Sábado, dia de nossa coluna Sobretudo, assinada pelo publicitário Affonso Romero. Na verdade, hoje a coluna é assinada a quatro mãos, pois a esposa do publicitário, mara da Silva, também assina o texto.
Que é, em minha visão de "editor", continuação do belo texto publicado nesta mesma coluna dia 22 de maio.
Vale a pena a leitura. Bom sábado.
"O SEGUNDO CASAMENTO, SEGUNDO ELA.
Amigo leitor, esta semana eu gastei mais tempo pensando sobre o tema da coluna do que teria gasto para escrevê-la. É que, em clima de Copa do Mundo, eu corria o sério risco de ser redundante como a bola e falar mais e mais sobre futebol.
A primeira questão, portanto, era escolher entre falar sobre o que todos estão falando (mas nem sempre todos querem ouvir, cansados que estão com o tema), ou tentar sair da rotina e ficar parecendo o único lunático sobre a terra que ignora a Copa.
Está certo, na semana passada o tema já foi a Jabulani mas, convenhamos, a bola era só uma desculpa para conversarmos um pouco sobre a vida. Ou, especificamente, uma forma de eu te contar, assim numa aparente despretensão, que estou envaidecido por ter assinado uma coluna dominical em um jornal de grande circulação.
Eu tenho guardada no bolso esquerdo do meu paletó uma listinha de temas sobre os quais eu gostaria de escrever na Sobretudo. É um pequeno lembrete, para que a coluna mantenha o nome e não acabe virando uma Sobre-a-mesma-coisa. Alguns desses temas caducam, de tanto que ficam amarelando no papelzinho. Coisas que eu li na internet, ouvi no rádio ou na tevê, ia comentar e o tempo passa até que percam a pouca relevância que tinham. Ou filmes que eu vi, iria recomendar e, antes disso, saem de cartaz. Ou livros que eu li e já me esqueci dos detalhes antes de resenhar.
Um desses temas que esperam na fila é a cidadezinha de Monte Verde, onde eu passei minha lua-de-mel há menos de um mês. Pensei nisso hoje, ao me sentar para escrever a coluna. Mas as fotos não estão à mão, e eu realmente já preciso delas para não permitir à minha frágil memória deixar passar algum detalhe que eu teria que escrever posteriormente, numa coluna sobre a corrida espacial, por exemplo, e o leitor teria certeza de que eu caduquei de vez.
Mudei o tema novamente para o futebol, com outro enfoque, falando um pouco dos vários erros que eu gostaria de comentar, dentro e fora de campo, da Copa ou da administração esportiva. Mas, antes de chegar à metade, recebi o texto que reproduzo abaixo.
O texto foi escrito pela minha esposa, e me fez retornar aos dias de Monte Verde. Não pedi licença a ela para mostrar para você, leitor. Mas eu fiquei tão tocado pelas palavras dela que talvez ela se convença quando eu disser que foi o meu modo de poupar o tempo de escrever a coluna para ficar mais tempo ao lado dela. Mas, aqui entre nós, não foi só por isso ou por preguiça de escrever que eu resolvi reproduzir o texto dela. É porque eu posso estar sendo acometido de corujice, mas eu sinceramente acho que é ela, e não eu, a escritora da família.
Sendo assim, divido com você as impressões dela sobre se casar de novo, bem como a minha emoção ao ler o que ela escreveu:
“Casar de novo pode ser sua maior vitória.
Amigo leitor, esta semana eu gastei mais tempo pensando sobre o tema da coluna do que teria gasto para escrevê-la. É que, em clima de Copa do Mundo, eu corria o sério risco de ser redundante como a bola e falar mais e mais sobre futebol.
A primeira questão, portanto, era escolher entre falar sobre o que todos estão falando (mas nem sempre todos querem ouvir, cansados que estão com o tema), ou tentar sair da rotina e ficar parecendo o único lunático sobre a terra que ignora a Copa.
Está certo, na semana passada o tema já foi a Jabulani mas, convenhamos, a bola era só uma desculpa para conversarmos um pouco sobre a vida. Ou, especificamente, uma forma de eu te contar, assim numa aparente despretensão, que estou envaidecido por ter assinado uma coluna dominical em um jornal de grande circulação.
Eu tenho guardada no bolso esquerdo do meu paletó uma listinha de temas sobre os quais eu gostaria de escrever na Sobretudo. É um pequeno lembrete, para que a coluna mantenha o nome e não acabe virando uma Sobre-a-mesma-coisa. Alguns desses temas caducam, de tanto que ficam amarelando no papelzinho. Coisas que eu li na internet, ouvi no rádio ou na tevê, ia comentar e o tempo passa até que percam a pouca relevância que tinham. Ou filmes que eu vi, iria recomendar e, antes disso, saem de cartaz. Ou livros que eu li e já me esqueci dos detalhes antes de resenhar.
