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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Made in USA - "Guia dos Playoffs - NFL"


Nesta quarta feira, a coluna "Made in USA", do advogado Rafael Rafic, coloca as possibilidades de ida aos playoffs da NFL, a liga de futebol americano. Neste domingo se realiza a última rodada da temporada regular e estarão definidos os times que seguem na competição.

Apesar das possibilidades remotas demonstradas pelo colunista, na minha opinião o New York Giants (acima), equipe atual campeã e pela qual torço, está fora. O time pagou por uma péssima segunda metade da temporada, bem como alguns deslizes fatais e excesso de contusões.

A bipolaridade da equipe é assustadora, capaz de "amassar" 49ers e Packers e levar de zero do Atlanta. Talvez a equipe precise trocar de técnico, a meu ver.

Passemos à coluna.

Guia dos Playoffs - NFL

Com o fim do ano, também chega o fim da temporada regular do Futebol Americano e é justamente para acompanhar a última semana de jogos antes dos playoffs nesse final de semana antecedente ao ano-novo é que criei esse guia rápido, resumindo para que cada time luta nessa última semana.

Para quem ainda não sabe, a NFL (liga de futebol americano) é dividida em duas conferências. Cada conferência por sua vez é dividida em quatro divisões (norte, sul, leste e oeste). Os campeões de cada divisão,k além dos dois outros melhores times dentro da conferência (os wild-cards) se classificam para os playoffs, que começam em 05 de janeiro.

O interessante da última NFL é que quase sempre, mesmo para os times já classificados, tem algo para o qual se lutar. Quanto melhor a posição do time dentro da conferência, mais benefícios ele tem.

Basicamente se disputa inicialmente para ter vantagem de mando de campo para todo o playoff (dado para o campeão de divisão com melhor campanha em cada conferência), pelo bye na primeira rodada dos playoffs (dado aos 2 melhores campeões de divisão em cada conferência), pelo título da divisão (que dá além da vaga nos playoffs, mando de campo apenas no primeiro jogo dos playoffs) e pelo wild-card (as últimas vagas disponíveis para os playoffs).

[N.do.E.: isto é uma vantagem relativa: na temporada passada os Giants fizeram apenas um jogo em casa nos playoffs. Deu no que deu, o título.]

Vamos então ao resumo do que cada time disputa nessa semana 17 da NFL.

Conferência Americana (AFC)

Mando de campo total

Houston Texans: apesar de empatado com o Broncos com 12V e 3D, o Texans ganhou o confronto direto na Semana 3 e por isso só depende de si para garantir o mando de campo total na AFC: basta ganhar do Indianápolis Colts, fora de casa. O problema é que o Colts está muito bem, mesmo sem Peyton Manning, e tem 10V e 5D. O ponto positivo para o Texans é que o Colts não almeja nada na semana 17 e deve descansar o time para o primeiro jogo dos playoffs.

Se perder, ainda pode torcer pelas derrotas de Broncos e Patriots (abaixo) que ainda sim ficaria com o Mando de Campo Total. Se apenas um dos dois perder, ainda fica com o segundo bye na primeira rodada. Mas se o Texans perder e Broncos e Patriots ganharem, nem bye terá: terá que se contentar somente com o título de divisão.

Denver Broncos: basicamente tem que torcer pela derrota do Houston Texans. Além disso tem que ganhar seu próprio jogo, mas enfrentando em casa o pior time do ano na NFL, o Kansas City Chiefs (2V 13D), isso não deverá ser difícil.

Se por um acaso conseguir a façanha de perder para o Chiefs, não terá qualquer chance de mando de campo total e ainda terá que torcer pela derrota do Patriots para não perder o segundo bye na primeira rodada.

New England Patriots: precisa vencer seu jogo em casa contra o Miami Dolphins, freguês de carteirinha do Patriots, e torcer para as derrotas de Texans e Broncos. Se só um dos dois perder, ainda terá o segundo bye na primeira rodada.

Se perder para o Dolphins, terá que se contentar com o título da divisão.

Segundo Bye na Primeira Rodada

Os dois byes estão sendo disputados por Texans, Broncos e Patriots, como já explicado acima.

Títulos de Divisão

AFC East: já garantido pelo New England Patriots
AFC North: já garantido pelo Baltimore Ravens
AFC South: já garantido pelo Houston Texans
AFC West: já garantido pelo Denver Broncos

1° Wild-Card

Já garantido pelo Indianápolis Colts

2° Wild-Card

Já garantido pelo Cincinnati Bengals (para mim candidatíssimo à derrota na primeira rodada dos playoffs).

Conferência Nacional

Mando de campo total

Já garantido pelo Atlanta Falcons (alias, apesar de ter a melhor campanha com 13V e 2D, teve jogos muito fáceis e é outra aposta minha para perder em seu primeiro jogo nos playoffs).

Segundo Bye na Primeira Rodada

Green Bay Packers: com a derrota do 49ers no último domingo de madrugada, os Packers tornaram-se senhores de si: basta ganhar seu jogo contra o Vikings, fora de casa. Seria um jogo tranqüilo, não fosse a forte rivalidade entre os dois times.

Se perder ainda pode torcer pela derrota do 49ers, que manterá o direito do bye.

San Francisco 49ers: precisa ganhar do Arizona Cardinals em casa e torcer pela derrota do Green Bay Packers para ficar com o bye.

Se perder, além de não ter chances de bye, precisa se preocupar com o título de divisão (detalhes abaixo).

Seattle Seahawks: precisa ganhar em casa do Saint Louis Rams e torcer por derrotas de Packers e 49ers.
Se perder, será automaticamente Wild-Card.

Títulos de divisão.

NFC East:

Washington Redskins: fará um confronto direto em casa contra o seu adversário direto, o Dallas Cowboys. Quem ganhar levará a divisão no jogo, que será às 23 horas do próximo domingo, com transmissão da ESPN. Caso o Redskins perca, na verdade empata com o Cowboys, mas o desempate é favorável ao Dallas.

Se perder ainda terá chances de ser o segundo Wild-Card, se o Vikings e o Bears perderem (abaixo)

Dallas Cowboys: como dito, decidirá a divisão em campo contra o Redskins fora de casa.

Porém, diferentemente do Redskins, a derrota significará o fim de qualquer chance de classificação aos playoffs.

NFC North: já garantido pelo Green Bay Packers
NFC South: já garantido pelo Atlanta Falcons

NFC West:

San Francisco 49ers: só precisa de si: basta  ganhar o Arizona Cardinals (5V e 10D) em casa.

Se perder, precisa torcer para a derrota do Seahawks para ficar com o título da divisão. Caso contrário será apenas Wild-Card

Seattle Seahawks: precisa ganhar em casa do Saint Louis Rams (7V 7D 1E) e torcer para 49ers perder.

Se perder, será apenas Wild-Card.

Primeiro Wild-Card

Já garantido pelo Seattle Seahawks ou San Francisco 49ers: quem perder a NFC West.

Segundo Wild-Card

Minnesota Vikings: só depende de si: basta ganhar em casa o Green Bay Packers. O problema é derrotar o Packers, que ainda estará lutando pelo segundo bye. Jogo bem complicado para o Vikings.

Se perder, precisa torcer pelas derrotas de Bears, Cowboys e Giants para ficar com a vaga.

Chcago Bears: precisa vencer fora de casa o Detroit Lions (Bears é bastante favorito) e torcer pela derrota do Minessota Vikings.

Se perder, estará fora dos playoffs.

New York Giants: como sempre, Giants irá para a última rodada precisando de um milagre para se classificar aos playoffs. O problema é que, se deixarem classificar, como é um time de chegada, já vira postulante ao título. Foi exatamente após um milagre de última rodada que o Giants se classificou ano passado - e no final levou o título.

Mas para se classificar, antes de tudo, o Giants precisa fazer a sua lição e ganhar em casa do saco-de-pancadas Philadelphia Eagles. Além disso, precisa torcer pelas derrotas de Vikings, Bears e Cowboys. Se qualquer um desses três ganhar, o Giants estará eliminado.

