Após um interregno de algumas semanas, está de volta a nossa coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. O tema de hoje é o desmonte de uma destas muitas falácias que circulam pela internet.
"Aquela do professor da Texas Tech
Sabe aqueles emails que alguns de nós recebemos com historinhas que têm (ou deveriam ter) alguma mensagem profunda, seja de cunho religioso ou ideológico? Pois é, recebi pela enésima vez o email sobre o professor da Texas Tech que teria feito um experimento com sua classe para provar a falibilidade do socialismo. Se você ainda não recebeu esta, tentarei resumir.
O tal professor de economia nunca havia reprovado um só aluno. E reprovou uma classe inteira. A turma defendia que o socialismo funcionava. Daí, o mestre propôs colocar em prática o sistema, usando as notas dos alunos no lugar dos bens e salários.
Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam 'justas.' Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém repetiria. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um A. Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam Bs. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.
Quando o segundo teste foi aplicado, os preguiçosos estudaram ainda menos e aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média dos testes foi D.
Depois do terceiro teste, a média geral foi um F.
As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca dos alunos por 'justiça' tinha sido a principal causa das reclamações e ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foram seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado.
Então, depois de ler tanta “sabedoria, eu não me contive e respondi o seguinte:
Caro amigo, a experiência do professor é falha no conceito. Se se tratasse realmente de um professor de uma universidade de primeira linha, o professor estaria igualmente reprovado.
Primeiro de tudo, a experiência parte de um princípio que, além de absolutamente falso, é bastante perigoso: a premissa de que os alunos que tiram notas baixas o fazem por preguiça. Por analogia, as pessoas de poucas posses, as que estão desempregadas, as que estão doentes, as que não tiveram acesso à educação de qualidade, as que não nasceram em famílias abastadas, as que vieram de regiões pobres, todas estas seriam preguiçosas e, portanto, recebem menos dinheiro por causa disso.
Nós sabemos que isso não é verdadeiro. Assim como uma turma em que a maioria dos alunos tira notas baixas é apenas um reflexo de uma instituição de ensino deficiente, uma sociedade em que a maioria das pessoas não tem acesso aos itens básicos de consumo é reflexo de lideranças que não souberam repartir igualmente os recursos de educação, alimentação, saúde e acesso à tecnologia. Claro que, num e noutro caso, há preguiçosos que se aproveitam disso para justificar seu baixo rendimento pessoal. Mas não são a regra.
Em segundo lugar, o professor aplicou sua experiência numa classe onde havia - imagina-se - um limite máximo de notas a serem dadas a cada aluno. Por exemplo, um grau "A", ou uma nota 10. Os alunos dividiam entre si tudo o que conseguissem conquistar dentro desta escala limitada de 0 a 10. Para fazer uma analogia com os ganhos em uma sociedade, o professor deveria deixar de limitar as notas. Uma forma de fazer isso seria dando trabalhos voluntários a serem feitos pela turma, de modo que um aluno extraordinário pudesse, por exemplo, garantir uma nota acima de dez, que era o teto anterior. Porque, por analogia, numa sociedade não está estabelecido em nenhum lugar que alguém tem que ter um limite máximo possível de ganhos.
Sendo assim, um aluno com disponibilidade extraordinária de tempo, recursos acadêmicos, disposição e inteligência poderia tirar 10 nas provas convencionais e realizar trabalhos extras que o levassem a ter um bônus de pontos. Seguindo este exemplo, sabendo-se que a média para passar de ano é de apenas 7 e que a nota 10 é considerada de excelência, seria razoável lançar a nota 10 no boletim deste aluno, permitindo que ele guardasse os pontos de bônus para o próximo bimestre.
No entanto, ninguém quer que este excesso de pontos guardados para um momento posterior desestimule um bom aluno a estudar mais ainda. Senão, o excesso de pontos acumulados vai estragar o bom aluno.
Vamos supor que, de 8 pontos de bônus conseguidos por um excelente aluno, eu permitisse que ele acumulasse metade deles, 4. Os outros 4 eu taxaria e colocaria numa bolsa de pontos a serem usados coletivamente pela turma, segundo a decisão de um conselho de alunos.
