terça-feira, 30 de novembro de 2010

Samba de Terça - "Tupinicópolis"



Hoje a coluna vem com um samba que nem é um dos maiores da história de Padre Miguel, mas que representa um desfile histórico - e, por que não dizer, revolucionário.

Atendendo à sugestão do leitor Emerson Braz, o tema de hoje é o fantástico "Tupinicópolis", apresentado pela Mocidade Independente de Padre Miguel no carnaval de 1987.

Revelado no Império Serrano  - trazido pelo também carnavalesco e diretor de carnaval Ernesto do Nascimento - o carnavalesco Fernando Pinto (abaixo) era considerado um dos talentos mais revolucionários do carnaval carioca.

Campeão em 1972 na escola da Serrinha, com "Alo alo, Taí Carmem Miranda", o artista era considerado uma estrela em ascenção. Trabalhou na escola de Madureira de 1971 a 1976 e em 1978.

Foi contratado pela Mocidade Independente para o carnaval de 1980 e deu uma nova cara à escola, com enredos delirantes, criativos e absolutamente geniais. Originalmente tropicalista, em 1985 chega ao ápice da carreira em um carnaval ao mesmo tempo tropicalista, futurista e extremamente "clean": "Ziriguidum 2001". Garoto que eu era, jamais me esquecerei da comissão de frente daquele ano formada por astronautas empunhando a bandeira do Brasil.

Fica afastado em 1986 devido a desentendimentos com a direção da escola de Padre Miguel, e a escola não obtém um bom resultado com um enredo sobre asssombrações, crendices e coisas correlatas.

Então para o carnaval de 1987 o carnavalesco retorna à escola e propõe um enredo alegórico, onde os índios "ganham" uma cidade própria, um país independente. Estava criada "Tupinicópolis".

Fernando Pinto imaginou uma cidade voltada ao imaginário indígena, a uma nova cultura inspirada nos povos da floresta, a um novo tropicalismo. Como podemos ver na sinopse do enredo:


Sinopse:

"O enredo Tupinicópolis tem no reaproveitamento da cultura da civilização indígena brasileira seu principal objetivo e conteúdo. Utiliza o termo tupiniquim não somente para designar uma tribo, mas também como um coletivo indígena e principalmente para traduzir uma filosofia típica nacional; o Tupiniquismo: De tudo que é ou passa a ser tupiniquim. Do ato de Tupiniquizar. Tupinicopolizar.

Tupinicópolis, o carnaval, é a visualização de uma grande metrópole indígena. Tupinicópolis, a taba de pedra. É um carnaval de ficção científica tupiniquim, retro-futurista, pós indígena. O New Eldorado.
Tupinicópolis tem sua pseudo-origem baseada na justa e real demarcação das terras indígenas. Nessas terras, ricas terras, foram descobertas riquezas naturais infinitas, que foram comercializadas e industrializadas pelos próprios índios. E as ocas se multiplicaram e as tabas se agigantaram e assim nasceu Tupinicópolis; a lendária cidade índia do Terceiro Milênio.

O desfile segue o cotidiano da cidade. Dia, noite e dia, enfocando o dever, o lazer, o prazer dos tupinicopolitanos. E o lixo.

O carnaval utiliza a forma e linguagem da própria literatura indígena, onde os índios convivem e se relacionam com os animais, conduzindo, assim, o carnaval para uma empostação fabulista que dá mais tropicalismo e brasilidade ao espetáculo.

A arte indígena brasileira é revisitada e revivida na estética pós-Marajoara Tupinicopolitana. A moda é o Tupi Look. É a Era do Tupi Power. É a cultura Tupiniquim falando para o mundo via Tupinicópolis."



Perceba o leitor que, ao contrário dos imensos textos a que vemos hoje em dia, a sinopse do enredo era curta e permitia aos compositores criar em cima do enredo, sem seguir aquela receita de "musicar a sinopse" ou ter a sua liberdade criativa engessada.

Notem também que havia a preocupação com a questão da demarcação das terras indígenas. No enredo, as riquezas naturais nas terras demarcadas e preservadas permitem à Tupinicópolis crecer economicamente e desenvolver-se.


O samba escolhido, de autoria de Gibi, Chico Cabeleira, Nino Batera e J. Muinhos e defendido pelo saudoso Ney Vianna, optou pelo caminho de comparar o que seria uma cidade indígena às modernidades da vida citadina de então. Ainda faz uma blague com o cacique Raoni, líder indígena em voga no noticiário àqueles tempos.


A Mocidade Independente seria a oitava e última escola a desfilar naquela segunda feira de carnaval, na verdade manhã de terça feira, 03 de março.

Aquela fora uma noite bastante forte de desifles, com grandes apresentações do Império Serrano, da Unidos de Vila Isabel - com o único samba sem rimas da história dos desfiles de escolas de samba - e da Portela, outra que apresentara um samba extraordinário - Estandarte de Ouro daquele ano.


Mas o carnavalesco da escola da Zona Oeste mostrava que não estava para brincadeira. Sua cidade indígena tinha tudo o que um país precisava: moeda, indústria, comércio, entretenimento.

A escola ia passando e se via algo absolutamente novo, revolucionário, ápice de uma trajetória iniciada em 1980 na escola. Criatividade em estado puro, inovação, inteligência e ousadia. Isto era Fernando Pinto, esta era a marca da Mocidade Independente naqueles tempos: liderança e vanguarda.


Nas fotos que trago aqui podemos ver sacadas geniais como o tanque em formato de tatu (acima) e a citação à Zona Franca de Manaus e suas motocicletas (abaixo). No carro em que aparece a moeda (segunda deste post) há uma brincadeira mencionando que "1 guarani" (a moeda indígena), valia mais que 500 cruzados, com a efígie de Villa Lobos. Trocadilho óbvio com a ópera de mesmo nome, de autoria de Carlos Gomes.

Seu desfile apresentaria dois grandes senões: o samba, inferior a de outras concorrentes, e o segundo casal de mestre sala e porta bandeira, que desfilou sem chapéu. No vídeo que abre este texto podemos ver a revolta do comentarista Fernando Pamplona com o fato.


Em um ano de desfiles de altíssimo nível, a Mocidade Independente saiu da Marquês de Sapucaí como uma das grandes favoritas ao título, ao lado das já citadas Portela, Vila Isabel e Império Serrano. Também eram apontadas, com menores chances, o Estácio de Sá e o Salgueiro.

Pois é. Em um resultado contestadíssimo - e, dizem os mais antigos, "de cartas marcadas" - a Mangueira conquistou o campeonato, um ponto à frente da Mocidade Independente de Padre Miguel e três acima de Portela e Império. A Vila Isabel parou apenas em um inacreditável sétimo lugar, empatado com o Salgueiro.

O resultado foi tão escandaloso que a Mangueira foi campeã com um samba sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade que em seu refrão rimava "achei" com "imaginei", de uma pobreza poética indigna do homenageado. Foi tão injusto quanto 1999 e 2003, outros resultados absurdos e inexplicáveis que tivemos recentemente.


O que ninguém imaginava naquela tumultuada Quarta Feira de Cinzas é que Tupinicópolis seria o "canto do cisne" de Fernando Pinto. O genial artista faleceria precocemente aos 42 anos em um acidente de carro em novembro daquele 1987, após um ensaio da escola.

O carnaval de 1988 ainda foi executado de acordo com as instruções deixadas pelo carnavalesco, mas sem o mesmo brilho. Era o fim de uma era brilhante, que deixou muitas saudades em quem gosta dos desfiles.



Vamos à letra do samba, que pode ser ouvido em sua versão de estúdio acima e, aqui baixado em uma versão ao vivo. É uma samba de estrutura diferente, curto e com nada menos que quatro refrões - bem diferente da pasteurização de "refrão, dez linhas, refrão, dez linhas" dos sambas atuais.

"Vejam
Quanta alegria vem aí
É uma cidade a sorrir
Parece que estou sonhando
Com tanta felicidade
Vendo a Mocidade desfilando
Contagiando a cidade

E a oca virou taba
A taba virou metrópole
Eis aqui a grande Tupinicópolis


Boate Saci
Shopping Boitatá
Chá do Raoni
Pó de guaraná


No comércio e na indústria
No trabalho e na diversão

É Tupi amando este chão


Até o lixo é um luxo
Quando é real
Tupi Cacique
Poder geral
Minha cidade
Minha vida
Minha canção
Faz mais verde meu coração

Laiá, laiá, laiá, laiá
Lá, lá laiá, lá, laia, lá
"


Este ano, a Renascer de Jacarepaguá trouxe um carnaval inspirado neste enredo da Mocidade, chamado "Aquaticópolis" - de autoria de Paulo Barros e Wagner Gonçalves. Embora muitos discordem, em minha opinião foi um desfile que lembrou Fernando Pinto, com referências adequadas e muito criativas.

O leitor poderá tirar as suas próprias conclusões nesta coluna: este desfile da Renascer será o próximo samba enfocado nesta série.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Feliz 2011 (Ufa, Mengão ?)


E eis que, após uma longa agonia, o Flamengo finalmente saiu da UTI e está garantido na Série A em 2011. Embora tenha se esforçado muito para descer ao cadafalso do rebaixamento, a ruindade e incompetência ainda maior de alguns concorrentes acabaram por trazer um final se não feliz, ao menos aliviado para o rubro-negro. Desde o Bahia em 1989 que não temos uma defesa de título tão ruim por parte de um campeão brasileiro.

Vamos tentar entender alguns pontos que levaram a este fracasso retumbante, histórico do Flamengo em 2010.