É claro que se o Giants perder estará automaticamente eliminado.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Made in USA - "Milagre Verde e Amarelo"


Nesta segunda feira, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, conta a história de um pequeno milagre esportivo brasileiro: a classificação da seleção de baseball para o Mundial da categoria.

Milagre Verde e Amarelo

Estava planejando tirar umas férias em dezembro e só voltar a escrever para o blog entre o Natal e o ano-novo, por causa do xadrez.

Porém tive que arrumar tempo (arranjado em mais uma nota triste produzida pela presidência da Portela) para escrever esta coluna sobre a heróica e inédita classificação da seleção brasileira de baseball para o World Baseball Classic de 2013 (WBC, ou Mundial de Baseball, como preferirem).

Admito que é um orgulho pessoal enorme ver a seleção do meu país, sem tradição, brilhar no esporte que é minha paixão.

Mas antes, preciso explicar exatamente o que é o WBC e porque, apesar do Brasil já ter jogado as Copas do Mundo de baseball de 2003 e 2005, essa classificação está sendo tratada como inédita.

Historicamente os jogadores da Major League Baseball (MLB), a liga americana, nunca jogavam pelas seleções de seus países. A MLB não é vinculada de qualquer forma a Federação Internacional de Baseball (IBAF) e se recusava a ceder os jogadores para as competições internacionais tais, como Jogos Olímpicos e copa do mundo de baseball.

Assim, os times que participavam dessas competições invariavelmente eram bastante inferiores aos times da MLB, pois só jogavam amadores. Ou, no caso dos EUA e do Canadá, jogadores universitários, em uma época que os bons jogadores nem na universidade entravam.

Resultado: não bastasse a copa do mundo ficar esvaziada, países tradicionalíssimos do esporte, como a Republica Dominicana, não participavam porque simplesmente não tinha jogadores fora da MLB para isso. Cuba, com seu regime de proibição de saídas, mantinha um timaço amador que ganhou 11 das últimas 15 copas do mundo e foi vice em outras três. Na restante Cuba se recusou a jogar, pois ocorreu na Coréia do Sul.

Porém o baseball foi cortado dos Jogos Olímpicos em 2005, justamente sob a justificativa que não fazia sentido manter um esporte que não enviava seus melhores jogadores para os Jogos.

Então se criou uma pressão muito forte da imprensa americana em cima da MLB para que fizesse alguma coisa e ajudasse o baseball, esporte queridinho dos americanos WASP (brancos, anglo-saxões e protestante) nos Jogos, em sua tentativa de voltar ao programa olímpico (ainda sem sucesso).

Como Bud Selig, comissário da MLB (parecido com um presidente), adora “jogar para a galera” (abordei isso na primeira Made in USA que escrevi) e não podia liberar seus jogadores para os Jogos Olímpicos, já que os calendários coincidem e 90% dos jogadores seriam pegos no rigoroso exame anti-doping, ele resolveu criar um torneio internacional a ser jogado na pré-temporada do baseball americano com os jogadores da MLB.

Esse torneio foi o WBC.

Inicialmente o WBC recebeu a chancela da IBAF, mas não recebeu o título de “mundial de baseball”, pois o torneio convidava 16 times ao bel prazer da MLB, sem qualquer democracia.

Nesses moldes o WBC em suas duas primeiras edições, 2006 e 2009 (ambas vencidas pelo Japão) coexistiu com a Copa do Mundo de baseball “amador”. O campeão deste último era reconhecido como campeão mundial.

Até que após um acordo ocorrido em 2012, a IBAF extinguiu a Copa do Mundo e passou a reconhecer o WBC como o “mundial de baseball”. Em troca a MLB aumentou o número de países participantes do WBC. Foi nessa expansão que o Brasil conseguiu entrar.

Para o WBC de 2013, os 12 melhores times de 2009 foram classificados diretamente, sendo as últimas 4 vagas decididas em 4 eliminatórias diferentes, cada uma com 4 times - e 1 vaga para o WBC.

Por ser um mercado que a MLB vê com bons olhos para uma expansão mercadológica, aproveitando a repercussão do futebol americano aqui e a estréia do Yan Gomes, primeiro brasileiro a jogar na MLB (ocorrida nesse ano), o Brasil foi convidado a jogar as eliminatórias.

Diga-se de passagem: não foi apenas por isso que o Brasil foi chamado. Nós ocupamos o 28° lugar no ranking mundial e em um WBC expandido para 30 times, tínhamos todo o direito de pleitear uma vaga, nem que fosse apenas para participar.

Os 16 times que participaram das qualificações foram divididos de acordo com sua localização geográfica. Isso sempre nos complicou porque participamos do continente mais forte do esporte, com pelo menos nove equipes de porte mundial. Apenas como comparação, a Ásia, segundo continente mais forte, só tem três equipes de expressão.

Por isso o Brasil foi alocado na eliminatória da América do Sul, a ser realizada na Cidade do Panamá, enfrentando a potência anfritriã, o ótimo time da Colômbia e o time tradicional da Nicarágua.

A forma de disputa foi um ‘mata-mata’ de dupla eliminação. Ou seja, o time que perde cai para uma repescagem e pode eventualmente voltar à final. No WBC, o jogo final é único e mesmo o time que chega invicto não tem direito a uma derrota.

Apesar do excelente trabalho que o técnico do Brasil, Barry Larkin - grande jogador americano na posição de defesa mais técnica no baseball, o shortstop e selecionado para o Hall da Fama em julho - vem fazendo nos últimos três anos, o Brasil era o azarão e favoritíssimo a ser o primeiro time a ser eliminado.

[N.do.E.: o técnico era comentarista de uma rede de televisão e treinou de graça a seleção brasileira.]

A estréia já foi justamente contra o favorito Panamá, que contava em sua escalação com 5 jogadores da MLB, entre eles o ídolo Carlos Lee, além de 2 jogadores recém-aposentados. Eles ainda estavam desfalcados do maior arremessador fechador (closer) da história do esporte (e meu grande ídolo) Mariano Rivera, que está lesionado desde maio e só volta em abril.

O Brasil fez um jogo difícil, extremamente defensivo e os arremessadores reservas souberam levar muito bem um jogo apertado até o final. Assim se concretizou uma vitória de virada: 3x2. Destaque para o nosso fechador Thyago Vieira.

Alias, um parênteses. O Thyago pode ser posto na conta do técnico Barry Larkin, que percebeu que os nervos de aço (essenciais para um closer) e o repertório de arremessos do garoto eram perfeitos para a posição. Ninguém aqui tinha reparado isso.

Assim já começamos surpreendendo o mundinho do baseball indo para a semifinal e jogando o Panamá para a repescagem contra a Nicarágua, que levou uma pancada da Colômbia de 8 a 1.

Na semifinal enfrentamos a Colômbia e seus três jogadores da MLB, além do ídolo Edgar Renteria, aposentado da MLB ano passado mas que continua jogando localmente. Com atuações sólidas dos arremessadores Nakaoshi e Yoshimura, além de um trabalho de formiguinha muitíssimo bem feito pelo ataque (no jargão correto do baseball, é um jogo de “small ball”) o Brasil ganhou com certa folga de 7 a 1.

Apesar do placar alto, o Brasil não jogou com fortes rebatidas, mas com 11 pequenas rebatidas (e outras jogadas interessantes) ocorridas nos momentos precisos. Só como comparação: a Colômbia terminou com as mesmas 11.

Com a vitória o Brasil foi à final enfrentar de novo o Panamá, que derrotou Nicarágua e Colômbia na repescagem. Jogo único. A vitória de qualquer time daria a ele vaga no WBC.

Jogo complicado mais uma vez. Mesmo o Brasil rebatendo bem, foram 10 rebatidas, dessa vez o time falhava na hora de marcar e só fez uma corrida, feita em uma rebatida simples justamente do Yan Gomes ainda no começo do jogo.

Nossa sorte foi a atuação soberba do nosso arremessador titular, Rafael Fernandes, que em uma longa atuação de seis innings (tempos de jogo), só sofreu duas rebatidas e segurou o 1 a 0 na marra.

Rafael saiu e o time continuou bem até o nono inning, a última chance do Panamá de marcar pontos. Porém no 9th, o Panamá rapidamente colocou um corredor na terceira base (última antes de marcar ponto) e quem vinha ao bastão era justamente Carlos Lee.

