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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Os Nerds na Vida Real - "Políticas Corporativas de Internet"



Nesta quarta feira, excepcionalmente, a coluna “Os Nerds na Vida Real”, assinada pelo analista de sistemas Rodrigo Felga, discorre sobre as políticas de utilização de internet de grandes e não tão grandes empresas.

Sem entrar em detalhes, a política da empresa onde trabalho é bastante restritiva. Em algumas áreas operacionais (o que não é meu caso) é ainda mais limitada, inclusive com teto de tempo ou mesmo restrição total de acesso. Cada caso é um caso, não cabe emitir juízos de valor.

Vamos à coluna.

Políticas Corporativas de Internet

Olá amigos,

Na coluna deste mês falaremos sobre a política de internet nas grandes empresas.

Para as pessoas que não estão diretamente ligadas a TI (Tecnologia da Informação) da empresa, a política de internet se resume basicamente a sites liberados e sites bloqueados. Contudo veremos que pode haver algo mais por trás da liberação ou proibição de um site.

Sobre a liberação/bloqueio de site, existem duas bases: uma é a chamada whitelist, onde tudo é bloqueado e só é permitido acesso aos sites que estão nessa whitelist. A outra é a blacklist, onde tudo é liberado e somente os sites que estão na blacklist estão bloqueados.

Existem variações na forma de implementação dessas políticas, mas a base sempre parte de uma whitelist ou blacklist. Existe também um modelo hibrido que possui tanto a blacklist quando a whitelist: neste caso os sites que não estão em nenhuma das duas listas necessitam de uma confirmação do usuário para que possa se acessar a página solicitada.

Não encontrei muito material disponível para pesquisar sobre a política de acesso à internet nas grandes empresas, porque essas políticas geralmente são restritas somente ao funcionários dessas empresas.

Entretanto, posso pela minha experiência afirmar que, basicamente, as empresas que estão relacionadas à tecnologia (empresas de desenvolvimento de software, etc) possuem uma política de acesso mais liberal em relação às empresas "tradicionais", que são mais rígidas nesse ponto.

Eu trabalho em uma empresa de desenvolvimento de software e lá temos uma política bastante liberal, onde são bloqueados basicamente sites pornográficos e de jogos.

Quando nos deparamos com um site que não foi mapeado pela empresa, aparece uma mensagem de confirmação informando que a responsabilidade de acesso é do funcionário; fazendo a confirmação podemos continuar a navegação pelo site.

Esse tipo de política é extremamente produtivo, pois precisamos estar constantemente fazendo pesquisa e navegando em vários sites. Uma política muito restritiva certamente afetaria nosso trabalho.

Trabalhei certo tempo prestando serviços para uma empresa estatal que tinha uma política de acesso bem restritiva, e isso dificultava muito o nosso trabalho. Às vezes (muitas vezes) fazia uma pesquisa e quando parecia que tinha achado uma resposta que resolveria meu problema me deparava com a maldita tela de site bloqueado.

Algumas vezes as restrições impostas sobre alguns sites não ocorrem somente pelo seu conteúdo. Um bom exemplo disso é o Youtube, que pode ter conteúdo muito relevante para pesquisa, mas que é bloqueado em muitas empresas por questões de infraestrutura: a empresa não tem uma rede que comporte um tráfego elevado de dados.

Outro item importante na política de internet de uma empresa é o email.

O email é o principal ponto de saída de informação da empresa e por esse motivo é um ponto muito crítico: se você trabalha em uma grande empresa provavelmente seu email está sendo monitorado.

Existem algumas discussões sobre a legalidade desse monitoramento e pelo que tenho lido na imprensa, isso depende muito como a política de internet é escrita. Se você assinou a política dizendo que o email corporativo é para uso estritamente profissional a empresa tem o direito de monitorá-lo.

Vi recentemente na imprensa um caso de um funcionário que processou a empresa em que trabalhava, pois na política de internet estava escrito que o email poderia ser usado para fins pessoais - algumas empresas fazem isso para poderem bloquear o acesso aos emails pessoais. Neste caso o juiz entendeu que o monitoramento quebrava o sigilo de correspondência do funcionário.

Questões jurídicas à parte, é sempre bom tomar muito cuidado com o conteúdo de emails, pois o vazamento de uma informação confidencial da empresa pode ser catastrófico tanto para o funcionário quando para a empresa.

E você? Qual a política de internet na sua empresa? Você concorda ou discorda dela?

Até o próximo mês.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Os Nerds na Vida Real - "Segurança na Internet"


Nesta sexta feira, a coluna "Os Nerds na Vida Real", assinada pelo analista de sistemas Rodrigo Felga, a partir do caso do roubo de senhas ocorrido esta semana no Twitter e do caso da atriz global Carolina Dieckmann (acima, em foto do site Ego) analisa a questão da segurança na internet.

E a comemoração do terceiro aniversário do Ouro de Tolo está somente começando.

Segurança na Internet

Olá Amigos,

A coluna de hoje abordará novamente o tema segurança.

Muitos de vocês devem ter visto durante a semana notícias em grandes portais sobre a divulgação de mais de 55 mil senhas de usuários do serviço de microblog Twitter. A divulgação dessas senhas desencadeou uma onda de problemas com os usuários que tiveram suas contas comprometidas - forçando alguns usuários, inclusive famosos, a encerrarem suas contas no serviço. Até o momento em que fechei a coluna ainda não se sabia como essas senhas foram parar em mãos erradas e farei hoje um exercício de enumerar alguns possíveis métodos que os criminosos podem ter usado para chegar às senhas.

Parêntese. Durante essa semana também veio à tona o caso da atriz Carolina Dieckmann que teve fotos pessoais divulgadas na internet após aparentemente ter sido chantegeada por um criminoso. Nesse caso as investigações indicam como suspeitos pessoas que tiveram acesso ao computador de Carolina para realizar uma manutenção no mesmo e seria nesse momento que teriam obtido as fotos.

Caso seja confirmada essa hipótese, o crime foi cometido por uma pessoa que teve acesso físico ao computador comprometido, portanto as dicas desse post não serão efetivas para esse tipo de golpe. Existem meios de se proteger em caso de equipamento roubado mas esse tema não será abordado na coluna de hoje, que visa dar dicas sobre a chamada segurança online, principalmente no que diz respeito às senhas. Fecha o parêntese.

A primeira e menos provável possibilidade é a de que o cybercriminosos invadiram os servidores do Twitter e capturaram as senhas "direto na fonte". Essa hipótese é improvável principalmente porque as senhas dos usuários são armazenadas criptografadas (codificadas), o que significa que além de invadir os servidores do serviço de microblog os hackers precisariam também decodificar cada uma dessas senhas, uma tarefa pouco provável (contudo não impossível) com a criptografia existente nos dias de hoje.

Outro fato que corrobora a minha tese é o fato que o número de usuários atingidos é muito pequeno se compararmos com o universo de mais de 380 milhões de contas (dados de Janeiro/2012) registradas no serviço: por que tendo acesso a todos os dados seriam divulgados "apenas" 55 mil? Com que critérios esses 55 mil foram "selecionados"?

Outro método que pode ter sido utilizado é o que explora senhas fracas criadas pelo usuário. Dando uma rápida olhada na lista divulgada pode-se perceber que muitas das senhas eram consideradas fracas, pois continham somente letras ou somente números. Ou, o que é pior, a senha era uma sequência numérica (123456) ou uma palavra encontrada em qualquer dicionário (vaca, por exemplo).

Existiam ainda usuários que utilizavam como senha o próprio nome de usuário, ou variações do nome de usuário. Os criminosos de hoje usam ferramentas que testam em segundos todo o dicionário da língua portuguesa ou combinações numéricas, o que torna até certo ponto fácil descobrir senhas desse tipo.

A dica para criar senhas mais seguras é que elas utilizem sempre combinações (nunca palavras inteiras) de pelo menos 8 dígitos que contenham letras maiúsculas e minúsculas além de números (e se possível também caracteres especiais).

Outra forma de se conseguir acesso às contas do Twitter pode ser por meio da utilização de computadores públicos.

Existem programas que monitoram todas as teclas pressionadas pelo usuários e as enviam de tempos em tempos para o email do criminoso: esses programas são conhecidos como keyloggers. Agora, imaginem o estrago que pode ser causado por um keylogger instalado no computador da faculdade ou de uma lan house: todos que efetuaram login através do computador infectado terão suas senhas comprometidas.

O mesmo pode acontecer quando se usa redes públicas, como essas redes wi-fi que se encontram em alguns shoppings: existem meios de capturar todo o tráfego de rede e "garimpar" as senhas. A dica nesses casos é nunca logar em computadores ou redes públicas, somente assim se evita o risco de ter a sua senha "garimpada" em meio aos dados que podem estar sendo "espionados".

Uma possibilidade que vejo como umas das mais prováveis é de que os criminosos utilizaram ataques de phishing e/ou engenharia social para obter essas contas (para saber mais sobre esses ataques leia o post sobre fraudes digitais que fiz aqui no Ouro de Tolo). Hoje mesmo recebi alguns e-mails que prometiam as famosas fotos da Carolina Dieckmann e que na verdade se tratavam de ataques. As dicas para se prevenir desses ataques podem sem encontradas no post citado mas é sempre bom reforçar: desconfie sempre de emails "inesperados" que venham de desconhecidos e até de conhecidos.

Acredito que um destes métodos (ou uma combinação deles) foi utilizado pelos criminosos para se conseguir essa lista de senhas. Seguindo algumas dicas simples deste post acredito você possa ter uma vida virtual um pouco mais tranquila.

E você, tem mais alguma dica para proteger suas senhas? Compartilhe nos comentários.

Um feliz aniversário a este Ouro de Tolo e até o próximo mês.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Os Nerds na Vida Real: "Fraudes Digitais"


Nesta sexta, a edição mensal da coluna "Os Nerds na Vida Real", assinada pelo analista de sistemas Rodrigo Felga, fala um pouco de um assunto sério e pouco relevado: as fraudes digitais. Estas também serão tema da próxima coluna "Bissexta", na semana que vem, tratando dos aspectos jurídicos.

Fraudes Digitais

Olá amigos!

Na coluna desse mês falaremos sobre um tema importante: fraudes digitais. Abordarei os principais tipos de ataques e como se previnir de cada um deles.

Fraudes digitais são o grande tormento do mundo virtual. Todos os dias nos deparamos com vários emails estranhos em nossa caixa de entrada, que nos prometem milhares de benefícios  - e no final só trarão dores de cabeça.

