terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Bissexta - "Arena do Grêmio: onde estão as rotas de fuga?"



Nesta terça feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, versa sobre a recente inauguração da nova Arena do Grêmio e levanta algumas questões importantes sobre o estádio.

Arena do Grêmio: onde estão as rotas de fuga?

Não foi de caso pensado, mas dei sorte: não estava em Porto Alegre quando o Grêmio inaugurou seu novo estádio. Eu já tinha escrito um texto, faz muito tempo, elogiando a ousadia do clube e não custa repetir: ficou lindo, espetacular, maravilhoso. De babar de inveja mesmo.

É melhor ir deixando isso bem claro desde o início, porque eu tenho um monte de amigo gremista que me honra com a leitura ocasional ou mesmo habitual aqui no Ouro de Tolo - e não tardaria a aparecer um mais afoito a dizer que é inveja de flamenguista sem estádio.

Só disse que dei sorte de não estar na cidade no dia da inauguração porque simplesmente não se falava de outra coisa, no rádio, na TV, no elevador do prédio e na fila do supermercado. Um fim de semana monotemático a martelar minha cabeça. Se eu ainda fosse colorado, tudo bem: poderia dizer que era o caso de esperar mais alguns meses e desviar do assunto. Mas simplesmente eu não tinha o que dizer.

Inveja? Tenho sim, tenho muita. Queria mesmo um estádio igualzinho àquele para batizar de Arena do Urubu e tirar muitas fotos para mostrar para meus netos, provando que estive lá no dia da inauguração.

Mas meu ponto aqui é outro. É meu dever tocar nesse assunto chato em plena festa.

 
Do locutor que narrava a transmissão aos comentaristas da mesa redonda no rádio só se ouvia uma coisa: é um estádio de “primeiro mundo”, com um forte sotaque europeu, uma Allianz Arena riograndense. Tem até freeway ao lado: o estádio fica nas margens de uma rodovia que os portoalegrenses modestamente chamam de freeway, ainda que a velocidade média ali não passe dos 50km/h. Isso quando se dá a sorte de não estar engarrafado.

Essa fixação tupiniquim pelas coisas do além-mar, sabemos todos,  vem de longe, desde a época que Cabral trocou o ouro dos índios por uns espelhinhos. Mas já passou um pouco da hora de tanta bajulação ao velho mundo – até porque aqui pertinho de Porto Alegre, na cidade de La Plata, os hermanos construíram um estádio municipal fantástico e que nessa hora ninguém cita, porque não deve pegar bem colocar ‘aceituna’ na empanada sul-americana.

O que ninguém gosta de lembrar, contudo, é que o caderno de encargos da FIFA não vai além do cimento e da argamassa. O comportamento do público e da população que fica do lado de fora, infelizmente (ou, por outro lado, felizmente) ainda não foi regulamentado.

E é justamente aí que a porca começa a torcer o rabo.

Eu já estive em uma boa amostragem de estádios Brasil afora seguindo o Mengão e posso garantir que o jogo de maior risco para os rubro-negros é contra o Grêmio em Porto Alegre. Não que as organizadas do Grêmio sejam mais violentas do que as dos outros times, mas simplesmente porque no RS praticamente não há torcedores do Flamengo. Evidentemente, falo isso quando comparado a outros estados do Brasil onde reinamos,  mas fica a ressalva de que mesmo aqui somos maioria entre os times de fora.

Logo, as poucas centenas de flamenguistas que insistem em apoiar seu time no Sul viram uma presa fácil para os vândalos de plantão. Graças ao apoio da Brigada Militar (que é como os gaúchos chamam a PM), conseguimos construir uma alternativa viável: uma pequena rua em frente ao portão de visitantes do Olímpico era interditada para o estacionamento dos nossos veículos.

Um caminho alternativo nos permitia afastar do tráfego habitual e só nos encontrávamos com os torcedores locais, já distante do estádio. Tudo que a polícia precisava fazer era garantir que pelo menos a gente pudesse atravessar a rua em relativa tranquilidade.

As fotos deste post mostram que mesmo essa mera travessia ocorria sob um clima de tensão permanente, pois logo atrás da barreira de policiais, uma multidão tricolor provocava e só era contida à base de armas que disparam balas de borracha.

Dentro do estádio, ficávamos protegidos em um setor específico, separado por grades e com uma lona a impedir que uma torcida visualizasse a outra. Houve um ano onde esqueceram de colocar a lona e as provocações só pararam quando prenderam os mais exaltados de cada lado - aliás, no nosso lado prenderam dois colorados e do lado deles, um botafoguense.


Tudo isso para um mero jogo de futebol, onde a torcida adversária sequer tem um histórico de enfrentamento com os visitantes...

Só que na nova Arena tudo promete ser ainda mais difícil. O entorno do estádio é uma favela de proporções razoáveis e aparência miserável. É o cenário perfeito para o chamado “ataque”, que são ações planejadas pelas “linhas de frente” das torcidas organizadas - com o objetivo de roubar camisas e bandeiras dos rivais e espancá-los. Se for fácil armar uma emboscada e se esconder em ruelas no meio da favela, então estejamos preparados para o pior.

Mas o que realmente me preocupa é a parte interna.  Ainda não estive lá, mas em todas as fotos que vi não encontrei grades ou separação física de setores. Eu sei, na Europa não tem. Mas lá ninguém é molestado de forma tão acintosa pela torcida local – ou, quando o é, dá-se um jeito de isolar os visitantes.

Como será na nova Arena? Vamos ficar ali, sentadinhos, protegidos apenas por uma barreira humana de alguns policiais?

Não custa lembrar que mesmo no dia da festa da inauguração, o pau cantou feio lá no meio das organizadas do Grêmio (foto ao final do post), que ganharam um espaço privilegiado e exclusivo para elas, desenhado sob medida para seu jeito de torcer. O que não os impediu, contudo, de retribuir a gentileza provocando uma pancadaria generalizada. Se fazem isso em dia de festa e entre eles, o que farão conosco em um dia de disputa para valer?

Portanto, ao mesmo tempo em que parabenizo toda a comunidade gremista pelo magnífico estádio, humildemente peço a colaboração dos amigos para que mandem para nós um detalhado mapa com rotas de fuga bem demarcadas.

Os flamenguistas do Sul agradecem.


(Fotos: acervo pessoal do colunista e RBS)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Maquiavel, Hobbes e a sociedade brasileira

Na última semana causou grande celeuma a disposição do Supremo Tribunal Federal de cassar por conta própria os mandatos dos parlamentares condenados no escândalo do Mensalão. Em flagrante desrespeito à Constituição, a instância máxima do Judiciário debate se pode interferir em outro poder, desrespeitando o princípio de independência entre os poderes.

Lembro aos leitores que isto não é novo. Em diversas situações o Supremo Tribunal Federal legislou no lugar do Congresso Nacional, em clara interferência sobre as atribuições do Congresso Nacional. Posso listar como exemplos as questões da união civil entre pessoas do mesmo sexo ou o aborto dos anencéfalos, ambas abordadas neste espaço em ocasiões anteriores.

Embora tenham sido decisões aplaudidas pelos formadores de opinião, representaram clara interferência de um poder constituído sobre outro, em flagrante desrespeito à Constituição.

Desta vez há um claro conflito de interesses, pois o Congresso Nacional, na figura do presidente da Câmara de Deputados Marco Maia, deixou claro que a prerrogativa de cassar mandatos parlamentares é da instituição, não do Supremo. Entretanto este tende a decidir pela cassação automática dos mandatos de parlamentares condenados, a meu juízo em flagrante desrespeito à Constituição.

Entretanto, este não é o tema principal deste post. Até porque não sou jurista, sequer advogado, então não tenho como dar uma opinião abalizada sobre o assunto. Digo apenas que, no meu leigo entender, a competência para cassar ou não parlamentares é unica e exclusivamente do Congresso Nacional.

Meu objetivo aqui é analisar as reações de formadores de opinião a esta decisão do Supremo Tribunal Federal, e sua relação com dois importantes teóricos da ciência política, Thomas Hobbes e Maquiavel.

No dia em que a celeuma teve destaque, inúmeras pessoas nas redes sociais defenderam a tese de que o mais importante era o fim alcançado. Ou seja, não importava se a Constituição tivesse sido rasgada, o que importava era que políticos (pretensamente) corruptos haviam sido punidos. Os fins sobrepondo-se aos meios.

