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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sobretudo - "As novelas, a inveja e a dissimulação"


De volta após intervalo, a coluna “Sobretudo”, do publicitário Affonso Romero, fala também da novela Avenida Brasil a partir das características do autor do folhetim, João Emanuel Carneiro.

As novelas, a inveja e a dissimulação

Como já diz o bordão, "a inveja é uma m...".

Pior que a inveja é a dissimulação da inveja. Eu assumo a minha: como escreve rápido meu companheiro de blog Walter Monteiro!

Eu tenho boa aututoestima de texto, mas sou um misto de lerdo e preguiçoso para escrever. O Walter não: ele está em um minuto "conversando" por email conosco sobre um assunto qualquer, de maneira descontraída e quase sempre superficial e, no minuto seguinte, se sai com uma coluna prontinha, com uma bordagem adequada do tema. Sempre com uma visão distinta, na profundidade certa, texto enxuto e direto.

E aí eu vejo que o meu processo criativo é sofrido, espremido. Perco as desculpas, porque o Walter é ainda mais ocupado do que eu, estamos dividindo - e o Editor Chefe ajudando - os desgastes de uma campanha político-clubística e, ainda por cima, ele também acompanha a novela das 21h00. Ou seja, eu não escrevo no mesmo ritmo frenético porque sou lento mesmo.

Inveja e dissimulação, aliás, são dois artifícios recorrentes em novelas, e eu vou aproveitar e pegar uma carona no texto do Walter. "Avenida Brasil" realmente é um sucesso; e a maior parte dele vem da boa utilização destes temas pelo seu autor, João Emanuel Carneiro.

João, aos 42 anos, é ainda jovem no universo batido dos autores de novelas. Domina a técnica do folhetim eletrônico, mas vai incorporando novidades, parte delas inovações de estilo pessoal, parte delas reflexo das mudanças no perfil do público.

Sua carreira na Globo, de pouco mais de dez anos, iniciou-se como colaborador de Maria Adelaide Amaral nas excelentes minisséries de época "A Muralha" e "Os Maias". As séries e mininovelas são uma grande oportunidade de aprendizado porque reúnem as formidáveis condições técnicas desenvolvidas pela teledramaturgia comercial brasileira, o nível excepcional de atuação e direção, os recursos estruturais e financeiros da superprodução. Por outro lado as cobranças de audiência são menos rigorosas, dado que estas obras são programadas para horários menos competitivos. Isso abre espaço para que se possa ousar um pouco mais e fugir dos lugares-comuns do modelo folhetinesco.

Entretanto, quando jogaram Emanuel aos humores do grande público, sua primeira novela como autor titular, "Da Cor do Pecado" (2004), com supervisão de outro craque - Silvio de Abreu - teve média de 43 pontos no Ibope, recorde do horário neste século e marca digna de novela das 21h00. De quebra, fez Taís Araújo emplacar a primeira protagonista negra da história das novelas brasileiras.

Tamanho sucesso o credenciou em 2006 a tentar recuperar o share do horário, desgastado pelo fracasso da desastrada "Bang-Bang" (inovadora demais, mas na direção errada), de Mario Prata. Esta última coincidiu com a evolução da Record no ramo, capitaneada por Tiago Santiago, outro inovador. Pois "Cobras e Lagartos" emplacou uma média de 39 pontos, só perdendo para a marca de "Da Cor...". Novamente, os núcleos "pobre" e "rico" da trama se misturavam com naturalidade, tipos físicos característicos da população comum enriqueciam sem perder seus modos e costumes. Ao contrário, o comportamento novo-rico era objeto de comédia, do ridículo.

Desde suas primeiras obras, na faixa das 19h00, João Emanuel espelhava um Brasil que começou, neste século, e se reconhecer como um país ascendente, sem abrir mão de suas características e contradições. O brasileiro médio deixou de recorrer às novelas como uma vitrine dos hábitos de uma classe superior, uma forma de macaquear e invejar uma riqueza distante. Passou a ter objetivos de consumo bem mais mensuráveis, acessíveis, realizáveis. E quis ver isso na telinha.

João foi o autor que melhor identificou e traduziu isso, de modo que suas novelas trabalham o tema da inveja com um novo enfoque. E o público gosta.

"Avenida Brasil" já é o seu segundo sucesso no horário das 21h00, no qual o autor estreou com "A Favorita" (2008). Nas duas tramas, há um confronto entre duas personagens femininas que se alternam na vilania, movidas seja por malvadeza ou necessidade de vingança/justiça.

Assim como Carminha é humanizada por sua fragilidade, apesar de vilã,  Nina/Rita é, apesar de mocinha, mal comportada, capaz de crueldades e manipulações - coisa impensável numa novela de até uma década atrás. O mesmo jogo de espelhos era protagonizado por Cláudia Raia e Patrícia Pilar (Donatela e Flora) em "A Favorita". Dissimulação, portanto, passa a ser um artifício de vilãs e mocinhas, indistintamente, deixando as novelas de João Emanuel distantes da tradição maniqueista do folhetim clássico. 

Esta proximidade da ambivalência observada na vida real traz nuances ainda mais sintonizadas com o hiperrealismo já anteriormente presente na proposta de atuação e na estrutura técnica (cenários, figurinos, ambientação, som, imagem etc.) das novelas brasileiras - padrão que foi perseguido pela Globo por mais de 40 anos, e copiado pelas demais emissoras. Muito diferente dos dramalhões latino americanos e das sitcoms norte-americanas, estas últimas focadas na caricatura da realidade.

Como foi muito bem definido aqui pelo Walter, o folhetim está para a cultura assim como o hambúrguer está para a gastronomia. Normalmente, eu chego do trabalho bastante tarde. Da mesma forma que eu faço uma refeição leve, normalmente um lanche, desacelero a mente vendo a vida dos personagens passar pela tela.

Quanto mais aquilo me parecer banal, natural, cotidiano - com a honrosa exceção do humor caricatural e despretensioso - menos reflexiva será a minha atitude em frente à tela. A novela não requer minha atenção exclusiva, minha compenetração. Ao contrário, sua reprodução da vida cotidiana, em tons mais ou menos carregados, me lembra de assuntos igualmente comuns, permitem o diálogo familiar livre, leve e solto.

Continuo sem compreender quem assiste às novelas com fervor religioso, gente que não pode assumir compromissos no horário das 21h00, de segunda a sábado, para quem não se pode fazer uma ligação telefônica, nem falar pessoalmente. Para mim, novela segue sendo aquela coisa que a gente deixa passar na tevê enquanto o sono não vem.

E as novelas do João Emanuel são perfeitas para isso.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sobretudo - "O Flamengo que não pode ser – e aquele que tudo poderá"


Nesta quarta feira, a edição especial da coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero, traz um manifesto voltado à gestão dos clubes brasileiros e, em especial, ao Flamengo. Só tenho a dizer que assino embaixo de tudo o que está escrito no texto.

Preparem-se.

O Flamengo que não pode ser – e aquele que tudo poderá

Volto a um tema restritivo, uma vez que apesar de a maioria do universo ser composta por rubro-negros (alguns nem sabem que são), outros poucos leitores poderão se desinteressar pelo que este modesto colunista tem a dizer, por tratar-se de assunto externo a seu cotidiano.

Mas engana-se o leitor que, sendo torcedor de outro clube, imagine que o Flamengo nada tenha a ver com suas preocupações. Caso o amigo acompanhe futebol e o mundo esportivo, peço que me siga por mais algumas linhas, pelo menos.

Qualquer dos grandes clubes brasileiros deveria liderar uma revolução na gestão do nosso esporte. O Flamengo, como time de maior torcida, e maior marca esportiva do País, deveria ter esta transformação como missão obrigatória. Senão por motivo mais nobre, que seja para salvar a si mesmo.

Discute-se bastante a estrutura societária, a democratização do acesso ao voto nos clubes de massa, a transformação em clube-empresas, a separação entre futebol e clubes sociais, a negociação das dívidas e várias questões que, a meu ver, deveriam ser subsidiárias a um tema mais importante: o modelo de gestão.

Pode-se encontrar, dentre os clubes de sucesso neste hoje mercado global do esporte, variados modelos societários: Milan, Chelsea e Manchester United têm um único controlador, o Barcelona tem dezenas de milhares de eleitores. Qual o modelo mais eficiente? Parece uma pergunta menor, uma vez que se chega ao sucesso por um ou outro caminho. Entretanto, nenhum destes grandes clubes tem uma forma amadora de gestão.

Alguns defensores do amadorismo vão lembrar, com boa parcela de razão, que os clubes brasileiros construíram uma bela história já centenária contando com a gestão abnegada de alguns seus sócios, eleitos para tal. A bem da verdade, durante décadas os grandes clubes europeus também trilharam esta estrada.

O que houve desde então foi uma mudança de paradigma. De duas a três décadas para cá, o esporte – notadamente o futebol – passou a contar com o aporte de recursos de outras vertentes da indústria do entretenimento, entre as quais os conglomerados de comunicação, as empresas fornecedoras de material esportivo e os grandes anunciantes, em meio a processo de crescente globalização.

Ora, o tipo de negócio em que os clubes se viram envolvidos passou a ser desenvolvido por partes desiguais: enquanto as empresas parceiras são representadas por profissionais altamente qualificados, a maioria dos clubes permaneceu representada por dirigentes amadores - com claro prejuízo para os clubes. Por outro lado, as cifras em tais negociações cresceram exponencialmente, sem que tenha havido um mínimo de racionalidade no uso desses recursos por parte dos clubes que não profissionalizaram sua equipe de gestores.

O resultado é um mercado atípico, em que houve uma transferência de ganhos maior à mão de obra do que aos empregadores. Isso se deve ao fato de que o valor médio pago a atletas e técnicos subiu mais do que os ganhos das instituições esportivas, movidos pela passionalidade de dirigentes e pela boa percepção de oportunidade por parte de representantes e empresários. O crescimento dos valores arrecadados, em lugar de aumentar as possibilidades de desenvolvimento destes clubes, ao contrário, provocou um mergulho na desordem financeira e uma situação geral de insolvência.

Enquanto isso, aqueles que deveriam ser os maiores ativos dos clubes - suas marcas e a relação institucional com as massas de torcedores que medem a sua grandeza - em vez de se incrementarem, deterioram. Some-se o crescimento de marcas esportivas estrangeiras e o avanço de outras facetas mais profissionalizadas da indústria do entretenimento, temos uma situação caótica aparentemente irreversível. Pelo menos, sem que haja uma nova mudança de paradigma.