Os sistemas de computador hoje tem uma segurança muito elevada. Não é nada simples atacar e fraudar os dadaos dos servidores de grandes instituições e é por esse motivo que os fraudadores estão focando no elo mais fraco na corrente: as pessoas. Nós somos o ponto fraco de qualquer sistema de informação e para nos persuadir a fornecer os dados que eles precisam, os fraudadores utilizam-se de várias técnicas.

A seguir veremos as principais técnicas utilizadas pelos fraudadores e como nos proteger delas.

Uma técnica presente na grande maioria dos ataques virtuais é a chamada "engenharia social". A engenharia social consiste nas práticas utilizadas para se obter acesso a informações importantes ou sistemas através da manipulação e exploração da confiança e ingenuidade das pessoas. Ataques que utilizam engenharia social buscam atacar o ponto fraco das pessoas oferencendo dinheiro fácil, relacionamentos amorosos e prêmios, entre outros "benefícios".

A principal dica para se proteger dos ataques que utilizam a engenharia social e para os ataques virtuais em geral é o bom senso: perguntar-se porque ganhou dez mil Reais de um banco se nem ao menos é cliente deste banco já seria um bom começo. Grande parte das pessoas que caem em golpes virtuais o fazem por pensarem estarem levando uma tremenda vantagem, quando na verdade estão sendo literalmente feitos de bobo. Outra dica importante é sempre ler a mensagem cuidadosamente: mensagens fraudulentas constantemente possuem erros grosseiros de ortografia e gramática.

Uma das fraudes mais antigas é conhecida como "fraude da Nigéria (Nigeriam 419 scam)". Ela tem esse nome por ter sua origem no referido pais.

Na verdade existem registros deste tipo de fraude, da década de 1920, onde era aplicado utilizando-se de cartas tradicionais. Hoje o golpe evoluiu e utiliza principalmente o email como forma de comunicação. Neste tipo de golpe o fraudador visa obter vantagem persuadindo a vítima a realizar algum tipo de pagamento antecipado para obter uma vantagem posterior. O site Quatro Cantos traz uma explicação bem detalhada do golpe. A principal dica para se proteger deste tipo de golpe é o bom e velho ditado: "Quando a esmola é demais, o santo desconfia": desconfie sempre que são oferecidas grandes vantagens com a contrapartida de algum pagamento antecipado.

Outro tipo de fraude muito vista hoje em dia é o "phishing scam". A palavra phishing é uma analogia da palavra fishing, que significa pescaria.

Ou seja, e-mails são usados como “iscas” para “pescar” dados financeiros de usuários da Internet. Este tipo de ataque geralmente ocorre através de emails que são enviados em nomes de grandes instituições financeiras ou comerciais e se utiliza das técnicas de engenharia social para convencer a vítima a clicar um link. Ao clicar neste link a vítima pode ser redirecionada para um site falso, onde poderá ser induzida a inserir dados pessoais como senha e número de cartão de crédito ou então a baixar algum programa malicioso.

A dica principal contra os ataques de phishing é não clicar em links recebidos através do email a não ser que você confie extremamente no remetente. Mesmo nos casos de remetentes conhecidos é necessário ter cuidado, pois alguns virus enviam mensagens utilizando-se do endereço da pessoa infectada. Outra dica é sempre que for acessar sites que solicitam informações sensíveis (como o site do banco, por exemplo) digitar o endereço diretamente no navegador, nunca acessar este tipo de site através de links ou até mesmo utilizando-se da ferramenta de sites favoritos do navegador.

Além disso ter um anti-virus instalado e atualizado na máquina é sempre recomendado.

Por fim, fica a dica para leitura da cartilha de segurança do CERT (Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil) que pode ser encontrada no link http://cartilha.cert.br/

Espero que tenham gostado e até o próximo mês.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Os Nerds na Vida Real - "O Legado de Steve Jobs"


Nesta terça, excepcionalmente, temos mais uma edição da coluna "Os Nerds na Vida Real", assinada pelo programador e analista de sistemas Rodrigo Felga. O tema de hoje é o legado do fundador da Apple, Steve Jobs, falecido recentemente.

O Legado de Steve Jobs

Olá amigos! A coluna desse mês falará um pouco sobre Steve Jobs, cofundador da Apple falecido na semana passada.

Não sou fã de Jobs. Não fiquei, como milhares de pessoas, comovido com a sua morte: a morte de Jobs me entristeceu da mesma maneira que a morte de qualquer outro ser humano, nem mais, nem menos. No entanto, é inegável que Jobs teve um papel importante na história tecnológica e deixou um legado que merece ser lembrado.

A principal característica de Jobs é a capacidade de inovação. Na década de 70, computadores eram artigos encontrados somente em grandes empresas. Jobs e seu amigo Wozniak fundaram a Apple e com o lançamento do Macintosh ajudaram a popularizar a tecnologia. Muitas pessoas que nunca imaginaram ter um computador passaram a desejar um Macintosh.

Eis aqui o que Jobs e a Apple fazem de melhor: transformar produtos do cotidiano em objetos de desejo.

Foi assim com o Macintosh, iPod, iPhone e iPad, e por isso Jobs é considerado por muitos um Midas. Ele revolucionou a indústria fonográfica com o iPod e a loja virtual de músicas iTunes, criando um modelo totalmente novo de comércio digital.

O iPod salvou a Apple (e acredito que salvou também várias gravadoras) de uma iminente falência e trouxe novamente a empresa à vida. O próximo grande lançamento da empresa seria o iPhone, e hoje é impossível falar em Apple sem falar em iPhone.

Jobs revolucionou a indústria de telefonia móvel ao introduzir no mercado o primeiro celular com tela que permite vários toques simultâneos (multitouch). Jobs também introduziu com o iPhone um conceito totalmente novo de loja de aplicativos, onde é possível estender as funcionalidades do aparelho com a compra (ou download gratuito) de milhões de aplicativos

(Jabá: Caso alguém esteja precisando desenvolver um aplicativo para iPhone, entre em contato comigo).

Em 2010, Jobs e a Apple sacodem o mercado de tecnologia com o lançamento do iPad, criando uma nova categoria de "computadores". O tablet é uma "prancheta digital", um híbrido de computador e smartphone. Após o lançamento do iPad houve uma verdadeira corrida das concorrentes da Apple para "copiar" o produto, vários modelos foram lançados mas o Tablet da Apple continua reinando absoluto quando se fala em números de vendas. Consequência do pioneirismo.

A mais importante herança que Jobs deixou para a Apple foi a humanização da tecnologia. Jobs tem a capacidade de desenhar produtos que entregam além das funcionalidades: entregam 'usabilidade'. Foi assim na década de 70, quando a Apple lançou o primeiro computador com mouse e interface gráfica do mercado e é assim nos dias atuais, quando a Apple anunciou o iPhone 4S, que possui um recurso em que o usuário pode conversar naturalmente com o seu celular. Impressionante!

Encerro a coluna com um parágrafo retirado do caderno de tecnologia do Correio Braziliense que, na minha opinião, resume Steve Jobs dentro da Apple:

"A Apple não foi a primeira no mercado de smartphones e tablets, mas soube como nenhuma outra tornar esses aparelhos atraentes. Com a magia de seu marketing, Jobs provocou longas filas nas lojas Apple durante o lançamento de vários produtos."

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Os Nerds na Vida Real - "História da Internet"


A partir de hoje temos uma nova coluna no Ouro de Tolo. Ela se chama "Os Nerds na Vida Real" e será assinada pelo natural do Rio de Janeiro radicado em Minas Gerais Rodrigo Felga, analista e desenvolvedor de sistemas de informação - além de leitor assíduo deste blog e rubro-negro destacado. O foco será o mundo da informática e sua influência no dia a dia das pessoas.

A coluna será mensal, sempre publicada na terceira sexta feira de cada mês. Passemos ao texto de estréia, que fala exatamente da história da internet. Seja bem vindo ao time!

História da Internet

A Internet, assim como uma grande parte das coisas que utilizamos hoje no nosso dia a dia, surgiu do meio militar.

Durante o período conhecido como Guerra Fria os Estados Unidos possuíam uma rede de comunicação que era centralizada no Pentágono. Ou seja, todas as comunicações entre computadores americanos teriam necessariamente que passar pela base americana, o que significava uma grande vulnerabilidade sistêmica: um ataque da então União Soviética ao Pentágono colocaria em xeque toda a comunicação americana.

Foi nesse contexto que agência americana ARPA (Advanced Research and Projects Agency) desenvolveu a ARPANET (foto), que tinha como principal objetivo descentralizar as informações da rede já existente. Como a ARPANET não tinha um computador central e os dados não tinham uma rota definida, era praticamente impossível a sua destruição.

Em 29 de Outubro de 1969 ocorreu a transmissão do que pode ser considerado o primeiro E-mail da história. A transmissão ocorreu da Universidade da Califórnia para o Stanford Research Institute.

O objetivo da transmissão era enviar a palavra LOGIN de um computador para o outro, porém o computador que recebia a mensagem parou de funcionar ao receber a letra "O". A transmissão acabou não sendo bem sucedida, mas estava começando ali o que muitos consideram a maior invenção tecnológica desde o televisor - criado na década de 50.

Com a diminuição da tensão entre os EUA e a URSS na década de 70 os EUA permitiram que pesquisadores das universidades americanas utilizassem a ARPANET para realização de pesquisas e estudos. Neste momento a rede conhecida como ARPANET deu origem à MILNET (uma rede exclusivamente militar) e a ARPANET passou a ser utilizada nas universidades pelos pesquisadores e alunos.

Durante a década de 80 a ARPANET se desenvolveu no meio acadêmico, passando a conectar mais e mais universidades.

Já na década de 90 com a popularização dos computadores a rede (que nesse momento, já era conhecida como Internet) teve uma expansão gigantesca tanto em quantidade de usuários quanto em quantidade de conteúdo disponível. Foi nesse período que começou a surgir a Internet como conhecemos hoje, com navegadores, programas de mensagem instantânea (alguém ai se lembra do mIRC? ICQ?) e buscadores. [N.doE.: eu me lembro do ICQ, inclusive do meu número de registro: 19757525. Aliás, devo ter sido um dos primeiros usuários "não-TI" a ter internet em casa, em 1998, embora já acessasse na faculdade desde os idos de 1995/96]

A partir de 1995 começou o boom de empresas voltadas à Internet com a canalização de recursos de empresas para sites e serviços de Internet. Esse comportamento criou um fenômeno que ficou conhecido como "A bolha das empresas pontocom" com a supervalorização em bolsa de empresas de técnologia. Essa "bolha" estourou em maio de 2001 com o fechamento de centenas de pequenas e médias empresas do ramo. Durante todo esse período a internet vem evoluindo muito tecnologicamente, alcançando velocidades de transmissão impensáveis há alguns anos.