Isso remete irremediavelmente à teoria de Maquiavel, que tem este mote como tema. Em uma simplificação grosseira, para o teórico italiano não importam os meios a serem utilizados, desde que o resultado final seja o pretendido. Não importam as regras ou as leis, o que realmente é primordial é alcançar o objetivo.

Por conseguinte, o pensamento destes extratos da sociedade demonstra desrespeito às leis ou a defesa de que seja ignorada em nome de um "bem comum". Mas quem define este bem comum?

Mal comparando, a versão brasileira da teoria de Maquiavel é a denominada "Lei de Gerson". Intitulada a partir de um comercial dos cigarros Vila Rica com o então jogador e hoje comentarista Gerson, tinha como mote o final do comercial: "o importante é levar vantagem".

Mais do que nunca a "Lei de Gerson" está enraizada na sociedade brasileira. Cada vez mais os segmentos formadores de opinião assumem posturas de juízes, censores e críticos, sempre em busca de "um objetivo justo".

Falo dos aplausos à postura do STF de cassar parlamentares, ainda que rasgando a Carta Magna do país. Mas outro bom exemplo é a aprovação da maioria da população às políticas de extermínio adotadas por várias Polícias por todo o país. O epíteto "bandido bom é bandido morto" confere à força policial poderes de Polícia, Justiça e carcereiro em questão de minutos. Isso é perigoso.

O mesmo policial militar que "mata bandidos que não merecem viver" pode exigir propinas em uma blitz, por exemplo, e assassinar você leitor ou eu blogueiro apenas por seguir a lei, ou seja, não pagar a propina exigida.

Mal comparando, é o que está ocorrendo no Supremo. Hoje cassam deputados, amanhã retiram do cargo uma Presidente eleita pela população, sob argumentos tênues. Aconteceu algo parecido no Paraguai, e a oposição e especialmente a mídia defendem algo do gênero aqui no Brasil. O discurso é que "para tirar o PT do poder, vale tudo. Até rasgar a lei"

O leitor entende onde quero chegar?

Outra tendência que este tipo de postura "maquiavélica" vem demonstrando é que a sociedade brasileira atualmente em muitos momentos reflete de forma clara a teoria do cientista político Thomas Hobbes (1588-1679). Novamente simplificando, sua teoria versa que o homem é intrinsecamente anti-social e somente se move por desejo ou medo. A sociedade hobbesiana seria uma guerra de todos contra todos, outra vez estabelecendo uma redução grosseira.

O que vemos na sociedade brasileira hoje é uma verdadeira guerra, onde somente vale o bem individual e seu benefício sobrepondo-se e prevalecendo ao bem comum. De certa forma o ódio que parcelas mais elitistas da população sentem pelos governos do PT tem a ver com isso: as políticas distributivas de Lula e Dilma tiram a sensação de "exclusividade" e "vitória" das classes mais abastadas.

Ou seja, é um "salve-se quem puder". 

Pessoalmente, sou um radical legalista. Os objetivos finais podem ser muito nobres, mas se não está estabelecido na lei, sou terminantemente contra. Muitas ditaduras surgiram deste conceito enraizado de que um fim "nobre" justifica qualquer conduta. E exatamente por isso que acompanho com muita preocupação este ativismo do nosso Judiciário, ainda que aplaudido por parte da população.

Finalizo com um poema do grande dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956):

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."

É isso. Ativismo sim, mas acima de tudo, respeito às leis.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Orun Ayé - "O gênio, o idiota e uma final de samba-enredo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, a partir da morte do grande arquiteto Oscar Niemeyer o colunista traça um panorama sobre assuntos correlatos – e importantes.

O gênio, o idiota e uma final de samba-enredo

E morreu Oscar Niemeyer...

A notícia veio na noite da última quarta-feira, enquanto boa parte do país assistia a um xoxo Tigre x São Paulo pela primeira partida da final da Copa Sul Americana. Depois do anúncio, que deixou a todos incrédulos, ninguém mais prestou atenção no jogo. Aliás fizemos bem, já que o jogo foi muito chato.

Ao contrário da vida de Niemeyer, que foi intensa.    

O mais curioso dessa história toda é que foi uma morte ao mesmo tempo esperada e impactante. Provavelmente todos os textos já estavam escritos, todas as matérias de televisão editadas, todos os dizeres em twitter e facebook de artistas e personalidades anotados... Faltava o principal: o homem morrer.

E Niemeyer não queria morrer. Aliás Oscar Niemeyer chegou a um estado onde sua imortalidade já estava traçada. O nome “Oscar Niemeyer” não representava mais apenas um nome, mas uma entidade. Um nome que ao aparecer não precisava de legendas pra dizer quem é.

Uma lenda ainda em vida.

Temos poucas pessoas vivas ainda assim: talvez Pelé, Roberto Carlos, Silvio Santos, Caetano Velloso, Chico Buarque e com boa vontade Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira e poucos outros.

Mas Niemeyer era diferente. O homem já era nome de avenida vivo, já fazia parte de livros da história desse país em vida - e por merecimento. Oscar Niemeyer foi e é um dos brasileiros mais importantes desde que Cabral chegou por essas terras em abril de 1500.

E não somente por ser um dos responsáveis por nossa Capital Federal. Brasília por si só já lhe colocaria junto com JK e Lúcio Costa na história do Brasil, mas ele fez muito mais. É um dos homens que elaborou a sede da ONU em Nova York, o edifício COPAN e o conjunto do Ibirapuera em São Paulo, o conjunto da Pampulha em Minas Gerais, a Universidade de Constantine e a mesquita de Argel na Argélia, além de trabalhos na França, Itália, Portugal entre outros países.

Seus últimos grandes trabalhos foram o Memorial da América Latina em São Paulo, o museu de Arte Contemporânea em Niterói e claro, o sambódromo do Rio de Janeiro, trabalho dele que tem tudo a ver comigo e que todos os anos visito e passo com imensa emoção.  

Oscar Niemeyer é um gênio da raça, um homem aplaudido e reverenciado no mundo inteiro. Um homem que “morreu” várias vezes ao longo dos anos, principalmente depois da criação das redes sociais que, por diversas vezes, tiveram que constrangidas desmentir a sua morte.

Muitos que escreveram seu obituário morreram, muitos que deixaram anotado o que dizer quando morresse, editaram as matérias de televisão e escreveram os textos que descrevi acima ‘bateram as botas’ muito antes dele. Alguns médicos seus inclusive.

A sua força de vontade, a gana que tem pela vida, só isso para fazer um homem de 104 anos morrer e mesmo assim as pessoas se surpreenderam e ficarem incrédulas. Oscar Niemeyer era assim: não era uma linha reta.

E o mais curioso de tudo é que nesse momento em que o mundo reverencia o homem e seu talento, aparece um ‘jornalista’ chamado Reinaldo Azevedo (revista Veja) dizendo que Niemeyer era “metade genial e metade um idiota” e completando dizendo coisas como “o comunismo lhe fez imbecil, a arte genial”.

Eu leio coisas assim e me sinto nos anos 40, 50, quando Chaplin foi impedido de voltar aos Estados Unidos por ser comunista. Sim, Niemeyer era comunista, Nelson Rodrigues reacionário, Chico Anysio era vascaíno e assim eu lhes pergunto: e daí?

Cada um tem o direito de pensar, ter a ideologia que quiser, por mais babaca que elas aparentem. O fato de alguém ser comunista, capitalista, petista, pessedebista, botafoguense ou portelense não devia interferir na vida de ninguém, é um problema da pessoa.

Wilson Simonal foi “patrulhado” pela esquerda nos anos 70 e caiu no ostracismo, virou alcoólatra e morreu de desgosto. Muitos dos heróis daqueles esquerdistas hoje tentam se explicar ao STF e ao povo brasileiro em escândalos.

Oscar Niemeyer, que fez tudo o que fez pelo Brasil e a arquitetura depois de morto, é patrulhado por uma direita que cheira a mofo, pela revista Veja e seus seguidores. Não foi apenas o dito jornalista que lembrou o lado comunista de Niemeyer para criticá-lo, muitos seguiram “o mestre” e falaram no twitter.

Isso mostra que a idiotice, a burrice e ter cérebro do tamanho de uma azeitona sem caroço não é privilégio de direita ou esquerda. A falta de senso de ridículo e a canalhice são prerrogativas das mais democráticas que existem, podendo atingir qualquer pessoa de qualquer orientação política, social, sexual ou filosófica.

Falar mal de Oscar Niemeyer porque ele era comunista é o mesmo que falar mal de Carmem Miranda porque ela voltou americanizada.