O primeiro deles, sem dúvida, foi a alternância de poder no núcleo do futebol. Não somente de treinadores quanto de gerências de futebol. Alguns erros crassos foram cometidos, fruto de disputas políticas e da própria incompetência gerencial da diretoria que assumiu o clube este ano.

Começamos pela demissão dupla do vice presidente de futebol Marcos Braz e do técnico Andrade. Braz está longe de ser um dirigente modelo, mas que o leitor não se iluda: ele somente foi substituído para que o grupo aliado da presidente ligado ao futebol pudesse assumir o controle do futebol. Braz era representante da diretoria anterior, mas o título brasileiro deixara politicamente inviável a sua substituição.

Andrade também foi substituído devido principalmente ao desgaste causado pela sua renovação de contrato no início do ano. Lembre-se o leitor que Rogério Lourenço foi colocado como seu auxiliar já com o objetivo de ser preparado para substituí-lo. Não acredite nesta de "resultados": o time estava classificado às oitavas da Taça Libertadores e havia sido vice-campeão estadual, mas com a melhor campanha no somatório dos dois turnos - coisas de regulamento "mata-mata".

O problema é que o grupo político da atual Presidente - na verdade, o somatório de três ou quatro correntes políticas - sabia o que queria destruir, mas não tinha um projeto para o clube formatado. Perdeu-se tempo na definição de um novo técnico e o fraquíssimo Rogério Lourenço acabou efetivado após uma classificação absolutamente insólita diante do Corínthians nas Oitavas de Final da Libertadores. Aliás, ter eliminado o time paulista da Libertadores no ano de seu centenário foi a grande conquista rubro negra em 2010.

Veio a eliminação na competição sul-americana - em uma exibição técnica e tática no mínimo displicente aqui no Rio de Janeiro - e iniciamos de forma claudicante o Campeonato Brasileiro. Jogando em uma retranca feroz, Rogério Lourenço conseguiu dar alguma consistência defensiva à custa de um ataque absolutamente inexistente.

A derrota para o Goiás - hoje rebaixado - na última rodada antes da parada para a Copa do Mundo deixou claro que ele não tinha condições de ser mantido no comando técnico do Flamengo. Rogério Lourenço também solicitaria a exoneração de toda a Comissão Técnica permanente, o que se revelaria, tempos depois, mais um erro determinante. Patrícia Amorim, sem um projeto para o futebol e pressionada pela falta de resultados, optou por utilizar a "bomba atômica": a contratação de Zico, com plenos poderes, para ser gerente de futebol remunerado.

Cabe um parêntese: a atual presidente foi eleita com um projeto muito mais voltado aos sócios e aos esportes olímpicos que ao futebol. De certa forma, não é exagero dizer que sua administração é mais voltada ao sócio que ao carro chefe do clube, tanto que se observa um progressivo fechamento da estrutura de poder. O mau ano do futebol rubro-negro também é reflexo disso.


Teoricamente Zico assumiria com plenos poderes, entretanto os dias mostraram que seus limites eram bem menos amplos que o imaginado. Além disso, a insistência na não contratação de reforços para o ataque levou a uma busca tardia no mercado. Como resultado Deivid e Diogo foram contratados em condições desfavoráveis e caras, com prejuízo ao clube em termos de eficiência no uso de recursos - o que é diferente de malversação, que fique claro. O gerente de futebol enfrentou pressões e resistências, mas também cometeu diversos erros, em especial na falta de transparência de algumas negociações, e acabou por pedir demissão do cargo. Entretanto, deixou como legado a prioridade para o Centro de Treinamento do clube.

A propósito: não morro de amores pela figura do Presidente do Conselho Fiscal, "Capitão Léo" (longe, muito longe disso), mas o Conselho Fiscal estava em seu direito quando solicitou esclarecimentos sobre as transações envolvendo o CFZ e negociações de jogadores. Pode-se discordar de todo o jogo político envolvido e das pressões eventualmente exercidas, mas a atitude foi correta. Entretanto, não me lembro, por outro lado, tamanho zelo envolvendo as transações feitas pelo ex-czar do futebol Kleber Leite, mas esta é outra história. O fato é que, estatutariamente, o pedido de informações é absolutamente correto.

Neste meio tempo Rogério Lourenço finalmente caiu, e assumiria Silas. Não discordo de sua contratação, pois era o melhor no mercado àquele momento, mas sua gestão revelou-se catastrófica no comando técnico. Ressalte-se que ele herdou os frutos de quarenta dias jogados no lixo - o período da Copa do Mundo - mas principalmente em termos de relacionamento com o grupo ele cometeu alguns erros primários. O time não vencia e ele acabou sucumbindo.


Vale lembrar que naquele momento o comando do futebol estava - na prática, ainda está - acéfalo. Vanderlei Luxemburgo assumiu com funções não só de treinador como uma espécie de manager, de forma a tentar consertar o desgoverno que o departamento de futebol estava vivendo. O time chegou a reagir, conquistou alguns pontos fundamentais, mas logo o desempenho caiu de novo e chegamos ao final da temporada em uma luta desesperada contra o rebaixamento.

Que fique claro: ninguém poderia reclamar se a tragédia do descenso advisse. O Flamengo seguiu o manual certinho de todo clube que deseja ser rebaixado; mais ainda, pediu por isso.

O elenco rubro-negro precisa de uma renovação geral. Vários jogadores encerraram o seu ciclo no clube e parece claro que 2011 será um ano de transição. Entretanto, acho que esta não é a questão mais importante, embora tenho os dois pés atrás ao ver o que Luxemburgo fez no Atlético Mineiro este ano.

Realmente o que me preocupa é a inépcia da presidente não somente em lidar com as questões referentes ao futebol como em administrar as demandas dos diferentes grupos que a suportam politicamente. Este ano deu seguidas mostras de que ela não gosta de futebol e que, se pudesse, terceirizaria o departamento - como, de certa forma, fez. Sua prioridade está voltada aos esportes olímpicos e ao clube social, bem como concentrar ainda mais o poder nas mãos dos grupos políticos que se revezam há 115 anos no comando do clube.

Além de fazer política: vereadora pelo PSDB, fez questão de homenagear o candidato à Presidência José Serra, palmeirense notório (abaixo), colocando o clube a serviço de interesses eleitorais e partidários. Ressalvo que o terceiro uniforme nas cores originais do Flamengo - uma das poucas coisas boas deste ano - em que pese ter o azul e amarelo do partido tucano já estava aprovado antes mesmo de ela vencer as eleições.


Há um movimento claro, a meu ver, no sentido de diminuir a transparência administrativa do clube e reforçar o caráter anti-democrático com o qual ele é gerido. A simples extinção do "sócio off-rio" - que a meu ver deveria ser reformulado, mas esta é outra história - e o esvaziamento do projeto das Embaixadas são dois bons exemplos, ainda que não sejam os únicos. Um projeto de sócio torcedor com direito a voto, em mensalidades semelhantes às hoje pagas pelos sócios contribuintes, está completamente descartado.

Ainda que na visão da diretoria atual o papel do torcedor se limite a torcer nos estádios, sua vida tem sido dura: não há planos de carnês, os ingressos foram majorados - o torcedor do Flamengo paga hoje o ingresso mais caro no Rio de Janeiro - os pontos de venda são limitados e a venda pela internet é uma piada, para escrever o menos. A impressão que eu tenho é de que o torcedor é visto como uma "vaca leiteira", do qual se quer a grana mas sem o retorno correspondente aos valores dispendidos.

O clube necessita claramente de um "modelo de governança" estabelecido, com regras determinadas e que não variem de acordo com o grupo político que está no poder. Ano passado escrevi também um "Decálogo" com algumas ações que melhorariam bastante a governança do clube, sua transparência e, à exceção de um ítem, sem depender de mudança no Estatuto do clube. São algumas sugestões que melhorariam a gestão do clube.

Contudo, não vejo na atual administração muito espaço para ações adequadas de gestão. A atual presidente além de estar sobre um delicado equilíbrio político revelou-se uma administradora bastante ineficiente, para se dizer o menos. Até um fanático cego pelo clube tem de reconhecer que o Flamengo regrediu em todos os aspectos neste último ano, apesar da administração anterior estar longe de ser algo próxima do ideal.

Como Patrícia Amorim tem ainda dois anos de mandato, e impeachment, neste momento, é golpe - e eu não concordo com golpes - temos de nos contentar com isso aí: times modestos, mas caros, prioridade aos esportes olímpicos e à sede social e posições de coadjuvante nas competições futebolísticas estaduais e nacionais. Podem chamar de objetivo modesto, mas me contentarei em ver o time mantido na Primeira Divisão nacional ao fim de seu mandato, em dezembro de 2012. Porque a meu ver a tendência é piorar - muito.

O mais incrível é que não me surpreenderia com uma eventual reeleição, apesar de todo o desastre que é o seu mandato. Os interesses dos sócios votantes e em especial dos grupos que detém o poder no clube - todos eles, é bom que fique claro - me parecem bastante descolados dos objetivos do clube e mais ainda de seus torcedores.


Finalizando, duas perguntinhas:

1) César Cielo, apontado como "a grande contratação rubro negra em 2010" (abafa o caso), ganha em torno de R$ 30 mil mensais para sequer mostrar o escudo do clube nas competições? Quais as cláusulas de seu contrato?

2) Quanto custa o time de basquete que perdeu todas as competições que disputou este ano ? Comenta-se que custaria quase o dobro de seu principal adversário, o Brasília - que nos tem vencido sistematicamente.

Não esgoto aqui as razões para o péssimo ano que nós rubro-negros vivemos, entretanto expresso minha preocupação de que o "feliz 2011" expresso no título deste post não seja tão feliz assim.