Em 2006 foi inaugurada uma nova era da Internet com o avanço das redes sociais, possibilitando uma nova forma de interação virtual e aproximando (ou distanciando, fica a dúvida) cada vez mais as pessoas. A nova moda agora são os sites de compras coletivas, com descontos (nem sempre vantajosos) para os compradores virtuais.

A dúvida agora é: qual será o próximo passo?

Veremos. E até julho!"

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Hora de comemorar conquistas e planejar o futuro"


Mais uma quarta feira, e a última coluna "Formaturas, Batizados e Afins" deste ano traz um balanço do ano no setor de ciência e tecnologia. Como sempre, texto assinado pelo professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas.

"Hora de comemorar conquistas e planejar o futuro

Caros amigos,

Por ser este o último texto desta coluna para o ano de 2010, utilizarei este espaço para uma espécie de retrospectiva do ano na ciência e tecnologia e também para projetar os anseios de toda comunidade científica para o ano que chega.

O ano de 2010 foi marcado por grandes descobertas científicas em todo o mundo, algumas delas abordadas aqui nesta coluna de uma maneira mais direta ao público leigo. Aqui no Brasil podemos colocar 2010 como um ano bastante positivo para a área científica; seguindo a trajetória desenhada pelo Governo Lula que aumentou substancialmente os investimentos em pesquisa e ensino, proporcionando assim, também por aqui, grandes descobertas.

Na medicina, avançou a passos largos a questão das terapias avançadas (gênica e celular), com aprovação de leis que extinguiram impedimentos éticos e legais para o desenvolvimento de nosso País nesta área tão promissora e estratégica. Também avançaram muito os estudos no campo da neurobiologia, tendo o pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis impressionado o mundo com suas descobertas que podem vir a ajudar deficientes físicos com próteses muito mais funcionais em um médio e longo prazo.

Ainda na área da medicina novos compostos naturais foram identificados, com ações poderosas sobre agentes causadores de importantes enfermidades como o vírus da AIDS por exemplo e o parasito causador da malária - o Plasmodium. Na Espanha pesquisadores conseguiram criar uma traquéia a partir de células tronco, abrindo uma nova avenida para transplantes. Também foram desenvolvidas novas tecnologias para tentar combater diferentes tipos de câncer e doenças prevalentes como a hipertensão e o diabetes.

Nas engenharias destacaria a enorme evolução de nossa indústria naval e petroleira, com abertura e consolidação de estaleiros, desenvolvimento de tecnologias de prospecção de petróleo, principalmente em altas profundidades no mar; incluído aí o potencial econômico da exploração do pré-sal. Com toda certeza coube ao setor de engenharia e arquitetura buscar novas medidas para frear a destruição do meio ambiente, pensando melhor nas ruas, cidades e edifícios; aproveitando ao máximo a luz natural, os ventos e a energia solar.

Foi um ano de investimento em novas modalidades de obtenção de energia - a chamada energia limpa - sem liberação de fumaça e sem degradação das nossas florestas. Depois da explosão de vendas dos carros com motores a álcool começam a surgir no mercado veículos movidos a hidrogênio ou a eletricidade. Estes são motores que não emitem dióxido ou monóxido de carbono e assim não agridem o meio ambiente e destroem a camada de ozônio já tão castigada. Harmonizar desenvolvimento com sustentabilidade seguirá sendo uma diretriz não apenas para o Brasil, mas para todo o mundo.

Nas ciências da terra houve o desenvolvimento de novas variedades de cultivos e o melhoramento genético através de cruzamentos de espécies distintas em laboratórios como da Embrapa, que com certeza colocarão o Brasil por muitos anos na liderança dos países produtores de alimentos no mundo. Também merece destaque o estudo das alterações climáticas que tem alterado todo o padrão de estações nos quatro cantos do mundo. O chamado aquecimento global é uma realidade e tem despertado vários grupos de pesquisadores que visam frear o que pode ser um dano irreparável ao planeta a médio e longo prazo.

No fim do mês passado, uma descoberta fascinante praticamente trouxe nova definição para a palavra VIDA, com o estudo que mostrou que uma bactéria consegue metabolizar o arsênico, elemento químico extremamente tóxico para a maioria dos seres vivos do planeta (ver coluna anterior para mais detalhes).

Como ilustram estes exemplos, passaria páginas e páginas detalhando algum tipo de evolução promovida pela ciência e tecnologia em qualquer um de seus ramos, o que espelha o progresso que tivemos não apenas no Brasil, mas em todo mundo. Também resgato o que escrevi numa das primeiras colunas sobre a necessidade de investimento no setor científico. Este investimento é totalmente revertido em ações afirmativas que apontam para o desenvolvimento de nossa Nação.

Mas e o futuro? Bem, começa um novo Governo e com ele novos desafios. A Presidente Dilma Roussef terá de mostrar logo de cara a intenção de seu governo atacando alguns pontos ainda vulneráveis na questão científica. Reforçando que são pontos escolhidos por mim e portanto, passíveis de críticas da parte de vocês queridos leitores:

1- Fortalecer o ensino em todos os níveis. Dados recentes da ONU mostram que o Brasil tem um desempenho pífio em educação. Ficamos atrás de países que beiram o caos por terem sido ou estarem passando por problemas graves como guerras. Isso obviamente é algo que merece total cuidado! Fortalecer o ensino fundamental e médio, unificando os currículos obrigatórios e valorizando a profissão de professor é um ponto importantíssimo para melhorarmos nossos índices e mesmo o mais importante que números, melhorar a formação de nossos jovens.

É inadmissível que um professor receba menos de R$ 1.000,00 enquanto cargos de nível médio no serviço público chegam a ter remuneração de mais de R$ 2.000,00. Melhorar não apenas o salário dos professores, mas permitir que estes se capacitem para atualização de conteúdos e metodologias de ensino, aliado a uma reforma nacional dos estabelecimentos de ensino, terá um resultado a longo prazo similar ao que se observou em nações emergentes como a Coréia do Sul. Quanto mais forte for o ensino fundamental e médio, melhores serão os alunos que chegam às Universidades, e melhores profissionais serão estes jovens ao se formarem, garantindo não apenas a geração de mão de obra capacitada e revertendo em prol de ações de inclusão social bastante eficientes.

2- Seguir apoiando a pesquisa em todas as suas áreas, com liberação de recursos e disponibilização de novas vagas para docentes e pesquisadores nas Universidades e Centros de Pesquisa. Ajudaria muito também ao nosso setor científico uma profunda atualização das questões legais envolvendo importação de equipamentos e matérias utilizados nas pesquisas, que representa hoje um grande entrave para a agilidade e competitividade de nossos grupos com os demais países.

3- Combater a Biopirataria que todos os dias rouba de nossas florestas e mares biomassa que gera produtos naturais que são isolados, identificados, patenteados e posteriormente vendidos para nós por preços proibitivos. Será este o tema de uma das primeiras colunas em 2011.

4- Manter campanhas importantes como a vacinação contra pólio, vacinação contra gripe, conscientização e combate à dengue, prevenção da AIDS, câncer de mama, próstata e outros; e ainda as iniciativas de esclarecimento e tratamento dos dependentes químicos que estima-se, já sejam 10 milhões se considerado apenas o crack como substância entorpecente.

Atacar estes pontos de cara, permitirá uma chance de resolver problemas graves que estão de alguma maneira freando o nosso desenvolvimento científico e por tabela, nosso desenvolvimento como nação soberana.

Desejo a todos vocês um Feliz Natal, e um Ano Novo repleto de saúde, alegrias e realizações. Obrigado pela leitura das colunas, e sintam-se a vontade para sugerir temas no próximo ano. Por motivo de minhas férias na Universidade, devo voltar apenas em Fevereiro. Até lá!

Marcelo Einicker Lamas"

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Formaturas, Batizados & Afins" - Uma Bactéria Diferente, que muda as bases da Biologia


Quarta feira, final de ano, dia corrido, mas uma versão mais da coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker. O tema de hoje é a descoberta de uma bactéria (acima) que pode revolucionar a pesquisa sobre as diversas e possíveis formas de vida.

Uma Bactéria Diferente, que muda as bases da Biologia

Caros amigos,
   
A comunidade científica está animadíssima com uma novidade divulgada semana passada por cientistas da NASA, a renomada agência Espacial Norte Americana. E claro, quando se fala em NASA lembramos logo de foguetes, espaçonaves, vida fora da Terra; o que com certeza contribuiu para a geração de algumas informações errôneas a respeito desta alardeada notícia. Cientistas descobriram uma bactéria que utiliza o Arsênico (As), um metal tido como não essencial à vida, em processos metabólicos diversos causando um frisson entre toda comunidade científica mundial; visto que esta descoberta poderá mudar tudo que aprendemos e que está nos livros acerca das condições mínimas ou pré-requisitos mínimos para que haja um tipo de vida.

O que é o Arsênico

   
O arsênico ou arsênio (que tem como símbolo químico As – do grego Arsenium) é um metal de ocorrência natural, sólido, cristalino, de cor cinza-prateada. Exposto ao ar, perde o brilho e torna-se um sólido amorfo de cor preta. Esse metal é utilizado como agente de fusão para metais pesados, em processos de soldagens e na produção de cristais de silício e germânio. O arsênico é usado na fabricação de munição, ligas e placas de chumbo de baterias elétricas. Na forma de arsenito é usado como herbicida e como arsenato é usado nos inseticidas.

Para a nossa saúde, o arsênico é considerado tóxico, visto que no homem produz efeitos nos sistemas respiratório, cardiovascular, nervoso e hematopoiético. No sistema respiratório promove irritação e danos nas mucosas nasais, laringe e brônquios. Exposições prolongadas podem provocar até a perfuração do septo nasal e rouquidão, a longo prazo, insuficiência pulmonar, traqueobronquite e tosse crônica. No sistema cardiovascular são observadas lesões vasculares periféricas e alterações no eletrocardiograma. No sistema nervoso, as alterações observadas são sensoriais e polineuropatias, e no sistema hematopoiético observa-se leucopenia, efeitos cutâneos e hepáticos. Tem sido observada também a relação de intoxicação pelo arsênico com câncer de pele e brônquios.

Papel biológico
   
Até a semana passada não havia qualquer evidência da importância deste elemento químico para todos os organismos vivos, ou ainda, que sua deficiência venha a causar complicações. Contudo já se sabia que o arsênico poderia ser um componente de determinadas reações enzimáticas presentes em algumas formas de vida mais simples como certos organismos unicelulares, que o utilizam como catalisador em reações de oxi-redução para obtenção de energia.