Eu disse duas semanas atrás que o mal do século era o fanatismo: completo que o fim do mundo será através da burrice.

Salve Oscar Niemeyer, comunista, tricolor, ateu, que bolou a Sapucaí com um M que parece do Mc Donalds no fim que nenhum sambista até hoje entendeu, mas que era um gênio, um grande homem e que todos nós brasileiros devíamos nos orgulhar muito de tê-lo como compatriota.

Não vou escrever clichês como “foi se encontrar com o grande arquiteto do Universo”, isso é piegas demais e como eu disse acima, ele era ateu. Então onde quer que ele esteja, o lugar onde for, que ele revolucione com papel, lápis e novos traçados.

Quanto ao Reinaldo Azevedo, parodio o samba da Unidos da Tijuca pro carnaval 2013: “metade dele é imbecil, a outra metade também”.

Quinze anos da primeira final

Esse seria o tema da coluna de hoje até o falecimento do Niemeyer. No dia 5 de dezembro fez quinze anos aonde pela primeira vez cheguei a uma final de samba-enredo na vida. A escola era o Boi da Ilha do Governador, com o enredo “Círio de Nazaré”.

Uma disputa inesquecível. Uma final que teve uma das maiores apresentações nossas até hoje, a única vez que vi o portão lateral da agremiação ser aberto. Teve que ser aberto para que nossa torcida entrasse, para vocês leitores verem o tanto de gente que tinha.

Perdemos aquela disputa, mas tenho muito orgulho dela, por tudo que passamos e as amizades eternas que fiz. Só posso agradecer a Paulo Travassos, Cadinho da Ilha e a Dãozinho (que hoje se encontra no céu) pela felicidade e honra de terem sido meus parceiros nessa empreitada.

E a minha mãe que, chorando, depois daquela final catou bandeiras e trouxe de volta pra casa sozinha, triste por eu ter perdido. Três anos e dois meses depois chorou de novo, mas de emoção - ao me ver ganhar um Estandarte de Ouro pelo mesmo Boi e dedicar a ela.

Bons tempos aqueles. Tempos de faculdade, noitada com os amigos. Cabelo grande, cavanhaque, militante do PDT e comunista. Achava que iria mudar o mundo.

[N.do.E.: enquanto edito a coluna estou às gargalhadas aqui imaginando o colunista de cabelo grande e cavanhaque.]

Hoje sou pai de família, cabelo cortado a maquina, cara lisa e virei capitalista. Adoro coca-cola, big mac e dinheiro na minha conta.

Mas tanto o comunista daquela época quanto o capitalista de hoje acham Reinaldo Azevedo um idiota. Porque a idiotice não vem do pensamento político, vem da alma.

Viva Niemeyer!!! Orun Ayé!

P. S. - Com a morte de Niemeyer, lembraram-se que ele quase foi enredo da União da Ilha para o carnaval 2013. A escola teria um problemão com enredo e samba, defasados devido a sua morte.

Isso me lembrou um caso que ocorreu de 1998 para 1999.

A União da Ilha fez o enredo “Barbosa Lima, 101 anos do sobrinho do Brasil”. Uma homenagem ao jornalista Barbosa Lima Sobrinho. O compositor Márcio André aproveitou a deixa e fez seu refrão assim “zum, zum, zum, Barbosa é 101”.

Só que durante a disputa a escola descobriu que Barbosa Lima faria 102 anos antes do carnaval e mudou o nome do enredo, colocando 102 em vez de 101. Marcio André, com sua famosa língua presa, indignado quando soube da mudança vociferou soltando perdigotos a esmo:

“- Puta que pariu!! Fodeu o meu samba!!”.

Boas histórias, grandes homenageados.

[N.do.E.: o samba que foi para a avenida neste 1999, de autoria de Bicudo, Djalma Falcão, Jota Erre e Ditão, tem versos no mínimo inusitados para a idade provecta do homenageado na ocasião: “Mente Sã, Corpo são, entregou a paixão / Ao amor de uma mulher / Deixa, Deixa eu te amar / Me assanha com seus beijos / Me faz sonhar”]

sábado, 8 de dezembro de 2012

A Médica e a Jornalista - "Bola de Ouro"


Neste sábado, a coluna “A Médica e a Jornalista”, da Anna Barros, fala sobre os premiados da “Bola de Prata” do Campeonato Brasileiro.

Bola de Ouro

Com o término do Campeonato Brasileiro semana passada, não posso me furtar de falar sobre a eleição do melhor jogador da Bola de Prata, concedido em conjunto pela ESPN e pela Placar.

Neymar ganhou a Bola de Ouro ‘Hors Concours’ e como consequência Ronaldinho Gaúcho levou a Bola de Ouro. Pessoalmente discordo do prêmio conferido a Ronaldinho, porque em minha opinião o vencedor deveria ser o atacante Fred ou o goleiro Diego Cavalieri – ambos do Fluminense.

Sou fã de Fred e não é de hoje. Gosto de atacantes ‘cirúrgicos’ e Fred tem esse rótulo. E seu time ganhou o campeonato. Então...

Não sou contra o prêmio dado a Neymar, apesar de achá-lo um pouco precoce para tanto. Como diria o jornalista José Trajano, a impressão que se tem é que queriam premiar o astro são-paulino Lucas com a Bola de Prata de Melhor Atacante.

Talvez sim, talvez, não.

Mas Ronaldinho com a Bola de Ouro é difícil de assimilar. A Bola de Prata era merecida pelo ótimo campeonato que fez, levando o Galo ao segundo lugar que o possibilita disputar direto a fase de grupos da Libertadores - status que Cuca mais que desejava e por seu mérito conseguiu alcançar.

Mas premiações são assim: concordamos, discordamos, tecemos teses, a polêmica flutua e invade em tempos tecnológicos as redes sociais, as mais variadas delas.

Admiro a Revista Placar. Lia a revista, às vezes escondida dos colegas, que na época não aceitavam bem uma mulher, mesmo com toda a sua feminilidade e sensibilidade, gostar de revista de futebol.

Tive apenas um exemplar, a do Flamengo campeão da Copa União de1987, porque gostava do lateral-esquerdo Leonardo - hoje executivo do milionário Paris Saint Germain. Infelizmente dei a revista ao meu melhor amigo, o tricolor André, que precisava dela para completar a sua histórica coleção.

Mas a revista poderia ter ficado sem essa.

Hors Concours só Pelé e Clovis Bornay nos lendários desfiles de fantasias na época do Carnaval, nos áureos tempos de TV Manchete. Nunca essas duas palavrinhas ficaram tão em voga.

Fica o registro, apesar de concordarem patê com o título dado a Neymar. Sou fã do jogador. Eu o acho extraordinário e olha que era mais fã de Ganso antigamente. Para mim, ele só perde para Messi, Cristiano Ronaldo, Xavi, Iniesta, mas é questão de tempo. Não sei se superará Messi, mas isso é tema para outro post.

Abaixo o leitor pode ver a relação completa de vencedores.

Forte abraço a todos!
Anna Barros

Vencedores:

Goleiro
Diego Cavalieri (Fluminense)

Lateral-direito
Marcos Rocha (Atlético-MG) 

Zagueiros
Leonardo Silva (Atlético-MG)
Revér (Atlético-MG)

Lateral-esquerdo
Carlinhos (Fluminense)
   
Volantes
Ralf (Corinthians)
Paulinho (Corinthians)

Meias
Ronaldinho Gaúcho (Atlético-MG)
Zé Roberto (Grêmio)

Atacantes
Lucas (São Paulo)
Fred (Fluminense)

Revelação
Bernard (Atlético-MG)

Chuteira de Ouro
Neymar (Santos)

Hors Concours
Neymar (Santos)

(Foto: Placar)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Final de Semana - "Even Flow"


Após mais uma semana ausente, nossa faixa musical está de volta com uma canção que mostra muito do meu momento atual: "Even Flow", do Pearl Jam.

Sem mais delongas, vamos à letra.

"Freezin', rests his head on a pillow made of concrete, again
Oh, feelin', maybe he'll feel a little better set a days, ooh yeah
Oh, hand out, faces that he sees time again ain't that familiar, oh yeah
Oh, dark grin, he can't help, when he's happy looks insane, oh yeah

Even flow, thoughts arrive like butterflies
Oh, he don't know, so he chases them away
Someday yet, he'll begin his life again
Life again, life again...

