sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cinecasulofilia - "Kiyoshi Kurosawa"


Mais uma sexta feira e mais uma coluna "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o blog de mesmo nome - que, aliás, merece um visita detalhada.

Hoje temos um texto sobre o cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa (foto), um pouco longo mas que vale muito a pena ser lido. Como sempre, autoria do cineasta, professor de cinema e crítico Marcelo Ikeda.

Kiyoshi Kurosawa

Bom, como acontece uma mostra no CCBB/RJ sobre o ainda pouco conhecido cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa, achei que essa era uma oportunidade de postar aqui um texto escrito há pouco mais de um ano sobre vários filmes do cineasta. Este texto foi publicado na Revista Etcetera, mas como ela está fora do ar, tomei a liberdade de republicá-lo aqui...

Kiyoshi Kurosawa

1 - Introdução

Um dos aspectos mais conhecidos do cinema contemporâneo japonês é o seu diálogo com o cinema de gênero, especialmente no gênero terror ou suspense. Alguns filmes chegaram até mesmo a serem refilmados por Hollywood, como é o caso de Ringu, de Hideo Nakata. Um desses diretores é Kiyoshi Kurosawa, considerado atualmente um dos principais diretores do cinema japonês contemporâneo. Mas a associação de Kurosawa com o cinema de gênero acaba por confundir ao invés de esclarecer sobre a natureza do cinema de Kurosawa. Apesar de ele ser mais conhecido por seus filmes atípicos de terror, por sua inspiração metafísica, Kurosawa não dirigiu apenas filmes do gênero, como License to Live (um “filme de família”) e Barren Illusions revelam. Mesmo seus filmes mais típicos não trabalham propriamente os elementos do cinema de terror. Em Pulse, por exemplo, os “fantasmas” não provocam nenhuma reação física nos vivos, a não ser despertar sua percepção para algo tão terrível que eles não conseguem mais suportar a própria existência.

Mas a carreira de Kiyoshi Kurosawa (nenhum parentesco com o Akira, mestre japonês) vem de bem antes. Começou a fazer filmes nos anos oitenta, filmes de baixo orçamento lançados diretamente no mercado de homevideo, em geral ligados ao gênero Yakuza. No entanto, mesmo dentro dos exíguos limites desse tipo de encomenda, Kurosawa começou a despertar a atenção dos cinéfilos e críticos japoneses em 1985 com The Excitement of the Do-Re-Mi-Fa Girl (título em inglês). No entanto, seu primeiro grande sucesso foi o thriller de suspense Cure (1997). Logo a seguir, conseguiu uma proeza: foi selecionado, no mesmo ano, para os festivais de Berlim (License to Live), Cannes (Charisma) e Veneza (Barren Illusions), transformando-o num dos principais nomes do cinema japonês.

Pulse, também exibido em Cannes, e com um diálogo direto com Cure, chegou a ser comprado pela Miramax para um remake, que seria dirigido por Wes Craven, mas depois o projeto foi abandonado. Com um ritmo menos intenso do que no final da década de noventa, Kurosawa continua dirigindo seus trabalhos no Japão. O Festival de Cannes deste ano apresenta, na Quinzena dos Realizadores, seu novo trabalho: Tokyo Sonta.

Mesmo com toda a repercussão nos principais festivais de cinema do mundo e inclusive com a possibilidade de retorno comercial que vários dos filmes apresentam, até o momento nenhum dos filmes de Kiyoshi Kurosawa foi lançado comercialmente no Brasil. Alguns deles puderam ser vistos apenas em esparsas mostras de cinema, especialmente no Rio e em São Paulo. Recentemente um de seus filmes (Sakebi) foi lançado em homevideo sem alarde, com o estranho título de Vítima de uma Alucinação.

Essa é portanto uma oportunidade de apontar para um mestre do cinema contemporâneo praticamente desconhecido do público cinéfilo brasileiro.

* * *
2 – Aspectos Gerais

Como dissemos, a associação do cinema de Kiyoshi Kurosawa com o gênero do terror, feita a partir da repercussão de seus maiores sucessos – Cure e Pulse – traz mais equívocos do que esclarece sobre o espírito dos filmes do diretor. Isto porque, no fundo, seus filmes têm uma inspiração realista: refletir sobre as angústias existenciais de pessoas que vagueiam num Japão contemporâneo, sua inadaptação a um cenário de contínua solidão.

Mais que o cinema de terror, uma outra referência é a de um “realismo mágico”: a interação de elementos externos que fazem com que os “vivos” reavaliem sua própria existência. São os “fantasmas” de Pulse e Sakebi e mesmo a “água viva” de Bright Future. Os elementos da natureza também são utilizados de forma a provocar uma reflexão sobre o distanciamento dos seres humanos de sua essência. Nesse ponto, a água viva de Bright Future possui uma relação com a árvore de Carisma. No entanto, esses elementos típicos de um “cinema fantástico” não provocam um ritmo ágil, um “cinema de aventuras”, mas quase o seu oposto: um cinema baseado nas inações, com tempos contemplativos, planos gerais, planos longos com movimentos de câmera sutilmente arquitetados. Não há improviso no cinema de Kurosawa: tudo transmite uma sensação de longo pesar, um desespero mudo. É como se o mundo estivesse caindo a nossos pés e acompanhássemos seu desmoronamento com imensa sobriedade.

Esse “realismo” do cinema de Kurosawa vem acompanhado de uma atmosfera sombria, asfixiante, de uma transformação abrupta, geralmente pelo acaso ou por motivos não propriamente identificados. Em License to Live, um rapaz desperta após dez anos de coma. Em Pulse, subitamente percebe-se que as pessoas começam a ser invadidas por um sentimento obscuro, quando vêem a “sala escura”. Não há a tentativa de fuga do elemento mágico, e sua essência não é necessariamente ligada à natureza do mal: ao contrário, muitas vezes vem associado com um estranho sentimento de libertação dessa constante e terrível necessidade de viver. Por isso, a morte e a juventude acabam sendo os dois principais motes do cinema de Kurosawa, e não é à toa que ambos caminhem lado a lado. O que parece estar em jogo é a perspectiva do universo dos jovens poder refletir as transformações progressivas da sociedade japonesa trazendo possibilidades mais humanas para si mesmos.

Em decorrência disso, em algumas situações os personagens se perguntam se o drama que estão vivendo é real ou não. É o ambíguo final de License to Live, ou mesmo a conversa íntima dos dois personagens de Pulse. Ou ainda em Sakebi, quando os personagens vêem e até chagam a tocar nos fantasmas. Enclausurados num castelo de cartas leve e intrincado como a própria vida, os personagens de Kurosawa enfrentam sua própria possibilidade de se perceberem como vivos, ou como meros “fantasmas de si mesmos”. A conclusão em geral é pessimista, melancólica, mas com uma certa esperança. Esperança esguia, tipicamente japonesa, pois o que parece estar em jogo é a possibilidade de vivermos em liberdade.

De uma forma didática, vou dividir a filmografia recente de Kurosawa em dois grupos: o primeiro é o dos típicos “thrillers de suspense”, pelos quais o cinema de Kurosawa é mais conhecido; o segundo é que irei chamar de “filmes jovens”, em que o aspecto criminal e o elemento fantástico está reduzido, para propor uma espécie de retrato íntimo da falta de perspectivas de uma juventude. Mas como iremos ver, evidentemente existem diálogos e pontos de interseção entre essas duas vertentes.

* * *

3 – Os “filmes jovens”

3.1 – License to Live e o desafio de “recomeçar”

License to Live, exibido no Festival de Berlim em 1998, pode surpreender quem espera por um filme de terror típico da filmografia de Kurosawa. Está mais próximo de um drama familiar: rapaz volta à consciência após ter ficado dez anos em coma. Quando acorda, encontra um mundo um tanto diferente. Mas sua tentativa de adaptação a este “novo mundo” cruza especialmente com questões familiares: seus pais se separaram, sua irmã mora fora do país, seu pai basicamente não quer mais vê-lo. Passa a viver com um amigo de seu pai, administrando uma espécie de pequena fazenda. Dito assim, podemos imaginar License to Live como uma espécie de “sessão da tarde” mas o filme é exatamente o oposto disso. Com planos extremamente longos e brilhantes movimentos de câmera, License to Live apresenta a difícil tarefa de Yutaka em (con)viver em um mundo que lhe é estranho. Ele é uma espécie de “jovem prematuro”: com 24 anos, já não é mais uma criança, e precisa viver sem o pai e sem a mãe. Mas por outro lado, é como se ainda tivesse 14 anos. Dessa forma, License to Live é uma variação do tema do rito de passagem da juventude para a fase adulta.

No entanto, sua maior particularidade é que ao despertar do coma, Yutaka não quer olhar para trás, não deseja descobrir os rastros de seus dez anos perdidos, mas apenas reconstruir a sua vida de forma a que se possa caminhar para a frente. Dessa forma, não há um clima de melancolia ou de desespero na readaptação de Yutaka, e sim de um senso de novidade e desafios crescentes. Dramaturgicamente, a chave para esse processo é a reforma do rancho, como espelho da construção de um novo modo de vida. Ou seja, Yutaka não está preocupado em reconstruir o antigo lar ou recuperar o antigo estado de coisas, mas sim construir uma nova vida, um novo lar, ainda que com uma família que não seja necessariamente a dele.

Para tanto, Kurosawa opta por uma dramaturgia baseada em pequenas ações (os encontros isolados com membros da família, o processo de construção do rancho, etc) e acontecimentos pontuais que não estão ligados entre si necessariamente por uma relação de causa e efeito. Da mesma forma, não há um perfil psicológico claro de Yutaka, não há uma definição com clareza do que o personagem procura, e nem mesmo há um conflito claramente estabelecido. Ao mesmo tempo não há os cacoetes do cinema autoral, com tempos vazios que exploram a angústia e a solidão de Yutaka. Isso existe mas não da forma como o estereótipo do cinema autoral contemporâneo nos oferece. Não há tempo ou espaço para a possível melancolia de Yutaka: ele sempre está cheio de coisas para fazer!

Ainda assim, há uma indiscutível afetividade na forma como Kurosawa acompanha a trajetória de seu protagonista. A relação de Kurosawa com Yutaka (isto é, do diretor com seu protagonista) é quase como a de Yutaka com seu cavalo. Ainda que Yutaka não acaricie e proteja seu cavalo como um mero bibelô, eles guardam uma relação de clara cumplicidade.

