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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Final de Semana - "Pastor Trambiqueiro"


Neste feriadão, nossa faixa musical traz uma das músicas mais críticas do repertório do grande sambista Bezerra da Silva: "Pastor Trambiqueiro". A canção é uma das primeiras a criticar a primazia pelo dinheiro verificada em muitas das seitas pentecostais.

O curioso é que o cantor, ao final da vida, era membro da Igreja Universal do Reino de Deus. Mas a letra do samba é uma descrição de muitos destes pastores que encontramos por aí.

"Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente
é o diabo vivo em figura de gente
é o pastor trambiqueiro enganando inocentes

prestem bem atenção, o enredo macabro que ele arruma
seu critério maior é falar mal da macumba
dizendo que à ela também pertenceu
sim, mas só não foi em frente porque a chefe do terreiro é a Vera
não aceitou o jogo sujo da fera que vive assim só de arrumação
ele também não explica o porque da mudança da água pro vinho
só porque não umbanda não vale dinheiro
resolveu ser crente pra roubar os irmãozinhos
não é fé que ele tem,é simplesmente a febre do ouro
custa caro a palavra de Deus, o pastor chega pobre e arruma tesouro

Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente
é o diabo vivo em figura de gente
é o pastor trambiqueiro enganando inocentes"

sábado, 10 de março de 2012

Final de Semana - "Pega Eu Que Eu Sou Ladrão (Homenagem ao Ecad)"





Nossa faixa musical nesta semana faz alusão a fato bastante desagradável ocorrido esta semana.

O Ecad, órgão arrecadador de direitos autorais no Brasil, resolveu que todos os blogs que colocam vídeos embutidos do Youtube - como o acima - tem de pagar direitos autorais à entidade. É uma decisão polêmica, pois o vídeo é rodado direto do site e este já paga os direitos autorias correspondentes - baseado em uma brecha encontrada em lei de 1998, pré-internet de massa, o que é "nonsense".

Claramente o órgão, sobre o qual pesam diversas denúncias, encontrou uma forma de aumentar a sua arrecadação ao arrepio do senso comum, em caso claro de bitributação. Além disso, em sua esmagadora maioria os blogs - como este Ouro de Tolo mesmo - não tem fins lucrativos e não ganham dinheiro com a exibição dos vídeos, em sua maioria utilizados para ilustrar posts. Como cobrar de algo que não visa ganhar dinheiro?

A situação é tão absurda que as próprias gravadoras enviaram carta ao órgão repudiando tal cobrança. Até elas compreenderam que a cobrança sobre a divulgação de seus produtos iria inibir as suas vendas de cds e outros produtos relacionados à indústria da música. É uma cobrança ilegal, antiética e que só demonstra como é ruim o órgão arrecadador de direitos autorais no Brasil.

Vale lembrar, também, que a gestão atual do Ministério da Cultura vem trabalhando de forma a atender aos interesses do órgão, contradizendo um de seus princípios que é o de difundir a cultura. A gestão da Ministra Ana de Hollanda é desastrosa, para se dizer o menos.

O curioso é que o Ecad, tão zeloso na hora de extorquir (mineirar) os blogs é moroso para pagar aos autores. Meus caraminguás referentes aos sambas vencidos na Acadêmicos do Dendê sempre demoram muito para serem pagos, e olha que não são valores exatamente expressivos. Para o leitor ter uma ideia, os direitos referentes ao samba de 2012 não devem dar mais que R$ 400 ou R$ 500, o que é uma micharia.

Ou seja, nem se pode dizer que o Ecad esteja defendendo os interesses dos autores e cantores.

Havia pensado em retirar os vídeos daqui, mas estaria punindo os leitores. Não concordo com a cobrança, não concordo com impedimentos à disseminação da cultura e não irei privar os leitores de usufruir de música de qualidade. Que me processem se for o caso.

Isso é tão absurdo que daqui a pouco o Ecad vai querer me cobrar pelo fato de assobiar uma canção na rua, ou pelo fato de a bateria da Portela ser o toque do meu celular. Perderam a noção de ridículo.