Eu escrevi aqui mesmo neste blog uma coluna sobre os achincalhes que o Flamengo anda sofrendo sob o olhar passivo de sua atual Diretoria, até com a colaboração indireta dela. Naquele texto, um caso fortuito com o Diego Maurício, de importância menor, simbolizava o desleixo pela imagem do clube. Eu ainda elencava outros exemplos.

De lá para cá – e em tão curto tempo – o Flamengo colecionou outros descasos até maiores, como a lentidão em contratar um dirigente remunerado para futebol, a interferência sistemática de Vice-Presidentes uns nas áreas de atuação de outros, a declaração do não pagamento de impostos, a revelação de um balanço para lá de confuso e polêmico, a eliminação prematura em todas as competições do futebol no semestre, um período longo sem jogos e poucos treinamentos, a inação e o improviso na contratação de reforços, o debate público acerca de salários em atraso, além de intermináveis declarações oficiais inadequadas.

O Clube de Regatas do Flamengo, glória do esporte nacional, é vítima de um processo de encolhimento institucional (se existisse, a melhor palavra seria “apequenamento”) e exemplo daquilo que não deve ser feito na gestão de instituições congêneres. Vou evitar o lugar-comum da crítica fácil às pessoas que vêm dirigindo o clube nos últimos anos.

Conheço algumas delas, e dentre elas várias pessoas de bem, alguns inclusive muitíssimo bem sucedidos em suas vidas pessoais e profissionais.

Mesmo aqueles que têm experiência, conhecimento técnico e capacidade intelectual para atuar nas muitas atividades da gestão de um clube, costumam falhar quando fazem o papel do dirigente esportivo voluntário: misturam a paixão e a razão, o imediatismo e o necessário planejamento estratégico, o compromisso para com a instituição e as obrigações pessoais privadas, o administrador e o torcedor.

O Flamengo faz péssima gestão de sua marca, é comumente associado a escândalos, brigas internas políticas inócuas, desrespeito a hierarquias, processos confusos, contratos mal alinhavados e raramente cumpridos, um ambiente e uma cultura interna que, sinceramente, dificilmente poderia vir a atrair parceiros confiáveis e interessados na obtenção conjunta de resultados positivos numa relação estável e segura.

No momento em que começa a se desenhar o quadro eleitoral cujo desfecho se dará no final do ano, quando da eleição da Diretoria para o próximo triênio, vê-se candidatos divididos entre aqueles que pretendem perpetuarem-se num grupo de poder que se metamorfoseia para manter-se igual ou aqueles que apresentaram-se de forma novidadeira como representantes de uma pseudo-mudança, ainda que reproduzindo discursos, perfis e hábitos antigos.

Parece bastante claro que uma mudança passa, necessariamente, pela determinação em dar ao clube um choque de gestão profissional incondicional. Há, para a Diretoria eleita, um espaço político necessário e útil, qual fosse o respaldo institucional, o estabelecimento de metas, a contratação de uma equipe de gestores profissionais, a avaliação dos resultados obtidos a médio prazo e a validação ou redefinição das soluções adotadas, em períodos e ciclos pré-configurados.

Caberia à equipe de gestores profissionais tomar as decisões administrativas, decidir sobre cada uma das questões pertinentes às mais diversas atividades do clube, traçar planos executivos, preparar e gerir contratos, explorar oportunidades, negociar com atletas e seus representantes, valorizar a marca e otimizar todas as tarefas de gestão. Tudo isso com autonomia delegada e sob regras predeterminadas de governança corporativa, palavra chave neste novo momento.

O Flamengo estaria em conformidade com seu atual Estatuto, com a Diretoria eleita cumprindo sua missão de definir ONDE o clube deve chegar (objetivos) e um grupo de gestão profissional definindo COMO chegar (gestão) a tais metas, sob regras claras, sem sobressaltos ou interferências políticas cotidianas, com transparência de ação, num ambiente negocial de alto nível.

Este não é um caminho a ser adotado pelo Departamento de Futebol, nem por este ou aquele setor, mas pela instituição por inteiro, sob a liderança politica de um Presidente que tenha a grandeza de saber delegar a gestão cotidiana a um grupo de profissionais liderado por um CEO (ou outro nome que se queira dar ao cargo) com formação sólida, compromisso com o resultado, método administrativo, experiência em gestão de instituições de grande porte e uma equipe bem articulada. Ou seja: um choque de gestão profissional.

O problema real consiste em conciliar, num grupo a ser eleito para liderar esta revolução, paixão pelo Flamengo e a clara noção de que esta mesma paixão inviabiliza uma gestão racional. Conciliar conhecimento profundo da questão e humildade para abrir mão da gestão direta sobre os dilemas cotidianos.

A minha impressão pessoal é que ao cruzar as portas do clube, o torcedor-dirigente típico não se contém e se sente obrigado a interferir, participar, aparecer, falar além da conta – mesmo aqueles que antes se diziam comprometidos com a ideia de profissionalização. No fundo, o torcedor que habita em nós faz com que todos queiram “escalar o time” quando detém poder para tal.

O Presidente hipoteticamente ideal deveria ser “impedido” de entrar no clube, sentar à mesa, resolver qualquer assunto do dia-a-dia. Que dê as diretrizes, avalie e reconduza a médio prazo, mas não interfira na ação.

Este é o modelo ideal a meu ver.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sobretudo - "A Guerrilha do Mp3"


Nesta segunda feira, a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero, retoma o tema da difusão da música e os empecilhos gerados pela indústria fonográfica. Eu me recordo que baixei muita coisa de samba - cuja produção em disco está 90% fora de catálogo - em um blog destes, que naturalmente teve de encerrar as atividades dada a pressão relatada pelo colunista.

A Guerrilha do Mp3

Na manhã preguiçosa da Sexta-Feira Santa recebemos – eu e Mara, minha esposa - pelo correio eletrônico uma dica do amigo Chiquinho: “Quem curte MPB de boa qualidade deve conhecer o novo trabalho de Fabio Góes, O Destino Vestido de Noiva (2011), que tem uma sonoridade que remete ao Clube da Esquina, Coldplay e Radiohead e pode ser baixado em: http://www.hominiscanidae.org/search/label/Fabio%20G%C3%B3es“.

A descrição despertou minha curiosidade. Também achei o titulo do cd muito interessante. Fui lá, baixei, ouvi, aprovei.

Bons tempos em que um autor e cantor desconhecido tem condições de produzir e divulgar suas músicas: conseguir esta ligação direta com alguém que desconhecia sua existência, passou a gostar e até está repassando a recomendação. O Chiquinho não mentiu: nem sobre a qualidade, nem sobre as influências do som.

Eu tinha minha habitual longa lista de temas a tratar nesta coluna, acrescida da necessidade de se fundar uma ONG-de-amparo-aos-adultos-viciados-em-joguinhos-de-celular-ou-Facebook, considerado o caso de crianças e adolescentes já sem solução possível. Ou ainda uma ode à minha profunda inveja ao trabalho realizado por Percival de Souza, do qual sou um humilde plágio por escrito. Mantenho a fé de que tudo terá sua hora e lugar.

Mas hoje retorno um tema que abordei há algumas semanas, sob o foco específico do formato mp3 e seu impacto na indústria musical.

Como mostra inequivocamente o exemplo dado pela minha relação com a arte de Fabio Góes, nem sempre o compartilhamento de música através da internet pode ser correlacionado com pirataria ou quebra do direito autoral. No caso do Fabio, que é desconhecido na mídia, certamente ele agradece e incentiva o compartilhamento, uma vez que é a forma possível de vencer a barreira que as grandes corporações impõem aos novos artistas.

Aproveitei a ida ao site onde há o link indicado, o Hominis Canidae, para dar um passeio pelo material disponível. Eu não conheço, e possivelmente o caro leitor também não conheça, artistas com nomes intrigantes tais como Sheila Cretina, Falsos Conejos, Eu Matei Pedro [N.do.E.: este não ouvi e não gostei (risos)], Crooneres Decadentes, Babi Jaques e os Sicilianos, Refrigerantes, Mahatma Guangue ou Motor Queimado.

Não conheço e ainda não baixei nenhum desses artistas, mas deu vontade. Também há links para discos difíceis de encontrar nas lojas, alguns há anos fora de catálogo. E/ou de artistas que atuam em nichos de mercado como Azymuth, Itamar Assumpção e Marina de la Riva, para ficar em poucos exemplos.

Na barra ao lado direito do site o leitor encontrará, além da lista completa de artistas, um sem-número de sites parceiros, muito úteis caso se esteja procurando algo específico ou se queira mergulhar no poço sem fundo de músicas comerciais e alternativas.

Saltei de lá para o blog Eu Ovo (http://euovo.blogspot.com.br/), veterano de uma época em que eu tinha tempo para me dedicar ao vício de experimentar sons novos. Aqui, a lista de links para outros sites é ainda mais rica. Reserve tempo e chegue movido à curiosidade.

Depois, fui ao 300 Discos Importantes da Música Brasileira (http://300discos.wordpress.com/) que tem uma lista principal das tais 300 obras tão abrangente e esquizofrênica que leva a refletir sobre os limites do gosto e do ecletismo.

Tentei também visitar outro blog antigo, o A Música que Vem de Minas, que tinha um acervo primoroso, mas este já está fora do ar. Outro que parecia estar fora do ar foi o estrangeiro Afro Cuban Jazz ( http://afrocubanlatinjazz.blogia.com/) que já me ensinou muitíssimo sobre o estilo. Com um pouco de atenção, descobre-se o link alternativo e redireciona-se, entrando na brincadeira de gato-e-rato que a indústria musical propõe aos internautas e blogueiros.

Já o BR Instrumental (http://br-instrumental.blogspot.com.br/) necessitou reparar alguns links quebrados pela perseguição insana das grandes gravadores. Imagine o leitor: pelo título do blog já se percebe que trata-se de música relegada a um segundo plano e cujos artistas têm muito mais a ganhar do que a perder com sua divulgação e compartilhamento.

Este é um processo que vem acontecendo com grande intensidade, porque a legislação norte-americana apertou o cerco sobre os servidores, os responsáveis pelos blogs são pressionados, muitos ficam uns tempos fora do ar, alguns desistem de vez. Principalmente aqueles feitos por abnegados, gente interessada em cultura, que entra neste universo sem motivações econômicas, e que veem que não vale a pena se arriscar a ser tratado como um marginal pelo prazer de divulgar e compartilhar arte.

A outra face desta moeda é que a atividade de troca de arquivos fica mais aberta à ação de pessoas sem escrúpulos. As ameaças mais singelas vêm de blogs que colocam o chamado link de proteção, sistema no qual, para acessar o link final do arquivo pretendido, o usuário precisa fornecer dados, pagar taxas ou baixar arquivos. Redundante dizer sobre o risco e o abuso envolvido nestas práticas. Mas há uma alternativa para contornar estas exigências, pelo menos para alguns casos.