Kneelin', looking through the paper though he doesn't know to read, ooh yeah
Oh, prayin', now to something that has never showed him anything
Oh, feelin', understands the weather of the winters on its way
Oh, ceilings, few and far between all the legal halls of shame, yeah

Even flow, thoughts arrive like butterflies
Oh, he don't know, so he chases them away
Someday yet, he'll begin his life again
Whispering hands, gently lead him away
Him away, him away...
Yeah!
Woo...ah yeah...fuck it up...
Even flow, thoughts arrive like butterflies
Oh, he don't know, so he chases them away
Someday yet, he'll begin his life again, yeah
Oh, whispering hands, gently lead him away
Him away, him away...
Yeah!
 
Woo...uh huh...yeah, yeah, fuck'em up again..."

Sabinadas - "A temporada de boatos e o jornalismo esportivo"


Nesta sexta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista esportivo Fred Sabino, toca em um ponto importante: esta “temporada de boatos” das férias futebolísticas e a forma como a imprensa trata o tema.

Eu, pessoalmente, não ligo muito para esta temporada. Mas o post é um guia de referência para se entender o que é notícia e o que é especulação ou puro chute. Lembro aos leitores que o colunista não trabalha mais no jornal citado no texto.

A temporada de boatos e o jornalismo esportivo

Terminado o Brasileirão, começa uma nova temporada: a das especulações de transações entre os times até o começo dos Estaduais.

Por incrível que pareça, ao contrário do que se pode pensar, tais especulações vendem - e vendem muito - em sites e jornais esportivos brasileiros. Muitas vezes mais pela expectativa que um possível reforço leva ao torcedor que pela veracidade da informação.

Evidentemente há aquelas notícias de negociações com embasamento, em que existem realmente tratativas e o material publicado condiz com o que, de fato, ocorre. Mas, por outro lado, há também notícias falsas: seja por apuração insuficiente por parte do repórter, por "chute" do jornalista em busca de um furo (é o famoso "se colar, colou"), por preocupação do veículo em "vender" de qualquer forma ou até por aquelas notícias "plantadas" por dirigentes.

Posso relatar dois exemplos altamente positivos que vi de perto quando trabalhava no Diário LANCE!: as contratações de Vagner Love pelo Flamengo em 2010 e a de Seedorf pelo Botafogo em 2012.

Em ambos os casos, vi de perto os repórteres apurando exaustivamente as informações e trocando ideias com os editores que, entre eles, também discutiam a validade de se publicar determinada notícia nova sobre a negociação até que outras fontes fossem ouvidas.

Nos dois casos, o LANCE! publicou primeiro - e com correção - a notícia da negociação e também da contratação. As matérias saíram sempre com muitas informações de bastidores, como tempo de contrato, valores, entre outras coisas, e não simplesmente uma notícia vazia, sem embasamento.

Mas infelizmente há casos em que tais premissas são deixadas de lado.

Por exemplo, nos anos 90 um jornal carioca - sinceramente não me lembro qual - estampou em letras garrafais: "BATISTUTA NO FLAMENGO". Na época, a internet ainda engatinhava e eu nem engatinhava enquanto jornalista, já que comecei a faculdade no ano seguinte. Inocentemente comprei o jornal e a matéria quase não tinha informações. Então, ou era "chute", ou notícia plantada ou má apuração. É claro que Batistuta (foto) nunca jogou no Mengão.

Com o passar dos anos, e da profissão, passei a saber filtrar melhor aqueles veículos (jornais, TVs, rádios, sites, etc) que passavam mais informações com correção e, principalmente, comparar o tipo de texto de uma notícia que se revelou verdadeira com uma que se mostrou equivocada.

Por exemplo, leitor: desconfie quando um clube X estiver numa crise e, de repente, surgir uma notícia de uma negociação bombástica. Normalmente os dirigentes plantam essas notícias para desviar o foco dos problemas da equipe naquele momento.

Desconfie também quando um clube Y estiver com um elenco péssimo e aparecer a informação de que o craque Z está a caminho. Um craque nunca negocia com um clube de elenco ruim; enquanto para o dirigente é importante dar uma satisfação à torcida para arrefecer as cobranças.

Preste atenção também no histórico do repórter. Caso o jornalista seja conhecido pelo excessivo número de "barrigas" (quando o jornalista publica ou divulga uma informação errada), desconfie quando ele anunciar um grande troca-troca entre clubes.

E, principalmente: desconfie quando as matérias não houver muitas informações de bastidores ou quando o contexto publicado for esquisito demais.

Existem ainda os casos em que a negociação começa de forma verdadeira, mas a transação não se confirma por N motivos. Um exemplo foi quando o meia Márcio Mossoró se destacou no Paulista de Jundiaí. Na semana em que o clube paulista bateu o Fluminense na decisão da Copa do Brasil, Flamengo e Vasco efetivamente negociavam com o jogador.

Mas aí alguns dirigentes de ambos os clubes começaram a passar informações truncadas e tentar tirar partido disso na negociação. No fim, ninguém contratou o jogador.

[N.do.E.: o atleta em questão foi contratado posteriormente pelo Internacional de Porto Alegre. Hoje joga em Portugal.]

Ao longo dos últimos anos, com sites, blogs e redes sociais, a quantidade de notícias imprecisas cresceu ainda mais, devido à necessidade de se ‘subir’ logo alguma matéria antes do concorrente. Como é possível ir editando as matérias publicadas, muitas vezes se acrescenta ou corrige o texto sem que o leitor seja informado dos erros.

Eu, sinceramente, conforme fui ganhando experiência no jornalismo, cada vez menos passei a ler o noticiário de futebol nessa entressafra. Prefiro esperar as confirmações e o jogador vestir a camisa.

Mas para você, leitor: recomendo acompanhar bem de perto essa fase para aprender a separar o joio do trigo a partir de agora.

Flamengo em novas mãos

Na semana em que os rubro-negros (eu inclusive) comemoram o terceiro aniversário do hexacampeonato, Eduardo Bandeira de Mello derrotou Patricia Amorim na eleição para o triênio vindouro.

Minha avaliação sobre gestão Patricia é bem simples. Houve avanços inegáveis na sede social e no centro de treinamento, mas, nas questões relativas ao futebol, o desastre só não foi de 100% porque o Mais Querido não foi rebaixado no Brasileirão. Nunca o Flamengo foi tão achincalhado e motivo de chacota como nesses três anos, pela incompetência dessa diretoria.

Fui sócio do clube por duas décadas, mas, por compromissos profissionais e, principalmente, por estar morando em São Paulo nos últimos anos não acompanhei de perto o processo eleitoral como em outras ocasiões.

Diante disso, só posso dizer o seguinte: espero que a Chapa Azul, vencedora no pleito após o apoio de ícones como Zico e Júnior, retome a tradição democrática do clube e seja 100% transparente, além de cumprir as (inúmeras) promessas de campanha, principalmente a da ruptura com os atuais conceitos de gestão.

Torço muito pelo sucesso de Eduardo Bandeira de Mello e seus parceiros. O sucesso deles nessa jornada será o sucesso de um dos amores da minha vida.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Bissexta - "A Onda Azul"


Retornando após curtas férias, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, conta a experiência de assistir no estádio a uma partida da NFL, a liga de futebol americano.

Em tempo: os Dolphins perderam por 23 a 16 na partida realizada no último domingo (foto).

A Onda Azul

Se o leitor veio aqui achando que eu ia falar da eleição do Flamengo, pode dar meia-volta, volver. Até falarei de futebol e posso ligeiramente tocar no assunto do Mais Querido; mas o tema aqui é futebol americano, uma das minhas paixões. Tema, aliás, que já tratei aqui em outra ocasião, mas me deu vontade de falar de novo.

Uma segunda lua-de-mel, para comemorar meus 10 anos de casamento repetindo a viagem do ano zero me deu a chance de voltar ao Sun Life Stadium, casa do Miami Dolphins. Este é um time que adora frequentar o meio da tabela para baixo, mas que ainda assim eu faço questão de simpatizar (porque torcer, de verdade, eu só torço pelo Flamengo e pela Seleção Brasileira).

Não é à toa que eu gosto do Dolphins.

O primeiro jogo que eu vi de futebol americano eu estava em Miami (na época a NFL não era transmitida para o Brasil) e Dan Marino estava no auge. Se o leitor não sabe quem é Dan Marino, por favor: vá ao Google e só depois volte. Dan Marino é uma espécie de Zico, excepcionalmente bom, mas que nunca ganhou um Super Bowl - assim como o Galinho nunca ganhou uma Copa do Mundo.

[N.do.E.: bom, Eli Manning (NY Giants), que muitos críticos dizem que não é um quarterback “de elite”, tem dois Superbowls, ambos sendo escolhido o MVP (melhor jogador, em tradução livre) da partida. Críticos estranhos, esses...]