Mas quando tudo parece pronto para o equilíbrio final – fruto do trabalho persistente de Yutaka – Kurosawa está pronto para fazer uma conclusão severa: é quanto tudo está prestes a desmronar. Pois viver é sempre estar na corda-bamba, à mercê de um sopro para que tudo desmorone, como um longo castelo de cartas. Yutaka fala ao seu algoz com um leve sorriso de canto de boca: “Eu vim de algum lugar e vou para algum lugar.”. Esse é o cinema de Kurosawa, em que os personagens estão sempre à procura, mesmo que eles não saibam ao certo de quê. É como se Kurosawa nos dissesse que algumas pessoas podem passar anos de suas vidas desacordados, até que subitamente possam despertar e reencontrar o sentido de viver. E quando acham, tudo está próximo do fim. Perto do fim, chega a duvidar se tudo aquilo realmente existiu, ou se seu despertar do coma não foi meramente um sonho (ou seria um filme?). Mas Fujimori san (o amigo de seu pai que lhe hospeda) lhe responde com convicção que não há dúvidas que ele existe, que tudo é real. Não satisfeito, Kurosawa faz um final ainda mais sinistro, e um último plano extremamente misterioso, de um cartão-postal em branco. Esta é a recordação possível da existência meteórica de Yutaka, e do filme-cometa de Kurosawa, este objeto deliciosamente estranho.

3.2 – Barren Illusions

Ainda não satisfeito, pouco tempo depois Kurosawa realizou Barren Illusions, exibido no Festival de Veneza em 1998. A particularidade deste projeto é que ele foi produzido pela Escola de Cinema de Tóquio, em que Kurosawa era professor. Era um projeto para envolver os alunos na realização de um longa-metragem, em que os alunos participavam da produção, com a exceção do diretor de fotografia, câmera e som. Todas as demais funções foram feitas por alunos. Mesmo com as naturais limitações deste tipo de projeto, Barren Illusions é um dos projetos mais admiráveis de Kurosawa, e não é por acaso sua seleção por um festival da envergadura de Veneza. Por outro lado, é também um objeto estranho na filmografia de Kurosawa: distante do rótulo do “cinema de gênero terror”, é mais uma investigação das angústias dos jovens japoneses.

O filme acompanha a vida de um músico (Shinji Takeda) e uma funcionária dos correios (Miako Tadano). Eles moram juntos, mas o filme não deixa muito claro se são amantes ou apenas amigos. Provavelmente apenas amigos, pois suas vidas se cruzam de forma muito esparsa. Eles vivem solitários, e a única forma de viver em um grupo é quando ele se aproxima de um bando de delinquentes ou quando ela se junta a uma torcida de futebol. A solidão desses dois jovens é mostrada a partir de um cinema de planos longos e sem diálogos, com pequenos acontecimentos sem necessária ligação entre si, que os mostram dentro de seu apartamento ou perambulando por uma cidade de Tóquio em geral com tons acinzentados, nublados, sem grande brilho, como o próprio título – Barren Illusions – nos informa.

Em alguns momentos esses dois personagens tentam fugir da solidão. Tentam acompanhar uma vida que não lhes pertence (o sequestro das cartas do correio, as brigas dos vizinhos), compram um cachorro para lhes fazer companhia, pintam as paredes do apartamento, brincam de bola num parque (uma sequência linda). Mas parece que nada faz muita diferença. A solidão e o vazio de suas vidas preenchem todo o filme.

Barren Illusions também é composto de alguns elementos não-realistas, típicos da filmografia de Kurosawa: um suicídio radical (que depois será retomado em Pulse), uma epidemia, as súbitas “desintegrações” de Haru.

O final de Barren Illusions ainda nos revela mais surpresas. Há um fantástico movimento de câmera em 180 graus, que nos revela o mar. Em seguida, um diálogo arrepiante. Michi entra em desespero quando vê no mar um esqueleto.

- Tudo acaba assim!!!... Acabará tudo assim?
- Mas eu estou contigo!
- Mas onde estás?
- Estou bem aqui, não me vês?
- Onde?
- Aqui!
- Aqui aonde?
- Eu… onde eu estou?

3.3 – Água-Viva

Bright Future, exibido em algumas mostras no Brasil como Água Viva, é um trabalho que combina elementos dos “dramas realistas jovens” com outros dos “filmes de inspiração fantástica”. Novamente Kurosawa utiliza algumas convenções de um gênero específico do cinema japonês, o “filme de monstro”, apenas para completamente subverter suas relações com esse gênero. Dois jovens trabalham numa pequena fábrica e têm a chance de serem efetivados. Um deles Yuji Niimura (Jo Odagiri) é tímido e se vê profundamente influenciado pelo outro amigo Mamoru Arita (Tadanobu Asano), que possui em seu apartamento uma água-viva que solta uma substância venenosa. Ao perceber que tinha tentando lhe matar deixando que colocasse a mão no interior do aquário, o chefe demite Mamoru. Ele então mata não só o chefe como sua família, sendo preso e esperando a sentença, provavelmente a pena de morte. Seu amigo o visita na prisão, e recebe instruções de como alimentar a água-viva.

Yuji tem uma vida que praticamente não lhe pertence, à sombra de Mamoru. Com a morte desse amigo, ele é obrigado a “despertar para a vida” (usando a terminologia de License to Live). Ele passa a viver com o pai desse amigo, formando uma espécie de família com esse velho solitário (outra semelhança com License to Live).

Mas a chave de entendimento do filme é a presença misteriosa, silenciosa e soturna da água-viva. Ela é como uma espécie de “espelho do mundo”: vive em seu silêncio, mas quando tocada, é mortal. Por outro lado, ao ser cuidada, ela acaba crescendo e se multiplicando, avançando pelo mundo ao ser despejada num rio, causando a morte de pessoas do bairro.

Água Viva é dessa forma um filme sombrio, talvez tão sombrio quanto Pulse. A falta de perspectivas dos jovens japoneses (o plano final é bastante característico, mostrando jovens caminhando ao léu com camisas de Che Guevara, chutando caixas vazias) é mostrada a partir dessa enigmática água-viva, quase um símbolo dos “filmes-cometa” de Kurosawa. Sua beleza fascina mas pode ser apenas observada, a partir de uma certa distância: um toque gera a morte (a dificuldade do toque é um tema essencialmente japonês…). Quase como o mundo, cuja beleza parece ser impenatrável, inacessível. A morte de Mamoru passa a ser uma espécie de libertação para Yuji, que agora precisa tormar suas próprias decisões. Mas que decisões tomar nesse nosso mundo?

As águas-vivas avançam através do rio, e chegam perto das pessoas, para sua alegria ou tragédia. É quase como o cinema de Kurosawa, que cultiva esse sentimento de dor para proliferá-lo através dos canais do mundo.

4 – Os falsos “thrillers de suspense”

4.1 – Aspectos Gerais

Kurosawa tornou-se mais conhecido pelos “thrillers de suspense” que descreveremos a seguir. São projetos realizados com um orçamento maior, a partir de Cure (1997), o primeiro grande sucesso da filmografia de Kurosawa. Nesses filmes, há uma abordagem ambígua do cinema de gênero. Em Cure e Sakebi, parecemos estar no campo do “filme criminal”, em que um policial tenta descobrir o sujeito e os motivos para uma série de crimes. Em Pulse, estamos no campo propriamente dito do terror, pois as mortes, a princípios, parecem ser causadas por “fantasmas”. No entanto, esses campos se cruzam: em Sakebi, também surgem fantasmas que impulsionam os assassinatos; Pulse apresenta uma estrutura típica de um filme criminal, com “pistas” e “sinais” para que tentemos descobrir os motivos dos crimes.

Mas a particularidade do cinema de Kurosawa nesse conjunto de filmes é que, indo além das convenções específicas do cinema de gênero, e trabalhando nas bifurcações entre esses mesmos gêneros, é como se Kurosawa utilizasse elementos do cinema de gênero para no fundo fazer uma investigação da natureza humana. Mais que descobrir os crimes e suas razões, os personagens de Kurosawa empenhados na busca (o policial ou os jovens) acabam no fundo descobrindo a si mesmos. Em Cure e Sakebi, isso é muito característico: esse “policial durão” acaba ao longo dos filmes revelando suas fragilidades emocionais e sua carência afetiva. Os fantasmas e os assassinos são tão importantes porque eles revelam sinais impossíveis de serem apagados para os que continuam vivos. Por isso quanto mais os personagens se aproximam dos assassinos, mais eles estão perto de revelar a si mesmos a sua verdadeira natureza. Ou seja, uma tortuosa e dolorosa odisséia existencial.

4.2 – Cure

Cure foi o primeiro grande sucesso internacional de Kurosawa, em que o diretor encontra de forma madura seu estilo e forma de abordagem caracterísiticos. Grande hit comercial no Japão, o filme conseguiu projetar-se para o Ocidente após grande repercussão no Festival de Cinema de Tóquio. Em seguida, garantiu projeção no Festival de Rotterdam, e daí em diante a filmografia de Kurosawa deslanchou.

A princípio, Cure parece ser um típico thriller de suspense, na linha de alguns filmes de americanos de gênero, em que um policial tenta solucionar um conjunto de assassinatos. Pessoas aparentemente comuns, em lugares diferentes, cometem um mesmo tipo de assassinato mórbido, provocando em suas vítimas um corte profundo em forma de “X” que vai do pescoço até o tórax. O detetive Kenichi Takabe (representado de forma magistral por Kôji Yakusho, presente em diversos outros filmes de Kurosawa) investiga o caso com a ajuda de um psiquiatra.

No entanto, o que surpreende em Cure é a densidade do aspecto psicológico, especialmente na caracterização do detetive. À medida em que vai se aprofundando no caso como quase uma obsessão e que se aproxima do mentor desses crimes, esse detetive vai se descrobindo, e, com isso, o espectador presencia os seus limites e as dificuldades de sua vida pessoal, especialmente em sua relação com sua esposa doente. As regras do típico cinema de gênero vão se tornando cada vez mais difusas, e em seu terço final, Cure se revela um asfixiante drama sobre as contradições da natureza humana, seus limites e um sinistro desejo de morte.

Diversas das características desenvolvidas posteriormente por Kurosawa podem ser vistas em Cure. Primeiro, o aspecto sombrio, e a falta do horizonte e espaços abertos em externas quase sempre nubladas. Segundo, uma mórbida atração e ao mesmo tempo uma repulsa diante da proximidade da morte. Terceiro, um cinema de ambiguidades em relação ao cinema de gênero. Quarto, uma mise en scene elaborada, em geral com planos longos, ainda que com relativamente poucos tempos vazios. Quinto, a opção por finais abertos, inconclusivos.

