficaram atrás.

Política é assim mesmo: cada um que destaque seus resultados e desconsidere o que recebeu. E todos, igualmente, dão continuidade aos vícios e virtudes de seus antecessores. Com o diferencial de que apenas com Lula o Brasil deu o salto que deu. Lula pode até se pavonear além da realidade, mas os números não mentem, e os resultados do último período de 8 anos são impressionantes em todas as áreas, distribuem-se por todas as camadas sociais e regiões do País. Deve ser duro para a vaidade do Doutor pela Sorbonne Fernando Henrique Cardoso assistir ao assim chamado semi-analfabeto Luis Inácio da Silva obter para o Brasil conquistas que ele jamais sequer ousou alcançar. É a metáfora pronta de como se sente a elite dirigente, que não construiu uma nação em 500 anos, mas vê o povo tomar as rédeas e construí-la.

Até recentemente, diziam que a diferença a favor de Lula é que ele teve a sorte de passar seu governo sem ter enfrentado sequer uma crise econômica no mundo, enquanto o Brasil de FHC sucumbiu a diversas delas. A imprensa “livre” foi porta-voz insistente deste argumento.

A crise de 2008, a maior crise econômica mundial desde quase 80 anos, muito maior que qualquer turbulência que FHC tenha enfrentado, jogou por terra esta linha de raciocínio, uma vez que o Brasil tenha saído dela fortalecido em relação a seus competidores internacionais.

Tudo isso deu a Lula um cacife que FHC não teve: fazer sua própria sucessão. E, por fazê-la, foi acusado de personalismo, de inverter a lógica democrática que implicaria numa neutralidade presidencial, em uma pseudo-liturgia de cargo recém-inventada.

Como se Itamar não tivesse ajudado a eleger FHC (sob a conivência silenciosa da imprensa). Como se FHC não tivesse tentado fazer seu sucessor (sob o mesmo silêncio). Acontece que nenhum dos dois teve o peso que Lula está tendo agora. Porque nenhum dos dois era Lula, porque “nunca antes na História deste País” um Presidente encerrou o mandato com 80% de aprovação popular.

E acusam o PT de tentar se perpetuar no poder. Como se não fosse legítimo a um partido detentor de tamanha aprovação popular tentar se manter no governo através do voto popular. Como se o PSDB não estivesse no Governo do Estado de São Paulo há duas décadas, legitimado pelo voto, apoiado pela imprensa, amparado em sua maioria na Assembléia local para barrar investigações, CPIs e abafar críticas da oposição.

Voltam-se contra Lula e o PT todas as lupas e purismos administrativos, como se apenas no Governo Federal houvesse transgressões. Apurar e fiscalizar é direito e dever da sociedade, e a imprensa livre é uma das ferramentas mais importantes para isso. Acusar ás vésperas de pleitos eleitorais é oportunismo barato, golpismo da pior espécie.

A Polícia Federal teve amparo e liberdade para investigar a tudo e a todos nestes 8 anos. Nenhum órgão de imprensa foi perseguido por denunciar o que quer que fosse. Mas tentam colar à imagem do Presidente a pecha de antidemocrata. Como assim? Será por que ele critica a imprensa em sua irresponsabilidade? Será por que ele questiona a estrutura da comunicação social no Brasil?

Ora, a mesma imprensa que julga que é democrático acusar antes de investigar, a mesma imprensa que pensa que é democrático que os mesmos grupos econômicos controlem simultaneamente rádio, tevê, internet, cabo, jornais e revistas, a mesma imprensa que se coloca acima da justiça e do interesse social, a mesma imprensa que constrange seus profissionais contratados e nega-lhes liberdade de pensamento, a mesma imprensa que faz-se de independente mas esmola por publicidade oficial, a mesma imprensa que confunde espaço editorial e factual, é a mesmíssima imprensa que se sente ofendida pela critica feita pelo Presidente Lula, negando-lhe o direito de livre expressão de opinião. E que nega-lhe o direito de apoiar livremente a candidatura de seu partido nas eleições, citando para tal uma “liturgia do cargo” que simplesmente inexiste em outras democracias. É ou não é uma maravilha de relativização dos conceitos de democracia e liberdade?

Ou não seria um direito inalienável do cidadão Luis Inácio emitir opinião pessoal acerca de voto e instituições? Assim como desagrada a mim a imprensa brasileira, com sua tradição golpista que remonta a muito antes de Carlos Lacerda e sua Tribuna, assim também o Lula não gosta da imprensa.

Não são os jornalistas, não é a imprensa, como instituição fundamental na construção de uma sociedade. São as poucas empresas de comunicação que, juntas, dominam de forma totalitária o jornalismo no Brasil. É o poder de 5 ou 6 famílias que controlam Abril, Globo, Folha e Estadão. Lula não goste de se ver criticado nas páginas dos jornais tanto quanto os donos de jornais não gostam de se ver criticados nas falas do Lula.

Esta gente que representa hoje aquilo que já foi representado de forma mais talentosa pelo texto de Carlos Lacerda e sua infame Tribuna da Imprensa. Assim como o PSDB transformou-se no pior espectro da UDN golpista, falsamente moralista e ruim de voto. E sua frustração em não tocar o coração e a razão do eleitor – porque realmente não há identificação entre estes elitistas incompetentes engravatados e o povo brasileiro - faz deles golpistas de plantão. São eles que, depois de tantas e contundentes derrotas, desfazem da democracia e preparam o golpe.

Conhecer um pouco da História nos ajuda a perceber quando os mesmos argumentos e artifícios são usados, quando as mesmas forças se disfarçam mas voltam a rondar de forma idêntica, quando argumentos e fatos são distorcidos de forma indisfarçável, pelo mesmo tipo de gente, por detrás dos mesmos interesses.

Brasil, 2010. Amanhã, é inevitável que Dilma seja eleita pelo voto do povo brasileiro. Pelo fato simples e límpido de que, numa proporção acachapante de 4 para 1, o eleitor aprova o Governo Lula. Nem isso garante que cada uma dessas percepções do sucesso do Governo seja transformada em voto. Mas o tanto de voto “transferido” para a figura de Dilma garante esta vitória da democracia.

Mas há algo no ar quando, nas vésperas de uma eleição inquestionável, os editorias de todos os telejornais da Rede Globo, com ampla repercussão orquestrada pela imprensa escrita, destacam que “nem só de voto é feita a democracia”. Isso foi dito assim, às vésperas da festa dos votos, em rede nacional.

É o prenúncio do movimento golpista que surge no horizonte. O jogo duro daqueles que não sabem perder está sendo anunciado para quem queira escutar. O ataque à livre manifestação popular do voto está sendo ilustrado com a imagem recorrente de governos populistas ao longo da História mundial, e comparações de Lula com Perón, Chaves e até Hitler, que tentam confundir a população.

A guerra subterrânea travada contra Dilma no uso covarde de mensagens não identificadas na internet, a incitação ao levante, as menções distorcidas da atividade política dos candidatos na época da ditadura militar, as referências que misturam posições pessoais em um passado remoto e plataforma atual, tudo isso é uma baixaria que ofende a inteligência do eleitor e a construção de uma sociedade democrática.

A resposta a tudo isso tem que ser o voto. O resultado das urnas tem que ser contundente, tem que ser o sinalizador claro da sociedade de que não há espaço possível para um golpe ser armado no Brasil. É necessário, sobretudo, dar sustentação política ao novo governo na Câmara e no Senado, como se apresenta bastante provável segundo as pesquisas.

Existem lacerdas, tribunas da imprensa e UDNs de plantão. Como diria o Capitão Nascimento, “nunca serão”. E é o seu voto, caro (e)leitor, que gritará nos ouvidos golpistas:

“PEDE PRA SAIR !!!”

O Brasil, o povo brasileiro, o voto e a democracia serão os campeões de amanhã. Bom voto e boa sorte, Brasil.

OS – Eu incentivaria que você leia também os seguintes textos:


Bissexta - "As Eleições Gaúchas"


Sábado, véspera de eleições.

Trago, antecipada pelo tema, mais uma coluna "Bissexta", assinada pelo advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é uma projeção sobre as eleições de amanhã no Rio Grande do Sul, estado no qual o advogado está radicado atualmente.

Boa leitura !

"Eleições 2010 no Extremo Sul

O Rio Grande do Sul, para onde me mudei há pouco mais de 3 anos, é um estado peculiar na política nacional. Ele é apenas o 5º em número de eleitores, mas sempre teve uma presença gigante na nossa história. Já teve, por exemplo, 6 presidentes (São Paulo e Rio, muitas vezes maiores, só tiveram 5 cada um, sendo que na conta do Rio entram FHC e Collor, que só nasceram nas terras fluminenses) e, graças ao longevo Getúlio Vargas, os gaúchos são os que mais tempo governaram o país. Bom, haja o que houver, não será agora que o povo gaudério há de retornar ao comando, porque Serra é paulista, Marina é acreana e Dilma, contrariando as aparências, é gaúcha adotiva, porque nasceu em Minas Gerais. Apesar disso, a eleição aqui merece um olhar mais de perto, pela simbologia de abrigar a candidata favorita e por tudo o que cerca a política local.

Para começar, a grande virada na campanha presidencial. De todos os estados, onde a oposição tinha mais certeza da vitória, mais até do que em SP, era por aqui mesmo. E Dilma deve ganhar – de forma não tão folgada, mas ganhará. A exemplo do que ocorre em muitos outros locais, os candidatos a deputados da oposição fogem da imagem do Serra como o diabo da cruz.

Na eleição para governador, uma peculiaridade gaúcha: desde a Abertura que restabeleceu as eleições diretas em 1982, nunca um governador conseguiu se reeleger ou fazer o seu sucessor, mostrando um viés de inconformidade bem alto. Assim deve ocorrer também agora, porque o candidato do PT, Tarso Genro, ameaça vencer já no primeiro turno.