(Fotos: Lancenet, Arquivo Pesssoal e R7)


Pousio


Sol a sol, lua a lua
Sobre a pedra nua
Repousa o cálido sentimento graduado
Licença poética de agrado
Licença de labuta fastio
Música cálida olhar feitio
Descanso requer batalha pousio
Lembrança preenche coração vazio

Vazio sentido rotina torna
Tediosa adaptação soberana forma
Deveres impostos molde coloca
Incerteza transborda alma provoca
Repressão prevalece sobre pensamento
Repressão prevalece sobre sentimento
Cansaço sobre alma ecoa
Cansaço sobre corpo ressoa

Final chega inflexão ponto
Sinal desequilíbrio pronto
Licença poética, descompressão
Processo de cura coração
Poesia é bálsamo que alivia ferida
Transforma enleva rotineira vida
Repouso carinho sobre pedra nua
Sol a sol, lua a lua

Racional sentido alma esmaga
Poesia alma machucada afaga
Forma das palavras não importa tanto
Principal objetivo acalanto
Pausa na rotina massacrante
Expressa sonhar amante
Lida diuturna diário conflito
Jamais, jamais escrever é detrito...


domingo, 28 de novembro de 2010

Bissexta - "Preparem-se, o Armagedon é logo ali"


Mais um domingo, e mais uma coluna - direto dos EUA - "Bissexta", assinada pelo advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é a ameaça à democracia representada pela ascensão da ex-governadora do Alasca e ex-candidata a vice-presidente republicana Sarah Palin (foto).

Preparem-se, o Armagedon é logo ali

Porque o meu intento é ajuntar nações e congregar reinos, para sobre eles derramar a minha indignação e todo o ardor da minha ira; pois esta terra toda será consumida pelo fogo do meu zelo. (Sofonias, 3, 8-9)

O filme 2012 tornou popular uma dita profecia Maia, segundo a qual o mundo acabará no ano que dá nome à película. Ou talvez não seja bem isso que os Maias tenham dito, mas aparentemente é voz corrente que eles acreditavam que a Terra encerraria seu ciclo no ano fatídico. Sou um sujeito cético, não dou bola para nada que não possa ser cientificamente provado, mas um acontecimento recente me deixou com a pulga atrás da orelha e pode ser que os Maias tenham cravado a sua previsão, pois Sarah Palin deu a entender que aceitará concorrer a presidência dos EUA em 2012. Não sou Maia nem adivinho, mas cravo o meu palpite – se a ex-miss levar o pleito, o mundo, tal como o conhecemos, já era...

Até 2006 só os parentes, amigos e poucos moradores do Alasca (o estado norte-americano com a menor densidade populacional do país, foto abaixo) sabiam de quem se tratava Sarah Palin, a bela jornalista que governava o estado gelado. Em busca de um contraponto para o fenômeno Obama, jovem, negro e obcecado pela mudança, os republicanos procuravam alguém para acrescentar densidade eleitoral ao Senador John McCain, um homem respeitável, com uma longa folha de bons serviços prestados ao país, mas cujos cabelos brancos e aparência de vovô simpático deixavam a desejar no quesito midiático. Foi aí que Sarah Palin entrou na jogada...era só para fazer figuração, desfilar sua bela silhueta de radiantes 42 anos e sua alta intimidade com as câmeras adquirida nos anos que trabalhou como repórter televisiva, mas a coisa saiu de controle e parecia que era ela, e não McCain, quem realmente estava dando as cartas na eleição.

Sarah não estava nem aí para os temas do dia a dia do país, como logo se tornou claro, dada a sua constrangedora inexperiência de quem nunca tinha sonhado estar na condição de protagonista. O que ninguém sabia é que ela trazia consigo sólidas crenças ideológicas e nenhum temor em torná-las públicas, pondo abaixo a prudência do politicamente correto. Sarah Palin, vamos dizer assim, é ultradireitista. Mais do que isso, tem um orgulho imenso desse rótulo. Via de regra, a extrema direita sempre foi associada ao fascismo e ao nazismo, portanto, virou sinônimo de palavrão. Sarah Palin mostrou que é possível ser de extrema direita de outro modo – ou pelo menos, sem odiar os judeus ou negros.

Há, nos Estados Unidos, amplos segmentos da sociedade com pensamento diametralmente oposto ao senso comum. Tem o cinturão bíblico (Bible Belt), uma região carola no sul do país dominada por fervor religioso e pela interpretação literal da Bíblia (o que, naturalmente, implica em negar descobertas amplamente provadas da ciência). Tem os caipiras do meio-oeste, pejorativamente chamados de rednecks, trabalhadores rurais com baixo nível educacional e dificuldades para fechar as contas do mês. Tem os WASPs – White, Anglo-Saxons, Protestants (brancos, anglo-saxões e protestantes), que são, por definição, a elite norte-americana. Tem o povo que adora andar armado e resolver as diferenças à bala. Essa gente toda tinha um sentimento represado contra os valores hoje dominantes, de tolerância, de liberdades, de políticas sociais, sonhavam com um país pautado por valores tradicionais, uma espécie de revival dos anos 50 para trás.

Nunca antes na história daquele país um político tivera a coragem de falar tão diretamente ao coração dessa gente, porque, claro, isso implicaria em perder votos nos demais segmentos da sociedade, os negros, os imigrantes, os intelectuais, os empreendedores, enfim, a maioria da população. Sarah Palin teve e se tornou uma popstar entre eles. Mais do que isso, os encorajou a se reunirem e atuarem politicamente, tanto assim que houve até uma “festa do chá”, uma convenção ultraconservadora assim batizada em homenagem a um acontecimento histórico ainda do tempo que o país era uma colônia – e a coisa ganhou corpo a ponto desse movimento ser conhecido como Tea Party, um ligeiro trocadilho, dado que party, em inglês, significa tanto “festa” como “partido político”.

Do jeito que eu falo, parece até que Sarah Palin é “do bem” e o que está em jogo é apenas uma visão ideológica distinta, algo saudável para a democracia. Quem dera...

Sarah Palin, infelizmente, é uma bomba relógio em contagem regressiva. Por trás do conservadorismo extremado há uma política de negação de conquistas obtidas com muito sacrifício pelos norte-americanos desde o pós-guerra. Haverá ódio aos imigrantes, muito mais do que agora. Haverá ódio a crenças religiosas fora do espectro judaico-cristão. Haverá, de forma bem mais intensa, uma negação aos direitos humanos sob a justificativa da guerra ao terrorismo. Haverá uma política externa beligerante, com perseguições implacáveis aos inimigos, reais ou imaginários, alguns dos quais, não custa lembrar, armados até os dentes, inclusive com arsenal nuclear à disposição.

Quando a Al Qaeda explodiu as Torres Gêmeas em 2001, eu estava de férias no Pantanal Mato-Grossense. Nunca me senti tão seguro, a companhia de jacarés, piranhas e tuiuius me deu a impressão de ser um refúgio, um dos últimos lugares a serem visitados pelos terroristas islâmicos. O mundo inteiro sem dormir e eu me preocupando apenas em passar repelente para afugentar mosquitos. Ganhando Sarah Palin, em 2012 me mudo para o Pantanal, em busca de paz e de novos nichos de negócios, como, por exemplo, exportar pele de jacaré direto para a Casa Branca – afinal, a futura Presidente é entusiasta defensora da caça e do uso irrestrito de peles de animais para fins estéticos."



sábado, 27 de novembro de 2010

Sobretudo: "Tropa de Elite 3 – A Realidade"


Mais um sábado e mais uma coluna "Sobretudo", de autoria do publicitário Affonso Romero. O tema de hoje, como não poderia deixar de ser, é a conflçagração ocorrida no Rio de Janeiro na última semana.

(Fotos: Terra)

"Tropa de Elite 3 – A Realidade

Se você não assistiu ainda ao filme Tropa de Elite (1 e 2) não leia esta coluna. Provavelmente, você não tem interesse pelo tema “segurança pública”. Se tem, e não viu o filme por falta de oportunidade, não vai ficar feliz comigo quando eu comentar detalhes que você preferiria ver no cinema, com a surpresa do expectador desprevenido.

Não fiz aqui no Ouro de Tolo uma resenha do filme. Outros colunistas a fizeram, sorte minha. Portanto, posso largar na frente e resenhar a terceira parte da trilogia.

Blockbuster, companheiro, é isso aí: mal você viu a segunda parte da saga e já estão lançando a terceira. Mais que isso, e fato inédito, colocaram o filme na tevê antes mesmo de lançarem no cinema. E ao vivo, ainda por cima. Para que gastar dinheiro com películas e edições?

Esta operação da polícia carioca, nos últimos dias - melhor dizendo, esta reação às recentes atividades de terror criminoso – é, na verdade, uma continuação do filme de José Padilha.

O primeiro filme era cru, o segundo aprofundou esta característica, o terceiro não tem filtro nenhum. O primeiro filme tinha mocinhos e bandidos, o segundo dizia que o mocinho era só um e, ainda assim, foi enganado pelo sistema; o terceiro, meu chapa, só tem bandidão.

Eu gostaria de pensar que o Rio de Janeiro está aproveitando um momento de destempero total dos traficantes; e dando a volta por cima, usando da força que o momento requer para fazer uma megaoperação de retomada de áreas dominadas pelo banditismo e colocá-las definitivamente sob a guarda da Lei e da Ordem. Realmente, eu gostaria de pensar isso.

Mas não é verdade. O que estamos vendo ao vivo na televisão é a transferência de poder de uma facção desorganizada e enfraquecida para um novo modelo de criminalidade, este sim organizado e estruturado dentro do próprio Estado.