Representação ambígua da natureza do mal, o criminoso de Cure é um estudioso, um mestre da manipulação da mente humana. Sua característica encantadora é sua imensa serenidade, seu senso de observação e curiosidade diante de conhecer o outro. Seu método de abordagem se baseia em retornar as perguntas, questionando os mais simples pontos de contato, causando uma desorientação. Não é à toa que as principais perguntas são “quem sou?” ou “onde estou?”: quase uma síntese da busca do cinema de Kurosawa pela essência da natureza humana e pela investigação do espaço fílmico. Avançando em forma de espiral, de forma contínua e de proporções crescentes, Cure é quase um estudo sobre a genealogia do mal. A partir de uma repentina aparição (a primeira vez que o criminoso aparece é à beira do mar), o mal se infiltra na apodrecida sociedade de Tóquio, impulsionando as pessoas a cometerem um ato que no fundo elas sempre gostariam de fazer mas que procuravam reprimir (essa é a ambiguidade de Cure). O criminoso não causa diretamente um mal às pessoas com quem ele tem contato: sua “sutileza” é que ele as leva a refletir sobre o que lhes causa prazer ou dor, e as impulsiona para um crime. Mas exterminado o criminoso, qual é a certeza de que novos atos não ocorrerão mesmo assim? O mal é como um vírus, que uma vez germinado, está pronto para se proliferar, sem controle. É esta a característica comum entre os “thrillers de suspense” de Kurosawa, e inclusive pode ser visto em Água-Viva, nesse ser aparentemente ingênuo que pode causar a morte e se multiplica pela cidade.

4.3 – Pulse 

Pulse começa num navio navegando ao longo do oceano, uma espécie de imagem-síntese do dircurso de desespero do filme. “Tudo começou um dia sem aviso desta maneira”, e através de um flashback somos apresentados a uma espécie de versão do apocalipse. “Sem aviso”, é como se uma espécie de vírus tivesse invadido a mente e o corpo dos habitantes de Tóquio, em especial os jovens. Ao ter contato com a “sala escura”, em geral por um programa de computador (a analogia com o “vírus”), os jovens começam a ver “fantasmas”. Os fantasmas levam à morte, mas assim como o assassino de Cure, eles não causam mal diretamente aos que os vêem, mas, como um personagem define mais adiante no filme, “os fantasmas tentam apanhar as pessoas em sua própria solidão”. Pulse acompanha em paralelo dois casos, que se encontrarão no final: o primeiro, de duas amigas, Michi e Junko; o segundo, de Kawashima e Harue, que trabalha num laboratório de informática.

Pulse, a princípio nos parece um típico filme de terror, com a presença de “fantasmas” que assombram a existência dos vivos e os levam à morte. Mas com o tempo Pulse vai se tornando cada vez mais metafísico, sobre o destino certo da condição humana: a solidão profunda (a morte). Por isso, mesmo com um certo exagero, alguns críticos viram em Pulse (e também em Cure) estilhaços do cinema de Tarkovski, pela investigação metafísica da condição humana, pelos silêncios e espaços físicos atípicos, reinventados. A cidade de Tóquio é sempre vista como um cenário sombrio, nublado, em que ruas e mesmo veículos coletivos (ônibus, metrô) estão sempre completamente vazios.

Apesar de os fantasmas não causarem nenhum dano físico direto a quem os vêem, eles estão vivos, eles possuem uma presença física. Kawashima chega a tocar o fantasma quando entra na “sala escura”, e ouve “eu sou real”. Uma das principais discussões de Pulse é sobre a natureza do nosso mundo. Em um diálogo central (filmado num incrível plano sequência de cinco minutos), Kawashima tenta acalmar Harue. Diz que Harue está errada por achar que fantasmas e pessoas são iguais, porque afinal estamos vivos.

“Estão todos loucos. Ninguém sabe o que acontece quando se morre. Tudo isso sobre fantasmas, porém eu não acredito neles, mesmo se ver um. Porém eu sei que...que eu estou vivo e que você também, Harue.Isso é seguro, certo?”

No metrô, há um lindo diálogo entre Kawashima e Harue, que reforça o diálogo anterior.

H: Não tem ninguém...
K: Não...
H: Onde está todo mundo?
K: Estou aqui. Estou aqui do teu lado. Mesmo que não tenha mais ninguém, isso não importa. Ambos estamos aqui.

O amor pode parecer o único remédio para o “destino certo da condição humana”, ou ao menos para reverter a evolução do vírus. Mas apenas parece, pois Kawashima não consegue salvar Harue, nem Michi consegue salvar Junko. Pulse possui uma natureza cada vez mais pessimista e fatalista.

Pulse possui uma estrutura em espiral, assim como Cure, em que os fatos tomam consequências cada vez maiores, até um final que parece uma versão do apocalipse. E um final em aberto, esperança esguia da possibilidade dessa “aposta” que é continuar vivendo, ainda que num barco sem rumo ao longo do oceano.

4.4 – Sakebi (Retribution) – Vítima de Uma Alucinação

Sakebi, lançado no mercado de homevideo brasileiro com o título de Vítima de Uma Alucinação, foi exibido com discrição no Festival de Veneza em 2006. Tem inúmeros pontos de contato com Cure, por também mostrar um policial (representado pelo mesmo ator, o excelente Kôji Yakusho) que investiga uma série de assassinatos com uma mesma característica (ao invés do “X” de Cure agora é o afogamento numa poça de água salgada). Algumas cenas chegam a quase se repetir, como o depoimento de um dos assassinos, que tem um delírio e revela sua insanidade (em Cure, isso ocorre num estonteante plano sequência de mais de cinco minutos). Mas por outro lado, Sakebi possui elementos que tornam ainda mais complexa a busca do policial pelo assassino: ele aos poucos vai descobrindo indícios de que talvez ele próprio tenha cometido o assassinato. Isso poderia nos associar até a alguns filmes “neonoir” americanos dos anos oitenta (especialmente Coração Selvagem), só que há ainda outra característica, típica do cinema de Kurosawa, que tornará essa busca mais estranha: o fantasma da primeira vítima assassinada aparece continuamente para o policial. A forma como Kurosawa mostra o aparecimento desse “fantasma” esgarça definitivamente os limites entre o real e a alucinação. Kurosawa presentifica e corporifica esses fantasmas, de forma que os atormentados personagens de Sakebi acabam contracenando com eles. Nesse sentido, retoma alguns conceitos de Pulse, em que na “sala escura” as pessoas interagem com os fantasmas.

Por isso Sakebi deve ser visto como uma tentativa de ampliar (tornar mais complexo) o escopo de Cure e Pulse, seja no processo de busca do assassino como revelador da natureza própria do policial (Cure) seja na interação dos “fantasmas” com os vivos de forma a tornar ambíguos os limites do real e da alucinação (Pulse). No entanto, falta uma conclusão que articule de forma mais orgânica esses dois elementos, e as soluções encontradas (um hospital psiquiátrico do passado, a morte da mulher do policial) acabam parecendo soluções desgastadas distantes do asfixiante processo de espiral contido tanto em Cure quanto em Pulse.

Carisma

O primeiro aspecto de Carisma é sua ambiguidade em relação ao cinema de gênero. A princípio, o filme mostra mais um policial representado por Kôji Yakusho em ação. Mas a partir do resultado negativo de uma intervenção, que culminou com a morte de um criminoso e de um sequestrado, o policial é enviado para o interior, para uma espécie de retiro. É quando se envolve numa história misteriosa, envolvendo a disputa por uma árvore, apelidada de Carisma, considerada essencial para o equilíbrio de uma floresta. 

Nisso, o filme muda totalmente de tom, e sua base inicial do filme policial se revela uma história de conotação metafísica sobre a vida e a verdade. De uma certa forma, o clima metafísico que acaba se impondo às convenções do cinema de gênero, especialmente do filme policial ou de detetive, é comum ao cinema de Kurosawa, como abordamos especialmente em Cure e Sakebi. 

Mas em Carisma a ruptura com o cinema de gênero é mais radical: é como se seu início fosse uma espécie de Cinzas que Queimam, de Nicholas Ray, e ao final percebemos que se torna uma espécie de A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich, aliás, dois filmes de dos anos cinquenta de cineastas americanos que, em sua época, romperam convenções de um certo cinema de gênero, e que Kurosawa já demonstrou em entrevistas a sua admiração.

Carisma antecipa os temas desenvolvidos posteriormente em Água-Viva. Um deles fala da necessidade de se fazer escolhas. A punição do policial se dá porque ele acreditava que seria possível salvar as duas vidas: a do criminoso e a do sequestrado. No final, houve a morte de ambos: muitas vezes é impossível salvar a todos. É preciso então fazer uma escolha. A travessia do policial representado por Yakusho ao longo da floresta representa a maturidade para se fazer essa escolha: a quem salvar e a quem executar. A floresta serve como uma espécie de travessia espiritual para que o policial decida de que lado deve ficar. O problema é que muitas vezes a verdade é difusa, de modo que não se base em que lado se quer ficar.

O segundo tema é a da possibilidade de se conviver com a diferença. A árvore de Charisma guarda inúmeros paralelos com a água-viva de Bright Future. Ambas são seres frágeis, aparentemente indefesos, mas que espalham um veneno que pode matar quem lhe toca. Espalhar esse veneno, proliferar esses seres, representaria a possibilidade de luta pela diferença ou aniquilação de uma comunidade? 

Kurosawa trabalha com os elementos do cinema fantástico, e coloca diversos pontos de vista em relação a essa árvore: o de um solitário lunático, que a protege como se fosse sua própria vida, a de uma cientista, que julga que a árvore representa a destruição do ecossistema da floresta, e de um bando, que busca a exploração madeireira do lugar. Entre o coração, a razão e a ganância, o policial precisa fazer uma escolha, e para isso, mergulha numa floresta com pistas difusas.

A partir de Charisma, alguns críticos viram no cinema de Kurosawa uma associação com Tarkowski. Essa comparação contribui mais para confundir do que para esclarecer os objetivos de Kurosawa, até porque, como dissemos, sua ambiguidade em relação ao cinema de gênero é um elemento fundamental de sua filmografia. Mas é curioso como podemos ver Carisma em comparação com O Sacrifício, de Tarkowski. 

O policial toma conta de uma frágil árvore, que é vista quase como símbolo da salvação de um mundo materialista. Além disso, a visão não-realista da floresta e os diálogos filosóficos dos personagens remetem a algumas cenas de Stalker. Ainda, a forma como Kurosawa compõe os espaços físicos, com casas abandonadas, com vidraças quebradas e espaços vazios lembram algumas das opções do cineasta russo. Mas creio que esses elementos são mais pontos em comum do que propriamente tentativas de diálogo entre os dois autores.

Realizado em 1999, Charisma aponta para um estranhamento da filmografia de Kurosawa: não é nem um “filme de juventude” nem “um thriller de suspense”. Seu arremedo de “cinema fantástico” contrasta com uma mise en scène de inspiração realista, especialmente na forma como o cineasta retrata a floresta: ao redor da árvore Charisma, há um espaço dessacralizado, como se nenhum elemento apontasse para o fato de que aquela árvore é especial. 