A canção de hoje, do velho e bom Bezerra da Silva, é uma metáfora perfeita. "Pega Eu Que Eu Sou Ladrão" conta a história de um ladrão que tenta roubar a casa de um pobre e se compadece da situação, surtando. Boa analogia: o Ecad extorquindo blogueiros pobres e ficando maluco.

Aliás, Bezerra da Silva tem uma série de canções em que cita o descalabro que é o pagamento de direitos autorias no Brasil, a ponto de em uma delas chamar o Ecad de "ladrão". Ele faleceu em 2005, mas não mudou nada...

Pega Eu Que eu Sou Ladrão!

-"Vagabundo é mala
Mas dessa vez
Ele não se deu bem
Foi assaltar casa de pobre
Vê só o que aconteceu"

O ladrão foi lá em casa
Quase morreu do coração
O ladrão foi lá em casa
Quase morreu do coração...

Já pensou se o gatuno
Tem um infarto, malandro?
E morre no meu barracão
Eu não tenho nada de luxo
Que possa agradar um ladrão
É só uma cadeira quebrada
Um jornal que é meu colchão
Eu tenho uma panela de barro
E dois tijolos como um fogão
O ladrão ficou maluco
De ver tanta miséria
Em cima de um cristão
Que saiu gritando pela rua
Pega eu que eu sou ladrão!
Pega eu!

Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão!

Heeeé!
Não assalto mais um pobre
Nem arrombo um barracão
Por favor, pega eu!

Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Hiiii!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão!

O lelé da cuca
Ele está no pinel
Falando sozinho de bobeação
Dando soco nas paredes
E gritando esse refrão
Pega eu!

Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Heeeé!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Não assalto mais um pobre
E nem arrombo um barracão...

Olha que!
O ladrão foi lá em casa
Quase morreu do coração
O ladrão foi lá em casa
Quase morreu do coração...

Já pensou se o gatuno
Tem um infarto, malandro?
E morre no meu barracão
Eu não tenho nada de luxo
Que possa agradar um ladrão
É só uma cadeira quebrada
Um jornal que é meu colchão
Eu tenho uma panela de barro
E dois tijolos como um fogão
O ladrão ficou maluco
De vê tanta miséria
Em cima de um cristão
Que saiu gritando pela rua
Pega eu que eu sou ladrão!
Pega eu!

Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Hiiii!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão!

Heeeé!
Não assalto mais um pobre
Nem arrombo um barracão
Por favor, pegue eu!

Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Hiiii!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão!

O lelé da cuca
Ele está no pinel
Falando sozinho de bobeação
Dando soco nas paredes
E gritando esse refrão
Pega eu!

Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Hiiii!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Olha que!
Eu não assalto mais um pobre
Nem arrombo um barracão
Por favor pegue eu!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Heeeé!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Não assalto mais um pobre
Nem arrombo um barracão
Por favor pega eu!
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Pega eu!
Pega eu que eu sou ladrão
Heeeé!
Não assalto mais um pobre
Nem arrombo um barracão!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Final de Semana - "Malandro é Malandro, Mané é Mané"



Nossa música para o final de semana é uma homenagem àquelas pessoas que se acham mais espertas que as outras: "Malandro é Malandro e Mané é Mané", do grande Bezerra da Silva.

Na vida da gente sempre tem aquela pessoa que se acha mais esperta que as outras, mas não passa de um bobão. Otário. Tenta enganar os outros, se sente dono da situação, mas apenas age como um palhaço. 

Ei, é com você mesmo, mané metido a malandro. Você sabe quem é.

A gravação não está boa, mas ainda assim é melhor que a recente versão gravada pelo compositor portelense Diogo Nogueira.

Vamos à letra:

E malandro é malandro
Mané é mané
Podes crer que é
Malandro é malandro
E mané é mané
Diz aí!
Podes crer que é...

Malandro é o cara
Que sabe das coisas
Malandro é aquele
Que sabe o que quer
Malandro é o cara
Que tá com dinheiro
E não se compara
Com um Zé Mané
Malandro de fato
É um cara maneiro
Que não se amarra
Em uma só mulher...