Vamos supor que o leitor queira ir ao G1 Filmes ( http://www.g1filmes.com/ ) e baixar a versão em .avi do blockbuster épico e olímpico Imortais, que de jeito nenhum eu recomendo, a menos que o amigo fique impressionado pela beleza latina da atriz Freida Pinto (que faz Phaedra) ou queira conferir a que profundidade pode chegar o poço do ex-galã Mickey Rourke.

Neste caso, o leitor se verá direcionado para, por exemplo, http://www.meulinkprotegido.com/g1filmes/?url=http://www.meulinkprotegido.com/?id=687474703a2f2f756c2e746f2f396e766469726a30  em que há uma exigência de cadastro, pagamento ou algo do tipo. Basta recortar o início do endereço http e ficar com http://www.meulinkprotegido.com/?id=687474703a2f2f756c2e746f2f396e766469726a30 . Clique e será direcionado para http://uploaded.to/file/9nvdirj0 onde basta clicar em Free Download para ter o filme.

Como se vê, não é só a música que tem admiradores à procura de algo mais e gratuito na internet. Eu sou consumidor de discos e dvds originais, já fui inclusive proprietário de uma loja de discos durante quase cinco anos. Não consigo imaginar que um produto pirata, ou baixado livremente na internet, ou copiado, possa substituir um original, nem do ponto de vista do consumidor, muito menos sob a ótica da indústria. É muita falta de compreensão sobre a natureza da indústria cultural, porque fazer esta confusão parte de uma análise objetiva demais do que seria o “produto” colocado na prateleira.

A mesma gravadora que proíbe a música no 4shared.com coloca o clipe no Youtube, e o usuário vai lá e baixa o áudio em qualidade até superior. Os executivos trabalham com um setor que depende de tecnologia e não entendem nada de tecnologia. Trabalham com arte e têm uma lógica de produção de massa. Um equívoco só.

Tiraram do ar um blog chamado UmQueTenha, de tanto que encheram o saco. Era um blog que fazia um serviço completo: o que se puder imaginar que houvesse de qualidade na MPB, o blog postava, divulgava, disponibilizava. Não foram dois ou três discos que eu acabei comprando depois de conhecer online. Artistas de renome, menos ou mais famosos, discos mais ou menos populares, até coisas desencavadas nas poeiras digitais. A boa notícia é que o UmQueTenha voltou (http://umquetenha.org/uqt/).

Há uma coleção chamada Nova História da MPB que a Editora Abril lançou em fascículos, deve ter sido no final dos anos 1970. Bom material, tanto textos e iconografia quanto fonogramas e fichas técnicas. Meu pai assinou a coleção na época, aquilo fez a minha cabeça para ouvir todo tipo de música, perder o preconceito com os antigos, perceber que cabia a cada estilo e época a versão original e as releituras. Estou tendo o prazer de resgatar este material todo no Um Que Tenha, e não haveria outra forma. Depois, se é o mais ético e correto, eu jogo fora e espero que a coleção saia em cd. Não é assim que gente comportadinha faz?

No fundo, eu estou cada vez mais propenso a pensar que a coisa que mais incomoda a grande indústria cultural não é a transmissão gratuita de conteúdo dos seus produtos principais. Parece muito mais devastadora a possibilidade de se ouvir, ler, assistir, discutir, indicar sobre tudo, sem que as grandes corporações tenham o mesmo poder de filtro de antes, sem que a lógica da produção cultural passe necessariamente pela produção de massa.

Grandes gravadoras contratavam artistas para coloca-los na geladeira. Editoras, jornais, emissoras de tevê, todo mundo fez isso de uma ou outra forma. É mais confortável para este modelo de produção trabalhar com poucos nomes, espremer a laranja até restar bagaço e inventar uma “nova novidade”, porque focando em poucos nomes a lógica da repetição enjoativa trabalha. Esta é uma manobra imediatista, repetida à exaustão, momento imediatamente após momento, até que ela também se esgota. Não é por acaso que os segmentos culturais vivem em sinucas contínuas. Um dia é o teatro, no dia seguinte a tevê, depois o mundo editorial, agora é a música.

Ora, a música nunca esteve tão viva, as gravadoras é que estão em crise.

Tive o presente de bater um papo, regado a boa cachaça e escondidinho de carne seca, com o Roberto Menescal, faz uns poucos anos. Sabe tudo. Vive de arte há cinco décadas, só foi menos feliz no período em que foi executivo de gravadora. Afirma claramente que ele nunca vendeu tanto disco como agora. Tudo de pouquinho em pouquinho, tudo espalhado no mundo todo, tudo em mercados-nichos, tudo na base da qualidade divulgada boca a boca na aldeia global. Ele é a anti-lady-gaga. Um artista assim não é atingido pelos blogs que indicam os atalhos para a música em mp3 gratuito na internet.

Eu não quero processo desta gente, e também não é política do blog estimular nada ilegal, por mais estúpida que seja esta ilegalidade. Então, vou falar só de umas coisas que eu ando ouvindo, desta forma ziguezagueante de consumir cultura, e talvez seja material encontrado por aí, para isso que serve o Google (se é que algum dia não queiram tirar o Google do ar por indicar os caminhos).

Tente ouvir também:

1) A citada coleção Nova História da MPB, uns 50 volumes de oito faixas cada, com encartes.
2) Arlindo Cruz, o novo cd, principalmente a leitura de Meu Nome é Favela, a parceria vocal com o Zeca Pagodinho em Meu Poeta e a inusitada contribuição de Ed Motta em Bancando o Durão.
3) A versão do clássico Call Me, quase irreconhecível, no cd mais recente de Marina Lima, Clímax, que de resto eu acho fraco.
4) A engraçadíssima I’m Cool (Sexy Diva) da banda 1E99, com a Gretchen, de preferência o clipe do Youtube.
5) O disco antigo de Leny Andrade com standards americanos chamado Embraceable You, vale cada faixa.
6) O novo de Luciana Mello, 6° Solo, principalmente Tchau (composição linda do Jairzinho), Áfrico e Recado (do Gonzaguinha).
7) Das telas globais, a parceria surpreendente de Fiuk com Benjor em Quero Toda Noite, a bobagem divertida e leve de Perla em Menina Chapa-Quente, o impagável Eduardo Dussek em Me Segura e Rita Lee em Reza.
8) Do baú do Barry Manilow, um disco que eu não conhecia em homenagem ao Sinatra chamado... Barry Manilow Sings Sinatra (oh!!!), com um repertório menos óbvio que o nome.
9) As faixas sortidas Acertei no Milhar (Moreira da Silva), Libertango (com o Yo-Yo Ma), Malungo (Chico Science) e Não (Patrícia Mellodi). É ouvir para crer.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sobretudo - "Achincalhes Rubro negros"


Nesta quinta feira, a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero, traz um outro aspecto da questão que levantei no post da última terça feira: sob o aspecto institucional do Flamengo. Como sempre, indispensável.

Achincalhes Rubro Negros

Na última terça-feira, o Migão escreveu aqui no blog um texto absolutamente ranzinza, que deu em polêmica numa roda de amigos nossos em comum.

Analisei o caso pela perspectiva rubro-negra, exclusivamente. Claro que o texto original do Migão ia muito além disso: a foto em si era só um exemplo, um pretexto para tocar num assunto abrangente e cuja pertinência maior eu acato.

Mas talvez uma reflexão mais pontual, fixada na foto em si, também leve à compreensão de que por detrás de todo detalhe há uma relação causa-consequência mais profunda. Nossos amigos acham que o Migão pegou pesado, fez tempestade no copo d’água de um menino que postou uma foto engraçada. 

Pois eu vou nadar na contramão da contramão.

Eu concordo integralmente com o texto do Migão. Deve ser solidariedade de gente ranzinza, mas eu concordo. Posso até entender, como o Migão também disse entender, que a foto do Diego Maurício pode ser o menor dos problemas do Flamengo hoje. Mas... será que é mesmo? Senão, vejamos...

O que faz com que o Diego Maurício poste por aí a inocente e idílica fotografia?

A completa falta de noção de que - usando a expressão destacada pelo Migão – “vai dar merda”. E por que isso? Ora, se gente bem esclarecida acha que o Diego Maurício é só mais um "garoto meio bobo de 20 anos que teve menos infância do que deveria e que pode se dar ao desfrute de tirar e postar fotinhas mezzo-gays”, imagina entre os imbecis que habitam as entranhas do Flamengo, imagina também o próprio jogador e os demais boleiros.

Só que ele não é "um garoto normal". Talvez devesse ser, mas não é.

Para começar, ele recebe um salário que não é normal no meio de onde ele vem, na família dele, no bairro dele, no universo dele fora do futebol. Este salário não é por acaso. Lembrem-se: boleiro não recebe o que recebe pelo que joga, este é o menor dos fatores. Boleiro recebe bem porque representa algo, tem uma imagem, vende coisas, incorpora sentimentos e projeções. 

Segundo que, sendo um profissional de destaque (e ele é: a imprensa tem interesse pelo que faz, seu nome é conhecido, está numa "empresa" de destaque etc.) tendo a idade que tiver, ele tem a obrigação de ter uma postura correta e pretendida de quem representa uma marca, uma instituição. Jogador de futebol não entende isso. Ele quer ganhar o dinheiro de um profissional de ponta, ele quer a notoriedade de um profissional consagrado, mas ele não quer a responsabilidade que é resultado disso. Não existe só uma parte do pacote. 

No Flamengo (e na maioria dos clubes), porque ninguém diz isso a eles, porque o profissional de maior destaque do elenco é um fanfarrão (e antes era um outro fanfarrão com problemas sérios), ninguém compreende a postura que deve ter. Isso se reflete no campo, não apenas na foto do Facebook do Diego Maurício. A foto é uma questão menor sim, mas é efeito da mesma causa. E se reflete no mesmo tipo de consequência.

Teve quem comentasse que "...se ele jogasse no Fluminense a gente estaria dando gargalhadas..."

Verdade, e não estaria dando gargalhadas do jogador, mas dando gargalhadas do clube oponente. Porque o jogador representa o clube, queiramos ou não, seja justo ou não. E o fato é que a este exato momento tricolores estão gargalhando às custas de rubro-negros. 

E por quê? Porque um moleque irresponsável não sabe o que deveria representar, o que ganha para representar. Porque ele pode ser um tonto, um inocente, um non-sense mas é, antes de tudo, um grande bobo. Que não merece estar onde está, porque nem sabe a importância disso. O mais grave: está cercado por uma cambada de bobos ainda maiores, que não souberam educá-lo. E aí não é problema pequeno não.