O que chama atenção é a, para usar um termo da moda, “desidratação” de José Fogaça. Ele se reelegeu prefeito de Porto Alegre com folgas e era franco favorito quando a campanha começou, além de ter feito uma aliança com o PDT, que também é fortíssimo no estado. Ocorre que por conta da velha rixa contra o PT, o PMDB gaúcho é da banda Serrista. E Fogaça resolveu fazer uma campanha light, do tipo “vou governar com todas as forças”, nunca se comprometeu com nada, ninguém sabe de que lado ele está.

Essa postura pode ser uma virtude em Minas Gerais, mas é um pecado grave nos Pampas, porque aqui ou tu és Chimango ou tu és Maragato, ou tu és Grêmio ou tu és Inter, indecisão não é coisa que se preze. Fogaça cai um pouquinho a cada dia e ainda corre o risco de ser ultrapassada por Yeda, que, à despeito de ser pessimamente avaliada, pelo menos tem a hombridade de se apresentar sempre ao lado de Serra, de invocar FHC sem medo de parecer démodé e acaba canalizando para si o forte ranço antipetista de muitos eleitores.

No Senado, algo parecido. O PMDB disparou na frente com o ex-governador Germano Rigotto, que quase quebrou o tabu em 2006 e ficou a um passo da reeleição. Naquela época, o antipetismo era tão mobilizado que na semana que antecedia o primeiro turno começou uma campanha para migração de votos de Rigotto para Yeda, visando alijar o PT do 2º turno. Só que como essas coisas ninguém controla, a migração foi tão forte que Yeda não apenas ultrapassou Rigotto como deixou que Olívio Dutra também o superasse, por menos de 15 mil votos.

E não é que o Rigotto parece que vai repetir a dose? Tudo porque há uma candidata surpresa, Ana Amélia, uma jornalista de TV, já entrada em anos, muito popular. Como só há um candidato na coligação do PMDB e são dois votos, todos que votam em Rigotto votam em Ana Amélia também. E Paulo Paim, candidato do PT que andou patinando, cresceu junto com Tarso e Dilma, mas não consegue evitar que parte dos seus eleitores também vote em Ana Amélia, que é uma pessoa simpática, inteligente e cativante. As últimas pesquisas mostram Ana Amélia na frente, seguida bem de perto por Paulo Paim e Rigotto melancolicamente mais de 10 pontos percentuais atrás.

Nas eleições proporcionais, Manuela D´Ávila (foto), do PC do B, um fenômeno de votos em 2006, deve, novamente, ser a mais votada. Muito jovem, muito bonita e muito articulada, faz sucesso em todos os públicos, principalmente entre os mais jovens. O Tiririca do estado é o ex-goleiro Danrlei, ídolo gremista.

O Tiririca da eleição passada, Mano Changes, tenta a reeleição para a Assembléia Legislativa. Quem não mora por essas bandas não deve fazer idéia de quem se trata, mas o cidadão vem a ser vocalista da banda de rock Comunidade Ninjitsu e compositor do clássico “Ah, eu tô sem erva”, que dentre outros versos edificantes, prega: “A gatinha me disse que só sai comigo se eu tiver um baseado pra botar pro seu primo. O cara é cabeça, a mina também, descolando uma erva eu vou me dar bem, chapando o cara vai ficar liberado”. Pois vocês acreditam que esse malandro se candidata pelo PP (de Maluf e Dornelles) e foi candidato a vice-prefeito em 2008 em coligação com o DEM? Que coisa sensacional é a política brasileira! Em que lugar do mundo o partido de tons mais conservadores dentre todos abrigaria um roqueiro que se dedica a fazer apologia deslavada do uso de drogas?

Eu, particularmente, estou muito feliz, porque troquei meu domicílio eleitoral e, contrariando todos os prognósticos, não fui chamado para trabalhar de mesário (não sei porque espalham esse terrorismo) e ainda tive a chance de escolher a minha seção eleitoral, que fica em uma escola rigorosamente em frente ao meu prédio. Domingão tô lá e, se tudo der certo, 2º turno não haverá de rolar."


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Final de Semana - "Sandra Rosa Madalena"



Em uma semana com posts "sérios", de eleição, um ícone da cultura brega brasileira: "Sandra Rosa Madalena", Sidney Magal. Em clipe de 1979, do Fantástico. Reparem na exuberância das roupas e das formas...

Bom final de semana. E vote certo, vote Dilma Roussef.

Sandra Rosa Madalena
(Sidnei Magal)

"Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar
Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar

Ela é bonita, seus cabelos muito negros
E o seu corpo faz meu corpo delirar
O seu olhar desperta em mim uma vontade
De enlouquecer, de me perder, de me entregar

Quando ela dança todo mundo se agita
E o povo grita o seu nome sem parar
É a cigana Sandra Rosa Madalena
É a mulher com quem eu vivo a sonhar

Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar
Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar

Dentro de mim mantenho acesa uma chama
Que se inflama se ela está perto de mim
Queria ser todas as coisas que ela gosta
Queria ser o seu princípio e ser seu fim"


Panorama das Eleições Cariocas


As eleições cariocas vem se manifestando por uma previsibilidade espantosa nas eleições para Governador e por algumas boas e possíveis surpresas no pleito para o Senado.

O atual Governador Sérgio Cabral vem navegando em mares tranquilos desde o início da campanha. Ele reeditou no Estado a mesma coligação que sustenta a candidatura de Dilma Roussef no plano federal, composta pelo PMDB, pelo PT, PDT, PSB, PC do B e outros partidos menores.

Tenho restrições ao primeiro mandato - as quais escreverei abaixo - mas parece claro que a avaliação da população é de que os êxitos superaram amplamente os fracassos. Como principais pontos positivos, destacaria:

1) O excelente relacionamento com o governo federal

Depois de oito anos sendo tratado a "pão seco" pelo Governo Fernando Henrique Cardoso - o estado era o último colocado em repasses federais - verificou-se um entendimento constante entre o Governador e o Presidente Lula. Com isso, diversas obras e projetos com recursos federais foram desenvolvidos e iniciados, culminando com a conquista da fase final da Copa do mundo e, em especial, os Jogos Olímpicos de 2016.

Também deve-se ressaltar que estes investimentos tiveram um efeito indutor na criação de empregos no estado.

2) O bom desempenho da economia

Após anos de estagnação, o Rio de Janeiro foi o estado com o maior número de empregos criados no período, bem como aumento da massa salarial real constante. Novos investimentos, alguns ajustes na estrutura do ICMS e um bom relacionamento com a Petrobras, além da situação da economia brasileira como um todo permitiram a expansão econômica do estado de forma consistente neste período.

Ressalto o papel da Petrobras neste processo. A petroleira possui um peso fundamental na economia do estado, e sua recuperação empreendida pelo Governo Federal teve uma influência muito grande na economia do estado. Basta lembrar que a decisão de nacionalizar ao máximo as compras da empresa revitalizou a indústria naval carioca, permitindo a geração de empregos e o renascimento de uma tradicional atividade econômica do Rio de Janeiro.

Lembro ao leitor que o Comperj, complexo petrolífero a ser instalado em Itaboraí, irá proporcionar aproximadamente trezentos mil novos empregos, o que trará uma nova dinâmica econômica àquela região.

3) As UPPs

As Unidades de Polícia Pacificadora, em que pesem as várias ressalvas que eu faço, proporcionaram ao cidadão - em especial o formador de opinião - uma sensação de segurança que se revela agora nos índices de voto. Consideraria que a expansão do emprego e da renda também trouxe um efeito indutor da redução dos números de criminalidade, mas sem dúvida alguma as UPPs se converteram em eficientes instrumentos de propaganda.

4) UPAs

As Unidades de Pronto Atendimento trouxeram à saúde um efeito parecido com o produzido pelas UPPs. Avalio que estas unidades diminuíram a superlotação nos hospitais gerais e isto trouxe à população uma sensação de melhor e maior atendimento.

Negativamente, ressalto:

1) A Polícia e a Política de Segurança.

Os leitores assíduos sabem o quão crítico sou tanto da política de segurança quanto da Polícia. Prevalecem o extermínio, a força bruta e as execuções sumárias, muitas vezes de inocentes. Não se prendem bandidos a fim de não complicar para pessoas consideradas acima de qualquer suspeita. Mata-se.

Ressalto também uma certa complacência com o problema seríssimo das milícias, apesar do bom trabalho empreendido pela CPI da Assembléia Legislativa presidida pelo deputado Marcelo Freixo.

A Poícia, hoje, é uma questão seríssima, que só poderá ser resolvida com sua refundação. Matança, corrupção e "jogo duplo" são a constante hoje.

2) O PMDB

Os políticos que dão sustentação política ao governador são, no mínimo, polêmicos. Próceres como Jorge Picciani e Paulo Melo podem ser considerados verdadeiros "gênios financeiros", pois adquiriram um patrimônio considerável depois da entrada na política. Picciani, hoje, é um dos maiores empresários do ramo de reprodução bovina do Brasil, dono de bois que chegam a valer na casa dos milhões.

O "rolo compressor" do governador na Assembléia Legislativa abafou muitas das denúncias contra os políticos em questão, mas esta é uma seara onde claramente há problemas. O padrão moral não é dos maiores, para se dizer o menos.

3) Educação

Em poucas palavras, muito pouco foi feito. Pode melhorar, e acredito que um retorno à idéia do Professor Darcy Ribeiro para os Cieps possa melhorar a questão com o ensino em tempo integral. Uma maior valorização dos professores também se faz necessária.


4) As blitzes de IPVA e "Lei Seca"

Muita pirotecnia e pouco resultado. Transtorno ao cidadão, que perde muito tempo na madrugada e se sujeita a arrastões como os verificados na Avenida Brasil. Blitzes de IPVA na hora do rush.

Chama a atenção o fato de quase 95% dos carros apreendidos nas operações de Lei Seca serem devido a problemas com IPVA e multas vencidas, não por causa de consumo excessivo de álcool.