Quantas são as comunidades ocupadas por UPPs? Até o início desta ofensiva atual, eram doze. Uma dúzia, isso mesmo. Quantas comunidades foram ocupadas pela PM, ou sofreram operações consistentes, nos últimos meses? Só estas doze? Não, dezenas e mais dezenas? Dentre o quase milhar de favelas cariocas, só doze tem UPPs - mas os traficantes foram expulsos de muitas mais.

E, sistematicamente, o que vem depois dos traficantes, e na falta de poder de ocupação por parte do Estado? As milícias!!! Estas são as reais beneficiárias da ação da polícia. E isso não é acaso, quem quiser mais detalhes que veja o Tropa de Elite 2  - e leia o "Elite da Tropa 2" - para poder entender esta terceira parte do filme.

Uma verdadeira máquina de guerra acaba de invadir a Vila Cruzeiro e mais uma boa dezena de morros do Rio. Pois eu aposto que a Vila Cruzeiro, por ser emblemática, pode até virar uma UPP, mas o resto todo acabará nas mãos de milicianos.

A classe média ficará mais tranquila no asfalto, seus carros poderão circular mais livremente pelas linhas Amarela e Vermelha, e daí? Qualquer que seja o desenrolar dos acontecimentos, o crime sairá vencedor.

Em minha opinião, a milícia é um tipo de ação criminosa milhões de vezes mais perigosa do que o tráfico armado como hoje conhecemos. É a institucionalização do crime, é a sinalização clara de que não há mais linha divisória entre crime e Estado de Direito. É a vitória inconteste da selvageria.

O que estamos vendo, sob o alívio de ter um simulacro de ordem artificial colocado em frente aos nossos olhos atônitos, é uma invasão em que um bando pior destrona um bando ruim. Nada menos, nada mais que isso.

Não acredito que Forças Armadas e equipes especiais como o BOPE estejam articuladas com milícias. Nem estou acusando diretamente o Governador do Estado, ou o Presidente Lula (que autorizou o uso de força federal). As tropas são usadas a partir do clamor da população. E se, realmente, os incêndios e arruaças são originários dos traficantes acuados, eles deram um tiro de AR15 no dedão do pé.


O clamor, a mídia, a classe média aterrorizada (meu Deus, como é fácil aterrorizar a classe média!!!), tudo isso conspira a favor dos milicianos. O Estado não tem como sustentar a ocupação das áreas que está invadindo, e sabe disso. Ou os traficantes retornarão às comunidades, ou - o mais provável, - elas serão entregues às milícias. Os custos da operação de guerra serão pagos pelo meu, pelo seu imposto.

Claro que há gente graúda manipulando este clamor e esta invasão financiada pelo erário. A começar por gente da própria polícia, da segurança pública, do Estado, da mídia. É óbvio demais.

Eu li críticas aos filmes anteriores sobre a Tropa em que se dizia que a locução onipresente do Capitão Nascimento explicava demais, linearizava demais, e tornava o filme comercial, sim, mas menor em termos artísticos. Pois esta continuação forçada da tevê nos prova que não, que a narração em off era necessária. Eu quero o Nascimento, versão cinemão, explicando didaticamente que não há mocinhos no filme. E não há mesmo.

Até há heroísmo, há disposição política sincera, vontade de resposta institucional do estado à barbárie, isso eu acho que há. Mas há, principalmente, uma ação articulada de bandidos vestidos de fardamento azul, loucos pela conquista territorial de uma vasta área do Rio de Janeiro, prontos para estabelecer o poder das milícias em novos redutos.

Desculpem pela desesperança mas, para mim, é só isso."

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Final de Semana - "Feitiço da Vila"



Mais um final de semana chegando e a música de hoje é mais uma referência à "Divina" Elisete Cardoso - cuja biografia resenhei aqui dias atrás.

Hoje ela canta, com o luxuosísismo auxílio de Jacob do Bandolim, "Feitiço da Vila", de Noel Rosa e Vadico. Biscoito finíssimo.

Deleitem-se. Bom final de semana.

"Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.

Lá, em Vila Isabel,
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba.

A vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço descente
Que prende a gente

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
"Sol, pelo amor de Deus,
não vem agora
que as morenas
vão logo embora

Eu sei tudo o que faço
sei por onde passo
paixao nao me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou da Vila!"


Cinecasulofilia - "E no início fez-se o verbo (contra o vento)"

Mais uma sexta feira, cidade ainda conflagrada, e mais uma edição de nossa coluna "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o excelente blog "Cinecasulofilia". Nesta semana Marcelo Ikeda, autor, publicou uma série de artigos sobre o florescente cinema cearense, do qual reproduzo um dos textos aqui. Vale a pena uma visita ao blog para conferir os demais.

E no início fez-se o verbo (contra o vento)

(para Dellani Lima)
(para Beatriz Furtado)


Escrevi numa ocasião, para o catálogo da mostra “nova cena cearense” para o Curta Cinema de 2009, que Vilas Volantes era a mais importante obra audiovisual da história do cinema cearense. Hoje, um ano depois, percebo cada vez mais intensamente que essa expressão não contém nenhum exagero. E o mais curioso disso é que essa obra não é um longa-metragem em 35mm mas simplesmente um média-metragem feito para televisão. Ou ainda, uma obra que não recebeu nenhum prêmio nos festivais de cinema nacionais ou internacionais, pois sequer foi exibida.

Mas então o que faz Vilas Volantes adquirir tamanho status? Acredito que a relevância de uma obra aconteça não apenas por suas qualidades intrínsecas mas por sua capacidade de ressoar, de influenciar a gestação de outras obras, de ser a ponta de lança de tendências de seu tempo. E, sem dúvida, nenhuma outra obra teve tamanha repercussão nos rumos futuros do cinema cearense quanto essa obra de Alexandre Veras.

Vilas Volantes apresenta-se como um documentário sobre algumas vilas pesqueiras do Ceará, em especial na região de Tatajuba, que foram transformadas pela ação do vento, deslocando dunas e soterrando casas, igrejas, memórias. Acontece que Alexandre Veras, cujos trabalhos anteriores dialogavam com a videoarte e a videodança, resolveu passar um mínimo de informações para preferir mergulhar nos tempos e nas sonoridades daquela região. 

Influenciado pelo cinema de Kiarostami e com uma pontinha de Tarkovsky e Sokurov, Vilas Volantes, beneficiado por um obsessivo trabalho de pesquisa da região, cristalizado na dissertação de mestrado de Ruy Vasconcelos, cuja contribuição para a obra foi fundamental, aposta num tipo de imersão, numa outra relação entre tempo e espaço, que evidencia o desejo do realizador de observar de forma respeitosa um modo de vida e registrá-lo no filme.

Alexandre Veras e sua reduzida equipe (o fotógrafo Ivo Lopes Araújo e o técnico de som Danilo Carvalho) ficaram mais de um mês coletando imagens e sons em Tatajuba, revendo o material captado, vendo filmes e fotos para preparar o espírito para ir a campo. Veras diz que Vilas Volantes poderia ter sido filmado em duas semanas se primasse por outro ritmo de produção, mas não seria esse filme, e sim outro. A ampla repercussão de Vilas Volantes, considerado um protótipo de excelência do concurso DOCTV, mostrou para uma jovem geração de Fortaleza que o futuro estava ali, que era possível realizar uma obra de grande potencial estético através de um modo de produção particular, sem grandes equipamentos ou recursos, essencialmente guiado pela afetividade. 

O carinho, a delicadeza, o cuidado com os detalhes, o envolvimento da equipe foram tão irradiantes que se revelaram uma base para o florescimento de outros e mais outros filmes e videos, completamente diferentes entre si, mas que tinham em comum uma potência, um desejo de se aventurar pelo audiovisual estabelecendo uma outra forma de relação com o produto final e com o próprio processo de elaboração do filme e da relação entre a equipe. Essa é a maior das contribuições de Vilas Volantes no atual cenário de produção cearense: ser um exemplo de uma possibilidade efetiva de articular um desejo (um pensamento, uma intenção) e um processo de realização (um modo de produção, uma relação menos pragmática com o fazer) para viabilizar uma obra de grande potência artística e de visibilidade no cenário nacional, também fora do Ceará.

Ou seja, Vilas Volantes abriu um caminho. Vilas Volantes não possui a radicalidade de Uma Encruzilhada Aprazível ou Sábado à Noite, outros DOCTVs realizados logo em seguida a Vilas, mas o impacto de Vilas está todo lá nesses filmes. Esses filmes não poderiam ter sido feitos da forma como o foram sem que Vilas tivesse existido antes deles. É como se diante de toda a precariedade da atual Tatajuba, mais que lamentar de forma nostálgica o passado soterrado pelo vento, Alexandre Veras visse no abandono do presente uma potência renovada de apontar para o futuro. A elegância e a beleza desse gesto contagiaram toda uma geração. E no início fez-se Vilas Volantes.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Hipocrisia da Sociedade e o Estado de Direito


Não irei comentar os acontecimentos desta "Quinta Feira Negra" aqui no Rio de Janeiro, porque muito já foi dito e especialmente mostrado.

Mas quero escrever sobre algo que me incomodou muito durante o dia de hoje: o clima de "mata e esfola" que se instalou em boa parte da dita "sociedade esclarecida". Eu passei boa parte do meu tempo livre nesta quinta pendurado no Twitter defendendo que a lei deveria ser respeitada e que matar indiscriminadamente não é melhor solução.

Veja a imagem acima, caro leitor - do jornal O Dia. De acordo com o que li de muitas pessoas, os ocupantes do carro deveriam ter sido sumariamente executados pelos policiais. Se estão em estrada de chão moram em favelas, e se moram em favelas, devem ser exterminados - pois são, necessariamente, bandidos.