No entanto, junto com Cure, talvez seja o filme em que Kurosawa mais explicita a ambição metafísica de seu cinema. À medida em que avança para o seu final, Charisma retoma os temas de seu início: o fracasso do policial em proteger a frágil Charisma possui o contraponto do fortalececimento interior de uma ética. O sistema destrói a liberdade de ser em dissonância do outro: é preciso que a árvore se integre ao ecossistema da floresta para que possa sobreviver, senão é aniquilada. É a partir da consciência dessa tragicidade que o policial se declara pronto para deixar a floresta e regressar à sua rotina na cidade de Tóquio.


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Resenha Literária - "Elisete Cardoso - Uma Vida"

Após um interregno razoável, a coluna "Resenha Literária" está de volta. Explico.

Eu terminei de ler "Elite da Tropa 2" - alvo da resenha anterior - e peguei para ler o livro referência de Daniel Yergin sobre a indústria do petróleo. Entretanto, como o livro é um "tijolo" de mais de mil páginas e uns três a quatro quilos de peso - embora seja sensacional - não havia a menor condição de levá-lo nesta rápida viagem que fiz semana passada a Campinas.

Isso abriu espaço para a leitura deste "Elisete Cardoso - Uma Vida", que iniciei em viagem e terminei no retorno ao Rio de Janeiro.

De autoria do jornalista Sérgio Cabral, retoma a série de biografias de nomes da música popular brasileira escritas pelo autor - das quais lá tive a oportunidade de ler as que enfocam Tom Jobim, Nara Leão e Ataulfo Alves, esta resenhada. É um trabalho sensacional de resgate da memória da Música Popular Brasileira empreendido pelo jornalista, apoiado pela Companhia Editora Nacional.

Elisete Cardoso (1920-1990) é considerada por muitos a maior cantora que o Brasil já teve. Para os mais jovens isto pode soar estranho neste país sem memória - falarei sobre isso mais abaixo - mas quem lê a biografia, a ouve e conhece a sua história não tem muito como discordar. Não por acaso, recebeu a alcunha de "Divina".

Sérgio Cabral conta linearmente a sua história, partindo da infância pobre - onde conviveu com ninguém menos que Tia Ciata, cuja casa é considerada o "Marco Zero" do samba carioca - e difícil e demonstrando desde tenra idade o dom para o canto e a dança.



Cabral enfoca o início de carreira da cantora, onde ela chegou a trabalhar como dançarina em casas noturnas que seriam precursoras das atuais gafieiras. Não era o que o leitor pode estar imaginando; eram casas com o regulamento extremamente rígido e que haviam dançarinas especializadas nos diferentes ritmos.

Havia uma espécie de "cartão" que era picotado a cada música que os frequentadores dançavam com as moças - e o pagamento era feito ao final. Logo Elisete passou ao conjunto da casa noturna, com sua voz maravilhosa.

Daí para o rádio e, enfim,, o estrelato. Eram tempos em que a cultura popular brasileira era balizada pelo rádio e, posteriormente, a televisão.

Elisete se consolida como a grande intérprete dos grandes compositores. Em sua longa e vitoriosa carreira ela interpretou nomes como Ary Barroso, Cartola, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Hermínio Belo de Carvalho, Nelson Cavaquinho, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Zé Kéti, Paulo César Pinheiro, Élton Medeiros e muitos outros. Como o leitor pode ver, uma verdadeira seleção brasileira.

Abaixo, "Sei Lá, Mangueira", de Paulinho da Viola e Hermínio Belo.



Cabral também passa pela atribulada vida amorosa da cantora, que se casou duas vezes e teve um incontável número de namorados, em tempo em que isso era um tabu. O tema também traz ao livro a questão das hoje chamadas "revistas de celebridades", que já naquela época publicavam notas maldosas e/ou inverídicas sobre as vidas dos grandes artistas.

Inclusive havia uma coluna muito famosa - que deu o nome ao que hoje é o arquétipo de "fofoqueira" - denominada "Mexericos da Candinha", na "Revista do Rádio".

O autor relata também a vida cotidiana da cantora, apoiado não somente na convivência pessoal como no depoimento de pessoas próximas. Elisete era uma pessoa muito simples, que gostava de cozinhar, da boa mesa e dos amigos e da família - um filho biológico e outra adotiva, que lhe deram netos.

Cabral mostra a relação da cantora com as escolas de samba, em especial com a Unidos de Lucas, agremiação da qual foi madrinha e posteriormente enredo, em 1974 - no final deste texto disponibilizo letra e áudio deste samba. Aí reside o único senão do livro: não fica explícita a relação da biografada com a Portela, sua escola de coração. Já no final do livro o autor escreve que Elisete "não perdia um desfile da escola na década de 80", mas sem explicar o porquê daquela ligação ou se a cantora envolvera-se ou desfilara pela águia de Madureira anteriormente.

Na parte final da obra observa-se o progressivo afastamento da música da cantora das rádios, mas mantendo um público fiel para seus shows. Relatam-se as viagens ao Japão, abrindo mais um mercado para a música brasileira, e seus problemas com a indústria fonográfica em sua última década de vida. Nos dois derradeiros capítulos descreve-se a doença no estômago - um câncer - que acabaria por causar o seu falecimento em 07 de maio de 1990.

Ainda assim, a doença não afetaria a sua fantástica capacidade de interpretação e sua voz, como o vídeo abaixo, gravado poucos meses antes de sua morte, comprova. Observem a cantora interpretando, "à capella", Ary Barroso:



Vendo e ouvindo estas gravações, fico entristecido em saber que apenas 20 anos após sua passagem a cantora está praticamente esquecida. Até as pessoas da minha geração - tenho 36 anos - conhecem muito pouco da obra da "Divina", que foi a maior cantora da música popular brasileira durante décadas, reverenciada por nomes como Sarah Vaughan e outros.

Também não posso conter a minha tristeza ao observar - como escrevi em março - que a "cultura de massa" está cada vez mais medíocre, cada vez mais descartável, com qualidade dia a dia mais questionável. São manifestações que daqui a dois, três anos estarão esquecidas.

Outro ponto preocupante é observarmos que os principais compositores brasileiros de hoje são os mesmos da década de 60: Chico, Caetano, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Edu Lobo e outros do mesmo naipe. Não houve renovação, a meu ver muito pela progressiva "guetização" que a MPB sofreu em termos de rádios de massa e televisões abertas. Quando eles morrerem, quem restará ?

Também vale lembrar que em termos de intérpretes o quadro não é muito diferente, embora tenham surgido algumas boas cantoras: Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, Teresa Cristina e mais uma ou duas. Uma curiosidade do livro é que das três cantoras que Elisete indicou como "sucessoras", duas acabaram falecendo antes dela - Clara Nunes e Elis Regina. Restou apenas Maria Bethânia.

Cabral, na introdução, também explica a opção pela grafia "Elisete", com a justificativa de que "a língua não pode ser submissa ao arbítrio dos cartórios." Vale lembrar que a cantora foi registrada como "Elizette".

Curiosamente, eu só tinha visto o livro para compra na outra ocasião em que estive em Campinas - onde adquiri meu exemplar. Aqui no Rio nunca vi o exemplar à venda, em lugar nenhum - e olha que sou rato de livrarias... Online a Submarino está com uma boa promoção, a R$ 29,90.

É uma biografia indispensável para se conhecer um pouco da história da MPB e de uma de suas maiores cantoras - que precisa ser relembrada.

Abaixo, o áudio e a letra do samba enredo em que a Unidos de Lucas homenageou-a, em 1974. A escola foi segunda colocada no Grupo 2, obtendo a ascensão ao grupo das grandes escolas de samba:



"Mulata Maior - A Divina Elizeth Cardoso

(Joãozinho Empolgação, Pedro Paulo e Zeca Melodia)
Puxador: Carlão Elegante

"Lucas em tempo de carnaval
Da imaginação do nosso escritor
Entre tantas coisas belas
Cantar você, mulata, gênio musical
Ouvi-la cantar
É um prazer em nosso dia a dia
E nesta festa popular, a você
Exaltamos com honras de alegria

Arrasta, mulata
Sua sandália de ouro
Levanta a poeira do asfalto
Mulata maior, meu tesouro

No Municipal você foi sensação
No exterior, Brasil em forma de canção
Hoje a nossa escola está feliz
Porque ao invés de ouvi-la está cantando pra você

Vem, mulata, vem sorrir
E cantar com essa gente
Que está sempre a aplaudir"




quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sobretudo - É show !


Excepcionalmente na quarta feira (uma vez mais, culpa do editor), a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero. Semana que vem as colunas de quarta voltarão à sua programação normal.

Hoje temos um apanhado cultural e esportivo dos últimos dias.

Sobretudo - É show!

Durante algum tempo - pouco tempo - eu trabalhei na companhia de um jovem empresário que era dublê de playboy e professor secundarista. Ele usava muito constantemente uma expressão monossilábica que tanto servia para ressaltar a excelência de algo quanto para conceder um simples elogio a um trabalho bem feito: “show!” 

- Fulano, que tal a nova namorada de Beltrano? 

- Show! 

- E este novo site que eu acabei de concluir? 

- Show! 

Nas últimas semanas, esta coluna que se chama Sobretudo exatamente por se propor a navegar por temas os mais diversos, bem que poderia ter se chamado “Sobre-um-só-tema”, dada a premência onipresente do assunto eleições. Hoje, vamos tentar dar um refresco e passar a temas mais leves. É que, em paralelo ao “dever cívico” e às “preocupações sérias da vida”, temos nos divertido um bocado com atividades que eu desejo compartilhar com você, amigo leitor. Vamos lá? 

Gershwin passeia no Ibirapuera – No sábado, 30 de outubro, véspera do segundo turno presidencial, fui com a Mara assistir à apresentação/concerto da Orquestra JazzSinfônica interpretando o fantástico George Gershwin. 

Uma das coisas que poderia justificar, por si só, um sujeito escolher morar numa cidade poluída e de trânsito caótico como São Paulo é que esta cidade também é hoje a capital cultural do Hemisfério Sul e casa de orquestras como a OSESP, a Jovem Tom Jobim e – a minha preferida – a JazzSinfônica. Cria da mente inquieta de gente como Arrigo Barnabé e Eduardo Gudin, a Orquestra foi adotada pelo Governo do Estado e tem o comando firme (mas nem por isso menos criativo e instigante) do maestro João Maurício Galindo, fazendo uma ponte entre a formação erudita e o repertório popular, principalmente as mais diversas vertentes do jazz. 

A JazzSinfônica já me fez chorar algumas vezes. Fiquei fora do chão na apresentação jazzy-bossanovista de Lenny Andrade, mas foi a parceria com o tangueiro Rodolfo Mederos, no dia dos namorados de 2009, que mais nos marcou: eu diria que foi o melhor espetáculo musical a que eu já assisti na vida. Ainda por cima, a residência oficial da orquestra é o Auditório do Ibirapuera, a obra-prima de Oscar Niemeyer em pleno Parque de mesmo nome, um lugar que já valeria uma visita em silêncio, mas que é perfeito para apresentações de boa música. 