Por outro lado, alguns alunos não têm as mesmas condições daqueles que acumularam pontos de bônus. Sendo assim, ao final de cada bimestre, é possível que a comissão de alunos responsável pelo destino da bolsa de notas distribua o excesso de notas na bolsa para que todos possam alcançar a média mínima para passar. Claro que esta comissão seria integrada por alunos de destaque, porque são exatamente os alunos que mais contribuem com pontos para a bolsa que são os mais populares entre seus pares. E, como não é da natureza dos alunos exemplares estimular a preguiça, claro que eles estabeleceriam critérios para a distribuição dos pontos extras como, por exemplo, que os alunos beneficiados comprovem que se esforçaram o bastante (apesar de não terem atingido suas metas) e se comprometam a redobrar seus esforços para, no futuro, devolver à bolsa os pontos retirados.
Outro problema é desconsiderar que, enquanto as notas podem fazer analagia a salários, nenhum mecanismo foi criado pelo professor para ser um instrumento análogo dos ganhos de capital. Ou seja, no mundo real, já ter um acúmulo de "notas altas", ou ter recebido "notas" de herança dá ao cidadão o direito a receber bonificações periódicas, independente do esforço atual. Além do quê, notas escolares também não rendem juros se forem emprestadas.
E se estamos falando de ganhos de diversas naturezas (salários, juros, ganhos de capital, cachês etc.), todos igualmente representados por notas escolares, foi propositadamente esquecido que as notas, normalmente, são resultado direto da medição da performance individual de cada aluno, porque cada um é responsável por fazer suas provas e não depende de ninguém mais para realizá-las; mas que é impossível receber dinheiro sozinho numa sociedade, porque qualquer trabalho é coletivo. O assalariado só recebe seus proventos porque está dentro de uma empresa (ou equivalente) na qual o trabalho é realizado em equipe, por pessoas que ganham salários maiores, iguais ou menores que o dele, cada um teoricamente segundo sua importância e competência, mas todos igualmente indispensáveis para o resultado final. E todos dependem do trabalho, liderança e investimentos de um grupo de pessoas que criou as condições para que aquele ambiente de trabalho coletivo existisse, ou seja, os empresários e investidores.
Mais tipicamente ainda, empresários e investidores só recebem seus proventos porque, além de realizarem o seu trabalho, dependem do trabalho feito por seus empregados, sem o que o seu próprio esforço de nada adiantaria.
Quando analisamos de uma forma ainda mais abrangente o resultado coletivo de uma sociedade, vemos que os esforços e competências individuais de cada cidadão, isoladamente, têm muito menos impacto na performance de uma sociedade do que o conjunto do trabalho coletivo. Não é por acaso que os países que tem os melhores resultados sócio-econômicos são aqueles em que há menores diferenças entre seus habitantes, de forma a que todos tenham acesso comum a bens básicos como educação, transporte, saúde, saneamento, tecnologia, infra-estrutura etc. A conta para que isso aconteça é paga pela parcela da população que teve os melhores resultados individuais. E não estamos falando de países socialistas, mas de algumas das principais economias capitalistas do mundo.
Mas a pior das distorções promovidas pela experiência do professor foi estabelecer que, para fazer uma suposta analogia com um regime socialista, ele deveria distribuir igualmente as notas por todos. Eu não conheço nenhum regime político-econômico que distribua os proventos por todos igualmente. Em qual sociedade um cientista recebe o mesmo que um lixeiro? Ou que um desempregado, amparado por um seguro social, receba mais que um médico? Isso simplesmente não existe, nem na teoria nem na prática, então o experimento do professor é uma metáfora falsificada da seguridade social.
Eu proponho nós deixarmos de lado, por alguns instantes, a analogia do professor da Texas Tech e partirmos para uma outra metáfora.
Vamos supor que nós temos 8 pessoas a serem divididas por duas equipes de revezamento que competirão entre si numa maratona. Cada um dos quatro integrantes de cada equipe será responsável por percorrer um pouco mais de 10 dos 42 km da prova. Uma das equipes é composta por 4 pessoas absolutamente normais. Nenhum é atleta, mas todos estão aptos a percorrer a distância combinada em ritmo leve.