Por outro lado, existem relatos de que doses extremamente baixas de arsênio, como 1 parte por bilhão (ppb) na água ou 7 partes por milhão (ppm) no solo já afetam a fisiologia normal de plantas e animais, inclusive de humanos - como já dito acima. O arsênico pode inibir vias metabólicas cruciais em diversos processos biológicos celulares, causando assim lesões graves nestes organismos expostos a concentrações maiores. A presença de mecanismos de resistência ao arsênico em virtualmente todos os organismos vivos conhecidos, desde unicelulares até multicelulares, é um forte argumento contra a hipótese da essencialidade do arsênio.

A quebra de um paradigma central
   
Todos os registros experimentais mostram que os elementos químicos indispensáveis para a vida, desde sua forma mais primitiva representada pela mais simples das bactérias, até uma célula superespecializada como um neurônio, são os elementos carbono (C), hidrogênio (H), nitrogênio (N), oxigênio (O), enxofre (S) e fósforo (P).

São estes seis elementos que em combinações diversas e únicas formam todas as macromoléculas que integram as biomoléculas e representam o que conhecemos como vida. Assim estes seis elementos compõem os ácidos nucléicos (DNA e RNA), as proteínas, os lipídios e os açúcares; além de desempenharem papéis importantes na regulação de reações químicas diversas, por exemplo, o fósforo presente na molécula de ATP (a moeda energética das células) ou ainda o fósforo que modula vias metabólicas ao ser integrado a proteínas e lipídios por proteínas chamadas cinases. Em teoria não há nenhuma razão específica pela qual outros elementos químicos não poderiam ser utilizados. Só que até então, nada havia sido identificado pelos cientistas.

Na semana passada a revista Science, uma das mais importantes revistas científicas do mundo, publicou um trabalho conduzido por pesquisadores da NASA que identificou em um estranho lago salgado na Califórnia uma bactéria muito particular que se utiliza de arsênico para grande parte de seus processos metabólicos. Este fenômeno contraria todos os trabalhos já consagrados e de certa forma redefinindo o conceito de vida tal qual conhecemos.

Esta bactéria não apenas capta o arsênico presente em abundância nas águas do lago Mono, na Califórnia (formado numa região vulcânica, com minerais muito densos, inclusive o arsênico), como também incorpora e utiliza esse elemento químico em diferentes reações metabólicas. Por exemplo, incorporando o arsênico diretamente ao seu DNA, que pode ser considerada uma das mais nobres de nossas macromoléculas. Esta cepa especial de bactéria, classificada como "Halomonadaceae" é muito abundante nas águas daquele lago, que segundo os cientistas é um lago repleto de vida mas não de peixes ou de formas antes estudadas.

Esta descoberta mostra como ainda se conhece muito pouco a respeito das formas de vida presentes na Terra. Isto serve como incentivo para um maior incremento nas iniciativas que busquem organismos semelhantes com metabolismo pitoresco, como esta bactéria do lago de arsênico. Imaginem as perspectivas biotecnológicas que podem surgir a partir do estudo das vias metabólicas deste microorganismo.

Com certeza já deve estar iniciada uma pesquisa para a elucidação do genoma desta bactéria, que indubitavelmente trará novas e fascinantes descobertas. Além disso, o fato de ter sido encontrada uma forma de vida que se utiliza de um elemento químico não antes imaginado amplia enormemente as possibilidades de busca por seres vivos em outros planetas ou luas, que é um dos ramos mais financiados da Nasa. Conforme disse o pesquisador Ariel Anbar, um dos cientistas deste grupo que publicou esta descoberta, “a vida tal qual a conhecemos exige elementos químicos particulares e exclui outros, mas... essas seriam as únicas opções? Quão diferente a vida pode ser?"
   
O estudo, publicado na revista Science, demonstra que um dos mais notórios “venenos” da Terra pode também ser a matéria-prima para a vida de algumas criaturas. No trabalho experimental publicado na Science, os pesquisadores cultivaram a bactéria em uma solução de água com arsênico, contendo apenas uma mínima quantidade de fósforo. A bactéria "Halomonadaceae" se multiplicou na placa de cultura quando havia só arsênico ou só fósforo, mas não multiplicava sem ambos os elementos.

Isso mostrava que o microorganismo teria uma dupla capacidade: ele pode crescer com fósforo ou com arsênico, o que o torna muito peculiar, embora fique aquém de ser alguma forma realmente 'alienígena' de vida, pertencente a um tronco diferente da vida, com uma origem em separado. É importante que se realce este ponto pois vários órgãos de imprensa divulgaram esta descoberta como o descobrimento de uma forma de vida alienígena na Terra, o que não é verdade.

De fato, esta descoberta sugere que os astrobiólogos (ramo da Biologia que estuda a possibilidade de vida extraterrestre) não precisam restringir sua busca aos planetas ou luas que contenham os mesmos elementos que temos  na Terra. "Nossas descobertas são um lembrete de que a vida tal qual a conhecemos pode ser muito mais flexível do que geralmente supomos ou podemos imaginar", disse Wolfe-Simon, outro dos pesquisadores envolvidos. E complementou: "Se algo aqui na Terra pode fazer uma coisa tão inesperada, o que mais a vida pode fazer que ainda não vimos? Sempre é hora de se pesquisar".

Até a próxima !
Marcelo Einicker Lamas

Fontes consultadas:
http://pt.wikipedia.org
http://www.icb.usp.br/~mariojac/links/arsenico.html
Reportagem de Maggie Fox no Estadão On Line

 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Já vem chegando o verão, e com ele... a dengue !"


Quarta feira, e, de volta à programação normal, a coluna "Formaturas, Batizados & Afins", escrita pelo professor de Biofísica da UFRJ Marcelo Einicker. O tema de hoje é uma "guia prático contra a dengue", com informações bastante úteis.

"Já vem chegando o verão, e com ele... a dengue !

Voltamos com a coluna, abordando um tema mais do que importante e atual que é o fantasma da Dengue que insiste em nos assombrar.

À medida que vem chegando o verão, as condições propícias para a reprodução do mosquito aumentam e com isso surgem novos surtos. Uma rápida consulta à Internet em sites de busca como o Google pode oferecer aos nossos leitores mais interessados informações bastante detalhadas de todos os aspectos desta doença. Claro, como sempre, recomendo atenção para os sites mais sérios como o portal do Ministério da Saúde, sites de Institutos de Pesquisa e de Hospitais; para que não leiam barbaridades, folclores nem nada que seja correto. Um bom site para consulta é o www.dengue.org.br, onde se conseguirá todo tipo de informação necessária.

Mas para nossos leitores do Ouro de Tolo farei uma síntese das principais dicas, conforme me recomendou o amigo e editor Pedro Migão.

Mas afinal, o que é a Dengue?

A dengue é uma doença infecciosa febril aguda causada por um flavivírus e transmitida através do mosquito Aedes aegypti, que esteja infectado pelo vírus. O mosquito, que se alimenta de sangue, adquire o vírus ao picar uma pessoa infectada. Assim, numa próxima jornada para se alimentar este mosquito pode transmitir a dengue para outras pessoas. Para deter esta ameaça é importante toda e qualquer ação de combate ao mosquito e aos focos onde ele pode procriar. Tudo isso, pois atualmente a dengue é considerada um dos principais problemas de saúde pública de todo o mundo.

Tipos de Dengue

Em todo o mundo, existem quatro sub-tipos de vírus da dengue, o que pode ser ainda considerado um baixo número - principalmente se comparamos com o número de sub-tipos que tem o vírus influenza que é o causador das gripes. Assim todos já se depararam com notícias que falam destes quatro sorotipos: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. No Brasil, já foram encontrados vírus dos tipos 1, 2 e 3, sendo o tipo 4 atualmente endêmico na América Central.

Formas de apresentação

As principais manifestações clínicas da dengue podem ser classificadas assim: Infecção Inaparente, Dengue Clássica, Febre Hemorrágica da Dengue (muito perigosa) e Síndrome de Choque da Dengue. Passamos a destacar as características de cada uma.

- Infecção Inaparente

O indivíduo foi picado por um mosquito contaminado, recebe o vírus da dengue, mas não apresenta nenhum sintoma que o faça tomar alguma medida mais ativa de buscar um médico, ou seja, o próprio organismo se encarrega de debelar aquela infecção. A grande maioria das infecções pelo vírus da dengue é na forma de infecção inaparente, o que nos mostra que se o número de pessoas que busca atendimento médico hospitalar já é tão grande com requintes de uma epidemia, o número de indivíduos infectados deve ser bem mais que o dobro destes atendimentos médicos, o que é assustador. No entanto, estima-se que de cada dez pessoas infectadas apenas uma ou duas fiquem realmente doentes pela infecção da dengue.

- Dengue Clássica

É a forma mais branda da doença, muito semelhante à gripe e, portanto também normalmente não são casos notificados pelos postos de saúde como sendo dengue, minimizando mais uma vez a estatística de número de infectados. A Dengue Clássica se inicia de uma hora para outra e dura entre 5 e 7 dias. A pessoa infectada tem febre alta (39° a 40°C), dores de cabeça, cansaço, dor muscular e nas articulações, indisposição, enjôos, vômitos, manchas vermelhas na pele, dor abdominal (principalmente em crianças), entre outros sintomas.

- Dengue Hemorrágica

A Dengue Hemorrágica é uma forma bastante grave da doença e se caracteriza por alterações da coagulação sanguínea da pessoa infectada, o que é facilmente diagnosticado em exame de sangue avaliando-se o número de plaquetas. Em um paciente com Dengue Hemorrágica, são realizados exames de sangue diários para o monitoramento do número de plaquetas. Chegando num limiar considerado preocupante, este paciente necessita de transfusão de plaquetas o que nem sempre é muito simples. A Dengue hemorrágica se assemelha inicialmente a Dengue Clássica, mas após o terceiro ou quarto dia surgem pequenas hemorragias em virtude do rompimento de pequenos vasos na pele e mesmo nos órgãos.

A Dengue Hemorrágica pode provocar hemorragias nasais, gengivais, urinárias, gastrointestinais ou ainda uterinas. Na Dengue Hemorrágica, assim que os sintomas de febre acabam a pressão arterial do doente cai, o que pode gerar tontura, queda e choque. Se a doença não for tratada com rapidez pode levar à morte.