No programa do dia 30, a orquestra começou com uma suíte de obras do compositor americano, um verdadeiro passeio por alguns dos principais temas de musicais de todos os tempos, sempre miscigenando influências eruditas e populares, com o tempero especial da música negra de raiz que originou o jazz e o blues. George Gershwin, um judeu branco de Nova York, foi justamente o compositor que construiu a ópera moderna norte-americana no século XX, dando dignidade e erudição à cultura musical negra. 

Seu momento mais especial foi a proto-pop-ópera Porgy and Bess (1935), tocada em forma de concerto pela JazzSinfônica, com a luxuosa participação de quatro incomparáveis cantores operísticos brasileiros, Ednéia de Oliveira (soprano), Edna de Oliveira (mezzo-soprano), Sebastião Teixeira (barítono) e Geílson dos Santos (tenor). Nem mil palavras poderiam explicar com precisão o que foi este concerto, mas duas palavras o ajudarão a entender um pouco: perfeito e inacreditável. 

Baseada no romance Porgy, de Du Bose Heyward, a ópera tem libreto de Ira Gershwin, irmão de George, e conta a história de uma fictícia comunidade afro-americana chamada Catfish Row, uma antiga casa-grande de fazenda sulista de frente para o mar, transformada em cortiço e que abriga personagens inesquecíveis, dentro os quais um deficiente físico (Porgy) que se apaixona por uma prostituta (Bess). 

A orquestra estava em ótima forma, conduzida pelo jovem maestro-auxiliar Carlos Prazeres e os cantores, todos premiados e consagrados nos palcos clássicos, uma atração à parte. 

Alguém colocou no YouTube imagens captadas amadoristicamente. Não dá a idéia da grandeza do espetáculo, mas vale para conferir um pequeno trecho inicial: http://www.youtube.com/watch?v=3ZYN_bpPzpc. [N. do E.: infelizmente, o autor do vídeo não permite a incorporação em outras páginas, por isso apenas o link.]

Saímos extasiados por tanta qualidade e sentimento. Já compramos os ingressos para a apresentação da orquestra este mês, uma homenagem a Tom Jobim, com o músico convidado Richard Galeano. A JazzSinfônica é show! 

A OSESP também não é fácil – O Ibirapuera é um excelente auditório, mas não é o melhor da cidade. Na antiga estação de trens da praça Júlio Prestes, fica a Sala São Paulo, considerada uma das melhores salas de concerto do mundo. Ela é casa da OSESP, a Sinfônica estadual. Há alguns meses, ela também nos encantou com uma obra de Gershwin, numa apresentação matutina dominical. Foi uma leitura de Rapshody in Blue, uma peça fundamental da música orquestral do século passado. Tenho uma versão da Filarmônica de Berlim em DVD e, sinceramente, a OSESP não fica nada a dever. É show! 

39 Degraus, Hitchcock vai ao teatro – Vimos também a adaptação teatral do filme Os 39 Degraus, de Alfred Hitchcock. O thriller policial se transforma numa rasgada comédia com Dan Stulback no papel do almofadinha norte-americano envolvido numa trama de espionagem. O elenco conta ainda com a atriz Fabiana Gugli e os excelentes Danton Mello e Henrique Stroeter que dão vida a mais de 30 personagens em cena. O clima é de farsa, com muitos cacos e a sensação permanente de que os atores estão se divertindo tanto quanto a platéia. A direção é de Alexandre Reineck. 

As montagens do texto em West London e na Broadway receberam prêmios, não sem muita justiça. A temporada paulista faz tanto sucesso que tem sessões de quinta a domingo, além de extras nos feriados e aos sábados, mas vai só até o final feste mês. Não perca, é show!


O vôlei feminino e a emoção – Pretendia acordar tarde neste último sábado, mas a Pandora, nossa Llasa Apso, queria seu desjejum, então acabei ligando a tevê logo cedo. Foi assim que vi, meio sem querer, a semifinal do Mundial Feminino de Vôlei entre Brasil e Japão, na casa das adversárias. Há muito tempo eu não vejo uma equipe de vôlei praticar um jogo tão empolgante quanto o dessa seleção japonesa. Rápidas, criativas, lideradas por uma levantadora extremamente talentosa, a Takeshita (1,59, baixinha para os padrões atuais, mesmo para uma levantadora – eleita a melhor jogadora do último mundial, em 2006) e por uma atacante de ponta jovem e promissora, a Saori (até aqui, a segunda maior pontuadora deste mundial), além de contarem com uma defesa incansável, daquelas que sempre acreditam em qualquer ponto, por mais improvável que seja a bola. 

Acordamos quando o jogo estava 0x1 em sets para o Japão, e o segundo set arrastava-se para ser decidido além dos 30 pontos: fechou 33 x 35. Com o 0x2 e o ginásio cheio, tudo parecia acabado. 

Só quem viu o que se seguiu pode avaliar o nível de emoção que tomou conta daquele ginásio nos três sets seguintes. Contando com força, equilíbrio, paciência, talento, garra, maior altura e experiência, o Brasil conseguiu virar o jogo aparentemente impossível e garantiu lugar na final contra a Rússia, ponto a ponto, em sets sempre apertados. 

Na manhã de domingo, um jogo também emocionante, mas de uma outra forma. Os sets alternaram a prevalência de uma e outra equipe e, ao final, a Rússia venceu por 2x3, tornando-se heptacampeã. Mas este time brasileiro é show!


F1 faz as contas e a esportividade sai ganhando – Outro show proporcionado pelo esporte foi a prova final da Fórmula 1 2010, transmitida diretamente de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Um circuito belíssimo, uma corrida vencida com méritos pelo alemão Vettel que sagrou-se o mais jovem campeão da história. 

O mais interessante foi saber que se a Red Bull Racing tivesse feito o chamado jogo de equipe na penúltima etapa, em Interlagos, o título teria caído nas mãos de Alonso, da Ferrari. Foi graças a manter até o fim a determinação de deixar nas mãos do talento de seus pilotos nas pistas a construção dos resultados que fez da equipe, além de campeã entre as equipes, a campeã entre os pilotos. E a armação da Ferrari, que priorizou Alonso em detrimento de Massa, foi punida pelos deuses do esporte. Show! [N. do E.: fiquei muito feliz com este resultado, porque o mau caratismo não pode vencer jamais, nem o crime.]


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Samba de Terça: "Nós Podemos: Oito Idéias Para Mudar o Mundo"



Nossa coluna "Samba de Terça", de volta após o "forfait" da semana passada - os compromissos profissionais em Paulínia acabaram me impedindo de escrever a coluna - traz hoje um samba que não se enquadra em nenhuma das categorias elegíveis para o texto. Não é um samba histórico que está caindo no esquecimento, não é um grande samba de uma escola pequena nem um samba de qualidade, embora menos lembrado de escolas grandes.

O leitor deve estar se perguntando: o que faz  2005, um dos piores - para muitos, o pior - sambas da história da gloriosa Águia na coluna ? Digamos que seja contar uma boa história e mostrar um lado dos desfiles que muito pouca gente conhece. A propósito, não acho o samba tema de hoje o pior da história portelense: nada supera o intragável samba de 2000 sobre Getúlio Vargas que, além de ruim, tem alguns erros históricos sérios.

A história deste carnaval portelense remonta ainda ao pré-carnaval de 2004. Em abril de 2003 um grupo de portelenses descontentes com a diretoria da escola simplesmente invadiu a quadra da escola e fez um "churrasco de protesto", estendendo faixas e soltando foguetes. O objetivo era protestar contra a admninistração de Carlos Teixeira Martins, que direta ou indiretamente era o homem forte da agremiação desde 1971 - com um breve interregno entre 1995 e 97. O grupo de cerca de 100 pessoas era liderado por Nilo Mendes Figueiredo, ex-diretor da escola no tempo em que o grande Natal da Portela era o presidente.

Posteriormente divulgou-se a história de um "acordo" onde a presidência seria entregue a Nilo Figueiredo após o carnaval de 2004. Inclusive houve um jantar - para o qual nós no PortelaWeb, site oficial à época, fomos convidados - a fim de "celebrar" a futura passagem do cargo por parte dos correligionários.

As eleições estavam marcadas para logo após o carnaval de 2004, onde a Portela, apesar de um belo desfile, obteve apenas a sétima colocação. A oposição protestou quando do anúncio das regras do pleito, apontando irregularidades jurídicas e evocando o acordo que teria sido feito entre Nilo e "Carlinhos Maracanã" para a passagem de poder da escola. Ainda assim as eleições foram realizadas, e Marcos Aurélio Fernandes, o Marquinhos, ex-Diretor de carnaval da escola foi eleito presidente. Com 29 anos, seria o mais jovem presidente de uma escola do Grupo Especial - hoje ele é presidente da Estácio de Sá.

Neste interim a escola recebeu uma proposta de patrocínio da ONU para o enredo, baseado nas "Oito Metas do Milênio" (abaixo). 2005 marcaria o centenário de nascimento de Natal da Portela, uma das figuras de maior destaque da história da agremiação; entretanto, tal como já havia sido feito com o centenário de Paulo da Portela, fundador e consolidador da agremiação, em 2001, tal marco foi esquecido pela diretoria em questão. Marquinhos se tornou o primeiro dirigente de uma escola de samba a pisar na sede da ONU em Nova York, o contrato de patrocínio foi fechado e o enredo, definido.


Neste meio tempo os opositores de Carlinhos Maracanã conseguiram na Justiça uma liminar impugnando a eleição, e chegou-se a um acordo: haveria uma nova eleição e um recadastramento de sócios. Acertou-se também que, fosse qual fosse a chapa vencedora, o enredo seria mantido - o contrato estava assinado. Nilo Figueiredo não é exatamente um dirigente preocupado com a história da azul e branca, mas é injusto colocar na conta dele o esquecimento do centenário de Natal da Portela, como estamos vendo. O veteraníssimo vice presidente Paulo Miranda administrou a escola neste espaço de tempo, mas tudo parou aguardando a definição da nova diretoria.

Chega o dia da eleição. Em um pleito tenso, com acusações de carteiras de sócios falsas por parte da oposição, Nilo Figueiredo derrotou Marquinhos por 131 votos a 118 e se tornou o novo presidente da escola.

Nota: a primeira providência do dirigente foi retirar do PortelaWeb o status de site oficial da escola e banir seus integrantes de quaisquer funções na mesma. Na abertura do quadro de sócios realizada logo após as eleições todos os integrantes do grupo tiveram seus pedidos de associação negados - inclusive eu. Somente em 2007, na segunda tentativa, obtivemos sucesso em nosso pleito.