Na outra equipe, há duas pessoas com este mesmo perfil e mais o campeão olímpico da maratona. Em compensação, há um bebê de um ano de idade, que mal sabe caminhar.
Em qual equipe você gostaria de estar?
Quem escolhe estar na equipe do maratonista profissional sabe que o grupo jamais terminará a prova, porque o bebê não conseguirá cumprir sua parte, ainda que se esforce ao máximo. De nada adiantará ter a melhor performance individual entre os competidores se alguém na equipe está tão abaixo do nível dos demais que comprometerá o trabalho coletivo.
Qual a única chance de vitória do time do maratonista? É ele, sabendo que é mais capacitado que a média, se dispor a correr o dobro da distância dos outros integrantes e, ainda por cima, carregando o bebê no colo. Assim, a equipe inteira sairá vencedora, mesmo que a contribuição de cada um não tenha podido ser igual.
É justo? Não, não é. O maratonista, exatamente por ter reunido mais condições de treino, preparo, alimentação etc., se verá obrigado a contribuir em dobro para o resultado da equipe. Não é justo, mas é eficaz para o resultado.
Se o maratonista for esperto, ele logo passará a ensinar o bebê a correr para que, daqui a alguns anos, nas provas futuras, ele não tenha mais que carregar ninguém no colo. Com um pouco de sorte e treino, o campeão poderá envelhecer tranquilo, porque o bebê se tornará um futuro campeão de maratonas e poderá vir a carregar o velho maratonista no colo um dia."
"Aquela do professor da Texas Tech
Sabe aqueles emails que alguns de nós recebemos com historinhas que têm (ou deveriam ter) alguma mensagem profunda, seja de cunho religioso ou ideológico? Pois é, recebi pela enésima vez o email sobre o professor da Texas Tech que teria feito um experimento com sua classe para provar a falibilidade do socialismo. Se você ainda não recebeu esta, tentarei resumir.
O tal professor de economia nunca havia reprovado um só aluno. E reprovou uma classe inteira. A turma defendia que o socialismo funcionava. Daí, o mestre propôs colocar em prática o sistema, usando as notas dos alunos no lugar dos bens e salários.
Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam 'justas.' Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém repetiria. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um A. Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam Bs. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.
Quando o segundo teste foi aplicado, os preguiçosos estudaram ainda menos e aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média dos testes foi D.
Depois do terceiro teste, a média geral foi um F.
As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca dos alunos por 'justiça' tinha sido a principal causa das reclamações e ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foram seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado.
Então, depois de ler tanta “sabedoria, eu não me contive e respondi o seguinte:
Caro amigo, a experiência do professor é falha no conceito. Se se tratasse realmente de um professor de uma universidade de primeira linha, o professor estaria igualmente reprovado.
Primeiro de tudo, a experiência parte de um princípio que, além de absolutamente falso, é bastante perigoso: a premissa de que os alunos que tiram notas baixas o fazem por preguiça. Por analogia, as pessoas de poucas posses, as que estão desempregadas, as que estão doentes, as que não tiveram acesso à educação de qualidade, as que não nasceram em famílias abastadas, as que vieram de regiões pobres, todas estas seriam preguiçosas e, portanto, recebem menos dinheiro por causa disso.
Nós sabemos que isso não é verdadeiro. Assim como uma turma em que a maioria dos alunos tira notas baixas é apenas um reflexo de uma instituição de ensino deficiente, uma sociedade em que a maioria das pessoas não tem acesso aos itens básicos de consumo é reflexo de lideranças que não souberam repartir igualmente os recursos de educação, alimentação, saúde e acesso à tecnologia. Claro que, num e noutro caso, há preguiçosos que se aproveitam disso para justificar seu baixo rendimento pessoal. Mas não são a regra.