Um desses temas que esperam na fila é a cidadezinha de Monte Verde, onde eu passei minha lua-de-mel há menos de um mês. Pensei nisso hoje, ao me sentar para escrever a coluna. Mas as fotos não estão à mão, e eu realmente já preciso delas para não permitir à minha frágil memória deixar passar algum detalhe que eu teria que escrever posteriormente, numa coluna sobre a corrida espacial, por exemplo, e o leitor teria certeza de que eu caduquei de vez.
Mudei o tema novamente para o futebol, com outro enfoque, falando um pouco dos vários erros que eu gostaria de comentar, dentro e fora de campo, da Copa ou da administração esportiva. Mas, antes de chegar à metade, recebi o texto que reproduzo abaixo.
O texto foi escrito pela minha esposa, e me fez retornar aos dias de Monte Verde. Não pedi licença a ela para mostrar para você, leitor. Mas eu fiquei tão tocado pelas palavras dela que talvez ela se convença quando eu disser que foi o meu modo de poupar o tempo de escrever a coluna para ficar mais tempo ao lado dela. Mas, aqui entre nós, não foi só por isso ou por preguiça de escrever que eu resolvi reproduzir o texto dela. É porque eu posso estar sendo acometido de corujice, mas eu sinceramente acho que é ela, e não eu, a escritora da família.
Sendo assim, divido com você as impressões dela sobre se casar de novo, bem como a minha emoção ao ler o que ela escreveu:
“Casar de novo pode ser sua maior vitória.
Meu marido corta o pêlo da barba na pia do banheiro: a pia e o chão do banheiro ganham, toda manhã, desenhos abstratos feitos de pequenos pelos vermelhos que insistem em grudar no meu pé (só ando descalça em casa e sempre termino com coisas estranhas entre os dedos). É tão peculiar que merecia ser instalação da Bienal.
Eu tenho mania de limpeza.
Minha cachorra, toda vez que não posso (ou não quero) dar carinho a ela, em ato de protesto, faz xixi pela casa. Daqueles inspirados.
Ele, até pouco tempo, dizia que cachorro só de longe.
Ele tem um filho, que a cada férias, passa uns dias com a gente.
Eu, até ontem, gostava de visitas a cinco quarteirões de distância.
A família dele é pequena, pai, mãe e filho, por isso adora amigos, muita gente e 500 mil amigos no orkut e afins.
A minha é grande, cheia de cunhados, pimpolhos e agregados, por isso eu tenho tendência à solidão, adoro privacidade
Ele ama shows, futebol e lugares cheios.
Eu, televisão, livros e se não for estimulada a sair, viro tatu.
No carro, ouve de John Pizzarelli a João Bosco,uma verdadeira confusão.
Eu ouço Nirvana, o Rappa e afins.
Tínhamos tudo pra dar errado. Mas damos certo.
Tínhamos tudo para nem pensarmos em uma vida em comum, mas ambos trazem algo em si que nos fez rir das (aparentemente) problemáticas diferenças e construir uma deliciosa vida juntos: estamos no segundo casamento, ops, no caso dele no terceiro.
A vitória da esperança sobre a experiência? Pode até ser, mas prefiro acreditar que se trata mais de ter aprendido, com o dia-a-dia, que se ater a detalhes dissonantes é um atalho bom à beça pro precipício. Viver com alguém é muito mais do que compartilhar experiências passadas comuns: é ter o desejo quase incontrolável de ter experiências futuras comuns. Não é pensar ter encontrado quem louve tudo o que amamos e odeie tudo o que desprezamos - isso é narcisismo, não casamento. Estar casado é respeitar os maus humores, deixar passar comentários sabidamente imbecis ou atitudes impensadas. É gostar de acordar ao lado (eu que odiava viver grudada), respeitar o desejo de solitude ocasional (e não tomar isso como uma confissão de repulsa). Estar casado é saber a hora de prestar atenção e o momento de se fingir de morto.
O segundo casamento é mais leve, apesar de ambos terem mais carga.
Traz os medos de repetir os erros do primeiro, mas também a vontade de não cometê-los. Aumenta a maleabilidade e diminui a petulância. Dá a dimensão exata do que é compartilhar a vida com alguém - e também a de que a mesma não acaba se essa pessoa for embora. (espero que não!!! rs)
O segundo casamento ri de si mesmo porque sabe que é bem melhor do que chorar ou xingar.
Ele carrega o know-how do primeiro e preserva a inocência do pra sempre.
Jamais me casei pensando em me separar. Não somos obrigados a acertar de primeira, e não é nenhum demérito tentar de novo. Não é nenhum pecado ser feliz, mesmo se a pessoa que viveu conosco ainda acreditar piamente nisso.
O segundo casamento me deu a lição que me fez uma mulher menos encanada e briguenta (com exceção à TPM) e muito mais zen: se ele solta pêlo, bem que eu posso calçar os chinelos.
Ser feliz, no final das contas, não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva."
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