E malandro é malandro
Mané é mané
Diz prá mim!
Podes crer que é
Malandro é malandro
E mané é mané
Olha aí!
Podes crer que é...

Já o Mané ele tem sua meta
Não pode ver nada
Que ele cagueta
Mané é um homem
Que moral não tem
Vai pro samba, paquera
E não ganha ninguém
Está sempre duro
É um cara azarado
E também puxa o saco
Prá sobreviver
Mané é um homem
Desconsiderado
E da vida ele tem
Muito que aprender...

E malandro é malandro
Mané é mané
Diz aí!
Podes crer que é
E malandro é malandro
E mané é mané
Diz prá mim!
Podes crer que é...

Malandro é o cara
Que sabe das coisas
Malandro é aquele
Que sabe o que quer
Malandro é o cara
Que tá com dinheiro
E não se compara
Com um Zé Mané
Malandro de fato
É um cara maneiro
Que não se amarra
Em uma só mulher...

E malandro é malandro
Mané é mané
Diz aí!
Podes crer que é
Ih!
Mas malandro é malandro
E mané é mané
Diz prá mim!
Podes crer que é...

Já o Mané ele tem sua meta
Não pode ver nada
Que ele cagueta
Mané é um homem
Que moral não tem
Vai pro samba, paquera
E não ganha ninguém
Está sempre duro
É um cara azarado
E também puxa o saco
Prá sobreviver
Mané é um homem
Desconsiderado
E da vida ele tem
Muito que aprender...

E malandro é malandro
Mané é mané
Diz prá mim!
Podes crer que é
E malandro é malandro
E mané é mané
Diz aí!
Podes crer que é
Eh!
Malandro é malandro
E mané é mané
Olha aí!
Podes crer que é
Sim!
Mas malandro é malandro
E mané é mané
Podes crer que é
E malandro é malandro
Mané é mané
Olha aí!
Podes crer que é!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Final de Semana - "Candidato Caô Caô"



Infelizmente não consegui escrever sobre a luta dos bombeiros e da Polícia cariocas com a atenção que ela merece. Mas é uma luta justa e que merece nosso apoio total.

A música de hoje é uma crítica aos políticos que dão desculpas esfarrapadas para demandas absolutamente legítimas, como a das forças de segurança: "Candidato Caô Caô". É um clássico do repertório de Bezerra da Silva, regravado recentemente - a meu ver, em leitura bastante inferior - pelo cantor Marcelo D2.

A versão que apresento é a original. A letra, de autoria de Walter Meninão e Pedro Butina, fala por si só...

"Ele subiu o morro sem gravata
Dizendo que gostava da raça, foi lá
Na tendinha e bebeu cachaça e até
Bagulho fumou

Foi no meu barracão
E lá usou lata de goiabada como prato
Eu logo percebi é mais um candidato
Para a próxima eleição

Fez questão de beber água da chuva
Foi lá no terreiro e pediu ajuda
Bateu a cabeça no gongá

Mas ele não se deu bem
Pois o guia que estava incorporado
Disse: esse político é safado
Cuidado na hora de votar

Ele disse:

Meu irmão se liga no que eu vou
Lhe dizer
Hoje ele pede seu voto amanhã
Manda a polícia lhe bater

(Podes crer)

Meu irmão se liga no que eu vou
Lhe dizer
Hoje ele pede seu voto amanhã
Manda 'os homi' lhe prender"

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Final de Semana - "Defunto Caguete"



Escrevi aqui nos primórdios deste blog que sou fã de Bezerra da Silva, cronista do subúrbio carioca em tempos menos politicamente corretos. 

E hoje temos o velho malandro como sugestão para o final de semana, com uma das músicas mais engraçadas de seu repertório: "Defunto Caguete", que de forma satírica retrata a questão do X-9, dedo duro, caguete, fofoqueiro. Todos os leitores devem conhecer um destes, infelizmente.