O problema aqui, e que se refere dentro de campo, e só faz se realimentar e se multiplicar, se chama “imagem institucional”.

O Flamengo vive um momento de achincalhe geral. Um auto-achincalhe, uma coisa estúpida que brota de dentro para fora. Esta diretoria atual - apesar de concordar que o problema é antigo - levou o Clube de Regatas do Flamengo ao mais baixo nível institucional de sua mais que centenária História. Eu nunca vi o clube tão degradado. Não há desculpa, não há justificativa aceitável. Não há compensação possível. Um grande clube é tão-somente uma imagem.

Um Flamengo é uma idealização. Muros, campos, piscinas, direitos esportivos, a única coisa que tem valor financeiro hoje no Flamengo é a sua marca, a sua trajetória, a paixão que é capaz de gerar. Atentar contra isso é fazer o que de pior pode ser feito à instituição.

Patrícia Amorim foi a pior dirigente que já meteu os pés na Gávea, muito menos pelo que fez, mas principalmente pelo que deixou de fazer, e pelo que deixou fazerem. Não havia como tirar uma foto para ilustrar esta frase. Do alto de sua patética inocência, Diego Maurício deu uma imagem para o Flamengo atual.

Outro sintoma do achincalhe geral pelo qual passa o Flamengo – este, um sintoma que também aflige outros clubes – é a mania inexplicável de pagar altíssimas comissões para que empresas auto intituladas de marketing esportivo façam a negociação entre clubes e possíveis patrocinadores. 

No caso do Flamengo, por conta da equivocadíssima contratação de Ronaldinho Gaúcho, o clube ficou meses à espera da Trafficc, e esta se disse à espera do clube. Caberia à empresa de J.Hawilla apresentar ao Flamengo um patrocinador master para a camisa do time de futebol, além da negociação de outras propriedades. Deste contrato, restaram apenas acusações mútuas e o maior período experimentado pelo clube sem um patrocinador, gerando um déficit infindável no Departamento de Futebol - cujo orçamento contava com um dinheiro que nunca entrou.

Alguém aprendeu a lição? Não. Neste exato momento, Flamengo e Corinthians são deparados com a notícia de que a negociação que ambos faziam com a montadora coreana Hyundai através da empresa 9ine foi suspensa.

Traduzindo ao leitor leigo. Os dois maiores clubes brasileiros precisam que a empresa de Ronaldo Fenômeno os apresente à multinacional de origem coreana, como se os clubes e a marca automobilística fossem desconhecidos mútuos, nenhum executivo de nenhum dos três lados pudesse sacar o telefone e fazer o contato diretamente. É público e notório quem quer vender, quem quer comprar, as partes são conhecidas entre si, e alguém iria ganhar uma comissão para intermediar o negócio. A troco de quê? E nem isso fez a negociação prosperar, sem que os clubes envolvidos pudessem interferir, já que tudo estava nas mãos da compententíssima 9ine que fazia... fazia mesmo o quê?

O pior é que isso virou moda no futebol, provavelmente porque interessa às pessoas que decidem, ainda que não interesse às instituições que representam, se é que me faço entender.

Entretanto, o Flamengo se diz pronto a resgatar sua história recente e reforçar sua marca através da contratação de jogadores com raízes no clube. A paquera agora é com Juan, o zagueiro, e Adriano. Foram, a seu tempo e medida, dois grandes jogadores. Foram, tempo passado. De maneira típica, o Flamengo pensa mais uma vez em se “reforçar” com jogadores com sérias complicações físicas e na fase descendente de suas carreiras. É de uma falta de imaginação, falta de visão, falta de grandeza de pensamento, que nem cabe perder muito tempo comentando.

Mas cabe um contraponto: da única vez em que ousou, em que foi buscar uma fórmula original, na única contratação de expressão que esta diretoria realizou, o desastre foi absoluto e completo. Ronaldinho Gaúcho representa um desperdício de dinheiro, um problema disciplinar, um estorvo técnico e tático, uma liderança negativa, uma imagem decadente, uma contratação negativa em todos os aspectos.

Deve ser por isso que, ainda que não dê o braço a torcer, a diretoria tenha se recolhido rapidamente às soluções medíocres de sempre. Porque, para gente inepta, ousar só faz piorar.

Como poderia uma gente tão obtusa ter realizado pelo Flamengo a parceria que o Boca Juniors acaba de brindar com a inauguração do autoproclamado primeiro hotel temático de um time de futebol no mundo, um belíssimo cinco estrelas no centro de Buenos Aires? Há cerca de seis anos ideia semelhante era discutida dentro do Flamengo como coisa de megalômanos: algo impensável e irrealizável. Está aí a resposta do Boca à mediocridade rubro-negra.

Notícia com o nome do Flamengo não vem colada a uma empreendimento de sucesso. A menos que se considere sucesso a organização de "surubas" com a presença de atletas. É o que fala Vagner Love no aperitivo divulgado da entrevista que acaba de dar para a revista Playboy. É isso: o mundo desabando em volta e um jogador importante dá entrevista para a Playboy falando sobre bebida, noitada, suruba.

Essa é a gestão de marca que o Flamengo faz. Depois reclama que nenhuma empresa séria quer juntar seu nome ao do clube.

Dizia eu entre os mesmos amigos que haviam discordado do Migão (e de mim) que a gestão da Patrícia Amorim é a pior de toda a história. Aí sim, conseguimos algumas vozes concordantes. Mas também amealhamos a pobre lembrança do nome de Edmundo Santos Silva.

Vamos ser justos: por si, o Edmundo foi ainda pior que a Patricida. Até porque, tanto ou mais que ela, atentou contra a imagem da instituição. E, naquele caso, mais por ação que por omissão. No entanto, se o impeachment não salvou a imagem dele, expurgou o clube daquele mal.

Graças ao Edmundo, o Flamengo teve a oportunidade de se destacar na mesmice esportiva e dizer publicamente: "Opa, aqui não!!!". Da Patrícia, nem isso. Nem a capacidade de reunir em torno de si o ódio necessário para expurgá-la também. A Patrícia é o mal morno.

E, se morno, pior.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sobretudo - Crime e Castigo

Hoje a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero, traz um texto enfocando um aspecto muito curioso: a mudança do que significaria um "castigo" na educação de nossos filhos.

Minhas filhas ainda não chegaram na fase enfocada pelo colunista. Mas já sei que não será nada muito diferente.

Crime e Castigo

Vivemos uma época que confirma as teorias do filósofo canadense Marshall MacLuhan em sua “Galáxia de Gutemberg”. Tal qual fofoqueiras de vila sentadas sob os portais de suas casinhas, nossas redes sociais e grupos de discussões via chat e e-mail discutem a vida alheia em tempo real.

Cotidianamente, eu, o Editor Chefe e alguns outros colunistas deste blog, juntamente com amigos das mais diversas partes do Brasil, conversamos sobre futebol, sobre o Flamengo e sobre tudo – e também, às vezes, sobre a Sobretudo.

Alguém postou, por exemplo, que o Sr. Joseph Gonzalez, de Denver, Colorado, obrigou seu filho de 12 anos a segurar publicamente um cartaz que dizia “Sou um ladrão, eu peguei dinheiro de um membro da família”. O garoto tirou US$ 100,00 da carteira de um primo. É o próprio pai que afirma, na reportagem do Denver Post, que o adolescente é um bom garoto e era a primeira vez que fazia algo do tipo. Mas, apesar de reconhecer que “todo mundo comete erros quando jovem”, seu filho merecia aquele castigo.

A notícia correu mundo, traduzida em mil sites e blogs, debatida em milhões de listas. Não vi ninguém que relativizasse o erro do jovem, nem que defendesse que ele não merecia algum castigo. Entretanto, há dúvidas se a estratégia paterna seria eficiente ou não. Há até quem imagine que o trauma da humilhação pública possa criar uma espécie de revolta juvenil e marcar negativamente sua personalidade.

Pesquisei em dois cliques e encontrei a estória da Sra. Dynesha Lax, de Fort Wayne, Indiana, que castigou um filho obrigando-o a usar um cartaz onde se lê “eu minto, roubo e vendo drogas”, depois que outros castigos não o haviam endireitado. 

Há claras diferenças entre os dois casos. No segundo, o adolescente era reincidente. Mas o detalhe principal passou despercebido da matéria do portal G1: o menino andava traficando drogas. Ora, não seria o castigo uma forma de propaganda?

Eu e outros escrevemos que era difícil julgar a reação dos pais, principalmente por não conseguirmos imaginar nossos filhos em situações semelhantes. Daí, o debate passou a ser sobre a eficiência das várias formas possíveis de punir/educar adolescentes.

Meu filho já tem 17 anos. A missão de pai está quase cumprida, agora seremos cada vez mais parceiros, amigos, aprenderemos juntos através da troca. Mas pode ser que eu ainda tenha que agir, aqui e ali, como pai, no sentido de ter que impor uma autoridade, educar, instruir. 

E, apesar de ter o respeito do meu filho, claro que sempre pinta a dúvida de qual ferramenta eu ainda teria à mão. Não cabe mais colocar de castigo, palmadinha na bunda, falar mais alto, aplicar meu outrora fatal olhar de fúria (que, normalmente, substituía qualquer outro artifício). E se eu precisar usar uma ferramenta de imposição da ordem paterna, qual me resta?

Imaginei uma forma bizarra: “filho, se você não fizer assim (ou continuar a fazer assado) eu espero você estar reunido com seus amigos (e amigas), passo perto com ar casual, e te chamo de Geovênia Katherine.” Assim, sem mais, nada de explicações, saindo em seguida, deixando o pepino nas mãos dele. 

O que o amigo leitor acha? Será que um adolescente tímido arriscaria passar uma vergonha tão grande, seja em nome do que for? Pois muitos amigos na internet opinaram que seria inócuo. Eu não entendo nada sobre o que realmente importa para esta geração.

Foi um amigo meu, rubro-negro de Brasília, quem deu a dica através de uma ótima estorinha:

“Um dia desses eu dei um castigo pro meu filho. Enchi o peito e mandei: “eu te avisei, você não escutou, então vai ficar sem o PS3 por uma semana!”

Saí andando, esperando que ele me seguisse desesperado, implorando por piedade. Nada. Pensei: tenho que tirar este puto do sério. Já sei, a tevê. “Olha, e sem tevê também!”

Ele não piscou. Eu jurava que havia um sorriso no canto da boca. Apelei. Fiz algo que não faria nem com o pior inimigo: “E sem computador”. Mexeu um pouco com ele: “Pô. pai...” Mas eu sabia que ele estava fingindo.