Thyago fez um longo duelo quase perfeito com o craque e o eliminou pela via mais segura, o strikeout, sem deixar o corredor da terceira base avançar. Depois ele repetiu a dose contra Ruben Rivera (outro jogador da MLB) e o Brasil estava classificado para o WBC pela primeira vez. Surpresa para o mundo do baseball e um milagre em verde e amarelo.

Não pude ver os jogos ao vivo, já que a ESPN comprou os direitos, não transmitiu e ainda bloqueou a transmissão da MLB para o Brasil via internet. Mas o baseball é um esporte muito estatístico: então posso fazer uma boa avaliação do andamento com o jogo pelos números e pelo que conheço da seleção.

Resumo que o grande mérito de Barry Larkin na seleção foi mudar a filosofia dos nossos jogadores e mostrar que não temos a potência e a explosão que os países tradicionais do baseball têm; mas temos jovialidade, velocidade e habilidade.

Ou seja, um time como o Brasil não pode tentar jogar como os USA, Cuba ou a República Dominicana e tentar isolar a bolinha para fora do estádio (o famoso home-run), fazendo muitos pontos em pouco tempo.

Tem que fazer um trabalho rebatida a rebatida, base a base, marcando poucas corridas, mas em várias oportunidades. Gostei bastante de como os jogadores absorveram rápido essa forma de jogar e a implementaram bem, especialmente nos dois primeiros jogos.

Mas o principal foi dar uma atenção especial aos arremessos à defesa. Esse é o ponto fundamental do baseball: se seu grupo de arremessadores (pitchers) e sua defesa não cedem ponto, você não perde um jogo de baseball, pois não há empates.

Mas o Brasil teimava em negligenciá-los, principalmente os pitchers. Larkin soube instruir os técnicos brasileiros a desenvolverem corretamente arremessadores e eles estão surgindo, principalmente o Rafael e o Thyago.

Ainda temos o Luis Gohara, que só tem 16 anos mas é uma enorme promessa. Muito talentoso e com um ‘foguete’ nas mãos, já foi contratado por um time da MLB, o Seattle Mariners, para treinar nos times de base e em 4 ou 5 anos subir para o time principal. Só não foi contratado antes porque a MLB exige a idade mínima de 16 anos.

Como disse o próprio Larkin na coletiva pós-classificação: “o futuro deste país no baseball é brilhante”.

O caminho está sendo bem trilhado e, acho que só não temos mais jogadores na MLB porque quem já está estabilizado no Japão não quer vir para os EUA para ficar em times de base.

Para o WBC de 2013, mais uma vez o critério geográfico seria aplicado e o Brasil cairia no grupo C, o do Caribe, que foi apelidado de grupo da Morte.

Entretanto, neste domingo a MLB anunciou que o Brasil trocará de Grupo com a Espanha, sendo assim o Brasil ficará no Grupo A, junto com o anfitrião Japão, Cuba e China.

Junto com o anúncio da troca, foi divulgada a tabela dos jogos, seguem abaixo os jogos do Brasil, com os horários de Brasília, fornecidos pela Confederação Brasileira de Baseball e Softball (www.cbbs.com.br):

02 de março (sábado) – 8h: Japão x Brasil
03 de março (domingo) – 13h: Cuba x Brasil
05 de Março (3ª feira) – 6:30h: China x Brasil

A estréia contra o Japão é complicadíssima. Japão é o atual bi-campeão do WBC e tem um time muito bom e linear, com um estilo igual ao nosso de jogar baseball. Uma derrota de pouco já será lucro.

O jogo contra Cuba será igualmente difícil, já que mesmo sem nenhum jogador da MLB, esse time é o time amador que dominar o baseball internacional há 20 anos. Porém, já surpreendemos esse time em 2005 e só perdemos de virada no final por causa de nervos. Ainda sim, Cuba é ampla favorita.

Agora, contra a China e com os jogadores da MLB (e ligas menores americanas), viramos razoavelmente favoritos. É nesse último jogo que temos que concentrar todos os esforços para ganhar e, ficando em 3° no grupo, garantir a vaga direta para o WBC de 2017. Alias, a China nunca teve um jogador na MLB.

Por fim, também nessa semana saiu um novo ranking da Federação Internacional de Baseball. Com a vitória surpreendente na qualificação do WBC, o Brasil saltou de 28° para 20° no ranking mundial e finalmente passou a Argentina (que também subiu de 26° para 22°). Como a China é a 19ª, uma eventual vitória brasileira também garantirá mais esse posto no ranking."

Quem sabe? Não disseram que o Panamá era intransponível?

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Made in USA - "Eleições Americanas: pesquisas, resultados e estranhezas"



Nesta segunda feira, véspera de mais um feriado no Rio de Janeiro – embora eu esteja trabalhando, uma vez mais – a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, comenta como chegou à perfeita previsão das eleições americanas (chegando a acertar o número exato de delegados que cada candidato teria), feita aqui neste blog respectivamente dias 24 e 25 de outubro passados.

Além disso, o colunista tece críticas à imprensa local e manifesta estranheza quanto à divulgação de resultados das eleições.

Eleições Americanas: pesquisas, resultados e estranhezas

Depois de lançar em primeira mão no Ouro de Tolo os nomes de Arthur Zanetti e de Yane Marques como possíveis medalhistas olímpicos, o que se confirmou, fico muito feliz de dizer que mais uma vez antecipei ao leitor deste blog uma notícia: a do resultado da eleição presidencial americana.

Exatamente como previ aqui, Obama ganhou de Romney pelo placar de 332 x 206 no colégio eleitoral. Acertamos também o resultado em todos os cinqüenta estados americanos - inclusive os nove “campos de batalha” que, segundo a imprensa americana, estavam indefinidos.

O mais impressionante, até para mim, foi a acurácia em prever os cenários eleitorais e as diferenças de voto entre os dois candidatos. Todos os nove cenários previstos anteriormente nos “campos de batalha” anteriormente ‘foram na mosca’.

Mas como se conseguiu isso?

Sou um grande matemático que criou um programa que consegue prever o resultado das eleições?

Claro que não. Se fosse isso já estaria divulgando meu programa e vendendo vários exemplares de um livro, tal qual o Nate Silver (colunista matemático do The New York Times), que se vangloria de ter criado um software que consegue prever os resultados de cada estado americano. Ele fez isso em 2008 e repetiu a dose em 2012.

Não obstante, agora ele afirma que esse software é a Pedra de Roseta para o mundo e contem soluções para coisas completamente diferentes. Até a escolha de jogadores para o baseball e para o futebol americano.

Sou um grande analista político, um talento que a CNN está desperdiçando? Também não, apesar de adorar fazer essas análises amadoras como hobby.

Então eu apenas tive uma sorte absurda e por sorte acertei tudo? Também não.

Apenas se analisaram números, combinados com meu conhecimento das características do pensamento de cada estado. E o principal: não menti aos meus leitores sobre o que vi, tentando criar um clima de indefinição apenas para vender jornais e obter audiência.

Para explicar, mostrarei como se chegou a cada um dos prognósticos dados. Mas antes, preciso explicar dois pressupostos das análises.

Primeiro: com a exceção de New Hampshire, todos os estados ditos “indefinidos” tinham milhares de pesquisas de opinião de institutos diversos (neutros, pró-republicanos e pró-democratas) que cobriam, semana a semana, um período de 2 a 3 meses.

Segundo: as pesquisas nacionais de intenção de voto (aquelas tão propaladas que davam os famosos 48% x 48%, 47% x 47%) quase nada ajudam no estilo de eleição americana. O que realmente importa é saber quem irá ganhar em cada estado. No máximo essas pesquisas conseguem captar alguma mudança mais profunda em todo o país que, às vezes, ajudam a entender uma mudança de cenário repentina em certos estados.

Esse último pressuposto é do conhecimento geral de todos analistas americanos. Então, por que eles dão tanta ênfase a essas pesquisas nacionais? Não sei.

Mas foi justamente essa ênfase que não os deixaram enxergar o óbvio: a vitória de Obama em momento algum após o segundo debate esteve sob perigo.