Por outro lado, as demais opções são tíbias, para se dizer o menos.

Fernando Gabeira é um pastiche do político que tem a história de vida que representa. Se a eleição fosse para prefeito do Leblon se elegeria facilmente, mas sua plataforma elitista e excludente não encontra muito eco. Ele representa aquela fatia do eleitorado que advoga que pobre deve ser tratado pela Polícia, mendigo afogado no Rio Guandu, que a praia passasse a ser paga e que deveria ser erguido um muro entre as Zonas Sul e Norte. Gabeira jogou sua história no lixo ao aderir ao conservadorismo "neocon" mais deslavado.

Lembro também aos leitores que os filhos do ex-Governador Marcello Alencar seriam uma espécie de "eminência parda" em um eventual Governo Gabeira. Particularmente tenho calafrios só de imaginar estes dois sujeitos de novo com as chaves dos cofres públicos estaduais...

Seu xará Peregrino é uma espécie de "laranja" do ex-Govarnador Anthony Garotinho. Acho que não preciso escrever mais nada, o leitor compreende. E os demais candidatos representam propostas políticas muito particulares e não são representativos do quadro eleitoral carioca.

Confesso que este é o único voto em que tenho dúvida. Estou entre anular ou dar um "apoio crítico" ao atual governador, esperando que se dê uma guinada mais representativa à esquerda em seu segundo mandato - certo segundo as pesquisas de opinião.



A grande novidade está na eleição para o Senado.

Como vêem pela pesquisa acima (Ibope - 24/09) as esquerdas estão próximas de conquistar a primeira eleição majoritária no Rio de Janeiro desde 1998, quando Roberto Saturnino Braga se elegeu Senador pelo PSB. Da forma como havia previsto na série de artigos sobre a política carioca que escrevi em março, Lindberg Farias se mostrou um nome novo e com maior fôlego eleitoral para enfrentar a concorrência.

Confirmando sua eleição, Lindberg se torna um nome apto e com densidade eleitoral para suceder Sérgio Cabral no Governo do Estado em 2014. Parece que as esquerdas, e em especial o PT, finalmente irão começar a romper o predomínio da direita no quadro político carioca.

E isso pode ser medido de outra forma. De maneira surpreendente, e alvissareira, tudo indica que o ex-czar carioca Cesar Maia não se elegerá ao Senado, tendo, possivelmente, a carreira encerrada. Isto é uma grande notícia pois significa a queda do maior líder da direita carioca nos últimos quinze anos. Não parece haver um nome forte o suficiente para sucedê-lo - seu filho Rodrigo só deverá se reeleger deputado federal devido à saída de Índio da Costa do páreo, e Gabeira está no ocaso de sua vida - e este fato pode significar a criação de um vácuo de poder no estado.

A segunda vaga está mais perto do atual Senador Marcelo Crivella. Em que pesem suas ligações com a Igreja Universal do Reino de Deus, foi um fiel apoiador do Governo Lula e conseguiu passar incólume por diversos escândalos legislativos. O já citado Picciani cresce na reta final com o apoio maciço da máquina estadual, e não será uma surpresa se ele desbancar Crivella na reta final.

Voto em Lindberg e em Crivella, muito mais contra Cesar Maia e Picciani que a favor do Bispo. Seria interessante ver o atual Presidente da Assembléia Legislativa sem mandato, a fim de se destrancar os vários processos parados contra ele.

Finalizando, um panorama para as eleições proporcionais.

Estas são mais difíceis de se prever pois metade do eleitorado só define voto nas vésperas da eleição. Segundo estimativa do deputado Chico Alencar (PSOL), o quociente eleitoral exigido para um partido eleger um deputado deverá ser de 185 mil votos para deputado federal e 125 mil para estadual.

Isso cria problemas para o próprio PSOL, onde Alencar e Marcelo Freixo devem ter expressivas votações mas correm sério risco de não se reelegerem - a chapa restante não tem nomes expressivos eleitoralmente. No caso de Freixo, isso significaria risco de vida, devido à sua atuação contra as milícias.

Por outro lado, o ex-governador Garotinho deverá ser o mais votado para federal, e seus estimados 400 mil votos devem eleger mais um ou dois deputados pela sua coligação.

Last not but least, Dilma Roussef deverá ter uma votação expressiva no Rio de Janeiro. Os tucanos paulistas são odiados aqui - não sem motivo - e a propalada 'onda verde' não passa de minguadas seções eleitorais da Zona Sul. Dilma Roussef deverá ter algo entre 60 e 65% dos votos válidos no estado.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As eleições presidenciais e o petróleo


O leitor do Ouro de Tolo sabe que me interesso bastante pelo assunto "petróleo". Afinal de contas, eu trabalho na área e qualquer mudança de direcionamento no tema me afeta diariamente em meu cotidiano.

Procurei pesquisar na internet os programas de governo para o tema dos três principais candidatos a Presidente, e analisar um pouco do que issso pode representar ao futuro imediato da Petrobras. Entretanto, não há qualquer menção à empresa em nenhum dos sites de campanha, o que nos leva a fazer a análise em cima dos histórico destes últimos oito anos.

O site de campanha da candidata Dilma Roussef traz um programa de governo bastante resumido, mais focado na questão social. Entretanto, a candidata vem pregando a continuidade das políticas do governo atual, o que torna bem mais claro o quadro.

Com a capitalização da Petrobras ocorrida recentemente, aumentando a parcela do Estado na companhia, e o novo marco regulatório aprovado, em um governo Dilma Roussef certamente teremos o ouro negro visto sob a perspectiva de um bem estratégico, nacional e importante no jogo geopolítico mundial. O ambicioso e factível programa de investimentos da empresa será levado à cabo e a valorização de recursos humanos e da própria empresa também continua.

Por outro lado, as empresas multinacionais, embora com presença restrita, devem obter bons lucros na parte exploratória que lhe cabe - muitas delas ainda remanescentes de áreas licitadas sob o antigo regime de concessão. Pode-se pensar na petroleira brasileira como uma empresa de peso e influência decisivas no mercado energético mundial.

Aproveito para ressalvar que não somente a Petrobras não depende em um único centavo de dinheiro público como ainda é a maior pagadora de impostos deste país.

José Serra - o conjunto de propostas apresentado em seu site consegue ser ainda mais resumido. Minha análise é feita a partir da política para o setor no Governo FHC e à atuação dos partidos da coligação na discussão pelo Congresso Nacional do novo marco regulatório.

O Governo Fernando Henrique notabilizou-se pela quebra do monopólio estatal do petróleo, pela criação de uma agência reguladora - a ANP, francamente hostil à Petrobras - e por uma política progressiva de desmonte da estatal brasileira. Foi aprovado o regime de concessão para exploração de petróleo, onde as empresas estrangeiras possuíam condições discricionárias favoráveis.

Por outro lado, desvalorizou-se o quadro técnico da cia, a empresa foi radicalmente departamentalizada a fim de permitir uma futura privatização "em fatias" e proibiram-se durante 12 anos (entre 1990 e 2002) os concursos públicos para admissão de pessoal. Somente após uma exigência do Tribunal de Contas é que em 2002, último ano de mandato, fez-se concurso para os quadros da estatal - a terceirização havia chegado a tal ponto que haviam geólogos terceirizados diretamente em sondas de exploração à época. Isso fora outros fatos que infelizmente não posso escrever aqui.

No recente debate sobre o novo marco regulatório a atuação dos deputados e senadores do PSDB foi de defesa intransigente dos interesses das empresas estrangeiras e da redução do papel e do tamanho da Petrobras. Inclusive com assessoria de empresas americanas, sediadas em Houston.

Acredito que em um eventual Governo Serra se retome a política de FHC, com nova proibição de concursos, redução do tamanho da empresa e desvalorização salarial e profissional do quadro técnico da estatal. Retomada do modelo de concessões com preferência às empresas estrangeiras, o petróleo tratado como uma "commodity" com depleção (esgotamento) rápido das reservas e não se pode descartar a possibilidade de demissões em massa e eventual privatização.

Marina Silva - em seu site, o programa de governo da candidata faz duas rápidas referências ao setor, a meu ver contraditórias:

"j. Gestão estratégica dos recursos naturais não renováveis – O Brasil tem uma das maiores reservas de recursos minerais, petróleo e gás no planeta. Porém, esses recursos são por natureza finitos e, portanto, devem ser geridos de forma estratégica para garantir o abastecimento ao mesmo tempo que prepara o futuro independente destes.

O acesso à exploração dos recursos minerais deve ser revisto para torná-lo mais transparente e competitivo, devendo prevalecer os empreendimentos que consigam combinar os maiores valores de royalties com os melhores padrões de desempenho social e ambiental."


Ou seja, no primeiro parágrafo se coloca como um bem estratégico, mas em sequência transparece que irá retornar ao modelo de concessões e diminuir a importância da Petrobras. Sinceramente, é uma incógnita.

Por outro lado, sabe-se que a proposta de governo com "verniz ambiental" possui um certo preconceito contra a exploração de petróleo - que é perfeitamente segura se observados os procedimentos adequados. A petrobras é uma das empresas mais avançadas neste aspecto - um acidente como o do Golfo do México dificilmente ocorreria em uma plataforma brasileira.

Concluo afirmando que em termos de geopolítica, inserção internacional e política para o setor o modelo adotado nos últimos anos é o que melhor se adequa às necessidades do país. Por outro lado seria interessante que os candidatos do PSDB e do PV explicitassem suas propostas para a área, que hoje é parte importantíssima da economia brasileira e indutora de investimentos, emprego e renda.

Ressalto que esta é minha opinião pessoal e que em nenhum momento falo em nome da Petrobras ou representando a opinião da empresa.

(Foto: Visita do Presidente Lula à Refinaria Landulpho Alves. Petrobras.)