E eu pensando: 'onde eu estou errando?' Até que... já sei!

'O celular, me dê já o seu celular. Vai ficar sem celular!'

Em menos de um segundo havia um adolescente fora de si, transtornado, desesperado, implorando perdão, clemência, prometendo que se corrigiria. Mas ficar sem celular, não. Ficar sem o acesso móvel à internet, sem o sms com as gatinhas, aí era demais. É como tirar o ar do cara. Vai por mim, pior que Geovênia Katherine.”

Ok, recado entendido. Obrigado pela ajuda. Os colunistas da Ouro de Tolo Adriana Martins e Walter Monteiro também apoiam seu método com depoimentos pessoais. 

A mão da lei familiar tirará seus celulares se vocês saírem da linha.

Tremei, adolescentes do mundo! 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Sobretudo - "O Flamengo e a Ousadia Burra - ou Sonhando o Sonho Certo"


Abrindo a semana, após longo interregno temos a volta da coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. No texto de hoje ele faz um bom exercício de racionalização da gestão dentro de campo do Flamengo, que infelizmente não vejo como ocorrer no clube nos próximos 10 ou 20 anos.

Em tempo: lógico que é diferente da vida real, mas no simulador Football Manager a estratégia de apostar em jovens valores revela-se sempre acertada a médio e longo prazo.

O Flamengo e a Ousadia Burra - ou Sonhando o Sonho Certo

O texto do Editor-Chefe postado na última quinta feira sobre o Flamengo me fez atropelar compromissos e sentar para escrever. A princípio, um comentário no post. Foi ficando grande e acabou em coluna. Assim que é bom, porque parece ser a única forma deste articulista apresentar-se para o serviço.

Ainda que – devo logo dizer – seja uma coluna longa que só interessará aos que tiveram na vida o privilégio de serem torcedores do Flamengo [N.do.E.: caro leitor torcedor de outro time: o conceito deste post serve a boa parte das equipes brasileiras]

Bem, andava eu fazendo umas continhas, pesquisando o valor pago nas mais diversas transações do futebol (eu faço estas bobagens pelo simples exercício mental) quando me deparo com uma contundente afirmação do Sr. Michel Levy, soberano das alquebradas finanças rubro-negras a respeito das possibilidades do ex-jogador AAdriano voltar à Gávea: “o Flamengo pode tudo”. 

Verdade, e infelizmente verdade apenas no pior dos sentidos. Num clube em que o Sr. Levy apita alguma coisa, pode acontecer de tudo mesmo. Até esta possibilidade estapafúrdia da volta do AAdriano vir a se tornar realidade, se é que já não se tornou no momento em que estas linhas estiverem no blog.

É impressionante como o Flamengo se supera em fazer negócios ruins, prejudiciais à imagem do clube, sem pé nem cabeça, por puro impulso de jogar dinheiro no lixo. É a ousadia burra, sem perspectivas.

Pensei em outra forma de o Flamengo tudo poder. Ou melhor, poder algo fora do quadradinho da administração do esporte no Brasil. Seria a ousadia do bem, uma proposta de virada na mesa. Poderia pensar em como colocar de pé em três tempos um CT de excelência, em como aproveitar o potencial de mercado da marca Flamengo, em como finalmente construir um estádio próprio e decente, em novas formas de captação de recursos, em regras de governança, em democratização das relações no clube, poderia pensar em muitas e muitas coisas.

Mas tomei um atalho que até hoje eu sempre evitava, o seguinte: a cada vez que alguém se propõe a discutir seriamente a administração esportiva, a gestão, os princípios, vê-se invariavelmente enredado numa discussão paralela que deveria acontecer a posteriori, mas que é o começo e o fim de todo papo sobre futebol - vai contratar quem, quem será o técnico, que craque vestirá a camisa 10? Torcedor, sendo sócio ou não, acaba querendo discutir só isso.

Ok, topo a parada, mas tem que explicar umas coisinhas antes.

Para começar, voltemos àquela pesquisa de mercado. Uma coisa que chama a atenção no valor das transferências no futebol mundial é como os jogadores se valorizam depois de uma faixa etária entre 23 e 25 anos. Deveria ser o contrário, pela lógica esperada de mercado, porque quanto mais novo o atleta, mais tempo de carreira ele tem pela frente. Não faz sentido comprar os direitos de um cara de 30 anos. Acontece que os clubes no mundo todo fazem bobagens parecidas, e uma das principais é avaliar o jogador pelo que ele já jogou no passado (distante ou imediato), e menos pelo potencial que ele demonstrou ter para jogar no futuro.

Com menos história, menos títulos no currículo, menos nome, um atleta por volta dos 21 anos é subvalorizado pelo mercado comprador, principalmente pelos clubes mais ricos da Europa, que ditam as maiores cifras. Portanto, o potencial de valorização a médio prazo de jogadores de até 23 anos (ou um pouco mais, dependendo da posição) é imenso.

Por exemplo: o goleiro mais valorizado do mundo de até 23 anos é o espanhol De Gea, avaliado em R$40 milhões. Um valor astronômico e, ainda assim, bem aquém do preço de cada um dos três goleiros mais caros (Casillas, Neuer e Petr Cech – todos já na fase final da carreira) que custam entre R$62 e 87 milhões. A tendência da percepção do mercado é a de que De Gea se tornará em breve um dos três ou cinco principais goleiros do mundo mas, ainda que isso não se confirme de todo, certamente ele custará mais de R$50 milhões (em valores corrigidos) em breve, uma valorização real de 20% em um ou dois anos. Entre os brasileiros, o mais valorizado dos novatos é Neto, da Fiorentina (R$ 7 milhões), enquanto o agora veterano Victor, do Grêmio, mesmo sem uma carreira europeia vale o dobro.

O mesmo fenômeno se repete para todas as posições. Abaixo, uma tabela comparativa:

Defensores de até 23 anos:
Phil Jones, Manchester Untd – R$44 milhões
Danilo, Porto – R$24 milhões
Coates, Liverpool – R$ 13 milhões

Defensores com mais de 23 anos:
Piqué – R$94 milhões
Vidic – R$85 milhões
Thiago Silva - R$ 80 milhões

Meiocampistas de até 23 anos:
Gareth Bale, Tottenhan - R$87 milhões
Pastore, PSG - R$75 milhões
Thiago Alcântara, Barcelona - R$48 milhões

Meiocampistas com mais de 23 anos:
Iniesta – R$160 milhões
Ribery – R$100 milhões
Snejder - R$94 milhões

Atacantes de até 23 anos:
Thomas Muller - R$85 milhões
Neymar - R$75 milhões
Balotelli - R$75 milhões

Atacantes com mais de 23 anos:
Messi - R$250 milhões
Rooney - R$160 milhões
Aguero - R$120 milhões


Podemos imaginar que uma ou outra promessa possa deixar a desejar no futuro, mas o mais provável é que a performance dos jogadores mais velhos comece antes a sofrer o peso dos anos, mais cedo ou mais tarde, em todos os casos. Ainda assim, o valor de mercado dos jogadores maduros é consistentemente mais alto. Isso só faz sentido para os grandes clubes europeus uma vez que eles têm necessidade de resultados imediatos, estando propensos a assumir o alto custo de descartar jogadores em final de carreira sem compensação pelo investimento anteriormente feito, substituindo-os por jogadores já testados em outros clubes e ligas e com pouca predisposição em arriscar-se com iniciantes, por mais talentosos que sejam.

Por outro lado, este fenômeno também explica por que jogadores de grande talento e potencial saem dos seus clubes de formação nos países periféricos por preços muito inferiores aos observados nas transações internas na Europa. É necessário, antes, vê-los postos à prova em sua capacidade de adaptação e ação sob pressão.

A soma destes dados mostra uma oportunidade de ouro para um clube como o Flamengo. É possível investir em jovens em processo de valorização crescente no mercado latino-americano, alguns até com experiência internacional, objetivando o retorno financeiro em cerca de três ou quatro anos. Claro, o clube não tem dinheiro para a contratação sistemática de jogadores assim. Mas uma vez que trabalhasse com transparência e sob um clima de boa governança e respeito a contratos, uma bolsa de investidores poderia ser atraída.

Vamos pensar em cerca de R$ 250 milhões captados para retorno aos investidores em quatro anos. É possível montar um time inteiro de jovens talentos com altíssimo potencial de valorização. O Flamengo, como dono da maior torcida do Brasil, jogando campeonatos de alta performance e com o time sob constante pressão e visibilidade, é a melhor vitrine nativa imaginável para a valorização destes atletas.

Para começar, o Flamengo teria que contratar um técnico compromissado com um estilo de futebol que combinasse com a imagem do clube e com aquilo que se espera de jogadores talentosos. Ou seja, o compromisso do Flamengo deveria ser treinar e jogar, desde as equipes de base, num estilo próprio, com brilho, velocidade, garra, toque, ofensividade, pressão no campo adversário (seja marcando ou atacando). Há poucos técnicos no mundo com este perfil, a maioria de escola argentina ou holandesa. O melhor exemplo não está disponível para contratação: Pep Guardiola.

Mas há um outro discípulo de Marcelo Bielsa (este mesmo um bom nome) que montou um time com estas características e que poderia fazer história caso dispusesse de mais talentos: Jorge Sampaoli, o argentino que atualmente dirige La U (Chile). Claro que, a cada nome que citarmos aqui, devemos considerar a disponibilidade, e que há opções naturais e semelhantes ao exemplo que estamos usando. Da mesma forma, valerá também para os jogadores.

Bem, o segundo passo é blindar o Departamento de Futebol, dar as condições para a equipe treinar e estar concentrada em suas missões, criar critérios claros de avaliação e premiação por resultados (de preferência, por contrato) e preparar as condições motivadoras para atração e retenção que favoreçam a contratação de jogadores talentosos interessados num projeto de médio prazo, focados no desenvolvimento de suas carreiras e compromissados com este projeto até além de seus ganhos financeiros (apesar de que este seja um item fundamental).

Terceiro: partir para as contratações. Repito que esta é uma lista mais conceitual do que atrelada a nomes “imprescindíveis”. Os nomes são balizadores. Os valores foram todos arredondados para cima, considerando a percepção do mercado de que o Flamengo (ou bolsa de investidores em seu nome) estaria inflacionando um pouco o mercado com seu aporte, e que o simples interesse real em determinado atleta alavanca sua valorização instantaneamente.