E dessa vez eu tive a sorte de estar no Sun Life Stadium justamente no jogo mais importante da temporada.

A partida é contra o New England Patriots, o timaço da cidade de Boston onde o astro principal é o ‘Sr. Gisele Bundchen’ e que todo ano é amplo favorito a faturar o título da “chave” que o Miami disputa - e assim frear a chegada dos golfinhos da Florida aos playoffs.

Quase ninguém vai ao estádio sem estar devidamente fardado com o uniforme do time e não seríamos nós que pagaríamos esse mico indo ao jogo sem estar de verde, branco ou laranja, as cores dos locais. Custaria uma pequena fortuna comprar as camisas de jogo, então eu escolhi para mim uma estilo polo, de comissão técnica.

A Flavia, minha esposa, já tinha a dela desde a outra visita: uma espécie de réplica da camisa de jogo homenageando o demitido quarterback Chad Henne - um jogador bem fraquinho, de triste passagem pelo time. É mais ou menos como ir ao Maracanã em 2012 com uma camisa do Flamengo com o nome do Josiel ou Denis Marques, mas a Flavia não se liga nessas coisas: tirou uma foto minha na estátua do Dan Marino e desconfio que ela nem saiba de quem se tratava.

Ainda tivemos uma pequena discussão, pois o jogo começava às 13h e às 10h eu já queria estar por lá, com ela insistindo que era muito cedo. Chegamos 10h30min e foi aí que a onda azul me impressionou...

Já no estacionamento, hordas de torcedores de New England paramentados com suas camisas azuis, em suas animadas tailgates parties - literalmente, festas da porta traseira. O ritual consiste em abrir a tampa traseira do veículo e fazer um piquenique, com muita cerveja, churrasco, cachorro quente, uísque e o que mais couber.

Um pouco mais tarde, do alto do estádio, olhava um mar azul de torcedores visitantes, que aproveitaram o calor da Florida para fugir do rigoroso inverno de Massachussetts e embalar o time em busca de mais uma vitória.

Essa cena já tinha me chamado atenção no jogo a que assisti dois anos atrás, mas dessa vez foi demais. Quando eu cruzei o túnel da arquibancada, faltando 20 minutos para o jogo começar, fui cutucado por um torcedor do Dolphins incrédulo, gritando: “oh my god, Patriots fans everywhere!” (Meu Deus, há torcedores do Patriots em todo lugar!)

De fato, parecia que eu estava em uma arquibancada visitante: se contavam nos dedos os torcedores do time local. Claro que, com todos os lugares marcados e com os locais conhecendo melhor o estádio, os torcedores de Miami entram faltando 1 minuto para o jogo começar ou até depois da partida iniciada.

Aliás, a parte chata do futebol americano é que ninguém sossega: fica todo mundo andando para lá e para cá o tempo inteiro e ninguém se incomoda de ter a visão do jogo atrapalhada. Eu simplesmente deixei de ver um touchdown porque duas pessoas passaram bem em frente a mim em um momento crucial da partida, quando o correto era ficarem sentadas e esperar a conclusão da jogada. Fosse no Maracanã, daria confusão na certa.

Ainda que os torcedores de Miami, afinal, fossem a maioria da audiência, calculo que dos mais de 75 mil presentes pelo menos 20 mil eram torcedores dos Patriots.

É aí que eu me lembro do futebol brasileiro, com sua política estúpida de limitar a cota de ingressos de visitantes e sua mais ainda estúpida aura de violência que cerca o ambiente dos estádios. Ir ao jogo deve ser um lazer e não há nada mais divertido do que viajar horas e horas de avião, alugar um carro e ir a um estádio confortável só para torcer, sem risco de ser molestado ou agredido.

Essa lição a gente deveria aprender correndo. E para quem diga que isso é impossível, volto ao meu exemplo predileto: Inter x Flamengo, no Beira Rio. No dia que todos os jogos forem assim, futebol vai ser bem mais prazeroso de assistir.

Finalizando, algumas coisas que me impressionaram quanto ao jogo em si:

a) A estrutura de entretenimento do lado de fora. São muitas barracas de patrocinadores. Brinquei em uma roleta daquele estilo do Silvio Santos na barraca da Ford e um dos prêmios era uma "Sideline Pass", ou seja, um convite para assistir a partida DENTRO do gramado. Eu ganhei apenas um brinde (pude escolher entre uma mochila, uma camiseta, um chaveiro e um álcool gel: fiquei com esse último para ajudar na hora do cachorro quente), mas pouco depois vi um cara ganhar o passe e sair vibrando;

b) A loja. Completamente lotada e dando vontade de comprar muitas coisas. Acabei comprando uma pequena bolsa, de US$ 11.00, para guardar o celular, a carteira e o tal álcool gel;

c) Os preços. Estacionamento, DO OUTRO LADO DA RUA, US$ 25.00. Cerveja, de 300 ml: US$ 9.00. Um cachorro quente pequeno e frio: US$ 3.00. Durante o jogo tive que ir a uma sucursal da loja (cada andar tem uma) comprar um boné por US$ 35.00, o boné mais caro da minha vida – o jogo foi à tarde e em arquibancada descoberta, ou seja, sol forte;

[N.do.E.: um boné oficial do Flamengo, convertido pelo câmbio, dá pouca coisa menor que este valor.]

d) O senta/levanta. Ninguém para quieto. Toda hora alguém vai ao banheiro ou vai lá fora lanchar. O jogo é só um detalhe;

e) A diversidade. Embora o público seja preponderantemente masculino e adulto, tem muita mulher, muita criança, muito idoso.

f) A tal tailgate party. O outro jogo a que fui cheguei meio em cima da hora e era à noite. Nesse pude ver a quantidade de gente que se reúne no estacionamento. Os caras montam barracas imensas e ficam completamente embriagados antes do jogo começar (até para economizar na cerveja lá dentro). Da próxima vez, vou comprar um isopor e fazer o mesmo: beber cerveja lá fora.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Lacombianas - "Ser ou não ser"


É com alegria que informo aos leitores que, a partir de hoje, nosso espaço tem uma nova coluna. É a "Lacombianas", assinada pela jornalista Milly Lacombe (foto). Aqui Milly vai escrever tudo aquilo que gostaria de escrever em sua profissão, sem filtros de quaisquer espécies.

A coluna terá periodicidade mensal, sempre na primeira quarta feira do mês. Na estreia a colunista fala de forma didática sobre a homossexualidade e desmistifica os preconceitos sobre o tema.

Em tempo: o fato de ser religioso não significa necessariamente que se adote uma posição de homofobia. Tiro pelo meu próprio exemplo, que tenho minha religião e defendo os direitos dos homossexuais, como vários posts neste espaço. Tolerância, igualdade e democracia estão acima de tudo.

Passemos ao texto de estreia. Seja bem vinda!

Ser ou não ser

Não faz muito tempo que ser gay é considerado normal.

E, a bem da verdade, é 'normal-normal' apenas em lugares como Dinamarca, Suécia, Noruega… Ou seja, no mundo desenvolvido, aquele sem disparate na distribuição da riqueza, aquele com maior qualidade de vida, maiores índices de educação, menores índices de mortalidade infantil etc etc. Essas são, ainda como constatação, nações com pouco apego a cultos religiosos. Esse tipo de observação deveria pesar para que soubéssemos nos posicionar a respeito das mais variadas causas – a gay entre elas. Mas não funciona assim.

Vejamos então o outro lado.

Em países como Uganda e Irã, por exemplo, a homossexualidade, além de ser vista como anormal, ainda pode levar à morte pelas mãos do Estado. Ou seja: morte legalizada, por mais estapafúrdio que o conceito soe. O sujeito é executado por amar alguém do mesmo sexo que ele. Não por odiar, não por torturar, sequer por roubar. Morre porque ama.

Essas são, não custa lembrar, nações extremamente religiosas, além de desiguais e pouco desenvolvidas, humanitariamente falando.

Não por acaso, aqueles que usualmente apoiam esse tipo de execução são quase sempre os mais apegados aos livros sagrados, os que mais sentem direito de falar em nome de Deus e de citar sua bondade divina que é, na visão de  alguns, capaz de punir com o apedrejamento, o fuzilamento ou o enforcamento, dependendo do deslize cometido.

Mas – eles se apressam em lembrar – esse Deus punitivo e vingativo ama você. Você, no caso, são os heterossexuais, e, de preferência, do sexo masculino. Um Deus exigente, esse deles.