- Síndrome de Choque da Dengue

Esta é a mais séria apresentação da dengue e se caracteriza por uma grande queda de pressão arterial. A pessoa acometida pela doença apresenta um pulso quase imperceptível, inquietação, palidez e perda de consciência. Neste tipo de apresentação da doença há registros de várias complicações, como alterações neurológicas, problemas cardiorrespiratórios, insuficiência hepática, hemorragia digestiva e derrame pleural. Entre as principais manifestações neurológicas, destacam-se: delírio, sonolência, depressão, coma, irritabilidade extrema, psicose, demência, amnésia, paralisias e sinais de meningite. Se a doença não for tratada com rapidez, pode levar à morte.

- Recomendações médicas

Ao primeiro sinal de Dengue, não tente se automedicar ou não opte por deixar a doença ir embora sozinha. É imperativo que o paciente seja levado a um médico para que qualquer suspeita de dengue seja adequadamente investigada. O perigo maior é na automedicação pois muitas pessoas ao primeiro sinal de gripe tomam remédios a base de ácido acetil-salicílico, como aspirina, AAS, e outros, e estes remédios agravam o quadro da Dengue. Na dengue deve ser utilizado medicamento a base de paracetamol, como o Tylenol. Fora esta recomendação básica, ainda existe a possibilidade da dengue hemorrágica, que deve ser diagnosticada a partir de exames laboratoriais como um hematócrito e hemograma completo.

- Como podemos ajudar a frear esta ameaça?

Toda população deve estar atenta para pequenas coisas do dia a dia que podem representar muito no combate a dengue, e de novo, diversos sites na Internet apresentam de forma bastante didática estas dicas. Um ponto chave é a eliminação de possíveis reservatórios de água limpa, onde a fêmea do mosquito põe seus ovos. Estes reservatórios podem ser desde piscinas fora de uso, em casas ou clubes, caixas d´água sem tampa ou mal tampadas, até todo tipo de recipiente que possa acumular água após uma chuva, por exemplo. Pneus velhos, tampinhas de garrafa, embalagens plásticas, tudo pode servir como berçário para as larvas do Aedes, portanto devemos estar atentos a estes depósitos para eliminá-los.

Casas de veraneio com pouco uso, terrenos baldios, ferros-velho, quintais mal arrumados, em todos estes podem ser encontrados potenciais criadouros. Mas também na beleza das flores, naquele singelo pratinho que recolhe a água que usamos para regar nossas plantinhas, ali podem ser encontradas larvas e ovos do mosquito. Por isso é recomendado o uso de areia nos pratinhos, ou mesmo água sanitária ou cloro. Jamais deixar o pratinho com água parada sem estes cuidados. Bromélias e outras plantas que costumam acumular água em suas folhas também são excelentes focos e devem ser “drenadas” sem que se matem estas plantas pois não existe tal necessidade. Ações simples de prevenção podem fazer com que esta perspectiva de epidemia não se torne uma realidade.
   
Além disso, estimulamos também a doação de sangue e derivados. Procure o Banco de Sangue ou Hemocentro mais próximo e se apresente como doador, de preferência levando consigo mais algum parente ou amigo para que os estoques de sangue e plaquetas sejam confortáveis para enfretarmos todos juntos esta grande ameaça que é a dengue e que infelizmente chega junto com a estação que é a cara do Brasil, o verão.

Todos juntos contra a dengue!

Até a próxima
Marcelo Einicker Lamas"


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Formaturas, Batizados & Afins - "Cuidados com o Nosso Meio Ambiente"


Mais uma quarta feira e mais uma coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas.

Sem delongas, leiamos o texto, com alguns alertas importantes.

Cuidados com o nosso Meio Ambiente

"Caros amigos, nesta semana histórica quando o País escolheu democraticamente pela primeira vez uma mulher para comandar nosso destino – Dilma Vana Rousseff – esta coluna vem tratando de um tema que infelizmente não foi tão apropriadamente discutido durante toda campanha eleitoral. 

Nem mesmo a candidata do Partido Verde, Marina Silva, conseguiu chamar a atenção para este ponto, visto que por razões históricas de sua trajetória política queria fazer ver aos eleitores que ela tinha algo além de uma ligação forte com a preservação do meio ambiente. O fato é que nossa Presidente Dilma terá nestes quatro anos alguns desafios nesta área, desafios estes que devem ser encarados por toda sociedade; para que possamos minimizar as agressões ao meio ambiente e assim as catástrofes que tendem a acontecer pelas alterações impostas ao nosso Planeta, o que, aliás, também já foi discutido aqui nesta coluna.

Trago também este tema à tona, pois na semana passada, tive a oportunidade de participar em Arraial do Cabo (foto) de um encontro científico voltado à discussão dos problemas ambientais e que foi extremamente rico. A Primeira Escola Internacional em Ecologia e Ecotoxicologia Marinha não era simplesmente um fórum de discussão técnica sobre meio ambiente, mas também era um curso de treinamento em ciência. Uma disciplina compacta usando os problemas ambientais do ambiente marinho como ponto de partida e de chegada para o debate de diferentes aspectos da atividade científica, fundamentais para a formação do cientista moderno. Fui convidado pelo Prof. Mauro de Freitas Rebelo (UFRJ), coordenador do evento, para coordenar duas sessões muito diversificadas sobre diferentes causas de poluição ambiental e de que maneira diferentes grupos de pesquisa estão monitorando estas agressões ao ambiente. Estas apresentações foram feitas por estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado, pós doutorado e professores recém contratados em diferentes instituições. 

Foi realmente um momento muito especial para mim, que comecei minha vida científica em 1989 justamente estudando o problema da contaminação dos reservatórios de água da Cidade do Rio de Janeiro por cádmio, um metal pesado muito usado em diferentes indústrias como as de tintas e de baterias e pilhas. Durante todo o meu Mestrado (1992-1994), era este o tema central de minha vida científica: a poluição ambiental e suas conseqüências para as células, tema que talvez tenha tido naquela época uma enorme difusão devido a reunião histórica realizada no Rio de Janeiro em 1992, a Rio Eco 92. Assim, já se passavam mais de 5 anos desde que estive num evento inteiramente dedicado ao meio ambiente, o que de certa forma foi muito agradável (por eu gostar muito do assunto), mas ao mesmo tempo muito assustador, por ver que aqueles problemas que estavam na moda durante o período do meu mestrado seguem persistentes e em alguns casos até pioraram.

Um problema de todo o mundo

O meio ambiente não deve ser apenas cuidado aqui no nosso Brasil, mas sim em todo o mundo. Sabemos que alguns países que hoje cobram de países em desenvolvimento como China e Brasil ações enérgicas na preservação de ecossistemas, destruíram tudo ou quase tudo que havia de biodiversidade em seus países à custa do desenvolvimento. Assim, cobram ações quando eles próprios devastaram seus territórios. 

Neste evento que estive em Arraial do Cabo a grande maioria de participantes era de outros países. Estavam lá presentes pesquisadores do México, Uruguai, Colômbia, Chile, Portugal, Finlândia, Suécia, Sérvia, Estados Unidos, Itália e China. Do Brasil, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que foram os organizadores do evento, além de pesquisadores da PUC-RJ, Federal de Santa Catarina (UFSC), do Ceará (UFCE), de São Paulo (USP, USP-Ribeirão Preto, UNESP), do Rio Grande do Sul (UFRG) e de Pernambuco (UFRPE). Dentre os conferencistas as presenças destacadas do Dr. John Stegeman de Whoodshole-EUA, com grande atuação na área ambiental tanto por suas pesquisas como por suas ações junto a entidades de preservação mundo afora; a sueca Malin Celander, uma especialista em vida marinha e problemas ambientais que atingem esta biota; e o Dr. Francesco Dondero de Piemonte, Itália com seus estudos em biologia molecular de organismos marinhos, na busca de marcadores moleculares para agressões ambientais. 

Pelo Brasil, além de mim, o Prof. Mauro Freitas Rebelo (UFRJ) que foi o organizador e grande nome do evento por além de sua parte científica, ter dedicado parte da programação a aulas que sem sombra de dúvida enriqueceram os participantes. Aulas estas voltadas para esclarecer o que é uma boa pergunta científica, como abordar e investigar esta pergunta e também algumas aulas dedicadas a como escrever um texto científico ou de divulgação de forma clara e que permita a transmissão do conhecimento para pessoas leigas, por exemplo, sempre tendo o meio ambiente e a ecologia como pano de fundo. 

Pela audiência fica claro que o tema é importante em todas as partes do mundo, não apenas em países em desenvolvimento como os da América Latina, mas também nos países desenvolvidos e com excelente qualidade de vida como Suécia e Finlândia.

Os destaques

No evento, ficou clara a necessidade de se buscar indicadores precoces de poluição ambiental, os chamados bioindicadores. Normalmente tratam-se de proteínas ou peptídeos que são expressos por organismos submetidos a algum agente tóxico, seja um composto químico como um agrotóxico, ou um metal pesado como o cádmio já falado mais acima. 

As células do organismo produzem estas proteínas para tentar se livrar da ação tóxica dos poluentes e assim seguir vivendo mesmo na presença daquele agente externo. Entender os mecanismos que induzem a formação destas proteínas e também identificá-las de forma precoce podem ser boas ferramentas para identificar problemas ambientais e cessá-los a tempo de um estrago maior. Foram apresentados resultados deste tema praticamente por todos os participantes, o que mostra a relevância do assunto.

Outro destaque foi a conferência do Prof. João Paulo Machado Torres (UFRJ), que mostrou algumas falhas na forma que a política de cuidados com o meio ambiente vem sendo conduzida no Brasil, principalmente na regulamentação de uso e depósitos de rejeitos químicos. O Prof. João Paulo mostrou áreas onde funcionaram fábricas de agrotóxicos ou onde existiam depósitos de rejeitos destas indústrias e que estavam isolados apenas por cercas pouco restritivas ou mesmo simplesmente sinalizados por placas de perigo.

Algumas imagens mostradas pelo Prof. João Paulo, traziam tambores metálicos amontoados em áreas a céu aberto onde estão já a mais de uma década! É fácil imaginar a condição estrutural destes tambores. Muitos estão completamente deteriorados e enferrujados, deixando claramente vazar os seus conteúdos tóxicos que podem ser carreados por ventos e pela água da chuva atingindo áreas vizinhas onde irão contaminar a fauna e a flora, além é claro de provocarem doenças na população que mora nestas cercanias. Isso sem falar na contaminação dos corpos d’água à medida que estes compostos tóxicos são carreados pela água das chuvas para nascentes e lençóis freáticos e mesmo para rios e lagoas, poluindo e devastando estes ecosistemas. Ainda é muito frágil a legislação ambiental no Brasil e ainda é muito incipiente a fiscalização por parte das autoridades competentes. 