Praticamente toda a equipe do carnaval foi trocada. Saíram puxador, mestre sala e porta bandeira, mestre de bateria, carnavalescos e outros menos votados. Foram contratados o puxador Bruno Ribas, o mestre de bateria Marçalzinho (filho do lendário Mestre Marçal), o mestre sala Paulo Roberto, a porta bandeira Andréa e os carnavalescos Orlando Jr., Nelson Ricardo e Amarildo de Mello. A sinopse anterior foi descartada e escrita uma nova, que podemos ver abaixo:

"Justificativa

Em setembro de 2000, na sede da ONU - Organização das Nações Unidas, na cidade de Nova Iorque, houve uma importante reunião de Chefes de Estado e de Governo do Mundo e foi elaborado um documento que ficou conhecido como Declaração do Milênio das Nações Unidas.

A Declaração do Milênio baseia-se nos seguintes princípios:

1 - Valores: Liberdade. Igualdade, Solidariedade, Tolerância, Respeito à Natureza e Divisão de Responsabilidades.
2 - Paz, Segurança e Desarmamento
3 - Desenvolvimento e Erradicação da Pobreza
4 - Proteção ao Meio Ambiente
5 - Direitos Humanos, Democracia e Boa Governança
6 - Proteção aos Mais Fracos
7 - Atendimento às Necessidades Especiais do Continente Africano
8 - Fortalecimento da Organização das Nações Unidas

Para das conseqüência prática à Declaração do Milênio, foram estabelecidos, ainda em 200, oito objetivos que deverão ser atingidos até o ano 2015 e que são os seguintes:

1 - Lutar pela Erradicação da Pobreza e da Fome no Mundo
2 - Expandir a Oferta de Ensino Básico para as Crianças
3 - Buscar a Igualdade entre os Sexos e Mais Autonomia para a Mulher
4 - Reduzir a Mortalidade Infantil
5 - Aprimorar a Saúde Materna
6 - Combater as Enfermidades Endêmicas (AIDS, Malária, Ebola, etc)
7 - Assegurar a Sustentabilidade do Meio Ambiente
8 - Estabelecer Parceria Mundial para o Desenvolvimento

Nesta mesma ocasião, com a finalidade de dar maior alcance à Declaração do Milênio e suas Metas, a ONU decidiu promover uma campanha de divulgação junto à população mundial, para que todos os seres humanos se sintam comprometidos com aqueles objetivos.

Percebemos que a repercussão mundial alcançada pelo Carnaval Carioca o qualifica plenamente para auxiliar na divulgação dos princípios da Declaração do Milênio, a ONu e a Portela decidiram se unir para desenvolver este tema no desfile de 2005.

Mostrada em forma de arte, difundida pela canto e pela dança, a mensagem da Portela, com seu enredo "Nós Podemos: Oito idéias para mudar o mundo" atingirá o coração das pessoas, facilitando a percepção de suas urgências e dos caminhos para superá-las.

Nós Podemos: Oito idéias para mudar o mundo


Sinopse

Em 1935, a Portela iniciava sua trajetória vitoriosa ao ganhar o primeiro campeonato de sua extensa lista de conquistas com enredo "O samba dominando o mundo"

Setenta anos depois a ONU convida a Portela para ser a porta-voz das metas do milênio. O Samba será o canto de esperança de um mundo melhor e mais justo, difundindo pelos cinco continentes sua mensagem de confiança em melhores dias.

Nosso canto vencerá distâncias, se transformando na prece daqueles que compartilham suas crenças em melhores tempos.

No desfile da Portela todas as bandeiras do mundo girarão unidas, pregando um amanhã mais solidário, convidando a todos para unirem seus esforços por um mundo melhor.

Nosso desafio será mostrar de forma simples e direta o que pode ser feito para se obter um futuro melhor para a Humanidade.

Selecionamos a seguir alguns motivos que podem ser apresentados no desfile:

Igualdade, Liberdade e Fraternidade
Paz
Desarmamento
Respeito à Natureza e Proteção do Meio Ambiente
Democracia
Urgência do Continente Africano
Erradicação da Fome
Ensino Básico e Lazer para as Crianças
Combate ao Trabalho Infantil
Respeito aos Direitos da Mulher
Proteção da Saúde da Mulher Gestante
Prevenção e combate às Enfermidades Transmissíveis
União das Nações em Parceria Mundial para o desenvolvimento

Sugestão para reduzir a fome, a miséria, a poluição, as doenças transmissíveis, o uso indiscriminado de agrotóxicos, a opressão contra as mulheres e contra as minorias raciais e sexuais podem sr mostradas e cantadas.

Assim como podem ser cantadas e mostradas idéias para preservar os mananciais de águas, cuidar do tratamento do lixo, evitar a destruição das florestas, garantir, o acesso universal à educação básica, proteger as mulheres gestantes, reduzir o flagelo das enfermidades endêmicas e melhorar a condições de vida nas comunidades carentes

Tudo isso apresentado de maneira original e criativa para provocar forte e crescente emoção nas arquibancadas .

Assim, em 2005, o samba da Portela será a voz que une toda Humanidade, levando sua mensagem para um amanhã mais fraternal."

(Fonte: Galeria do Samba)


A escolha de samba foi bastante complicada, aliás como uma constante na Era Nilo. Comentava-se desde antes da eleição que o samba estava prometido para o grande compositor Noca da Portela, que apoiou Nilo Figueiredo no processo eleitoral. Durante a disputa, destacou-se o samba do compositor Junior Scafura como o melhor da safra, conquistando a preferência da quadra.

Ressalte-se de que na parceria do posteriormente multicampeão Scafura estava um dos maiores compositores do samba carioca, que obviamente não assinava o samba por estar concorrendo também em sua escola de origem. Não por acaso, este é o melhor samba do hoje premiadíssimo nos concursos portelenses - nos anos seguintes a parceria não se repetiria mais.

Confirmando-se todos os boatos - o que se tornaria uma constante dali por diante - Noca da Portela venceu o concurso, em uma final muito tumultuada, com direito a vaias no anúncio do resultado e confusão. Aqui você pode baixar um arquivo com alguns sambas concorrentes e o áudio da final daquele ano, gravado ao vivo na quadra. Era uma samba fraco, bem abaixo do histórico do grande Noca e com um verso intragável: "combater o HIV", talvez o pior verso de um samba portelense em toda a sua história.

A preparação do carnaval seguiu enfrentando uma série de problemas. Claramente a diretoria sabia o que queria destruir, mas não tinha um plano de administração da esocla. Os problemas iam se sucedendo: falta de dinheiro devido à inexistência dos repasses das empresas indicadas para patrocinar o enredo, atraso no barracão, desorganização e uma série de contratempos.

Para os leitores terem uma idéia, eu estive na quadra na quarta feira antes do carnaval e presenciei uma cena que jamais havia visto: integrantes de alas de comunidade ensaiando com a letra do samba na mão ! Isso, na semana do desfile, quando o trabalho de harmonia já deveria estar pronto em termos de dança e especialmente canto. Saí da quadra bastante preocupado com o que tinha visto - aliás, iniciando um longo jejum: somente voltaria a pisar no Portelão para um ensaio em 2009.

O tecido para as roupas das baianas somente foi comprado na sexta feira antes do carnaval, e roupas da bateria e da ala das baianinhas tiveram de ser refeitas por terem sido executadas com o molde errado. Alas eram acrescentadas ao roteiro de desfile quase todos os dias. Claramente a inexperiência dos carnavalescos e da diretoria estava pesando. A impressão era a de que eles não tinham idéia de como se fazia um carnaval no Grupo Especial.

Na véspera do desfile, "misteriosamente" o abre alas da escola pegou fogo no barracão, ficando inutilizável. A versão mais aceita era de que o carro não encaixava no que traria a águia, símbolo maior da Portela, e teria pego fogo de propósito. Obviamente que certas coisas não se pode afirmar peremptoriamente sem provas, mas é a versão corrente e ao que tudo indica verdadeira - jamais houve desmentido.


Nós portelenses estávamos temerosos pelo desfile, e sabíamos que seria um fiasco. Só nos restava cantar - me lembro até hoje da assinatura que muitos torcedores usavam nos fóruns antes do desfile, "mais do que nunca é preciso cantar". Como havia saído da bateria - estava recém casado - e sabia que a escola viria gigante, optei por desfilar na segunda ala (acima) a fim de não ter de correr. Comigo veio um outro amigo nosso do Grupo da PortelaWeb, o Geraldino (primeiro à direita e autor da foto), que veio do Recife especialmente para fazer sua estréia pela escola.

Aliás, ele teve a coragem de levar a imensa fantasia - que não coube na caçamba de uma Fiorino quando fui buscar as duas roupas - no avião de volta para Pernambuco. Imagino o quanto não pagou de excesso de bagagem... A expectativa para o desfile era muito sombria. A Portela seria a quarta escola a desfilar na segunda feira, dia 07 de fevereiro - posição nobre após cinco anos seguidos em que ou ela encerrou ou foi a penúltima.

A concentração foi um dos momentos mais estressantes de toda a minha vida. Ninguém para armar a escola, as alas espremidas entre si, fora de ordem, muita confusão e ainda a tentativa de se encaixar as asas da águia, nosso símbolo maior. Por duas vezes elas quase caíram sobre componentes, uma delas sobre a bateria, o que causaria uma tragédia de proporções inimagináveis.

Não havia comando. Para o leitor ter uma idéia, se pegarmos o VT do desfile enquanto a cantora Marisa Monte dava entrevista aparece ao fundo um componente dando esporro nos operários que tentavam encaixar as asas. Era eu. Chope, o experiente diretor de Harmonia, foi relegado a segundo plano e a responsabilidade coube ao hoje deputado federal Júlio Lopes. Este sujeito distribuiu camisas de Harmonia para um monte de modelos, e passou o desfile inteiro mandando beijos para a arquibancada. Eu me recordo que quase parti pra cima dele no meio da avenida ao ver tal postura, de tanta raiva que eu estava. Digo sem medo de errar que eu só não voltei da concentração dali mesmo para minha casa por ser a minha escola do coração.

No fim das contas, a águia adentrou mutilada a passarela, sem as asas. Foi uma balde de água fria nos componentes.

Ainda assim o desfile para quem estava nas primeiras alas como eu foi até razoável, em que pese a confusão ter sido tão grande que eu tive de vir fazendo a harmonia de minha ala. Bruno Ribas teve uma excelente atuação desde o esquenta com "Portela na Avenida" - que o leitor pode baixar aqui - e a bateria de Mestre Marçalzinho veio muito bem. O puxador, a bateria e a garra do componente se salvaram no desastre - e, justiça seja feita, o fraquíssimo samba ganhou algumas surpreendentes Notas Dez na apuração que ajudaram muito. Em compensação, alegorias e especialmente fantasias estavam fraquíssimas, evidenciando a desorganização da preparação do desfile e as limitações dos carnavalescos.

