Neste sábado, mais uma edição da coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a "Buraco da Fechadura".
Máscara Negra
Máscara Negra é o nome de uma antiga marchinha de carnaval
de Zé Kéti e Pereira Matos. Ela expressa todo o sentimento de um arlequim que
se apaixona pela colombina em uma noite de carnaval.
“Quanto riso! Oh! quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão.
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão”.
Esses são versos da canção de carnaval. Marcelo não era um
arlequim. Gracinha não era uma colombina, mas o amor deles explodiu na folia de
Momo.
Marcelo era um garotão do interior de Bauru, interior de São
Paulo que veio estudar Medicina no Rio de Janeiro e se apaixonou pela cidade.
Mal voltava à terra natal nas férias e planejava fixar residência na Cidade Maravilhosa.
O carnaval se aproximava: seria o primeiro de Marcelo na
cidade e os pais mandaram dinheiro para que ele pegasse um ônibus e passasse a
data em Bauru. Marcelo
chegou a arrumar suas coisas e se encaminhar para a rodoviária, mas na hora de
entrar no ônibus ouviu ao fundo um bloco passando e anunciando o carnaval.
Pensou duas vezes, pediu desculpas ao motorista e foi
embora. Mais tarde ligou para os pais dizendo que passaria o carnaval no Rio e
que na quarta-feira de cinzas devolveria a eles o dinheiro da passagem.
Comunicou ao amigo Beto que passaria o carnaval no Rio de
Janeiro e perguntou qual seria o roteiro. O amigo mandou que ele se preparasse
porque cairiam na gandaia.
Marcelo naquela sexta-feira assistiu o desfile das escolas
de samba de São Paulo na tv comendo pipoca, bebendo cerveja e dormiu quase de
manhã. Dormiu uns quinze minutos apenas e socaram a porta. Foi atender e era
Beto com bermuda, camiseta branca de bolinhas pretas, óculos escuros e chapéu –
em uma animação de dar inveja.
Marcelo tentou argumentar que estava cansado, mas Beto
sentou no sofá e deu dez minutos para que o amigo se arrumasse e fosse com ele
ao Cordão da Bola Preta.
O Cordão da Bola Preta é o mais antigo bloco de carnaval do
Rio de Janeiro, fundado em 1918. Em 2011, segundo dados da PM, tornou-se o
maior bloco carnavalesco do mundo ao arrastar cerca 2,3 milhões de pessoas pelas
ruas do centro da cidade. Superando assim o não menos famoso Galo da Madrugada,
que desfila na cidade de Recife.
O Bola Preta sai tradicionalmente todo sábado de carnaval na
Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. O desfile começa por volta das
9 da manhã e vai até as duas da tarde. O Bloco também sai na sexta-feira
imediatamente anterior à abertura do carnaval, no mesmo local.
Suas cores são o branco e o preto, e o uniforme oficial é
qualquer roupa branca com bolinhas pretas. Muita gente vai fantasiada e até
monta alas.
O Bloco possui uma marchinha muito conhecida, a Marcha do
Cordão da Bola Preta, composta por Vicente Paiva, conhecido músico brasileiro,
que faleceu em 1964. É considerado o hino da agremiação e mundialmente
conhecido. Os desfiles do bloco são abertos com esta marchinha e encerrados com
a não menos famosa música Cidade Maravilhosa.
Marcelo se deslumbrou com aquele ambiente cheio de pessoas
bonitas e felizes. Beto foi logo dando tequila ao amigo, que depois de três
doses já se encontrava bem “alegre”.
Naquele momento, sambando e pulando a alegria de estar no
carnaval do Rio de Janeiro que ele notou a morena vestida de chapeuzinho
vermelho.
Com a coragem de quem já enchera a cara Marcelo chegou perto
da menina e perguntou quantos caras já haviam chegado nela dizendo que queriam
ser o lobo mau. Ela respondeu que uns doze. Marcelo sorriu e disse “que bom”,
porque detestava ser original. A menina sorriu e se apresentou como Gracinha.