Sem Surpresas. Mais Uma Vergonha


Bom, a notícia palpitante das eleições hoje é a inacreditável interferência do candidato do PSDB José Serra na decisão do Supremo Tribunal Federal que avaliava recurso do PT sobre a exigência de dois documentos para o voto.

Segundo o jornal francamente serrista Folha de São Paulo, o candidato e o juiz Gilmar Mendes - sempre ele - falaram ao telefone por volta das catorze horas de ontem, pouco antes da sessão plenária do Tribunal. Coincidentemente o juiz pediu vistas ao processo quando o resultado já indicava sete a zero para a derrubada da exigência, o que dá a entender que houve algum tipo de combinação entre ele e o candidato a fim de impor a opinião de uma corrente política sobre a estrutura do Supremo Tribunal Federal.

A expectativa é de que o julgamento seja retomado hoje, mas havia a possibilidade de o juiz citado somente pronunciar-se na segunda feira, após as eleições - e a exigência, que interessa ao PSDB, valeria mesmo com a decisão irreversível contrária do Tribunal.

Como a candidata do PT possui em média um eleitorado menos escolarizado - beneficiado mais fortemente pelo avanço da economia - e com uma predominância esmagadora no Nordeste, o interesse é impedir a votação de parte deste eleitorado, aumentando a abstenção e, consequentemente, diminuindo a votação de Dilma Roussef - provavelmente levando o pleito para o segundo turno. Notem que houve enchentes representativas no Nordeste este ano e que o Tribunal Superior Eleitoral simplesmente deixou para divulgar a exigência em rede nacional a poucos dias das eleições.

Na prática, a idéia é restringir o voto dentro daquela antiga idéia de que "o pobre não sabe votar".

Durante a semana havia um movimento de Tribunais Regionais Eleitorais de vários estados no sentido de se revogar a resolução. Havia o temor de tumultos nas seções eleitorais devido à parca divulgação dada à exigência. Construía-se um consenso de que a medida precisaria ser melhor estudada - e talvez revelasse-se inócua devido ao recadastramento previsto para os próximos dois anos.

Entretanto, repetindo sua conduta como presidente do Tribunal, onde predominou por interferir indevidamente nas atividades do Executivo e do Legislativo - sempre com decisões a favor da corrente política representada pelo PSDB - o citado juiz tomou uma decisão no sentido de atender a interesses nem sempre republicanos.

Não custa lembrar, como já escrevi aqui outras vezes, que o citado juiz foi Advogado Geral da União do Governo Fernando Henrique Cardoso. Dedicou-se a perseguir os movimentos sociais e orgulhava-se de "ter posto os sindicatos de joelhos" quando da série de greves de 1995. Também defendeu com especial dedicação os interesses da corporatocracia, ajudando a criar uma "blindagem" a toda e qualquer denúncia de irregularidades.

Gilmar Mendes também concedeu dois habeas corpus em tempo recorde para Daniel Dantas, em episódio que já comentei algumas vezes aqui. No Supremo sua atuação vem sendo a de proteger os interesses das grandes empresas e praticar um ativismo político incompatível com a imparcialidade que se exige de um ocupante da mais alta Casa do Poder Judiciário.

A nós, o povo, resta apenas lamentar que o STF esteja sendo usado neste jogo lamacento em que tornou a campanha eleitoral. Também reforça os rumores de que pode haver algum tipo de interrupção da ordem democrática em caso de derrota de José Serra, como escrevi aqui semana passada. Um golpe de Estado à moda hondurenha, via toga, não me parece algo impossível.

E depois ainda me ameaçam de processo quando eu escrevo que o Judiciário é pior que o Legislativo. Quem fiscaliza os juízes ?


Tempo Bom não Volta Mais - II


Os comentários do post referente à promoção trouxeram algumas idéias bastante interessantes.

Reproduzo aqui, comentando, algumas excelentes considerações feitas sobre o post "Tempo Bom Não Volta Mais" e que merecem serem discutidas mais detalhadamente. Não selecionei todos mas apenas aqueles que resumiam a idéia geral.

O desenho que coloco acima é um clássico citado por dez entre dez admiradoras dos desenhos da minha geração: a historinha do Pica Pau onde a bruxa fica fazendo uma espécie de "test drive" com as vassouras até achar a sua mágica. A frase "e lá vamos nós" dita pela bruxa se tornou um aforismo de minha geração.

O curioso é que o Pica-Pau é acusado de ser politicamente incorreto e desonesto, mas a mensagem passada pelo exemplar acima é justamente a inversa: a bruxa leva a pior justamente por não querer pagar o valor referente ao conserto de seu meio de transporte movido a piaçava.

Vamos por partes:

"Como pai de uma garotinha de 8 e de um homenzinho de 7 meses, e viciado em Football Manager, não tinha como deixar de mencionar ambos.

Uma das conversas que mais tenho com minha esposa é de como a infância hoje não tem mais a mesma qualidade de quando éramos crianças. As brincadeiras, os "pode e não pode", as músicas, os desenhos na TV... Tudo isso mudou demais.

E a maior preocupação da minha parte fica justamente no término precoce da infância. Crianças de 11, 12 anos já saem por aí sozinhas em shopping centers, em turminhas, querem distância dos pais, e pra muitas já rola "pegação".

Não sei o que esperar nos próximos anos, apenas vou tentar dar o melhor exemplo possível pros meus filhos, e tratar de ter tv a cabo em casa sempre, pois desenhos clássicos como Tom & Jerry, Papaléguas & Coiote, já não se fazem como antigamente."

(Rômulo Genu Neto - Curitiba)


Eu sempre falo que uma das causas do aumento da gravidez na adolescência é justamente a erotização precoce incentivada pela televisão. Além disso, práticas propagadas pelas telenovelas possuem bastante influência neste tipo de comportamento, gerando algumas consequências bastante indesejáveis. Cabe a nós pais educar e tentar diminuir estes efeitos na formação das crianças.




Uma coisa que parece brincadeira ou preconceito, mas não o é: quando eu tinha 18 anos, era raro encontrar uma menina da mesma idade que já tivesse experiência sexual. Meninos da mesma faixa etária normalmente tinham suas experiências com profissionais ou, em fenômeno que começava àquela época, com as namoradas "firmes". "Ficar" não existia, ou era muito restrito.

Hoje a minha percepção - respaldada por dados de pesquisas - aponta para o fato de que a maior parte dos jovens de 14 e 15 anos possui vida sexual ativa. Um adolescente de 15 anos, seja de que sexo for, hoje em média possui mais experiência que um jovem de 21, 22 tinha em meus tempos. Sem dúvida alguma a televisão teve influência decisiva neste processo, bem como a mediocrização crescente da cultura de massa e outros fatores.

Também percebo um certo "modismo" por práticas homossexuais na adolescência como reflexo da erotização cada vez mais precoce da sociedade. Na visita recente que fiz a Curitiba vi vários casos, especialmente de moças, com não mais do que catorze ou quinze anos namorando tranquilamente na rua, em especial na Praça do Japão. É um exemplo mas não é muito diferente do que ocorre em outras cidades.

Não que isso seja ruim, mas devemos e podemos esperar o completo amadurecimento da orientação sexual do indivíduo. Até porque uma pessoa bem resolvida sexualmente, sem influências externas, será mais feliz e mais saudável seja qual for a orientação dada.

E a culpa é do pobre do Pica Pau...

"Sem duvidas, indo com a maioria no post "Tempo bom não volta mais".

Uma das grandes discussões que tenho em diversas comunidades por aí é justamente sobre o quanto da magia e inocência se perdeu com o passar dos anos. Éramos crianças de verdade, daquelas que brincavam de boneca e jogavam bola... que chegavam aos 13, 14 anos fazendo o mesmo. Infelizmente, hoje em dia tudo o que vemos são pequenos adultos de 8 anos, assíduos em Malhação e outras novelas, preocupados em "ficar" e outras coisas que nossos pais ensinavam que "teriamos a vida inteira para fazer".

Pobres dessas novas gerações, que jamais sentirao o gostinho da velha infancia.

Otimo post, parabéns!"

(Yannah - não indicou a cidade)


Além destes fatores apontados, o concomitante crescimento da violência urbana, a diminuição dos espaços ao ar livre disponíveis para brincadeiras e uma certa "xenofobia" (no caso, contra pobres e pretos) "guetizou" demasiadamente as crianças e as levou a estar cada vez mais trancadas em suas casas, reféns da televisão e dos videogames.

Outro aspecto é que um "amadurecimento" precoce leva a um maior consumo por parte das famílias, pois cada vez mais cedo existe uma decisão por parte das crianças sobre o que elas querem ou não usar. Por isso que sou a favor da proibição de comerciais em canais infantis.

"Infelizmente estão querendo formatar, até mesmo, a infância. Hoje não se respeita, nem mesmo, a pureza da percepção infantil, que não vê maldade e malícia em tudo. O reflexo disso serão futuros adultos que aprenderam uma bondade falsa, que pouco tem a ver com a bondade espontânea, solidária...de respeito verdadeiro aos outros. Ao se depararem com um mundo tão diferente daquele que lhe foi ensinado, esses adultos não saberão como lidar com esse mundo tão imperfeito. Talvez até, terão a convicção de que a bondade verdadeira inexiste. "

(Eduardo Bormann - Rio de Janeiro)


É a hipocrisia que eu citei no artigo original: persegue-se o "politicamente correto", mas o que se vê em média na sociedade é uma prática cada vez mais egoísta e voltada ao hedonismo pessoal e à falta de caráter. O "Maravilhoso Mundo da Barbie" ensina às crianças, apenas, que o importante é consumir e competir. Isso gera adultos extremamente egocêntricos, quase cruéis.

Ainda reclamam dos políticos, mas esquecem-se de que eles são reflexo e consequência da sociedade. Nesta semana de eleições é uma reflexão que se faz necessária.

Nessa hora que entram contrabalançando o papel dos pais e, para quem segue, uma boa formação religiosa. É imprescindível.

"O tópico do post é muito interessante e a sua análise muito válida.