Um destes compostos tóxicos é o conhecido óleo ascarel, que foi muito utilizado como combustível em transformadores de energia, destes que encontramos presos aos postes de cidades por todo o Brasil. O uso do ascarel foi proibido por este ser considerado tóxico e cancerígeno; no entanto não existe muito cuidado com os depósitos para onde foram levadas toneladas desta substância, e mesmo não se tem notícia de onde podem estar outras tantas toneladas que muito provavelmente foram descartadas de forma inapropriada por aí. 

O mesmo vale para produtos químicos que eram usados como agrotóxicos e que foram proibidos pelas autoridades sanitárias, mas que da mesma forma, não tiveram regulamentada a forma de descarte e mesmo de estocagem o que constitui um enorme perigo ao meio ambiente.

Outra apresentação bastante interessante foi feita pelo Dr Marlon Fonseca (UFRJ e UNIR). O Dr. Marlon é um médico que se dedica ao estudo das comunidades ribeirinhas na Amazônia, com destaque para aquelas na região do lago Puruzinho. É sabido que toda região amazônica sofreu com a corrida do ouro nos anos 80, e que por conta disso muitos rios e terrenos foram contaminados com mercúrio, um metal pesado utilizado pelos garimpeiros para separar as partículas de ouro dos sedimentos de rios e barrancos. 

O mercúrio é extremamente tóxico e no ambiente pode ser convertido ou organificado em metil-mercúrio que é ainda mais tóxico que o mercúrio metálico. Assim organismos como peixes e algas incorporam e acumulam mercúrio e metil-mercúrio, que acabam chegando ao homem através da ingestão deste peixe contaminado. Uma das ações tóxicas mais conhecidas do mercúrio é sobre as células do sistema nervoso, o que pode acarretar em problemas neurológicos graves. Estes são o objeto de estudo do Dr. Marlon. 

Curiosamente, na amostra de indivíduos pesquisada, o Dr Marlon não observou qualquer sequela naquela população que pudesse ser associada a exposição ao mercúrio. É fácil ver homens e jovens se equilibrando em canoas primitivas para a pesca, que é realizada por uma espécie de arpão lançado por estes pescadores. Ou seja, uma pessoa com problemas neurológicos jamais conseguiria se equilibrar naquelas canoas e mesmo arpoar o peixe com uso da força dos braços isso sem considerar a acuidade visual de enxergar a presa naquela água escura. 

Um dos motivos para esta falta de correlação entre a alta incidência de mercúrio na região e as poucas sequelas encontradas pode se dever a alimentação dos ribeirinhos, que não apenas tem o peixe como elemento principal, mas também conta com muitas frutas e raízes da região. Já foi comprovado em estudos que estas frutas e raízes apresentam grandes quantidades de substâncias antioxidantes, que estariam atuando na proteção destes organismos à exposição ao mercúrio e a outros metais. 

Um destes antioxidantes é o selênio, que normalmente é encontrado em baixíssimas concentrações nos alimentos em geral, mas que se encontra enriquecido em determinados frutos amazônicos. Desta forma, a própria natureza degradada e agredida estaria de alguma forma, contrabalançando esta agressão e permitindo que os ribeirinhos tenham uma vida normal.

As iniciativas contra a destruição do meio ambiente

O desenvolvimento sustentável é o modelo que permitirá desenvolver regiões como a Amazônia, sem que isso signifique destruição de ecosistemas. É preciso, no entanto que a  população esteja sempre alerta para as ações que podem vir a destruir o meio ambiente e por em risco toda uma região. Não nos faltam exemplos para isso. 

Barragens de indústrias para conter rejeitos tóxicos que podem romper como o que aconteceu aqui no Brasil em Minas Gerais e mais recentemente na Hungria - onde cidades inteiras foram alagadas com produtos tóxicos causando problemas inestimáveis. 

A prospecção de petróleo nos mares pode ser um ponto de altíssimo risco como visto este ano no golfo do México, onde milhões de litros de petróleo vazaram contaminando uma extensa área. O próprio transporte do petróleo e de seus derivados por navios petroleiros e mesmo por oleodutos pode por em risco ecosistemas por onde passam à medida que acidentes podem acontecer. 

No caso dos petroleiros, o caso clássico do Exxon Valdez, que afundou e despejou milhões de litros de petróleo no Alasca - no que é considerado o maior acidente ambiental de todos os tempos na América. Além disso, o desmatamento, a transposição de rios e a falta de regulamentação de uso e descarte de substâncias tóxicas constituem problemas muito sérios que devem estar na prioridade de todos os governos mundo afora para que nosso Planeta tenha minimizados os episódios de agressão e para que assim, nossos netos tenham um mundo menos poluído para viver.

Até a próxima!"


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "O Futuro das Terapias Celulares é agora !"


Mais uma quarta feira e mais uma edição da coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker.

O tema de hoje é o progresso da chamada terapia celular, debatido no último Congresso Brasileiro de Terapia Celular, realizado em Gramado, RS (foto acima). Ao contrário do que o leitor possa pensar, não se trata de conserto de Blackberrys, Nokias e afins, mas sim do ramo da medicina que estuda as chamadas "células tronco". Vamos ao texto que ficará mais claro.

"O Futuro das Terapias Celulares é agora !

Caros amigos,

Esta coluna trará nesta quinzena um balanço do que eu vi no V Congresso Brasileiro de Terapias Celulares, realizado no início de outubro em Gramado, Rio Grande do Sul. Aliás, começo elogiando a comissão organizadora pela qualidade das instalações onde se realizou o Congresso e pela infra-estrutura disponibilizada. Impecável e ainda com a linda e educada Gramado como cenário.

Conhecendo mais sobre Terapias Celulares


Para a grande maioria da nossa população este tema ainda é um grande mistério. Aposto que muitos não sabem nem sequer de que se trata. No entanto, como coloquei no título, o futuro das Terapias Celulares é agora! Sim, aquela estória de que isso é coisa para o futuro, para daqui a dez anos...parece ter chegado a hora de ver na prática se temos uma nova revolução em andamento – a revolução da saúde.
   
A proposta de terapias celulares surgiu com a descoberta de células indiferenciadas, ou seja, células que guardam potencialidades de períodos bem iniciais durante a embriogênese e que podem ser entendidas pelo público leigo com uma forma mais simples de explicação. Tentarei ser o mais didático possível para atingir este público.

Todos sabem que a partir da fecundação do óvulo pelo espermatozóide surge a primeira célula, que irá dar origem a todo o corpo daquele ser, ou seja, uma única célula... que vai se dividindo...dividindo...dando origem a células mais especializadas, que então formam tecidos, órgãos, sistemas (como o sistema nervoso, por exemplo). Assim, esta célula inicial – indiferenciada – tem a capacidade de gerar todos os outros tipos celulares que irão constituir o corpo daquele ser vivo, seja ele qual for. Quanto mais especializada a célula, quanto mais comprometida com um determinado tecido ou órgão, menor é a sua capacidade de atuar em protocolos de terapia celular. Inversamente, quanto menos diferenciada e comprometida a célula, maior a sua capacidade em atuar nos procedimentos de terapia celular. Estas células menos comprometidas com tipos celulares específicos foram denominadas células tronco e são as grandes “estrelas” das terapias celulares.

Mas onde estão as células tronco?

Com base nesta explicação simplória acima, fica claro que as etapas iniciais do desenvolvimento embrionário, quando o embrião tem ainda 4, 8, 16 células apenas...neste momento estas poucas células seriam de grande importância para procedimentos em terapia celular. Surpresa para muitos foi quando os cientistas identificaram nichos de células tronco adultas em tecidos já diferenciados. Hoje sabe-se que existem células tronco musculares, renais, cardíacas e até cerebrais, entretanto a quantidade destas células nestes nichos teciduais é muito pequena e assim dependendo da gravidade do insulto, da lesão, a capacidade de regeneração torna-se pequena.

Alguns tecidos são fontes bem conhecidas de células tronco, como a medula óssea. Na medula estão precursores de todas as linhagens de células sanguíneas – as chamadas células tronco hematopoiéticas. Também na medula encontram-se células de “suporte” que são chamadas de células 'tronco mesenquimais'. Neste ano, completou-se 50 anos desde o primeiro transplante de medula óssea, o que para muitos já é considerado um procedimento de terapia celular -  afinal injetam-se células de medula sadia em pacientes com leucemia, por exemplo, buscando que as células injetadas se diferenciem em células saudáveis do sangue daquele paciente - curando-o.

Além da medula óssea, que ainda é a principal fonte das células tronco que estão sendo estudadas mundo afora, outras fontes de células tronco vem sendo exploradas: o sangue de cordão umbilical, tecido adiposo (gordura) extraído em procedimentos de lipoaspiração, células presentes na polpa dentária e até mesmo células presentes no fluido menstrual. Diversos grupos em todo mundo estudam as capacidades destas células, formas de se aumentar o número destas células obtidas para aumentar as chances de uso em terapias; e principalmente, estudos para “domar” estas células, que por serem indiferenciadas e teoricamente terem capacidade de se transformar em outros tipos celulares podem vir a gerar tumores quando injetadas num paciente.
   
Muito avanço neste campo aconteceu na última década, mas claro ainda não temos nos laboratórios total certeza sobre todos os aspectos da biologia destas células. Em paralelo, já existem vários protocolos de administração destas células em modelos animais de doenças como diabetes, parasitoses, glaucoma, etc. Aqui deixo a chamada para a importância do uso de animais na pesquisa, tema que abordaremos em uma próxima coluna. Além destes modelos animais de doenças, existem modelos animais de lesões espinhais que levam a paraplegia. Os resultados já obtidos nestes modelos animais mostra que, feitos os devidos ajustes, a terapia celular pode preencher uma lacuna no tratamento de diversas doenças e problemas ainda sem solução.

A partir destes ensaios em cobaios (o que se chama pesquisa Pré-Clínica), são embasados e propostos os ensaios em pacientes (a chamada pesquisa Clínica), que tem uma fase inicial, chamada fase 1, onde a única intenção é verificar se o fato de se fazer a infusão de células tronco naquele paciente não irá causar uma piora no seu quadro clínico; além de tentar acompanhar este paciente voluntário o máximo de tempo possível depois da infusão das células. A terapia já vem sendo testada com êxito em pacientes com Doença de Chagas, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, diabetes e começam protocolos para uso em paralisias, doenças dos olhos e doenças renais.