Em segundo lugar, o professor aplicou sua experiência numa classe onde havia - imagina-se - um limite máximo de notas a serem dadas a cada aluno. Por exemplo, um grau "A", ou uma nota 10. Os alunos dividiam entre si tudo o que conseguissem conquistar dentro desta escala limitada de 0 a 10. Para fazer uma analogia com os ganhos em uma sociedade, o professor deveria deixar de limitar as notas. Uma forma de fazer isso seria dando trabalhos voluntários a serem feitos pela turma, de modo que um aluno extraordinário pudesse, por exemplo, garantir uma nota acima de dez, que era o teto anterior. Porque, por analogia, numa sociedade não está estabelecido em nenhum lugar que alguém tem que ter um limite máximo possível de ganhos.
Sendo assim, um aluno com disponibilidade extraordinária de tempo, recursos acadêmicos, disposição e inteligência poderia tirar 10 nas provas convencionais e realizar trabalhos extras que o levassem a ter um bônus de pontos. Seguindo este exemplo, sabendo-se que a média para passar de ano é de apenas 7 e que a nota 10 é considerada de excelência, seria razoável lançar a nota 10 no boletim deste aluno, permitindo que ele guardasse os pontos de bônus para o próximo bimestre.
No entanto, ninguém quer que este excesso de pontos guardados para um momento posterior desestimule um bom aluno a estudar mais ainda. Senão, o excesso de pontos acumulados vai estragar o bom aluno.
Vamos supor que, de 8 pontos de bônus conseguidos por um excelente aluno, eu permitisse que ele acumulasse metade deles, 4. Os outros 4 eu taxaria e colocaria numa bolsa de pontos a serem usados coletivamente pela turma, segundo a decisão de um conselho de alunos.
Por outro lado, alguns alunos não têm as mesmas condições daqueles que acumularam pontos de bônus. Sendo assim, ao final de cada bimestre, é possível que a comissão de alunos responsável pelo destino da bolsa de notas distribua o excesso de notas na bolsa para que todos possam alcançar a média mínima para passar. Claro que esta comissão seria integrada por alunos de destaque, porque são exatamente os alunos que mais contribuem com pontos para a bolsa que são os mais populares entre seus pares. E, como não é da natureza dos alunos exemplares estimular a preguiça, claro que eles estabeleceriam critérios para a distribuição dos pontos extras como, por exemplo, que os alunos beneficiados comprovem que se esforçaram o bastante (apesar de não terem atingido suas metas) e se comprometam a redobrar seus esforços para, no futuro, devolver à bolsa os pontos retirados.
Outro problema é desconsiderar que, enquanto as notas podem fazer analagia a salários, nenhum mecanismo foi criado pelo professor para ser um instrumento análogo dos ganhos de capital. Ou seja, no mundo real, já ter um acúmulo de "notas altas", ou ter recebido "notas" de herança dá ao cidadão o direito a receber bonificações periódicas, independente do esforço atual. Além do quê, notas escolares também não rendem juros se forem emprestadas.
E se estamos falando de ganhos de diversas naturezas (salários, juros, ganhos de capital, cachês etc.), todos igualmente representados por notas escolares, foi propositadamente esquecido que as notas, normalmente, são resultado direto da medição da performance individual de cada aluno, porque cada um é responsável por fazer suas provas e não depende de ninguém mais para realizá-las; mas que é impossível receber dinheiro sozinho numa sociedade, porque qualquer trabalho é coletivo. O assalariado só recebe seus proventos porque está dentro de uma empresa (ou equivalente) na qual o trabalho é realizado em equipe, por pessoas que ganham salários maiores, iguais ou menores que o dele, cada um teoricamente segundo sua importância e competência, mas todos igualmente indispensáveis para o resultado final. E todos dependem do trabalho, liderança e investimentos de um grupo de pessoas que criou as condições para que aquele ambiente de trabalho coletivo existisse, ou seja, os empresários e investidores.
Mais tipicamente ainda, empresários e investidores só recebem seus proventos porque, além de realizarem o seu trabalho, dependem do trabalho feito por seus empregados, sem o que o seu próprio esforço de nada adiantaria.
Quando analisamos de uma forma ainda mais abrangente o resultado coletivo de uma sociedade, vemos que os esforços e competências individuais de cada cidadão, isoladamente, têm muito menos impacto na performance de uma sociedade do que o conjunto do trabalho coletivo. Não é por acaso que os países que tem os melhores resultados sócio-econômicos são aqueles em que há menores diferenças entre seus habitantes, de forma a que todos tenham acesso comum a bens básicos como educação, transporte, saúde, saneamento, tecnologia, infra-estrutura etc. A conta para que isso aconteça é paga pela parcela da população que teve os melhores resultados individuais. E não estamos falando de países socialistas, mas de algumas das principais economias capitalistas do mundo.