Gostaria de acrescentar à discussão:

- Não estou convencido que a nova versão dos desenhos tenha por objetivo apenas excluir cenas ou atitudes politicamente incorretas. Enquanto por certo esta prática é adotada (havia um desenho em que o Tom fumava um cigarro enquanto paquerava uma gatinha branca - e eu não me tornei fumante por isso) ela não basta para justificar o teor de alteração que é realizado.

Para mim estas atualizações têm muito a ver com a onda de relançamentos de Holywood por exemplo. Eu acho que há uma falta de criativadede generalizada. É a necessidade de se produzir um novo produto porém as condições criativas do desenho original não mais estão presentes e muitas vezes não basta dinheiro para criar algo que preste.

- Segundo, enquanto ocorre essa "limpeza conceitual" dos antigos desenhos e seriados (e de canções ou outras manifestações de nossa infância) por outro lado existe um ataque frontal ao caráter meio pueril daquela época. Os desenhos novos são mais consumistas, mais "realistas", em suma mais "invocados" ou "maneiros".

Como exemplo assisti esses dias ao novo Karate Kid. Uma série de elementos no novo filme são significativos tamanha a distância que o separam do original. Para não me estender no ponto basta dizer que enquanto o chute final do filme anterior era aquela coisa meio ridícula imitando um pato manco, o atual involve uma técnica de hipnotismo aliado a um chute voador duplo carpado ao estilo Dayane dos Santos. Po**a! Fora que o guri dá uns amassos na menina e é exímio dançarino de street dancer. Ah, e é marrento do início ao fim...

Concluíndo, enquanto "tentamos proteger" nossas crianças de comportamentos indesejáveis (quais seria a classificação desses comportamentos?) por outro lado estimulamos outra série de comportamentos talvez mais perniciosos (individualismo exacerbado, falta de educação, sexisismo infantil, etc.)

Vai saber... "

(Pedro Paulo - RJ)
 

Fecho de ouro. Vemos que os desenhos não possuem muita influência na formação da personalidade da criança, perto de outros fatores muito mais fortes. Entretanto, o mundo cai na hipocrisia de sempre apontar um culpado que irá servir de "boi de piranha" para que os verdadeiros responsáveis sigam impunes. É assim na política, na economia, no time de futebol...

No fundo, é a subordinação de tudo ao que o economista e escritor John Perkins chama, apropriadamente, de "corporatocracia". Todos a serviço das grandes empresas, preocupadas em lucros a curto prazo - ainda que isso signifique infâncias perdidas, famílias arruinadas pela dívida, alimentos transgênicos e repletos de agrotóxicos nocivos...

É o mundo do dinheiro. Cabe a nós se proteger e mudar este quadro.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mr. Beer and Miss Wine: "Etiqueta: você ainda precisará dela - Parte I"


Mais uma quarta feira e mais uma edição da coluna "Mr. Beer and Miss Wine", assinada pela consultora em eventos e historiadora Thatiane Manfredi. O texto de hoje aborda a etiqueta corporativa.

"As regras de etiqueta são uma espécie de código através do qual nós informamos aos outros que somos preparados para conviver harmoniosamente no grupo. Essas regras tratam basicamente do comportamento social, e englobam desde o modo de vestir-se adequadamente às mais diversas ocasiões, até os modos de comer, de frequentar ambientes públicos e, principalmente, de como relacionar-se com as pessoas.

A Etiqueta é um fenômeno da cultura popular, cujos ingredientes são a cordialidade, a generosidade e a hospitalidade.

Mas o que é ser bem educado? Podemos resumir em quatro conceitos básicos, a saber:

1) Seguir um conjunto de regras sociais de etiqueta acordados pela sociedade em que se vive.
2) Portar-se com ética, dignidade e respeito pelo outro.
3) Agir com naturalidade e de forma adequada a cada situação
4) Vale a pena lembrar que: bom humor aliado a tudo isso é fundamental!


Esse é um assunto muito extenso, por isso seguirá uma série de post quinzenais sobre o assunto. Começaremos com a etiqueta profissional.

A importância da etiqueta no mundo corporativo requer uma identidade profissional bem consolidada, habilidades sociais treinadas e uma imagem bem projetada. Um comportamento adequado, capacidade de comunicação e inteligência emocional aliados são fatores chave de sucesso. Vale um alerta: RH recruta pela qualificação e demite pelo comportamento. O profissional deve preocupar-se com qualidade de vida, marketing pessoal, boa apresentação, ser e parecer saudável, respeito ao próximo, desempenho profissional e com a manutenção de um ambiente de trabalho saudável para que tenha a possibilidade de se destacar no mercado.

Viver com cordialidade e segurança no trato social é algo que parte de uma importante premissa: conhecer a si mesmo e a cultura do ambiente em que vivemos. Aqui vão algumas dicas para facilitar a colocação desses conceitos em práticas:

Roupas em ambiente de trabalho

Na dúvida, opte sempre pelo clássico. Cuidado com moda e modismos. Cores escuras emagrecem e passam sobriedade e segurança; cores claras engordam e passam descontração - faça uma composição que equilibre estes dois fatores. Fuja do jeans, a não ser que o ambiente permita ou que seja “casual friday”. Muito cuidado com perfume. Muito mesmo!

Mulheres: evitem decotes e transparências, cuidado com babados e rendas, nunca deixem o sutiã visível, maquiagem deve ser discreta e funcional, optem sempre que possível por sapatos fechados. Homens: prefiram ternos escuros, a meia é uma extensão da calça por isso elas devem ser da mesma cor, exceto jeans, claro. Evitem gravatas de bichinhos, de crochê ou frouxa no colarinho, evitem camisa quadriculada ou listrada e cuidado com a combinação calçado e calça.

Pontualidade

Uma regra básica que apesar de indispensável é uma das mais desrespeitadas. Para profissionais e executivos atrasar-se em um encontro ou reunião de negócios é uma atitude injustificável. Simplesmente não se pode atrasar, salvo se ocorrer uma situação absolutamente imprevisível. E, neste caso, é preciso telefonar avisando.

Cumprimentos ao entrar e ao sair de ambientes fechados, tais como elevadores

Nos elevadores, o homem sempre deve segurar a porta para a entrada da mulher. Da mesma forma que idosos têm a preferência. Qualquer pessoa que entra no elevador deve cumprimentar aqueles que já estão dentro. Em elevadores de empresas, o homem deve entrar após a mulher e permitir a passagem para que ela saia primeiro. Se estiver muito cheio e essa delicadeza representar incômodo para as pessoas, o homem deve pedir licença e sair primeiro. Se duas pessoas forem descer no mesmo andar, o homem ou a pessoa mais jovem, deve abrir a porta para que a mulher ou o mais idoso saia do elevador.

Não confunda o profissional com o informal

Cuidado para não exceder nas festas de empresa, happy hours, jantares e almoços sociais. Saiba separar as coisas. Esteja sempre atento e seja cordial com todos, somos todos iguais e merecemos respeito. Jamais chame alguém na qual você tenha alguma relação profissional de 'querido', 'meu bem' ou 'benzinho'. Conheça os costumes  e usos de cada local e preste atenção aos detalhes. Lembre-se que cada cargo ou função demanda algumas posturas e responsabilidades diferentes e nunca trate de assuntos particulares próximos a pessoas que você tenha uma relação profissional.

Essas foram as primeiras dicas para etiqueta profissional. Como o assunto é extenso continuaremos nos próximos posts com mais dicas de comportamento profissional.

Aguardo vocês e até a próxima!"

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Samba de Terça - "Eu Prometo"



Após um longo interregno, eis que temos de volta a nossa coluna "Samba de Terça". E em semana de eleições, com um tema político.

A Caprichosos de Pilares vinha de uma série de enredos críticos e satíricos desde 1982, quando a escola ganhou o então Grupo 1B - equivalente ao Grupo de Acesso A de hoje em dia - com o inesquecível desfile sobre a feira. Em 1984, 85 e 86 a escola havia abordado a política tangencialmente nos enredos sobre o comediante Chico Anísio, sobre a Saudade - que já foi tema desta série - e sobre a americanização dos costumes.

Para 1987 a agremiação de Pilares resolveu falar de política diretamente. "Eu Prometo" seria o tema, buscando expressar concomitantemente a esperança dos brasileiros com a redemocratização recentíssima, por um lado, e ironizando as eternas promessas de candidatos por outro. O tema ganharia a assinatura do já consagrado carnavalesco Luis Fernando Reis, desta vez em parceria com Wany Araújo.

De certa forma, o enredo proposto era semelhante ao apresentado pelo Império Serrano no ano anterior, "Eu Quero". Entretanto, este abordava a esperança dos brasileiros por uma vida melhor, enquanto a Caprichosos enveredou pelo lado satírico. Questionando a "práxis" política da época - e de hoje também - e as promessas irreais de políticos que asseguravam mundos e fundos e viravam as costas para o povo que os havia elegido, a escola pretendia alertar e criticar a Assembléia Constituinte que então estava em vias de se iniciar.

Depois dos desfiles dos anos anteriores, a escola de Pilares era muito aguardada naquela ocasião. O samba de Evandro Bóia, Naldo do Cavaco e Toninho 70 se tornou sucesso imediato nas rádios do país no período pré-carnavalesco, ainda mais com o fracasso do Plano Cruzado, visto como essencialmente eleitoreiro. O samba fez tanto sucesso que muita gente considera que o título do enredo é "Ajoelhou tem que rezar", verso do refrão do samba naquela ocasião.

Entretanto, a preparação do desfile sofreria percalços devido ao desentendimento ocorrido entre os carnavalescos. Luis Fernando Reis defendia que as alegorias deveriam contar o enredo, enquanto seu assistente, que havia sido auxiliar de Joãozinho Trinta na Beija Flor advogava que os carros serviriam como "escada" para mulheres bonitas, de pouca roupa, exibindo-se para a platéia. Tal desavença prejudicaria demais a preparação da escola.