Também debati o dia inteiro com pessoas que diziam que "bandido não deve ser preso, e sim assassinado na hora"; "bandido bom é bandido morto", e coisas correlatas. Além de ver a defesa incontinenti da pena de morte, se possível após julgamento sumário.

Como já escrevi em outra ocasião e conforme já explanado brilhantemenete pelo advogado Walter Monteiro em uma das edições da coluna "Bissexta", a pena de morte no Brasil além de ser mais cara convive com uma série de problemas legais e éticos. Além disso, com o Poder Judiciário injusto e elitista que temos, muito provavelmente além de inocentes a pena de morte institucional somente atingiria pobres, pretos e putas...

Entretanto, quero chamar a atenção àqueles que defendem execuções sumárias. Lembro aos leitores que o Brasil é um estado de direito, regido por leis e que garante àqueles acusados de algum crime ampla defesa. As penas previstas nos Códigos se constituem na punição indicada para cada caso.

Se as penas de prisão ou alternativas são adequadas ou não, é outra história. Particularmente penso que algum tipo de rigidez poderia ser introduzido em nosso Código Penal, mas de nada adianta termos leis mais duras se nosso Judiciário continuar injusto como o é. Uma reforma neste poder necessita ser feita antes de qualquer tipo de mudança em códigos.

Outro ponto que quero chamar a atenção é que, concentrando a captura, julgamento, sentença e execução em um único indivíduo, se abre um leque de possibilidades bastante sinistro. Hoje é o bandido ou o favelado executado, amanhã pode ser você, morador do asfalto, que se negou a pagar a "cervejinha" do guarda - propina. Ainda mais com uma Polícia que, sabemos todos, tem focos alargados de corrupção em seu seio.

Neste momento entra a hipocrisia da sociedade. Ela não vê problema em ver um favelado sendo executado por policiais sumariamente, mas vai para Copacabana fazer passeatas se um morador do asfalto falece nas mesmas circunstâncias. No fundo, é o mesmo preconceito de classe mal disfarçado ao qual me referi anteriormente.

Preconceito mórbido e injusto, ainda mais quando sabemos que aproximadamente dois terços dos mortos pela Polícia em incursões a favelas não possuem antecedentes criminais. E depois de mortos são obrigados a conviver com o "kit apreensão" que denigre nomes, muitas vezes, limpos.

Este caminho de justiça pelas próprias mãos é bastante perigoso, pois leva à barbárie. O país possui leis, que devem ser respeitadas e seguidas. Bandido bom é bandido preso, julgado de acordo com os trâmites, com direito de defesa pleno e sua integridade física respeitada. O Brasil é regido por leis.

Pense sempre que, ao defender a execução sumária de bandidos, a vítima amanhã pode ser você leitor. Execução sumária é assassinato, seja de quem for. É crime e como tal deve ser punido.

Em tempo, é por causa deste tipo de postura, também, que o câncer chamado milícia se alastrou pelo Rio de Janeiro. Milícia é máfia.

Pense nisso. Barbárie não se combate com barbárie. Barbárie é combatida com inteligência.



Algumas notas - e hipocrisias - sobre o combate às drogas


Os recentes acontecimentos do Rio de Janeiro, teoricamente atribuídos a traficantes praticamente incomunicáveis no interior do Paraná - escrevi sobre o assunto na última terça feira - lançam luzes sobre tema polêmico e que precisa ser melhor analisado, sem pré-conceitos e especialmente sem hipocrisia: a política para as drogas.

A política habitual para o setor é a da proibição do consumo e da repressão pura e simples à venda. Tal política vai desde os agricultores, passando pelo refino ou fabricação - no caso da cocaína ou drogas sintéticas - distribuição, venda e consumo. Entretanto, o aumento da violência, do tráfico e do consumo lançam dúvidas sobre a eficácia desta política.

Vamos por partes.

A produção

Maconha e cocaína/crack são derivados de espécimes vegetais, alvo de cultivo: a "cannabis sativa" e a coca, respectivamente. O Brasil não produz quantidades significativas de coca, cultivada em larga escala no Peru, na Colômbia e na Bolívia. Mas produz maconha, em especial no "Polígono da Maconha", região localizada no estado de Pernambuco.

A política norte-americana de erradicar plantações de coca na Colômbia mostrou-se absolutamente desastrosa. Não houve apoio no sentido de se oferecer aos agricultores uma opção de plantio economicamente rentável, optando-se pela colcoação dos mesmos na cadeia. Resultado: áreas maiores controladas por grupos como as FARCs, que vêem no cultivo e no transporte uma forma de renda para financiamento de suas atividades.

Ressalte-se, também, que a coca é parte da cultura nacional da Bolívia, onde a folha da planta é utilizada, mascada ou em chá, para amenizar os efeitos da massacrante altitude de cidades como La Paz, Potosi e Oruro. É bastante complicado se erradicar tais culturas sem alternativas de renda factíveis através de outras culturas.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos produtores de Pernambuco. Optou-se pela saída fácil da cadeia, ao invés de se estabelecer estímulos para a produção de alimentos "legais". Ou seja, parece claro que o caminho para se inibir a produção é menos a repressão e mais o estabelecimento de alternativas econômicas aos agricultores.

Refino ou Fabricação

A maconha não é objeto de estudo neste caso, pois basicamente ela é seca e prensada. A cocaína e o crack passam por processos químicos de maneira a transformar a folha de coca em uma pasta básica, depois refinada e misturada para se transformar em pó ou pedras - no caso do crack.

Isto pressupõe algum capital, algum conhecimento de processos químicos e acesso a produtos utilizados nesta transformação. No caso de drogas como o ecstasy a produção é realizada totalmente fora do país, para cocaína e o crack o país importa parte do produto na forma de pasta básica - o refino em si é feito em território nacional e próximo de pontos de venda ou rotas de tráfico.

Não há controle da compra de produtos químicos por parte das autoridades sanitárias, o que já seria um início de combate efetivo ao processo. Mas ainda persiste-se em políticas de fechamento de refinarias da droga.


Distribuição

O Brasil não produz cocaína ou drogas sintéticas. Portanto, há alguma espécie de "rota de importação" ilegal, para que possa o produto adentrar o país. Além das longas extensões de fronteira sem o menor policiamento, parece claro que há algum tipo de burla à fiscalização nos aeroportos para que os produtos - em especial os entorpecentes sintéticos - possam entrar livremente no Brasil.

Este é outro ponto claramente subestimado pelas autoridades policiais em sua política de repressão a qualquer preço.

Venda

Temos aí um grande episódio de hipocrisia. Sabem-se os pontos de venda, os usuários sabem, a Polícia sabe, e... funcionam quase sem serem incomodados. Obviamente que a corrupção policial exerce um papel importante nesta relativa liberdade de venda dos produtos, e recaímos em um problema que já discorri aqui um par de vezes: uma Polícia que não sabemos, honrosas exceções de praxe, de que lado está.

Pior: como diz o "Sangue Azul" e outros livros voltados ao tema, há casos de políticos e comandantes de batalhões como verdadeiros donos do tráfico nas comunidades, o que inclui um outro componente: a falta de vontade política para manter a política de combate efetivo. Como estabelecer uma asfixia à venda se temos relações de poder que se financiam e se locupletam da receita destes produtos ?

Consumo
 
Antes de mais nada, discordo radicalmente de uma corrente que diz que "o viciado financia o tráfico" e, especialmente, "que viciado deve ir preso". Explico.

Como explanei rapidamente nas linhas acima, há toda uma estrutura de produção, refino, distribuição e venda que é combatida de forma absolutamente inadequada - minha vontade era escrever outro termo, mas... A questão não é a demanda que gera o tráfico, mas a demanda ser abastecida por uma estrutura à margem da lei.

Por outro lado, deixemos uma vez mais de sermos hipócritas: todo mundo sabe que na Zona Sul, em redutos de alta classe, fuma-se maconha e cheira-se pó de forma ostensiva sem que haja o menor incômodo por parte das autoridades. Também, vai o soldado ou o cabo prender alguém ? Além da Justiça soltar - rico no Brasil só vai preso se atrasar pensão alimentícia - nunca se sabe se o sujeito em questão tem um pai poderoso que pode arruinar a vida profissional do pobre policial que agiu de acordo com a lei.

O ex-Chefe de Polícia Civil do Rio de Janeiro Hélio Luz cunhou duas frases que resumem bem o que eu escrevo acima: "Ipanema brilha à noite", sobre o consumo de cocaína pelas classes mais abastadas; e "a lei é feita para o crime até 1 000 reais. Daí em diante, é sigilo bancário", explicando a injustiça da Justiça brasileira.

Na prática, prender viciados somente vai encarcerar usuários de classes baixas, negros em especial. Em um sistema prisional como o nosso, que é muito mais um depósito de gente do que regenerador e recuperador, na prática o viciado estará fazendo a faculdade de "Tráfico de Drogas", transformando-se de usuário em vendedor - e outras graduações na "empresa do pó".


Algumas Idéias

O quadro é este que apontei acima. Confesso aos leitores que não tenho opinião formada sobre a liberação ou não do consumo - pelo menos da maconha, de menor grau de devastação orgânica - mas elenco abaixo algumas idéias que podem e devem ser levadas em consideração em um debate sobre o assunto - que precisa ser feito:

Liberação e venda controlada - liberar a venda, estritamente controlada, com impostos altos e preço caro?
 