Por que se diz isto com tanta certeza? Vamos à análise estado por estado.

Para começar, o mais fácil: Iowa. Todas as pesquisas lá após o terceiro debate davam uma vantagem tranqüila para Obama: entre 6 a 8%. A margem de erro das pesquisas era, em média, de 6,6%.

Não foram uma ou duas pesquisas que apontaram isso, mas nove. As TVs americanas não previram esse estado antes por duas hipóteses: puro excesso de cautela ou apenas de propósito, para manter a aura de indefinição da eleição. A CNN até parecia indicar que mudaria seu mapa eleitoral na semana final para dar vitória de Obama em Iowa, mas as atenções se voltaram para o Furacão Sandy e nada foi feito.

Wisconsin também estava fácil. Todas as pesquisas apontavam Obama na frente. Algumas por muito pouco, outras fora da margem de erro até. Só que as pesquisas que indicavam uma corrida apertada eram de institutos historicamente pró-republicanos. Todos os neutros davam entre 51 a 53% para Obama.

Ou seja, era óbvio que Obama teria uma vitória tranqüila devido à “Regra Datafolha”. Esta é aquela que diz que ‘se no Datafolha Serra está perdendo de pouco é porque ele está perdendo de muito’.

No final deu Obama por tranqüilos 53% x 46%. Mais uma vez as TVs preferiram a via fácil da “indefinição” e não prestaram atenção ao pedigree dos institutos de pesquisa.

Em New Hampshire era necessário olhar para os arredores. Como eu disse, esse era o único estado com poucas pesquisas. Quando escrevi a coluna, só tinha uma, muito antiga, dando Obama na frente por absurdos 10%.

No dia anterior da coluna, já escrita, ir ao ar, saíram mais duas pesquisas de institutos respeitados, um dando apenas 2% de vantagem e outro 5% (ambos com margem de 6%). Mas não mudei de opinião e mantive firme minha crença em vitória fácil de Obama.

Como? Simples, na falta de pesquisas precisas, precisamos olhar dados periféricos relacionados.

Primeiro: quais são a história e demografia do estado? New Hampshire é um estado pequeno, de dois distritos. Era levemente democrata que nos últimos 25 anos deu uma leve guinada para a direta e se transformou em um estado indefinido.

Segundo: como estão as outras corridas eleitorais que ocorrem no estado? New Hampshire tinha um dado interessante, pelo qual mantive minha posição.

Nas duas disputas para o cargo de deputado, os democratas estavam tranquilamente na frente e ambas as candidatas eram mulheres. Para completar, o candidato democrata era pule de dez para ser o novo governador.

Se todos os outros candidatos democratas estão bem, sendo que as duas indicadas pelos democratas para a eleição de deputado eram mulheres (um eleitorado no qual Obama sempre foi bem), é altamente provável que Obama também esteja em boa posição no estado.

Dito e feito. No resultado final foram tranquilos 52% x 46%.

Não a toa, após o fechamento das urnas, esses três estados foram os primeiros “campo de batalha” a serem cravados pelas TVs americanas.

Elas não poderiam ter feito o que se fez neste blog e cravar esses três resultados antes até das eleições? Poderiam. Por que não fizeram? Porque tiraria a aura de indefinição da eleição.

Aí partimos para a famosa Ohio. Outro estado que estava apertado pelas pesquisas, e esse aperto era real, mas totalmente previsível também. Por quê? Justamente por sua mística, não faltavam pesquisas feitas em Ohio.

Tinham mais de 35 à minha disposição, com metodologias para todos os gostos. Mas todas as 35 concordavam que Obama estava entre 1 e 3% a frente.

Não precisa ser um matemático para saber que é praticamente impossível que todas as pesquisas, no meio de tantas e tão variadas, tenham errado exatamente da mesma forma a margem de erro.

A probabilidade de isso ocorrer é menor do que ganhar na mega-sena e só seria possível por algum erro metodológico demográfico geral, o que é sabido que, graças ao excelente censo americano, não existe.

Por isso se afirmou que Obama ganharia apertado, mas com uma folga razoável de 3%. No momento em que escrevo [N.do.E.: a coluna foi escrita no início da semana passada] o resultado está 50% x 48%, mas ainda faltam 10% dos votos a serem apurados e os faltantes, historicamente, são pró-democratas. Então, no final de tudo, devo acertar a margem de folga.

A mesmíssima metodologia que apliquei a Ohio foi utilizada em Nevada, sendo que lá eu sabia que Obama teria um apoio maior na região de Las Vegas. Dito e feito.

Ela também foi aplicada, em partes, em North Carolina para prever vitória de Romney. Aqui todas as pesquisas davam vantagem de exatamente 1% para Romney. Junte-se esse resultado com o histórico altamente republicano do estado e ficava fácil cravar uma vitória republicana aqui.

Como consolo, fica registrado que pelo menos em North Carolina a CNN (sozinha) previu a vitória de Romney com quatro dias de antecedência.

Colorado, Virginia e Flórida estavam mais difíceis e eram os únicos estados (junto com Ohio até) que realmente se aceitava a pecha de “indefinidos”. Aqui realmente o que valeu mais para o acerto foi o “feeling”.

Em Colorado, percebia-se que o momento de Obama era melhor e a arregimentação de eleitores latinos estava a todo vapor.

Como em eleições apertadas momento é tudo, apostei em Obama. Ao final foi exatamente um comparecimento maior do que o esperado em Denver (onde Obama triturou por 73% x 24%) que fez Obama ganhar por tranqüilos, 51% x 47%.

Na Flórida, a disputa estava muito acirrada e este Ouro de Tolo acertou uma vez mais ao dizer que os republicanos iriam sonhar em recontagem, mas desistiriam ao ver que tinham perdido no resto do país. Foi exatamente o que ocorreu.

A eleição na Flórida mais uma vez foi uma bagunça e terminamos o dia seguinte da eleição sem saber ao certo quem ganhou lá. Porém para sorte de todos, o resultado da Flórida pouco importou.

Finalmente, 4 dias após o fim das eleições, pode-se asseverar a vitória de Obama por muito pouco a mais do que 0,5% (o máximo para haver recontagem). Os números neste momento não são finais, mas a diferença deve ficar em 0,55%.

Mais uma vez valeu o conhecimento do estado. Sabia que Obama para ganhar deveria ter mais do que 60% dos votos do condado de Miami-Dade, o maior do estado e forte reduto democrata. Como as pesquisas indicavam que Obama teria 63% dos votos lá, imaginava essa vitória pequeníssima de Obama por ter feito o dever de casa. Ao final teve 62%.

Na Virginia, sabia que graças a uma avalanche de votos nos subúrbios da capital Washington (que pertence a esse estado), Obama teria diferença folgada, de 3 a 6%. Ao fim, a “avalanche” não foi tão forte, ficou em 57% x 41%, mas o suficiente para dar a Obama os 3% de vantagem.

Por fim quero registrar um ponto que passou despercebido por todos, tanto nos EUA, quanto no Brasil.

Em todos os estados mais disputados dominados em nível estadual pelos republicanos (Ohio, Virginia, Wisconsin, Flórida e até a Pennsylvania), os votos das áreas de reduto de Obama demoraram demais para serem computados.

Não raro, eles só começaram a ser computados depois de terminada toda a apuração nas áreas interioranas, mais favoráveis a Romney. Assim, o republicano passou boa parte da apuração na frente nesses estados - para ser ultrapassado no final.

Em Wisconsin chegamos ao absurdo da CNN confirmar a vitória de Obama quando Romney ainda estava 1,5% a frente na apuração, tamanha foi a demora em se contabilizar a região de Milwaukee, reduto pró-Obama.

Em Virginia a coisa desandou de modo ainda mais vergonhoso. Com 75% das urnas já apuradas, ou seja, já bastante avançada, Romney estava 3% na frente.

Porém não havia entrado nem 10% dos votos dos tais subúrbios da capital. Quando eles entraram em peso, finalmente após 6h de encerrada a eleição, Obama virou rapidamente e com 90% apurados, ele já estava 1% na frente e a CNN estava pronta para decretar sua vitória.