Cheguei na Dispersão achando que o desfile tinha sido ruim mas que pelo menos não desceríamos. Achei estranho quando contei apenas seis carros até o final do desfile e as alas finais correndo desesperadamente para a escola, que estava gigante (estimam-se mais de sete mil componentes naquele ano, quando o normal são no máximo quatro mil), não estourar o tempo. Mas...

O último carro, que trazia a Velha Guarda, não conseguiu avançar o suficiente para chegar ao início da avenida desde a armação da escola - depois, pasmem, soube-se que haviam esquecido de colocar combustível no carro, ou seja, ele não entraria de qualquer jeito. Com o passar do tempo o Presidente Nilo deu ordem de fechar o portão de entrada na avenida e um setor inteiro da escola foi impedido de participar do desfile - incluindo a Velha Guarda, raiz da escola.

Houve uma grande confusão, com choradeira, gritos e a postura deplorável do ator Dado Dolabela, que agrediu um dos integrantes da Velha Guarda. Após um longo impasse e um imenso atraso foi autorizado que o restante da escola, já com o som desligado e o desfile encerrado, passasse sob muitos aplausos pela avenida - e com a irônica frase da foto abaixo, lema de campanha de Nilo Figueiredo. Surpreendentemente, a escola não foi punida pelo atraso.


O curioso é que eu, que estava no início da escola, só soube da confusão quando cheguei em casa de volta. Eu me lembro como se fosse hoje: olho pela televisão, acho estranho ver a Imperatriz - que era a escola seguinte - ainda sem ter iniciado o seu desfile e ouço a minha esposa falar: "Pedro, pega uma cerveja e senta que eu vou te contar o que aconteceu..." Aí que soube da confusão toda ao final.

Havia quase certeza de que a escola seria relegada ao Grupo de Acesso A, mas na abertura dos envelopes a escola acabou com a décima terceira e penúltima colocação, com 383,9 pontos, à frente apenas da única rebaixada Tradição. Minha avaliação é de que seria justo se julgarmos apenas o que passou pela avenida, mas a Portela devia e precisava ser punida pelo atraso e pela confusão - o que a levaria a um merecido rebaixamento. Até por todos os erros cometidos antes e durante o desfile, que não foram poucos.

Como desgraça pouca é bobagem, dias após o desfile Nelson Ricardo, um dos carnavalescos, foi assassinado brutalmente em crime até hoje sem solução. Então...

Por outro lado, pelo menos saí com um saldo positivo: no DVD que foi lançado após o carnaval eu apareço em close por uns quatro ou cinco segundos - nenhum outro componente da escola apareceu por tanto tempo. Brinco dizendo, não sem orgulho, que fui escolhido para representar a garra do portelense que, ao fim e ao cabo, levou a escola nas costas e no coração aquele ano.

Vamos ao samba, que marcou a última vitória de Noca da Portela na escola - seus sambas somente voltariam a uma final agora em 2011, sendo "derrotado" nesta ocasião.

Samba enredo:
Autores: Noca da Portela, Darcy Maravilha, J. Rocha e Noquinha

"Portela, hoje abraça o mundo
Num amor profundo, pela fraternidade
O samba é o porta voz
E “nós podemos” desatar os nós
Da desigualdade
E vem... num sorriso de criança
A esperança em cada coração
E nesse dia de folia, faz a sua profecia
Liberando a emoção

Um mundo sem fome sem dor e sem guerra
Quem viver verá
O manto da paz cobrindo a terra
O que há de ser será


Ensinando ver a vida, como ela é
Respeitando os direitos da mulher
Dando a juventude um novo amanhã
Saúde, corpo forte mente sã
Combater o hiv
E toda epidemia que aparecer
Preservar a natureza
Ver o bem vencer o mal
A “onu” e o samba parceria ideal
Pro desenvolvimento mundial

A mensagem da Portela
É pra toda humanidade
Vamos semear amor
Pra colher felicidade


Portela..."


Finalizando, lembro este ano para que esta tragédia jamais se repita.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sambas do Grupo Especial 2011 - Uma Primeira Análise


Os sambas para o Grupo Especial já foram escolhidos, o cd já gravado... Embora só esteja nas lojas no final deste mês, tive acesso às gravações, e divido com os leitores minhas primeiras impressões.

Em termos gerais, pode-se dizer que temos uma boa safra. Temos bons sambas e algumas boas surpresas entre as doze escolas de samba que compõem o Olimpo do samba. Na ordem de desfile, vamos a elas:

Domingo:

1 - São Clemente


É um dos únicos sambas que destoam do bom nível geral. Fruto de uma junção, está bem abaixo do samba da União de Jacarepaguá sobre o mesmo tema, de 2004 - e que já foi tema da nossa coluna "Samba de Terça".

Não é o pior samba, mas não é um trunfo para uma escola que abre o desfile.

2 - Imperatriz Leopoldinense

Um enredo difícil - sobre a Medicina - sobre o qual os compositores fizeram um verdadeiro milagre, com um samba bastante agradável. Destaque para o refrão, onde os compositores afirmam "que meu DNA é verde e branco". Boa sacada.

3 - Mocidade Independente

Não gosto do enredo - que reproduz uma visão da agricultura brasileira com a qual absolutamente não compartilho - mas o samba é bastante razoável. Dos mesmos autores de 2010, a esta composição se referem no refrão.

A escola tem um novo mecenas, que vem investindo forte e equacionou as dívidas. É boa aposta.

4 - Unidos da Tijuca


Como é tradição nas escolas do carnavalesco Paulo Barros, a atual campeã do carnaval carioca vem com um samba que não compromete, mas que está claramente subordinado à proposta de desfile do artista.

Ainda assim, é uma composição acima da média dos últimos anos da escola.

5 - Unidos de Vila Isabel


Podem me chamar de herege, mas o samba deste ano é superior ao de 2010, assinado pelo grande Martinho da Vila. André Diniz retorna em grande forma, com um resultado bastante feliz apesar de um enredo difícil e que não tem muito a cara da escola.

Com três refrões, é um dos melhores do ano - superado apenas, a meu ver, pela Mangueira.

6 - Mangueira


A meu juízo, o grande samba do ano. Nelson Cavaquinho, no céu, estará orgulhoso da música que o levará para a avenida no carnaval.

Em primeira pessoa, não era o preferido na disputa, mas tem uma poesia e um balanço que nos levam a querer desfilar para soltar a voz. Sambaço, o melhor do ano.

Segunda Feira

1 - União da Ilha



Outra escolha polêmica, outro samba contestado na origem.

Mas que apesar dos problemas que a letra possui ao contar o enredo, tem uma melodia contagiante e que tem tudo para "pegar" na avenida.

2 - Salgueiro



Aleluia ! Após um longo inverno, a escola da Tijuca finalmente tem um samba decente. Dos mesmos autores de "Candaces" (2007), o enredo sobre a relação entre o cinema e o Rio de Janeiro ganhou uma composição muito acima dos anos anteriores.

É bom ver a Academia retomando a sua tradição de bons sambas.

3 - Portela



Já escrevi sobre o samba quando da sua escolha, mas só tenho a lamentar o que foi escolhido, ainda mais quando se descartou aquele que poderia ser o melhor samba do ano.

Melodia comum e letra boba, sem grandes brilhantismos. Duro dizer isso até por ser minha escola de coração, mas é disparado o pior samba do ano. Pena.

4 - Grande Rio



Outro caso onde os compositores tiraram leite de pedra. O enredo sobre Florianópolis leva a um samba com algumas passagens interessantes e que deve proporcionar um bom desfile à agremiação de Caxias.

É melhor que a canção que embalou a escola no vice-campeonato de 2010.

5 - Porto da Pedra



Espremida entre duas escolas com bons resultados nos últimos anos e com nova diretoria, a escola de São Gonçalo traz um samba sobre Maria Clara Machado que não é ruim, mas perde na comparação coma as vezes anteriores em que a teatróloga foi homenageada - Jacarezinho 1992/08 e União da Ilha 2003.

Entretanto, é melhor que os dois últimos anos da escola.

6 - Beija Flor



O desfile sobre o "Rei" Roberto Carlos gerou um samba diferente do que nos acostumamos a ver ultimamente na escola de Nilópolis. É uma composição mais leve, menos densa e que convida o povo a cantar.

Entretanto, o refrão traz aquele que considero o "verso trash" do ano:

"Meu Beija Flor, chegou a hora
De botar pra fora a felicidade"

Parece que o pobre passarinho símbolo da escola tomou Viagra e foi exortado a colocar a "felicidade" para fora...

Em uma primeira avaliação, meu "ranking" seria o seguinte:

1 - Mangueira
2 - Vila Isabel
3 - Salgueiro
4 - Grande Rio
5 - Beija Flor
6 - Imperatriz
7 - Porto da Pedra
8 - União da Ilha
9 - Mocidade
10 - Unidos da Tijuca
11 - São Clemente
12 - Portela

Assim que estiver com os sambas dos outros grupos do carnaval, a análise também estará aqui.


domingo, 14 de novembro de 2010

Bissexta: "La la, How The Life Goes On"


Mais um domingo e mais uma coluna "Bissexta", de autoria do advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é o recente show de Paul McCartney no Brasil e as questões que envolvem o envelhecimento dos grandes astros da música.

Aliás, algo que me preocupa é o fato de que os maiores compositores brasileiros, hoje, são os mesmos da década de sessenta. Voltarei ao tema proximamente.

No final do texto o leitor pode ver um vídeo do show de Porto Alegre.

"La la, How The Life Goes On

Um dos dias mais felizes da minha vida aconteceu em abril de 1990. Eu, que sempre fui completamente enlouquecido pelos Beatles, tive a chance de ver Paul McCartney bem de pertinho. Comprei um ingresso com alguma antecedência e fui com uma turma grande de amigos para o Maracanã, umas 15 pessoas ou até mais, algumas eu nem conhecia direito. Gostei tanto que resolvi voltar no dia seguinte, acompanhado apenas por dois amigos, tão beatlemaníacos quanto eu, que assistimos ao segundo show cantando todas as músicas e chorando sem parar. Tive a sorte de estar morando em Porto Alegre quando Paul resolveu abrir a turnê sul-americana por aqui. E posso comparar os dois momentos.

Como as coisas eram mais fáceis em 1990! Para poder comprar o ingresso do show no Beira-Rio, centenas de pessoas passaram a noite na fila. Em pouquíssimas horas todas as entradas se esgotaram, antes que eu me desse conta de que deveria correr para o estádio. Na Internet, o site ficou fora do ar quase o tempo todo e quando voltou só havia opções para o ingresso mais barato, que me custou mais de R$ 250,00, com todos os penduricalhos de taxas que agora viraram moda.