Marcelo emendou que muitos também já deveriam ter dito que
ela fazia jus ao nome. Gracinha sorriu de novo e disse que gostara dele. A
coisa estava boa para Marcelo.
Ficaram conversando, pulando e se divertindo juntos. Nem
sabia mais aonde estava Beto e nem queria saber, só curtir aquela “gracinha”
que conhecera.
Jogavam confete e serpentina um no outro, spray com espuma e
Gracinha tentou ensinar Marcelo a sambar, até que tocou “máscara negra”. Foi o
momento que Marcelo tomou coragem e beijou Gracinha.
De lá foram para a Banda de Ipanema, outro grande point do
carnaval carioca e depois assistiram o pôr do Sol no Arpoador.
Marcelo tentava descobrir mais sobre a menina, mal conhecera
e estava completamente apaixonado. Gracinha desconversava e respondia para que
eles curtissem o carnaval e só pensassem nisso quando ele acabasse. Ele aceitou
o argumento e a moça perguntou se ele já desfilara em alguma escola de samba.
Marcelo respondeu que não. Gracinha pegou o celular e ligou
para um amigo diretor da União da Ilha perguntando se tinha como arrumar
fantasia para o desfile. Ela desligou e pegou a mão de Marcelo mandando que lhe
acompanhasse. Ele perguntou para onde e ela respondeu: “Cidade do Samba”.
Chegando lá, Marcelo ficou deslumbrado com aqueles barracões
todos que fabricavam sonhos e com as manobras cuidadosas e tensas dos carros em
direção a Marquês de Sapucaí, local dos desfiles.
Gracinha apresentou Marcelo ao diretor, que lhes apresentou
a uma chefe de ala que contou que tinha duas fantasias sobrando. Mostrou a eles,
que gostaram e pegaram as fantasias para desfilar no dia seguinte.
Marcelo que nunca passara carnaval fora da Bauru agora
estava no domingo de carnaval numa concentração de escola de samba na Sapucaí
para desfilar na União da Ilha. Desfilou ao lado de sua amada em oitenta
minutos que nunca mais sairiam de sua mente.
No dia seguinte se encontraram em blocos e na terça também.
O carnaval chegava ao fim e Marcelo se preocupava com o futuro deles. Gracinha
mandou que não se preocupasse e pediu o número do celular do rapaz, que o
passou.
Marcelo também pediu o dela, mas Gracinha respondeu que
estava sem telefone. Mas que ligaria para ele.
Marcelo perguntou quando veria a amada de novo e Gracinha
lembrou que o Monobloco saía pelas ruas do centro da cidade no domingo e pediu
que ele fosse para lá, que ligaria e eles se encontrariam.
Marcelo aceitou e Gracinha lhe deu um beijo apaixonado
partindo e deixando seu amado com uma dor no peito e sensação de perda.
Sensação que se confirmou domingo, quando Marcelo foi com
Beto no Monobloco e enquanto Beto se divertia o rapaz não parava de olhar o
celular esperando que Gracinha ligasse. A moça não apareceu, nem ligou.
Também não ligou na semana seguinte, nem na outra, nem na
outra..não ligou nenhuma vez.
Marcelo se deprimiu. Não conseguia mais comer, dormir.
Passava o tempo todo olhando o celular na esperança de receber uma ligação de
Gracinha. Faltava às aulas e quando ia se encontrava disperso,vagava pela
cidade em busca de Gracinha e até na Cidade do Samba foi para ver se alguém
sabia dela, mas o barracão da Ilha estava fechado.
Os amigos começavam a se preocupar, principalmente Beto que
era seu melhor amigo. Um dia Beto foi até a casa de Marcelo insistir para que o
amigo saísse com ele, Marcelo relutou, não queria sair de casa, mas Beto
insistiu tanto que não teve outro jeito. Perguntou aonde iriam e Beto respondeu
que comprar presente de aniversário de um primo seu.
Marcelo não entendeu quando Beto o conduziu para dentro de
um sex shop. Beto respondeu que compraria um presente de gozação para o primo.