A Caprichosos foi a quarta escola a pisar no Sambódromo no domingo de carnaval, 01 de março de 1987. Embora muito aguardada pelo público, a escola fez um desfile bem aquém em termos plásticos do que se esperava, o que acabou refletindo na abertura dos envelopes dos jurados com apenas a décima segunda colocação, alcançando 196 pontos. Ressalto que este é um dos resultados mais questionados e polêmicos da história recente dos desfiles, onde a minha avaliação pessoal é que  o título conquistado pela Mangueira foi, no mínimo, uma aberração.

O certo é que Luis Fernando Reis se afastou da escola após este carnaval, retornando apenas para os carnavais de 1993 (outro bastante polêmico) e 1994. A Caprichosos abandonaria progressivamente a linha de enredos críticos que se tornara sua marca, tornando-se uma imagem desbotada na parede. Houve espasmos em 1989, 93 e 2005 - esta última contei aqui - com tentativas de retomar esta linha de sucesso, mas logo abandonadas.

Para 2011 a agremiação do subúrbio volta a buscar esta linha com o enredo "Gente Humilde", baseado na canção de mesmo nome e que contará a vida do morador do subúrbio. Torço para que a escola se reencontre com a sua linha e o seu sucesso.

Em tempo, 1987 também marca, como os leitores podem ver no vídeo acima, a estréia de Luma de Oliveira como madrinha de bateria da escola.

Abaixo disponibilizo a letra do samba e o áudio oficial do disco daquele ano - ainda em "long play". Notem que descontando-se as referências ao Plano Cruzado e à Constituinte como é atual o samba, 24 anos depois. O excesso de promessas dos políticos e a própria prática da atividade parlamentar se modificaram muito pouco nestes anos. Contudo, não podemos considerá-los como algo apartado da sociedade. Eles são reflexo - afinal de contas, nosso voto é que os colocou lá, como já escrevi em outras ocasiões. Pense nisso.

Finalizando, não posso deixar de lamentar o fato dos enredos críticos, irreverentes e "subversivos" terem sido praticamente banidos do carnaval carioca, em nome de um duvidoso comportamento politicamente correto, por um lado, e a busca incessante de patrocínios, por outro. Mas esta é outra história.

Ajoelhou, tem que rezar...




"Estou cansado de ser enganado
Papo furado é demagogia
Não vão encher (o quê ?)
A minha barriga vazia
Espero da constituinte
Em minha mesa muito pão
Uma poupança cheia de cruzados
E um carnaval com muita paz no coração

Vou deitar, rolar
Pular feliz
Essa é a vida
Que eu sempre quis


Vamos, meu povo
Democracia é participar
Vote, cante, grite
É tempo de mudar
Quem vive de promessa é Santo
E eu não sou santo, meu senhor
Seu deputado, eu votei
E agora posso exigir
Quero ver você cumprir
Seu lero lero, blá, blá, blá
Conversa mole isso aí
É papo pra boi dormir

Ajoelhou, tem que rezar
Não quero mais viver de ilusão
Você prometeu
Agora vai ter que pagar
Não vai me deixar na mão"



Bissexta: Reforma Política para Inglês Ver



Sei que hoje é terça feira, mas excepcionalmente temos uma edição da coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro. A coluna deveria ter sido publicada no último domingo, mas fiquei sem internet o final de semana inteiro devido a (mais uma) falha da Net.

O tema da coluna de hoje é a Reforma Política. Nesta semana de eleições, teremos um maior número de posts sobre política - inclusive a coluna "Samba de Terça" de hoje também abordará o tema.

Vamos ao texto:

"Reforma Política para Inglês Ver

Prometo que não falarei diretamente das eleições, mas o momento convida a uma reflexão sobre o ambiente político. Na enxurrada de temas que cada candidato é obrigado a discutir, um em especial me chamou atenção, porque é mais uma das ilusões recorrentes que merece ser de pronto demolida, para que viremos essa página e passemos a tratar de assuntos mais relevantes. 

Falo, obviamente, da reforma política, como o título já revelou. A cada dois anos entre o mês de agosto e outubro o país toca a discutir freneticamente a fragilidade do nosso modelo politico e qualquer candidato ou palpiteiro do ramo repete o mantra de que precisamos empreender uma “reforma política”, sem deixar muito claro do que se trata; mas sempre lembrando que é só isso que falta para nossas instituições entrarem nos trilhos. Contados os votos, todo mundo já pode voltar a falar da reforma tributária, campeã absoluta de audiência entre os crentes de que basta uma mexidinha básica na legislação para nos levar até Wonderland.

De vez em quando alguém saca uma idéia luminosa para contribuir ao debate. Uma delas, advinda de uma das 3 candidaturas presidenciais favoritas e muito apreciada entre a camada dos bens pensantes, sugere a implantação de uma constituinte exclusiva para fazer a reforma política, já que o Congresso Nacional tem “interesses”que viciariam o processo e impediriam que ele avançasse.

Em palavras mais diretas, a proposta quer dizer o seguinte: não contem com esses parlamentares mal intencionados, eles só pensam em si mesmo e não vão fazer nada para mudar o estado atual das coisas, que só lhes traz benefícios. Vamos eleger sangue novo para cuidar desse assunto, porque, descompromissados com a própria reeleição, eles só farão coisas boas.

É de estarrecer que gente do meio político que foi tão longe nessa carreira ainda possa ser ingênua a esse ponto. Digamos que essa proposta, em um lance de generosidade dos congressistas, fosse miraculosamente aprovada (sim, porque sem ruptura institucional como um golpe de estado ou uma revolução, a tal constituinte exclusiva precisaria ser aprovada pelo Congresso). Quem se candidataria à constituinte?

Resposta óbvia: outros políticos, que não foram eleitos para o Congresso. Seria, vamos dizer assim, uma espécie de repescagem, para a turma que ficou de fora na primeira chamada. Teoricamente, gente menos qualificada, com menos potencial eleitoral, menos representatividade. 

Ainda assim, vamos em frente. E por que raios essa 2a Divisão da política nacional é mais pura e menos interesseira do que a turma do Congresso? Quem bota a mão no fogo que as propostas a serem aprovadas pelos exclusivos constituintes não serão destinadas a protegê-los em eleições futuras? É muita crença na bondade humana! 

Eu, daqui do meu cantinho, também tenho uma pequena lista de sugestões para uma reforma política que honre esse nome: 

· fim do horário eleitoral gratuito e imposição de teto de gastos com campanha, para reduzir drasticamente o seu custo, código-fonte da corrupção (o Brasil deve ser o país com as campanhas eleitorais mais caras do planeta); 

· cláusula de barreira para existência de partidos políticos;

. Além da limitação de gastos por campanha, imposição do financiamento público, proibindo-se a captação de recursos por particulares.

· autorização para apresentação de candidaturas independentes, fora dos partidos; 

· proibição de remuneração para vereadores; 

· aumento (sim, aumento) da remuneração dos congressistas, em troca da extinção de todas as verbas de “representação”, inclusive passagens aéreas e hospedagem em Brasília (cada um que se vire com o belo salário que passar a receber); 

· limitação de 5 assessores por gabinete, todos eles nomeados diretamente pelo parlamentar; 

Como eu sou rodado o suficiente para saber que, da extrema-direita à extrema-esquerda há uma unanimidade na rejeição dessas propostas, sigo aqui quietinho, fazendo a minha parte de aceitar a realidade política em que vivo e procurar votar em candidatos razoavelmente bem intencionados, mas humanos, capazes de não se envergonharem de seus defeitos e não saírem por aí dando uma de Alice. Devo ser um imbecil, por acreditar que pequenas mudanças, porém exequíveis, agregam muito mais valor do que sonhos irrealizáveis."


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Resultado da Promoção - Camisa Autografada do Flamengo


Bom, chegou a hora de sabermos que será o feliz ganhador, ou ganhadora, que levará para casa uma camisa autografada do Mais Querido do Brasil.

Antes de mais nada queria agradecer aos 68 participantes, de longe a maior participação em uma promoção do Ouro de Tolo. A participante "Yannah" foi eliminada por não ter fornecido nenhum dos dados solicitados.

As cidades com maior número de participantes foram o Rio de Janeiro, com dezessete concorrentes, seguido por Brasília com dez e Porto Alegre com cinco. Tivemos participantes de trinta e uma cidades, inclusive algumas das quais não sabia de sua existência como Timón (Maranhão) e Sacramento (Minas Gerais).

O post mais indicado foi "Tempo Bom Não Volta Mais", com vinte e três indicações. Acredito que o fato de ser um texto recente, acrescentado de ser um tema que mexe com as lembranças dos leitores tenha contribuído para tal. Tivemos várias excelentes contribuições, as quais serão objeto de dois posts próximos, um sobre o post "vencedor" e outro com um resumo das opiniões. Lembro, também, que todos os posts possuem aberta a sua área de comentários, de maneira que a contribuição de você, leitor, é sempre bem vinda.

Sobre a mecânica do sorteio: utilizei-me da ferramenta web "Sorteios.PT", que é simples, rápida e que não permite direcionamentos. Como verão nas telas capturadas abaixo, na primeira tela colocam-se os participantes e quantos prêmios serão sorteados e, na tela seguinte, ele te dá o resultado. É muito interessante.

Antes de divulgar  o nome do sortudo(a), queria agradecer a Alexandre Souteiro (FlamengoNet), Warley Moerbeck (FlaEternamente) e Arthur Muhlemberg (Urublog) por terem divulgado a promoção; e a Sérgio Merçon pela parceria. Se você não foi o vencedor basta um e-mail para ele que se consegue adquirir uma camisa igual à sorteada por um preço justo.

A propósito, no início de novembro devo sortear uma segunda camisa autografada. Também estou negociando uma parceria para fazermos uma grande promoção de livros no último mês do ano.

Bom, chega de perorações. A vencedora da camisa autografada foi Letícia Ábrego, de Brasília.