Penas alternativas - prender não adianta. Talvez valesse a pena instituir sanções alternativas, como trabalho sócio-educacional ou memso a internação em clínicas para tratar o vício;
 
A questão da repressão - da forma como está colocada hoje, a política de repressão à venda e ao consumo de droga está fadada ao fracasso. Algum tipo de alteração na política há de ser feita a fim de tornar mais eficiente e menos hipócrita o combate ao tráfico, se for este o caminho adotado;
 
Alternativas ao produtor - como vimos no início, há de se fornecer em especial ao produtor de maconha incentivos e garantia de renda a fim de que se torne economicamente viável a troca de plantio;

Reformas nas Leis e no Judiciário - parece claro que o arcabouço legal do Estado brasileiro é inadequado para enfrentar a questão. Urge uma atualização e simplificação das leis referentes ao tema e sua adaptação em caso de eventual descriminalização ou liberação. Isso, sem contar a estrutura extremamente injusta do Judiciário brasileiro.

Menor Corrupção - bom, não adianta nada se combater a venda e o consumo de drogas se maus policiais apreendem produto e o revendem a favelas rivais. Ou se temos chefões da Polícia como verdadeiros donos de morros.

Estou longe de esgotar o assunto aqui, mas aproveito estes dias tensos no Rio de Janeiro para conclamar os agentes públicos e formadores de opinião a um debate sem preconceitos e em cima de argumentos lógicos sobre o tema.

(Fotos: O Dia e O Globo, pela ordem)


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Já vem chegando o verão, e com ele... a dengue !"


Quarta feira, e, de volta à programação normal, a coluna "Formaturas, Batizados & Afins", escrita pelo professor de Biofísica da UFRJ Marcelo Einicker. O tema de hoje é uma "guia prático contra a dengue", com informações bastante úteis.

"Já vem chegando o verão, e com ele... a dengue !

Voltamos com a coluna, abordando um tema mais do que importante e atual que é o fantasma da Dengue que insiste em nos assombrar.

À medida que vem chegando o verão, as condições propícias para a reprodução do mosquito aumentam e com isso surgem novos surtos. Uma rápida consulta à Internet em sites de busca como o Google pode oferecer aos nossos leitores mais interessados informações bastante detalhadas de todos os aspectos desta doença. Claro, como sempre, recomendo atenção para os sites mais sérios como o portal do Ministério da Saúde, sites de Institutos de Pesquisa e de Hospitais; para que não leiam barbaridades, folclores nem nada que seja correto. Um bom site para consulta é o www.dengue.org.br, onde se conseguirá todo tipo de informação necessária.

Mas para nossos leitores do Ouro de Tolo farei uma síntese das principais dicas, conforme me recomendou o amigo e editor Pedro Migão.

Mas afinal, o que é a Dengue?

A dengue é uma doença infecciosa febril aguda causada por um flavivírus e transmitida através do mosquito Aedes aegypti, que esteja infectado pelo vírus. O mosquito, que se alimenta de sangue, adquire o vírus ao picar uma pessoa infectada. Assim, numa próxima jornada para se alimentar este mosquito pode transmitir a dengue para outras pessoas. Para deter esta ameaça é importante toda e qualquer ação de combate ao mosquito e aos focos onde ele pode procriar. Tudo isso, pois atualmente a dengue é considerada um dos principais problemas de saúde pública de todo o mundo.

Tipos de Dengue

Em todo o mundo, existem quatro sub-tipos de vírus da dengue, o que pode ser ainda considerado um baixo número - principalmente se comparamos com o número de sub-tipos que tem o vírus influenza que é o causador das gripes. Assim todos já se depararam com notícias que falam destes quatro sorotipos: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. No Brasil, já foram encontrados vírus dos tipos 1, 2 e 3, sendo o tipo 4 atualmente endêmico na América Central.

Formas de apresentação

As principais manifestações clínicas da dengue podem ser classificadas assim: Infecção Inaparente, Dengue Clássica, Febre Hemorrágica da Dengue (muito perigosa) e Síndrome de Choque da Dengue. Passamos a destacar as características de cada uma.

- Infecção Inaparente

O indivíduo foi picado por um mosquito contaminado, recebe o vírus da dengue, mas não apresenta nenhum sintoma que o faça tomar alguma medida mais ativa de buscar um médico, ou seja, o próprio organismo se encarrega de debelar aquela infecção. A grande maioria das infecções pelo vírus da dengue é na forma de infecção inaparente, o que nos mostra que se o número de pessoas que busca atendimento médico hospitalar já é tão grande com requintes de uma epidemia, o número de indivíduos infectados deve ser bem mais que o dobro destes atendimentos médicos, o que é assustador. No entanto, estima-se que de cada dez pessoas infectadas apenas uma ou duas fiquem realmente doentes pela infecção da dengue.

- Dengue Clássica

É a forma mais branda da doença, muito semelhante à gripe e, portanto também normalmente não são casos notificados pelos postos de saúde como sendo dengue, minimizando mais uma vez a estatística de número de infectados. A Dengue Clássica se inicia de uma hora para outra e dura entre 5 e 7 dias. A pessoa infectada tem febre alta (39° a 40°C), dores de cabeça, cansaço, dor muscular e nas articulações, indisposição, enjôos, vômitos, manchas vermelhas na pele, dor abdominal (principalmente em crianças), entre outros sintomas.

- Dengue Hemorrágica

A Dengue Hemorrágica é uma forma bastante grave da doença e se caracteriza por alterações da coagulação sanguínea da pessoa infectada, o que é facilmente diagnosticado em exame de sangue avaliando-se o número de plaquetas. Em um paciente com Dengue Hemorrágica, são realizados exames de sangue diários para o monitoramento do número de plaquetas. Chegando num limiar considerado preocupante, este paciente necessita de transfusão de plaquetas o que nem sempre é muito simples. A Dengue hemorrágica se assemelha inicialmente a Dengue Clássica, mas após o terceiro ou quarto dia surgem pequenas hemorragias em virtude do rompimento de pequenos vasos na pele e mesmo nos órgãos.

A Dengue Hemorrágica pode provocar hemorragias nasais, gengivais, urinárias, gastrointestinais ou ainda uterinas. Na Dengue Hemorrágica, assim que os sintomas de febre acabam a pressão arterial do doente cai, o que pode gerar tontura, queda e choque. Se a doença não for tratada com rapidez pode levar à morte.

- Síndrome de Choque da Dengue

Esta é a mais séria apresentação da dengue e se caracteriza por uma grande queda de pressão arterial. A pessoa acometida pela doença apresenta um pulso quase imperceptível, inquietação, palidez e perda de consciência. Neste tipo de apresentação da doença há registros de várias complicações, como alterações neurológicas, problemas cardiorrespiratórios, insuficiência hepática, hemorragia digestiva e derrame pleural. Entre as principais manifestações neurológicas, destacam-se: delírio, sonolência, depressão, coma, irritabilidade extrema, psicose, demência, amnésia, paralisias e sinais de meningite. Se a doença não for tratada com rapidez, pode levar à morte.

- Recomendações médicas

Ao primeiro sinal de Dengue, não tente se automedicar ou não opte por deixar a doença ir embora sozinha. É imperativo que o paciente seja levado a um médico para que qualquer suspeita de dengue seja adequadamente investigada. O perigo maior é na automedicação pois muitas pessoas ao primeiro sinal de gripe tomam remédios a base de ácido acetil-salicílico, como aspirina, AAS, e outros, e estes remédios agravam o quadro da Dengue. Na dengue deve ser utilizado medicamento a base de paracetamol, como o Tylenol. Fora esta recomendação básica, ainda existe a possibilidade da dengue hemorrágica, que deve ser diagnosticada a partir de exames laboratoriais como um hematócrito e hemograma completo.

- Como podemos ajudar a frear esta ameaça?

Toda população deve estar atenta para pequenas coisas do dia a dia que podem representar muito no combate a dengue, e de novo, diversos sites na Internet apresentam de forma bastante didática estas dicas. Um ponto chave é a eliminação de possíveis reservatórios de água limpa, onde a fêmea do mosquito põe seus ovos. Estes reservatórios podem ser desde piscinas fora de uso, em casas ou clubes, caixas d´água sem tampa ou mal tampadas, até todo tipo de recipiente que possa acumular água após uma chuva, por exemplo. Pneus velhos, tampinhas de garrafa, embalagens plásticas, tudo pode servir como berçário para as larvas do Aedes, portanto devemos estar atentos a estes depósitos para eliminá-los.

Casas de veraneio com pouco uso, terrenos baldios, ferros-velho, quintais mal arrumados, em todos estes podem ser encontrados potenciais criadouros. Mas também na beleza das flores, naquele singelo pratinho que recolhe a água que usamos para regar nossas plantinhas, ali podem ser encontradas larvas e ovos do mosquito. Por isso é recomendado o uso de areia nos pratinhos, ou mesmo água sanitária ou cloro. Jamais deixar o pratinho com água parada sem estes cuidados. Bromélias e outras plantas que costumam acumular água em suas folhas também são excelentes focos e devem ser “drenadas” sem que se matem estas plantas pois não existe tal necessidade. Ações simples de prevenção podem fazer com que esta perspectiva de epidemia não se torne uma realidade.
   
Além disso, estimulamos também a doação de sangue e derivados. Procure o Banco de Sangue ou Hemocentro mais próximo e se apresente como doador, de preferência levando consigo mais algum parente ou amigo para que os estoques de sangue e plaquetas sejam confortáveis para enfretarmos todos juntos esta grande ameaça que é a dengue e que infelizmente chega junto com a estação que é a cara do Brasil, o verão.

Todos juntos contra a dengue!

Até a próxima
Marcelo Einicker Lamas"


terça-feira, 23 de novembro de 2010

A quem interessam os arrastões ?