Mas a pior das distorções promovidas pela experiência do professor foi estabelecer que, para fazer uma suposta analogia com um regime socialista, ele deveria distribuir igualmente as notas por todos. Eu não conheço nenhum regime político-econômico que distribua os proventos por todos igualmente. Em qual sociedade um cientista recebe o mesmo que um lixeiro? Ou que um desempregado, amparado por um seguro social, receba mais que um médico? Isso simplesmente não existe, nem na teoria nem na prática, então o experimento do professor é uma metáfora falsificada da seguridade social.
Eu proponho nós deixarmos de lado, por alguns instantes, a analogia do professor da Texas Tech e partirmos para uma outra metáfora.
Vamos supor que nós temos 8 pessoas a serem divididas por duas equipes de revezamento que competirão entre si numa maratona. Cada um dos quatro integrantes de cada equipe será responsável por percorrer um pouco mais de 10 dos 42 km da prova. Uma das equipes é composta por 4 pessoas absolutamente normais. Nenhum é atleta, mas todos estão aptos a percorrer a distância combinada em ritmo leve.
Na outra equipe, há duas pessoas com este mesmo perfil e mais o campeão olímpico da maratona. Em compensação, há um bebê de um ano de idade, que mal sabe caminhar.
Em qual equipe você gostaria de estar?
Quem escolhe estar na equipe do maratonista profissional sabe que o grupo jamais terminará a prova, porque o bebê não conseguirá cumprir sua parte, ainda que se esforce ao máximo. De nada adiantará ter a melhor performance individual entre os competidores se alguém na equipe está tão abaixo do nível dos demais que comprometerá o trabalho coletivo.
Qual a única chance de vitória do time do maratonista? É ele, sabendo que é mais capacitado que a média, se dispor a correr o dobro da distância dos outros integrantes e, ainda por cima, carregando o bebê no colo. Assim, a equipe inteira sairá vencedora, mesmo que a contribuição de cada um não tenha podido ser igual.
É justo? Não, não é. O maratonista, exatamente por ter reunido mais condições de treino, preparo, alimentação etc., se verá obrigado a contribuir em dobro para o resultado da equipe. Não é justo, mas é eficaz para o resultado.
Se o maratonista for esperto, ele logo passará a ensinar o bebê a correr para que, daqui a alguns anos, nas provas futuras, ele não tenha mais que carregar ninguém no colo. Com um pouco de sorte e treino, o campeão poderá envelhecer tranquilo, porque o bebê se tornará um futuro campeão de maratonas e poderá vir a carregar o velho maratonista no colo um dia."

Pois é. A descrição final acaba sendo uma metáfora do CAPITALISMO! Aqueles que possuem maior capacidade de ACUMULAR BENS (atenção: não é trabalhar, é acumular bens) acabam levando aqueles de sua equipe à vitória. Mesmo os menos capazes. A questão principal é que ele também acaba levando a maior parte do prêmio por acreditar ser ele o principal responsável, desprezando a contribuição dos ditos normais, pois não correu sozinho a maratona, mas sua preparação e capacidade auxiliou o resultado do grupo. A questão é o quanto seria a JUSTA DISTRIBUIÇÃO.
ResponderExcluirNo socialismo, como se elimina a figura do acumulador de bens (este passa a ser o Estado), a única forma de acumular bens passa a ser servir o Estado e tomar deste (nisto, nós brasileiros somos especialistas...). A longo prazo, o sistema fracassa por falta de bens a pilhar...
Bruno, vc tocou em um ponto importantíssimo.
ResponderExcluirNoves fora questões políticas, as próximas eleições serão exatamente um conflito distributivo: a oposição defendendo que o campeão olímpico fique com 100% do bolo - e os demais que se danem - e a situação defendendo parte deste bolo sendo redistribuído.
eu irei voltar ao tema, bela sacada