Estarei enviando um e-mail com as instruções para o recebimento do prêmio, mas a ganhadora tem três dias para se manifestar. Ela também deverá enviar uma foto com a camisa, para que possamos colocá-la aqui e atestar a entrega do prêmio.

Parabéns à vencedora e obrigado a todos os participantes ! Espero tê-los sempre como leitores e comentaristas.


O fim dos Barbeiros


Era para ter escrito isso na semana passada, mas os afazeres não me permitiram que o fizesse.

O leitor mais atento do blog deve ter percebido que mudei o visual durante este ano. Abandonei a barba que cultivava há sete anos e optei por manter a "cara limpa", como se diz. Depois que raspei a barba venho mantendo-a lisa, mas às vezes deixo crescer cinco, seis dias - particularmente acho um porre ter de fazer a barba todos os dias.

Comprei até uma máquina daquelas de cabelo para auxiliar no processo, mas ainda assim preciso vencer a inércia. É algo muito chato.

Sábado retrasado fui comprar algumas coisas de que necessitava para minha casa e deparei-me com um destes salões de cabeleireiro "unissex" que grassam por aí. Dei sorte: havia quem cortasse meu cabelo e raspasse a barba. Nem sempre neste tipo de estabelecimento há profissionais que façam serviços direcionados ao público masculino, pois o foco é direcionado às mulheres - que, sejamos justos, é uma escolha mais racional pela quantidade de serviços e consequentemente lucros gerados por tal público.

Normalmente, quando há este tipo de profissional voltado aos serviços masculinos na verdade é um cabelereiro "comum" que "quebra um galho" e faz corte masculino. O salão ao lado do trabalho ao qual recorro em emergências é um caso clássico disso que descrevo.

Qual não foi minha surpresa ao ver um senhorzinho, já entrado em anos, para me atender. Pedi que passasse a máquina em meu cabelo, o que ele fez meio a contragosto - fazendo questão de usar a tesoura para fazer  um acabamento esmerado no corte. Até brinquei com ele que ele não devia utilizar muito a máquina.

Mas o surpreendente, então, foi verificar que a barba seria feita "à moda antiga". Rosto todo preenchido com espuma de barbear - e não estes cremes hidratantes que muitos lugares se utilizam, navalha devidamente utilizada e todo aquele ritual à moda de Noel Rosa e outros malandros e trabalhadores históricos.

Eu tenho o hábito de sempre bater papo com o cabeleireiro ou barbeiro que me atende. No outro estabelecimento que frequento na Ilha do Governador sembre conversava com os dois profisisonais que me atendiam.

Então fiquei sabendo que o barbeiro é uma profissão em extinção. O senhorzinho, do alto de seus 74 anos de idade, me explicou que não há mais interesse em ensinar o ofício aos mais jovens devido ao alto grau de especialização, ao predomínio dos salões "unissex" e devido à perda do hábito dos homens de fazerem a barba fora de casa.

O primeiro motivo é fácil de explicar. Eu paguei R$ 20 pela barba, um valor mais alto que outros locais, onde normalmente cobra-se R$ 15. Mas ao se comparar com o valor do corte - R$ 25 - percebe-se que o retorno é maior, e muitas vezes com um "homem-hora trabalhada" idêntico ou superior. Ao compararmos com um corte ou uma hidratação feminina, que chegam a custar cem, duzentos reais, fica claro o preço relativo inferior da barba para um dado tempo de trabalho.

A segunda razão é reflexo da "generalização" a que assistimos em todos os campos da vida corporativa. É mais valorizado pelo mercado um profissional que faça cabelo, barba, cabelo feminino, escova, "megahair", hidratação, massagem e outros badulaques associados. Então faz-se o básico, quando se oferece este serviço - a maioria dos salões denominados "unissex" não o faz. Tendo profissionais polivalentes a clientela espera menos e fica mais satisfeita, de acordo com os manuais 'modernos' de administração.

Finalizando, as restrições orçamentárias das famílias e o cada vez menor tempo livre disponível levaram os homens a preferirem fazer a barba em casa - é mais barato e mais rápido, embora sem a mesma qualidade. Com isso, a demanda pelo serviço diminui. 

Noto, porém, que com a melhora da economia o mercado para os barbeiros melhorou um pouco nos últimos três, quatro anos - minha percepção quando vou aos estabelecimentos é de que há mais gente procurando o serviço.

Resumindo, o quadro é que cada vez menos homens aprendem a arte da barbearia. Estabelecimentos como o da foto ilustrativa deste post são bem raros - na Ilha do Governador, onde moro, praticamente inexistem.

Ainda há outra questão que o veterano profissional comentou, que é a obrigatoriedade do uso de lâminas descartáveis nas navalhas. Isto é lei por causa do perigo de contágio do vírus HIV, mas a explicação dele é de que há perda de qualidade no serviço, porque a lâmina sempre afiada proporciona um corte mais rente. 

Como não cheguei a pegar o tempo das navalhas típicas, não posso concordar ou discordar da afirmação - mas levando-se em conta que só trabalhando na Ilha ele tem uma década a mais que eu tenho de vida (ele começou em 1965) e que tem 57 anos de experiência, ele deve estar com a razão. Obviamente, o motivo de saúde pública é nobre.

Curioso é que os dois profissionais que ele indicou como bons na área são justamente os que citei mais acima.

Penso que esta possível extinção dos barbeiros é reflexo de um mundo especialmente mais "genérico", mais "fast-food" e menos especializado. As tradições são muitas vezes abandonadas em nome de duvidosas modernidades. Claro que o progresso é necessário, mas é muito preocupante quando se extinguem coisas que poderiam perfeitamente ser mantidas, ainda que transformadas.

Em tempo: o serviço ficou muito bom. Tenho uma pele sensível e irritadiça, e saí sem um único corte e com o rosto bem mais liso que em outras ocasiões. Pena que o meu sobrinho com meses de vida - não tenho filhos homens - muito provavelmente não terá o prazer de ter uma barba tão bem feita.

Como os dinossauros, os barbeiros estarão extintos.

Uma pena.

P.S. - Em tempo, hoje é dia de São Cosme e São Damião, e de outra tradição que vem se perdendo: a corrida atrás de doces. Escrevi sobre o tema ano passado, e pode ser lido aqui.


domingo, 26 de setembro de 2010

O rufar da caixa portelense



Hoje, um domingo diferente.

Peço ao jornalista e amigo Marcelo Sudoh, lá de Tóquio, amigo, estudioso e grande conhecedor das baterias de escolas de samba, que trouxesse para o leitor um tema que debatemos na nossa lista de e-mails da PortelaWeb, o qual gere o site referência na escola do mesmo nome - do qual faço parte da equipe, embora um tanto quanto inativo.

O tema era a alteração da forma de tocar das caixas portelenses, que é magistralmente explicada no artigo. Apenas digo aos leitores que no ano em que desfilei na "Tabajara do Samba" (2004), sob outro mestre, muitos caixeiros trouxeram o instrumento nesta forma incorreta.

No vídeo acima, gravado por mim em janeiro deste ano, pode-se ver o trabalho do Mestre de Bateria portelense descrito no texto, de resgatar as tradições azuis e brancas.

Mas deixemos a explicação para o craque no assunto:

"O rufar da caixa portelense

Uma troca de e-mails na lista de debates da PortelaWEB sobre caixas-de-guerra chamou a atenção do autor do Ouro de Tolo, que me pediu para escrever um artigo sobre o tema.

Lá, eu chamava a atenção para uma foto de O Globo Online (2007) onde um ritmista da bateria da Portela toca uma caixa-de-guerra apoiando-a com o braço e contra o peito, sem precisar usar o talabarte (cinto que permite pendurar o instrumento ao ombro). Essa forma de tocar exige o uso de uma baqueta curta na mão esquerda que praticamente não produz volume de som. Apenas marca a cadência e o tempo da batida.

O som produzido não é a batida tradicional da Portrela e o ritmista não deveria estar tocando daquela forma. Daí a troca de em-mails na lista da PortelaWEB.

No livro "Baterias, o coração da escola de samba" (Litteris Editora, 2010), o autor, Julio Cesar Farias, aproveitou parte dos estudos que fiz sobre a caixa-de-guerra e o tarol preenchendo quatro páginas da obra com o tema. Nesse estudo, tento mostrar como esses dois instrumentos - que não são africanos - chegaram às escolas de samba. Não vou repetir aqui o que está detalhadamente explicado no livro. Mas o que parece ter levado o autor deste blog a me pedir para escrever este artigo talvez tenha sido a descrição do que acontece quando o ritmista toca um tarol usando talabarte.

Os taróis são mais finos que as caixas-de-guerra e, ao pendurá-los com o talabarte longo no ombro, eles dançam com o impacto da batida prejudicando a precisão do toque e comendo o corpo da baqueta. Além disso, o tarol usado com o talabarte longo fica de pé com a pele que se bate virada para a frente (quando o correto seria meio inclinado para cima) e a pele de trás colada ao corpo, abafando seu som. É impossível tirar um som perfeito do instrumento nessa situação.

Para resolver esse problema, os ritmistas passaram a tocar o tarol abraçado ao peito ou com um talabarte bem curto que faz com que a pele de trás do instrumento fique apontada por baixo do braço, resolvendo o abafamento.

Na década de 70, essa forma de tocar acabou sendo usada também para as caixas-de-guerra, onde se passou a usar uma mistura de toque de caixa (rufado) com toque de tarol (espalmado e sem rufo). Foi assim que as caixas passaram a ser tocadas em cima substituindo os taróis.

Não é uma regra seguida fielmente por todos, mas caixas rufadas são tocadas embaixo com o uso do talabarte longo e caixas não rufadas - ou ainda com toque de tarol - são usadas em cima com talabarte curto ou enlaçadas pelo braço apoiando o instrumento no peito (como na foto do portelense citada acima).