Enquanto Beto escolhia um consolo para o primo Marcelo olhava a tudo na loja e
achava bizarro. Viu umas bonecas infláveis e perguntou a Beto se alguém
conseguia ter tesão naquilo.
Até que se assustou na frente de uma. Marcelo olhou
fixamente a uma das bonecas infláveis e se espantou dizendo baixinho “Gracinha...”
A boneca era a cara de Gracinha.
Marcelo se perturbou com a boneca e a incrível semelhança
com Gracinha. Beto perguntou se estava tudo bem e Marcelo respondeu que sim.
Beto olhou a boneca e rindo disse “é muito feia”, chamando o amigo para ir
embora.
Marcelo foi para casa e mais uma vez não conseguiu dormir,
mas agora o motivo era diferente. Ele não conseguia esquecer a boneca e a incrível
semelhança com seu amor. Quando conseguia cochilar sonhava com Gracinha e com a
boneca.
Logo cedo na manhã seguinte Marcelo voltou ao prédio que
ficava o sex shop e da vitrine ficou olhando a boneca. A atendente perguntou se
ele queria alguma coisa e Marcelo respondeu que não.
Fez isso várias vezes durante dias até que tomou coragem de
entrar na loja. Chegou perto da boneca se impressionando cada vez mais com a
semelhança e quando atendente chegou perto pegou um dvd pornô e disse que iria
levar.
A fixação de Marcelo com a boneca aumentava cada vez mais.
Durante meses voltava quase todos os dias a loja para olhar a boneca e arrumava
alguma coisa para comprar. Comprou algemas, cremes, joguinhos eróticos, óleos,
dvds, tudo desculpa para ficar próximo a boneca.
Um dia se assustou ao chegar e ver um homem manuseando a
boneca e lhe pegando para comprar. O homem levou ao balcão, perguntou quanto
era, a atendente respondeu e ele disse que iria levar.
Marcelo gritou “espera” e ofereceu o triplo de dinheiro pela
boneca. O homem se assustou e Marcelo pediu desculpas contando que era coisa
pessoal.
Levou em um caixote, sentou na sala e encheu a boneca.
Colocou em uma cadeira e ficou horas olhando para ela.
Em determinado momento levantou, pegou a boneca e começou a
beijar, acariciar como se quisesse fazer sexo e abaixou a calça.
Naquele
momento Marcelo caiu em si e gritou. Foi até a cozinha, pegou uma faca e rasgou a boneca pelo
braço esquerdo. Ela esvaziou de forma acelerada. Marcelo pegou o resto da
boneca, levou até o Arpoador e jogou nas águas.
O carnaval chegou. Muito rapidamente passou um ano do
carnaval em que Marcelo
conheceu Gracinha e o rapaz foi até o Bola Preta com Beto na esperança de
encontrar Gracinha. Nada. Foi até a Banda de Ipanema e nada também.
Desolado, foi sozinho até o Arpoador e ficou sentado nas
pedras lembrando Gracinha e finalmente chegando à conclusão que nunca mais
veria a moça.
Até que, olhando o mar, notou uma pessoa nadando nele em
direção às pedras. Achou estranha aquela cena e a pessoa chegando mais próxima
notou que era uma mulher.
A mulher saiu das águas e escalou as pedras até o local que
ele estava. Ela chegando próxima e Marcelo tomou um susto: era Gracinha!!
A moça sorriu para ele. Marcelo reparou que Gracinha tinha
uma enorme cicatriz no braço esquerdo. Lembrou-se da boneca e gaguejou, não
conseguia falar nada. Gracinha colocou o dedo na boca do rapaz como para que
ele não falasse nada e disse “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é
carnaval” dando um beijo apaixonado em Marcelo.
Amor não tem que ser entendido: tem que ser vivido em sua
plenitude. Quanto riso, quanta alegria...

Lindo texto!! A minha história de amor aconteceu em um dos camarotes Rio de Janeiro durante o carnaval...
ResponderExcluirEstamos casados há dois anos!!
Bjsss