O primeiro nome seria o de Dedé, zagueiro do Vasco cotado para o mercado europeu em cerca de até R$ 18 milhões. Uma oferta entre R$ 20 e 25 milhões pode ser irresistível. Nome bastante cotado para Olimpíadas e Copa, tem rentabilidade praticamente garantida para depois de 2014. Eleito o segundo melhor zagueiro das Américas em 2011, viria a se somar a Marcos Gonzalez, eleito à sua frente, formando aquela que seria a melhor zaga das Américas.

Para as laterais, duas jovens revelações que dariam velocidade e fôlego ao time, ambos cotados em R$ 15 milhões: Mário Fernandes, do Grêmio e Alex Sandro, do Porto.

Para a posição de volante, três jogadores com características complementares, todos destacados pela qualidade na saída de jogo: Marcelo Díaz (Un.do Chile, 25 anos, R$ 5 milhões, polivalente, capitão e termômetro da La U de Sampaoli), Casemiro (São Paulo, 20 anos, R$20 milhões) e Fernando (Grêmio, 20 anos, R$10 milhões).

Para a meia, três jogadores versáteis, de intensa movimentação e qualidade no passe, dois deles em idade olímpica: Oscar (Internacional, 20 anos, R$20 milhões) e Giuliano (Dnipro, 22 anos, R$20 milhões). O terceiro seria um jogador para ser a base do time, com mais experiência e liderança, mas ainda em idade para render bem por muitos anos: Hernanes (Lazio, 27 anos) cujo valor no mercado europeu está cotado em R$ 37 milhões, mas para o qual seria obrigatória uma oferta mais vantajosa para a Lazio, na casa dos R$50 milhões.

No ataque, Vagner Love receberia a ajuda de André (Atlético Mineiro, 21 anos, R$15 milhões) e do chileno Eduardo Vargas (22 anos, R$30 milhões) que recentemente trocou a Universidad de Chile pelo Napoli.

Nenhum desses jogadores pertenceria ao Flamengo integralmente. Seus direitos estariam vinculados à bolsa de investimentos, através do clube. A expectativa é que venham por um contrato de 5 anos e que cumpram, em média, entre 3 a 4 anos deste contrato, sendo repassados em seguida ao mercado europeu. Um dos fatores de atração dos jogadores seria exatamente a formação de um supertime, uma grande vitrine vencedora, que jogasse um futebol moderno e competitivo, talentoso e atraente, capaz de impulsionar e marcar suas carreiras.

O clube teria que reverter esta imagem em produtos e em fatores de atração de parceiros, para suportar pagar a folha de salários deste supertime, uma vez que não teria custos de contratação.

Esta estratégia só é válida porque o Flamengo possui, hoje, uma geração emergente com muitas e jovens promessas, mas que precisa de algum tempo para amadurecer e poder substituir estas estrelas em ascensão quando forem revendidas. Por um lado, este projeto tenta garantir uma hegemonia temporária ao clube, tempo para lapidar uma nova geração de atletas e preparar as gerações seguintes. Todas, sistematicamente inseridas num projeto mais amplo de formação de um estilo rubro-negro de jogo, implantado desde a base: um jogo coletivo, rápido, baseado no toque de bola e na habilidade, com velocidade e força de equipe.

Considerando a média do mercado, e a escolha criteriosa de atletas, pode-se projetar um ganho real já reajustado de 50 a 100% do valor investido inicialmente na contratação dos jogadores. A geração de uma força virtuosa pode impulsionar outros projetos administrativos e desatar nós na gestão do clube.

A preparação de uma geração sucessória começa na montagem criteriosa do elenco, que deve priorizar os nomes formados no clube e de baixa idade. Também deve-se manter um elenco enxuto, de modo a dar oportunidades a todos os que estiverem no clube e abrir a possibilidade de empréstimos e novas experiências para os que forem “estourando” idade sem aproveitamento imediato.

Desta forma, completam a equipe Paulo Victor (25 anos), César (20), Welinton (23), Frauches (19), Galhardo (20), Muralha (19), Luis Antônio (19), Thomás (19), Camacho (22), Adryan (17) e Lucas (20), oriundos da base e que formam a estrutura central do Flamengo de daqui a três a quatro anos. A estes, somam-se David Brás (25) e Magal (24), jovens contratados que podem ser aprimorados para os próximos anos. Os experientes Felipe (28), Marcos Gonzalez (32) e Vagner Love (27) somam-se aos contratados Hernanes (27) e Marcelo Díaz (25) formando a espinha dorsal mais madura do time titular.

Os demais jovens do atual elenco voltam para a base, ou para os que já têm mais de 20 anos, emprestados para adquirir rodagem. Os veteranos do atual elenco seriam emprestados, negociados, teriam os contratos rescindidos por acordo ou treinariam à parte até o fim dos contratos.

Difícil montar este projeto? Certamente. Impossível? Não, basta uma mudança de postura e comportamento porque, basicamente, trata-se de ofertar ao mercado uma possibilidade de investimento com alto potencial de ganho futuro, devendo-se ter credibilidade para tal. Mas um clube onde há espaço para os Levys da vida não pode tudo. Pode o AAdriano. Pode só qualquer bobagem.

(Fotos: O Globo e Lance)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sobretudo - "Copyright is wrong"


Após uma longa ausência, temos de volta a coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. O tema de hoje são as questões envolvendo o "copyright" e as tentativas da indústria fonográfica e políticos reacionários de controlar o que se pode fazer na internet, além de levantar alguns aspectos pouco lembrados do debate. 

Aliás, este tema foi alvo de excelente matéria na "Carta Capital" semana passada, infelizmente só disponível em mídia impressa.

Antes de passarmos ao texto, um dado para os leitores refletirem: 90% da discografia de samba está fora de catálogo. Ou seja, não tenho o direito de comprar, mesmo querendo. E irei preso por baixar este patrimônio da música brasileira?

Copyright is wrong

Há uns poucos anos, no Faustão, o gordo lá, com uma campanha paga pelas gravadoras, perguntava a todos os convidados o quanto a pirataria prejudicava a vida dos artistas, puxava o assunto, ele mesmo respondia, aquelas coisas dele... aí me entra o Zeca Pagodinho, o Fausto ataca de "vendeu quanto deste disco, Zeca?"

"- Ah, já vendeu um montão, o disco tá indo bem, Fausto."

"- Ô loco, meu!!! Esse é o Zeca!!! E isso num país que tem pirataria. Se vendeu isso, era para ter vendido 10 vezes mais. Isso prejudica o artista, não é Zeca?"

"- Só se for os outros, Fausto. Porque, para mim, é até bom. Eu vivo de show. Esses caras divulgam a minha música, o show..."

Corte rápido, aumenta o BG da banda. " Quem sabe faz ao vivo, meu. Zeca Pagodinho!!!"

Copyright, ao contrário do que dizem, é um abuso sobre o direito autoral. As primeiras reuniões internacionais sobre isso não visavam a proteção do autor, do homem por detrás da obra. A preocupação sempre foi de preservar as exclusividades do capital. Os grandes beneficiários são as corporações. Desde o século XIX, porque é um modelo que começou torto.

O atual lobby no Congresso Americano a favor da aprovação de regras restritivas à troca de informação e arquivos na internet, além de um atentado à liberdade de expressão, é uma luta de corporações contra o cidadão comum. Nenhum artista sério deveria ser envolvido nesta cruzada rumo ao obscurantismo.

Algumas das mais importantes regras do mercado de direitos sobre obras foram impostas pelo governo americano. Os europeus tinham propostas muito mais livres, mas os conglomerados americanos impuseram rigidez ao trato dos direitos autorais. Quem quiser que procure nos livros de História ou nos primórdios do chamado Direito Autoral.

Nenhuma obra, seja ela científica ou artística, é fruto do nada, é uma afloração espontânea do gênio humano. Toda criação, na verdade, é uma adaptação, uma "re-criação".

Ninguém fez a primeira música, por exemplo. 

Uma "primeira música" humana foi fruto de um estalar de árvore, da reverberação de uma pedra, do canto de um pássaro, de uma imitação da natureza. A música é um dom de Deus, é uma coisa natural que vai sendo rearranjada, reordenada. Assim como o autor não paga nada ao autor anterior, eu não devo pagar nada ao autor, tampouco à gravadora, à editora, à distribuidora.

É diferente do disco. Eu compro disco. Estou pagando pelo veículo, pela forma, pela embalagem tecnológica, pelo invólucro da música. É diferente do show. Eu vou a shows. Estou pagando pela presença física do artista, pelo trabalho, pelo local e equipamento, pelo tempo que dedicaram ao meu prazer auditivo.

Eu respeito o trabalho, respeito o artista, respeito os técnicos e até os burocratas do showbizz. Pago pelo trabalho deles, mas não por um coisa etérea que, afinal, é o trabalho de toda uma sociedade, de toda a História, do arcabouço cultural, não é só fruto da imaginação do autor.

Alguém que cria um samba, criou o samba do nada, nunca ouviu um samba, desconhece todo o arcabouço cultural do samba? Pede para um esloveno, que cresceu e viveu na Eslovênia, para ele criar um samba, ele consegue? 

Os criadores de sambas do passado, os primeiros homens a colocar a pele de animais sobre o tronco oco de árvores para fazer o primitivo atabaque, o primeiro branco a estruturar sobre aquele pulsar ritmico uma harmonia européia, aqueles que adaptaram intuitivamente a pentatonia à dodecatonia... quando o sambista de hoje faz seu samba, paga algum tributo a estes senhores mortos há décadas, séculos? Então, por que eu devo pagar pelo direito autoral, se o próprio autor se apropria de conceitos anteriores sem pagar por isso?

Ora, cultura está no ar, é como o oxigênio que se respira, não há pedágio para isso. 

Eu escrevo textos, faço poesia, já fiz muita música, já fiz jingle. Esta não é a opinião de alguém que só consome cultura. É de alguém que, apesar de insignificante na indústria cultural, produz aqui e ali bens culturais. Este texto mesmo, o que é? Algo que, em teoria, deveria ser protegido por copyright, certo?

Pois eu não quero receber por isso. Não pela autoria.

Claro que isso não dá ao direito que alguém cobre por mim, que se aproprie do tempo que eu levei escrevendo este texto para receber dinheiro por ele no meu lugar. Isso sim é roubo. Este direito deve ser protegido.

Assim como não é correto que alguém publique sem declarar autoria, ou deturpe. Isso deve ser protegido.

Não defendo a exploração comercial da obra alheia, do trabalho alheio. Defendo o direito de ir e vir da obra de arte, do trabalho científico, da informação, do bem cultural. Defendo o direito de troca pessoal de conteúdos, sem utilização comercial.

Defendo que uma música possa ser ouvida na internet com a mesma liberdade que pode ser ouvida no rádio. O que muda? O meio? Defendo que possa ser baixada na internet da mesma forma que eu podia grava-las do rádio numa fita k7. 