Também digno de nota que muitos dos que difundem o preconceito são os mesmos que norteiam suas vidas pelos livros sagrados. Atenção, atenção para que vocês não caiam na tentação de me interpretar mal. Não estou dizendo que todos aqueles que acreditam nos livros sagrados consideram a homossexualidade uma aberração. Estou dizendo que quase todos aqueles que consideram a homossexualidade uma aberração acreditam nos livros sagrados.

E estou falando dos livros que muitos usam para vociferar regras supostamente vindas do céu. Livros que os perpetuadores da intolerância abrem, apontam e cantam passagens para tentar assim provar que ser gay não é normal.

Entretanto, esquecem-se de mencionar que os mesmos textos dizem que é permitido vender a filha como escrava (Êxodos 21:7), que aquele que trabalha aos sábados deve ser morto (Êxodos 35:2) e que quem apara a barba pode ser assassinado (Levíticos 19:27) – para citar apenas três das lições que os livros contêm.

São esses homens, também, que pregam que o enorme perigo da homossexualidade é que ela pode ser doutrinada, em histórica e exuberante demonstração de ignorância. Até porque, seguindo esse raciocínio, se é possível doutrinar a homossexualidade, também é possível doutrinar a heterossexualidade, e, sendo assim, todo o “problema” está resolvido.

A ignorância a respeito do tema ainda está tão escandalosamente difundida que há semanas, aquela que é (só Deus sabe como) a revista de maior circulação do Brasil publicou artigo assinado por J.R Guzzo comparando gays a cabras e espinafres. Da última vez que a mesma revista resolveu misturar mundo animal e mundo vegetal ela alcançou o Boimate, um dos maiores micos jornalísticos da história. Mas, não contentes em errar grosseiramente uma vez, decidiram fazer de novo - e agora envolvendo os gays.

É esse o exército de homens brilhantes que sai por aí pregando o preconceito.

Infelizmente, ainda estamos mais para Uganda do que para Dinamarca em centenas de aspectos. Muito graças à bondade de [bispos como] Crivellas – que Dilma, esquerdista histórica, fez o favor de colocar em seu Governo como Ministro da Pesca – e Malafaias.

E já que citamos a presidenta, façamos um desvio para dizer que esquerdista nenhum poderia dar as costas à causa gay, como ela fez em nome de acomodações políticas. É uma pena que uma mulher como ela, cuja jornada humana emociona, tenha nos abandonado. Mas é assim, sozinhos, que seguiremos, usando o que temos (que é o amor) para lutar contra o preconceito e a intolerância.

Faz parte da luta educar o mundo a respeito de quem somos.

Antes de mais nada vale definir alguns conceitos que ainda causam confusão. O de opção sexual, por exemplo.

Opção sexual não existe. O que existe é orientação sexual. Não fazemos uma opção por gostar de alguém do mesmo sexo. Não é que um dia eu acordei e disse: “hoje vou gostar de mulheres”. Do mesmo modo que um heterossexual não opta por se sentir atraído por alguém do outro sexo, como no almoço opta pelo PF de frango em vez do PF de peixe.

Mas claro que é conveniente para alguns continuar falando opção. Porque se a homossexualidade é uma opção basta que esse ou aquele optem pelo que eles consideram correto. Como pode ser mais simples do que isso?

Da mesma forma que opto por passar as férias em Recife e não em Natal posso optar por transar com homens e não com mulheres. Não seria mais fácil?

Minha mãe jamais teria me discriminado, eu jamais teria sido vítima de preconceito e viveria feliz para sempre ao lado de um homem, ainda que eu não conheça nenhum heterossexual que esteja vivendo feliz para sempre - simplesmente porque a experiência humana é dolorosa.

Por causa daqueles que acreditam que a homossexualidade é um desvio, e, com um microfone em mãos, propagam sua verdade, existe por aí um monte de filho de Deus se obrigando a fazer sexo com quem não deseja. Ou vivendo uma vida dupla. 

Ou, no papel da celebridade, tendo que se acovardar e mentir a respeito da própria orientação sexual. Por causa deles, há mulheres que transam com seus maridos sem saber que horas antes ele estava numa sauna gay, ou na cama de um travesti, dando vazão à sua orientação antes de chegar em casa e optar por fazer sexo com ela.

Por causa deles, e daquilo que eles pregam, conheço mulheres que são casadas com homens e quando fecham os olhos à noite se imaginam deitando com outras mulheres. Em que tipo de prisão essas pessoas vivem? O que pode ser pior do que deixar de se tornar quem nascemos para ser, de viver o que temos que viver, de amar quem devemos amar?

Mas, cedo ou tarde, a orientação vence o duelo com a opção. Simplesmente porque a orientação é uma verdade, e a opção é uma mentira. A orientação é o natural; a opção é o artificial.

Outro equívoco comum é dizer “homossexualismo”. O sufixo ismo denota doença (“autismo”, “tabagismo”) e não deve ser usado porque, como já está estabelecido pelo mundo são e desenvolvido, ser gay não é doença.

Por isso o correto é usar “homossexualidade”.

Daqui a centenas de anos, quando a humanidade tiver conseguido evoluir espiritualmente, o período no qual foi legal discriminar e condenar o amor entre pessoas do mesmo sexo será visto como hoje vemos a vulgaridade e a barbárie da Idade Média. Daqui a muitos anos entenderemos que a doença não é a homossexualidade, mas a homofobia, que, aí sim, poderá ganhar o sufixo “ismo”: homofobismo.

Até lá, ainda haverá muitos gays que serão assassinados e mutilados e torurados e agredidos apenas por preferirem fazer sexo com alguém do mesmo gênero. Serão castigados sob a chancela de um Deus punitivo e vingativo e diabólico que em nada se parece com a verdadeira luz, aquela que um dia recomendou as duas maiores lições que já recebemos – a de que não devemos fazer aos outros aquilo que não queremos que façam a nós mesmos e a de que nos amássemos uns os outros.

Uma pena que precisemos passar por isso para sair do outro lado maiores e melhores. Mas, se já enfrentamos a escravidão, o holocausto, dizimações étnicas das mais variadas, sexismo etc etc etc e ainda não nos eliminamos por completo , então podemos supor que uma hora todo o tipo de preconceito cessará e aprenderemos a nos amar e respeitar pelo que somos e sentimos.

Aos poucos, e a custa do assassinato de muitos bravos e pioneiros, o ser humano se convence de que a Terra não é o centro do universo, e aí, séculos e séculos depois de queimar quem ousou pensar, ser e agir diferente, a Igreja pede desculpas. 

Foi mal aí. Até a próxima.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Flamengo: os desafios do novo Presidente


Após uma campanha bastante acalorada – e que me rendeu pessoalmente alguns dissabores, desafetos e antipatias – eis que Eduardo Bandeira de Mello (foto), da Chapa Azul, foi eleito o novo presidente do Flamengo na noite de ontem.

O objetivo deste post é tentar elencar os desafios que a nova diretoria terá nos próximos três anos, bem como registrar algumas impressões de quem acompanhou de perto o processo e teve acesso a algumas informações de bastidores.

Uma primeira coisa a ser dita é que apesar da eleição de Bandeira de Mello, o poder estará concentrado nas mãos de duas pessoas: Luis Eduardo Baptista (o “BAP”), diretor de marketing (e presidente da SKY) e o gestor profissional Wallim Vasconcelos. Bandeira de Mello somente foi o candidato porque os dois citados se tornaram inelegíveis durante o processo eleitoral – BAP já o era antecipadamente.

Apesar das afirmações em contrário, parece claro que a gestão será ainda sob o velho modelo, com alguma profissionalização em alguns setores – o que já seria grande avanço. O vice presidente eleito Walter D’Agostino é da “velha turma” e alguma composição com lideranças políticas teve e terá de ser feita – vale lembrar o apoio de ex-presidentes como Kleber Leite e Márcio Braga à chapa.

Algo que a diretoria eleita terá de lidar é com a expectativa da torcida por resultados rápidos – e revolucionários. Quem acompanhou a campanha (especialmente nas redes sociais) viu um messianismo incontrolável, com patrulhamento ideológico e altíssima expectativa. Paralelamente toda uma curva de aprendizado terá de ser realizada, pois os eleitos não possuem experiência anterior em um clube de futebol.

Em tempo: pessoalmente, não acredito em “salvadores da pátria” e coisas correlatas. Acredito em trabalho duro e, o mais importante: dentro das regras estabelecidas.