O que me assustou é que quem conhece a história eleitoral brasileira sabe que foi exatamente esse tipo de manipulação que foi tentado aqui no Rio de Janeiro na eleição de 1982 para governador. O famoso “Caso Proconsult”.

Os votos da capital (que tinha mais da metade da população e era brizolista) não entravam de jeito nenhum, enquanto o interior (em tese de mais difícil apuração e mais tendente a Moreira Franco) praticamente já tinha encerrado a apuração.

De qualquer forma, se houve tentativa de manipulação, nem lá nem cá deu certo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Made in USA - "Eleições Americanas – Parte II"



No segundo texto da série sobre as eleições americanas, o colunista Rafael Rafic traça um panorama das eleições presidenciais americanas e arrisca alguns prognósticos.

Também escreverei post sobre o assunto mais perto do pleito, mas voltado à política externa – que, ao fim e ao cabo, é o que afeta diretamente a nós brasileiros.

Eleições Americanas – Parte II

Retomando a coluna de ontem, hoje falemos um pouco sobre o panorama eleitoral nos estados.

De modo geral, os estados são divididos em três grupos: os tradicionalmente republicanos, tradicionalmente democratas e os estados indefinidos (ou os ‘campos de batalha’, como os americanos gostam de chamar).

Por isso é que se diz que a eleição americana, apesar de ser nacional, na prática é localizada. Os candidatos não gastam tempo nem dinheiro em estados nos quais eles sabem que qualquer esforço não irá alterar os resultados. Com isso, as campanhas eleitorais acabam se concentrando em poucos (ou pouquíssimos) que são classificados como campos de batalha.

A classificação dos estados é fluída e de tempos em tempos muda de acordo com mudanças demográficas ou com resultados eleitorais totalmente inesperados. Mas são mudanças lentas, que demoram três ou quatro eleições para se concretizarem.

Como exemplo, tome-se o pequeno estado de Vermont. Até a década de 60, o estado era claramente republicano, tendo sido inclusive um dos dois únicos estados em que Franklin Roosevelt (D) perdeu na sua eleição consagradora de 1936. Aos poucos ele foi se “democratizando” e hoje é um dos estados mais ferrenhamente democratas.

Para essa eleição de 2012, o mapa eleitoral da CNN (quem quiser pode conferir aqui http://www.cnn.com/election/2012/ecalculator#) mostra que os estados que os democratas devem levar somam 238 delegados. Já os estados que os republicanos deverão levar somam 191 delegados.

Os estados que sobram serão os campos de batalha, com o número de delegados entre parênteses: Flórida (29), Ohio (18), North Carolina (15), Virginia (13), Wisconsin (10), Iowa (6), Colorado (9), Nevada (6) e New Hampshire (4).

Quem já acompanhou outras eleições americanas deve estar sentindo a falta da Pennsylvania na lista acima. Mas não foi uma omissão, é uma particularidade dessa eleição com esses candidatos.

A Pennsylvania é um estado rachado entre o leste liberal-citadino, bastante antenado com as posições modernas - sendo altamente democrata - e um oeste conservador-industrial, baseado fortemente na indústria de siderurgia e bastante republicano. Os dois eleitorados praticamente se equivalem e de quatro em quatro anos medem força para ver quem levará os seus 20 delegados.

Porém para esse ano temos uma particularidade. O candidato republicano Mitt Romney fez a vida comprando barato empresas em dificuldade, saneando-as, recuperando-as e depois as vendendo por um preço muito maior.

Em alguns casos, Romney chegava à conclusão de que as empresas eram simplesmente irrecuperáveis e decidia fechá-las, deixando todos seus funcionários desempregados.

Para azar de Romney, a maior parte das empresas que ele decidiu fechar foram justamente siderúrgicas do oeste da Pennsylvania, enfraquecendo o eleitorado dele no estado. É quase seguro dizer que Obama levará a Pennsylvania, retirando-a da condição de campo de batalha.

Já Ohio é o mais tradicional e mítico campo-de-batalha: o é desde que as eleições foram polarizadas entre republicanos e democratas. É um estado que praticamente serve de modelo demográfico para os EUA, tendo seus números muito parecidos com a distribuição nacional. Não a toa se diz que quem leva Ohio ganha a eleição.

O último presidente a sê-lo sem ganhar Ohio foi John Kennedy (D) em 1960. Nunca um republicano ganhou a eleição nacional perdendo em Ohio.

As eleições desse ano sempre estiveram indefinidas, por causa do peso dos estados campo de batalha, até o período das convenções. Logo após as convenções, Obama disparou com 10% de vantagem em quatro estados chaves: Ohio, Flórida, Virginia e Wisconsin. Esse resultado levaria a uma reeleição tranquilíssima para Obama, com 307 delegados garantidos.

Esse movimento foi até esperado tendo em visto o fracasso que foi a convenção republicana, com discursos insípidos, incolores e inodoros, tendo como único destaque o discurso da esposa de Romney (a única que passou veracidade em sua fala). Por outro lado a convenção democrata foi um sucesso retumbante, com discursos excelentes do casal Obama e um discurso histórico do ex-presidente Bill Clinton.

Eu até parei de acompanhar um pouco as pesquisas e já comecei a dizer aos quatro ventos que Obama seria reeleito sem dificuldades. A vantagem obtida nesses 4 estados era muito significativa para ser revertida por alguém que enfrenta o atual presidente. O problema é que eu não contava com o desastre da performance de Obama no primeiro  debate.

Obama foi patético em seu desempenho no primeiro debate: inseguro, sem dizer coisa com coisa e sem responder às provocações (baratas até) de Romney, que nunca foi um excelente debatedor. Isso fez a vantagem de Obama evaporar totalmente. Todos os 4 estados voltaram a ficar indefinidos.

No segundo debate, no último dia 16, Obama voltou ao seu estado habitual: fez um excelente debate e claramente ganhou a contenda. Mas o estrago do anterior já estava feito e a performance no segundo melhorou um pouco sua situação, mas já não faz nem sombra a grande vantagem de um mês e meio atrás.

Ainda falta o terceiro debate, que já ocorreu nesta última segunda, dia 22, porém como escrevo a coluna no final de semana, não sei seu resultado.

O debate será centrado em política externa. Tem tudo para ser uma lavada de Obama, que não só domina melhor o assunto do que Romney (que praticamente já declarou guerra ao Irã em um discurso ainda como candidato), como tem idéias mais lógicas e sensatas neste ponto.

De qualquer forma, será o último grande evento antes da eleição que poderá mudar significativamente a corrida. Se entrarmos novembro com estados indefinidos, estes deverão continuar indefinidos até a contagem dos votos.

A situação atualmente nos campos de batalha está a seguinte:

  • em Iowa as pesquisas convergem que Obama está com uma vantagem significativa de 6 a 8%. Já se começa a cravar vitória democrata.
  • Em Wisconsin há pesquisas com sinais trocados. Algumas dão clara vantagem a Obama, outras dão empate técnico. Porém as pesquisas que apontam liderança maior de Obama são de institutos que costumam acertar resultados com maior precisão. Por isso, timidamente também já se começa a cravar vitória de Obama. No fundo Wisconsin só virou campo de batalha porque o vice de Romney é oriundo desse estado; o estado é tradicionalmente levemente democrata.
  • Em New Hampshire, por ser um estado pequeno, não temos muitas pesquisas, mas as que tem dão vantagem tranqüila de 10% para Obama. É outro estado tradicionalmente democrata. Mas por causa de uma vitória de Bush em 2000 e uma vitória apertada democrata em 2004, convencionou-se a classificá-lo como campo de batalha. Obama também deve ganhar.
  • Em Ohio e em Nevada, apesar de ser uma diferença pequena, de 1% a 4%, todas as pesquisas indicam que Obama está à frente. Mas a situação ainda não está definida.
  • Na Virginia os números estão mudando tanto para tantos lados, que não há a menor condição de cravar alguma tendência.
  • No Colorado, na Flórida e em North Carolina, não há qualquer pesquisa que dê mais de 1% de vantagem para algum candidato. A situação está extremamente dividida e o resultado só deverá ser cravado em um estágio bastante avançado da apuração na madrugada do dia 7 de novembro.