O que mudou? A tecnologia?

Quem acha que é a mesma coisa ouvir a música baixada em mp3, por exemplo, ou gravada de fábrica sobre um CD, das duas uma: ou é surdo ou forçou a barra. Ou - o que é mais provável - ficou deseducado musicalmente pela saraivada de sub-música de péssima qualidade oferecida pelas mesmas corporações que agora reclamam.

Efetivamente, dá no mesmo ouvir 'É o Tchan' em qualquer midia. Mas é diferente ouvir Miles Davis. Quem optou por um modelo comercial em que a sonoridade do Michel Teló é o que há não pode reclamar de nada. A indústria se fez sobre um bem cultural diluindo este bem culural até transforma-lo em nada. É suicídio, e depois o próprio suicida reclama da arma que o matou.

O Walter Monteiro, autor da coluna "Bissexta" dese blog, faz alguns dias apenas cunhou uma frase muito boa, que era algo como: "as gravadoras só existem por causa da evolução tecnológica; e passam a vida a brigar contra a evolução tecnológica." Era assim a frase, Walter? Mas era por aí, e é uma constatação muito boa mesmo. Só espero não ter incorrido em crime ao "samplear" a frase do Walter no meu texto. 

Afinal, ele é advogado.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobretudo - "Fogueiras e Privatarias"


Nesta sexta, a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero, traz um dos melhores textos sobre o livro "A Privataria Tucana", lançado recentemente. Indispensável.

O leitor deve estar estranhando a imagem. O que faz o burro do Shrek em um texto sobre um livro e sobre a imprensa? O leitor entenderá.

Fogueiras e Privatarias

Eu não li o livro do Amaury. Começo a coluna fora da ordem natural e do encadeamento lógico do texto. Vou logo naquilo que é mais importante: não li, não posso ser acusado de nada. 

Dito isso, voltemos ao começo.

Li sim, ao longo de três viagens de trem, uma edição especial da revista Superinteressante (Ed. Abril) que foi lançada em outubro sob o título de “Os Maiores Erros da Humanidade – 39 decisões que não deveríamos ter tomado”. Recomendo. Leve, divertida, despretensiosa, em linguagem bem coloquial como é típico na revista.

De quebra, colecionei assunto para um sem-número de novas colunas, a maioria das quais lamentarei muito não ter tempo para escrever. Entretanto, uma das matérias me estimulou especialmente esta semana. À página 32, a revista aponta um dos piores erros da História: a censura.

Fator de atraso na disseminação da cultura e da ciência, instrumento da força bruta contra a inteligência, abrigo dos covardes, mecanismo de afirmação dos manipuladores, a proibição e o constrangimento da livre manifestação do pensamento alheio jamais trouxe algo de bom para qualquer sociedade. Mas, ao contrário do que poderia nos levar a pensar a onda contemporânea do politicamente correto, muita gente boa já embarcou nessa ideia que, afinal, está enraizada no modus operandi humano desde antes de seus primeiros registros – que devem ter sido varridos das estantes da História pelos censores.

Sócrates - o filósofo - morreu de cicuta mais de 24 séculos antes de Sócrates - o boleiro - ter morrido de cirrose. Ambos eram craques da polêmica e contestação, ambos morreram pela boca, mas só ao primeiro coube o castigo de ser obrigado a ingerir o veneno que o matou. Seu crime teria sido ofender a religião e os costumes dos gregos, aqueles mesmos gregos chamados de “pais da democracia”. O curioso é que seu mais conhecido seguidor, Platão, codificou e imortalizou as ideias do mestre, mas contraditoriamente também se transformou em defensor da censura.

Correu pelo tempo e pelo mundo a mania tirânica de contrapor ideias e argumentos com brutalidade. Da China antiga, em que aqueles que possuíssem livros podiam ser castrados ou enviados como escravos à construção da Grande Muralha, até o pós-modernismo internético, onde sua morte numa rede social pode ser decretada por um autointitulado mediador, o homem convive e até apoia a censura em toda parte, de todas as formas.

A prensa de Guttemberg, que tornou o livro a primeira potencial 'mass media' do universo, deveria ter trazido a verdadeira luz do conhecimento à humanidade. Mas, por muito tempo, mais luz foi produzida nas fogueiras do que nas bibliotecas. Queimaram-se livros como se fossem bruxas, bruxas como se fossem gatos, gatos como se fossem a peste, gente como se fosse... gente. 

Não houve transformação científica, revolução de costumes, afirmação de direitos, avanço social, compreensão da existência que não tenha sido produzida às custas de gente chamuscada. No mínimo, em sua credibilidade.

A fogueira quase sempre piramidal, formada por um pouco de madeira, combustível e vítimas foi bastante comum desde a Idade Média, invadindo o século XX, alimentada por inimigos e livros. E livros inimigos, principalmente. Esta é a fogueira tradicional, aquela tantas vezes utilizada pela Inquisição e pelo genocídio nazista – um genocídio que, antes de assassinar gente, tratou de eliminar ideias. Já no século XIX o poeta alemão Heinrich Heine escreveu que “onde se queimam livros, acabam queimando seres humanos”, mas seus compatriotas não entenderam a mensagem - e deu no que deu.

A fogueira agora é diferente. Já não pega bem o cheiro de carne humana e o desperdício de papel, deve ter relação com o efeito estufa, sei lá eu. Ao contrário, o manual do censor 'modernete' ensina que é preferível tacar a pecha de antidemocrático e brutal no opositor. A censura começa pela desarticulação e descrédito daquele que apresenta conceitos dissidentes da ordem geral, ou do previamente esperado dentro de um determinado grupo.

Imagine o amigo leitor um sujeito hipotético nascido e criado nos Estados Unidos que se declare socialista e fundamentalista islâmico? É preciso queimar este sujeito, ou algo que ele tenha escrito? Não, basta trata-lo publicamente como maluco, desqualifica-lo, desarticular seu discurso pela simples exposição caricata. Todos nós fazemos isso, por pilhéria ou maldade pontual, desde os tempos do jardim de infância. O que mudou?

A sistematização, a transformação em método, em avalanche do poder combinado de mídia de massa (sempre relacionado a dinheiro alto) e interesses de manutenção do status quo.

Por isso eu me apressei em declarar que não li o livro do Amaury. O sujeito é um maluco, um criminoso, um outsider, certo? Bem, até a época da campanha eleitoral, ele era um jornalista com passagem por grandes redações e vários prêmios conquistados com reportagens investigativas. Mas ele passou a investigar os caciques tucanos? Ah, então certamente é um louco de carteirinha. Afinal, qualquer foca sabe que, na grande imprensa, apenas petistas e seus aliados merecem investigação.

[N.do.E.: a entrevista abaixo com o autor do livro é bastante didática]


Amaury Ribeiro Jr responde a processo por suposta montagem de dossiê político contra José Serra. Em sua defesa preliminar, Amaury sustentou que a investigação que fazia em 2010 não tinha ligação com a campanha, mas com um livro que viria a publicar. Riram da cara dele, disseram que era desculpa esfarrapada.

O livro está aí, publicado e com a primeira edição esgotada em apenas um dia, apesar de eu não ter lido, e fazer questão de explicitar isso. Mas o livro não era desculpa, ele existe. E parece que a defesa feita pelo autor, à época das acusações às quais responde, era verdadeira.

Para José Serra, Amaury é um desqualificado, um criminoso. Apesar de estar respondendo por um crime de opinião, ao que tudo indica. Ele responde por investigar suspeitos, que é a sua profissão. Mas para Serra isso torna Amaury um criminoso.

Mas não faz de Verônica Serra, sua filha, que é acusada das mesmas coisas, uma criminosa igual. Pois é, Verônica Serra também responde a processo pela mesma acusação. Mas Verônica não é jornalista nem escreveu livros. E mesmo que tivesse escrito, eu não teria lido.

Muitos não leram o “A Privataria Tucana”, o livro do Amaury, simplesmente porque não souberam dele. A chamada grande imprensa se calou. Apenas ontem, seis dias depois do lançamento, a Folha de São Paulo noticiou sua existência.

Durante a campanha presidencial, as suspeitas sobre o autor, e que poderiam respingar sobre o comitê de Dilma, foram manchete em todos os grandes órgãos impressos e todos os telejornais. Mas o livro com o conteúdo daquilo que o jornalista investigava não teria, na opinião desta mesma midia, importância igual. Não deram nada. Nem crítica, nem citação. Nada. Silêncio sepulcral, cúmplice, constrangedor, intimidador, revelador e, por fim, confessional.

As grandes empresas de comunicação também aparecem no livro como personagens beneficiadas pelo esquema privatista. É o que dizem as resenhas independentes na internet, as esparsas manifestações dos grupos minoritários Record/Universal e Gazeta. Isso explicaria muita coisa, desde este silêncio sobre o livro até a postura editorial seletiva nos últimos anos.

A matéria da Folha revela um pouco um dos motivos do silêncio: é calar-se ou fazer o leitor de tonto. A Folha, depois de claudicar quase uma semana, marcou x na segunda opção. Se bem que, na maioria dos casos dos leitores da Folha, a avaliação do jornal sobre eles nem é injusta.

Dois trechos da matéria no site do jornal: 

“O livro mostra que uma empresa controlada pelo empresário Carlos Jereissati nas Ilhas Cayman repassou US$ 410 mil para Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil e amigo de Serra. Segundo os documentos apresentados pelo livro, a transferência foi feita dois anos depois do leilão em que um grupo controlado por Jereissati arrematou o controle da antiga Telemar. Mas o livro não exibe prova de que a transação tenha algo a ver com Serra e a privatização.” 

“O livro sustenta que amigos e parentes de Serra mantiveram empresas em paraísos fiscais e as usaram para movimentar milhões de dólares entre 1993 e 2003, mas não oferece nenhuma prova de que esse dinheiro tenha relação com as privatizações.” 

O que a Folha pretende? Passar recibo de idiota? 

Seja o que for, apenas a Folha e o próprio Serra, até agora, assumiram estar num mundo em que provas contundentes são calúnias inconclusivas. Os outros preferiram se calar. 

No Jornal da Gazeta do dia 12 de dezembro, o comentarista político Bob Fernandes falou mais sobre a postura inaceitável da imprensa. 



O texto pode ser lido em: 


Repito: eu não li o livro do Amaury. Temo ser tratado como um lunático, um dissidente merecedor de gullag. Investigações? Ora, apenas contra o PT. Contra o Serra, contra o cacicado tucano? Ora, eles nem merecem os holofotes, certo? Por que investigar quem já nem está no poder? Por que tentar mostrar que aqueles que apontam dedos acusadores contra a corrupção são mais corruptos, em muitos casos teriam montado os esquemas que agora denunciam? Tolice, perda de tempo. 