Não tenho a menor idéia de quanto custou o show 20 anos atrás. Só sei que não lembro de ter ficado em fila alguma. Ou melhor, só decidi assistir o segundo show horas antes e ainda havia ingressos disponíveis. E não poderiam ser muito caros, afinal, éramos três estudantes e não pareceu nenhum sacrifício para nossos caraminguás de estagiários. Naquele tempo não tinha nada de frescuras do tipo área vip, camarotes de patrocinadores ou outros mecanismos de apartheid. Chegamos umas duas horas antes do início, fomos caminhando pela multidão e ficamos a poucos metros de Sua Santidade, Sir Paul McCartney.

Outra ótima lembrança é que gravei o show na versão editada pela Globo, no vídeo-cassete da minha mãe. As músicas eram mescladas com umas entrevistas do Paul no camarim. E nunca me esqueço (bom, eu revi a fita algumas vezes) dele dizendo que estava surpreso de ainda conseguir ser roqueiro aos 47, quase 48 anos.

Domingo passado entrei no túnel do tempo. Paul, de forma até mais generosa do que em 1990, cantou as músicas que todos aprendemos amar. É incrível como a música dos Beatles é atemporal, universal, eterna. Eu mesmo só conheci as músicas quando o conjunto já havia se desfeito fazia anos, mas fui escravizado por elas. E o mais impressionante é ver que o primeiro álbum, Please Please Me, foi gravado em 1963 e o último, Abbey Road, em 1969 (Let it Be foi lançado em 1970, mas com a banda já desfeita e aproveitando gravações de 1969). Nesse mínimo intervalo de 6 anos os Beatles lançaram 13 álbuns (sendo um deles duplo, o Álbum Branco), praticamente só com musicas inéditas e próprias. Só fizeram shows ao vivos até 1966. Foram mundialmente conhecidos em um tempo de comunicação precária, onde, claro, não existia Internet, transmissão via satélite e até mesmo a televisão era rara na casa das famílias. Haja criatividade. Haja talento.

Mas me parece que para tudo na vida há limites. Paul continua tocando divinamente bem, a banda que o acompanha é sensacional, os efeitos visuais do show são impressionantes, principalmente os telões de alta definição, mas me deprimiu ver aquele vovozinho de cabelo pintado de acaju, mãos enrugadas ao piano, procurando emular a si mesmo quando jovem.

Talvez tivesse sido melhor ter ficado apenas com o show mágico de 1990 na memória, quando Paul já não era nenhum garoto, mas ainda tinha traços mais joviais. Vê-lo assim tão distante das fotos da década de 60 que o telão atrás do palco insistia em mostrar, me deu um choque de realidade de que, não importa o quanto a pessoa se esforce, life goes on, bra, la la, how the life goes on.

And if you want some fun, take obladiblada."

sábado, 13 de novembro de 2010

O Estádio Rubro Negro - Algumas Notas


A notícia palpitante dos últimos dias nas hostes rubro-negras foi a notícia de que um estádio seria construído em parceria entre o clube e grupos de investidores - fala-se na Traffic, empresa voltada ao mundo do futebol e do esporte.

O estádio seria construído em Caxias (foto acima, do Google Maps), em terreno doado pelo Prefeito de Caxias, José Camilo Zito, rubro negro e do mesmo partido da presidente rubro-negra Patrícia Amorim - que é vereadora no Rio de Janeiro pelo PSDB (abaixo, os dois no gabinete do prefeito). O espaço é até bem localizado, entre a Linha Vermelha e a Avenida Presidente Kennedy, uma das principais artérias viárias da cidade da Baixada Fluminense.

Não li maiores detalhes sobre o modelo de construção, mas a princípio ele seria bancado pelos investidores, que teriam direito a uma percentagem da receita gerada pelo estádio durante um determinado número de anos. Entretanto, há algumas questões que devemos observar bem.


A primeira delas é a filosofia do projeto. Hoje a modernidade é o conceito de arena, onde o torcedor não vai somente para assistir a uma partida. Nos modernos estádios, hoje um dia de jogo é um momento de entretenimento, com restaurantes, lojas oficiais e conveniências e outras diversões que permeiam a partida e elevam o gasto médio do torcedor em um dia no estádio.

Os leitores que viram o post que escrevi sobre a Arena da Baixada sabem que este é um estádio modelo em termos de arenas no Brasil. A arena do clube paranaense possui academia, restaurantes e loja oficial, que ainda não constituem o ideal em termos de uma arena rentável mas já representam uma receita adicional ao clube.

Para se construir um estádio hoje, há que se ver este conceito de arena. Deve-se agregar serviçoes e fontes de renda que permitam aumentar o potencial de receita e significar o pagamento dos custos de construção do estádio - algo que somente as rendas das partidas do time profissional nem de longe cobrem.

Imaginem um investidor que entre neste projeto. Constrói um estádio para 50 mil pessoas, no terreno em Caxias, gastando aproximadamente R$ 500 milhões. Se este parceiro receber como retorno a renda do estádio nos próximos 30 anos, por exemplo, a receita líquida - descontados os custos de administração - de ingressos necessitaria ser de R$ 17 milhões, grosso modo. E sem considerarmos os juros ou o custo de oportunidade advindo de se construir ao invés de aplicar a grana - o que, na prática, dá no mesmo.


Fazendo-se este cálculo rasteiro, sem considerarmos os juros e levando-se em conta que no máximo o clube faz 35 jogos por ano no estádio, a receita líquida por jogo necessitaria ser de aproximadamente R$ 485 mil apenas para retornar os custos de investimento e sem considerar os juros envolvidos. Tomando-se grosseiramente que com os juros o custo suba a R$ 1 bilhão e uma ocupação média do estádio de 50% (que é um número alto), teríamos uma parcela de preço de ingresso de aproximadamente R$ 40 somente para se ressarcir os gastos da construção do estádio - a receita necessária por jogo mais que dobraria, chegando a aproximadamente R$ 1 milhão.

Ou seja, somando-se os custos de manutenção do estádio, do clube e outras despesas teríamos de ter um ingresso médio na faixa de R$ 80 a R$ 90 apenas para se tornar minimamente viável o estádio. E a pergunta que devemos fazer é se há demanda no local para 25 mil torcedores de média a R$ 90 em trinta e cinco jogos ao ano. Os leitores notem também que o público rubro negro está em todas as classes de renda, o que traria uma elitização indesejável sob o aspecto esportivo e institucional.

O local anunciado é até de fácil acesso e não fica distante do Centro do Rio de Janeiro, pela Linha Vermelha. Se faria necessária a construção de uma alça ligando a via expressa ao estádio, mas aí cairia na conta do Poder Público. Entretanto, para ir e voltar ao estádio, sem outros atrativos, não acredito que haja tal demanda - e o público local, majoritariamente da Classe C, embora com o poder aquisitivo em alta não tem condição de pagar R$ 90 de ingresso quatro vezes ao mês.

Portanto, torna-se necessária a construção de todo um complexo de facilidades que atraiam, retenham o torcedor e façam não somente elevar o dispêndio por partida quanto atrair um público de maior poder aquisitivo. É imperioso que hajam restaurantes, lojas, conveniências e até mesmo um hotel - que atenderia, também, ao público do aeroporto do Galeão, que não fica longe. O conceito de arena esportiva é imperioso.

Outra opção seria a construção de prédios de apartamentos junto à arena. Podem-se encontrar cem, duzentos fanáticos que paguem mais para morar ao lado da arena rubro negra, o que geraria uma amortização no retorno do investimento. Entretanto, o local do terreno não é o mais indicado para este tipo de iniciativa por causa do valor médio dos imóveis na região, que é baixo.

Mais um óbice: a arena é ocupada por partidas durante trinta e cinco dias no ano. Restam trezentos e trinta e cinco dias sem atividades no estádio. A área indicada não exerce uma demanda capaz de se programarem shows com ticket médio mais alto, pois o público local é das Classes C e D.

Na prática, um empreendimento deste porte não tem muita possibilidade de oferecer um retorno viável a seus construtores, nem ao clube, pelas dificuldades elencadas acima. Ainda que em outro local, teria de ser bem pensado, e sempre sob o conceito de arena.

Mas...


Como se vê pela imagem acima, o prefeito da cidade da Baixada Fluminense "está fazendo cortesia com o chapéu alheio": o terreno oferecido para doação pela prefeitura da cidade pertence, na verdade, à União - mais precisamente à Marinha. Seus representantes já afirmaram que não foram consultados sobre a transação, o que significa que há um entrave bastante sério ao projeto. 

Pessoalmente, penso que é mais um factóide da presidente rubro negra e do prefeito em questão, ou seja, acredito que o projeto não deva evoluir. Aliás, a atual mandatária rubro-negra, que empreende uma gestão pífia - para ser educado - demonstrou neste primeiro ano de mandato que aprendeu direitinho com seu mentor político Cesar Maia (ex-prefeito da capital carioca) a arte de desviar a atenção de problemas maiores criando factóides.

Podem me cobrar.

Finalizando, penso que a solução para o Flamengo ter a sua casa é um arrendamento - ou um contrato em bases mais favoráveis - do Maracanã, revitalizado a partir de 2013.

A reforma em andamento não irá corrigir todos os problemas que o estádio tem - como escrevi anteriormente - mas já criará condições para uma utilização mais racional, em um local privilegiado. E sem os problemas de retorno de investimento na reforma, haja visto que é dispêndio a fundo perdido por ser obra executada com recursos públicos.

O Maracanã depende da demanda exercida pela torcida do Flamengo como um ser humano depende de água e alimentação para se viver. Basta um pouco de vontade e de conhecimento técnico para se fechar um bom acordo para o clube. Voltarei ao tema proximamente.



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Final de Semana - "Mais Uma Vez"



Mais um final de semana prolongado que se inicia, e a música que escolhi é um dos últimos grandes sucessos do imortal Renato Russo, líder do Legião Urbana. Em parceria com Flávio Venturini, "Mais Uma Vez" é um dos últimos sucessos do cantor, falecido em 1996 mas cuja música somente foi lançada em 2003.

É uma canção que me é muito marcante pois me lembra uma das mais difíceis fases da minha vida, o primeiro semestre de 2003 - em especial no campo financeiro. 

Ultimamente tenho me lembrado e me inspirado muito desta música, e por isso é a sugestão para este final de semana prolongado.

"Mais Uma Vez
(Renato Russo, Flavio Venturini)

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei...

Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem...

Tem gente que está
Do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar...

Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia
A gente aprende
Se você quiser alguém
Em quem confiar
Confie em si mesmo...

Quem acredita
Sempre alcança...

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei...

Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem...

Nunca deixe que lhe digam:
Que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos
Nunca vão dar certo
Ou que você nunca
Vai ser alguém...

Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia
A gente aprende
Se você quiser alguém
Em quem confiar
Confie em si mesmo!...

Quem acredita
Sempre alcança...(7x)"