O grupo de pacientes nestes estudos iniciais ainda pode ser considerado pequeno, e conta com pessoas que já não teriam qualquer outra alternativa terapêutica. Devo ressaltar que ao dizer que os resultados são muito animadores, não estou afirmando que todos os pacientes se curaram de suas patologias, não é isso. Verificam-se indicadores de melhora nas funções comprometidas, aumento de sobrevida, mas alguns casos após uma melhora inicial apresentam uma recaída e chegam a óbito. É algo que vai ser aperfeiçoado e que terá assim aumentados os índices de sucesso.

O Congresso em Gramado

No Congresso deste ano tivemos a chance de ter um dos maiores especialistas em células tronco no mundo, o Dr. Arnold Caplan, de Cleveland, Ohio, EUA. Foi o Dr. Caplan que fez algumas das principais descobertas neste ramo e em Gramado não apenas fez um apanhado do que se sabe, como também apontou novas perspectivas para o uso clínico das células tronco.
   
Mas sem sombra de dúvida o que mais me impressionou no Congresso foi ter visto já a quantidade de ensaios clínicos que estão sendo feitos no Brasil e no exterior, ensaios que já contam com uma taxa de sucesso maior que a demonstrada ano passado e em doenças que ainda não estavam sendo alvo destas novas terapias. Um pesquisador Cubano, prof. Porfírio, mostrou que em Cuba as terapias celulares já estão disponíveis para a população em determinadas aplicações, com resultados muito bons. Também assisti a uma conferência de uma pesquisadora de uma empresa privada americana (Geron) que começa ainda este mês os testes de emprego de células tronco em pacientes com esclerose múltipla. Esta pesquisadora disse que a Geron fez quase 5 anos de testes em modelos animais para padronizar a proposta terapêutica que será posta em prática em humanos.

Também pôde ser visto no Congresso como andam as pesquisas na Alemanha, Espanha, Inglaterra e Argentina. Aliás, no Congresso foi anunciado um grande convênio entre Brasil e Argentina para intercâmbio de experiências e associações de grupos brasileiros e argentinos que trabalharão juntos para acelerar esta tecnologia na nossa América do Sul.

Uma revolução na medicina

Atualmente existem duas possibilidades de administração do tratamento: o transplante autólogo de células, ou seja, as células tronco são retiradas do próprio paciente, purificadas e então injetadas; o transplante também pode ser  heterólogo, ou seja, um doador diferente do paciente será a fonte de células tronco. Para a terapia normalmente são injetadas de 1 milhão a  10 milhões de células tronco, tanto diretamente nos órgâos ou  estruturas que precisam da terapia, ou também via intravenosa (veia cava, veia porta hepática, artéria renal, etc). O número de células usado, o número de infusões de células e a forma de administração destas células ainda está sendo padronizado e varia de acordo com a proposta terapeutica e com o orgão a ser curado.   

As terapias celulares irão representar uma nova revolução da humanidade – a revolução da medicina. A perspectiva de tratamento de doenças e lesões tidas hoje como incuráveis, a chance de devolver a pessoas com lesão na medula (bala perdida, acidentes, etc), a chance de voltar a se locomover; devolver a visão a quem está condenado a perdê-la; livrar os diabéticos de dietas rígidas e das doses de insulina. Tirar pacientes da fila de transplante de rim e mesmo devolver a alguns destes pacientes renais parte da função do órgão que já permitiria tirá-lo de unidades de hemodiálise...

As propostas terapêuticas são inúmeras e o avanço da pesquisa científica neste tema permite dizer que chegou a hora. Vamos torcer para que os resultados sigam as expectativas e que em muito pouco tempo estas novas propostas terapêuticas estejam disponíveis em nosso sistema de saúde. O futuro das terapias celulares é hoje!
   
Até a próxima
Marcelo Einicker Lamas"


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "O Nobel que o Brasil merece, mas não tem"


Voltando devagar à programação normal deste blog, trazemos mais uma edição da coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas. Desta vez, em continuação à coluna anterior, o texto traz o não reconhecimento de Carlos Chagas pelo Prêmio Nobel.

O curioso é que no início da década de 70 houve outro caso semelhante. Dom Hélder Câmara foi indicado ao Nobel da Paz por sua luta contra a tortura e contra a ditadura no Brasil dos generais, mas gestões destes junto à diplomacia internacional acabaram por impedir a eventual concessão do prêmio. E isto me lembra que a biografia do religioso está na minha (longa) lista de livros não lidos...

Vamos ao texto.

"O Nobel que o Brasil merece, mas não tem

Caros amigos,

Dando continuidade ao tema da última coluna, vamos abordar este episódio ainda um tanto quanto obscuro da história da Ciência que nos afeta de maneira cruel. Falaremos do famoso Prêmio Nobel que deveria ter sido dado ao Dr. Carlos Chagas, mas que no fim das contas não foi entregue a ninguém.

A biografia de Carlos Chagas

Para aqueles que se interessam não apenas por Carlos Chagas, mas por outros grandes vultos de nossa História, a Internet é uma fonte inesgotável de informação. Cuidado apenas para obter estas informações em sítios seguros e de confiança no que diz respeito à autenticidade e veracidade das informações. De acordo com o sítio e-biografias, Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, médico e bacteriologista brasileiro, nasceu em Oliveira, Minas Gerais no dia 9 de Julho de 1879, e faleceu no Rio de Janeiro no dia 8 de Novembro de 1934.

Formado em Medicina no Rio de Janeiro, dedicou-se aos serviços de profilaxia de doenças muito comuns aquela época e que eram responsáveis por centenas de mortes. Esta sua atuação como médico sanitarista foi muito importante, principalmente no interior do Brasil. Sua determinação e suas estratégias de combate à malária tornaram-no conhecido e respeitado. Em 1907 passou a integrar o quadro de médicos pesquisadores do Instituto Osvaldo Cruz em Manguinhos, Rio de Janeiro. O Instituto já era o principal centro de pesquisa do país e tinha muitas frentes para estudo de doenças parasitárias endêmicas de nosso território.

Ali foi constituída uma comissão para realizar estudos sobre uma doença que tinha grande prevalência no interior do Brasil, e coube a Carlos Chagas chefiar esta Comissão. Em 1909, após incansável dedicação e visitas mesmo a regiões afetadas, Carlos Chagas conseguiu identificar em esfregaços de sangue dos pacientes acometidos o agente causador dessa terrível doença, um protozoário flagelado que foi inicialmente denominado de Schyzotrypanum cruzi e que depois passou a ser chamado de Trypanosoma cruzi. Uma homenagem feita por Carlos Chagas a outro importante médico sanitarista de nosso país, que foi Osvaldo Cruz.

Mas a descoberta de Carlos Chagas foi muito mais significativa! Identificado o agente causador, Carlos Chagas também conseguiu demonstrar que aquela doença era transmitida por um inseto que era encontrado freqüentemente nas frestas das casas de “pau a pique” daquela região do interior do Brasil, mais precisamente a região de Lassance, Minas Gerais. 

O inseto é popularmente conhecido como “barbeiro”, por sua característica de buscar seu alimento – sangue – na região do rosto das pessoas que acabavam infectadas. Também se conhece o Barbeiro popularmente por chupança, bicho-barbeiro, bicho-de-frade, bicho-de-parede, bicudo, cascudo, chupão, chupa-chups, fincão, gaudério, percevejão, percevejo-do-sertão, percevejo-gaudério, procotó, rondão ou vunvum. Os avanços da entomologia (ramo da Biologia que estuda os insetos) médica trouxeram muitas contribuições ao estudo deste inseto hematófago que hoje é classificado como um Triatomíneo da Ordem Hemíptera, Família Reduviidae. Assim, diferentes espécies de Barbeiros seriam responsáveis por transmitir a hoje conhecida Doença de Chagas, uma justa homenagem ao grande médico Carlos Chagas.

Mas ainda faltava mais alguma coisa e Carlos Chagas trouxe ainda mais uma contribuição no estudo da Doença de Chagas. Foi ele quem descobriu o ciclo de vida do protozoário causador, mostrando que em verdade o T. cruzi viveria em animais silvestres como roedores, gambás e até tatus; e que chegava ao homem em ações de ocupação de áreas de floresta ou próximas a floresta que proporcionaram ao inseto vetor ter contato com humanos, inoculando neles a forma infectiva do T. cruzi e condenando estes sujeitos a terem a Doença de Chagas. Em resumo, Carlos Chagas descobriu o agente causador da Doença, o inseto transmissor, o ciclo de vida e os sintomas que apresentavam os que eram acometidos por esta moléstia.

Em 1911 foi concedido a Carlos Chagas o prêmio Schaudim, conferido por um juri internacional ao melhor trabalho sobre Protozoologia e Microbiologia. Mas, e o Nobel? Por estas importantes descobertas, por que Carlos Chagas não recebeu o Nobel?

Uma injustiça ou pura inveja?

Até os dias de hoje, Carlos Chagas é considerado o nome mais forte que o Brasil já teve para ser laureado com o Nobel (ver detalhes na coluna anterior). Ele chegou a ser indicado oficialmente ao Nobel de medicina duas vezes: em 1913 e em 1921, mas nunca foi o premiado. Há uma versão que diz que sua candidatura não foi vitoriosa, pois outros médicos brasileiros, questionavam muito fortemente suas descobertas, o que poderia ter influenciado os membros da Academia que confere o Nobel a ter preterido Carlos Chagas. Neste caso, a maior honraria da Ciência mundial não teria sido legitimamente dada ao Dr. Carlos Chagas por pura inveja ou mesmo por oposição política – vejam já a maldita política sujando nossa história...

Há quem diga que Chagas foi o escolhido pelo Instituto Karolinska (Suécia) para ganhar o Nobel em 1921, mas por algum motivo, não o recebeu e o prêmio acabou não sendo anunciado naquele ano. E este mistério segue ainda sem solução conforme atestam em um texto no Portal do Instituto Oswaldo Cruz os médicos e pesquisadores João Carlos Pinto Dias, José Rodrigues Coura e Marília Coutinho.

Claro, existem outras versões, que inclusive falam sobre Carlos Chagas não ter ganhado o Nobel simplesmente por ter tido poucas indicações dentre os indicados nas categorias de fisiologia ou medicina naqueles anos. Em artigo publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, o médico José Eymard Homem Pittella tenta esclarecer esta suposta “teoria da conspiração” contra Chagas. No seu texto, Pittella diz que Chagas não era candidato único naquela edição do Nobel, nem mesmo teria sido um dos finalistas. Pelos estudos de Pittella, que pesquisou os arquivos do Nobel, 42 cientistas foram indicados aos prêmios de medicina e fisiologia e os mais votados teriam tido 11, 9 e 7 indicações cada. Neste cenário, Carlos Chagas teria ficado com apenas uma indicação, submetida pelo médico brasileiro Hilário Soares de Gouvêa. Assim, obviamente a Academia teria escolhido aquele que teve mais indicações, o que de toda forma não deixa de parecer injusto, pois dificilmente estes com mais indicações eram donos de feitos maiores que o que apresentara Carlos Chagas.