Até porque, quem tentou comprar o livro não conseguiu. Segundo a versão oficial, mesmo sem nenhuma divulgação, vendeu toda a tiragem em um único dia. Eu presenciei gerentes de livraria afirmando de pés juntos, no domingo, dois dias depois do lançamento, que nem sabiam do que se tratava.

Grandes redes de livrarias, coisas gigantes, propriedades de mega-empresários da cultura paulista. Não viram, nem passou pela prateleira. Olhos esbugalhados, alguns iam conferir nos terminais de computadores. Estava lá, estoques existentes, prateleiras vazias. Um mistério total. Há versões de compras a atacado feitas por pessoas apressadas. Há relatos de pressões feitas por telefone a livreiros e editores. Deve ser tudo mentira, assim como as acusações e provas contidas no livro. 

Não li “A Privataria Tucana”. Há uma segunda edição agora, mais 80 mil exemplares. Talvez não dê para esconder na prateleira, talvez não dê para deixar de entregar para quem já comprou pela internet, talvez não dê para a grande imprensa ignorar um livro que o boca-a-boca da internet fez chegar ao topo das listas dos mais vendidos. 

Houve um tempo em que o Estadão publicava receitas culinárias no espaço reservado para as matérias censuradas pela ditadura militar. Talvez eu não tenha mesmo tempo para ler “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr, Geração Editorial, 2011. É que eu acabei de adquirir uma edição de Receitas da Dona Benta, e isso deve me consumir todo tempo vago daqui até o final do ano. 

Talvez eu faça como muitos jovens emplumados, compre vários exemplares, e jogue-os numa fogueira. Porque a chama da censura arde, mas a luz brilha no final do túnel. [N.do.E.: a luz da lanterna do carcereiro?]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobretudo - Um Brinde à Vida

E eis que após um longo interregno temos mais uma edição da coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero (na foto ao lado). O tema de hoje é uma ode àquelas coisas que, na correria da vida, acabamos nos esquecendo.

Um Brinde à Vida

Saúde, leitor, saúde! O amigo prefere cerveja ou vinho¿  Ai, ai, este teclado... Eu seria capaz de jurar que a interrogação se dava por um “ctrl+alt+w”, mas apareceu esta interrogação de cabeça para baixo e sotaque espanhol.

Bem, caso  sua escolha seja pelo vinho, o brinde proposto é com um chileno Santa Helena Reservado Cabernet-Merlot 2010. Desculpe, não é um grande vinho. Mas está longe de ser ruim. Havia na adega do restaurante do hotel um correto Casillero, que eu adoro. Mas era um Cabernet puro-sangue, e viajo acompanhado de minha esposa e minha sobrinha, que mereceram a suavidade da uva merlot para lhes acompanhar o fillet do almoço. Bebi mais que elas, mas somos bastante comportados e sobrou um pouco - que foi trazido para o frigobar do quarto.

Caso o amigo seja cervejeiro, teve mais sorte desta vez. 

O brinde será da belga Chimay, trapista, dourada-acobreada, consistente [N.doE.: trippel. Boa escolha]. Estava há meses para experimentar uma dessas, sugestão e insistência do Migão, editor-chefe-supremo deste espaço, conhecedor e bom consumidor de cervejas de qualidade superior. Mas caso o paladar do amigo leitor seja mais afeito às cervejas menos elaboradas, de sabor diferenciado porém suave, aceite o brinde com uma leve cerveja alemã de trigo chamada Weinstephaner Vitus - que o amável garçon garantiu ser a mais antiga cerveja, datada de 1040 (ou algo assim, mas a nossa foi engarrafada recentemente), também feita por monges trapistas (e, neste exato momento, se o Migão não me decepcionar, haverá uma nota do editor aqui, confirmando ou refutando esta informação repassada de orelhada pelo colunista).

[N.do.E.: o colunista acertou em termos. A Weinstephaner é a mais antiga cervejaria em operação no mundo, datada de 1040, mas não pode ser considerada trapista - embora tenha origem, também, em mosteiro. Como expliquei em post anterior somente sete cervejarias no mundo podem utilizar este rótulo]

Escrevo a Sobretudo de hoje de Monte Verde, uma incrível quase-cidade encravada no lado mineiro da Serra da Mantiqueira, cuja representante chique é a paulista Campos do Jordão. Não conheço Campos e aposto que Monte Verde é mais legal. O verde não está só no nome do distrito serrano (1400m) do Município de Camanducaia, está em todo lugar que a vista possa alcançar - está agora em minhas narinas, meu pulmão.

Passei aqui, há dois anos, minha última lua de mel. Fato que levou quase 20 anos para se concretizar: meu casamento com a Mara merecia a bênção de um lugar tão mágico. Voltamos agora, para uma mini-temporada de três dias num hotel-fazenda para lá de acolhedor (Hotel Itapuá – www.itapuamonteverde.com.br) que eu recomendo fortemente. Simples e atencioso em tudo, combinando em tudo com a proposta de roça-com-estrutura do local.

E como seria isso¿ (olha a interrogação aí outra vez!). Bem, a internet do quarto é impecável, muito melhor do que a minha conexão caseira; o serviço é de primeira; o restaurante oferece pratos elaborados, mas também uma salada de mini-folhas orgânicas recém-colhidas, puras, a serem regadas por um azeite e um aceto balsâmico, e só. Possui uma adega que dá conta do básico, a cervejaria com boas opções no centrinho da cidade, restaurantes para todos os gostos, chocolates belgas como base para criativas invenções locais e por aí vai.

Então, o bicho-de-asfalto aqui pode se dar aos pequenos luxos urbanos: mas também pode, aos 45 anos, sentir pela primeira vez a sensação de montar a cavalo. Sereno é, como seus colegas de curral, um doce de criatura equina, paciente, gentil. Levou cuidadosamente meu mal conservado corpo nas costas por quase uma hora e me fez perder o receio que sempre me impediu de cavalgar, apesar da vontade ancestral.

Um brinde a isso!

Outro à sauna e à sala de ginástica, à truta com molho de cogumelos, às serigrafias com pequenas corujas nas paredes do quarto, às cervejas simples e complexas, à rede na varanda com visão generosa da mata nativa e das colinas de replantio da Melhoramentos, às estradinhas de terra, à dose de Amaretto del Orso que tão bem coroou o almoço de ontem, à lenha na fogueira, ao dvd Frampton Comes Alive II que eu estou vendo agora, às incontáveis e hidratantes latas de Coca-Cola consumidas sem culpa, à minha filha canina Pandora que é uma companhia de viagem melhor que qualquer criança que eu conheça, às horas de leitura do História das Guerras organizado pelo multitarefa Demétrio Magnoli...

Enfim, a tudo que me fez relaxar um pouco do tanto que eu ando precisando, a desligar por uns dias das obrigações cotidianas (que eu, masoquistamente, atraio para mim) e a todas as coisas que me fizeram parar e escrever mais uma coluna. E poder repetir para o Migão que, apesar de “furar” mais colunas “quase-prontas” do que escrevê-las, talvez eu seja o colunista que encontra mais (ou um dos mais) prazer pessoal em escrever aqui.

Afinal, um lugar como Monte Verde me faz lembrar que, no fundo, eu gostaria de viver disso. Sentar aqui nesta mesa, com um paredão verde lá fora, ao lado da lareira, colocar uma música interessante para tocar e escrever.

Não que eu não viva, de certa forma, do que escrevo. É que os estilos relatório, programação, resposta ao usuário etc. pagam as contas, mas apesar de proporcionarem algumas alegrias eventuais, ainda não se equipararam no meu ideário à poesia, à crônica, ao romance e ao conto. Ainda assim, reconheço, é bem melhor do que carregar pedra, além de me proporcionar coisas como estes dias de prazer serrano.

Um brinde a isso também !


Um brinde ao Migão, que faz aniversário num desses dias que escoltam a publicação desta coluna. Um cara para quem eu já teci loas, a para quem eu recusei a coluna de aniversário deste ano, antes que o bravo leitor viesse me qualificar como puxa-saco do editor. Mas que, ainda assim, em época de festas ou não, merece sempre a menção como o sujeito obstinado pela verdade, pela justiça e pelo direito aos livres pensamento e expressão - e que faz deste espaço um tributo a isso.

Você sabe, leitor, eu e Migão não nos conhecemos pessoalmente. Ou já conhecemos, a depender da data de edição. No sábado, dia 5, passarei pela Ilha e lhe darei um forte abraço. E não teremos tempo para muito mais (e explico a seguir). Incrível esta amizade, realmente verdadeira, mas entre pessoas que se sabem bastante diferentes em muitos aspectos, mas fazem questão do convívio cotidiano, ainda que pelas telas dos computadores. Um brinde às amizades que não precisam de muito (nem de nada) para acontecerem e permaneceram, outro ao encontro, ainda que fortuito.

No mesmo sábado, passarei rapidamente pelo Rio (especificamente, pela Ilha do Governador) a caminho de Petrópolis. Meus pais comemoram Bodas de Ouro, almoçaremos em família e faremos realizar uma missa de Graças. Deus e eles sabem como chegaram aos 50 anos de casamento. Tão diferentes entre si, tantas dificuldades a superar. Eu, um filho, sou uma das poucas coisas que eles têm em comum. E, como mistura de características que sou, tenho que ser quase bipolar para atender às influências subjetivas e determinismos genéticos.

Só que tem o seguinte: eu sou filho único e, além da vida levada ao par em si, eu acabo por ser o único resultado palpável e irrefutável desta união de opostos que, afinal, deu tão certo que perdurou por cinquenta anos em que o mundo desinventou a eternidade.

A responsabilidade é imensa: ser estandarte do que esta dupla percorreu com dignidade e correção. Eles têm defeitos¿ (desisto!!! Editor, mantenha as interrogações castelhanas, como forma de protesto). Bem, têm defeitos¿ Têm, claro que sim. Mas foram pais extraordinários, no sentido em que deram norte, deram de si os princípios que me fazem (mais que isso: “obrigam”) a trilhar um caminho bom. E esta é a boa herança, e também o peso nos ombros: eu não posso decepcionar quem me deu o melhor que há para dar a um filho, uma educação baseada em bons valores.

Eu vivo entre o relapso e o neurótico, autoculpado por cada pecadilho ou pecadão, um perfeccionista cheio de equívocos, um chato que lida muito mal com o erro alheio, e bem pior com os próprios defeitos. E agradeço a cada dia por ser quem sou, por terem me feito assim.

Obrigado meus dois heróis, um brinde a vocês também.