A notícia mais importante dos últimos dias para os cariocas foi a sucessão de arrastões ocorridos em diversas vias da cidade. Ao contrário de outras ocasiões, ao invés de simplesmente roubar os carros os bandidos passaram a incendiá-los, destruindo-os completamente e não usufruindo do que seria o produto do roubo. Tal característica nos traz uma série de questões.

A política de segurança pública do Rio de Janeiro vem se alicerçando no que se chama UPP - Unidade de Polícia Pacificadora. Esta consiste na ocupação indeterminada de favelas e comunidades cariocas, expulsando o tráfico e as milícias destas áreas e retirando o poder de domínio sobre estas comunidades. Como consequência, tanto o tráfico quanto a mílicia tem suas fontes de renda comprometidas, o que, obviamente, levaria a uma reação.

O leitor mais antigo do Ouro de Tolo sabe que tenho algumas restrições ao projeto das UPPs. A meu juízo trata-se de uma estratégia insustentável a longo prazo, que 'guetiza' e estgimatiza o morador da comunidade e que, ao fim e ao cabo, atende a interesses de parcelas mais abastadas da cidade. Basta notar que as primeiras unidades foram instaladas em comunidades da Zona Sul carioca, migrando depois para a Tijuca.

Entretanto, sem dúvida alguma tal instituição se converteu em um manancial precioso de votos nas últimas eleições para o governador reeleito Sérgio Cabral. A sensação de segurança percebida tanto pelos moradores de favelas quanto especialmente pelos formadores de opinião levou à formação de uma massa crítica de apoio à continuidade do projeto. Por outro lado, sem a intervenção do Estado através de outros instrumentos de política pública a tendência é de que no médio e longo prazo haja um esgarçamento desta estrutura e a volta à uma realidade anterior.

Contudo, não é deste aspecto que estamos tratando, mas sim da reação dos bandidos - aí incluo milícias, maus policiais, comandantes de batalhões e assemelhados - à perda de lucrativos mercados não só de venda de drogas como de todas aquelas atividades paralelas exercidas pelas milícias - que possuem um potencial inesgotável não só de recursos financeiros como de sufrágios nas eleições. Era evidente que não ficaria sem resposta a implantação deste tipo de política.

No início deste ano publiquei post com o depoimento de um (provável) policial militar dado na resenha do livro "Sangue Azul". Ele dizia que os traficantes "donos" dos morros foram traídos por seus sócios na Polícia e na política, tendo sido obrigados a procurar outros locais. Note-se que de lá para cá o Complexo do Alemão se tornou refúgio dos traficantes do Comando Vermelho e, por exemplo, o índice de assaltos a carros e residências na Ilha do Governador aumentou siginificativamente.

Na prática o que acabou ocorrendo foi uma "migração" do crime, saindo de áreas mais abastadas - e com maior poder de pressão sobre os políticos - para outras não tão organizadas e de menor poder aquisitivo. Municípios fluminenses como Macaé também sofreram os efeitos deste deslocamento de criminosos em busca de recuperar seus ganhos, sejam traficantes, sejam até milicianos. Por outro lado parece claro que "bandidos acima de qualquer suspeita" na cúpula também contribuem para tal fato.

Claramente os últimos "arrastões" fizeram parte de uma estratégia coordenada e que visava, a meu ver, dois objetivos: o primeiro estabelecer uma atmosfera de pânico na população e na imprensa; o segundo mandar algum tipo de "recado" àqueles que mandam. Talvez as próximas UPPs a serem instaladas no Complexo do Alemão, na Mangueira e na Rocinha - pontos chave tanto em faturamento quanto em estratégia logística - tenham motivado o comando do tráfico a estabelecer este tipo de ação. 

Acrescento que a política da escola de samba verde e rosa também tem de ser olhada sob este aspecto, a propósito, em especial pelo volume de recursos envolvidos e pela frequência de adeptos e simpatizantes. Não tenho elementos aqui para afirmar que há influência de elementos ilícitos em sua administração, mas sem dúvida alguma é uma possível "tentação" de fonte de recursos - em especial se a UPP for mesmo instalada. Mas este é outro assunto.


O leitor mais apressado pode concluir que os motivos que eu aponto acima seriam os causadores dos arrastões em série. Só que tem algo que me intriga: tanto no Trevo das Margaridas (Irajá, acesso à Rodovia Presidente Dutra) quanto na Linha Vermelha (fotos) há unidades policiais próximas e que poderiam chegar em pouquíssimo tempo aos locais dos crimes. No caso específico da Linha Vermelha há um batalhão da Polícia Militar na via, a aproximadamente uns seis, sete minutos (se muito) de onde houve a ocorrência. A demora na ação policial, a meu ver, é no mínimo estranha.

Ainda mais quando nos lembramos de um caso ocorrido na semana passada: policiais em um carro roubado, do citado batalhão, foram interceptados por PMs da unidade da Ilha do Governador. Na troca de tiros um dos PMs ao volante de um carro roubado acabou morto. Aliás, a atitude do Comandante Geral da Polícia Militar foi no mínimo hipócrita, ao declarar que o policial morto e os demais presos eram uma mancha na corporação e que eram casos isolados. Das duas uma: ou ele não conhece a Polícia que comanda ou, como se diz popularmente, "jogou para a galera"

Demagogia, em português claro.

Ou seja, o que desejo chamar a atenção do leitor é para o fato de que a questão destes arrastões é mais complexa que o senso comum vendido ao grande público. Tem política envolvida, tem polícia, tem tráfico e tem milícia. Por mais que o Secretário Beltrame diga que irá reforçar o policiamento e que este tipo de evento é "inevitável", algum tipo de recado ou reação está em andamento e, certamente, as tratativas para a volta à normalidade não devem, acredito eu, passar pelos olhos do cidadão.

Aguardemos.

P.S. - Existe um perfil no Twitter chamado "Boca De Sabão", que de forma anônima tem como objetivo divulgar o dia a dia negro da Polícia Militar. É uma bom retrato da realidade e recomendo segui-lo(s).

(Fotos: O Globo)


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O comando da Economia - Perspectivas


A notícia da semana passada na área política foi um anúncio duplo: o de que Guido Mantega (foto) será mantido no Ministério da Fazenda (oficial) e que provavelmente Henrique Meirelles não continuará no comando do Banco Central - este, ainda oficioso.

As notícias indicam uma inflexão importante na política econômica a ser desenvolvida no mandato da Presidente Dilma Roussef. Explico.

Os meus 113 leitores sabem que venho criticando a atuação do Bacen aqui neste espaço, principalmente pelo aumento dos juros básicos sem qualquer justificativa que não aumentar a remuneração dos agentes do mercado financeiro - que, em última análise, são aqueles que empregarão os diretores do Banco Central após o término de seus mandatos na instituição. Estes aumentos da Taxa Selic determinados agravaram a questão do câmbio, conforme escrevi recentemente, e necessitam de uma correção a fim de tornar mais adequada à política macroeconômica.

O anúncio da manutenção de Guido Mantega veio com o intuito de esfriar pressões observadas tanto no mercado financeiro quanto na grande imprensa pela nomeação de um nome mais afeito à chamada "ortodoxia econômica" - notadamente, o ex-Ministro Antonio Palocci. Antes que tais pressões se tornassem insustentáveis, a presidente eleita tratou de jogar "água na fervura" e indicar a manutenção do Ministro atual, que vem efetivando uma política macroeconômica chamada "anti-cíclica".

Parêntesis: uma política "anti-cíclica" reside no uso de instrumentos a fim de contrabalançar eventuais crises econômicas - como a vivida atualmente por grande parte do chamado mundo desenvolvido. No caso atual brasileiro, significa políticas de promoção de emprego e renda a fim de fortalecer o mercado interno e diminuir a dependência da economia brasileira do mercado externo.

Entretanto, a sinalização de que Henrique Meirelles não continuará no comando do Banco Central pode representar o fato de que a Presidente eleita irá enfrentar as pressões do mercado financeiro e trazer o Bacen de volta a seu papel original, o de ser guardião da política monetária em consonância com a macroeconomia do país. Por este motivo é que, como expus em outras ocasiões, sou radicalmente contrário à independência do Banco Central.

Ao contrário de outros economistas de esquerda e centro-esquerda, não 'demonizo' o atual ocupante do cargo máximo da autoridade monetária. Henrique Meirelles tem uma carreira pessoal brilhante e foi extremamente importante no período de transição de políticas, atuando como uma das âncoras do processo. Não custa lembrar que ele abriu mão por duas vezes de mandatos parlamentares a fim de se instalar na função pública, tendo sido até prova em contrário um servidor público bastante eficiente dentro do que se propôs. Prestou bons serviços ao país, mas agora o momento é outro e necessita de um nome mais afinado com as necessidades macroeconômicas brasileiras.

Contudo, a Presidente eleita sinaliza que o momento é de inflexão. Em especial para atender à questão do câmbio, que necessita obrigatoriamente de uma diminuição da taxa de juros real a fim de diminuir a atratividade para os capitais externos advinda da diferença entre taxas de juros doméstica e internacional. Esta correção de rumos é impossível com a diretoria atual da instituição, muitas vezes mais preocupada em atender a seus futuros patrões que em estabelecer seus papéis na definição da política monetária.

Obviamente que ainda é muito cedo para vaticínios, mas o que se sinaliza é uma correção no câmbio - não nos níveis desejados pelo agronegócio, mas de forma a minorar a questão da sobrevalorização da moeda - e o estabelecimento de uma política industrial a fim de se estimular a empresa nacional e fazer com que estes principais conglomerados ganhem musculatura para a competição na arena externa. Claramente a estratégia será a de fortalecer o mercado interno através da promoção de políticas de emprego e renda.