Além disso, apesar do discurso de que “o Flamengo tem de trazer a torcida para a sua casa”, por tudo que acompanhei durante o processo não acredito que o clube implemente um projeto de sócio torcedor com direito a voto. Algo nesta linha, se houver, será apenas algo como programas anteriores, talvez com facilidades para compra de ingressos – e olhe lá.

Também por tudo que houve durante a campanha – quem expressava ressalvas ou críticas era severamente patrulhado, a ponto de aqui mesmo terem vindo me xingar em mais de uma ocasião – acredito que haverá alguma tentativa de se calar críticos e mesmo restrições ao trabalho da imprensa. Não me surpreenderia com tentativas de expulsão em massa de opositores e processos judiciais a críticos da gestão.

Uma coisa a meu ver é certa: não deverá ser uma gestão muito “democrática”, no sentido de se ouvir críticas ou demandas de sócios, stakeholders e torcida. Espero sinceramente estar errado nesta avaliação.

Deve-se observar também qual será a atitude da diretoria eleita em relação às torcidas organizadas. Embora a chapa tenha sido apoiada por praticamente todas as principais torcidas, acredito que haja um distanciamento da diretoria eleita às TOs, inclusive com desvinculação total do clube em relação a estes torcedores. Mas neste caso específico, na teoria a prática é outra: então teremos de aguardar.

Outra questão que a diretoria eleita terá de lidar são com os conflitos de interesse evidentes que fatalmente ocorrerão entre o clube e as empresas dos executivos integrantes da diretoria. Não vi em nenhum lugar referências ao modelo de governança que será adotado, de modo que não se sabe o que ocorrerá quando estes interesses conflitarem.

Um desafio a ser enfrentado é a questão da dívida. Houve crescimento indubitável nos últimos três anos e mesmo a formação de um “comitê de renegociação” talvez não seja suficiente para se alcançar uma solução sustentável e com resolução a curto e médios prazos. Além disso, há pendências de salários, contas de concessionárias e outras dívidas de curto prazo a serem equacionadas rapidamente.

Sobre o time de futebol, este precisa de uma reformulação radical. Talvez para o Estadual valesse a pena mesclar os garotos com dois ou três mais experientes a fim de se ganhar tempo e permitir a montagem de uma equipe forte para o Campeonato Brasileiro, maior objetivo do ano.

O futebol precisa ser rapidamente reformulado e o caminho híbrido que deverá ser tomado pela nova diretoria precisará ter uma calibração eficiente. Digo híbrido porque a plataforma de campanha promete profissionalização total, mas em termos de governança ainda haverá subordinação ao Diretor Amador. Isso foi tentado outras vezes e não deu muito certo.

Mais um desafio que a nova diretoria terá de enfrentar é o estádio a ser utilizado pelo clube. A plataforma indica a construção de uma nova arena para 50 mil torcedores e a não participação no Maracanã nos moldes em que foi colocada pelo governo do Estado a concessão de uso. Vale lembrar que o contrato para o uso do Engenhão, que vence dia 31 próximo, não foi renovado, o que significa que há um problema premente a resolver – onde jogar o Campeonato Estadual e o início do Brasileirão?

Tarefa hercúlea, destarte, é reestruturar o marketing do clube, que passou 2012 inteiro sem um patrocinador master e ainda adquiriu a fama de não respeitar os contratos que assume – haja visto o recente distrato com a Olympikus. Pelo menos o indicado para empreender este trabalho de reconstrução é o respeitado e competente João Henrique Areias, em quem confio.

Não podem ser esquecidos, também, a sede social e os esportes olímpicos. Carros chefes da administração anterior, demonstraram que carreiam um número expressivo de votos e não podem ficar esquecidos pela diretoria que assume.

Patrimonialmente o clube precisa completar o processo de cessão do prédio do Morro da Viúva (no bairro do Flamengo), que será transformado em hotel. Além de encontrar uma destinação para o casarão de São Conrado, utilizado antigamente como concentração do elenco profissional e hoje desativado.

Encerro esperando que a diretoria eleita cumpra os compromissos assumidos em campanha e desejando sorte na tarefa de devolver ao “Mais Querido” seu lugar de protagonismo no futebol brasileiro. O mercado está mudando, o bonde da História está passando e não podemos perder nosso papel de destaque.

Saudações rubro negras.

(Foto: Extra)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Made in USA - "Milagre Verde e Amarelo"


Nesta segunda feira, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, conta a história de um pequeno milagre esportivo brasileiro: a classificação da seleção de baseball para o Mundial da categoria.

Milagre Verde e Amarelo

Estava planejando tirar umas férias em dezembro e só voltar a escrever para o blog entre o Natal e o ano-novo, por causa do xadrez.

Porém tive que arrumar tempo (arranjado em mais uma nota triste produzida pela presidência da Portela) para escrever esta coluna sobre a heróica e inédita classificação da seleção brasileira de baseball para o World Baseball Classic de 2013 (WBC, ou Mundial de Baseball, como preferirem).

Admito que é um orgulho pessoal enorme ver a seleção do meu país, sem tradição, brilhar no esporte que é minha paixão.

Mas antes, preciso explicar exatamente o que é o WBC e porque, apesar do Brasil já ter jogado as Copas do Mundo de baseball de 2003 e 2005, essa classificação está sendo tratada como inédita.

Historicamente os jogadores da Major League Baseball (MLB), a liga americana, nunca jogavam pelas seleções de seus países. A MLB não é vinculada de qualquer forma a Federação Internacional de Baseball (IBAF) e se recusava a ceder os jogadores para as competições internacionais tais, como Jogos Olímpicos e copa do mundo de baseball.

Assim, os times que participavam dessas competições invariavelmente eram bastante inferiores aos times da MLB, pois só jogavam amadores. Ou, no caso dos EUA e do Canadá, jogadores universitários, em uma época que os bons jogadores nem na universidade entravam.

Resultado: não bastasse a copa do mundo ficar esvaziada, países tradicionalíssimos do esporte, como a Republica Dominicana, não participavam porque simplesmente não tinha jogadores fora da MLB para isso. Cuba, com seu regime de proibição de saídas, mantinha um timaço amador que ganhou 11 das últimas 15 copas do mundo e foi vice em outras três. Na restante Cuba se recusou a jogar, pois ocorreu na Coréia do Sul.

Porém o baseball foi cortado dos Jogos Olímpicos em 2005, justamente sob a justificativa que não fazia sentido manter um esporte que não enviava seus melhores jogadores para os Jogos.

Então se criou uma pressão muito forte da imprensa americana em cima da MLB para que fizesse alguma coisa e ajudasse o baseball, esporte queridinho dos americanos WASP (brancos, anglo-saxões e protestante) nos Jogos, em sua tentativa de voltar ao programa olímpico (ainda sem sucesso).

Como Bud Selig, comissário da MLB (parecido com um presidente), adora “jogar para a galera” (abordei isso na primeira Made in USA que escrevi) e não podia liberar seus jogadores para os Jogos Olímpicos, já que os calendários coincidem e 90% dos jogadores seriam pegos no rigoroso exame anti-doping, ele resolveu criar um torneio internacional a ser jogado na pré-temporada do baseball americano com os jogadores da MLB.

Esse torneio foi o WBC.

Inicialmente o WBC recebeu a chancela da IBAF, mas não recebeu o título de “mundial de baseball”, pois o torneio convidava 16 times ao bel prazer da MLB, sem qualquer democracia.

Nesses moldes o WBC em suas duas primeiras edições, 2006 e 2009 (ambas vencidas pelo Japão) coexistiu com a Copa do Mundo de baseball “amador”. O campeão deste último era reconhecido como campeão mundial.

Até que após um acordo ocorrido em 2012, a IBAF extinguiu a Copa do Mundo e passou a reconhecer o WBC como o “mundial de baseball”. Em troca a MLB aumentou o número de países participantes do WBC. Foi nessa expansão que o Brasil conseguiu entrar.

Para o WBC de 2013, os 12 melhores times de 2009 foram classificados diretamente, sendo as últimas 4 vagas decididas em 4 eliminatórias diferentes, cada uma com 4 times - e 1 vaga para o WBC.

Por ser um mercado que a MLB vê com bons olhos para uma expansão mercadológica, aproveitando a repercussão do futebol americano aqui e a estréia do Yan Gomes, primeiro brasileiro a jogar na MLB (ocorrida nesse ano), o Brasil foi convidado a jogar as eliminatórias.