Vamos à letra, uma rara composição do próprio cantor, que sempre deu voz ao lirismo do subúrbio. E com leveza, um excelente final de semana. O vídeo vale pelo áudio, pois é apenas uma imagem estática.

"Mas é que eu fui num velório velar um malandro
Que tremenda decepção
Eu bati que o esperto era rife ilegal,
Ele era do time da entregação
O bicho esticado na mesa
Era dedo nervoso e eu não sabia
Enquanto a malandragem fazia a cabeça
O indicador do defunto tremia

(Refrão)

Era caguete sim!
Era caguete sim!
Eu só sei que a policia pintou no velório
E o dedão do safado apontava pra mim
Era caguete sim!
Era caguete sim!
Veja bem que a polícia arrochou o velório
E o dedão do coruja apontava pra mim

Caguete é mesmo um tremendo canalha
Nem morto não dá sossego
Chegou no inferno, entregou o diabo
E lá no céu caguetou São Pedro
Ainda disse que não adianta
Porque a onda dele era mesmo entregar
Quando o caguete é um bom caguete
Ele cagueta em qualquer lugar

(Refrão)"

Nota aos leitores de fora do Rio: "rife" é gente confiável. "Fazer a cabeça" é consumir maconha.


terça-feira, 14 de julho de 2009

Se o velho Bezerra da Silva fosse vivo...

Mais cedo hoje escrevi que, se Bezerra da Silva (1927-2005) fosse vivo, talvez estivesse preso.

Por quê ? Com esta praga do politicamente correto a que assistimos hoje, sua música certamente seria rotulada como "música de bandido", "apologia ao crime", "inimigo da sociedade" e que tais.

O cantor pernambucano radicado no Rio, que passou fome e pintou paredes antes de vir na onda do boom pagodeiro carioca na década de oitenta, era um cronista dos morros cariocas.

Com ele não tinha frescura. Ele gravava e cantava a música dos favelados, a rotina dos favelados, o grito dos favelados. Com menos força, mas maior qualidade musical, uma espécie de "funk" dos Anos 80 e 90: era a voz do morro.

Suas músicas cantavam o cotidiano dos morros, a opressão, a corrupção policial, a moral da "malandragem" e a rotina desta. Também fazia crônica social, com personagens como a sogra, o cunhado e o Pastor 171. Ironia: quando morreu havia virado evangélico.

Fico me perguntando o que ele estaria cantando hoje. Talvez a corrupção policial e a vida dos meninos do tráfico. Mas, certamente, estaria enfrentando a sociedade cada vez mais raivosa e conservadora, principalmente aqui no Rio de Janeiro.

Seria chamado de bandido. Mas dar voz aos oprimidos é sinônimo de bandido ? Provavelmente estaria preso, enquanto marginais de colarinho branco estão livres, leves e soltos. Como ele já alertava...

Sua obra e vida dão bem uma medida de como a nossa sociedade se tornou mais intolerante, sob a capa do "politicamente correto". Eu chamaria de "varrer para debaixo do tapete" as mazelas sociais. Se a elite não vê, está tudo bem, e isto explica o foco na Zona Sul da política atual (?) de segurança pública.

Outra faceta interessante é que ele gravava os compositores do morro. Não tinha essa de só escolher o que a gravadora determinasse. Compositores com nomes engraçados, mas do povo.

Há um documentário pronto sobre a obra do cantor e os compositores que ele gravou, mas infelizmente está enfrentando problemas de liberação dos direitos de algumas músicas. Uma pena.

Conheci mais a fundo a obra do velho Bezerra há uns dois anos, através de uma caixa temática que foi lançada sobre a sua obra. Depois fui me aprofundando e conhecendo mais. E pensar que ele foi vizinho da minha avó em Cascadura...

Àqueles que quiserem conhecer a vida e obra do cantor, recomendo a caixa citada acima, com quatro CDs, dividida por temas; um bom painel da vida do cantor. No Submarino tem para pronta entrega, com um preço razoável: R$ 39,90.

Abaixo, um vídeo com uma amostra. Bezerra da Silva e seu realismo nu e cru fazem falta neste mundo hipócrita de hoje.