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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Brasil que o Brasil não conhece


Os geólogos que trabalham aqui comigo, volta e meia, fazem cursos de campo, que é uma forma de estudar possíveis rochas petrolíferas que se encontram inacessíveis, muitas vezes, no fundo do mar.

Semana passada o Gérson e a Caroline, que trabalham comigo aqui, estiveram em um destes cursos na Chapada Diamantina, na Bahia.

O local é muito pobre. A agricultura é limitadíssima por causa do clima seco e praticamente sem chuvas. A pobreza é muito grande.

Na localidade de Ipanema, distrito do município de João Dourado, os geólogos que foram ao curso fizeram um trabalho social de distribuir material escolar; este comprado com recursos próprios, a propósito.

Impressiona a quantidade de crianças que tiveram seu desenvolvimento travado ou prejudicado unica e exclusivamente por causa da fome. Como a foto ao lado mostra, garotos de dez anos com corpo e desenvolvimento de sete.

Entretanto, o relato que eles me fizeram é que a situação já foi pior. Para cidades como Ipanema, o advento de programas como o Bolsa Família possibilitou uma mudança grande na situação.

Esta ainda é de miséria, todavia certamente o quadro econômico, social e especialmente alimentar daquela população seria muito mais dramático caso não houvesse.

Outrossim, este tipo de programa, vinculado à matrícula escolar, permitirá que mais filhos possam romper os laços de dependência eterna com a pobreza.

Também permite o desenvolvimento de um pequeno comércio nas localidades, girando a economia local e permitindo geração de emprego.

Eu só acho engraçado este pessoal que nunca levanta os glúteos de suas cadeiras confortavelmente instaladas em salas refrigeradas vociferar contra este tipo de programa. Chega a ser falta de solidariedade e de compaixão.

Deveriam ir a Ipanema. Não a praia famosa, mas ao sertão baiano.

Por exemplo, vejam a foto abaixo, que fecha este post. Os biscoitos que as crianças estão comendo na foto são o lanche dos geólogos, cedido a elas.

Decididamente, o Brasil não conhece o Brasil. Se você achar Ipanema (a cidade) longe, vá a Gramacho, aqui em Duque de Caxias.

(Fotos: Gérson Terra)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Histórias de Geólogo

(por Flávio Feijó, um dos decanos da Geologia na Petrobras)

Parte I

"Os cursos de campo conduzidos pela Universidade Corporativa costumam mesclar treinamento de alto nível com diversão das melhores, em uma saudável mescla de ciência e lazer. A edição 1995 do Curso de Campo na Bacia do Paraná não fugiu à regra, com episódios da melhor qualidade. Um grande reforço no nível cômico veio da presença de três 'bandidos' da maior periculosidade: Roberto Costa, de Belém, Jairo Brandão, conhecido como Bagé, e Luiz Eduardo M. Alves, o popular Bocão.

A excursão estava sediada na agradável cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina. O bar da moda era o ótimo mas já falecido Via Ferro, ocupando uma antiga estação ferroviária. A freqüência ao lugar reunia a fina flor da sociedade riosulense, com um detalhe: as moças mais bonitas estavam todas acompanhadas. Mesmo assim, a turma se instalou super-animada, em mesas separadas para não se atrapalharem mutuamente. Depois de algumas horas de prospecção frustrada, os bandidos voltaram-se contra as próprias colegas. E enviaram a uma delas este torpedo:

“Loirinha dos cabelos cacheados: soy Diego de Buenos Aires e queria conocerla.”

A reação da pobre vítima foi emblemática. Ao receber o papelzinho do garçon, escondeu-o sem olhar. Um minuto depois, disfarçou e espiou incrédula o teor do bilhetinho. Mais um minuto e olhou de novo o torpedo, desta vez esperançosa. E passou a prescrutar lentamente a numerosa fauna masculina do bar, na expectativa de identificar o guapo portenho que a ela se dirigia. Em vão, é claro. Levou um bom tempo até a ficha cair e a coitada perceber o que se passava, enquanto os 'bandidos' faziam o possível para disfarçar e conter o riso."

Parte II

"Os já mencionados Roberto, Bocão e Bagé dominavam o festival de gozações no Via Ferro, em Rio do Sul, naquele agosto de 1995. Dando provas de sua brilhante criatividade para o mal, não pouparam nem um dos próprios colegas, que recebeu este torpedo:

“Sou morena, cabelos lisos e caibo direitinho no seu ombro. Quer experimentar?.”

O coitado do destinatário teve a reação normal de sempre. Diante do papelzinho entregue pelo garçon, escondeu-o sem olhar. Momentos depois, disfarçou e espiou incrédulo o que estava escrito. Mais um minuto e olhou de novo o torpedo, levantou-se e foi ao banheiro. Voltou lentamente em ziguezague, percorrendo todos os espaços do Via Ferro e olhando atento para todas as meninas, na busca infrutífera da moreninha de cabelos lisos."