Diga-se de passagem: não foi apenas por isso que o Brasil foi chamado. Nós ocupamos o 28° lugar no ranking mundial e em um WBC expandido para 30 times, tínhamos todo o direito de pleitear uma vaga, nem que fosse apenas para participar.

Os 16 times que participaram das qualificações foram divididos de acordo com sua localização geográfica. Isso sempre nos complicou porque participamos do continente mais forte do esporte, com pelo menos nove equipes de porte mundial. Apenas como comparação, a Ásia, segundo continente mais forte, só tem três equipes de expressão.

Por isso o Brasil foi alocado na eliminatória da América do Sul, a ser realizada na Cidade do Panamá, enfrentando a potência anfritriã, o ótimo time da Colômbia e o time tradicional da Nicarágua.

A forma de disputa foi um ‘mata-mata’ de dupla eliminação. Ou seja, o time que perde cai para uma repescagem e pode eventualmente voltar à final. No WBC, o jogo final é único e mesmo o time que chega invicto não tem direito a uma derrota.

Apesar do excelente trabalho que o técnico do Brasil, Barry Larkin - grande jogador americano na posição de defesa mais técnica no baseball, o shortstop e selecionado para o Hall da Fama em julho - vem fazendo nos últimos três anos, o Brasil era o azarão e favoritíssimo a ser o primeiro time a ser eliminado.

[N.do.E.: o técnico era comentarista de uma rede de televisão e treinou de graça a seleção brasileira.]

A estréia já foi justamente contra o favorito Panamá, que contava em sua escalação com 5 jogadores da MLB, entre eles o ídolo Carlos Lee, além de 2 jogadores recém-aposentados. Eles ainda estavam desfalcados do maior arremessador fechador (closer) da história do esporte (e meu grande ídolo) Mariano Rivera, que está lesionado desde maio e só volta em abril.

O Brasil fez um jogo difícil, extremamente defensivo e os arremessadores reservas souberam levar muito bem um jogo apertado até o final. Assim se concretizou uma vitória de virada: 3x2. Destaque para o nosso fechador Thyago Vieira.

Alias, um parênteses. O Thyago pode ser posto na conta do técnico Barry Larkin, que percebeu que os nervos de aço (essenciais para um closer) e o repertório de arremessos do garoto eram perfeitos para a posição. Ninguém aqui tinha reparado isso.

Assim já começamos surpreendendo o mundinho do baseball indo para a semifinal e jogando o Panamá para a repescagem contra a Nicarágua, que levou uma pancada da Colômbia de 8 a 1.

Na semifinal enfrentamos a Colômbia e seus três jogadores da MLB, além do ídolo Edgar Renteria, aposentado da MLB ano passado mas que continua jogando localmente. Com atuações sólidas dos arremessadores Nakaoshi e Yoshimura, além de um trabalho de formiguinha muitíssimo bem feito pelo ataque (no jargão correto do baseball, é um jogo de “small ball”) o Brasil ganhou com certa folga de 7 a 1.

Apesar do placar alto, o Brasil não jogou com fortes rebatidas, mas com 11 pequenas rebatidas (e outras jogadas interessantes) ocorridas nos momentos precisos. Só como comparação: a Colômbia terminou com as mesmas 11.

Com a vitória o Brasil foi à final enfrentar de novo o Panamá, que derrotou Nicarágua e Colômbia na repescagem. Jogo único. A vitória de qualquer time daria a ele vaga no WBC.

Jogo complicado mais uma vez. Mesmo o Brasil rebatendo bem, foram 10 rebatidas, dessa vez o time falhava na hora de marcar e só fez uma corrida, feita em uma rebatida simples justamente do Yan Gomes ainda no começo do jogo.

Nossa sorte foi a atuação soberba do nosso arremessador titular, Rafael Fernandes, que em uma longa atuação de seis innings (tempos de jogo), só sofreu duas rebatidas e segurou o 1 a 0 na marra.

Rafael saiu e o time continuou bem até o nono inning, a última chance do Panamá de marcar pontos. Porém no 9th, o Panamá rapidamente colocou um corredor na terceira base (última antes de marcar ponto) e quem vinha ao bastão era justamente Carlos Lee.

Thyago fez um longo duelo quase perfeito com o craque e o eliminou pela via mais segura, o strikeout, sem deixar o corredor da terceira base avançar. Depois ele repetiu a dose contra Ruben Rivera (outro jogador da MLB) e o Brasil estava classificado para o WBC pela primeira vez. Surpresa para o mundo do baseball e um milagre em verde e amarelo.

Não pude ver os jogos ao vivo, já que a ESPN comprou os direitos, não transmitiu e ainda bloqueou a transmissão da MLB para o Brasil via internet. Mas o baseball é um esporte muito estatístico: então posso fazer uma boa avaliação do andamento com o jogo pelos números e pelo que conheço da seleção.

Resumo que o grande mérito de Barry Larkin na seleção foi mudar a filosofia dos nossos jogadores e mostrar que não temos a potência e a explosão que os países tradicionais do baseball têm; mas temos jovialidade, velocidade e habilidade.

Ou seja, um time como o Brasil não pode tentar jogar como os USA, Cuba ou a República Dominicana e tentar isolar a bolinha para fora do estádio (o famoso home-run), fazendo muitos pontos em pouco tempo.

Tem que fazer um trabalho rebatida a rebatida, base a base, marcando poucas corridas, mas em várias oportunidades. Gostei bastante de como os jogadores absorveram rápido essa forma de jogar e a implementaram bem, especialmente nos dois primeiros jogos.

Mas o principal foi dar uma atenção especial aos arremessos à defesa. Esse é o ponto fundamental do baseball: se seu grupo de arremessadores (pitchers) e sua defesa não cedem ponto, você não perde um jogo de baseball, pois não há empates.

Mas o Brasil teimava em negligenciá-los, principalmente os pitchers. Larkin soube instruir os técnicos brasileiros a desenvolverem corretamente arremessadores e eles estão surgindo, principalmente o Rafael e o Thyago.

Ainda temos o Luis Gohara, que só tem 16 anos mas é uma enorme promessa. Muito talentoso e com um ‘foguete’ nas mãos, já foi contratado por um time da MLB, o Seattle Mariners, para treinar nos times de base e em 4 ou 5 anos subir para o time principal. Só não foi contratado antes porque a MLB exige a idade mínima de 16 anos.

Como disse o próprio Larkin na coletiva pós-classificação: “o futuro deste país no baseball é brilhante”.

O caminho está sendo bem trilhado e, acho que só não temos mais jogadores na MLB porque quem já está estabilizado no Japão não quer vir para os EUA para ficar em times de base.

Para o WBC de 2013, mais uma vez o critério geográfico seria aplicado e o Brasil cairia no grupo C, o do Caribe, que foi apelidado de grupo da Morte.

Entretanto, neste domingo a MLB anunciou que o Brasil trocará de Grupo com a Espanha, sendo assim o Brasil ficará no Grupo A, junto com o anfitrião Japão, Cuba e China.

Junto com o anúncio da troca, foi divulgada a tabela dos jogos, seguem abaixo os jogos do Brasil, com os horários de Brasília, fornecidos pela Confederação Brasileira de Baseball e Softball (www.cbbs.com.br):

02 de março (sábado) – 8h: Japão x Brasil
03 de março (domingo) – 13h: Cuba x Brasil
05 de Março (3ª feira) – 6:30h: China x Brasil

A estréia contra o Japão é complicadíssima. Japão é o atual bi-campeão do WBC e tem um time muito bom e linear, com um estilo igual ao nosso de jogar baseball. Uma derrota de pouco já será lucro.

O jogo contra Cuba será igualmente difícil, já que mesmo sem nenhum jogador da MLB, esse time é o time amador que dominar o baseball internacional há 20 anos. Porém, já surpreendemos esse time em 2005 e só perdemos de virada no final por causa de nervos. Ainda sim, Cuba é ampla favorita.

Agora, contra a China e com os jogadores da MLB (e ligas menores americanas), viramos razoavelmente favoritos. É nesse último jogo que temos que concentrar todos os esforços para ganhar e, ficando em 3° no grupo, garantir a vaga direta para o WBC de 2017. Alias, a China nunca teve um jogador na MLB.

Por fim, também nessa semana saiu um novo ranking da Federação Internacional de Baseball. Com a vitória surpreendente na qualificação do WBC, o Brasil saltou de 28° para 20° no ranking mundial e finalmente passou a Argentina (que também subiu de 26° para 22°). Como a China é a 19ª, uma eventual vitória brasileira também garantirá mais esse posto no ranking."

Quem sabe? Não disseram que o Panamá era intransponível?