Para finalizar, como não gosto de ficar em cima do muro, ficam meus palpites:

  • Em Iowa, Wisconsin e New Hampshire, como já apontam as pesquisas, ganha Obama.
  • Ohio e Virginia também serão de Obama com uma diferença segura de uns 3% ou até 6%.
  • Nevada será de Obama, de forma apertada, graças a uma avalanche de votos nos arredores de Las Vegas.
  • Colorado também será de Obama por uma diferença ínfima de votos. Isso ocorrerá graças ao excelente trabalho de recrutamento de eleitores porta-a-porta até as últimas horas que antecedem as eleições que os democratas estão fazendo em redutos latinos do estado.
  • Na Flórida, Obama ganha por uma diferença bastante pequena, o que levará os republicanos a pedir recontagem, tal qual o escândalo de 2000. Quando no raiar do dia 7 o quadro nacional mostrar a vitória clara de Obama, eles desistirão do direito de recontagem.
  • Em North Carolina, Romney leva por uma diferença pequena de votos. Na verdade, North Carolina sempre foi um estado fortemente republicano, só que Obama ganhou lá milagrosamente por míseros 0,33% dos votos em 2008, no que foi o maior “roubo” de estado dos últimos 12 ou 16 anos em eleições presidenciais americanas. Por isso ele foi classificado como campo de batalha para 2012.

Se meu quadro realmente se concretizar, Obama terá ganho o direito de escolher 332 (ou 333 dependendo do segundo distrito de Nebraska) delegados, contra apenas 206 (ou 205) de Romney em uma vitória bastante tranqüila.

Tudo que falei aqui nas últimas duas colunas não esgota meus comentários sobre as eleições americanas, mas admito que a coluna está longa demais e por isso paro por aqui.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Made in USA - "Eleições Americanas – Parte I"



Retornando após breve interregno para ver o Yankees ser eliminado de forma constrangedora no campeonato americano de beisebol, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, inicia uma série de duas colunas sobre o sistema eleitoral americano e as perspectivas para as eleições.

A segunda parte será publicada amanhã.

Eleições Americanas – Parte I

Com a eleição presidencial americana no dia 6 de novembro se aproximando, é chegada a hora dessa coluna dar seus pitacos sobre a situação da disputa entre o atual presidente Barack Obama, do Partido Democrata (D), que no Brasil seria de centro, talvez centro-esquerda e o desafiante Mitt Romney, do Partido Republicano (R), que no Brasil seria de direita, com núcleos de ultra-direita.

Mas antes de fazer meus comentários, preciso explicar como funciona o sistema americano de eleição presidencial, que é totalmente diferente do brasileiro.

Para começar: nos EUA, diferentemente do Brasil, a eleição é indireta. Ou seja, no dia 6 de novembro, Obama e Romney não disputarão exatamente o cargo de Presidente, mas apenas o direito de escolher os membros de um colégio eleitoral que irá se reunir em 17 de dezembro. Esse colégio é que ira decidir o novo presidente e o novo vice-presidente americanos.

O número de delegados que cada estado pode indicar para o Colégio Eleitoral é o número de deputados que o estado tem direito mais o número de senadores (sendo que todos os 50 estados tem direito a 2 senadores). Assim, o menor número de delegados que um estado pode ter é três (1 deputado + 2 senadores).

Não há um limite máximo de delegados alocados para um mesmo estado. Atualmente o estado com o maior número de delegados é a Califórnia, com 55. É seguido pelo Texas, com 38, Florida e New York, cada um com 29, Illinois e Pennsylvania, com 20 e Ohio com 18.

Atualmente a Câmara de Deputados americana tem 435 membros e o Senado 100. Porém são 538 delegados que compõem o Colégio Eleitoral, já que o distrito federal da capital, Washington, tem o direito de eleger três delegados, apesar de não se constituir como um estado - mas uma área especial sob administração direta federal. Quem conseguir mais de 50% dos delegados, ou seja, ser apontado por 270 delegados, será eleito presidente dos Estados Unidos.

Outro ponto em que os EUA são diferentes do Brasil é na organização das eleições. Aqui no Brasil temos um direito eleitoral legislado pela União, que vigora em todo país com regras únicas e um sistema jurídico-organizacional único, comandada na maior instância pelo TSE.

Já nos Estados Unidos, cada estado tem o direito de fazer suas próprias regras eleitorais e organizar suas eleições da forma como bem entender. Não há uma justiça eleitoral nacional, só há uma justiça eleitoral estadual (isso quando há, existem estados que nem tem justiça eleitoral alguma). No máximo eles precisam respeitar algumas normas gerais bem básicas, escritas na Constituição Americana e algumas leis federais bastante esparsas.

Sendo assim, cada estado também é livre para escolher a forma de alocação de seus delegados da forma como bem entender. É como se 50 eleições diferentes e simultâneas acontecessem, mas sem qualquer relação entre elas.

No final das contas, 48 estados adotam a mesmíssima regra para a alocação de delegados entre os diferentes candidatos: a “winner take all” (em português, “o vencedor leva tudo”).

Como o próprio nome já se auto-explica, essa regra é bem simples: não importa se a diferença foi de 1 voto ou de 1 milhão de votos, nem se ele conseguiu ou não 50% dos votos totais. O vencedor naquele estado tem o direito de escolher todos os delegados a que tem direito.

É justamente a distorção provocada por essa regra que permite matematicamente que um candidato menos votado nacionalmente consiga ganhar a votação no Colégio Eleitoral. Essa hipótese é bem rara: só ocorreu três vezes. Mas a última delas foi exatamente a estranha eleição de 2000, que elegeu George W. Bush para seu primeiro mandato. As outras duas ocorrências foram em 1876 - eleito Hayes (R), e em 1888, eleito Harrison (R).

Outro efeito indesejado dessa regra é que muitos estados pequenos acabam ficando de fora do circuito das campanhas justamente por sua insignificância, já que é mais fácil concentrar forças em poucos estados que concentram mais votos eleitorais.

Nas últimas três ou quatro eleições esse último efeito praticamente desapareceu. Seja pelo extremo acirramento das eleições, nas quais qualquer estado de três delegados pode fazer diferença; seja porque boa parte dos grandes estados tem seus resultados já estabilizados desde o início (explico melhor no início da próxima coluna).

Dois estados, Maine e Nebraska, utilizam uma forma diferente para decidir seus delegados: a proporcionalidade por distritos. Mas de proporcional essa fórmula só tem o nome. Na verdade ela se utiliza dos distritos congressionais do estado.

Para explicar essa fórmula, antes eu preciso explicar outra diferença do sistema eleitoral americano. Os EUA, mais uma vez diferentemente do Brasil, utilizam o voto distrital para eleger sua Câmara dos Deputados.

Ou seja, o estado é dividido geograficamente em um número de distritos igual ao número de deputados a que o estado tem direito e cada distrito escolhe um deputado em uma eleição majoritária (aquela simples, que quem tiver o maior número de votos ganha).

O sistema proporcional por distritos se utiliza exatamente dessa divisão por distritos. O mesmo distrito que elege um deputado dá direito a um delegado para o candidato a presidente que vencer dentro do distrito. Os dois votos equivalentes às duas cadeiras de senador do estado são dados ao candidato que tiver mais votos na soma de todos os distritos.

No Maine, um estado pequeno bastante homogêneo, que só tem dois distritos, essa regra é mais pró-forma do que prática. Desde que essa fórmula foi posta em prática o mesmo candidato ganhou nos dois distritos e levou todos os quatro delegados do estado, se igualando ao resultado da “winner take all”.

Porém no Nebraska essa regra pode fazer diferença. O estado tradicionalmente é republicano nato, mas seu segundo distrito fica encravado na cidade de Omaha e é dividido.

Em 2008 Obama conseguiu ganhar a eleição nesse distrito e levou um delegado de Nebraska. Os outros quatro delegados do estado foram para McCain. Para 2012, o segundo distrito está de novo dividido, mas os republicanos devem ganhá-lo graças a uma artimanha política que não dá para explicar em apenas 2 ou 3 linhas. Mas quem quiser se aprofundar, pode ir à Wikipédia em inglês e procurar pelo termo “gerrymandering”.