Também isso não exclui os tais opositores de Carlos Chagas aqui no Brasil, outros médicos e cientistas que se sentiam incomodados com o sucesso de Chagas, e porque não, teriam inveja dele. Não existe qualquer documentação que sugira que os opositores é que impediram a premiação de Chagas, diz o Dr. Pittella em uma entrevista ao Jornal Estado de São Paulo (infelizmente não tenho a data precisa desta matéria). O fato é que destes 42 indicados, um inclusive com 11 indicações, nenhum levou o prêmio. Ou seja, também podem ter considerado o feito deste que teve 11 indicações inferior ao feito de Chagas, e assim aplicado uma das regras do Prêmio (ver coluna anterior).

Chagas teria sido ainda indicado outras vezes ao Nobel entre 1915 e 1925, mas nestes 10 anos, em seis não houve vencedor do Nobel. Outro fato que conta contra a premiação de Chagas é que a maioria dos cientistas que indicavam e/ou escolhiam os premiados eram de instituições americanas ou européias, que com isso naturalmente privilegiavam escolhas de suas regiões. O Brasil naquela época era um país subdesenvolvido e sem nenhuma importância na ciência mundial.

Uma lacuna histórica

É fato que Chagas fez algo nunca igualado na pesquisa científica, quando em menos de um ano identificou o agente causador, o inseto transmissor, o ciclo de vida e os sintomas da “Doença de Chagas”. Outros cientistas ganharam o Nobel e ficaram muito famosos por muito menos que isso, o que já deixa esta sensação de injustiça. Lembro quando desenvolvia minha Tese de Doutorado no Instituto Oswaldo Cruz, que por vezes, em seminários e palestras foram mostradas algumas iniciativas de pesquisadores brasileiros de conseguir junto a Comissão do Prêmio Nobel, que esta história fosse revisitada e que a brilhante descoberta de Carlos Chagas, mesmo que com mais de um século de atraso, fosse enfim – de forma justíssima – premiada com a maior láurea da Ciência Mundial, o Prêmio Nobel.  Que possamos comemorar todos isso em breve!
   
Até a próxima!"


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Quantos Prêmios Nobel o Brasil Tem?"


Mais uma quarta feira e mais um exemplar da coluna "Formaturas, Batizados e Afins", assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas. O tema de hoje é a primeira parte de uma coluna sobre o Prêmio Nobel, que deve ter os vencedores em sua versão 2010 anunciados proximamente.

Consideraria que o Presidente Lula possui chances bastante representativas de ser agraciado com o Nobel da Paz este ano, pelos esforços na redução da pobreza e na promoção da paz.

Vamos ao texto, que terá sua segunda parte publicada na coluna do dia 06 de Outubro.

"Quantos Prêmios Nobel o Brasil tem?

Caros amigos,

Ainda embalado pelo centenário de Carlos Chagas Filho (tema de nossa última coluna), e aproveitando um assunto comentado pelo amigo Pedro Migão em troca de e-mails trago hoje este tema que, aposto, a ampla maioria de nossa população sequer sabe do que se trata.

Brasileiro dá importância para ganhar a Copa do Mundo, a Copa América, medalha de ouro em Olimpíada...até para ver o Oscar – prêmio máximo do cinema - muita gente ficou acordado até de madrugada torcendo para “Central do Brasil” e para Fernanda Montenegro. Sabemos que o Brasil é Pentacampeão Mundial de Futebol...sabemos que Ayrton Senna, Nélson Piquet e Emerson Fittipaldi foram campeões na Fórmula 1...mas, o que sabemos de Brasileiros e o Prêmio Nobel??

Alguém sabe responder a pergunta que dá título para a nossa coluna quinzenal? Alguém sabe o que é, e o que representa o Prêmio Nobel? Vamos buscar na história não apenas a origem desta importante premiação como também vamos relembrar uma das maiores injustiças já vistas nesse mundo.

O que é o Prêmio Nobel?

Em 1833, nasce na Suécia Alfred Nobel (foto acima), filho de um casal de engenheiros que já vinham de famílias de pesquisadores e inventores importantes naquele século. Nobel foi educado na Rússia e teve grande sucesso em sua vida acadêmica e profissional tornando-se um homem muito rico. Sua riqueza veio de inúmeros inventos e descobertas, algumas célebres como a descoberta da dinamite em 1866. Detentor de mais de 350 patentes, criou empresas e laboratórios em quase 20 países. Também atuou na literatura escrevendo poesias e dramas, o que o fez cogitar se tornar um escritor. Idealista e consciente dos perigos que envolviam os usos indevidos de sua principal invenção sempre apoiou os movimentos em prol da paz.

Dono de um gigantesco império industrial, Nobel deixou, ao falecer em 1896, uma grande fortuna destinada à criação de uma Fundação que deveria financiar, anualmente, cinco grandes prêmios internacionais. Dentre esses prêmios, quatro deveriam destinar-se àqueles que se destacassem em suas descobertas nas áreas da Física, Química, Medicina e Literatura. Seu testamento especificava também um prêmio para quem mais se empenhasse em prol da paz e da amizade entre as nações. Mais tarde, já em 1969, foi criada mais uma categoria para este importante prêmio, a das Ciências Econômicas.

Todos os anos em 10 de dezembro (dia do aniversário da morte de Nobel), desde 1901, ocorre a cerimônia de premiação que é realizada em Oslo, Noruega, e em Estocolmo, Suécia. Várias instituições participam da escolha dos premiados, entre as quais: a Academia Real de Ciências da Suécia para a Física, Química e Economia; a Academia de Literatura da Suécia; e o Comitê Nobel da Noruega, este último responsável pela entrega do Prêmio Nobel da Paz. Anualmente, cada comitê manda convites aos meios científicos de vários países, pedindo-lhes para nomear seus eventuais candidatos. As nomeações são recebidas pelos comitês e, depois de serem estudadas e analisadas por especialistas, são transmitidas às instituições que votam para escolher os vencedores. Os escolhidos recebem uma medalha de ouro com a efígie de Alfred Nobel, gravada com o seu nome, um diploma e um prêmio em dinheiro (da ordem de 1 milhão de dólares). Mais do que qualquer coisa, o escolhido coloca seu nome na história e passa a ser considerado uma referência mundial naquele determinado campo de atuação.

Entretanto, apesar de toda filosofia e idéia de Nobel ser muito bonita e nobre, sabe-se que nem sempre estas decisões são unânimes, e mais ainda, que em alguns casos, grandes injustiças acontecem. É mais ou menos como no caso do Oscar para os filmes, atores, atrizes, diretores, etc. Todos os anos temos algum tipo de inconformismo com as premiações. Claro, com o Nobel também acontecem os inconformismos. Um é bem recente, que foi a escolha de Barack Obama como Prêmio Nobel da Paz em 2009, sem ter ele feito na prática, nada que fosse em direção da paz.

Mas afinal, quantos Prêmios Nobel o Brasil tem?

Para aqueles mais curiosos e interessados no assunto, o site oficial do Prêmio é este: http://nobelprize.org/nobel_prizes/

Aí encontrarão tudo sobre a história e todos os laureados em cada categoria de todos os anos. Aqueles que consultarem estas listas, verão com tristeza que o Brasil não tem nenhum Prêmio Nobel. Seja nas ciências, seja na literatura, seja nas ações de promover a paz mundial, apesar de algumas indicações de brasileiros.

Não vamos comparar o Brasil com os países mais desenvolvidos como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Japão, França...enfim, mas é estranho saber que nós não temos nenhum prêmio enquanto países de nosso porte, como a Índia, e de porte inferior economicamente falando já tem em seus quadros Nobelistas. Apenas para uma comparação, aproveito a rivalidade no futebol entre Brasil e Argentina. Trazendo a rivalidade para o Prêmio Nobel, o Brasil perde de incríveis 7 x 0 para a Argentina!! Ou seja, nosso “hermanos”, vizinhos da América do Sul, tem 7 nobelistas. E não é só a Argentina. A Colômbia, o Uruguay, o Chile...todos tem seus premiados...mas o Brasil...nada.

E o que há de ruim nisso? Isto reflete uma distorção histórica que meio que determina que no nosso País nada que se faz em uma destas áreas pode ser considerado assunto de ponta. Isso empurra para baixo as Universidades brasileiras no ranking mundial das melhores instituições de ensino, dentre outros aspectos negativos que repercutem com essa falta de um Nobel para o Brasil.

Desde sua primeira edição em 1901 até 2009, 537 prêmios foram concedidos. Em alguns poucos anos, não houve cerimônia de entrega ou não foram divulgados os candidatos e/ou os ganhadores. Este tipo de situação ocorreu por conta das duas grandes guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945, respectivamente), o que pode ser considerada uma causa justa, mas também já ocorreu por outros motivos; contemplados em um item do estatuto do prêmio que diz literalmente: "If none of the works under consideration is found to be of the importance indicated in the first paragraph, the prize money shall be reserved until the following year. If, even then, the prize cannot be awarded, the amount shall be added to the Foundation's restricted funds." Ou seja, dentre os indicados pode acontecer dos membros das Academias que escolhem os vencedores interpretarem que não existe mérito suficiente para esta honraria, e aí simplesmente o prêmio não é concedido. Isto aconteceu em cinquenta ocasiões, de acordo com a lista abaixo:

Física: 1916, 1931, 1934, 1940, 1941, 1942
Química: 1916, 1917, 1919, 1924, 1933, 1940, 1941, 1942
Medicina: 1915, 1916, 1917, 1918, 1921, 1925, 1940, 1941, 1942
Literatura: 1914, 1918, 1935, 1940, 1941, 1942, 1943
Paz: 1914, 1915, 1916, 1917, 1918, 1923, 1924, 1928, 1932, 1939, 1940, 1941, 1942, 1943, 1948, 1955, 1956, 1966, 1967, 1972
Economia: -

Na nossa próxima coluna, darei seguimento a este tema apresentando alguns casos emblemáticos de brasileiros que deveriam ter sido ganhadores do Prêmio Nobel, mas que por motivos as vezes não muito claros, não tiveram em seus curriculuns esta máxima premiação e este merecido reconhecimento.

Até a próxima
Marcelo Einicker Lamas"