sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Crônica: Encontro Marcado

"Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro. Sexta feira à tarde. Trânsito engarrafado, como de hábito, em direção ao Túnel Rebouças.

Carlos estava pensativo em seu carro popular, embora bem equipado. Parado no trânsito, lembrava-se do caminho que percorrera até ali. Fora casado e trocado por um famoso jogador de futebol, advindo o divórcio daí. Beirando os trinta anos, possuía um bom padrão de vida e uma filhinha.

Imaginava quão rotineira havia sido a sua vida nos últimos tempos. O trabalho em uma empresa transnacional, os cuidados com a filha, a religião. Pouco sobrava para a leitura e a música, suas paixões. Coração, o que é isso ?

Imerso em suas divagações e imerso em um mar de carros, Carlos repara em uma jovem moça, dentro de um carro francês preto. Jovem, branquinha, cabelos negros e óculos de grau, aparentemente bem vestida, vidro semi-aberto e falando ao celular. Bela moça, pensa ele.

Nosso amigo desvia o olhar para trocar a faixa do CD e, quando volta a subir os olhos por trás das lentes também míopes, percebe a moça acenando para ele:

 - Você viu ?
 - Não, o quê ?
 - Roubaram o meu celular enquanto estava falando ! Esta cidade não tem jeito !
 - Podia ser pior, pelo menos você está bem.
 - Eu estava falando, veio o garoto e arrancou de minhas mãos - disse enquanto enxugava as lágrimas.

Nosso personagem imediatamente pensou que ela havia dado bobeira em deixar os vidros abertos, mas o trânsito andou um pouco e ele nada disse.

Poucos metros à frente, pararam os dois carros lado a lado. Ele pergunta:

 - Está tudo bem ?
 - Sim, está. Obrigado por ter se preocupado.

Os carros andam, entram no túnel. Nosso amigo ficou pensando em quão bela era a moça.

Mais tarde, no sinal que dá acesso à Rua Mariz e Barros, na Tijuca, Carlos olha para o lado e quem ele vê ? O Peugeot preto. Ele buzina, abaixa o vidro e o diálogo é rápido:

 - Olha quem está me seguindo ! - e abre um sorriso.
 - Está indo para onde ?
 - Tijuca.
 - Eu também !

E, para surpresa dele...

 - Roubaram o meu número, mas grita o seu. Antes que o sinal abra...
 - Ok. 9...

O sinal abriu e os dois carros seguiram a mesma direção. Carlos entrou antes na rua em que morava. A moça seguiu pela Mariz e Barros em direção à Praça Saenz Peña.

***

Domingo, final da tarde. Carlos já havia deixado a filha na casa da avó e estava pegando a cerveja para acompanhar mais uma peleja dominical quando o telefone toca:

 - Alô ?
 - Por um acaso, é o moço do sinal de trânsito, na sexta feira ?
 - Sim, ele mesmo.
 - Pois eu sou a menina do Peugeot. Muito prazer, Gabriela.
 - Carlos, prazer.

O papo seguiu e combinaram de se encontrar em um shopping das proximidades ainda naquele final de domingo. Ao chegar no shopping e encontrar uma vaga, ao manobrar coincidentemente o carro dela estacionava na vaga ao lado.

Conversaram bastante naquele início de noite. Descobriram que trabalhavam com diferença de apenas quatro andares em um único prédio, que compartilhavam a mesma profissão e religião, bem como a paixão pela leitura. Ela era mais nova que ele, entretanto.

Despediram-se e, no dia seguinte, ele telefonou-lhe chamando-a para almoçar. Sem que combinassem, ele apareceu com um grande bouquet de rosas vermelhas e ela, com um livro. No final daquele almoço, o primeiro beijo.

Algum tempo depois, a primeira noite. Para surpresa dele, para Gabriela era a primeira noite de sua história.

Seis meses depois estavam morando juntos e, dois anos, nascia a pequenina Luisa.

Uma linda história de amor, com um lindo final feliz.

Precisamos de mais finais felizes em nossas histórias."

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