Tendo explicado (ou tentado explicar) o sistema americano, finalmente posso começar a tecer minhas considerações, o que farei amanhã para não alongar demais a coluna.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Made in USA - "Paguem as Zebras"




Excepcionalmente nesta terça feira, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, conta a enorme confusão ocorrida no início da temporada do futebol americano com a utilização de árbitros de várzea para suas partidas.

Paguem as Zebras

A Made in USA não poderia passar ao largo da polêmica que tomou conta das três primeiras semanas iniciais da temporada de futebol americano e hoje aborda mais uma trapalhada do comissário da NFL (algo próximo a um presidente), Roger Godell: a greve dos árbitros.

Os árbitros, assim como os jogadores, tem suas relações com a liga regidas por um contrato, profissional. O último contrato da associação de árbitros da NFL iria até o fim da temporada 2011-2012.

Como já se imaginava que seria uma negociação complicada, os árbitros estavam planejando usar uma cláusula contratual que possibilitaria a abertura de negociações um ano antes - ganhando tempo para se chegar a um acordo e evitar problemas.

Porém essa cláusula tornou-se inócua por causa da greve dos jogadores antes do início da temporada passada, que cancelou a negociação antecipada.

Eis que Roger Godell dá de novo o ar de sua (des)graça. Uma administração responsável e conciliadora de uma liga tão grande e que gira tanto dinheiro não se arriscaria fortemente por causa de uma causa tão pequena.

Parêntese: estamos falando de gastos em torno de US$4 milhões anuais para uma liga que ganha US$ 9 bilhões por ano. Mal comparando, é como se brigar por uma torneira no quarto de empregada de uma mansão de 30 quartos e 20 suítes.

Qualquer administrador sensato e conciliador, como Bud Selig (MLB, baseball), faria um contrato paliativo nos mesmos moldes do atual por um tempo curto (dois ou três anos). Assim se teria tempo de negociar pontos mais polêmicos de forma duradoura sem o risco de greve e lockout.

Mas Godell - e sua sanha por brigas sangrentas e desnecessárias - estressou a negociação com pontos extremamente polêmicos, como a mudança imediata do plano de aposentadoria (para um mais arriscado) para todos os árbitros, o aumento do número de equipes de juízes (o que representa redução de ganhos individuais) e a adoção de árbitros exclusivos da NFL por todo o ano sem a devida compensação. Atualmente os árbitros só ficam a disposição da NFL de agosto até o Superbowl.

Obviamente a associação chiou e o acordo não saiu.

Até que em julho/agosto, ficou claro que Godell adotou a estratégia de tentar esmagar os árbitros. Travou de vez a negociação e começou a contratar os “replacement umpires” (árbitros substitutos) numa tentativa de intimidar a associação e mostrar que os árbitros não eram tão necessários para o jogo como eles imaginavam.

Esses árbitros substitutos, de modo geral, vieram de ligas universitárias de futebol americano, que tem regras bastante diferentes da NFL. Além das regras diferentes, eles tem muito menos experiência e não estão acostumados com a repercussão e a importância dos jogos da liga principal. Mas o principal é que eles não tinham o menor respeito dos jogadores e técnicos.

[N.do.E.: mal comparando, seria como se trouxessem árbitros do campeonato de pelada dos porteiros do Aterro para apitar o Brasileirão.]

Traduzindo: a estratégia era ineficiente e tinha tudo para dar errado. E deu!

Nas duas primeiras semanas de jogo, foram vários lances polêmicos e várias lambanças da arbitragem em lances até fáceis, mas que na regra do futebol universitário seriam diferentes. Isso sem contar as milhares de faltas marcadas e não-marcadas erroneamente e a confusão total quando se tratava de desafios eletrônicos (inexistente nas ligas universitárias menores).

[N.do.E.: sem contar casos onde um árbitro foi retirado da partida pois era torcedor de uma das equipes e outro onde o juiz virou para um jogador e disse que esperava que ele fosse bem pois o tinha escalado em seu time de fantasy.]

Apesar dos vários erros, nada alterou o resultado de jogos. Houve apenas técnicos e jogadores ficando malucos com algumas decisões ridículas de árbitros e alguns casos de mal-estar, como no jogo de domingo à noite, transmitido nacionalmente em TV aberta.

Naquela ocasião a torcida de Baltimore começou a gritar em altíssimo som “Bullshit” após uma marcação errada no fim do jogo que poderia mudar o resultado da partida. Por sorte, deu tudo certo e o resultado não foi afetado.

Isso em inglês é um senhor insulto e, a exceção de jogos entre Yankees x Red Sox no baseball (um caso à parte de 90 anos de altíssima rivalidade, histórica e esportiva), em 10 anos de esportes americanos eu nunca tinha ouvido uma torcida americana xingar quem quer que seja, ainda mais os árbitros.

A torcida gritou tão forte que a TV não conseguiu esconder isso dos microfones, e tanto a transmissão americana quanto a brasileira não puderam ignorar, sendo obrigadas a comentar o incidente.

Alias, no Brasil a ESPN até criou uma hashtag para promover o fim da greve que fez relativo sucesso: a #paguemaszebras. “Zebras” é o apelido dos árbitros da NFL, que usam um uniforme listrado em preto e branco, bastante parecido com a pele do referido animal. [N.do.E.: ou com a camisa do Botafogo, o que, na prática, dá no mesmo.]

Porém era inevitável que uma grande besteira iria ocorrer mais cedo ou mais tarde e ela ocorreu na terceira semana, no jogo de 2ª feira à noite que encerra a rodada. Partida esta transmitida em rede nacional de TV fechada, mas de grande penetração (ESPN) entre Green Bay Packers e Seattle Seahawks.

Última jogada da partida. Packers ganhando por cinco pontos com o Seahawks no ataque. O Seahawks tenta um longo passe para o fim do campo, o “touchdown”, que daria seis pontos (mais o direito a um ou dois pontos extras, mas não vem ao caso).

O problema é que tanto defensor quanto atacante agarraram a bola e não largaram. Resultado: tinham dois árbitros na jogada, um marcou o touchdown e o outro, na mesma hora, marcou interceptação, quando o defensor pega a bola.  O vídeo está na abertura do post.

A jogada em tempo real é mesmo polêmica. Para isso, a NFL tem o desafio eletrônico, que permite aos árbitros olharem todos os ângulos captados para a TV em câmera lenta. Obviamente eles foram ver o replay.

Olhando o replay lateral (que também é transmitido no sinal da TV) é claro e evidente que o defensor do Packers teve controle da bola bem antes do atacante e a marcação correta nesse caso seria a interceptação e a vitória do Packers.

Além disso, antes da jogada houve uma falta de ataque não-marcada que invalidaria a jogada. Mas como faltas não são passíveis de verificação por replay, isso não foi revisto.

Foi uma surpresa quando os árbitros voltaram da cabine e mantiveram a chamada oficial de campo: touchdown.

A revolta foi generalizada. Houve gritaria enorme na imprensa reclamando que os “replacement” não poderiam ser deixados arbitrar jogos da NFL. Os jogadores reclamaram demais e chegaram até a ameaçar uma greve enquanto os árbitros oficiais não voltassem, e até o presidente Obama resolveu falar sobre o assunto: pediu nas entrelinhas pelo Twitter que “pelo amor de Deus, entrem em um acordo rápido porque ninguém agüenta mais os replacement”.

Inclusive um jogador do Packers soltou dois twitts desafiadores logo após o jogo. Em tradução bem livre foi assim: “Fui fodido pelos árbitros. Constrangedor. Obrigado NFL” e “Toma no cu, NFL. Multem-me e utilizem o meu dinheiro para pagar os árbitros”.

Coincidência ou não, na 4ª feira seguinte (semana passada) a NFL decidiu negociar e chegou em um acordo com os árbitros no memso dia. Não foi o acordo dos sonhos para nenhum dos lados, mas como em uma negociação, ficou em um meio termo.

Segundo o chefe das negociações pela parte dos árbitros o acordo feito foi exatamente o proposto desde abril e que Godell simplesmente não aceitava por pirraça ou ganância.