O leitor mais conservador, entretanto, pode ficar sossegado: Dilma Roussef não levará o Brasil ao caminho do socialismo ou ao comunismo. O que provavelmente iremos observar é uma política econômica tipicamente keynesiana, com toques de social-democracia. Traduzindo do economês: uma economia capitalista, com o Estado atuando em alguns setores e com o estabelecimento e consolidação de políticas sociais a fim de reduzir a miséria, as disparidades sociais e simultaneamente estabelecer um efeito indutor sobre o crescimento da economia.

Finalizando, vale ficar atento ao nome que será indicado para presidir o BNDES, braço fundamental do financiamento de longo prazo e do desenvolvimento industrial. Uma boa aposta seria a manutenção do atual presidente, Luciano Coutinho, ou a indicação de outro nome afinado com as teses keynesianas para a economia. Também é fundamental aguardarmos o nome do substituto de Henrique Meirelles que, acredito eu, deverá ser um nome de fora dos quadros da instituição.

Aguardemos.


domingo, 21 de novembro de 2010

Bissexta - "Além da Arquibancada"


Mais um domingo, e mais uma coluna do advogado Walter Monteiro, a "Bissexta". Direto dos Estados Unidos, ele relata a experiência de assistir a jogos da NBA (basquete) e da NFL (futebol americano) ao vivo, e as diferenças para o modo de torcer e se organizar brasileiro.

Boa leitura.

"Além da Arquibancada

(MIAMI) – Os filmes e os seriados nos ensinaram que o povo americano é tarado por esportes. Embora a maioria dos brasileiros acredite que o basquete representa para eles o que o futebol significa para nós, a verdade não é bem essa. O basquete é apenas o quarto ou terceiro esporte na preferência do público, certamente atrás do beisebol e do futebol americano (este sim, o esporte número 1 dos EUA). Talvez até os esportes de luta, como boxe e MMA ou as corridas locais de automobilismo, como a Nascar, ainda superem o basquete no gosto do público. Isso não quer dizer que o basquete não tenha um longo contingente de apoiadores.

Fui assistir a um jogo na American Airlines Arena (acima), casa do Miami Heat, um dos favoritos da NBA desta temporada por ter estrelas de primeira grandeza no elenco, como LeBron James, Dwayne Wade e Chris Bosh (um jogador incrível, que eu desconhecia). Comprei meu ingresso pela Internet ainda no Brasil, mas suei frio até a hora de entrar. O ingresso é paperless, isto é, simplesmente não há nada em meio físico a ser exibido. Cheguei na roleta, mostrei meu cartão de crédito, a atendente o colocou em uma leitora manual e, voilá, me entregou um comprovante indicando o meu assento. Assento, por sinal, dos mais baratos e distantes da quadra, praticamente no teto do estádio. Por módicos US$ 70.00

O estádio é novo e lindo. Como todos os lugares são marcados, os torcedores chegam bem em cima da hora ou até um pouco atrasados, graças ao trânsito do horário do rush e ainda precisam estacionar a 2 ou 3 quadras de distância, com uns flanelinhas melhorados que cobram US$ 20.00 por vagas em uns terrenos descampados (na porta do estádio, os mesmos flanelinhas cobram US$ 30.00). O jogo é um dos passeios prediletos dos turistas estrangeiros, brasileiros incluídos. Isto é, os que se programaram com antecedência e compraram ingresso. Ou os que não se incomodam em pagar mais caro nas mãos dos cambistas, que atuam livremente sem serem importunados pelos policiais.

Tudo é um espetáculo cronometrado, o hino, a bandeira, o vídeo motivacional que antecede a entrada do time, o DJ que toca música nos intervalos, as ações dos patrocinadores. Come-se e bebe-se de tudo, desde que a pessoa esteja preparada para pagar US$ 8.00 ou até mais por uma cerveja long neck ou aceite pagar ainda mais caro por bebidas mais sérias, como tequila, rum ou whisky. A torcida, entretanto, tem um comportamento meio frio, uma espécie de alegria coreografada e protocolar, uma vibração muito comedida para o meu gosto. O jogo acaba, os flanelinhas somem, o trânsito vira um caos e mais de meia hora depois já dá para ir para o hotel.



Clima totalmente diferente do jogo de futebol americano. Enquanto um jogo da NBA só é percebido por quem foi ao mesmo ou está muito ligado no noticiário local, é impossível passar incólume a um jogo da NFL. Assisti a um jogo do Miami Dolphins contra o Chicago Bears. A cada rodada um jogo é selecionado para acontecer na noite de 5a feira, porque jogo de futebol na TV é sinônimo de muita audiência e venda de anúncios. Os anúncios mais caros do mundo são os do SuperBowl (ou seja, a final do campeonato de futebol americano), que é o evento esportivo mais assistido do planeta. Muito mais do que a final da Copa do Mundo.

Desde a manhã de 5a feira era possível ver pessoas vestidas com camisas do Dolphins, se preparando para um jogo que só começaria às 20h30min. Alguém desatento podia achar que se tratava de um jogo de vida ou morte, uma semifinal ou coisa parecida, mas era só um jogo a mais, no meio da temporada, entre dois times medianos, que não figuram na lista de favoritos. Mal comparando, era como se o Atlético MG fosse enfrentar o Botafogo pela 10a rodada do Brasileirão. Comecei a me assustar quando o meu hotel foi invadido por hordas de torcedores do Chicago. Jamais imaginei que tanta gente se dispusesse a viajar tanto (umas 4 horas de vôo) para um joguinho no meio da semana. 

E fiquei ainda mais impressionado quando vi que não era só no meu hotel. A cidade inteira fora invadida por torcedores adversários, famílias inteiras com filhos pequenos e adolescentes, senhores e senhoras de idade, homens gordos bebendo cerveja desde cedo, exibindo suas panças com orgulho. Sem medo de errar, pelo menos uns 5 mil torcedores visitantes foram ao jogo, devidamente trajados com a camisa de seu time, sem qualquer resquício de maus tratos pela torcida local. Uma cena emocionante, que eu nunca verei no Brasil, onde ir a um jogo na casa do adversário é aventura para valentes e destemidos.

O astral da NFL é o oposto da NBA. Futebol americano é adrenalina pura. O alto consumo de álcool, mais do que tolerado, claramente incentivado, ajuda muito a alegria fluir. As pessoas chegam ao estádio muitas horas antes da partida e fazem churrasco no estacionamento, onde bebem litros de cerveja e bebidas destiladas. O estacionamento também serve de espaço para eventos preparatórios. Dentre outras diversões, 1 hora antes da partida era possível assistir a um show da cantora e atriz Juliette Lewis e do guitarrista do Aerosmith. Tudo de graça.

A torcida tem uma alegria genuína, ainda que estimulada pelas ações dos promotores do evento. Fogos de artifício, bandeirões, torcida organizada (com direito a um espaço próprio), tudo é controlado e dirigido pela empresa que é dona do time. Mas isso não retira o brilho da festa. O jogo é de arrepiar e, assim como no Maracanã, as principais jogadas são assistidas de pé, na base de muita gritaria e incentivos. Como a emoção é pulsante e o estádio é coalhado de torcedores adversários sentados lado a lado, de vez em quando sai faísca – eu contei 4 pequenas brigas, prontamente contidas pela segurança.

Não vou me atrever a dar lições acerca do futebol americano, pois se para quem entende o pouco que eu dissesse pareceria enfadonho, para quem não entende seria inteiramente inútil, dado que um jogo que tem mais de 250 páginas de regras não pode ser explicado em poucas linhas. Mas ao menos uma coisa preciso lembrar, para esclarecer que mesmo sendo um esporte coletivo, o futebol americano depende do desempenho individual de um jogador específico, o quarterback, uma espécie de maestro da equipe. Um ótimo quarterback não necessariamente faz um time ser campeão, dado que o esporte continua a ser coletivo, mas um quarterback medíocre é certeza de vexame.

Há um filme com Al Pacino, Dennis Quaid e Jamie Foxx, Any Given Sunday (Um Domingo Qualquer), que explica a alma do futebol americano. A trama se inicia a partir de um acontecimento improvável, todos os quarterbacks do elenco se contundem em uma partida e um desconhecido sai do banco de reservas para cumprir a missão de liderar a equipe. Eu pensava que algo semelhante só ocorresse na ficção, mas na partida que precedeu a que fui, vi pela televisão os dois quarterbacks do Miami se lesionarem no mesmo jogo e serem substituídos por um zé-ninguém. Só que, ao contrário do filme, o Val Baiano do Dolphins fez exatamente o que dele se esperava no meu jogo, proporcionando aos 70 e tantos mil torcedores presentes uma das piores atuações da história do time, um papelão de envergonhar a massa. Me deu pena ver tanta gente cabisbaixa, tendo que aturar as humilhações da torcida rival.

E eu, que sou flamenguista, também me entristeci. Nem tanto pelo resultado em si, mas por ter tido a certeza de que não viverei o suficiente para ver algo parecido no Brasil. Não sou chegado a macaquices ou complexo de vira-latas, mas trabalho com dados de realidade. Um jogo onde o público é marcado pela diversidade (crianças, adolescentes, jovens, casais, gente madura, aposentados, sessentões, setentões, deficientes físicos, trabalhadores, ricos, milionários, gente linda, gente feia, literalmente tem de tudo) e pela tolerância com a torcida rival é, definitivamente, algo muito distante de nós. Uma pena, porque nada é mais recompensador do que viajar muitas horas só para ver o seu time vencer. E melhor ainda quando esse é um programa agregador de parentes e amigos."