No entanto, os taróis ainda estão presentes em escolas como o Salgueiro e a Vila Isabel - dentre outras - , mas são instrumentos adaptados ao uso das escolas de samba e não os originais usados pelas bandas marciais que tinham esteiras em vez de bordões.

Da mesma forma, as antigas caixas-de-guerra - usadas em bandas marciais e outras manifestações folclóricas brasileiras como banda de pífanos, folia de reis e maracatus (onde a chamam de caixa de pelica) - também passaram por modificações para se adaptarem ao desfile das escolas.

Um fato importante a se ressaltar é que o toque da caixa (e de tarol) sem rufo permite aumentar a velocidade da batida, puxando o andamento da bateria para frente. E as caixas tocadas dessa forma começaram a aparecer justamente na década de 70, quando um maior andamento das baterias foi exigido devido ao tempo de desfile que passou a ser contado e a tirar pontos.

As caixas rufadas não desaparecerem, continuam vivas na Portela, na Mangueira e no Império - só para citar as três mais tradicionais. No entanto sua rufada "também se modificou", para que a escola não precisasse mudar totalmente essa característica em função da cronometragem.

Hoje, a caixa que se bate na Portela é o toque mais próximo do original e que serve as exigências do andamento do desfile. Essa mudança, que procurou preservar parte da identidade em meio as pressões do "show bussiness parade", foi trabalho de Mestre Marçal, que exigia que as caixas fossem batidas embaixo e com a rufada característica das escola. Mestre Nilo Sergio vem trabalhando para isso para a alegria de Oxóssi!"

P.S. - Aida dá tempo de participar do sorteio da camisa, até amanhã no final da manhã o leitor pode fazer a sua  inscrição. Basta seguir as instruções no post da última sexta feira.


sábado, 25 de setembro de 2010

Sobretudo


Mais um sábado, e mais uma edição da coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. O tema de hoje é uma argumentação insofismável a favor do Programa Bolsa Família, que funciona como um notável indutor de crescimento e de formação de uma mercado interno brasileiro, além de copiado por diversos outros países.

Faço um adendo ao indispensável texto: para ser beneficiário do programa, é necessário que os filhos estejam matriculados na escola. Ou seja, "dá o peixe", mas ensina a pescar. Também aproveito para fazer uma elegia à memória do professor Antonio Maria da Silveira, criador do programa "Renda Mínima", depois encampado pelo Senador Eduardo Suplicy; que pode ser encarado como a origem do Bolsa Família.

"Capital de Giro e a importância do Bolsa Família

Há poucos dias, recebi da minha esposa um desses emails interessantes que circulam por aí. É uma redução meio simplória do fenômeno econômico, mas eu achei engraçada e ilustrativa. Fala sobre o que seria "capital de giro". Reproduzo abaixo:

'Mês de agosto, às margens do Mar Negro. Chovia muito e o vilarejo estava totalmente abandonado. Eram tempos muito difíceis e todos tinham dívidas e viviam de empréstimos.

De repente, chega ao vilarejo um turista muito rico. Entra no único hotel do vilarejo, coloca sobre o balcão uma nota de 100 euros e sobe as escadas para escolher um quarto. O dono do hotel pega os 100 euros e corre para pagar sua dívida com o açougueiro. O açougueiro pega o dinheiro e corre para pagar o criador de gado. O criador pega o dinheiro e corre para pagar a prostituta do vilarejo, que por conta da crise, trabalhou fiado. A prostituta corre para o hotel e paga o dono pelo quarto que alugou para atender seus clientes.

Nesse instante, o turista desce as escadas após examinar os quartos, pega o dinheiro de volta, diz que não gostou de nenhum dos quartos e abandona o vilarejo. Ninguém lucrou absolutamente nada, mas toda a aldeia vive hoje sem dívidas, otimista por um futuro melhor.'


Minha esposa tem milhões de qualidades, além de ser a mulher que eu amo. Mas nada é perfeito, e ela também é uma tucana de plumagem discreta, mas tucana. O email me motivou a enviá-la uma resposta, que também divido com o amigo leitor. É a razão da coluna de hoje:

"Este é um belo exemplo do que acontece nas cidadezinhas do interior do Nordeste (por exemplo) quando chega o carro-forte com o dinheiro da bolsa-família.

Numa comunidade carente, quando se injeta uma quantia mínima de dinheiro, a economia local recomeça a rodar. Isso cria um ciclo virtuoso centenas de vezes maior do que o dinheiro aplicado inicialmente, principalmente porque devolve autoestima àquela comunidade.

Por exemplo, um pequeno comerciante do interior (ou do bairro de periferia, ou da favela) prospera em seu negócio a partir da bolsa-família-dos-outros, porque passa a ter consumidores, ainda que de serviços e produtos os mais básicos. Ele cresce e passa a dar mais empregos, investe no mobiliário da loja. Isso incrementa os negócios do marceneiro, que compra uma serra nova. Isso incrementa os negócios de uma indústria em outro Estado, que vende mais serras (serra com letra minúscula, bem entendido) e pode construir um novo galpão. A obra dará lucro a uma empreiteira média, isso gerará empregos e a empreiteira terá que contratar um advogado e um contador.

O mercado para profissionais liberais cresce, demandando novas vagas em universidades, interessadas em aproveitar este ciclo econômico formando mais profissionais. Os professores têm mais empregos, salários maiores e passam a pagar mais impostos, porque mudaram de faixa no Imposto de Renda. Estes impostos possibilitam a oferta de mais bolsas-família. E o ciclo aumenta enquanto o nível de formação e empregabilidade real crescem também.

Nenhuma dessas pessoas citadas foi beneficiária direta do bolsa-família, mas "dar dinheiro público a meia dúzia de vagabundos" foi um dos fatores que mais fortemente contribuíram para o Brasil ter colocado 20 milhões de novas pessoas na classe média enquanto o resto do mundo queimava bilhões para salvar seus bancos e financeiras. E foi esta nova classe média que nos salvou da crise mundial de 2008.

Como assim, os beneficiários diretos do bolsa-família viraram classe média? Não, mas muitos não-beneficiários conseguiram empregos, estudo e promoções por conta do ciclo virtuoso iniciado nos programas sociais.

Sabe o que isso tem de socialista? Nada. Esta foi a forma pela qual os Estados Unidos saíram do buraco da grande recessão que se seguiu à Crise da Bolsa de 1929, as bases da política do New Deal.

Havia um outro caminho, o da injeção do dinheiro público na economia através de grandes empresas e projetos. Era (e ainda é, em alguns casos) o bolsa-multinacional, o bolsa-projeto-megalômano, o bolsa-banco-quebrado, o bolsa-empresa-fantasma, o bolsa-férias-na-Europa. Por exemplo, o FAT (Fundo de Apoio ao Trabalhador) é um programa iniciado pelo então Ministro José Serra e divulgado no Programa Eleitoral dele. Atrás de uma boa intenção de criar um fundo de investimentos para projetos geradores de emprego, confisca dinheiro da massa de salários e financia, entre outras coisas, indústrias de capital massivo, automatizadas, que implicam em baixa relação de utilização de mão de obra por capital aplicado. Ou seja, o Fundo do Trabalhador é investido em automação, sob o bom argumento de que grandes parques industriais automatizados têm maior rendimento econômico, não é o máximo? Enquanto isso, o desemprego estrutural se multiplica.

A forma alternativa é quebrar este bola de investimento financiando pequenos projetos locais, iniciativas comunitárias, pequenos agricultores, reaparelhamento e capital de giro para o pequeno comércio. Isso gera poucos empregos para cada projeto, mas pode gerar milhões de projetos e, portanto, gerar milhões de novos empregos.

É mais fácil, vistoso e impactante para os governos mostrar investimentos em mega-projetos, como uma fábrica de automóveis, ou uma usina siderúrgica. Numa só tacada, 1000 ou 2000 empregos diretos, mais os milhares de indiretos. Dá mais trabalho analisar e liberar dinheiro para 2000 projetos, cada um gerando um único emprego. Só que o custo final é bem menor.

Mais fácil ainda colocar dinheiro na ponta final do consumo porque, sem necessidade de acompanhamento e medição, sem ter que pagar salário a centenas de advocados e tecnocratas, se coloca a economia para rodar da mesmíssima forma.

Dá a estranha sensação na classe média já estabelecida e nos ricos (se bem que rico não paga imposto no Brasil) de que o seu dinheirinho confiscado na imensa carga tributária brasileira é colocado de graça no colinho de umas pessoas que não tiveram compromisso com o estudo e o trabalho, que mesmo assim fizeram dezenas de filhos e que isso é simplesmente injusto. Pode-se discutir se é injusto ou não (e eu acho que não é), mas não se pode discutir a eficácia econômica disso. A economia está num ciclo vurtuoso que ocorre "de baixo para cima" nos estratos sociais, e isso se inicia com programas de transferência de renda, exatamente como no New Deal americano.

Mas se a sensação de injustiça e estranhamento permanece, lembra-se de que o confisco que é a carga tributária brasileira não se iniciou para subsidiar programas sociais. Historicamente, o imposto no Brasil financia a própria máquina pública, além de projetos megalômanos e bancos falidos.

Particularmente, eu prefiro ver o dinheiro do meu imposto nas mãos de quem "vai gastar tudo em cachaça", porque esta cachaça é nacional, o lucro da cachaça vai gerar empregos num alambique nacional, vai ser comprada na vendinha da esquina que no máximo pertence a um português, mas um português que mora aqui e vai gastar aqui. Melhor assim do que o mesmo dinheiro ser usado para salvar o banco de um banquiro que já provou que não sabe administrar o seu próprio negócio e que, uma vez que sua empresa esteja recuperada, vai vender tudo para um banco transnacional e gastar o lucro da operação tomando champgne francês num cassino em Monte Carlo.

No fundo, no fundo, eleição é isso: muita baixaria para o dinheiro do nosso imposto ser disputado entre programas sociais e banqueiros falidos."