O acordo seria aprovado oficialmente só no fim de semana (e o foi por 116 votos a favor, só cinco foram contra) mas a comoção foi tão grande que Godell aceitou que os árbitros já voltassem, mesmo sem acordo oficialmente assinado, para o jogo de 5ª feira passada.

Os árbitros foram loucamente aplaudidos na 5ª feira quando entraram em campo, assim como em vários outros jogos durante o final de semana.

[N.do.E.: eu vi esta partida. Nunca imaginei que viveria para ver árbitros sendo aplaudidos da forma que foram.]

É impressionante como a inabilidade e a falta de vontade de Godell transformou trapalhões natos (os árbitros da NFL atualmente estão longe de serem bons e também tem cometido erros bisonhos) em heróis de forma bastante rápida.

Mais impressionante é tentar entender como um comissário tão ruim como Godell - que causou sozinho três ou quatro enormes confusões na NFL nos últimos três anos de forma desnecessária - é tido por 10 entre 10 “entendidos” de gestão esportiva como um dos maiores profissionais da área.

Se eu não dissesse que era de futebol americano, creio que vários leitores deste blog imaginariam de se tratar de algo no Brasil.

Simplesmente inacreditável!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Made in USA - "Escândalo na NFL"


Nesta quarta feira, a coluna “Made in USA”, do advogado Rafael Rafic, volta a seu habitat e nos conta sobre um escândalo de grandes proporções que agitou a liga de futebol americano, a NFL.

Escândalo na NFL

Antes de começar, quero pedir desculpas aos leitores por ficar três semanas sem escrever, mas infelizmente devo adiantar que esses lapsos um pouco maiores poderão ser mais comuns daqui para frente devido a questões profissionais e às minhas tarefas como jogador e árbitro de xadrez. Após essa explicação, vamos ao “mérito” da coluna.

Depois de ficarmos três meses só falando de Jogos Olímpicos, é hora da Made in USA voltar ao seu habitat natural, os Estados Unidos. Nada mais natural do que falarmos do início da temporada da liga de futebol americano, a NFL, ocorrido no início deste mês.

Já adianto que minhas apostas para chegar ao Super Bowl (o grande jogo final, que em 2013 será no dia 03 de fevereiro, em New Orleans) nessa temporada ficam com o Baltimore Ravens e o sempre favorito Pittsburgh Steelers pela Conferência Americana. Além do Atlanta Falcons e do San Francisco 49ers, na Conferência Nacional.

Alias, na Conferência Nacional não se pode descartar o bom time do Green Bay Packers. Bem como o atual campeão – e time do Editor Chefe - New York Giants, que sempre faz temporadas regulares medianas, mas se o deixarem chegar nos playoffs literalmente se agiganta.

Mas ainda não é sobre isso que quero falar na coluna de hoje.

Pela segunda vez consecutiva, depois do fantasma da greve dos jogadores no ano passado, a temporada não começa de forma tranquila. A NFL está sob o impacto de uma “off-season” (época fora de temporada) conturbada, na qual estourou um escândalo do qual talvez ainda não tenhamos visto todas as suas conseqüências, apelidado de “Bountygate”. Bounty é recompensa em inglês e o gate vem de “Watergate” mesmo.

Tudo começou ainda na final da Conferência Nacional de 2010 (equivalente à semifinal) entre New Orleans Saints e Minnesota Vikings.

O quarterback (posição mais importante de qualquer time) do Vikings na época era o ótimo, mas velho e quebrado, Brett Favre.

O jogo transcorreu de forma estranha e não precisava ser um entendido de futebol americano para perceber que claramente os jogadores de defesa do Saints estavam jogando para partir o Favre ao meio ou então em três partes. Isso levantou suspeitas de que o Saints estaria pagando o que no futebol se chamaria de “bicho” para o jogador que tirasse o Favre de jogo.

A NFL nada fez publicamente e o caso foi esquecido como um “choro de perdedor”.

Só que, na verdade, a NFL estava fazendo uma investigação sigilosa gigantesca que durou quase dois anos. Esta investigação começou a realmente achar provas da existência de um programa institucional de recompensa dentro do New Orleans Saints para os jogadores que machucassem propositalmente adversários relevantes - em um absurdo ético e do fair-play. Isso sem contar que as regras da NFL claramente proíbem esse tipo de recompensa.

Ainda segundo as investigações, tudo começou com uma idéia do coordenador de defesa, Gregg Williams, e vários jogadores adversários foram escolhidos como alvo durante os três anos de funcionamento do esquema. Inclusive Favre teria sido o alvo n° 1 da história desse esquema e quem conseguisse tirá-lo do jogo iria ganhar uma nota preta. Dinheiro esse que era financiado pelo próprio Williams e pelos jogadores que formavam a defesa

Tudo indica que, após a NFL descobrir o esquema e informar a cúpula do Saints, a mesma nada fez para interromper o esquema criminoso.

Resultado: em março desse ano a NFL anunciou publicamente o resultado de suas investigações e as punições severíssimas sofridas pelos principais envolvidos no esquema:

1) Williams foi suspenso por tempo indeterminado da NFL.
2) Sean Payton e Mickey Loomis, respectivamente técnico e administrador do Saints também foram suspensos por, em podendo, nada fazerem para quebrar o esquema quando souberam de sua existência. O primeiro está fora de toda a nova temporada, o segundo pelos seus oito primeiros jogos.
3) Joe Vitt, técnico assistente, também foi suspenso por seis jogos por cumplicidade, já que soube do esquema e manteve-se calado.
4) Os jogadores Jonathan Vilma, Anthony Hargrove, Will Smith e Scott Fujita também foram suspensos por quantidade variada de jogos (de 3 jogos até 1 temporada inteira) por liderarem o esquema entre os jogadores.

É a primeira vez que um técnico é suspenso na NFL e, até aqui, a maior punição para incidentes dentro de campo contra um jogador tinha sido de cinco jogos. Uma temporada regular completa na NFL tem 16 jogos.

Porém, para variar, nem tudo são flores. Parece que mais uma vez, Roger Goodell, o comissário da NFL (equivalente a presidente), agiu rápido demais e errado, abusando de seus poderes. Assim como já tinha feito com o quase-desastre da greve ano passado.
A associação de jogadores recorreu das punições aos jogadores para um painel de arbitragem instituído dentro do âmbito do CBA (o acordo coletivo de trabalho dos jogadores com a NFL) e conseguiu a anulação das suspensões por falta de provas neste último dia 7.

Assim, a não ser que Goodell traga novas provas que demonstrem a intenção dos jogadores de machucar deliberadamente os adversários, os jogadores não serão punidos. Godell já indicou que deverá fazer isso em um momento próximo.

Já não bastasse toda essa confusão, logo após a coletiva de março da NFL que expôs o problema surgiram inúmeras acusações por parte de ex-jogadores de que Gregg Williams implantou esquemas semelhantes em três outros times nos quais trabalhou: Tennessee Titans, Washington Redskins e Buffalo Bills.

A NFL já informou que está investigando essas denúncias e não estão descartadas novas descobertas e punições em um escândalo que pode manchar bastante a popularidade do esporte, considerado bastante violento por muitos.

Para completar o cenário, o episódio mostrou a fragilidade da arbitragem na NFL.

Um documentarista, aproveitando a onda, lançou um áudio de uma reunião de Williams com seus jogadores de defesa antes do jogo de playoffs contra o 49ers desse ano. Em um discurso desprezível, ele instruiu os jogadores a machucar deliberadamente quatro jogadores do 49ers, inclusive mostrando as lesões que eles sofreram durante a temporada - para que os jogadores “explorassem o ponto certo”.

Impressionantemente, nenhum dos contatos ilegais, ou seja, faltas, feitos pelo Saints no jogo (e já se acharam mais de 10 nos replays) foi marcado pela arbitragem, ficando absolutamente impune.

Lá, como cá...

Em tempo 1: Naquele ano de 2010, o Saints se sagrou campeão e até agora ninguém pensou em cassar o título. Já no jogo contra o 49ers, o Saints perdeu por 36-32.

Em tempo 2: particularmente eu tenho fortíssimas suspeitas de que mais quatro ou cinco times da NFL tenham esquemas semelhantes ainda não descobertos, principalmente o Baltimore Ravens que está com uma defesa extrema demais.